quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Para acalmar investidores sobre eleição na Grécia, banco dos EUA compara líder de esquerda a Lula

21.01.2015
Do portal OPERA MUNDI, 20.01.15
Por Marcelo Montanini | Lisboa

Bank of America Merrill Lynch argumenta que Alexis Tsipras, do Syriza, poderia acelerar reformar estruturais no país europeu

Em meio à tensão gerada pela possível vitória do partido de esquerda Syriza na eleição grega, marcada para o próximo domingo (25/01), especialmente nos organismos ligados ao mercado financeiro, o Bank of America Merrill Lynch em Londres tratou de acalmar seus investidores. A instituição enviou na última semana um informe aos clientes avaliando que o medo dos mercados pode não ter fundamento e compara o líder do Syriza, Alexis Tsipras, ao ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva.


“Vejamos o ex-presidente do Brasil Lula da Silva (2003-2010), um ex-líder sindicalista de esquerda que demonstrou que o medo dos mercados [em relação a sua ascensão ao poder] era infundado, e agora lhe dão o crédito pela impressionante trajetória econômica do Brasil”, diz o comunicado. 

Vitor Sion/Opera Mundi
Alexis Tsipras lidera o Syriza, partido de esquerda favorito às eleições gregas deste domingo

“Embora o ambiente externo da Grécia seja mais complicado, o caso de Lula prova que Tsipras poderia surpreender positivamente de forma semelhante os mercados, acelerando reformas estruturantes”, acrescenta.

No entanto, o banco adverte que a vitória do Syriza pode gerar “volatilidade nos mercados” durante o primeiro semestre do ano, enquanto o eventual governo estiver negociando um novo acordo sobre o pagamento da dívida pública grega, que, estima-se, está equivalente a 177% do PIB (Produto Interno Bruto) do país.

O Syriza lidera as pesquisas de intenção de voto na Grécia, com cerca de 4 pontos percentuais de vantagem em relação ao governista Nova Democracia. No domingo (18/01), o jornal I Kathimerinipublicou levantamento em que o partido de esquerda tem 34,5% das preferências, ante 30,2% do principal rival. 

Reestruturação da dívida

Quanto à reestruturação da dívida, que é uma das promessas eleitorais de Tsipras, o banco destaca que “os últimos relatórios do FMI apontam a necessidade de uma reestruturação da dívida grega, com um corte de 35 bilhões de euros no cenário base e de 110 bilhões de euros no cenário pessimista. As nossas estimativas estão em linha com o cenário mais pessimista”. 

Leia mais:


Eleições na Grécia: Partido esquerdista Syriza está próximo de chegar ao poder

Resumo da Ópera: como acaba o caso Charles Hebdo


O líder do Syriza defende que a dívida pública da Grécia, de cerca de 322 bilhões de euros (ou R$ 993,5 milhões), é insustentável e que as metas de pagamento aos credores, estabelecidas pela troika – grupo formado por Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu, que detém cerca de 80% da dívida -, são impraticáveis. 


Wikicommons
Lula é citado como exemplo de político que conseguiu dobrar o ceticismo dos mercados

“O resto da Europa não quer aceitar demandas pouco razoáveis da Grécia, diante da preocupação que existe sobre o crescimento da popularidade de partidos antieuropeus na Espanha, na Itália e em outros países”, pondera o banco.

‘Grexit’

Os investidores temem o fantasma do ‘Grexit’ – neologismo que se refere à saída da Grécia da zona do euro –, cenário que se criou desde 2010, quando o país se viu obrigado a pedir o resgate financeiro. Voltou à tona em 2012, quando o partido de direita Nova Democracia, do primeiro-ministro Antonis Samaras, venceu a acirrada eleição, mas o Syriza ganhou força. 

A expressão, novamente, voltou à pauta com a possibilidade do partido de esquerda ascender ao poder, apesar de Tsipras já ter declarado que quer contribuir para a estabilidade na zona do euro, creditando a Samaras essas especulações com a finalidade de causar medo na população. Estima-se que a economia grega represente 2% do PIB da zona do euro. 

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Fonte:http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/39204/para+acalmar+investidores+sobre+eleicao+na+grecia+banco+dos+eua+compara+lider+de+esquerda+a+lula.shtml

Falhas na distribuição e alta demanda de energia podem explicar apagão

21.01.2015
Do portal da REDE BRASIL, 19.01.15
Por Redação RBA
Problema chegou a paralisar a produção na usina de Angra 1, que ainda não voltou a funcionar. Causas ainda estão sendo estudadas

São Paulo – O Operador Nacional do Sistema Elétrico ainda não determinou as causas das falhas na distribuição de energia que levou ao apagão na tarde de hoje (19), que chegou a afetar a produção na usina nuclear de Angra 1, que foi desligada automaticamente pouco antes das 15 horas e que deverá voltar a operar apenas na madrugada.

No entanto, a agência avalia que restrições na transferência de energia das regiões Norte e Nordeste para o Sudeste, aliadas à elevação da demanda no horário de pico, provocaram uma redução na frequência elétrica a partir das 14h55. De acordo com o ONS, o problema aconteceu mesmo com uma folga de geração no Sistema Interligado Nacional (SIN).

A redução na frequência teria levado à perda de unidades geradoras nas usinas Angra I, Volta Grande, Amador Aguiar II, Sá Carvalho, Guilman Amorim, Canoas II, Viana e Linhares (Sudeste); Cana Brava e São Salvador (Centro-Oeste); Governador Ney Braga (Sul); totalizando 2.200 MW. Com isso, a frequência elétrica caiu a valores da ordem de 59 Hz, quando o normal é 60 Hz.

Para restabelecer a frequência elétrica às suas condições normais, o ONS e os agentes distribuidores adotaram medidas que permitiram a normalização da situação às 15h45.

Por determinação do ONS, a CEB Distribuição, que opera no Distrito Federal, reduziu em 113 megawatts, desligando as subestações de Samambaia Oeste, Brazlândia, PAD/DF, Planaltina, São José, Vale do Amanhecer, São Sebastião e Sobradinho. Com isso, 154.654 mil unidades consumidoras ficaram sem energia de 15h às 15h40 e 2.346 unidades consumidoras atendidas pelas subestações PAD/DF e São José ficaram sem energia de 15h às 17h
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Fonte:http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2015/01/falhas-na-distribuicao-e-alta-demanda-de-energia-podem-explicar-apagao-2119.html

GOLPE DE ESTADO: Guinada antidemocrática do PSDB é uma aventura com graves implicações

21.01.2015 
Do blog ANTONIO LASSANCE, 11.12.14
Por Antonio Lassance


O PSDB reedita o mesmo padrão da velha UDN, sem se aperceber que o Brasil já não é mais o mesmo de 50 anos atrás. 

A banalização de tentativas de derrubar Dilma mostra que esse partido não mede as consequências de seus atos.

"A democracia brasileira é para valer ou estamos brincando de eleger presidentes?"

Entrevista à Tevê da Fundação Perseu Abramo (Youtube).




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Fonte:http://antoniolassance.blogspot.com.br/2014/12/guinada-antidemocratica-do-psdb-e-uma.html

A VIDA SOB AMEAÇA: ‘Eu existo entre quatro paredes’, diz autor de ‘Gomorra’

21.01.2015
Do portal OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, 20.01.15
Por Roberto Saviano, na edição 834

Desde 2006, o jornalista e escritor italiano Roberto Saviano vive sob ameaça. Autor do best-seller Gomorra, que expõe o poder da Camorra, a máfia napolitana, ele tem proteção policial pesada, muda-se constantemente de casa e não frequenta lugares públicos. O livro virou filme, Saviano tornou-se conhecido no mundo inteiro, mas o sucesso foi danoso para ele, que hoje vive “preso”, escondido, jurado de morte.
Em artigo escrito para o jornal britânico The Guardian, Saviano conta como é sua vida sob proteção policial.
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Quando eu era um jovem escritor em Caserta, um subúrbio de Nápoles, sentia cada vez mais raiva. Travava-se uma guerra entre dois clãs da máfia pelo controle do território e a violência respingava nas ruas. Eu queria dizer ao mundo como era essa zona de guerra: as famílias das vítimas rasgando as roupas, o cheiro da mijada de um homem que sabia que ia morrer e não controlava seu medo, pessoas mortas na rua porque se pareciam com a vítima planejada. Cheguei a conhecer trabalhadores empregados pelas indústrias dirigidas pela Camorra. Cheguei a conhecer os mensageiros, os olheiros que trabalhavam para o clã. Lia despachos do tribunal, reportagens, transcrições de julgamentos. Juntei essas histórias, histórias do meu bairro, e publiquei um livro chamado Gomorra. Alguma coisa nele mexeu com a moçada. Tornou-se um best-seller instantâneo – foram tantas as pessoas que o compraram que a Camorra não podia ignorá-lo.
Pouco depois do livro ser publicado, em 2006, alguém deixou um folheto na caixa postal de minha mãe. Eu morava em Nápoles, mas ela ainda estava em Caserta. O folheto mostrava uma fotografia minha, com uma pistola encostada na cabeça, e a palavra “Condenado”. Pouco depois, fui convidado a dar uma palestra numa solenidade pela inauguração do novo ano letivo na cidade de Casal di Principe, reduto do mais poderoso clã da Camorra, com um dos mais altos índices de assassinatos da Itália. Do palco, onde estava, identifiquei publicamente os líderes da Camorra, o que a população local, muito intimidada, não fazia. Disse-lhes que deviam ir embora. O porta-voz do parlamento italiano estava lá, com seus guarda-costas. Terminado o evento, disseram-me que era muito perigoso voltar para Nápoles em transporte público e, por isso, levaram-me. No dia seguinte, o jornal local denunciou minha intervenção como um insulto à Camorra. Alguns dias depois, uma pessoa me seguiu pelas ruas de Nápoles e entrou no ônibus atrás de mim. Ele disse: “Você sabe que eles vão fazer você pagar pelo que você fez na Casale [Casal di Principe], certo?”
Menos de dois meses depois, quando voltava a Nápoles de um festival literário, dois policiais me esperavam na estação ferroviária. Quando já me levavam, num carro blindado, disseram-me que haviam sido destacados para me dar proteção. Naquele inverno, o detalhe da segurança era redobrado depois que haviam surgido boatos, a partir do presídio, que a Camorra planejava matar-me. O chefe da máfia era Salvatore Cantiello, então preso, e o que diziam era que quando ele me viu no noticiário da TV teria dito: “Vai falando porque logo logo você não vai falar nunca mais.”
Dez jornalistas italianos vivem sob a proteção da polícia
Durante os últimos oito anos, viajei para toda a parte com sete guarda-costas treinados em dois carros à prova de balas. Passo minhas noites em casernas de polícia ou quartos de hotel anônimos e raramente passo mais do que algumas noites no mesmo lugar. Já faz mais de oito anos que não pego um trem, não ando numa lambreta nem dou uma volta para tomar uma cerveja. Tudo é cronometrado, por minuto; nada é deixado ao acaso. Fazer alguma coisa espontaneamente, simplesmente porque tenho vontade de fazê-lo, seria ridiculamente complicado.
Depois de oito anos com guardas armados, as ameaças contra a minha vida praticamente não são notícia. Meu nome está tão frequentemente associado com morte e assassinato que praticamente não é mais registrado. Depois de todos estes anos sob proteção do Estado, quase me sinto culpado por ainda estar vivo.
Esta vida é uma merda – é difícil descrever como é ruim. Eu existo entre quatro paredes e a única alternativa é dar palestras. Ou estou na Academia do Nobel, na Suécia, participando de um debate sobre liberdade de imprensa ou estou num quarto sem janelas, numa caserna da polícia. Luz e escuridão. Não há meio termo. Às vezes, eu olho para o divisor de águas entre minha vida antes e depois de Gomorra. Existe um antes e um depois para tudo, inclusive para a amizade. Para os que perdi, que se afastaram por achar que era muito difícil ficar perto de mim, e para os que encontrei – com muita esperança – nos últimos anos. Existem os lugares que eu conhecia antes e os que conheci desde então. Nápoles tornou-se proibida para mim, um lugar que só posso visitar em minhas lembranças. Viajo pelo mundo afora, pulando de país para país, como se fosse um tabuleiro de xadrez, pesquisando para meus projetos, buscando os restos esfarrapados da liberdade.
Eu estava em Nova York, trabalhando este artigo, quando ouvi as notícias sobre o Charlie Hebdo. Foi extremamente doloroso para mim. Eu não conhecia o editor, Stéphane Charbonnier, mas sabia que ele vivia sob proteção de guarda armada, como eu. Tinha conhecimento da situação e dos riscos que ele corria.
Com o tiroteio de Paris, a Europa voltou a descobrir que escrever pode ser perigoso. Nós tínhamos esquecido. Talvez os italianos tivessem esquecido, mas pelo menos não nós, que escrevemos sobre a máfia. Dez jornalistas italianos vivem atualmente sob a proteção da polícia depois de serem ameaçados pela máfia, como Lirio Abbate, cujos guarda-costas encontraram uma bomba embaixo do seu carro depois que ele escreveu um livro sobre o chefe da Cosa Nostra, Bernardo Provenzano. A liberdade de expressão não é um direito que nos seja concedido para sempre – se o negligenciamos, é como uma planta que murcha se você esquecer de regar.
Não têm medo de mim; têm medo de meus leitores
Teve uma coisa que Charbonnier disse em 2012 que me tocou: “Não tenho medo de represálias. Não tenho filhos, não sou casado, não tenho um carro nem tenho dívidas. Pode parecer pretensioso, mas prefiro morrer de pé do que viver de joelhos.” Para muita gente, escrever é apenas um emprego que você tem, sem consequências. Mas, para outras, não é.
Se Gomorra fosse apenas mais um livro lido por alguns milhares de pessoas, a Camorra nem teria notado. O motivo para a raiva deles é por eu ter dito a verdade sobre o crime organizado para uma audiência maciça. A coisa que eles mais temem é ficar sob os holofotes. Como certa vez me disse um ex-líder, os camorristi querem ser pessoas muito importantes num plano local; querem ser famosos em seu próprio território, querem ser temidos por seu poder militar. Porém, num plano nacional ou internacional, querem ser anônimos. Contar suas façanhas a uma audiência mais ampla foi um golpe duro, pois chamou a atenção do público para suas atividades ilegais.
Muitas vezes me perguntam por que a Camorra, uma organização criminosa bastante grande e poderosa, tem medo de mim. Sempre faço questão de deixar claro: eles não têm medo de mim; têm medo de meus leitores.
Minha vida, antes e depois
Antes. Longas caminhadas sem fim pelos subúrbios até que me ocorresse uma matéria, depois uma corrida desabalada em minha lambreta para chegar em primeiro lugar à cena do crime, antes de mexerem no corpo. Chegar lá antes da família, com seus terríveis gritos de dor. Eu ia de lambreta das cenas de crime para os tribunais e para os presídios. Acompanhava a luta pelo poder entre os líderes da Secondigliano e o clã Di Lauro, além de um grupo dissidente conhecido como Os Espanhóis porque seu líder havia transferido o centro das operações para a Espanha, onde vivia escondido. Era como se fosse um correspondente de guerra: dois ou três assassinatos por dia, incêndios provocados – que faziam explodir bombas nas residências. Era inacreditável que algo assim pudesse ocorrer no meio da Europa.
Depois. Viver com guarda-costas mudou tudo; é muito complicado tentar trabalhar com uma escolta armada a reboque. Se estou na Itália, tenho que decidir o que vou fazer com três dias de antecedência. Vivo permanentemente num intervalo de três dias, o que faz com que me sinta atrasado para tudo. O que quer que eu queira fazer, comunico aos guarda-costas e eles decidem qual a melhor maneira de fazê-lo.
Se quero viajar ao exterior, tenho que comunicar ao departamento de segurança do governo com uma antecedência de algumas semanas, até meses, informando com precisão onde vou e qual a minha programação – onde vou ficar, que lugares irei visitar, as pessoas que irei encontrar. Aí tenho que esperar a autorização para viajar – e saber se o país que pretendo visitar me considera bem-vindo. Uma vez nesse país, leva alguns dias até estabelecer uma ligação com a escolta policial local. De início, há uma sensação de que sou uma pessoa inconveniente, de que sou um peso, um problema a ser administrado, principalmente quando há um evento público.
Não confio em mais ninguém. Fico com medo de me aproximar de alguém e deixar abertas minhas defesas. Sempre acredito que alguém me vai decepcionar. É a paranoia normal do prisioneiro.
Há novos amigos, lugares novos, novas rotinas, mas também há um novo Roberto Saviano. As circunstâncias o mudaram; ele é diferente da pessoa que era antes e dos amigos que tinha então. Talvez seja uma pessoa pior. Mais fechado, mais indiferente por estar constantemente sendo atacado. E mais voltado para si mesmo, pois tornou-se um símbolo.
Consegui aquilo com que sonha todo escritor, o sonho que a maioria de meus colegas não ousaria imaginar. Um best-seller internacional. Uma audiência enorme. Mas todo o resto desapareceu: a possibilidade de ter uma vida normal, a possibilidade de ter uma relação afetiva normal. Minha vida foi envenenada. Sou asfixiado por mentiras, por acusações, por difamação, por uma porcaria sem fim. No final, você fica cicatrizado.
Consegui ver o dia nascer num terraço
Desde 2006, minha vida tem sido uma busca contínua por um lugar para viver, um lugar para escrever. Vivi em inúmeras casas, em inúmeros quartos. Nunca vivi em lugar algum por mais do que alguns meses. Quartos pequenos, todos eles; alguns, minúsculos. E todos eles escuros. Gostaria de ter tido um quarto maior, mais iluminado. Adoraria ter tido uma varanda, um terraço: queria tanto um terraço quanto, quando era mais novo, a oportunidade de viajar. Mas eu não tinha direito a escolher, não podia decidir onde iria viver. Não tinha como procurar uma casa: dois carros à prova de balas e sete guarda-costas tornam difícil você sair por aí sem chamar a atenção. Assim que eu conseguia algum lugar para morar, tão logo as pessoas soubessem onde eu morava, qual rua, qual número, eu tinha que mudar.
Em Nápoles, foi impossível achar uma casa. Os carabinieri que eram meus guarda-costas tentaram ajudar-me a achar um lugar para alugar por meio de seus contatos. Era fácil até a proprietária descobrir que era para mim. Assim que me viam, era “Desculpe, não posso, tenho filhos” ou “Acabei de alugar para outra pessoa”. E lá ia eu para a caserna da polícia. Continuo procurando um lugar só para mim. No meio tempo, vivo nesses quartos nus, como celas de convento, com todos os movimentos controlados.
Minha bagagem consiste de uma bolsa para meias, cuecas, camisetas e calças; outra para camisetas e casacos; uma para remédios, escova e pasta de dentes e carregadores de celular; uma bolsa para livros e papéis. E o laptop. E pronto. Isso é minha casa.
Boa parte do que escrevi nos últimos anos, inclusive este texto, foi escrito em quartos de hotel. Quartos de hotel monótonos, sem características, todos tão idênticos que eu acabei detestando. São quartos de hotel escuros, com janelas que você não consegue abrir. Visitei países – às vezes, lugares que sempre quis conhecer – e tudo o que vejo é o quarto do hotel e o horizonte de uma cidade através da vidraça escura de um carro à prova de balas. A maioria dos países que visito não ousa permitir que eu dê uma volta, nem mesmo com os guardas armados que destacam para acompanhar-me. Normalmente, mudam-me para outro hotel após uma noite. Por mais aparentemente civilizados que sejam, por mais calmos e pacíficos, por mais distante que eu esteja da máfia e por mais seguro que me sinta, tanto mais eles me tratam como uma bomba que pode explodir em suas caras a qualquer momento.
Na Itália – e particularmente em Nápoles – fico quase sempre na caserna dos carabinieri, com o cheiro da cera das botas, os comentários barulhentos do jogo de futebol na TV, os grunhidos quando são chamados de volta ao serviço ou quando o time oponente marca um gol... Sábado e domingo são dias mortos. Dias passados na barriga vazia de uma baleia. Ouvem-se gritos do lado de fora, percebe-se o ruído de pessoas passando, você sabe que é um dia de sol, que o verão começou. Lembro-me de uma vez, no começo de minha vida à prova de balas, que acordei na caserna, no meio da noite, estava escuro e eu não reconheci o lugar. Não tinha noção de onde estava. Desde então, isso já me aconteceu muitas vezes – acordo de noite, com um susto, e não sei onde estou. Da última vez que estive em Nápoles, fiquei numa caserna que já tinha sido um mosteiro. Tem um terraço, de onde você pode ver o mar. Consegui ver o dia nascer na baía mais bonita do mundo.
Vivendo com medo
Muitas vezes me perguntam se me arrependo de ter escrito Gomorra. Normalmente, tento responder a coisa certa: “Como homem, sim; como escritor, não.” Mas essa não é a verdadeira resposta. Durante a maior parte do tempo em que estou acordado, eu odeioGomorra. Detesto. No início, quando eu dizia às pessoas que me entrevistavam que se soubesse o que vinha pela frente jamais teria escrito o livro, elas ficavam decepcionadas. Se fosse a última pergunta da entrevista, eu saía dali com um gosto amargo na boca, sentindo que ficara faltando alguma coisa. É claro que eu compreendia que deveria ter dito que faria tudo de novo. Mas, entretanto, foi tanto o tempo que passou que eu acho que tenho o direito de compartilhar meus arrependimentos e reconhecer que sinto falta do tempo em que era um homem livre. Seja o que for o que eu gostaria que fosse minha vida, o fato é que escrevi Gomorra e pago o preço por isso diariamente.
Em março de 2008, dois anos depois de Gomorra ter sido publicado, a máfia aumentou as ameaças contra mim. Durante o histórico superjulgamento conhecido por Spartacus – no qual 24 membros do clã Casalese foram acusados de assassinato, extorsão, corrupção de autoridades públicas e manipulação de eleições –, um advogado de dois dos chefões da Camorra leu em voz alta um documento que me ameaçava, assim como à jornalista Rosaria Capacchione, alegando que era unicamente devido às nossas reportagens que eles tinham sido presos. Dessa forma, o clã enviava uma mensagem clara: se eles fossem considerados culpados, nós nos tornaríamos alvos. Os dois chefões, Antonio Iovine e Francesco Bidognetti, foram condenados após o julgamento de 12 anos do Spartacus. Antes que terminasse, os réus e seu advogado foram acusados de fazer ameaças no documento que foi lido no tribunal. Quando o caso terminou, em novembro do ano passado, os chefões foram absolvidos, mas o advogado, Michele Santonastaso, foi condenado por “fazer ameaças ao estilo da máfia”.
Eu estava sentado no tribunal, em Nápoles, quando o veredicto foi divulgado. Meus guarda-costas estavam lá, assim como os de Rosaria e nossos advogados, além da equipe legal que defendia os acusados. Só os dois chefões é que não estavam no tribunal, pois acompanhavam os trâmites por meio de links num vídeo da prisão. Atrás de nós estava uma porção de câmeras de televisão e jornalistas. Havia poucas pessoas que eu conhecia – quando se vive do jeito que eu vivo, as pessoas se habituam a ver você de longe, ou apenas acompanhar sua vida pelas redes sociais. Me parecia absurdo o fato de que dois chefões da máfia tivessem sido absolvidos enquanto seu advogado tivesse sido condenado por um crime relacionado à máfia. Fiquei decepcionado, mas já não me surpreendo com nada. Havia jornalistas estrangeiros no tribunal, mas não tenho certeza se entenderam o veredicto. E não os posso culpar. De lá para cá, Santonastaso foi condenado a 11 anos por associação com a máfia, por dar ajuda e ser cúmplice e por falso testemunho, mas a cobertura que a imprensa deu foi praticamente nula. Os chefões saíram-se bem de mais uma tentativa de intimidar jornalistas ao silêncio, mas apesar de tudo esta foi a primeira condenação desse tipo e, de alguma forma, um momento histórico. Espero que essa sentença seja um primeiro passo rumo à liberdade para mim e para outros escritores que também vivam sob guarda armada e que possamos acabar recuperando nossas vidas.
Sem medo da morte
Frequentemente, as pessoas perguntam-me se não tenho medo que a máfia me mate. “Não”, respondo. E paro aí. Compreendo que a maioria das pessoas não acredite, mas é verdade. É mesmo. Tenho medo de muitas coisas, mas a morte não é uma delas. Às vezes penso no sofrimento, sobre como seria morrer de uma forma dolorosa. Mas, de uma maneira geral, e por incrível que pareça, não penso muito sobre a morte.
Há outras coisas que me assustam. Mais do que morrer, tenho medo que minha vida nunca volte a ser normal. Tenho mais medo de viver toda a minha vida deste jeito do que de morrer.
E há um outro medo, pior do que todos os outros. É o medo de perder a credibilidade. Isso aconteceu a todos aqueles que foram mortos em função daquilo em que acreditavam. Aconteceu a todos os que divulgaram crimes ou disseram verdades inconvenientes. Fizeram isso com Don Peppe Diana, o padre que foi assassinado em Casal di Principe, em 1994, por pregar contra a máfia e ameaçar não dar sacramentos a membros da Camorra. Depois de sua morte, ele foi caluniado por uma campanha que o acusava de comportamento obsceno e vínculos com a Camorra. Federico Del Prete, o sindicalista assassinado em Casal di Principe em 2002, foi ridicularizado com falsas acusações no dia de seu funeral. Também o fizeram com Giovanni Falcone, o magistrado antimáfia que foi morto pela Cosa Nostra em 1992; também o jornalista Pippo Fava foi assassinado. E, de alguma forma, eles sempre encontram quem tenha ouvidos para essas lorotas. Mal a mídia começa a cobrir minha morte e os boatos asquerosos já começam. Quando um garoto é morto numa briga ou um padre é esfaqueado enquanto reza a missa, os boatos começam a zumbir como moscas. E a roda gira. O circo da mídia não pode parar.
Nunca irei esquecer o que disse o ex-marido de Anna Politovskaya, a jornalista russa assassinada, no dia de sua morte: “É melhor assim: é melhor morrer do que perder a credibilidade. Anna não teria suportado isso.” Disseram-me que eles já vinham preparando uma armadilha para ela. Pouco antes de ser assassinada, tentaram sequestrá-la. Pretendiam drogá-la, fazer filmes pornográficos com ela, espalhá-los pelo mundo e desacreditar sua campanha pela liberdade de informação. É isso que me deprime: o medo de que eu possa ser desacreditado, de que eu não possa me defender, nem o que escrevo. Às vezes, sinto que isso já está acontecendo, que as pessoas que dizem ‘Ele está mentindo, ele está fazendo um plágio, está nos difamando’ acabam tendo mais importância do que minha própria pesquisa, minhas próprias tentativas de investigar como funcionam as coisas. Acusam-me constantemente de tentar ganhar dinheiro às custas da máfia, de insultar Nápoles, de inventar coisas. É uma maneira de baixar o volume daquilo que estou dizendo. “Sabemos de tudo isso, já se escreveu sobre isso” é uma das coisas que dizem. Se eles dissessem “Nada disso é verdade”, saberíamos que eram meros porta-vozes da máfia. Mas quando dizem “Já ouvimos isso antes” é uma maneira mais sutil de me boicotar. Não sou atacado apenas pela Camorra, mas também por partes da sociedade civil, e mesmo por jornalistas, que têm vergonha de nunca terem se manifestado contra a máfia e que seu silêncio os torne cúmplices.
Pessoas próximas a mim dizem-me para não me preocupar, pois é apenas inveja. Considerando tudo o que aconteceu, aguentar esse tipo de críticas não é um preço assim tão alto. Quando escrevi Gomorra, era tão novo que não tinha tido tempo para ser corrompido ou contaminado, para comprometer meus ideais. Para pedir favores e ficar devendo algo a alguém. A maioria das pessoas teve que se vender, a certa altura – isso não aconteceu comigo. E isso é imperdoável.
Não posso me dar ao luxo de perder tempo pensando nas pessoas que querem me atacar. Se eu reagisse, as coisas só iriam piorar. A única coisa que posso fazer é centrar a atenção em meu trabalho e em minha audiência, que – quase mais do que a minha escolta armada – me protege. O fato de ter uma audiência garante a minha liberdade, apesar de todas as restrições. Levando tudo em consideração, minha existência é privilegiada. Meu perfil público me expõe a críticas cruéis, mas também me protege.
Penso no enorme número de pessoas que vive na Itália como eu, sob proteção de uma guarda armada fornecida pelo Estado: somos 585. Pessoas cujos nomes ninguém conhece enfrentam ameaças sozinhas e sem proteção alguma durante todos os dias de suas vidas. Penso nas pessoas que, embora sendo alvos conhecidos, não tinham proteção alguma. As mortes na redação do Charlie Hebdo deveriam fazer com que sentisse culpada qualquer pessoa que esteja tentando mudar o mundo. É mais fácil dizer que foram os humoristas que o provocaram do que olhar no espelho e confrontar a imagem de nossa própria inércia.
Desde que escrevi Gomorra, aumentou a compreensão do que significa a máfia e na Itália vários governos sucessivos têm investido no combate ao crime organizado. Já não se pode fingir que não se sabe o que está acontecendo e a opinião pública não larga o assunto. Se me apertassem, eu diria que a percepção do problema mudou radicalmente. Trata-se do poder de um livro de não-ficção, o tipo de livro que tentei escrever. Contar histórias com o rigor de um jornalista e o estilo literário de um romancista.
Há uma frase de Truman Capote a que sempre recorro: “Mais lágrimas foram derramadas por orações ouvidas do que pelas que não tiveram resposta.” Se tenho um sonho, é o de que as palavras tenham o poder de trazer a mudança. Apesar de tudo o que me aconteceu, minha oração foi ouvida. Mas tornei-me uma pessoa diferente daquela que imaginava. Este processo foi doloroso, tive dificuldade em chegar a um acordo com ele até que eu aceitasse que nenhum de nós controla nosso próprio destino. Só podemos escolher o desempenho do papel que nos é concedido.
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Roberto Saviano é jornalista e escritor

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Fonte:http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed834_eu_existo_entre_quatro_paredes_diz_autor_de_gomorra

Brasil e Paraguai: 150 anos depois da guerra, ferida ainda aberta

21.01.2015
Do portal OPERA MUNDI, 27.12.14
Por Filipe Figueiredo* | São Paulo 

Conflito deixou legado de cerca de meio milhão de mortos, entre soldados e civis; paraguaios desejam reafirmar nacionalidade

Em dezembro de 2014, celebra-se o 150° aniversário do maior conflito armado da América do Sul, conhecido no Brasil como Guerra do Paraguai, travada entre 1864 e 1870. Também chamado de Guerra da Tríplice Aliança ou Ñorairõ Guazú (“Guerra Grande”, em guarani), o conflito deixou um legado de cerca de meio milhão de mortos, entre soldados e civis. Um número preciso jamais será obtido, mas as estimativas das mortes civis paraguaias flutuam entre 300 mil e um milhão; em números relativos, algo entre 40% e 90% de sua população. O clichê diz que deve-se estudar a história para compreender o presente. Cento e cinquenta anos depois, em uma América Latina em desenvolvimento, com o Cone Sul do continente em ritmo de integração, uma ferida permanece aberta, originada na guerra.
Wikicommons
Guerra do Paraguai deixou mais de meio milhão de pessoas mortas

A relação do Paraguai com o Brasil possui duas facetas. O país possui a quarta maior fronteira terrestre com o Brasil, foco de intenso intercâmbio econômico. Na última década, o comércio bilateral cresceu cerca de 300%, chegando ao patamar de US$ 4 bilhões em 2013. As exportações brasileiras para o país quintuplicaram. Hoje, o Brasil exporta cerca de US$ 3 bilhões anuais para o Paraguai, e os investimentos estrangeiros diretos brasileiros estão em segundo no ranking de capital estrangeiro no país. Mesmo no desenvolvimento interno paraguaio, o Brasil representa elemento essencial. Ano passado, foi inaugurada a linha de transmissão que leva energia da usina de Itaipu à região de Assunção, financiada pelo Brasil por meio de projeto do Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul (Focem).
A Usina de Itaipu é talvez o principal marco das relações entre Brasil e Paraguai pós-guerra. A normalização dessa relação se deu apenas na década de 1940; as décadas anteriores, embora de relação amistosa, foram marcadas por repetidas remarcações fronteiriças e negociações dos termos da paz de 1872. Em 1941, Getúlio Vargas realiza a primeira visita de um Chefe de Estado brasileiro ao Paraguai, perdoa o restante das dívidas de guerra e inicia o processo de devolução de documentos e troféus do conflito. Em 1965, a inauguração da Ponte da Amizade consolida essa relação pacífica que culmina, em 1973, com o Tratado de Itaipu, que estabelece a construção da hidrelétrica binacional. Em 1991, o Tratado de Assunção, capital paraguaia, estabelece o Mercosul com a expectativa de marcar um novo momento nas relações políticas do Cone Sul.
A outra faceta demonstra distensão e também como o conflito não foi totalmente superado. Em 1980, o general João Baptista Figueiredo, então presidente, continua o processo de devolução de documentos históricos e de troféus de guerra, incluindo a espada de Solano López, líder paraguaio de 1862 até sua morte na batalha de Cerro Corá, em 1870. A restauração de troféus e documentos históricos da guerra ao Paraguai é matéria extremamente sensível na população e na política paraguaia. Hoje, o último grande troféu da guerra e razão de disputa é o canhão El Cristiano. O antigo canhão paraguaio, capturado pelas forças brasileiras, hoje é tombado como patrimônio histórico brasileiro e está no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. Seu nome, traduzido como O Cristão, é explicado pela sua origem: suas doze toneladas de bronze vieram dos sinos das igrejas paraguaias.
Em 2009, o Paraguai consultou o Brasil sobre mais essa devolução de um objeto histórico da Guerra do Paraguai. O então presidente Lula encaminhou o tema ao Ministério da Cultura, mas o tema nunca avançou mais do que o suficiente para gerar polêmica e debate entre historiadores, militares e a sociedade. A importância da peça fica clara em declarações de políticos paraguaios. Em março de 2013, disse o então presidente do Paraguai, Federico Franco: "Não haverá paz nem entre os soldados nem entre a sociedade paraguaia enquanto não for recuperado o canhão Cristiano'", em ocasião de cerimônia que homenageia os paraguaios mortos na guerra. Federico Franco assumiu a presidência paraguaia após o atribulado processo de impeachment, ou deposição, de Fernando Lugo, em junho de 2012 - o que está diretamente ligado ao segundo aspecto da relação entre Paraguai e Brasil.
Com sua economia extremamente ligada, até codependente, ao Brasil, o Paraguai não possui uma postura de confiança ou aliança com Brasília. Em 2005, os valores pagos pelos brasileiros a Assunção pelo seu excedente de energia elétrica produzida em Itaipu foram renegociados de forma agressiva, com setores da sociedade paraguaia afirmando que o Brasil “passava a perna” no Paraguai. O país, especialmente seu legislativo conservador dominado pelo Partido Colorado, também condenou, e condena, a postura brasileira durante a crise institucional vivenciada pelo país em 2012, especialmente pelo fato do Paraguai ter sido suspenso do Mercosul por supostamente violar sua cláusula democrática; com a ausência de Assunção no processo, a Venezuela foi alçada ao posto de membro pleno do bloco.
O tema ainda é motivo de protestos paraguaios, embora tenha sido oficialmente resolvido em agosto de 2013, com um reunião os presidentes Horácio Cartes, eleito no Paraguai naquele mês, Nicolás Maduro, da Venezuela, e Dilma Rousseff; o encontro foi realizado à margem da Cúpula da Unasul. Somam-se aos dois episódios citados a disputa social interna ao Paraguai, entre paraguaios e “brasiguaios”, brasileiros que residem na região fronteiriça. A disputa por terras já deixou vítimas fatais. A mesma extensa fronteira terrestre que favorece o comércio está também diretamente relacionada ao tráfico de drogas e de contrabando na região, outro problema social que afeta as relações entre os dois países.
A sociedade paraguaia também se queixa do que classifica de intervenções brasileiras na política interna paraguaia. O presidente do Paraguai deposto em 1999, Raúl Cubas Grau, o general Lino Oviedo, implicado na mesma crise política, e o ditador Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai por 35 anos, todos se exilaram no Brasil. A perspectiva alimentada no Paraguai, sobre o Brasil, independente de ser ou não razoável, é a de um império vizinho, que faz comércio e desenvolve, mas também explora e intervêm. A semente dessa perspectiva contemporânea foi plantada na década de 1860, quando da derrota e destruição do Paraguai após ter iniciado o último grande conflito da Bacia do Prata. A demanda paraguaia pelo canhão El Cristiano, antes de ser apoiada ou não, deve ser compreendida. O interesse do Paraguai não é pelo objeto ou pelo seu bronze, é por um símbolo que reafirme sua nacionalidade, ferida 150 anos atrás.
(*) Filipe Figueiredo é redator do Xadrez Verbal
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Fonte:http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/38968/brasil+e+paraguai+150+anos+depois+da+guerra+ferida+ainda+aberta.shtml

Rei africano que mora na Alemanha comanda sua nação através da internet

21.01.2015
Do blog ECO VIAGEM/UOL

O Rei Bansah, que mora em Ludwigshafen e trabalha como mecânico,governa seu povo usando a internet. O diferencial é que ele faz tudo isso a 7 mil km de distância de sua nação através de redes sociais, e-mails e por um software de chamadas telefônicas

O rei Bansah utiliza ferramentas online comuns ao cotidiano de qualquer pessoa, entre elas e-mails, redes sociais e um software de chamadas telefônicas online
O rei Bansah utiliza ferramentas online comuns ao cotidiano de qualquer pessoa, entre elas e-mails, redes sociais e um software de chamadas telefônicas online - Foto: Mirka Laura Severa/Divulgação

O mundo está tão moderno que às vezes beira o bizarro. Um monarca africano inovou de forma surpreendente e decidiu governar seu povo através da internet, porém bem longe de seu território. O rei do Gbi, uma região localizada em Gana, está comandando sua nação a mais de 7 mil quilômetros de distância, diretamente da Alemanha. Quem acha que esta é a única peculiaridade sobre ele se engana. No país europeu, o rei Céphas Bansah trabalha como mecânico e vive sem nenhuma regalia de chefe de estado.
Afinal, como Bansah governa o seu povo? Ele utiliza ferramentas onlines comuns ao cotidiano de qualquer pessoa, entre elas e-mails, redes sociais e um software de chamadas telefônicas online. Quando o assunto é breve, ele opta por usar apenas o correio eletrônico, porém quando necessita de uma conferência ao vivo é utilizado um famoso programa de mensagens instantâneas e chamadas de vídeo online. Desta forma, ele se mantém informado sobre o dia-a-dia de seus súditos e ainda pode determinar as novas ações de seu governo virtual.
Um monarca africano inovou de forma surpreendente e decidiu governar seu povo através da internet, porém bem longe de seu território
Um monarca africano inovou de forma surpreendente e decidiu governar seu povo através da internet, porém bem longe de seu território - Foto: Marco Schoeler
A justificativa oficial para o rei governar tão distante de suas terras é o importante intercâmbio que ocorre entre as duas nações. Morando na Alemanha, ele fica mais próximo das novas tendências e tecnologias e pode inseri-las mais rapidamente em sua nação. Contudo, engana-se quem acha que o monarca utiliza verba pública para se manter no exterior. Durante o dia, o rei Bansah é apenas mais um trabalhador entre tantos milhões na Alemanha. Ele atua em sua própria oficina mecânica consertando automóveis. Já à noite, ele se transforma no soberano governante do povo Ewe. Recentemente, o rei teve sua oficina arrombada e foram levadas diversas joias reais, entre elas sua coroa. Contudo, o monarca ficou a salvo e não sofreu qualquer ferimento.
'Único' herdeiro

Assim como em outras monarquias, Bansah recebeu o trono de um parente, no caso seu avô. Oficialmente, ele era o terceiro da linha sucessória, porém herdou a função após seu pai e irmão mais velho serem excluídos porque eram canhotos. Para o povo Ewe esta é uma das piores características que um ser humano pode ter e por isso, nenhum canhoto deve assumir o cargo máximo da nação.


O Rei Bansah, que mora em Ludwigshafen e trabalha como mecânico, governa seu povo usando a internet
O Rei Bansah, que mora em Ludwigshafen e trabalha como mecânico, governa seu povo usando a internet - Foto: Marco Schoeler
Ewe

Etnia do rei Bansah, os Ewes são um dos povos que vivem na região de Gana, Togo e Benim. Seus membros são conhecidos pela forte união entre si que geram enormes famílias, além de serem poligâmicos. Contudo, mesmo com a tecnologia trazida da Alemanha pelo seu soberano, a maior parte da população Ewe ainda vive em casas construídas de barro e madeira.

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Fonte:http://ecoviagem.uol.com.br/noticias/turismo/turismo-internacional/rei-africano-que-mora-na-alemanha-comanda-sua-nacao-atraves-da-internet-18233.asp

“Apaguinho” foi, sim, defeito. Mas a crise da água é um monstro que não se pode esconder

21.01.2015
Do blog TIJOLAÇO, 20.01.15
Por Fernando Brito

chuvassaofrancisco
É mais que imbecil, é primariamente idiota o enfoque dado por parte da mídia ao “apaguinho” sentido ontem em diversas regiões do país.
Qualquer um que estivesse no Rio ou em São Paulo é capaz de imaginar o aumento de consumo.
Atrasei este post até ter dados do aumento de consumo no Sudeste transformado em fornalha: foi o maior consumo da história no Sudeste e no Nordeste.
Mas não foi isso o que fez a luz cair por alguns minutos.
Foi uma situação que qualquer um que tenha fusíveis em casa sabe: se uma das “fases” tem problemas e tudo é ligado nas outras, o sistema entraria em sobrecarga e, portanto, seria necessário, para evitar um curto-circuito, desligar alguns aparelhos, até normalizar-se a situação.
Tanto que ocorreu, como já se apurou, depois do momento de maior consumo. Foi, portanto, a soma de alto consumo com um defeito técnico que sobrecarregou linhas que, sem ele, suportaram a carga.
Pode acontecer em qualquer verão senegalesco, como este.
Não está aí o problema do sistema elétrico brasileiro.
Está na falta de chuva somada aos atrasos nas obras de geração e transmissão de energia.
Quanto à chuva, tirando os apelos ao pessoal da Fundação Cobra Coral, nada se pode fazer.
Mas é preciso deixar de ser hipócrita com a questão da geração elétrica.
Belo Monte, mesmo tendo sido reduzida a um terço de sua capacidade de geração contínua,  tem um atraso superior a um ano por conta de demandas judiciais com razões ambientais.
Ontem, a Folha noticiou a suspensão da obra da usina de São Manoel por decisão judicial porque, embora não atinja diretamente populações indígenas, inunda áreas de valor espiritual para aquelas comunidades. É a quinta suspensão da obra, por decisões demoradamente revogadas. Já a Usina de Teles Pires, depois de muitas idas e vindas, está gerando energia, mas não a transmite ao país, porque as linhas que a levariam estão enfrentando problemas de autorização ambiental em certos trechos.
Todas as razões, em geral, são plausíveis e ninguém discute que os direitos indígenas e a preservação ambiental devem ser considerados todo o tempo.
Resta saber se a sociedade está sendo informada de que não se faz usina para gerar eletricidade sem algum dano e se estamos, ao menos em parte, dispostos a renunciar a sermos uma sociedade de alto nível de consumo elétrico.
Se esta discussão ficar restrita à elite e ás ONGs (tanto as de boas quanto as de pouco confessáveis intenções) vamos permanecer neste impasse: nem se fazem as obras, nem se corrigem hábitos e vamos continuar achando que energia é algo que existe só a partir do interruptor.
A praça diante de minha casa, que nunca havia deixado de ser verde, nos últimos oito anos, ficou totalmente ressecada em 2014. Agora, não está ressecada, está morta.
Muitas pessoas vêem  que estamos vivendo uma grande seca mas outras, onde caem chuvas torrenciais que não drenam para os reservatórios não fazem noção da gravidade da situação.
Um dezembro pouco abaixo do normal e um janeiro desastroso em matéria de chuvas no Sudeste levaram ao limite da prudência a situação dos reservatórios.
Das bacias do Sudeste e do Nordeste a que mais teve chuvas foi aquela que todos pensam estar sendo mais castigada, a do Tietê, onde choveu 28% da média de janeiro.
Foi, ao contrário, a que mais teve chuva.
Outras bacias importantes, como a do São Francisco, tiveram só 5% das chuvas médias de janeiro e a do Paraíba do Sul, meros 15%.
Tanto quanto não se deve criar alarmismo sem razão de ser, porque não há risco de colapso de geração a curtíssimo prazo e não foi isso que provocou os problemas de ontem, também não se pode repetir o procedimento de Geraldo Alckmin, dizendo que não havia risco algum.
O governo precisa, e já, iniciar uma campanha pedindo a economia possível de energia, para evitar  que se viva a situação desesperadora e quase que irreversível que se vive em São Paulo.
E deve lança-la publicamente, pedindo que os veículos de comunicação a veiculem gratuitamente ou por preço simbólico, como devem fazer – ou deveriam – em campanhas de urgente interesse social.
Todos os meios de comunicação, até para que se evidencie quem merece ser chamado de órgão de comunicação social.
PS. Dito isto, porque aqui a gente tem o péssimo hábito de tratar disso com seriedade, ainda hoje, sem trocadilho, dissecar a situação do abastecimento de água em São Paulo.
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Fonte:http://tijolaco.com.br/blog/?p=24329

BILL GATES E AS FEZES HUMANAS: Aos pobres, o direito à merda

21.01.2015
Do blog PRAGMATISMO POLÍTICO, 20.01.15

Extrair água de fezes humanas é uma forma de erradicar a pobreza? Para além dessa “generosa contribuição”, deve-se questionar as causas socioeconômicas responsáveis pela falta de água saudável para dois bilhões de pessoas. Afinal, uma tragédia como essa não começou hoje. O atual sistema econômico não teve nada a ver com isso? Quem, no mundo, mais compromete nascentes, polui, suja e contamina a água?

bill gates água fezes pobres
Bill Gates vai transformar excremento humano em água (reprodução)
Jacques Távora Alfonsin, IHU Unisinos
Bill Gates é uma das pessoas mais aclamadas pelas/os defensoras/os do sistema socioeconômico capitalista como exemplo e modelo da excelência desse sistema. O noticiário da última semana evidencia uma das razões surpreendentes para isso. Para Bill, a providência capaz de fornecer água saudável para mais de dois bilhões de pessoas pobres no mundo inteiro, sem acesso a um bem desse grau de necessidade humana, – conforme dados da sua própria Fundação – é aproveitar as próprias fezes. Financiou máquina adequada para isso e já há previsão de sua possível utilização no Senegal e na índia.
Aos muitos elogios que a sua “generosa contribuição” ao povo pobre tem sido feitos, para diminuir uma injustiça social responsável por doenças e epidemias em bilhões de pessoas, não se ouve quase nada sobre o evidente descalabro de ter-se chegado ao ponto de, para tomar um simples copo d’água, ter-se de aproveitar excremento humano. Ao que consta, como deve acontecer com a máquina do Bill, o inédito da sua lição ainda não conseguiu decantar toda a água das suas conseqüências para torná-las, no mínimo, palatáveis.
Porque parece fora de dúvida existir uma questão prévia inafastável para aceitar a lição dele. Que causas socioeconômicas têm sido responsáveis pela falta de água saudável para dois bilhões de pessoas pobres? Afinal, uma tragédia igual a essa não começou hoje. O sistema econômico representado pelo Bill não teve nada a ver com isso? Quem, no mundo, mais compromete nascentes, polui, suja e contamina a água?
O enfrentamento da pobreza, reduzido apenas aos seus efeitos, é uma fórmula certa de “sucesso” para quem o promove e de insucesso para quem dele é vítima. Um exemplo de repercussão universal, semelhante ao proposto pelo Bill envolvendo a água, pode ser lembrado como o da permanente crise de garantias, sofrida pelos direitos humanos fundamentais sociais, justamente os que, se fossem satisfeitas as necessidades humanas neles presentes (alimentação, moradia, saúde, etc…), atacariam as causas e não só os efeitos da pobreza e da miséria:
Em 1996, durante a Conferência do Habitat II, convocada pela ONU em Istambul, procurando discutir soluções nacionais e internacionais para garantir o direito de moradia a todas as pessoas, especialmente as mais pobres, um dos pontos mais polêmicos da documentação a ser enviada ao mundo, assinada pelos países lá representados, foi o de se alcançar consenso sobre se o direito à moradia poderia figurar aí como um direito já constituído ou não.
Ainda que a pressão externa dos movimentos populares e ONGs defensoras desse direito, paralelamente reunidos/as junto ao conclave, fosse muito forte – mesmo sem poder de voto – defendendo a posição de ele ser declarado como já constituído, não alcançaram sucesso. Na Agenda Habitat, capítulo II, parágrafo 13, ficou constando o reconhecimento (?) de que o direito à moradia “deve ser realizado progressivamente”…
Trata-se de uma redação apenas programática, portanto, e de execução futura sem prazo determinado para ser efetivada. A chamada progressividade para realização dos direitos sociais tem razões bastante discutíveis, para dizer o mínimo. Sabendo-se que esses dependem muito das administrações públicas, elas encontram nesse artifício uma saída para prorrogarem indefinidamente a efetividade das suas garantias, desrespeitando as prioridades que são devidas a esses direitos, por tão indispensáveis à vida de qualquer ser humano.
Há um esforço jurídico mundial no sentido de responder tais questões procurando dar a direitos sociais como o do acesso à água, à alimentação e à moradia, alguma forma de garantir-lhes a chamada justiciabilidade ou judiciabilidade, isto é, a possibilidade de serem reivindicados judicialmente. Isso já está acontecendo, por exemplo, com as ações judiciais propostas contra o Estado, relativas ao direito à saúde. Doenças necessitados de hospitalização inadiável, em regiões ou circunstâncias onde não há leitos disponíveis, acesso a remédios existentes somente no exterior, têm sido admitidas pelo Poder Judiciário.
Não falta base legal para isso, é bom lembrar. A Constituição Federal brasileira dispõe, por exemplo, de regras bem claras. No seus artigos 3º, inciso III (a erradicação da pobreza como fundamento da República), 23 inciso. X (competência da União, Estados e Municípios para “combater as causas da pobreza e os fatores de marginalização, promovendo a integração social dos setores desfavorecidos”) e a Lei Complementar nº 111 de 2001 que criou um Fundo de Combate e erradicação da pobreza, com efeitos prorrogados por prazo indeterminado pela Emenda Constitucional nº 67, de 22 de dezembro de 2010, comprovam esse fato.
Mesmo assim, um objetivo de relevância como o da erradicação da pobreza, retirando efeito dessas normas, encontra obstáculos de toda a ordem para ser garantido. “Erradicar” a pobreza, como consta no inciso III do art. 3º da nossa Constituição, significa extrair pela raiz, eliminar as próprias causas dela como dispõe o art. 23, inciso X, ou seja, impedir até a possibilidade da sua criação e reprodução. Tanto para o poder econômico privado, contudo, sujeito a dar função social aos seus direitos, quanto para o Poder Público, só legitimado pela qualidade dos serviços prestados ao povo, isso dá muito mais trabalho do que simplesmente “podar” os efeitos daquelas causas.
E a poda, como se sabe, nas razões do poder econômico privado, procura justificar a sua suficiência, enfatizando apenas a liberdade de iniciativa, como se a função social que lhe é inerente não estivesse, igualmente, prevista em lei. Nas razões do Poder Público, a poda aparece pela resignada defesa das políticas compensatórias, seguindo uma tática de remendo: “vamos garantir alguma governabilidade. Se isso tiver de suportar alguma injustiça(?), a gente vê mais tarde”.
No fundo, prevalecem as prioridades econômicas do capital, do tipo ilimitado lucro, concentração da riqueza, aumento da desigualdade social. não pela erradicação.
Ignacio Ellacuria, o reitor da UCA e mártir da defesa das/os pobres em El Salvador, por nós já lembrado em outras oportunidades neste espaço de opinião, fundava a possibilidade fática de se viabilizar meta tão ambiciosa como essa de erradicar a pobreza, no que ousou chamar de civilização da pobreza, baseada numa transformação radical da economia do mundo todo, atacando o “pecado” do capital e promovendo a “salvação” das suas vítimas. Em “A civilização da pobreza” (São Paulo: Paulinas, 2014) há quem lembre aquele pensador jesuíta:
“A civilização da pobreza é assim denominada em contraposição à civilização da riqueza, e não porque pretenda a pauperização universal como ideal de vida (…) O que aqui se quer sublinhar é a relaç~çao dialética riqueza-pobreza, e não a pobreza em si mesma. Em um mundo configurado pecaminosamente pelo dinamismo capital-riqueza, mister se faz suscitar um dinamismo diferente, que o supere salvificamente”. Essa nova civilização está baseada em dois pilares: identificação e impulso de um novo motor fundamental da história sob um princípio de humanização:
“Na civilização da riqueza, o motor da história é o acúmulo do capital, e o princípio de (des)humanização é a posse-desfrute da riqueza. Na civilização da pobreza, o motor da história – as vezes chamado de princípio de desenvolvimento – é a satisfação universal das necessidades básicas e o princípio de humanização é a elevação da solidariedade partilhada.”
Civilização da pobreza, satisfação universal de necessidades básicas, solidariedade partilhada? Para os ouvidos do capital isso é muito mais escandaloso do que extrair a água da merda, mas certamente é preferível à civilização baseada no excremento social que ele mesmo produz, reproduz e quer nos fazer beber como se fosse água boa.
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Fonte:http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/01/aos-pobres-o-direito-merda.html