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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

FILHOTE DA DITADURA: De capacho da ditadura a racista da Globo

18.01.2016
Do portal da Agência Carta Maior
Por Altamiro Borges, em seu Blog

Ao contrário do que rosna Alexandre Garcia, estudos comprovam que os alunos cotistas têm desempenho acadêmico superior ao dos não-cotistas.

reprodução
O jornalista global Alexandre Garcia parece que anda bastante incomodado com as cotas nas universidades e com a ascensão social de setores antes totalmente excluídos da sociedade. Será que o veterano, famoso por seu elitismo, teme a concorrência? Nesta semana, no noticiário local da TV Globo do Distrito Federal, ele voltou a esbanjar preconceito, racismo... e ignorância! “Temos que pensar na qualidade do ensino. Aqui no Brasil ele é todo assim por pistolão, empurrãozinho e ajuda. A tradução disso é a cota. Aí põe um monte de gente [na faculdade]... Só 67%, você viu, passaram por mérito”, esbravejou, ao comentar o resultado dos exames para ingresso na Universidade de Brasília (UnB).


O comentário asqueroso gerou imediata reação nas redes sociais de estudantes, professores e movimentos que lutam contra o racismo. Alguns internautas lembraram que, ao contrário do que rosna o âncora global, estudos do Ministério da Educação comprovam que os alunos cotistas têm desempenho acadêmico superior ao dos não-cotistas. Professores da rede estadual manifestaram a sua satisfação com o ingresso de jovens das escolas públicas na UnB. Para o presidente da União de Negros pela Igualdade (Unegro), Edson França, as declarações de Alexandre Garcia revelam o racismo presente na mídia brasileira. “A Rede Globo foi protagonista na resistência às cotas. A emissora usou de todos os meios para combater esse sistema. Ela não vai mudar o seu pensamento, que, aliás, é um pensamento que vem sendo derrotado e não é de hoje”.

Esta não é primeira vez que o jornalista global explícita sua visão racista, elitista e manipuladora. Em outubro do ano passado, no telejornal “Bom Dia Brasil”, o sujeito tacanho chegou a afirmar que “o país não era racista até criarem as cotas”. O rico apresentador estava irritado com a criação do cadastro do “Simples Doméstico”, o programa do governo Dilma que garante direitos trabalhistas para os empregados domésticos. Em outras ocasiões, o subserviente Alexandre Garcia já havia demonstrado total concordância com o poderoso carrasco da emissora, Ali Kamel, o diretor de jornalismo da Rede Globo que obrou o clássico “Não somos racistas”.



Com suas pérolas racistas, Alexandre Garcia até vai conseguindo ofuscar o seu vexaminoso passado, quando foi porta-voz do general João Batista Figueiredo, último carrasco do regime militar – sendo exonerado por ter posado seminu numa foto para uma revista masculina. De capacho da ditadura, com suas torturas e assassinatos, para apologista do ódio e do preconceito racista. Baita biografia!

Em tempo: reproduzo abaixo uma mensagem de João Marcelo, estudante da UnB, em contraposição às besteiras obradas pelo jornalista global:

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A abominação ética em Alexandre Garcia 


Os comentários de Alexandre Garcia nos telejornais da TV Globo são sempre um festival de impropérios, invariavelmente de cunho elitista. Porém, sua declaração recente em que acusa os alunos ingressos à UnB pelo sistema de cotas de "não possuírem méritos para ingressar na Universidade" revela em sua personalidade um pendor de senhor de escravo, um calejamento próprio de uma classe dominante infecunda e profundamente perversa.

Os comentários de Alexandre Garcia nos telejornais da TV Globo são sempre um festival de impropérios, invariavelmente de cunho elitista. 

A Lei de Cotas nas universidades completou três anos no ano passado. Fruto da mobilização dos movimentos sociais, logrou colaborar no ingresso de mais de 111 mil alunos negros. Ao contrário do propalado pelos intelectuais da Casa Grande, sua efetivação não precarizou o ensino superior público: segundo dados científicos apurados na avaliação dos 10 anos da implementação do sistema de cotas na UnB, o rendimento dos estudantes cotistas é igual ou superior ao registrado pelos alunos do sistema universal. Outras análises, em dezenas de instituições como Uerj e UFG, coadunam com o diagnóstico.

Os argumentos contrários ao sistema de cotas carregam o signo de uma ideologia que fez com que o País vivesse o colonialismo, a escravidão e a própria ditadura. Está no DNA da classe dominante brasileira buscar impedir à emancipação dos oprimidos, por esses constituírem ameaça ao seu domínio. Para esse fim, ocultam os saqueios e opressões que os povos colonizados foram e são submetidos, ao mesmo tempo em que procuram domesticar o imaginário dos oprimidos a partir de mentiras repetidas à exaustão nos meios de comunicação em massa.

Darcy Ribeiro, fundador da UnB e um dos maiores antrópologos brasileiros, teve ocasião de asseverar que o maior problema do Brasil é sua elite. Segundo ele, as elites brasileiras se apropriam unicamente do poder para usurpar à riqueza nacional, condenando seu povo ao atraso e a penúria (ver O livro dos CIEPS, 1986:98). Por isso, carregamos a inglória posição de terceiro país mais desigual do mundo.

Alexandre Garcia é um conhecido bajulador das hostes oficias. Foi aliado de Ernesto Geisel e porta-voz do ditador João Batista Figueiredo. Foi exonerado após postar seminu numa revista masculina. Apoiou a candidatura de Maluf no Colégio Eleitoral. Foi um dos artífices da cobertura global que favoreceu a ascensão de Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso. É, pois, co-participe da tragédia social, política, econômica e ideológica da sociedade brasileira.

A TV Globo, que abriga essa triste figura, é a principal aliada de todas as causas abomináveis patrocinadas pela elite contra o povo brasileiro. Sustentou o golpe de 1964, franqueou amplo apoio ao regime militar, deu sustentação aos governos conservadores após a redemocratização. Seu jornalismo sempre perseguiu os movimentos sociais e lideranças populares, cuja expressão mais retumbante foi o herói da pátria Leonel de Moura Brizola.

Quando insulta os alunos da rede pública egressos pelo sistema de cotas, o jornalista vê nisso paternalismo e esmola. É compressível. Quem ascendeu na carreira com favores e migalhas dos plutocratas só pode enxergar nos outros os vícios que carrega. Felizmente, o povo brasileiro não permitirá que a direita apátrida coloque suas mãos sujas de sangue em seus direitos mais caros, para a tristeza do jornalista e seus correligionários.
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Fonte:http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Midia/De-capacho-da-ditadura-a-racista-da-Globo/12/35335

PT elabora publicação para se contrapor às calúnias sofridas pelo partido

18.01.2016
Do portal da FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 12.12.15

Agora, mais que nunca, a escalada de mentiras, calúnias, factoides, distorções, manipulações sucedem-se na tentativa, cada vez mais evidente, de criminalizar o PT e – sonho sempre perseguido pelas classes dominantes – de riscar o partido do mapa brasileiro.



Comandada pela mídia monopolizada, a campanha de cerco e aniquilamento conta com a colaboração solerte de políticos de vários partidos, de setores do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal.

Embora extenso para municiar a militância com informações e argumentos para nossa defesa e para a disputa de ideias na sociedade, o documento é dividido em capítulos independentes, o que facilita a leitura. 

Contra as versões facciosas de nossos inimigos e adversários, apresentamos fatos incontestáveis. Divulguem a íntegra, mas também em itens por assunto, em capítulos, nas redes sociais e nas publicações independentes de nossos amigos e simpatizantes.

Rui Falcão, presidente nacional do Partido dos Trabalhadores
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Fonte:http://novo.fpabramo.org.br/content/cen-pt-elabora-publica%C3%A7%C3%A3o-para-se-contrapor-%C3%A0s-cal%C3%BAnias-sofridas-pelo-partido

ÓDIO POLÍTICO E O DIABO: João Doria vota no diabo

18.01.2016
Do portal BRASIL247
Por DOM ORVANDIL*

Querida colega blogueira Cris Campos, 

: Esse empresário de São Paulo, João Dória, para justificar seu voto no neoliberalismo conservador, pai da exclusão de milhões de brasileiros, da destruição da economia nacional e dos direitos dos trabalhadores, elegendo o aventureiro Collor de Melo Presidente do Brasil, disse que vota no diabo mas não vota em Lula.

Nada mais verdadeira do que essa declaração de empresário medíocre.

João Dória simboliza o pior que há na burguesia brasileira e nos brancos racistas excludentes de São Paulo.

A história do eleitor do diabo, do amigo do pula pula de auditório e alienado padre Marcelo Rossi, tentou golpear a democracia ao participar do mesquinho e falido movimento “cansei” com o objetivo de caluniar Lula e seu governo. Depois, em 2014, cortejou o homem do pó, do aeroporto construído em propriedade da família com dinheiro público e acusado de desviar bilhões de reais do dinheiro do povo da saúde no Estado de Minas Gerais, Aécio Neves, como cabo eleitoral e apoiador da pior escória reacionária do País. Dirige um programa de baixa audiência e qualidade onde entrevista vaidosos e burgueses modelo sangue sunga, dos que empreendem em busca de lucros sem nenhuma sensibilidade social. Para completar sua história de homem participante da escumalha que teme o povo e a afirmação da justiça e dos direitos populares, busca se candidatar a prefeito de São Paulo pelo partido golpista de Geraldo Alckmin, o governador que odeia a educação, os pobres, os negros e os trabalhadores.

Votar no diabo é preferência de gente como João Dória.

Gente de direita, seletiva, cheirosa, arrogante, branca, que gasta milhares de reais em restaurantes e bares enquanto paga miséria salarial para seus trabalhadores, vota naturalmente no diabo.

Pessoas autoritárias e insensíveis, como João Dória, jamais votarão nos servos da justiça, das transformações sociais, que lutam na defesa dos direitos da maioria, na inclusão social e no empoderamento do povo.

Não, gente como João Dória vota nos diabos como Aécio Neves, como Geraldo Alckmin, como José Serra e em outros servidores do inferno.

Votar em pessoas que tiveram que se deslocar em pau de arara, que enfrentaram a destruição da família por parte dos exploradores do Nordeste, que se debateram contra a ditadura e por ela foram presas, que se entregaram à luta na organização da classe operária, que se atreveram a chegar ao poder, eleitas pela maioria do povo, cujos votos não são de quem vota no diabo,  não é coisa para quem se acha melhor do que os nordestinos e os trabalhadores, como João Dória. 

João Dória é parte apaixonada dos que gritam pela volta da ditadura, dos que desrespeitam a autonomia dos povos quando difamam Países como Venezuela, Bolívia, Cuba etc.

João Dória invadiria a Bolívia com Geraldo Alckmin no roubo do gás contra a soberania daquele País. É disso que o diabo gosta e é nisso que João Dória vota.

João Dória, o eleitor do diabo, faz parte prazerosamente da elite que odeia os pobres passeando na Avenida Paulista e dando rolezinho nos espaços que a apodrecida e racista elite branca imagina delirantemente como de sua propriedade.

O eleitor do diabo prefere mil vezes o apodrecimento dos pobres do que sua ascensão ao direito de estudar, de crescer intelectual e socialmente como cidadãos criativos e inteligentes na construção democrática do Brasil.

João Dória declarou com aquele sorriso de hiena que vota no diabo, mas não vota em Lula.

Seu testemunho é inconteste como autêntico direitista burguês que despreza o povo e seus líderes, por isso sente orgasmo em votar no diabo.

Antes que me imagines piegas e supersticioso do tipo desses crentes que vêm diabo como entidade absoluta e de poder espiritual transcendental capaz de fazer-se um monstro presente em todos os lugares, sempre disposto a quebrar os pescoços das pobres e indefesas criaturas humanas, te explico o que é o diabo, no qual vota o fanfarrão burguês João Dória.

A palavra diabo tem origem na língua grega. Lá, desde seu nascimento, diabo – “dia- blós” – significa divisão, acirramento de sentimentos e divisão inconciliável. Ao contrário de “sim-bolós” – de onde símbolo – que une, que converge, que agrega, que congraça, “diablós” destrói a unidade entre os seres.

É nisso que vota João Dória.

João Dória é parte da elite dominante que se empenha diuturnamente na destruição social, da unidade nacional, na comunhão do povo e na tomada do poder pelos que realmente trabalham.

João Dória não só vota no monstro diabólico que destrói pela manipulação, pela exclusão e pela divisão, como também é um dos que se candidata a diabo, procurando enganar a sociedade ao pedir-lhe votos para o cargo de prefeito de São Paulo, atropelando companheiros de seu próprio partido, antro do diabo por natureza.

Imagino o inferno em que se transformaria a vida do povo de São Paulo se, por uma desgraça, João Dória vencesse as eleições e se tornasse prefeito da maior capital da América Latina.

Suas alianças com as máfias do transporte coletivo, do sistema financeiro e dos racistas fariam de São Paulo permanente espetáculo que o diabo gostaria, já que ele seria o principal.

A tentativa de diabos como João Dória é a de dialoblizar toda a sociedade com o objetivo de que os diabos em quem ele e sua escória votam sejam os mais fortes na desconstituição da democracia.

• Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz sociais.

Dom Orvandil, OSF: bispo cabano, farrapo e republicano, presidente da Ibrapaz, bispo da Diocese Brasil Central e professor universitário, trabalhando duro sem explorar ninguém
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Fonte:http://www.brasil247.com/pt/colunistas/domorvandil/213648/Jo%C3%A3o-Doria-vota-no-diabo.htm

Estadão diz que MST “invade” fazenda de político; só que a terra é pública

18.01.2016
Do BLOG DO ACEU CASTILHO,17.01.16 
Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

pontal-2016-estadao
Jornal utiliza o verbo “invadir”; mas se esquece de informar que as terras ocupadas são públicas; nos anos 50, veículo classificava de criminosos os esbulhos na região
Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
Utilizemos a própria notícia do Estadão para demonstrar que a notícia do Estadão não tem nenhuma sustentação. Apenas o propósito de defender proprietários de terra que  não são proprietários de terra. E sim senhores que se apropriaram de terras públicas.
Em pauta, a velha utilização do verbo “invadir”. Mas somente quando se trata de movimento social reivindicando seu espaço. Vejamos: MST invade fazenda de político no extremo oeste paulista“.
Trata-se de Agripino de Lima, ex-prefeito de Presidente Prudente. Um pobre e inocente proprietário de uns nacos de terras, importunado injustamente pelos camponeses? Não exatamente. E é o próprio texto que informa isso:
A fazenda foi julgada terra devoluta pela Justiça e faz parte do convênio para reversão de terras públicas firmado em 2014 entre o governo federal, através do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), e a Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), órgão estadual.
Tradução: as terras são públicas. Terras como essas foram invadidas por esse e outros proprietários. Mas a informação não motivara títulos. Pois a ideia é criminalizar o MST – ou qualquer movimento que esteja alertando a sociedade de que terras públicas estão na mão de usurpadores.
FALTA DE MEMÓRIA
Curiosamente, o Estadão condenava a destruição de florestas e a grilagem de terras no Pontal do Paranapanema, ao longo do século XX. Estão no arquivo do próprio jornal diversas notícias sobre esse processo predador. O editorial do dia 19 de junho de 1957, por exemplo, falava em “clamoroso esbulho” de terras da região “por um grupo de aproveitadores”.
pontal-1957-estadao
O jornal falava em “assaltantes”, em terras riquíssimas “de que os grileiros ilicitamente se apropriaram”. Curiosamente, o editorial criticava exatamente a reunião de prefeitos de municípios do Pontal para a defesa desse esbulho.
Ao longo das décadas, porém, veio a amnésia. E essa defesa sórdida do indefensável.
LEIA MAIS:

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Fonte:http://outraspalavras.net/alceucastilho/2016/01/17/estadao-diz-que-mst-invade-fazenda-de-politico-so-que-a-terra-e-publica/

‘A empregada tem carro e anda de avião. E eu estudei pra quê?’

18.01.2016
Do blog PENSADOR ANÔNIMO, 06.01.16

Se você, a exemplo dos professores que debocharam de passageiro “mal-vestido” no aeroporto, já se fez esta pergunta, parabéns: você não aprendeu nada
O condômino é, antes de tudo, um especialista no tempo. Quando se encontra com seus pares, desanda a falar do calor, da seca, da chuva, do ano que passou voando e da semana que parece não ter fim. À primeira vista, é um sujeito civilizado e cordato em sua batalha contra os segundos insuportáveis de uma viagem sem assunto no elevador. Mas tente levantar qualquer questão que não seja a temperatura e você entende o que moveu todas as guerras de todas as sociedades em todos os períodos históricos. Experimente. Reúna dois ou mais condôminos diante de uma mesma questão e faça o teste. Pode ser sobre um vazamento. Uma goteira. Uma reforma inesperada. Uma festa. E sua reunião de condomínio será a prova de que a humanidade não deu certo.
madame
A empregada tem carro e anda de avião. E eu estudei pra quê?
Dia desses, um amigo voltou desolado de uma reunião do gênero e resolveu desabafar no Facebook: “Ontem, na assembleia de condomínio, tinha gente ‘revoltada’ porque a lavadeira comprou um carro. ‘Ganha muito’ e ‘pra quê eu fiz faculdade’ foram alguns dos comentários. Um dos condôminos queria proibir que ela estacionasse o carro dentro do prédio, mesmo informado que a funcionária paga aluguel da vaga a um dos proprietários”.
A cena parecia saída do filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, no qual a demissão de um veterano porteiro é discutida em uma espécie de “paredão” organizado pelos condôminos. No caso do prédio do meu amigo, a moça havia se transformado na peça central de um esforço fiscal. Seu carro-ostentação era a prova de que havia margem para cortar custos pela folha de pagamento, a começar por seu emprego. A ideia era baratear a taxa de condomínio em 20 reais por apartamento.
Sem que se perceba, reuniões como esta dizem mais sobre nossa tragédia humana do que se imagina. A do Brasil é enraizada, incolor e ofuscada por um senso comum segundo o qual tudo o que acontece de ruim no mundo está em Brasília, em seus políticos, em seus acordos e seus arranjos. Sentados neste discurso, de que a fonte do mal é sempre a figura distante, quase desmaterializada, reproduzimos uma indigência humana e moral da qual fazemos parte e nem nos damos conta.
Dias atrás, outro amigo, nascido na Colômbia, me contava um fato que lhe chamava a atenção ao chegar ao Brasil. Aqui, dizia ele, as pessoas fazem festa pelo fato de entrarem em uma faculdade. O que seria o começo da caminhada, em condições normais de pressão e temperatura, é tratado muitas vezes como fim da linha pela cultura local da distinção. O ritual de passagem, da festa dos bixos aos carros presenteados como prêmios aos filhos campeões, há uma mensagem quase cifrada: “você conseguiu: venceu a corrida principal, o funil social chamado vestibular, e não tem mais nada a provar para ninguém. Pode morrer em paz”.
Não importa se, muitas e tantas vezes, o curso é ruim. Se o professor é picareta. Se não há critério pedagógico. Se não é preciso ler duas linhas de texto para passar na prova. Ou se a prova é mera formalidade.
O sujeito tem motivos para comemorar quando entra em uma faculdade no Brasil porque, com um diploma debaixo do braço, passará automaticamente a pertencer a uma casta superior. Uma casta com privilégios inclusive se for preso. Por isso comemora, mesmo que saia do curso com a mesma bagagem que entrou e com a mesma condição que nasceu, a de indigente intelectual, insensível socialmente, sem uma visão minimamente crítica ou sofisticada sobre a sua realidade e seus conflitos. É por isso que existe tanto babeta com ensino superior e especialização. Tanto médico que não sabe operar. Tanto advogado que não sabe escrever. Tanto psicólogo que não conhece Freud. Tanto jornalista que não lê jornal.
Função social? Vocação? Autoconhecimento? Extensão? Responsabilidade sobre o meio? Conta outra. Com raras e honrosas exceções, o ensino superior no Brasil cumpre uma função social invisível: garantir um selo de distinção.
Por isso comemora-se também ao sair da faculdade. Já vi, por exemplo, coordenador de curso gritar, em dia de formatura, como líder de torcida em dia de jogo: “vocês, formandos, são privilegiados. Venceram na vida. Fazem parte de uma parcela minoritária e privilegiada da população”; em tempo: a formatura era de um curso de odontologia, e ninguém ali sequer levantou a possibilidade de que a batalha só seria vencida quando deixássemos de ser um país em que ter dente era (e é), por si, um privilégio.
Por trás desse discurso está uma lógica perversa de dominação. Uma lógica que permite colocar os trabalhadores braçais em seu devido lugar. Por aqui, não nos satisfazemos em contratar serviços que não queremos fazer, como lavar, passar, enxugar o chão, lavar a privada, pintar as unhas ou trocar a fralda e dar banho em nossos filhos: aproveitamos até a última ponta o gosto de dizer “estou te pagando e enquanto estou pagando eu mando e você obedece”. Para que chamar a atenção do garçom com discrição se eu posso fazer um escarcéu se pedi batata-fria e ele me entregou mandioca? Ao lembrá-lo de que é ele quem serve, me lembro, e lembro a todos, que estudei e trabalhei para sentar em uma mesa de restaurante e, portanto, MEREÇO ser servido. Não é só uma prestação de serviço: é um teatro sobre posições de domínio. Pobre o país cujo diploma serve, na maioria dos casos, para corroborar estas posições.
Por isso o discurso ouvido por meu amigo em seu condomínio é ainda uma praga: a praga da ignorância instruída. Por isso as pessoas se incomodam quando a lavadeira, ou o porteiro, ou o garçom, “invade” espaços antes cativos. Como uma vaga na garagem de prédio. Ou a universidade. Ou os aeroportos.
Neste caldo cultural, nada pode ser mais sintomático da nossa falência do que o episódio da professora que postou fotos de um “popular” no saguão do aeroporto e lançou no Facebook: “Viramos uma rodoviária? Cadê o glamour?”. (Sim, porque voar, no Brasil, também é, ou era, mais do que o ato de se deslocar ao ar de um local a outro: é lembrar os que rastejam por rodovias quem pode e quem não pode pagar para andar de avião).
Esses exemplos mostram que, por aqui, pobre pode até ocupar espaços cativos da elite (não sem nossos protestos), mas nosso diploma e nosso senso de distinção nos autorizam a galhofa: “lembre-se, você não é um de nós”. Triste que este discurso tenha sido absorvido por quem deveria ter como missão a detonação, pela base e pela educação, dos resquícios de uma tragédia histórica construída com o caldo da ignorância, do privilégio e da exclusão.
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Fonte:http://pensadoranonimo.com.br/a-empregada-tem-carro-e-anda-de-aviao-e-eu-estudei-pra-que/

Altamiro Borges: Chico Buarque e o “terrorista chic”

18.01.2016
Do blog VI O MUNDO, 17.01.16
Por Altamiro Borges
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Meme reproduzido pelos agressores de Chico Buarque nas redes sociais e o “jornalista” João Pedrosa
Chico Buarque processa “terrorista chic”
O colunista Ancelmo Gois, do jornal O Globo, informou neste sábado (16) que “Chico Buarque, Marieta Severo e as filhas entrarão com uma ação, por danos morais, contra o antiquário e jornalista paulista João Pedrosa. No fim de dezembro, o perfil dele no Instagram postou o seguinte comentário na foto publicada pela atriz Silvia Buarque, na qual ela aparece pequena ao lado do pai e da irmã Helena: ‘Família de canalhas!!! Que orgulho de ser ladrão!!!’… O artista diz que chegou a hora de dar um basta às falsas acusações que circulam na internet, inclusive as de que ele teria se beneficiado pela Lei Rouanet. Chico diz que não é contra as leis de incentivo, mas que jamais utilizou qualquer uma delas”.
A iniciativa de Chico Buarque e da família de processar o tal “jornalista” agitou as redes sociais.
A maioria dos internautas apoiou a decisão, o que revela a crescente da insatisfação diante da ofensiva fascistóide de estimulo ao ódio e à intolerância.
Em dezembro passado, o próprio artista foi vítima de um bando que o hostilizou diante de um restaurante no Leblon, no Rio de Janeiro.
Entre os provocadores, o filho de um playboy aecista metido a apresentador de programa de turismo na tevê, o neto de um ruralista assassino do Pará e um herdeiro de uma usina fraudulenta do interior paulista. Na ocasião, diante da repercussão negativa da agressão, dois deles ensaiaram pedidos de desculpas a Chico Buarque.
Já no que se refere ao tal “jornalista” João Pedrosa, a sua biografia é das mais patéticas.
O sujeito só aparece nas colunas de fofocas ao lado de dondocas da elite, em festanças nos bairros ricos de São Paulo, e ainda se apresenta como “marchand e colecionador” de peças de luxo.
Paulo Nogueira, do imperdível blog Diário do Centro do Mundo, pesquisou o perfil do “jornalista chic” e descobriu que o exibicionista é um doente mental, um panaca!
“Coloquei aspas em jornalista porque não se conhece nada de relevante, ou mesmo irrelevante, que João Pedrosa tenha publicado na imprensa. Uma visita ao seu Facebook revela um revoltado online e um esnobe da ‘alta’ sociedade”, afirma o blogueiro.
Em 2014, depois de uma decisão do Supremo Tribunal Federal e pouco antes da Copa do Mundo, o fascista postou o seguinte texto:
“’STF decide que não houve quadrilha’”. Então tá! LULADRÃO não era o chefe do mensalão, mas DILMERDA ainda é a PRESIDANTA. BLACK BLOC neles! Se nem de cadeia os políticos tem mais medo, deveriam temer a morte. O BRASIL PRECISA DE TERRORISMO! Agora juiz ladrão não é só no futebol, mas no supremo também. NÃO VAI TER COPA”. Poucos dias depois, outro texto aloprado: “O Supremo Tribunal Federal é uma quadrilha! O dinheiro roubado do PT não só pagou as multas como comprou os juízes! O chefe Luladrão escapou, e agora a quadrilha também. BLACK BLOC neles! NÃO VAI TER COPA! O Brasil chegou num ponto que a violência se justifica… A última solução é o terrorismo, ou então, vudu. País de merda!”.
Como observa Paulo Nogueira, as postagens do “jornalista chic” comprovam que ele é “um doente, um psicopata, um desequilibrado que se julga no direito, publicamente, de pregar terrorismo, dizer que o STF foi comprado e chamar Lula de Luladrão e Dilma de Dilmerda. Fora isso, decreta que o Brasil é um país de merda. Ora, ora, ora. Talvez aqui, no último ponto, ele tenha um laivo de razão, porque merece críticas um país que deixa alguém como Pedrosa fazer impunemente acusações tão graves… Chico Buarque está dando um passo importante para toda a sociedade ao processar o alegado ‘jornalista’ e real caluniador João Pedrosa. Que seu exemplo inspire outras pessoas e assim o Brasil será um país melhor”.
De fato, o tal João Pedrosa merece ser processado e Chico Buarque está de parabéns pela iniciativa. Na verdade, o “terrorista chic”, frequentador das mansões das elites, deveria mesmo ser preso ou rapidamente internado!
Leia também:
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Fonte:http://www.viomundo.com.br/politica/altamiro-borges-chico-buarque-e-o-terrorista-chic.html

Homem da ditadura, o presidente da CBF recebe como anistiado político

18.01.2016
Do portal OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, 14.01.16
Por Lúcio Castro, na edição 855

Após deixar a FAB, Antonio Carlos Nunes de Lima ingressou na Polícia Militar do Pará. Foto: Divulgação/Federação Paraense de Futebol
Após deixar a FAB, Antonio Carlos Nunes de Lima ingressou na Polícia Militar do Pará. Foto: Divulgação/Federação Paraense de Futebol
Homem de confiança do regime militar durante os anos da ditadura, Antonio Carlos Nunes de Lima, o novo presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) recebe um soldo mensal de R$ 14.768,00 da Força Aérea Brasileira (FAB) como anistiado, “vítima de ato de exceção de motivação política”.
Após deixar a FAB, Antonio Carlos Nunes de Lima ingressou na Polícia Militar do Pará. Foto: Divulgação/Federação Paraense de Futebol



A decisão do Ministério da Justiça, publicada no Diário Oficial da União de 14/5/2003 e assinada pelo então Ministro Márcio Thomaz Bastos, concedeu, além das prestações mensais, uma indenização retroativa de R$ 243.416,25. Porém, os anais das Forças Armadas, da Polícia Militar do Pará – analisados pela reportagem – e a história de vida de Antônio Carlos Nunes de Lima, 77 anos, retratam um quadro oposto ao de alguém sacrificado nos anos de chumbo.
Os relatórios reservados pós-golpe de 1964 da Aeronáutica mostram Nunes de Lima como um servidor exemplar e apegado às diretrizes do regime. “A serviço das instituições racionais permanentes”, segundo os relatórios.
Nove dias depois de deixar a FAB no posto de cabo por tempo de serviço (entrada em  7/1/1957 – saída em 30/12/1966), ele ingressa na Polícia Militar do Pará (entrada em 9/1/1967 – saída em 21/2/1991). Ali, progride sem entraves na hierarquia da PM durante os anos ditatoriais, nos quais a instituição se notabilizou como braço de apoio ao Exército na repressão e extermínio à Guerrilha do Araguaia e aos demais movimentos populares e de resistência no Pará.
Confiança do regime
Onze meses depois da entrada na polícia militar, ele foi declarado Aspirante a Oficial da PM. Da entrada em janeiro de 1967 até a aposentadoria como Coronel, em fevereiro de 1991, foram mais 6 promoções. Uma por tempo de serviço e 5 por merecimento – dessas, 4 são no período ditatorial. Em setembro de 1969, ainda como 1º Tenente, passa a Tesoureiro do Gabinete Militar do Estado.
Em maio de 1971, vem a prova definitiva de confiança do regime em Antônio Carlos Nunes de Lima: é nomeado Comandante da Companhia Independente da Polícia Militar de Santarém (CIPM, atual 3º Batalhão PM/PA), onde fica até abril de 1974.
O Comandante do CIPM de Santarém era estratégico para o General Médici. A cidade foi uma das mais vigiadas pelos militares no início dos anos 70. Em 21 de setembro de 1969, o governo, através do Decreto-Lei 866, inclui Santarém como “Área de Segurança Nacional” (ASN).
As cidades nomeadas como “Áreas de Segurança Nacional” eram regidas pela “Doutrina de Segurança Nacional”, ficando para trás os princípios constitucionais e a legislação civil. Um dos detonadores da inclusão de Santarém como “ASN” foi a vitória, em 1966, do candidato do MDB Elias Ribeiro Pinto sobre o da Arena, Ubaldo Corrêa nas eleições para prefeito. Um longo embate se segue, com golpe dos perdedores, resistência, até culminar em passeata do medebista no ano de 1968, recebida com forte repressão da PM, mortes e prisões. Pelo ambiente conturbado e pelo potencial explosivo da região, já assombrada pela presença da Guerrilha do Araguaia, Santarém vira “ASN” e pouco depois, em 14 de julho de 1970, pelo Decreto-Lei 7125, é criado o CIPM de Santarém.
De Comandante a prefeito, de prefeito a Coronel
Foi assim que Antônio Carlos Nunes de Lima saiu do Gabinete Militar do Estado e virou Comandante do batalhão de Santarém em setembro de 1971, com a missão de intensificar os objetivos pelo qual tinha sido criado: “salvaguardar e manter a Ordem Pública nas regiões do Médio e Baixo Amazonas, Alto e Baixo Tapajós, bem como região do Xingu”.
Um total de 700 homens são incorporados ao CIPM de Santarém e uma repressão brutal se instala na área. De acordo com o professor da Universidade do Oeste do Pará Anselmo Alencar Colares, pós-doutor em Educação, com o CIPM “os militares e políticos da ARENA passavam a ter maior segurança para executar toda espécie de ação sem o receio de que pudessem ser importunados com algum tipo de manifestação”. O objetivo maior era a total eliminação de qualquer possibilidade de surgimento de um novo foco guerrilheiro na região. Para intimidar os moradores e demonstrar força, os batalhões das Forças Armadas e da PM faziam demonstrações de treinamento anti-guerrilha.
As expedições para matanças de índios, que viriam a ser chamadas de “correrias”, tornam-se comum na região, realizadas pelo Exército com apoio da PM.
Os batalhões de Polícia Militar também davam suporte para a execução dos Planos de Integração Nacional (PIN), que abriam estradas e foram responsáveis pelo genocídio de milhares de índios – em todo o país, a Comissão nacional da verdade contabilizou 8 mil indígenas mortos pela ditadura. Comissões da Verdades nacionais e estaduais da região investigaram os massacres. No Pará, os Parakanã e Arara foram assassinados nas “correrias”.
Os bons resultados à frente do CIPM de Santarém garantem uma promoção por merecimento ainda na função, e Nunes de Lima chega a Capitão em 1972. Em 1974 se torna Ajudante de Ordens do Governador. E em novembro de 1977, recebe como demonstração de confiança e pelos bons serviços, o cargo de prefeito da sua natal Monte Alegre, no oeste do Pará.
O então Capitão entra na última leva de prefeitos-biônicos do país, escolhidos pelo governo militar, que em 14 de abril de 1977, pela Emenda Constitucional nº 8, determina que prefeitos serão eleitos diretamente apenas dois anos depois (em 1980), numa tentativa de diminuir a pressão popular que crescia nas ruas. Presidente e governadores seguiriam ainda por eleição indireta.
Ao deixar a prefeitura de Monte Alegre em 1980, Nunes de Lima retorma a caserna, onde segue sendo promovido até ir para a reserva da PM em 1991 no posto de Coronel, designação que o acompanha o sobrenome até hoje.
Anistia política
O processo que assegurou “reparação econômica de caráter indenizatório, em prestação mensal, permanente e continuada” é apenas mais um capítulo polêmico na trajetória do Coronel Nunes.
Não há comprovação suficiente da existência de razões que justificassem o deferimento do pleito de anistiado político”, avaliou o Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) e Advocacia Geral da União (AGU) sobre o caso do atual presidente da CBF. “Tal situação, aliada à ausência de qualquer elemento individualizado nos autos a indicar perseguição política do requerente, indica, pois, a impossibilidade da incidência do reconhecimento da condição de anistiado político”. E completa: “a concessão de anistia sem que tenha havido comprovação de motivação exclusivamente política ofende diretamente a Constituição Federal”.
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Procurada pela reportagem, a FAB, através da assessoria de comunicação, informou que a saída de Nunes de Lima se deu por ter sido “licenciado do serviço ativo em virtude de conclusão de tempo de serviço na graduação de cabo”.
A defesa do Coronel Nunes para obtenção da anistia política tem como base a contestação da Portaria 1.104GM3, pós-golpe, de 12/10/1964. De acordo com a sustentação, tal portaria, no caso dos cabos, “limitou arbitrariamente as prorrogações de tempo de serviço por um período até oito anos”.
A limitação seria uma resposta ao engajamento de alguns cabos em atos de resistência ao golpe, casos específicos do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. O seu objetivo era atingir especificamente os cabos que já estavam na corporação e eram críticos ao regime. A portaria em questão tinha o objetivo de “renovar a corporação como estratégia militar, evitando-se a homogênea mobilização dos cabos eclodisse em movimentos subversivos pois havia descontentamento dentro da FAB com os acontecimentos políticos do país”, segundo consta no processo.
Em 9/5/2003, o então Ministro da Justiça Marcio Thomaz Bastos assina a concessão de anistia para Antônio Carlos Nunes de Lima.
Nove anos depois, em 15/2/2011, é instituído o “Grupo de Trabalho Interministerial” (GTI), formado por membros do Ministério da Justiça, Advocacia Geral da União (AGU) e Ministério da Defesa, com o objetivo de instruir a revisão da concessão de anistia que beneficiou os cabos afastados com base na Portaria 1.104. A anistia dos cabos passa a ter “averiguação individual”, caso a caso, e não como da forma genérica de antes, julgados em grupo – o elemento comum entre todos era a alegada saída da corporação por perseguição política, de acordo com a portaria 1.104.
Grupo de trabalho contesta reparação econômica
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Na análise individual do caso do Coronel Nunes, o GTI afirma que “não foram apontados fatos que evidenciem ou comprovem motivação política ou ato de exceção no desligamento do requerente dos quadros da Força Aérea Brasileira. Houve no caso tão somente a remissão a entendimento firmado de maneira genérica e abstrata. Desta forma, não há comprovação suficiente das razões que justificasse o deferimento do pleito de anistiado político. Tal situação, aliada à ausência de qualquer elemento individualizado nos autos a indicar perseguição política do requerente, indica, pois, a impossibilidade da incidência do reconhecimento da condição de anistiado político. O parecer conclui: “Aliás, pensar de maneira diversa, na ausência deste pressuposto fático basilar, representaria grave mácula à medida reparatória transicional e aos que dela verdadeiramente fazem jus”.
Em 9/8/2011, por considerar o caso do Coronel Nunes em desacordo com o entendimento dos casos em que a anistia deve ser concedida, o GTI pede a revisão do processo. Uma batalha jurídica é travada entre a defesa do atual presidente da CBF e o GTI, que após observar os argumentos da parte, afirma que a “vida militar do interessado transcorreu na mais absoluta normalidade”. E que “é imprescindível que haja nexo entre os fatos e a exclusão do militar em comento das fileiras da FAB. Assim, relatos genéricos referentes à base do Rio Grande do Sul não guardam pertinência com a atuação do militar que servira no extremo oposto do país, mais precisamente em Belém do Pará”.
Em fevereiro de 2012, o GTI propõe a anulação do processo de anistia do Coronel Nunes.
Assim, em 31 de julho de 2012, pela portaria ministerial 1622, o Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo anula a anistia do Coronel Nunes. A decisão é publicada no Diário Oficial da União no dia seguinte e entra em vigor.
Porém, poucos dias depois, no dia 3 de agosto, nova portaria do ministro Cardozo torna sem efeito a anulação e a anistia do Coronel Nunes volta a vigorar.
Histórias da repressão
Os 9 dias de intervalo entre a saída do Exército e a entrada na PM compõem um aspecto a ser analisado com interesse. É corrente entre estudiosos do tema que os serviços de informação do regime militar tiveram rígido controle sobre a vida dos cidadãos brasileiros. Assim, é absolutamente improvável que alguém com passagens consideradas “subversivas” viesse a deixar as Forças Armadas para ingressar na PM.
O historiador Carlos Fico, um dos maiores estudiosos do período da ditadura militar e do funcionamento dos órgãos de informação, acredita que poderia até ser possível naquele ano de 1967 tal cochilo do regime em instituições de diferentes estados. “Os órgãos de informação vão se estruturar efetivamente no fim de 1968, principalmente em 1969. Entre 1964 e 1968 é possível imaginar em falta de comunicação e passar alguém envolvido em algo. Mas de um estado para outro, não no mesmo estado, onde estas instituições se comunicavam”, afirma.
O posto do cabo Nunes na FAB foi lotado durante todo o tempo de serviço na Base Aérea da FAB em Belém; e o seu ingresso na polícia militar é na mesma cidade. Além disso, ele seguiu na PM após a tal estruturação efetiva dos órgãos de informação da ditadura militar, sempre ascendendo na corporação.
O papel da Polícia Militar do Pará, nos anos de chumbo, período no qual o presidente da CBF alcançou a alta hierarquia, também é analisado por Airton dos Reis Pereira, Doutor em História, professor na Universidade do Estado do Pará e especialista em História da Amazônia. “A Polícia Militar do Pará tem um histórico de violência e impunidade, envolvimento de seus membros com a pistolagem e repressão aos movimentos sociais e populares e muitas vezes assassinato dos integrantes. No período da repressão à guerrilha do Araguaia, a PM auxilia as tropas de repressão do Exército com blitz na Transamazônica e na repressão aos trabalhadores e moradores das redondezas, líderes sindicais e religiosos. Essa repressão da PM segue nos castanhais, fazendas, onde muitas vezes são contratados, no Bico do Papagaio. São inúmeros eventos. Creio ser impossível alguém da hierarquia da PM do Pará ter passado imune a tudo isso naquele período”, afirma.
A reportagem tentou contato com o Coronel Nunes diversas vezes e por diversas formas. A assessoria da CBF não respondeu às questões que foram enviadas ao seu atual presidente. Também o recado deixado no celular do Coronel Nunes não foi respondido, assim como o e-mail enviado para o advogado do presidente da CBF.
Foto: Divulgação/Federação Paraense de Futebol
Antonio Carlos Nunes de Lima ao lado dos ex-presidentes da CBF, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, e do ex-secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke, em 2014. Foto: Divulgação/Federação Paraense de Futebol
Antonio Carlos Nunes de Lima ao lado dos ex-presidentes da CBF, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, e do ex-secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke, em 2014. Foto: Divulgação/Federação Paraense de Futebol
A evolução do Coronel Nunes na PM
Nome: Antônio Carlos Nunes Lima
Nascimento: 21.11.1938
Naturalidade: Monte Alegre (Pará)
Inclusão na PM/PA: 19.01.1967
Declarado Aspirante a Oficial PM em 09.12.1967
Promoções:
2º Tenente PM em 16.02.1968 – Merecimento
1º Tenente PM em 20.05.1970 – Antiguidade
Capitão PM em 15.03.1972 – Merecimento
Major PM em 21.04.1977 – Merecimento
Tenente Coronel PM em 21.08.1981 – Merecimento
Coronel PM em 21.04.1990 – Merecimento
Reserva Remunerada em 27.02.1991
Funções:
Tesoureiro do Gabinete Militar do Estado (SET 1969 a MAI 1971)
Comandante da Companhia Independente de Santarém (atual 3º Batalhão PM) – MAI 1971 a ABR 1974
Ajudante de Ordens do Governador (MAR 1975 a NOV 1977)
Prefeito Municipal de Monte Alegre (NOV 1977 a SET 1980)
Sub Comandante do 2º Batalhão PM (OUT 1980 a MAR 1981)
Comandante do CFAP (MAR 1981 a MAI 1983)
Ajudante Geral (ABR 1983 a JUN 1983)
Chefe da 3ª Seção do EMG (JUN 1983 a JUL 1983)
Ajudante Geral (JUL 1983 a FEV 1986)
Chefe da 5ª Seção do EMG (JUL 1984 a DEZ 1985)
Chefe da 1ª Seção do EMG (DEZ 1986 a AGO 1987)
Presidente da COJ (AGO 1987)
Chefe da 5ª Seção do EMG (AGO 1987 a DEZ 1987)
Chefe do EM do Comando da Capital (DEZ 1987 a MAR 1988)
Comandante do 6º Batalhão PM (JAN 1988 a JAN 1989)
FONTE: Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social do Pará
*Lúcio Castro é jornalista
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Fonte:http://observatoriodaimprensa.com.br/jornalismo-investigativo/homem-da-ditadura-o-presidente-da-cbf-recebe-como-anistiado-politico/