terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O Menino e o Chico vitimas do mesmo ódio de classe

22.12.2015
Do BLOG DO PROF. JÚLIO SOSA
Postado por 

 Fosse o ocorrido com o Chico Buarque um caso isolado, já seria deprimente, por tudo o que ele represente como artista e cidadão para esse país. Desnecessário seria dizer ser ele um gênio como compositor, cantor e escritor. Também seria desnecessário afirmar, fosse esse um país que cultivasse a memória, o quanto o Chico foi importante na luta pela democracia nos anos duros da Ditadura Civil e Militar, de 1964 a 1985. Mas o lastimável fato do Chico ter sido interpelado, na saída de um restaurante no Rio de Janeiro, de forma ofensiva por causa de suas posições políticas está inserido em grave contexto de cultivo ao ódio, que em 2015 ganhou ares de loucura insana no país.
Chico na saída de Restaurante 21/12

            O que vivemos no Brasil atualmente é o mais descarado ódio de classe que sempre foi escondido no país sobre a forma mentirosa de que aqui se vive harmoniosamente. Mentira. Bastou um governo progressista, com todos os equívocos que ocorreram conceder alguns direitos básicos ao povo da senzala para a casa grande sair do armário e mostrar todo o seu ódio de classe que fica cada vez mais latente e perigoso.

            A radicalização politica tem sido levada ao extremo por uma oposição à direita que tem demonstrado que seu único projeto viável a exclusão do outro. Tudo alimentado por uma mídia golpista que dialoga, diretamente, com uma classe média que defende a manutenção dos privilégios dos ricos e ataca os direitos aos pobres, escolha errônea de uma classe média que não se vê como classe trabalhadora.

            A destruição do adversário como prática política abre o espaço para que entulhos autoritários no país percam a vergonha de se mostrar em público e escancarem e verbalizem seus ódios de classe, suas posições fundamentalistas e, perigosamente, conservadoras. Não há espaço para a convivência com a contrariedade. Numa democracia plena, não bastam que as instituições garantam voz a maioria, é preciso, acima de tudo, que a contradição radical de interesses e diversidade de identidades seja reconhecida como legitima e ouvida no processo decisório.

            Não se trata aqui de defender a pessoa do Chico Buarque, até porque ele tem argumentos, conhecimento e arcabouço histórico suficiente para contra-atacar aquele bando de playboy, que se acharam no direito de interpela-lo, por ele exercer livremente a sua cidadania política. O Chico tem minha solidariedade com ele, mas ele não me preocupa.
            Neste mesmo Rio de Janeiro, no último dia 13 de dezembro, no domingo das manifestações que defendiam o golpe contra a Presidenta Dilma o ódio que se voltou contra o Chico Buarque, atacou um menino negro, de 12 anos de idade, acusado de ter furtado um celular, embora depois de revistado nada tenha sido encontrado com ele, ficou durante intermináveis minutos sendo agredido física e verbalmente, por um bando de adultos sedentos de ódio. São chocantes as cenas dos vídeos que circulam pela internet, deste episódio. Em determinado momento uma mulher grita, desvairadamente, que é “preciso metralhar o menino”. O ódio visível nos olhos daquelas pessoas não deixa dúvida que fariam isso mesmo se fosse possível. Leia Aqui

Menino agredido covardemente por manifestantes 
contrários a Presidenta Dilma. RJ 13/12/15

            A crise política provocada por um governo que tem se mostrado fraco, politicamente, e uma oposição à direita golpista e irresponsável, que jamais aceitou a derrota eleitoral de 2014, chegou ao extremo. As posições fundamentalistas defendidas abertamente por formadores de opiniões como jornalistas, pastores, deputados tem sido o combustível para demonstrações de ódio que beiram o fascismo. Todos os monstros saíram do armário. A Casa Grande pretende impor sua vontade custe o que custar. E os que, politicamente, pretendem usurpar o poder, se utilizam desse ódio para gerar uma convulsão social e politica que justifiquem o golpe e a derrubada do poder. Porém, nada lhes garantem que terão o controle das feras que eles alimentaram e soltaram pelo país.

            O triste ano de 2015, na sua, quase, saideira, vivenciou o episódio com o Chico, por ser ele quem é, ganhará a justa repercussão, porém, o menino negro do Rio agredido física e verbalmente, será esquecido, como boa parte da juventude,  a maioria negra, assassinada no país.

            Quando se fala que a revolta da elite que ataca o PT, não é provocada pelos erros do partido, e sim, motivada pelo ódio de classes, falamos isso não por exercício de retórica, mas por consciência histórica e política. Temos uma elite reacionária, conservadora, escravocrata, burra e acostumada ao privilégio. Essa elite não admite que o filho da empregada doméstica, que até pouco tempo era quase uma escrava na casa do patrão, possa frequentar a mesma universidade do seu filho. Essa elite ataca o sistema de cotas por considerar que o negro ainda deveria ser escravo. Tudo isso disfarçado na falsa ideia que sempre se vendeu no país: no Brasil não há ódio de classe, não há preconceito racial; Casa Grande e Senzala vivem em harmonia. 
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Fonte:http://www.profjuliososa.com.br/2015/12/o-menino-e-o-chico-vitimas-do-mesmo.html
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