terça-feira, 29 de setembro de 2015

Uma nova chance para Marina Silva, por Aldo Fornazieri

29.09.2015
Do portal GGN,28.09.15
LUIS NASSIF ON LINE
Por ALDOFORNAZIERI

Uma nova chance para Marina Silva, por Aldo Fornazieri

Entre as possibilidades de impeachment e renúncia e de não-impeachment e não-renúncia de Dilma, muitos acontecimentos imponderáveis e não previstos poderão e deverão ocorrer até 2018. Mas esta conjuntura crítica que caracteriza o atual momento histórico do Brasil é de longa duração e se define por dois elementos estruturantes: 1) a crise de deslegitimação do sistema e dos atores políticos; 2) a crise econômica. Não há nenhum indício de que estas duas crises, com suas imbricações e suas autonomias, tenham algum tipo de solução satisfatória até 2018, independentemente do desfecho da crise específica que atinge o governo Dilma.

No plano da crise política, o divórcio que existe entre a sociedade e o sistema político, entre os eleitores e os representantes, entre o povo e os governos tem causas complexas e é de difícil solução. Dentre outras causas está a percepção de que o sistema é estruturalmente corrupto, de que os partidos e os políticos colocam seus interesses próprios acima do bem público, de que os políticos e agentes públicos graduados se beneficiam de cestas de privilégios, de que o poder público arrecada muito e entrega pouco, de que os governos perderam capacidade e eficiência na entrega de bens públicos e políticas sociais e de que o sistema tributário e de subsídios beneficia a elite abastada da sociedade. Na medida em que o presidencialismo de coalizão é também um presidencialismo de barganhas, a crise fiscal exauriu os estoques de ativos concedíeis pelo governo, provocando a perda de apoio no Congresso.

O colapso de legitimidade do sistema político teve seu apogeu em junho de 2015 e de lá para cá o que houve foi mais degradação e degeneração e não recuperação ou refundação. Nem as eleições de 2014 e nem os arremedos de reforma política foram capazes de recuperar a legitimidade do sistema, dos partidos e dos políticos. Dilma só conseguiu se reeleger porque existia uma reserva de apoio difuso, advinda dos resultados dos governos Lula.

A crise de legitimidade atinge os dois pontos nevrálgicos centrais do sistema político: a) a sua dimensão simbólica em face da degradação moral da política; b) a sua dimensão material, pela cessação da entrega de benefícios materiais por parte dos governos e pelos efeitos negativos no emprego e nas condições de vida que a crise econômica provoca. A legitimidade do Congresso não é melhor do que a de Dilma e os principais líderes do PMDB – Temer, Renan e Eduardo Cunha – também se situam no patamar de 10% de avaliação positiva. A sorte do PSDB não é muito melhor.

A crise econômica também é complexa e tem várias causas. A rigor, ela já vinha se estruturando no segundo mandato do governo Lula. Além de causas mais remotas, uma das causas mais evidentes é a crise fiscal. As crises fiscais, invariavelmente, têm deprimido as economias. A crise fiscal se compõe de dois eixos: o primeiro, diz respeito a causas estruturais e custos constitucionalizados. Nem os últimos governos e nem o Congresso se dispuseram a enfrentar esses problemas. O segundo eixo se refere a imprudência fiscal do primeiro mandato de Dilma e a má vontade de enfrentar o problema no inicio desse segundo mandato. As incompreensões do PT e as pautas-bomba da Câmara dos Deputados agravaram essa crise.

Mas a crise econômica se relaciona também com 30 anos de desindustrialização, à falta de um posicionamento do Brasil no contexto global, à exaustão do binômio crédito-consumo e ao esgotamento do modelo macroeconômico originado no Plano Real. O desenvolvimentismo de privilégios do governo Dilma (concessões e empréstimos a juros subsidiados à setores do capital, sem resultados efetivos), agravaram esse cenário.

Marina Silva e a Crise

Marina Silva adotou uma tática de baixo protagonismo ante a crise política e moral, cujas labaredas queimam o PT, o PMDB, o PSDB e outros partidos orbitais. Isto pode parecer um paradoxo em face das possibilidades de intervenção que a crise política suscita. Mas Marina pode estar certa em sua tática, pois intervir na crise significa intervir no vasto lodaçal, no qual, poucas coisas sobrevivem. Marina procura preservar-se no momento em que a Rede Sustentabilidade obtém o registro oficial.

É certo que Marina cometeu alguns erros graves após o surpreendente sucesso nas urnas, nas eleições presidenciais de 2010. O primeiro, foi não apostar imediatamente e com força na construção do novo partido. A prioridade do líder autêntico consiste em organizar suas forças próprias para que ele possa ter autonomia de ação. Somente aqueles que têm autonomia de ação lideram efetivamente. Assim, o agrupamento ficou de fora das eleições municipais de 2012 e chegou às eleições de 2014 na condição de subordinação ao PSB. 

Somente um acaso trágico permitiu que Marina se alçasse à condição da candidata presidencial, mas com frágil autonomia por conta das injunções do PSB. Mesmo assim, obteve um resultado eleitoral significativo.

O segundo erro foi a guinada à direita promovida durante a campanha. O programa de Marina, em alguns temas centrais, pouco se diferenciou do de Aécio Neves. Isto provocou desencanto em setores progressistas e abriu o flanco para ataques pesados e exagerados do PT.

As circunstâncias da crise e os ventos da Fortuna agora oferecem uma nova chance à Marina. Ela deverá chegar a 2018 preservada da devastação provocada pela crise. Estará no comando de sua força própria – a Rede. Poderá acumular forças em 2016 se adotar a tática de lançar o máximo de candidatos possível às eleições municipais, deixando as alianças para o segundo turno.

A Rede poderá ser o desaguadouro do descontentamento e da desventura de vários políticos e militantes. Desventurados do PT devem migrar para a Rede. Descontentes do PSol sinalizam o caminho da Rede. Na medida em que o PSDB de Aécio Neves se tornou o partido da bancada da Bala, do Boi e da Bíblia, os remanescentes de ideias social-democratas também poderão recorrer à Rede.

Mas para ter êxito, a Rede terá que encontrar o seu lugar. Este lugar não poderá ser nem de centro (congestionado) e nem de centro-direita (PSDB). Terá que ser de centro-esquerda, se é que essas designações representam ainda alguma coisa. Poderá ocupar um espaço político e social que, de alguma forma, foi do PT. Mas sem a roupagem e sem a retórica do PT. Para ser significativa, a Rede terá que ser o partido do novo progressismo. Enquanto organização, a Rede está mais próxima dos partidos burocráticos tradicionais e mais longe dos novos partidos-movimento que surgem na Europa. A agremiação não encontrou uma forma adequada de combinar a política vertical com a política democrática horizontal. A Rede tem permitido que apenas os seus fieis rezem em sua igreja.

Marina terá que decidir se quer ser a encarnação de uma nova liderança política lastreada na exigência de um discurso moral e humanista, ao mesmo em tempo que propõe e exige soluções práticas e eficazes para os problemas sociais e humanos. Isto exige um novo discurso, a retórica de uma nova esperança, uma crítica sem peias à desumanidade do capital financeiro e às iniqüidades das desigualdades sociais. Exige uma crítica qualificada a este capitalismo que está aí e que, no dizer do Papa Francisco, representa uma “forma sutil de ditadura”.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
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Fonte:http://jornalggn.com.br/noticia/uma-nova-chance-para-marina-silva-por-aldo-fornazieri
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