domingo, 24 de janeiro de 2016

EUA, DESUMANOS: GUERRA AOS SEM-TETO. NOS EUA, CIDADES PERDEM O BOM SENSO

24.01.2016
Do portal BRASIL247,22.01.16
REVISTA DIGITAL OÁSIS
: Para combater os moradores de rua, o distrito de Waikiki, em Honolulu, no arquipélago do Havaí, planeja mandar todos eles de avião para o continente.  Em Fort Lauderdale, na Flórida, um homem foi para na cadeia por dar comida a desabrigados. O que acontece nos estados Unidos?
Sem-teto Jim Trevarthen, 62 anos, observa os surfistas na praia de Waikiki, em Honolulu, Havaí
Sem-teto Jim Trevarthen, 62 anos, observa os surfistas na praia de Waikiki, em Honolulu, Havaí
Por: Melissa Breyer
Fonte: Site Mother Nature Network (www.mnn.com)
Recente relatório do Congresso norte-americano estima que, só neste ano, 578.424 pessoas experimentaram a condição de morador de rua nos Estados Unidos. Isso representa cerca de 10% de redução no número de indivíduos sem-teto que perambulam pelas cidades americanas desde 2010, quando a administração Obama lançou a primeira estratégia com lógica para prevenir e por fim ao drama dos desabrigados.
O projeto já mostra alguns resultados, mas enquanto ele segue avante, várias cidades e estados no país estão tentando aplicar soluções que provocam frustração e até mesmo desespero.
Em junho último, o prefeito de Honolulu, Kirk Caldwell, escreveu um artigo publicado no jornal The Honolulu Star-Advertiser no qual afirmava: “Chegou o momento de declarar guerra aos sem-teto, cuja presença criou uma verdadeira crise em Honolulu. Não podemos permitir que os moradores de rua arruínem a nossa economia e tomem posse da cidade”.
Em parque público de Honolulu, fila de barracas de moradores de rua
Em parque público de Honolulu, fila de barracas de moradores de rua
Em setembro, seduzido pela ideia, o Honolulu City Council – uma espécie de câmera de vereadores local – aprovou medidas duras para expulsar os sem-teto dos pontos turísticos mais importantes do Havaí, inclusive uma que proíbe a permanência de pessoas sentadas ou deitadas nas calçadas de Waikiki.
Há poucos dias, o Institute for Human Services havaiano gastou 1,3 milhão de dólares para lançar uma iniciativa que amplia essas proibições, estendendo-a a todas as demais ruas da capital. A permanência dos sem-teto será proibida em qualquer ponto das belas avenidas arborizadas de Honolulu. Entre as medidas preconizadas por esse plano está a expulsão e o envio por via aérea ao continente das algumas centenas de moradores de rua que vivem nas ilhas do arquipélago. Será como empacotá-los e mandá-los para bem longe.
Em muitas cidades norte-americanas centenas de sem-teto perambulam pelas ruas
Em muitas cidades norte-americanas centenas de sem-teto perambulam pelas ruas
Como reagiram os cidadãos havaianos? Muitos apoiam ostensivamente o plano, outros preferem não se manifestar e ficar calados. Somente uns poucos protestam. “Quando os moradores ficam sabendo que a queixa número um dos turistas que visitam a ilha, e o principal motivo pelo qual declaram que não voltarão ao Havaí é justamente a presença dos sem-teto, você realmente se depara com uma questão que diz respeito a todos nós”, declara George Szigeti, presidente da Hawaii Lodging & Tourism Association.
Mas nem todos concordam. A instituição religiosa Interfaith Alliance Hawaii’s Bishop Stephen Randolph Sykes, por exemplo, apresenta sérias dúvidas se o governo havaiano está certo ao tentar se livrar dos moradores de rua de modo tão radical. “Reconhecemos que Waikiki é o nosso motor econômico, e manter moradores de rua nesse bairro não é algo que deva ser considerado benéfico”, diz o líder da instituição. “Mas criminalizar e punir uma pessoa apenas porque ela  não tem onde morar nos parece absurdo e imoral”, ele completa.
Arnold Abbott no momento em que recebe ordem de prisão por dar comida a moradores de rua
Arnold Abbott no momento em que recebe ordem de prisão por dar comida a moradores de rua
Enquanto isso, em Fort Lauderdale, Flórida, o cidadão Arnold Abbott, de 90 anos, passou os últimos anos dedicando-se à alimentação de moradores de rua. Como de costume, ele fornecia 300 almoços preparados em sua casa para pessoas desabrigadas quando, apos entregar apenas 3 pratos, foi preso pela polícia local. O crime? Violar uma lei recente que proíbe a grupos de caridade a doação, em locais públicos, de alimentos a desabrigados. Abbott e dois amigos que o ajudavam na tarefa foram condenados a 60 dias de cadeia e a pagar uma multa de 500 dólares.
Arnold Abbott, 90 anos, foi preso e multado em Fort Lauderdale, na Flórida, por organizar um mutirão de alimentação a moradores de rua
Arnold Abbott, 90 anos, foi preso e multado em Fort Lauderdale, na Flórida, por organizar um mutirão de alimentação a moradores de rua
Vamos deixá-los morrer de fome?
Um dos itens dessa nova lei autoriza as autoridades a confiscar os pertences do morador de rua e guarda-los num depósito até que o proprietário pague uma taxa à municipalidade.
Como informou recentemente o jornal Washington Post, as ações de caridade para a alimentação dessas pessoas estão severamente restringidas. Declaram que a localização dos lugares internos para distribuição de comida devem distar no mínimo 200 metros um do outro, e não podem funcionar ao mesmo tempo em um mesmo quarteirão. Esses locais, por outro lado, têm que distar obrigatoriamente um mínimo de 200 metros de qualquer residência habitada, e além disso os organizadores devem pedir e obter permissão dos moradores mais próximos para a instalação de banheiros portáteis nas proximidades.
E Fort Lauderdale não está sozinha ao decretar tais proibições e punições. Nos últimos 2 anos, 21 outras cidades aprovaram leis que restringem a doação de alimentos para os moradores de rua. A National Coalition for the Homeless, organização para a proteção dos desabrigados, informa que no momento mais 10 cidades norte-americanas estão planejando por em prática medidas similares.
Shauna Landry é sem-teto em Waikiki há mais de 3 meses. No cartaz, ela pede ajuda para matar a fome
Shauna Landry é sem-teto em Waikiki há mais de 3 meses. No cartaz, ela pede ajuda para matar a fome
Da mesma forma que Abbott, a National Coalition protesta contra essas medidas e começa a lutar judicialmente contra elas.
“Como já fizemos no passado, seremos novamente obrigados a processar a cidade de Fort Lauderdale. Trata-se de uma bela cidade, sem dúvida, mas os sem-teto que vivem aqui são os mais pobres dentre os pobres, eles não possuem nada, não têm onde morar. Como podemos expulsá-los?”
O plano de Barack Obama para os desabrigados cria estratégias que inclui moradia, saúde, educação e programas humanitários para acabar com o problema dos sem-teto nos estados Unidos. Espera-se que ele será totalmente funcional ao redor de 2020. Até lá, alimentar pessoas famintas será uma atividade assim tão perigosa? Devemos por acaso deixar essas pessoas morrer de fome?
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