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domingo, 10 de janeiro de 2016

PEDRO CORRÊA QUER DELATAR AÉCIO, ALDO E WAGNER

10.01.2016
Do portal BRASIL247
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Fonte:http://www.brasil247.com/pt/247/poder/212700/Pedro-Corr%C3%AAa-quer-delatar-A%C3%A9cio-Aldo-e-Wagner.htm

Ex-deputado que negocia delação cita Jaques Wagner e Aécio Neves

10.01.2016
Do portal FOLHA DE S.PAULO

Paulo Lisboa - 13.abr.15/Brazil Photo Press/Folhapress
CURITIBA, PR,13.04.2015 - PEDRO CORRÊA / LAVA-JATO / CURITIBA - O ex-deputado pelo PP de Pernambuco, Pedro Corrêa,chega ao IML para fazer exame corpo delito, tarde desta segunda-feira feira (24), O político, que cumpria pena em regime semi-aberto por condenação no processo do Mensalão, agora é alvo da Operação Lava Jato. O mandado de prisão preventiva contra ele foi expedido na última sexta-feira (10), quando deu inicio a decima primeira fase da operação Lava-Jato.(Foto: Paulo Lisboa / Brazil Photo Press) *** PARCEIRO FOLHAPRESS - FOTO COM CUSTO EXTRA E CRÉDITOS OBRIGATÓRIOS ***
O ex-deputado Pedro Corrêa, após prisão na Operação Lava Jato; ele negocia delação premiada
Em negociação com a força-tarefa da Operação Lava Jato e com a Procuradoria-Geral da República para firmar um acordo de delação premiada, o ex-presidente do PP (Partido Progressista) Pedro Corrêa adiantou ter informações capazes de comprometer aproximadamente cem políticos, entre eles dois ministros do atual governo: Jaques Wagner, da Casa Civil, e Aldo Rebelo, da Defesa.

A relação apresentada por Corrêa durante as tratativas inclui ainda o nome do senador Aécio Neves (PSDB-MG), candidato derrotado nas últimas eleições presidenciais.

Preso em Curitiba, Corrêa foi condenado a 20 anos de prisão sob acusação de corrupção e lavagem de dinheiro no esquema da Petrobras. A sentença aponta recebimento de R$ 11,7 milhões em propina. O ex-deputado federal por Pernambuco já havia sido condenado a sete anos de prisão no processo do mensalão.

A menção a Jaques Wagner, homem de confiança da presidente Dilma Rousseff, se soma a outras feitas ao petista na semana passada.

Nas tratativas de sua delação, o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró disse que o ministro recebeu recursos desviados da Petrobras para sua campanha ao governo da Bahia, em 2006. Wagner apareceu ainda em diálogos com o ex-presidente da OAS Léo Pinheiro, um dos alvos da investigação, prometendo interceder pela liberação de recursos para a empreiteira.

Segundo o jornal "O Estado de S. Paulo", mensagens entre Pinheiro e um funcionário da OAS indicam que o ministro intermediou também negócios entre a empreiteira e fundos de pensão.


NOMES

Corrêa também apresentou uma lista de supostos operadores, entre elesBenedito de Oliveira, o Bené, foco da Operação Acrônimo, que investiga suspeitas de irregularidades na campanha de Fernando Pimentel (PT) ao governo de Minas e indícios de compra de medidas provisórias.

De acordo com reportagem publicada pela revista "Veja" em setembro, Corrêa contou ainda que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha conhecimento de que deputados do PP pleiteavam indicações à diretoria da Petrobras com objetivo de arrecadarem dinheiro para suas campanhas políticas. Lula nega a acusação.

As conversas para a delação de Corrêa foram iniciadas há cerca de seis meses. Num primeiro momento, o material era composto por 180 anexos divididos por temas. Depois, foi apresentada nova divisão por nomes de políticos, com e sem foro privilegiado.

A negociação para que condenado e investigadores oficializem o termo de colaboração premiada deve ser retomada nesta semana.

Se a delação for aceita, o ex-presidente do PP será beneficiado por uma redução das penas impostas a ele. Os procuradores e Corrêa negociam que ele pague multa de cerca de R$ 4 milhões e cumpra um ano e meio de prisão em regime fechado –a defesa quer reduzir esse tempo.

Investigadores ouvidos pela Folha disseram que, embora Pedro Corrêa venha narrando o enredo de uma "grande crônica política", ele até agora não entregou provas convincentes para boa parte dos episódios relatados. A defesa do ex-parlamentar pernambucano sabe que, para o acordo vingar, os termos precisam ser taxativos e concretos.

OUTRO LADO

Procurado pela reportagem, o ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, informou por meio da assessoria de imprensa que desconhece os termos em que foi citado tanto por Pedro Corrêa tanto por Nestor Cerveró. Por isso, ele disse que não iria se pronunciar.
O petista acrescentou, no entanto, que está à disposição das autoridades e confia no resultado das investigações. Na sexta (8), o petista chamou a acusação de Cerveró de "ilação".

Sobre as mensagens com Léo Pinheiro, Wagner disse estar "absolutamente tranquilo" e que suas atividades são baseadas nos interesses da Bahia e do Brasil.
Aldo Rebelo preferiu não comentar, assim como Aécio Neves. A assessoria do tucano alegou que ele não teve acesso ao contexto da citação feita por Corrêa.

Folha não conseguiu localizar os representantes de Benedito de Oliveira. 
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Fonte:https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=6270130302447890955#editor/target=post;postID=1660627275406093772

A Prece e Cunha: dez anos de cumplicidade da mídia e do Ministério Público

10.01.2016
Do blog TIJOLAÇO, 09.01.16
Por Fernado Brito

cunhavamp
Folha, hoje, dá manchete para o relatório da Comissão de Valores Mobiliários  – vinculada ao Poder Executivo –  onde se afirma que os ganhos de Eduardo Cunha no mercado financeiro, à custa de prejuízos para o fundo de pensão dos funcionários da companhia de água e esgotos (que metáfora!) do Rio de Janeiro superam cosmicamente qualquer obra do acaso.
O esquema era simples: Cunha e a Prece aplicavam recursos em fundo de uma corretora, que aplicava o “bolo”. Onde ganhava, 98% era de Cunha; onde perdia, dos da entidade de previdência:
“Para se ter uma ideia, a probabilidade de se obter uma taxa de sucesso de 98% ocorre em uma vez para cada 257 septilhões. Sabendo-se que a chance de ganhar a Mega Sena quando se faz a aposta mínima é de 1 em 50 milhões, verifica-se que a chance de uma taxa de sucesso de 98% é praticamente nula e decorre claramente de uma fraude”.
Muito bem, parabéns pela descoberta das falcatruas de Cunha…
Espere aí, descoberta?
Deviam assinar a matéria com o nome do repórter Leonardo Souza, que registou, na mesma Folha e há mais de DEZ ANOS, a maracutaia de Cunha, descrita em seu texto.
Que, aliás, foi pega por outro órgão do Executivo, a Secretaria de Previdência Complementar do Ministério da Previdência, que aplicou as multas que eram de sua competência aplicar.
Não dá pra crer que a Procuradoria Geral da República não lesse os jornais, em 2005. Mesmo porque já havia a informação da chantagem de Cunha para abafar o caso.
Ou, quem sabe, a do coleguinha, gente boa, Sérgio Torres, na mesma Folha, dois anos depois, registrando  que o Tribunal de Contas do Rio (até o Tribunal de Contas do Rio!) havia encontrado prejuízos milionários na Prece e via o dedo de Eduardo Cunhapor lá.
Onde é que estiveram o MP e a Folha  nesta “década perdida”?
Como é que Eduardo Cunha construiu seu império de poder e dinheiro e chegou à Presidência da Câmara?
Por uma simples razão: servia para chantagear e, depois, derrubar o Governo que  odeiam.
Com todo o respeito ao trabalho dos profissionais que “requentaram”  o assunto, com detalhes mais picantes, não houve descoberta alguma.
Há, sim, a revelação de um longo período de leniência e cumplicidade da mídia e do Ministério Público diante de Eduardo Cunha, que permitiu ao monstro tomar o gigantismo que tem hoje.
E que, ainda assim, pretendem-lhe aproveitar, dando legitimidade, algo de sua obra: o processo de impeachment.
No direito, há uma teoria de  que a árvore que tem veneno em suas raízes o terá em seus frutos, sejam quais forem eles.
Com tudo o que sabem dele, e há tantos e tantos anos, pretender descer seu fruto goela abaixo da nação não pode ter outro sentido que não o de envenená-la.
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Fonte:http://tijolaco.com.br/blog/a-prece-e-cunha-dez-anos-de-cumplicidade-da-midia-e-do-ministerio-publico/

Resenha do livro: "Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja"

10.01.2016
Do blog GRAÇA LIVRE, 08.01.14
Por Thiago Velozo Titillo

HALL, Christopher A. Lendo as Escrituras com os pais da igreja. 2. ed. Tradução Rubens Castilho e Meire Santos. Viçosa, MG: Ultimato, 2007. 248 p.

A pergunta que permeia a obra de Hall é: a leitura bíblica dos pais da igreja tem algo a me acrescentar hoje?

Para responder a essa questão, o autor, logo no primeiro capítulo, apresenta motivos para ler os pais da igreja ("por que ler os pais?"). Hall desenvolve um cuidadoso trabalho no sentido de quebrar preconceitos protestantes acerca dos pais como sendo os promotores dos abusos medievais amparados pela tradição católica. O próprio Lutero interagiu com os pais, em particular, com Agostinho, insistindo que "é necessário comparar os livros dos pais com a Escritura e julgá-los de acordo com sua luz" (p. 19). Mesmo o moto "sola scriptura" não deve ser entendido como absoluto individualismo (oriundo do iluminismo). Lutero e Calvino consideraram seriamente a história, os credos e concílios, a tradição e os pais. Para tais reformadores, fechar-se a tais fontes era uma tolice cometida por arrogantes (p. 20). Como apelo final, Hall menciona a jornada teológica de Thomas Oden da teologia moderna (e liberal!) para a paleo-ortodoxia através do criterioso estudo do pensamento patrístico. Em última análise, esquecer o passado cristão é navegar à deriva no imenso mar do cristianismo histórico.

No capítulo dois, intitulado "a mente moderna e a interpretação bíblica", Christopher Hall mostra o impacto do iluminismo na teologia em geral, e na interpretação bíblica, em particular. O afastamento da cosmovisão cristã da realidade logo tornou o ateísmo uma opção filosófica amplamente aceita (pp. 31-32). A filosofia e a hermenêutica pós-moderna, no entanto, questionam a pretensão iluminista de uma razão autônoma. Doutro lado, cristãos conservadores buscavam interpretar a Bíblia como um livro que caiu do céu, lendo-a como se ninguém antes a tivesse lido. Tal fuga da tradição apenas alimenta o exagerado individualismo epistemológico e teológico prevalecentes hoje. Contra tal postura, Wilken argumenta que "nós aprendemos a pensar lendo bons pensadores e deixando que seus pensamentos formem nossos pensamentos" (p. 36). Eles já passaram pela prova do tempo. 

Ao construirmos pontes que nos levem ao mundo dos pais, poderemos encontrar respostas não-viciadas para questões atuais. Agostinho é um exemplo de como a questão do comportamento sexual também fazia parte da vida de um homem dos idos de 400 d.C. Sua sociedade também era sexualmente permissiva (p. 41). Clemente de Alexandria denuncia a extravagância e ostentação em suas próprias congregações (p. 42). Um argumento significativo em favor de se "ler as Escrituras com os pais da igreja" é a proximidade hermenêutica destes em relação aos textos sagrados. Hall cita Allison mencionando que nenhum comentário moderno sobre Mateus liga à afirmação de Jesus ("Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra"; Mateus 5.5) a Moisés. Todavia, Crisóstomo, Teodoreto de Ciro e Eusébio veem nas palavra de Jesus uma referência a Números 12.3, onde é dito que Moisés é o homem mais manso da terra, embora não tenha entrado na terra da promessa. Não seria sóbrio considerar tal alusão, tendo em vista a proximidade hermenêutica dos pais em relação às Escrituras?

No capítulo três, o autor define os critérios para ser um pai da igreja: 1) antiguidade; 2) santidade de vida; 3) doutrina ortodoxa; 4) aprovação eclesiástica.

No capítulo seguinte, Hall apresenta a abordagem hermenêutica dos quatro doutores do Oriente: Atanásio, Gregório de Nazianzo, Basílio o Grande e João Crisóstomo.

O capítulo cinco, segue a apresentação hermenêutica dos quatro doutores do Ocidente: Ambrósio, Jerônimo, Agostinho e Gregório o Grande.

No capítulo seis ("Os pais e a Escritura"), Christopher Hall apresenta a exegese em Alexandria, segundo a qual a Bíblia era tida como um texto polissêmico, contendo um significado mais profundo e espiritual do que aquele aparente num primeiro olhar. Para alguns pais a distinção entre tipologia e alegoria era uma linha tênue demais. As exegeses de Justino, Irineu, Filo (judeu) e Orígenes são tratadas nesse capítulo.

No capítulo seguinte, Hall apresenta a resposta de Antioquia, através de uma exegese fundamentada na "theoria" (tipologia) cristológica, priorizando o sentido histórico do texto. Deodoro de Tarso (seu comentário sobre os Salmos) e Teodoro de Mopsuéstia recebem atenção nesse capítulo. No fim do capítulo, o autor apresenta as singularidades das escolas alexandrina e antioquena sobre a questão da riqueza e da pobreza, principalmente à luz da passagem sobre o jovem rico.

O oitavo e último capítulo, intitulado, "Dando sentido à exegese patrística", busca fortalecer a ideia prévia de que a leitura dos pais é oportuna para os cristãos hodiernos. Isso porque há uma tradição comum entre os cristãos de segmentos diferentes, inclusive naqueles que pensam que existem sem qualquer tradição. Ouvir os pais e recordar aquilo que o Espírito deu aos seus servos do passado não é apenas sábio, mas um sinal de confiança no Deus que agiu no passado e continua a agir hoje.






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Fonte:http://graca-livre.webnode.com/news/resenha-do-livro-lendo-as-escrituras-com-os-pais-da-igreja/

'Massacre de Curuguaty possibilitou assalto das multinacionais ao poder político no Paraguai'

10.01.2016
Do portal da AGÊNCIA CARTA MAIOR, 08.01.16
Por Leonardo Wexell Severo e Nicolás Honigesz, de Assunção

'Na prática ocorrem três coisas: um genocídio, um ecocídio e um etnocídio', denuncia o líder camponês paraguaio Ernesto Benítez

reprodução
Dirigente da Coordenadora de Produtos Agropecuários de São Pedro Norte e destacada liderança do movimento camponês do Paraguai, Ernesto Benítez carrega consigo as marcas de quem nunca se rendeu aos poderosos de plantão. 

Em 7 de setembro de 1995, foi um dos 21 feridos à bala durante ataque da Polícia Nacional contra manifestantes em Santa Rosa del Aguaray. Na oportunidade foi assassinado Pedro Giménez, de apenas 20 anos. “Os policiais me dispararam com uma escopeta e quase perdi a vida. Tiveram que extirpar uma parte do pulmão”, conta. Em 2003, durante protesto com 16 feridos à bala, em que foi assassinado Eulalio Blanco, Benítez foi levado à Delegacia de Santa Rosa, onde foi torturado por militares e policiais. 

Na sua avaliação, enquanto não houver reforma agrária e o poder dos grandes produtores de soja e das multinacionais continuar intacto, “não haverá justiça no Paraguai”. Para Benítez, este é o grande nó do embate judicial que cerca o julgamento do massacre de Curuguaty: “se os companheiros saírem livres e fica claro que é uma terra pública, o que entrará em pauta são os 10 milhões de hectares grilados que foram parar nas mãos do latifúndio”. 

“Outra questão fundamental é que foi com o massacre de Curuguaty que se montou o golpe de Estado e o assalto das multinacionais ao poder político”, frisou. O “confronto” entre 324 policiais fortemente armados com fuzis Galil, escudos, bombas de gás lacrimogêneo, cavalos e helicóptero, e 60 camponeses – metade deles mulheres, crianças e idosos - em Marina Kue, Curuguaty, ocorreu no dia 15 de junho de 2012. O presidente Fernando Lugo foi afastado uma semana depois de um “julgamento” relâmpago. Abaixo, a íntegra da entrevista.


O último censo do Paraguai, de 2008, aponta que 85,5% das terras do país estão nas mãos de 2,5% dos proprietários. O que mudou nos últimos anos?
 
Creio que a situação de desigualdade vem piorando aceleradamente. Atualmente, com este novo governo que definimos como o da etapa da transnacionalização definitiva, isso se aprofundou, porque atende unicamente os interesses de umas 200 famílias da burguesia local e é subordinado ao capital internacional. Por isso ataca sistematicamente a população indígena e camponesa, com as instituições do Estado atuando abertamente a favor dos interesses das multinacionais. Então, produto da pobreza e da violência, a desigualdade vem se aprofundando.

No Paraguai os produtores de soja praticamente não pagam imposto. Como é isso?
 
Houve muitas tentativas no último período por parte das organizações camponesas, articulando com parlamentares da Frente Guazu e de outros representantes de partidos de centro, progressistas, de seguir adiante com um estudo no parlamento e, posteriormente, trabalharmos para a promulgação de uma lei que estabeleceria o pagamento de 12 a 15% de impostos por parte dos sojeiros. Houve o estudo no parlamento, passou nas duas casas e chegou ao presidente, que o vetou. E continuou valendo a lei anterior que não chega a 3% do pagamento de impostos.
 
O que é praticamente nada.
 
É nada. Só a população em seu conjunto paga 10% de imposto, de IVA. São os pobres que sustentam o funcionamento do Estado neste país.
 
Podemos sentir o aumento dos preços não só da cesta básica, como da comida em geral. Há um mar de soja, um enorme rebanho bovino e praticamente nada mais. Toda a lógica é produzir para exportar. Como ficam os pequenos produtores neste jogo?
 
Se fazemos uma análise mais profunda, o momento histórico que vivemos é realmente doloroso. Há uma disputa entre uma força hegemônica dominante, que são os proprietários do agronegócio, e a população indígena e camponesa que trata de sobreviver e está resistindo. Não são somente dois modelos econômicos, senão duas visões, duas formas de ver e de viver o mundo.
 
Descreva rapidamente este embate.
 
O modelo hegemônico, que se chama tecnicamente de agronegócio, nós o definimos como um olhar unidimensional. A terra é meio de produção: a água, a árvore, a semente, as plantas, os animais, o ser humano, tudo é mercadoria. É unidimensional: se vê tudo como dinheiro. Já nosso olhar é multidimensional, porque a terra não é somente terra, é território, é espaço de vida.
 
Em toda a sua plenitude...
 
A terra é primeiramente um espaço ecológico, onde o ser humano convive com o resto da natureza em mútua inter-relação. As árvores são fundamentais porque garantem a vida. O ser humano é o mais indefeso e mais dependente, necessita das árvores para respirar. É fundamental que exista água limpa porque o corpo e o cérebro estão cheios de água. Então a terra é espaço de inter-relação com a natureza, é espaço social, onde o ser humano se ajuda mutuamente, se solidariza. Nosso território é espaço cultural. Como diz a população indígena, a guarani fundamentalmente, sem território não há cultura, pois é onde as pessoas nascem, trabalham, falam, cantam, jogam, rezam, morrem... É toda sua construção de solidariedade, humanismo, respeito à natureza. 

É espaço político, onde ganha autoridade a partir do seu humanismo, das suas atitudes para com os demais. É espaço tecnológico também porque de acordo com a sua forma de ver o mundo desenvolve técnicas produtivas para lhe garantir a sua sobrevivência, ferramentas que não danem muito a natureza. É espaço econômico também porque é espaço de trabalho onde produz alimento básico para a subsistência. Definitivamente é um espaço filosófico onde se desenvolve toda uma cosmovisão, toda uma forma de entender e de viver o mundo. Então, além de um modelo econômico, o agronegócio que é iminentemente produção de grãos, de mercadorias, de carne para os países centrais, para nós, para a população indígena e camponesa, é espaço de vida. Ou seja, além do choque entre dois modelos econômicos, são duas formas de entender o mundo, o que gera muita violência.
 
Houve uma expansão enorme do agronegócio com reflexos perversos para a população.
 
Dos 40 milhões de hectares que têm o nosso país, cerca de 38 milhões já estão nas mãos do agronegócio. Ao redor de dois milhões e um pouquinho estão nas mãos de 33% da população paraguaia, indígenas e camponeses que são ao redor de dois milhões e meio. Para a consolidação desse modelo do agronegócio eles necessitam expulsar toda esta população que ainda resiste no campo. Por isso recorrem à violência.
 
Vocês estão denunciando que esta lógica está levando a um genocídio.
 
Na prática ocorrem três coisas: um genocídio, um ecocídio e um etnocídio. As autoridades tratam por todos os meios de encobrir o genocídio, de silenciar, para que a população não veja, não entenda o que está se passando. Apesar disso, o fato é que ao longo destes últimos 20 anos foram assassinados por policiais, militares e jagunços muitíssimos camponeses. Porém, não se assassina apenas com balas. É com agrotóxicos que matam mais gente,  adultos, anciões e crianças, também expostos a todo tipo de deformações que obrigam as famílias a fugirem do campo.
 
E a devastação ambiental?

Se dá um ecocídio também. Porque nos últimos quatro anos colocaram abaixo quatro milhões de hectares de bosque. Hoje no Paraguai se colocam abaixo 1.500 hectares de bosque por dia. A morte dos bosques, rios, riachos, lagos que vão secando rapidamente, o que vai gerando grande perda de recursos naturais.

O que é mais triste?

O mais doloroso é o etnocídio, a morte cultural de um povo. Para nós, a terra é elemento essencial da construção enquanto nação, como povo paraguaio. Quando perdemos a terra, já não somos mais o que éramos antes, perdemos nossa raiz. O contato com a terra é fundamental para a nossa sobrevivência cultural e nossa construção como nação. Então todos estes elementos vão se desenvolvendo no campo. São ao redor de um milhão e meio de paraguaios que tiveram de migrar para as cidades ou ir para o estrangeiro nas últimas duas décadas. Para nós isso é muita violência, e é também muito doloroso para a população indígena e camponesa que luta, se sacrifica e se esforça.

É uma agressão impressionante, porque se dá em todos os planos...

É muito brutal, é muito cruel o inimigo porque eles têm todo o aparato do Estado em suas mãos. São as multinacionais que com crueldade avançam com uma força tremenda sobre o nosso território e vão destruindo tudo.

Isso explica porque na segunda greve geral contra o governo Cartes, realizada recentemente, a bandeira da reforma agrária tremulou alto?

Historicamente a reforma agrária tem sido uma bandeira fundamental para o nosso país, para a população do campo e da cidade. É um instrumento fundamental para assegurar a sobrevivência de uma boa parte da população no campo e alimento para a cidade. Hoje em dia, fruto do empobrecimento extremo da população camponesa e indígena, muitos dos produtos que se consomem no país precisam ser importados. 

Como a produção vai ficando nas mãos das multinacionais o que se come no campo, e fundamentalmente na cidade, é extremamente prejudicial porque está cheio de agrotóxicos: o tomate, o pimentão, o morango. Todos os produtos básicos que se consomem diariamente no país entre frutas e verduras recebem de 12 a 15 fumigações em seis meses. É algo brutal. Por isso se falamos da construção de um país democrático, um país que se preocupa com o bem-estar do seu povo, pela alimentação saudável, é fundamental mudar esta estrutura agrária injusta que beneficia um punhado de proprietários locais e estrangeiros e prejudica a quase sete milhões de paraguaios e paraguaias.

Vem daí um importante elemento para a unidade dos movimentos sociais...

É um elemento essencial na luta do nosso povo hoje em dia na articulação entre a população indígena, camponesa e os setores urbanos organizados. Sem a reforma agrária não pode haver mudança neste país, porque o modelo econômico ainda tem um grande impacto do agronegócio. A produção de gado, a produção de grãos, os bancos e as financeiras que se instalam na cidades, mas fundamentalmente para articular a produção agrária, os silos, os transportes, os portos, tudo isso está relacionado com a atividade econômica que se desenvolve no campo. Então, é central que os setores urbanos, os operários, os estudantes, incluam esta reivindicação em sua pauta. Quando se convoca uma greve geral com destaque para a mudança desta estrutura agrária injusta, isso demonstra que há consciência.

Como avalias a forma como os grandes conglomerados de comunicação abordaram o massacre de Curuguaty?

Há duas questões para um comportamento tão agressivo e cruel por parte deles. O primeiro é que querem castigar, mandar presos por 25, 30 anos, esses companheiros. Se não conseguem isso, se eles saem livres, vai se demonstrar que estas terras não são propriedade privada, são propriedade do Estado. E que são tierras mal habidas (ilícitas), que é como chamamos as terras que estão em mãos de proprietários privados, mas que anteriormente, há 20, 30 anos, eram propriedade pública, do Estado. Terras que pertenciam às comunidades e que foram tomadas durante a ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989), através da violência e dos abusos do Exército, da polícia e de jagunços.

De quanta terra estamos falando?

Comprovadamente foram oito milhões, mas há instituições que dizem que são dez milhões, 25% do território nacional foi arrancado violentamente dos seus legítimos donos. Isso ocorreu nas décadas de 60 e 70, fundamentalmente. Foi algo totalmente ilegal, uma vez que a lei é clara: os sujeitos da reforma agrária são os camponeses e a população indígena, são eles que devem receber terras do Estado.

Em vez disso ficaram nas mãos dos apaniguados de Stroessner.

Exato. São estas tierras mal habidas que estão na base do conflito de Curuguaty.  Elas pertenciam anteriormente a um proprietário estrangeiro, o Estado paraguaio recuperou estas terras que pertenciam à Marinha, e por isso se chama Marina Kue. Mas pouco a pouco a família Riquelme (Blas Riquelme foi um senador do Partido Colorado, de Stroessner), com o apoio de algumas instituições estatais, foi se apropriando. 

Definitivamente Marina Kue é uma terra pública reivindicada por um proprietário particular, é terra grilada. A primeira questão então é esta: se os companheiros saírem livres e se fica claro que é uma terra pública, o que entrará em pauta são os 10 milhões de hectares de terras públicas, será preciso esclarecer porque foram parar nas mãos do latifúndio. Este é um ponto. Outra questão fundamental é que foi com o massacre de Curuguaty que se montou o golpe de Estado e o assalto das multinacionais ao poder político. Elas já tinham poder econômico com as grandes plantações, o gado, a máfia do narcotráfico. Desde muito tempo iam controlando todo o sistema educativo, introduzindo conceitos neoliberais, se apropriando das universidades. 

Hoje já contam com 80 universidades privadas. Assim tomaram o aparato ideológico e, finalmente, com o massacre de Curuguaty, limpam o caminho para Carter ser o presidente da República e para que as multinacionais tomem o poder político. Assim completam o processo. É isso o que está em jogo com a luta pela libertação dos companheiros. Se eles saem livres se desmonta a causa fundamental que está por detrás do triunfo de Cartes, que é o triunfo das multinacionais em nosso país.


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Fonte:http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/-Massacre-de-Curuguaty-possibilitou-assalto-das-multinacionais-ao-poder-politico-no-Paraguai-/6/35294