sábado, 8 de julho de 2017

Antiga casa grande, Hotel Fazenda em Campinas romantiza a escravidão

08.07.2017
Do portal da Revista Brasil de Fato
Por Júlia Dolce

Cidade foi a última do país a extinguir a escravatura e era considerada uma das mais violentas para pessoas escravizadas

Placa com frase atribuída a mulher escravizada marca a entrada do hotel em Campinas / Reprodução/Hotel Fazenda Solar das
 Andorinhas
"Este chão é abençoado, serão felizes todos os que aqui pisarem, porque o meu sinhô era bom" é uma frase pintada em uma placa que recepciona os hóspedes do Hotel Fazenda Solar das Andorinhas, em Campinas, interior de São Paulo. Atribuída a uma mulher escravizada, identificada apenas como Clemilda e que supostamente alcançou a extraordinária longevidade de 120 anos, a frase é uma das marcas que romantizam e normalizam o período escravocrata na hospedaria.
O local é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) por abrigar a antiga Fazenda Duas Pontes, propriedade do Barão de Itatiba, que chegou a escravizar 70 pessoas. O ambiente - ainda dividido entre casa grande (onde pode-se dormir inclusive no "Quarto do Barão"), ruínas das senzalas, e  "Cozinha dos scravos", onde são realizados chás noturnos, jantares e outras atividades - chega a incomodar alguns hóspedes.
Para Fran*, que ficou hospedada no hotel para um Congresso do qual participou, a forma como a história é preservada pelo local pode ser caracterizada como apologia à escravidão. "Eu nunca tinha estado em um local do tipo. Mexeu muito comigo, foi um misto de angústia, de ficar imaginando como seria minha vida em um local como esse há tempos atrás. Fiquei me perguntando se só eu sentia esse desconforto, porque me parece que não há uma intenção de fazer uma crítica ao processo histórico deste local", opinou.
Engenheira agrônoma, Fran possui ascendência quilombola, e conta que chegou até mesmo a ser "confundida" com funcionários do Hotel no primeiro dia de sua estadia. "Eu estava perto da recepção e um hóspede chegou perguntando informações do Hotel. Não é a primeira vez que isso aconteceu, mas é uma reafirmação da desigualdade racial no Brasil e de como as pessoas aqui revivem o passado. Há poucas pessoas negras como hóspedes", afirmou.
No site do Hotel, uma série de textos destacam que o ambiente é relaxante e perfeito para férias em família. Um texto escrito por uma jornalista e publicado no Site destaca que o ambiente, principalmente a "Cozinha dos Escravos", é "mágico". Para Fran, entretanto, foi impossível "relaxar" durante a estadia no Hotel. "Tudo aqui remota a um processo muito violento. Para mim é muito mais melancólico do que um espaço de paz. É uma mercantilização do sofrimento histórico do povo preto", denunciou.
Uma funcionária entrevistada pela reportagem, trabalhadora do hotel há mais de 15 anos, revela que o desconforto é comum entre os hóspedes. Enquanto lavava a louça na "Cozinha dos Escravos", ela contou que desde pequena morava na região, e que tinha muito medo da "Fazenda Mal Assombrada", que ficou fechada por 20 anos entre os anos 1950 e 1970, quando foi leiloada para os atuais donos do hotel.
"Era um mato só aqui dentro, meu pai falava que era mal assombrado. As pessoas enxergam os escravos. Tinha um hóspede que sentava aqui na cozinha e dizia que via vários trabalhando. Eu sou espírita, então percebo algumas coisas, e eles sofreram demais, né? As crianças têm medo, às vezes chegam até a porta desta cozinha e choram, falam que não vão entrar", contou.
Procurada pela reportagem presencialmente, por telefone e por e-mail, a gerência e a diretoria do Hotel Fazenda Solar das Andorinhas não quis se pronunciar sobre a história e ambientação do hotel.
Fazenda Santa Eufrásia
Não é raro o turismo que aproveita antigas fazendas e casas grandes para ressaltar como positivo esse período da história brasileira. Em uma breve busca na internet é possível localizar uma séries de hotéis fazendas que se colocam como uma potencial "volta ao passado", elogiam barões e fazem poucas menções às pessoas escravizadas, ressaltando, quando muito, que após a abolição da escravatura elas "escolheram permanecer no local".
Um caso emblemático ficou famoso após ser mencionado em uma matéria do site The Intercept, em dezembro de 2015. A Fazenda Santa Eufrásia, localizada em Vassouras (RJ) e parte do mapa da cultura do estado, realizava encenações romantizando o período da escravidão. Em um vídeo produzido pelo veículo jornalístico, as encenações da herdeira e proprietária da fazenda, Elizabeth Dolson, indignaram os leitores. “Racismo? Por causa de quê? Por que eu me visto de sinhá e tenho mucamas que se vestem de mucamas?", questionou Dolson.
O caso levou o Ministério Público Federal de Volta Redonda e a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro a entrarem com um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) contra a fazenda, celebrada no dia 6 de maio deste ano, com o objetivo de assegurar o fim das encenações sobre escravidão e estabelecer medidas reparatórias.
Segundo o Procurador da República responsável pela TAC, Julio José Araujo Junior, a opção pela ferramenta jurídica foi justificada por uma tentativa de evitar conflitos judiciais,  já que a prática de "naturalização da inferiorização dos negros na recepção a turistas" é muito comum na região serrana do Rio de Janeiro. "Minha ideia nunca foi buscar um embate de criminalização, mas aproveitar a discussão para fazer uma mudança. A situação da Santa Eufrásia era extrema, mas estamos entrando com recomendações em outras fazendas dos tipos. Aos poucos, vamos plantando sementes", afirmou.
O TAC traz uma série de sugestões que estão sendo implementadas pela fazenda, desde a instalação de placas contando a história da escravidão como crime contra a humanidade, até a abertura mensal do espaço para realização de atividades culturais das comunidades quilombolas da região. "Toda vez que ela realizar uma visita vai ter que mostrar um vídeo contando essa história, um texto. No começo a dona da fazenda não entendia bem. A idealização do barão em Vassouras é algo impressionante, mesmo que a reportagem tenha gerado indignação no Brasil inteiro, na cidade as pessoas não entendiam o motivo", contou. 
Ressignificação
O TAC, construído em conjunto com comunidades quilombolas e organizações do movimento negro, teve o objetivo de construir um novo modelo do turismo de memória no Rio de Janeiro. Na opinião de Fran, a preservação da memória no Hotel em Campinas também poderia ser feita de outra forma. "As pessoas têm que apresentar como de fato foi, não maquiar um processo. Isso reforça na cabeça das pessoas o quanto é natural permanecer com um espaço desses. Até que ponto isso não influencia a percepção das crianças que crescem vindo em um ambiente como esses?", pergunta.
Em contrapartida, uma outra fazenda de Campinas, também mantida por trabalho escravo durante o século XIX, realiza desde 2007 uma simbólica ressignificação do espaço. A Casa de Cultura - Fazenda Roseira, hoje é ocupada pela Comunidade Jongo Dito Ribeiro, Patrimônio Cultural Imaterial, que realiza uma série de atividades culturais e educativas. A Fazenda se tornou um equipamento público comunitário da Prefeitura Municipal de Campinas, que em 2015 formalizou a permissão do uso do espaço pela comunidade.
Para a historiadora, urbanista, e coordenadora da Casa de Cultura, Alessandra Ribeiro, a importância do espaço está justamente na valorização da cultura afro-brasileira. "Nossa missão não é apagar uma memória dos escravizados, mas sim reconhecer que foram inclusive os nossos ancestrais, que foram roubados e escravizados, que construíram essa Casa Grande, com técnicas e tecnologia africana. Queremos valorizar esses saberes para além da escravidão. Sentimos que o Brasil, em seu racismo assoberbado, ainda desconhece muito as contribuições africanas", apontou.
A historiadora crítica a existência de fazenda e hotéis fazenda que ainda fazem apologia à escravidão. "Acho lamentável que ainda não tenham conseguido se descolonizar para fazer daquele repertório arquitetônico uma possibilidade de transformação social. Que ainda fazem uma apologia sem debaterem o débito da atrocidade que fizeram com seres humanos".
Cidade Castigo
Campinas é conhecida por historiadores e pesquisadores como a última cidade do país a abolir a escravidão. Já o Brasil, como se é conhecido, foi o último país do mundo a abolir a prática, em 13 de maio de 1988. Além disso, há registros de relatos que apontavam a cidade paulista como uma das mais violentas para negros escravizados na época. Nesse contexto, Ribeiro questiona os dizeres que enaltecem o Barão de Itatiba na placa no Hotel Solar das Andorinhas. "O conceito de senhor bom no século 19 é um barão que não matava. Bom e ruim era algo muito complexo", afirmou.
"Há registros e relatos da prática de escravidão em Campinas até 1920. Alguns relatos mostram que quando os escravizados 'aprontavam' na região paulista, eles eram vendidos para os senhores de Campinas, de tão violentos que eram. Uma das práticas de castigo era o corte dos tendões dos negros escravizados, porque isso impossibilitava a fuga mas não o trabalho. Então era uma cidade com tal grau de atrocidade que ainda temos muitas marcas deste passado, é uma cidade essencialmente racista", completou a coordenadora da Casa de Cultura.
Diante dos rumores que cercam a história de Campinas, a Comissão de Igualdade Racial da Ordem dos Advogados Brasileiros da cidade (OAB), fundou sua Comissão da Verdade sobre crimes da escravidão com o objetivo de também entender o papel que a região e seus barões cumpriam na época. Na OAB há uma Comissão da Verdade Nacional da Escravidão Negra, comissões seccionais em 18 estados, além de 234 Comissões municipais.
Segundo o advogado Ademir José da Silva, que presidiu a Comissão após sua criação, em 2015, o Hotel Fazenda Solar das Andorinhas está no roteiro de pesquisa e investigação. "Temos em Campinas muitos rastros da escravidão. É difícil admitir um juízo de valor sem maiores conhecimentos, mas entendo que não tivemos escravização pacífica. Nosso entendimento é que o processo de escravidão foi um crime de lesa humanidade, portanto quem participou desse processo cometeu um crime", afirmou.
Diante de relatos pesquisados, o advogado também duvida da versão romantizada contada pelo Solar das Andorinhas. "Pode até ter havido um 'senhor' menos ruim, mas pelo que sabemos, os possuidores de escravizados que procuravam tratá-los de uma forma um pouco melhor recebiam repressão dos outros, porque desvirtuavam e desequilibram um processo, podendo dar prejuízo financeiro para os outros. Concordo com Luís Gama quando escreveu que, na sua opinião, se um escravo cometesse o assassinato do senhor ele o fazia por legítima defesa", disse.
Racismo Hoje
Para Alessandra Ribeiro, entretanto, o racismo de hoje é tão latente que a discussão sobre os espaços de apologia à escravidão ainda não é prioridade do movimento negro. "Infelizmente o impacto que isso causa, considerando o conjunto de violações que sofremos, ainda é insignificante", revelou.
Segundo Ademir José da Silva, as políticas afirmativas para os negros do Brasil ainda sofrem uma grande burla da sociedade. "Aqui na região tivemos a primeira lei de cotas em concursos públicos, em 2012, e diversas pessoas que não são afrodescendentes passaram. O extermínio da juventude preta, em especial do jovem negro masculino, é a maior perpetuação do crime da escravidão e a maior prova do processo vigente hoje", afirmou.
O advogado ressaltou o caso do professor Paulo Palma, da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Campinas, que no dia 2 de junho deste ano publicou na página do reitor da Universidade, Marcelo Knobel, que a recém aprovada lei de cotas raciais prejudicaria a instituição.
"Let's Make Unicamp Great Again, em vez de corrigir o problema dão cotas para quem não tem condição de acompanhar. Não digo em cursos como dança, digo cursos que exigem um pouco mais de Q.I. Quando permite cota a Unicamp está trocando cérebro por nádega, por cor de pele", comentou Palma. "Acho que isso responde o quanto Campinas ainda é racista", concluiu Silva.
Edição: Rafael Tatemoto
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Fonte:https://www.brasildefato.com.br/2017/07/07/antiga-casa-grande-hotel-fazenda-em-campinas-romantiza-a-escravidao/

Lava Jato: Desmonte para proteção

08.07.2017
Do blog Marcelo Auler Repórter
Por Marcelo Auler

O diretor-gerasl do DPF, Leandro Daiello, acabou ganhando o manto protetor costurado pela Força Tarefa da Lava Jato - Foto: reprodução

Só os mais ingênuos é que estranharam o anúncio feito pelo Departamento de Polícia Federal (DPF) do desmonte do que restou da Força tarefa da Lava Jato na Superintendência Regional do DPF no Paraná (SR/DPF/PR). O desmonte, por um governo golpista repleto de investigados não só da Lava Jato, mas de outras operações policiais, era mais do que esperado. Lembremos que todos os que defenderam e lutaram pelo golpe que derrubou a presidente legitimamente eleita, Dilma Rousseff, entre outras causas para retirá-la alegavam que ela faria isso. Em 30 de maio de 2016, quando Eugenio Aragão assumiu o ministério da Justiça, na postagem Fantástico: Michel Temer coloca a raposa para cuidar do galinheiro, chegamos a republicar um trecho do artigo de Miriam Leitão com este tipo de acusação, oportunidade que a rebatemos:
Minha colega e ex-chefe, Miriam Leitão, por exemplo, escreveu a coluna “O homem amigo“, em O Globo, acusando o então novo ministro de “buscar um pretexto para intervir na equipe da Lava-Jato. Mesmo sem ter tido sequer cheiro de vazamento, ele continuou. Circulam rumores de que ele tem uma lista das cabeças que cortará. O “Valor” ontem falou de duas dessas cabeças: Rosalvo Ferreira, superintendente da Polícia Federal no Paraná, e Igor Romário de Paula, diretor de combate ao crime organizado no Paraná. Além, claro, do diretor-geral da Polícia Federal, Leandro Daiello”.
O que as pessoas não percebem, mas é comentário solto no DPF em Brasília, é que o desmonte da Força Tarefa tem outros objetivos além de arrefecer as investigações no momento em que elas resvalam e tendem a descambar em “não Petistas”, o alvo maior da chamada República de Curitiba. Em sua coluna neste sábado (07/07) na Folha de S. Paulo, André Singer toca nesse ponto:
Erika Mialik Marena e Márcio Anselmo Adriano: os primeiros "desmontes";
Erika Mialik Marena e Márcio Anselmo Adriano: os primeiros “desmontes”;
E o que desejam os parlamentares, entre eles o próprio Maia, um investigado? Que a Lava Jato pare. Desde esse ponto de vista, não poderia ser mais conveniente a informação, também em todos os jornais, de que a Polícia Federal encerrou as atividades do grupo dedicado à operação em Curitiba. Convém lembrar, igualmente, que diversos processos foram tirados do juiz Sergio Moro nas últimas semanas.
Em outras palavras, pela primeira vez há sinais de arrefecimento do núcleo paranaense que lidera as investigações desde 2014, o que deve soar como música aos ouvidos dos congressistas”.
Leandro Daiello, o diretor-geral cujo futuro é desconhecido, ao desmantelar o grupo, na verdade tem um segundo – principal??? – objetivo: protegê-lo e proteger a si mesmo. Quer dificultar ao máximo que alguém – a nova Procuradora-geral da República, Raquel Dodge, por exemplo, que seria adepta de o MPF exercer mais fortemente o controle externo das atividades policiais  – caia na tentação de apurar as muitas irregularidades cometidas em nome do combate à corrupção.
Tais ilegalidades, na verdade, aconteceram com o objetivo maior de caça aos petistas, com a tentativa de acobertamento dos erros e crimes de tucanos, peemedebistas e de políticos de outros partidos, como o possível presidente interino, Rodrigo Maia (DEM-RJ).
Tanto o desmonte, como a não apuração – para evitar punição e, quem sabe, questionamentos e anulações em tribunais superiores de muito do que se fez – já ocorrem há algum tempo. A equipe da Força Tarefa começou a ser desfeita com a transferência de duas cabeças do grupo dentro da SR/DPF/PR: a delegada Érika Mialik, que em dezembro foi “promovida” e transferida para Santa Catarina; e Marcio Adriano Ancelmo, em fevereiro empossado como Corregedor do DPF do Espírito Santo, apesar das muitas suspeitas de, no mínimo, irregularidades que cometeu.
A “proteção” vem sendo armada na medida do possível. Um exemplo é o caso da  delegada Daniele Gossenheimer Rodrigues, chefe do Núcleo de Inteligência Policial (NIP), que respondeu a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) após uma sindicância refeita confirmar que ela ordenou a instalação de um grampo no fumódromo da Superintendência, sem autorização judicial. Queria bisbilhotar  quem criticava o trabalho da Força Tarefa, comandada por seu marido Igor de Paulo Romário, coordenador da Delegacia Regional do Combate ao Crime Organizado (DRCOR).
Porém, mesmo sendo considerada culpada de um suposto crime, sua punição limitou-se a uma “suspensão” que não gerou nem mesmo a perda do cargo de chefia, tal como narramos em: Para o DPF, grampo ilegal na Superintendência do PR é transgressão disciplinar.
Rosalvo Franco (esq.). Igor de Paulo (centro) e Marcio Adriano (dir.), três peças importantes da Operação Lava Jato denunciados por envolvimento com o grampo ilegal na cela de Youssef. Como conviver com a ilegalidade?
Rosalvo Franco (esq.). Igor de Paulo (centro) e Marcio Adriano (dir.), três peças importantes da Operação Lava Jato, foram denunciados por envolvimento com o grampo ilegal na cela de Youssef, mas não chegaram a ser incomodados.
Já com relação ao grampo, também ilegal, colocado na cela do doleiro Alberto Youssef, a corda como sempre acontece, rompeu do lado mais fraco.
O aparelho foi instalado pelo agente Dalmey Fernando Werlang, a mando, segundo ele, do delegado Igor Romário, na presença e com o consentimento do superintendente do Paraná, Rosalvo Ferreira Franco e do delegado Marcio Anselmo, então à frente das investigações da Lava Jato. No Inquérito instaurado depois de uma nova sindicância, apenas Dalmey e dois outros agentes com papel menor no caso foram indiciados. Os possíveis mandantes, os demais se safaram com a explicação de que não foi possível confirmar as acusações contra os mesmos. Não foi possível ou faltou vontade política?
A Superintendência, através do delegado Mauricio Moscardi Grillo, tinha feito uma primeira sindicância cujo resultado foi manipulado para desmentir que o aparelho estivesse ativo. Na segunda apuração, feita pela Corregedoria do DPF em Brasília (Coger/DPF), constatou-se que o grampo funcionava. A perícia resgatou 263 horas e 41 minutos de gravações. Ou seja, mentiram em Curitiba. Forjaram uma sindicância (documento público, lembre-se). Mas o indiciamento de Moscardi no Processo Disciplinar foi por trabalhar mal.
Assim como muitos desconfiaram quando, no Paraná, até o juiz Sérgio Moro alegava que o grampo não existia, é possível desconfiar quando diziam e continuam a afirmar – Moro entre eles – que nada do que teria sido gravado foi usado nos muitos inquéritos da Lava Jato.
Afinal, o próprio advogado do doleiro, Antônio Augusto Figueiredo Basto, como noticiamos em agosto de 2015 em Lava Jato revolve lamaçal na PF-PR, admitia então :
Na investigação sobre o grampo ilegal, uma sindicância garantiu que ele não erxistiu mentiram na Polícia e ao juízo
Na investigação sobre o grampo ilegal, uma sindicância garantiu que ele não existiu mentiram na Polícia e ao juízo
“Tivemos alguns indícios disso sim, Houve indícios, isso não tem dúvida. Mas, não em interrogatórios. Em conversas assim…  que não tem como serem recuperadas. Eles nunca interrogaram diretamente sobre isso, mas os assuntos acabavam sendo abordados pelos delegados. Tivemos alguns indícios disso sim.Houve indícios, isso não tem dúvida. Mas, não em interrogatórios. Em conversas assim… que não têm como serem recuperadas. Eles nunca interrogaram diretamente sobre isso, mas os assuntos acabavam sendo abordados pelos delegados”.
Na ocasião, em seu discurso, cobrava uma apuração detalhada:
Isso é um caso que tem que ser bem esclarecido (…) Vou me basear, exclusivamente, na sindicância atual da Polícia Federal. Se ela apontar que efetivamente houve o grampo e este grampo foi feito de forma ilegal, aí, com certeza nós vamos ter que tomar atitude. Porque aí é uma violência brutal contra o meu cliente (…) Se houver a prova de que efetivamente esta interceptação é ilegal, nós iremos tomar providências sim, porque daí não tem como justificar você cometer um ilícito para investigar outro. Em minha opinião, se isto é ilegal, qual a credibilidade da investigação?
As providências prometidas, na verdade, jamais foram tomadas. Afinal, Figueiredo Basto é da turma de advogados que defende o uso da delação premiada em benefício dos clientes. Usou-a com Youssef garantindo ao doleiro reincidente liberalidades na custódia do DPF enquanto lá permaneceu. Hoje ele está em prisão domiciliar. Os interesses do advogado pela apuração rigorosa desapareceram. Afinal, não lhe interessava  mais aprofundar esta questão e gerar problemas para a Força Tarefa. Prevaleceu não o interesse público, mas o interesse particular do doleiro, criminoso confesso. Nem mesmo o Ministério Público, defensor da sociedade e fiscal da lei, interessou-se por dar continuidade a questão.
Fato inconteste é que só quando vierem a público as gravações resgatadas é que se saberá, pelo que foi gravado, se houve ou não influência do seu conteúdo no trabalho de “convencimento” à delação do doleiro e de outros. Estranhamente, porém, ninguém fala ou dá conta sobre as conversas grampeadas ilegalmente. Permanece o mistério.
Como Meire Poza se dizia ameaçada, o Blog a encaminhou ao procurador regional da República Osório Barbosa.
Como Meire Poza se dizia ameaçada, o Blog a encaminhou ao procurador regional da República Osório Barbosa.
Também se tornou um mistério o que aconteceu com as denúncias feitas pela ex-contadora do doleiro Youssef, Meire Poza. Depois de falar pelos cotovelos a jornalistas e interesseiros, como o delegado Romeu Tuma Junior que usou as delações dela na segunda edição do seu livro, Meire prestou seu primeiro depoimento legal ao procurador regional da República em São Paulo, Osório Barbosa, como noticiamos em Enfim, a contadora e informante infiltrada da Lava Jato foi ouvida oficialmente.
Como se dizia ameaçada e com medo, este Blog a encaminhou ao procurador acompanhada de um advogado que a defenderia gratuitamente, Humberto Barrionuevo Fabretti, apenas em nome do amplo direito à defesa de qualquer acusado.
Nas cinco páginas datilografadas  do depoimento dela, na presença de Fabretti e deste blogueiro, narrou tudo o que fez e a forma como foi usada como uma espécie de “infiltrada” da Força Tarefa da Lava Jato, para passar informações e documentos de Youssef, que estavam em seu poder ou no escritório dele. Seu principal interlocutor foi o delegado Marcio Adriano, mas não o único.
Meire relatou conversas jamais tomadas a termoi pelos procuradores, Deltan entre eles, e a "busca e apreensão" forjada.
Meire relatou conversas jamais tomadas a termo pelos procuradores, Deltan entre eles, e a “busca e apreensão” forjada.
Teve conversas “informais” com os procuradores da República, Deltan Dallagnol, Andrey Borges, Carlos Fernando e Roberson Pozzebom, jamais levadas aos autos. Algo um tanto quando inusitado, para não se falar suspeito.
Detalhou a “Busca e Apreensão” forjada pela polícia para oficializar – “esquentar” –  os documentos que já tinham recebido através dela.
Explicou que os policiais lhe orientaram a criar um e-mail do Gmail, para manter  conversa com eles, em especial com Marcio Anselmo, evitando que viesse a ser descoberta como informante.
O depoimento dela foi remetido a diversas autoridades, “para que se tome as medidas que entender cabíveis”. Entre outros, Rodrigo Janot, Procurador-geral da República; Alexandre de Moraes, então ministro da Justiça;  Mario Luiz Bonsaglia, subprocurador-geral da República coordenador da 7ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF; Levy Emanuel Magno, promotor de Justiça, coordenador do CAO Criminal Controle Externo de Atividade Policial pelo Ministério Público de São Paulo; Wellington Pantaleão da Silvam, Coordenador-geral de Proteção a Vítimas e Testemunhas da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República; promotor de Justiça coordenador do GAECO , de Curitiba (PR); Leandro Daiello Coimbra, diretor-geral do DPF; Roberto Mario Cunha Cordeiro, corregedor-geral do DPF.
A polícia Federal, com o conhecimento do MPF, usou Meire, que tinha ajudado Youssef nas transações suspeitas, como "informante infiltrada". Seu caso sumiu. Caiu no esquecimento. Está em alguma gaveta.
A polícia Federal, forjou uma Busca e Apreensão sem nem mesmo fazer a relação do material apreendido o qual, na verdade, já estava em Curitiba repassado pela “informante infiltrada”. Foi uma operação para “esquentar tais documentos”. Isso cairá no esquecimento?
Ao que consta, um inquérito foi aberto, na Coordenadoria de Assuntos Internos (Coain) do DPF e ajuizado na Justiça Federal de São Paulo. Nele, teria sido aprofundado este relacionamento entre a contadora e Márcio Anselmo. Mas, do caso não se ouviu mais falar e, pelas noticias que circulam no DPF,tudo foi para o arquivo. Engaventou-se.
Curiosamente, apesar de todo o discurso da necessidade de transparência que justificou vazamentos contra políticos e réus da Lava Jato – incluindo a ilegal divulgação de diálogos de uma presidente da República, ou de Marisa, a mulher de Lula, com um dos seus filhos – , ninguém dá nenhuma explicação oficial a respeito do caso Meire. Ou seja, a proteção aos operadores da Força Tarefa, ao que tudo indica, já ocorre há algum tempo. Mas, Daiello, ao que se comenta em Brasília, quer garanti-la para o futuro.
O mesmo, porém, não ocorreu nem ocorre com quem denunciou as irregularidades da Lava Jato. Houve – e continua havendo – todo um jogo de pressão contra os chamados dissidentes, tal como mostramos em Lava Jato: dissidências, perseguições e covardias, e em outras muitas postagens aqui no Blog.
Além dos chamados dissidentes, indiciados por uma estranha “corrupção imaterial”, o delegado Mario Renato Fanton, das delegacia de Bauru (SP), responsável pelo depoimento no qual Dalmey assumiu a instalação do grampo, foi denunciado e responderá a processo. Acusam-no de vazar informações sigilosas, tal como narramos em Curitiba: vazamentos e perseguições continuam!
Ele é acusado de revelar a existência da Operação Carne Fraca  para o ex-deputado André Vargas, no dia em que o prendeu e conduziu à superintendência do DPF em Curitiba. O detalhe é que no próprio inquérito constataram que desta suposta conversa entre delegado e ex-deputado nada atrapalhou a Operação Carne Fraca, realizada meses depois. E toda a denúncia é baseada no depoimento de uma única testemunha, o agente que estava dirigindo o carro – único passageiro no veiculo além do delegado e do preso. Este, em juízo, negou o que o motorista afirmaram.o que foi desconsiderado pela denúncia.
Como já narramos em outras postagens  – por exemplo, Com ajuda de jornalistas, delegados criaram versão do dossiê contra Lava Jato -, em Curitiba, além da perseguição a políticos – notadamente do PT – perseguiu-se também agentes e delegados federais que questionavam as irregularidades da Lava Jato. Agora, desmonta-se a equipe e, com isso, evita-se também que denúncias antigas sejam investigadas. Se conseguirão ou não o tempo dirá. Inclusive, e principalmente, após a posse de Raquel Dodge, á frente da PGR..
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Fonte:http://marceloauler.com.br/lava-jato-desmonte-para-protecao/

Dallagnol “vendeu gato por lebre” em palestra sobre a Lava Jato a dois dias antes do seu final

08.07.2017
Do blog de LUIZ 
Tchau, queridos
O fim da força-tarefa da PF em Curitiba já vinha sendo especulado desde que Michel Temer nomeou Torquato Jardim para o ministério da Justiça e estava no roteiro do estancamento da sangria de Romero Jucá no clássico grampo com Sérgio Machado.
Jardim era um sabonete com relação à permanência de Leandro Daiello na direção da Polícia Federal. Culminou numa coletiva maluca em que cada um respondeu o que quis.
Um ou outro daqueles valorosos procuradores que falavam pelos cotovelos quando o assunto era Lula se manifestou.
Na noite de quarta-feira, 5, Carlos Fernando dos Santos Lima afirmou que o grupo “deixou de existir. Não há verbas para trazer delegados”.
“Mas para salvar o seu mandato, Temer libera verbas à vontade”, completou.
Uma falácia usada à farta na campanha difamatória contra o governo Dilma era justamente a de que, no plano de dominação bolivariano, a Lava Jato seria destruída pelos comunistas.
Coxinhas foram às ruas com estandartes alertando sobre o ataque a seus super herois.
Onde estão eles agora? Em casa, abraçados com a corriola que colocaram no poder, chorando ou fingindo que não é com eles.
O legado da República de Curitiba está nesse lusco fusco da criação de savonarolas que faturaram em cima de um líder político e um partido para fomentar um golpe.
Viraram superstars, deram entrevistas, ganharam dinheiro e fama com palestras — e agora voltam ao anonimato, de onde só saíram em direção aos holofotes enquanto foram úteis.
Na última vez em que se ouviu falar de Deltan Dallagnol, ele estava novamente promovendo um evento auto congratulatório:
“Venha conhecer pessoalmente os procuradores da Lava Jato em Curitiba e ficar por dentro do que está acontecendo na operação – em primeira mão!! Todo o dinheiro dos ingressos será revertido para a APAE, ajudando uma boa causa. Chame seus amigos de Curitiba. Espero Vocês lá, nesta terça-feira à noite”,  escreveu em suas redes sociais.
Isso foi na terça, dia 4. Ou seja, ou estava vendendo o que não tinha ou estava mal informado.
Agora falta ver o que fazer com Moro, mas não vai demorar.
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Fonte:https://luizmuller.com/2017/07/08/dallagnol-vendeu-gato-por-lebre-em-palestra-sobre-a-lava-jato-a-dois-dias-antes-do-seu-final/