segunda-feira, 18 de abril de 2016

Não há chance de união para Temer, por Luís Costa Pinto

18.04.2016
Do blog TIJOLAÇO
Por FERNANDO BRITO 

coruja
Imperdível a leitura do artigo do sempre lúcido Luís Costa Pinto, no El País da qual transcrevo o trecho final, onde ele aborda as perspetivas do homem que, meses atrás, começava a cantilena ambiciosa anunciando que se precisava de alguém para “unir o país”. Tudo o que ele não pode pretender ser, agora e nunca mais. Menos ainda com a incômoda e  “dura de matar” companhia de Eduardo Cunha.
Um panorama terrível para o Brasil e olhem que o Lula Costa Pinto nem colocou nele um tempero altamente possível: a pimenta das ruas, cujo grau de ardência habita o campo do imponderável.

Triunfo sem glória, vitória sem heróis

Luís Costa Pinto, no El País (trecho)
Não há chance de o Brasil de 2016 se unir em torno de Michel Temer, o vice-presidente que deve assumir o posto de presidente interino da República nas próximas três ou quatro semanas. Ao contrário de Itamar, o paulista Temer é o centro de uma vasta rede de raposas políticas que compartilham ambições semelhantes, porém cada um deles guarda no bolso direito dos paletós bem cortados fórmulas divergentes para o exercício do poder. Hábil operador político, Michel Temer carpiu a armadilha que capturou a presidente no processo de impeachment. Mas os 146 votos dados contra o impeachment (137 “não”, 7 abstenções e duas ausências) e uma incipiente adesão à tese de antecipação das eleições presidenciais, mesmo entre integrantes do bloco majoritário que aprovou a abertura do processo, são obstáculos sólidos à construção tranquila e rápida de um eventual “Governo Temer”. A chave para o sucesso de Temer certamente será a recusa em buscar a difícil unanimidade em torno de si. Caso a busque, não a encontrará e ficará tentando dialogar com quem lhe imporá monólogos.
A partir de hoje Michel Temer será instado a dar opiniões e a esgrimir soluções para o país nos campos da economia interna, das relações externas e da segurança pública, do combate à corrupção e da saúde, por exemplo. Um eventual governo sob sua liderança, contudo, só se iniciará depois que o Senado confirmar a abertura do processo admitido na Câmara. Para isso terá de transpor duas votações por maioria simples (em que vence quem tem 50% mais um dos votos dos senadores presentes às sessões). Em 1992 o Senado admitiu o processo e afastou Collor num prazo de 48 horas. Agora, serão transcorridos cerca de 20 dias em que o país conviverá com uma presidente virtualmente afastada, um presidente interino virtualmente sagrado e um Senado povoado por biografias astutas e prontuários experientes sedentos por impor seus ritmos e ritos à evolução do calendário – ampliando ou reduzindo o prazo da posse de Temer. Divisões de poder e o desencadeamento de novas e esperadas fases da Operação Lava Jato, além da publicidade de novos e cada vez mais constrangedores detalhes de delações premiadas, também turvarão a cena política das próximas semanas e conferirão pitadas ainda mais dramáticas ao enredo político do Brasil.
Frio, dono de um sorriso cínico e “usufrutuário” de polpudas contas na Suíça, investigado como beneficiário de empresas offshores no Panamá, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara e elemento decisivo na escalada que pode levar Temer à cadeira de Dilma no Palácio do Planalto, poderia ser o herói destinado a ter sua saga narrada num obelisco improvável na Praça dos Três Poderes. Não o será: em que pese o Brasil figurar como o único país que ergueu um obelisco para celebrar uma derrota – o do Ibirapuera, em São Paulo, construído para eternizar o levante constitucionalista de 1932 esmagado sem dó por Getúlio Vargas – obeliscos costumam ser planejados para marcar triunfos gloriosos. Nem Cunha é herói, uma vez que possui o DNA dos vilões e o olhar frio dos psicopatas, nem o triunfo da oposição sobre um governo abúlico, no último domingo, foi um épico glorioso. A Nação que assistiu serem dados 367 votos a favor da abertura do processo de impeachment de uma presidente eleita com mais de 54 milhões de sufrágios há menos de 18 meses está dividida e sem perspectiva de se unir. Está sem líderes no horizonte, sem projetos que amalgamem a sociedade, carente de base onde assentar a pedra fundamental de qualquer monumento. E construir futuros é um desafio monumental. Temer tem contra si, agora, a marcha implacável do tempo para evitar que a História, ao fim e ao cabo, termine escrita pelos vencidos na batalha de 17 de abril. Afinal, a guerra não acabou ali.
*****
Fonte:http://www.tijolaco.com.br/blog/nao-ha-chance-de-uniao-para-temer-por-luis-costa-pinto/
Postar um comentário