quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Por que não odiar de morte? Porque pessoas mudam. E nem sempre para pior

23.09.2015
Do blog TIJOLAÇO, 22.09.15
Por FERNANDO BRITO

subraca

Lembro do que dizia o velho Brizola: “não se pode tirar de ninguém o direito humano de mudar”.

É verdade que, ao contrário do vinho, a mudança pode ser para pior, seja porque alguns se tornam mais mesquinhos e ambiciosos quando a morte se torna  vizinha mais próxima,. seja porque alguns empobrecem em sonhos, enriquecendo em bens.

Mas não, o filtro do tempo é bom e de sua bondade tem-se a história de Angela Moss, que respondeu a uma postagem de um grupo de miadiativistas, o Coletivo Mariachi, que postou um trecho (veja ao final do post)  de um documentário produzido pelo jornalista Nelson Hoineff sobre a reação dos jovens da Zona Sul à chegada dos pobres à praia, nos ônibus.

Era “a sub-raça”.

Angela deu a cara e disse: era eu quem dizia isso e que bom que tanta gente esteja revoltada com o que eu dizia.

Porque Angela diz que, mesmo editado para parecer mais feio, “essa é a cara de uma sociedade sem compaixão e egoísta e, sim, um dia foi a minha cara”.

Angela cresceu, cresceu tanto que é capaz de ver a si mesma como a “menor” que ela própria diz que era.

Não há quem não possa amar o ato de Angela, mas será que há quem possa não odiar aquela Angela de mais de 20 anos?

Sim, precisa haver, porque é essa a diferença de quem já chegou ou, melhor ainda, de quem nunca saiu de sua humilde pequenez, onde está a grandeza humana.

No vídeo,  Angela diz que “não pode tirar o pessoal do Méier, do mangue, e levar para Copacabana”.

Casualmente, naquela época, eu morava no Méier e, antes, no Lins de Vasconcellos, “subúrbio” do Méier, onde, aliás, não há mangue algum.

Pegava o ônibus 455 ou o 456 para ir à praia, aliás em Ipanema, não em Copacabana.

Os pitbulls que querem “baixar a porrada” nos garotos do ônibus de subúrbio são a versão selvagem, indo às vias de fato, daquilo que está no vídeo.  Era natural que acontecesse a tragédia: os garotos pobres são em maior quantidade, os ônibus são em maior quantidade e as praias são do mesmo tamanho.

Mas alguém diz que eles são piores do que os “marombados” que quebram vidros de ônibus, os arrancam de lá e os espancam?

O que mudou em nós, Angela?

Nós, que não fazíamos mal algum e que jamais os odiamos ou aqueles garotos que, como felizmente você não fez,  não souberam manter a hegemonia de cultura e humanismo que uma parte, a melhor parte,  da elite brasileira sempre soube manter amando seu povo. E amando as pessoas, ainda bem, porque eu mesmo, aliás, tive a ventura de, mesmo usando óculos e sendo do “mangue”, ter namorado a menina mais bonita do Leblon, naquele final dos anos 70.

A elite brasileira é a grande derrotada neste processo, pois não conseguiu ser líder do plasmar de um povo.

E está diante de um dilema que ainda não compreendeu.

Se vocês nos virem e tratarem como bichos, nós viramos bichos agressivos.
E se nós virarmos bichos, vocês viram também, vivendo acuados.

Só tem jeito se todos nós virarmos gente. Igual, normal, humana.

Que bom que você virou.

PS. Se você soubesse, Angela, naquela época, o que era o Méier, não diria o que disse. No Méier, classe média baixa, ganhava eleição a UDN,com o Lacerda, que partiu definitivamente a cidade, para a Zona Sul, tirando de lá os pobres, ganhava a Arena, depois ganhou o PSDB de Ipanema e o Aécio do Leblon.

*****
Fonte:http://tijolaco.com.br/blog/por-que-nao-odiar-de-morte-porque-pessoas-mudam-e-nem-sempre-para-pior/
Postar um comentário