domingo, 17 de janeiro de 2016

A mídia e a Lava-Jato

17.01.2016
Do portal BRASIL247
Por Ribamar Fonseca

Tânia Rêgo; Agencia Brasil: Policiais federais cumprem mandados de busca e apreensão na sede da empreiteira Norberto Odebrecht, no Rio de Janeiro, como parte da 14ª fase da Operação Lava Jato (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Todo brasileiro apoia o combate à corrupção que vem sendo desenvolvido pelo governo da presidenta Dilma Rousseff, através da Polícia Federal, mas ninguém que tenha um mínimo de senso de justiça aprova os métodos empregados pela Operação Lava-Jato, que ignorou o velho preceito jurídico segundo o qual "todos são inocentes até prova em contrário". Na Lava-Jato, todos são culpados até provarem sua inocência, o que tem permitido a prisão de muita gente com base apenas na citação do seu nome pelos delatores. Somente depois da prisão deles é que são iniciadas as investigações sobre seus supostos crimes, mas a esta altura já foram julgados e condenados pela mídia.

A Lava-Jato, aliás, há tempos vem recebendo severas críticas de juristas renomados – e recentemente de um grupo de advogados criminalistas – o que não significa um posicionamento contrário ao combate à corrupção. O que eles condenam é o método adotado pelo juiz Sergio Moro que, em plena democracia, conseguiu superar a ditadura, praticamente ignorando o estado de direito. O renomado advogado Técio Lins e Silva, por exemplo, que no tempo do regime militar defendeu muitos presos políticos, chegou a dizer, em entrevista à "Folha de S.Paulo", que há "uma arbitrariedade como nunca se viu no Brasil, nem na ditadura", pensamento compartilhado por muita gente.

Na verdade, não é difícil perceber a coloração político-partidária das investigações, onde não há seletividade apenas no vazamento dos depoimentos. Os investigados também são selecionados por sua filiação partidária, ligações com o Planalto ou apenas simpatia com o governo federal. Hoje parece que a melhor maneira de ficar a salvo de qualquer investigação é ser tucano ou contra o governo, o que evidencia a politização da Lava-Jato. Aliás, em sua entrevista, o advogado Técio Lins e Silva, a propósito do escandaloso comportamento político da operação, faz críticas ao procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa, afirmando que ele "confunde militância política com a função pública de procurador".

Aparentemente os integrantes da força-tarefa foram escolhidos a dedo por suas preferências político-partidárias. Além de Dallagnol, citado por Lins e Silva, outro integrante da Lava-Jato que volta e meia faz críticas públicas acerbas ao governo da presidenta Dilma Rousseff, algumas desrespeitosas, é o procurador Carlos Fernandes dos Santos Lima, que tem cara de personagem do filme "Alice no País das Maravilhas". Em declarações recentes sobre a chamada MP da Leniência, que permite acordos de leniência com empresas investigadas, disse que "a edição sorrateira da medida provisória, em pleno recesso, trouxe mudanças que interessam, em essência, às empreiteiras investigadas". E acrescentou: "Esses acordos revelaram estruturas sistêmicas de corrupção em obras federais, e da estrutura político-partidária que sustenta o governo". Diante dessas declarações alguém será capaz de acreditar que existe isenção nas investigações?

Apesar dessa escandalosa politização da Lava-Jato e dos métodos arbitrários das prisões, geralmente justificadas por "suspeitas" de "suposto" recebimento de propinas quando são petistas ou assemelhados – procedimento já denunciado à exaustão por renomados juristas – o juiz Sérgio Moro continua atuando como se detivesse o poder absoluto, indiferente à legislação e às críticas. Fortalecido pelo apoio incondicional da mídia, que o transformou em celebridade, ele sequer se preocupa com o que possam pensar os integrantes do poder maior do Judiciário, os ministros do Supremo Tribunal Federal que, provavelmente temerosos de desagradarem a chamada Grande Imprensa, avalizam todos os seus atos. E negam todos os pedidos de habeas corpus em favor dos presos.

Essa mídia, que destrói impunemente reputações e amedronta até mesmo os membros da mais alta Corte de Justiça do país, continua empenhada em eliminar o ex-presidente Lula da vida pública, movendo céus e terra para impedir o seu retorno ao Palácio do Planalto nas eleições de 2018. Para atingir seus objetivos, vale tudo, até mesmo, à falta de coisa melhor, publicar seguidamente em manchete de primeira página que um dos presos "é amigo de Lula". Qualquer coisa serve para destroçar a imagem do ex-presidente operário, considerado o melhor presidente que este país já teve. E a Operação Lava-Jato representa a grande esperança dos barões da imprensa para tirar Lula da cena política, daí porque ela há tempos tem espaço cativo nas páginas dos jornais e revistas semanais.

É fácil perceber a sintonia que existe entre a mídia e a Lava-Jato para atingir Lula, que já foi retratado na capa da "Veja" até como presidiário. Como, apesar do esforço da mídia e investigadores, até hoje não foi encontrado absolutamente nada que possa incriminar o ex-presidente operário, a suposta indicação de Nestor Cerveró para diretor da Petrobrás passou a ser um "crime grave" atribuído a Lula e, por isso, ganhou as manchetes de todos os jornalões. Enquanto isso, o senador tucano Aécio Neves e o ex-presidente Fernando Henrique, ambos acusados de receberem propinas, não foram sequer incomodados pelos diligentes investigadores da Lava-Jato. E essa mesma mídia, que escandaliza qualquer coisa relacionada a Lula, simplesmente ignorou solenemente a acusação aos dois líderes tucanos, noticiando discretamente o fato ou omitindo a notícia. Por essas e por outras é que o público leitor e telespectador, mais maduro e já cansado dessas armações, vai desacreditando todos, mídia e investigadores, o que vem se refletindo na queda nas vendas dos impressos e na audiência, por exemplo, da Globo.
****
Fonte:http://www.brasil247.com/pt/colunistas/ribamarfonseca/213582/A-m%C3%ADdia-e-a-Lava-Jato.htm
Postar um comentário