quinta-feira, 10 de maio de 2018

IMPRENSA FRAUDULENTA: Thomas Payne, a fraude na merenda e mais uma responsabilidade mocozada

10.05.2018
Do blog JORNAL GGN

Thomas Payne, a fraude na merenda e mais uma responsabilidade mocozada
Thomas Payne é linguista, e dá aulas na universidade do Oregon. Ele mudou minha vida, e da maneira mais inocente possível.
por Madrasta do Texto Ruim
No livro Describing Morphosyntax, ao analisar atores e relações gramaticais (“Bora botar ordem na bagaça! Quem é sujeito, fazfavô de ir pra fila da esquerda; verbos aqui na frente; complementos fazendo fila aqui à direita, e acessórios vão pra trás! Não, aposto, você não é sujeito, vai pra fila de trás. Sim, o vocativo te acompanha, vocês ficam com todos os adjuntos!”, só que explicado de forma mais sofisticada e acadêmica), ele analisa que, pra ocupar o cargo de sujeito, um ator gramatical deve ter um determinado perfil semântico, que vai ser diferente do perfil semântico do cabra que é objeto.
Com essa organização em mente, Payne elaborou uma escala de agentividade. Nessa escala, quanto mais humano, animado e com vontade própria, mais esse ator gramatical vai ter propensão a ocupar a vaga de sujeito/agente. Continuando com esse raciocínio, se o ator gramatical for não humano, inanimado, ideia ou coisa, sem vontade própria, maior será sua propensão a ser objeto/paciente. E, por ser uma escala, animais ficam no meio do caminho, por não serem humanos mas serem animados e com alguma vontade própria.
O parágrafo daí de cima é apenas a sistematização de, por exemplo, “vovó comeu banana” (eu adoro esse exemplo). A vovó é o humano animado com vontade própria. Por isso, só ela consegue acionar o verbo comer. Banana é inanimado, é coisa, não aciona verbo nenhum – pelo contrário, ela só se ferra na qualidade de objeto direto. Começou a frase inteirinha na fruteira e terminou a frase na barriga da vovó.
Mas como eu disse lá em cima, Payne mudou minha vida. Porque quando eu leio uma manchete como a do G1 [print abaixo], eu só consigo me perguntar quem a fraude da merenda pensa que é na escala de Payne para ser capaz de acionar o verbo movimentar? Empoderada ela, hein?
Ou isso ou essa fraude da merenda tá mocozando a responsabilidade de um ator gramatical (e político) humano, animadíssimo e cheio de vontade própria. O mesmo ator gramatical que, no papel de ator político, tá sempre de boas com a justiça.
Outra coisa que me faz pensar à beça: por que não “quadrilha da merenda”, ou “fraudadores da merenda”, pra dar alguma carga humana a esse sujeito? Por que um sujeito tão impessoal insípido e inodoro? O jornalismo traz algumas respostas: “Fraude da merenda”, além de ser o tema da reportagem, é algo que chama atenção, dirão os editores. Concordo. Mas “fraudadores da merenda” também chama a atenção pra notícia. E, ora vejam vocês, a notícia também fala de fraudadores da merenda, né? Por que (pra quê?) esconder as pessoas por trás da quadrilha?
E agora eu me calo, porque eu só vim aqui pra falar de gramática.
(texto inspirado por um post do professor Carlos Emilio Faraco)
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Fonte:https://jornalggn.com.br/noticia/thomas-payne-a-fraude-na-merenda-e-mais-uma-responsabilidade-mocozada-por-madrasta-do-texto-ruim
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