terça-feira, 17 de novembro de 2015

Comportamentos Estratégicos:Seguir contra a manada

17.11.2015
Do portal da Revista CartaCapital

Estudo sugere que comportamentos estratégicos contracíclicos durante recessões podem ser vantajosos para as empresas

Vistas de perto, as empresas são singulares. Cada uma com sua história, práticas, produtos e cultura. Entretanto, em conjunto, comportam-se com frequência como uma manada, disparando intrépida rumo a direção desconhecida, a cada alarme, verdadeiro ou falso.
A economia desacelerou? O dólar subiu? Cortam-se cafezinhos e brindes, suspendem-se viagens. Um inverno polar desceu sobre a economia tropical?  Então é hora de agir: eliminam-se empregos, cortam-se investimentos e adiam-se expansões.
Em consequência do efeito manada, o que podia ser o pequeno alerta de um drama localizado torna-se profecia a induzir uma catástrofe de grandes proporções. E até que a fase depressiva se esgote, a manada segue com seu galope pesado e soturno, arrepiando-se a cada nova notícia, ceifando o futuro. 
Será tal comportamento inexorável? Não necessariamente. Em um artigo publicado na Revista de Administração de Empresas, da FGV-Eaesp, Claudio Ramos Conti, Rafael Goldszmidt e Flavio Carvalho de Vasconcelos lembram que as recessões de fato geram impactos severos para a maioria das empresas. Em uma crise, algumas delas são pouco afetadas, porém, e chegam até a prosperar. Segundo os autores, “em um cenário de demanda reduzida, competição aumentada e muitas incertezas, a maioria das empresas tenta sobreviver cortando custos e investimentos, de maneira pró-cíclica”. Elas poderiam aproveitar a situação, entretanto, para investir de modo contracíclico, identificar oportunidades e superar a concorrência.
Conti, Goldszmidt e Vasconcelos estudaram três tipos de estratégias empresariais. As de suprimentos incluem quadros, produção e compras. As de demanda abrangem definições de preço e investimentos em marketing e em pesquisa & desenvolvimento. As estratégias de capital envolvem políticas de crédito, gastos em ativos e aquisições. Em recessões, as empresas costumam adotar estratégias pró-cíclicas em quase todos esses tópicos. Cortam-se quadros, reduzem-se compras, adiam-se investimentos e diminuem-se os investimentos em marketing e em pesquisa. A exceção é a política de preços, nem sempre reduzidos.
Manada
Manobrando a crise: negociações entre a empresa Mercedes e trabalhadores reverte 500 demissões / Créditos: Adonis Guerra/ SMABC
Os períodos de recessão aumentam a disponibilidade de recursos qualificados, com custos reduzidos, que podem ser usados para investimentos contracíclicos, mas o aproveitamento de oportunidades é condicionado pela capacidade de as empresas modificarem, com flexibilidade, seus focos e práticas.
Em recessões leves, apontam os pesquisadores, as mudanças no mercado são pequenas e basta ter flexibilidade operacional para ajustes na programação da produção e no mix de produtos e adoção de uma estratégia contracíclica. Em recessões severas ou prolongadas, as mudanças são mais profundas e exigem novos focos e realocação de recursos, realizados com forte restrição de custos. Neste caso, a transformação deve ser estrutural.
Outro fator-chave para o aproveitamento de oportunidades surgidas durante períodos de recessão é a própria capacidade de reconhecê-las. Diante de contextos recessivos, muitas organizações entram em depressão, tornando-se incapazes de detectar oportunidades. Outras as percebem, entretanto, e agem para aproveitá-las.
Os pesquisadores coletaram informações com mais de cem gestores financeiros e de planejamento de empresas brasileiras de capital aberto, sobre a crise de 2008-2009. A maioria das empresas adotou estratégias pró-cíclicas durante o período. Poucas empresas fizeram o oposto.
A partir da análise estatística dos resultados, Conti, Goldszmidt e Vasconcelos concluíram que estratégias contracíclicas relacionadas a maiores investimentos durante recessões levam a desempenhos superiores. Eles também comprovaram o efeito positivo da flexibilidade e do grau de empreendedorismo. 
O artigo oferece um bom retrato do comportamento das empresas brasileiras de capital aberto durante uma crise de curta duração e sugere que seguir contra a manada requer competências específicas, mas pode ser vantajoso. O prolongado período recessivo agora em curso mostrará para onde a manada seguirá, quanta grama destruirá no caminho e quanto as reses mais empreendedoras e flexíveis poderão avançar.
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Fonte:http://www.cartacapital.com.br/revista/876/seguir-contra-a-manada-6517.html
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