terça-feira, 1 de setembro de 2015

Inaugurado o golpômetro !

01.09.2015
Do blog O CAFEZINHO, 31.08.15
Por Miguel do Rosário

pib
Análise Diária de Conjuntura Cafezinho, 31/08/2015
A política brasileira deveria inaugurar urgentemente um golpômetro, então eu dou a partida e passo, a partir de agora, a fazer um, com periodicidade semanal.
É um índice de larga abrangência, de 1 a 20, porque precisaremos de muitos nuances. O número 1 corresponde a risco zero de golpe. Número 20, golpe certo.
Nesta segunda-feira, diríamos que o golpômetro subiu dois pontos em relação à semana passada, em função de fatores sobre os quais irei discorrer abaixo, e bateu a marca de 12 pontos, com viés de alta de mais um ponto para o resto da semana.
O ser humano é tão incrível que já estamos nos acostumamos até mesmo com essa situação, esse caminhar à beira do abismo.
Nas últimas semanas, algumas coisas ficaram mais claras. A estratégia da oposição não foi, exatamente, desistir do golpe, e sim empurrá-lo para mais adiante, quando o processo de manipulação da opinião pública estiver mais avançado.
A superexposição do "ministro" Gilmar Mendes (TSE e STF), fazendo com ele apareça, junto à mídia, como único ministro do STF e único ministro do STE, revela que Mendes se tornou, efetivamente, o grande líder do golpe.
Imaginar que ele será o próximo presidente do STF, a partir de setembro de 2016, não oferece perspectivas muito felizes ao longo da segunda metade do mandato de Dilma.
entrevista que Gilmar deu ontem ao Correio Braziliense mostra um quadro político inteiramente voltado a serviço da derrubada do governo. E ele não esconde isso.
Na entrevista, Mendes deita falação e pré-julgamentos, sem o menor pudor, sobre fatos que a corte irá julgar. E age muito mais como um político do que como um magistrado, rompendo todos os códigos de ética criados para que juízes não interferissem no jogo político.
Num ponto da entrevista, o repórter pergunta a Mendes: "Não dá para dizer então que a presidente não sabia?"
Mendes, malandro, dá um drible verbal: "Não vou emitir juízo sobre isso. Agora, a mim me parece que é difícil qualquer pessoa que estava em posição de responsabilidade dizer que desconhecia essas práticas. "
Ou seja, diz que não vai emitir juízo e, em seguida, emite.
A entrevista é inteiramente repleta de joguinhos assim, mas é interessante porque nos fornece, em detalhes, o roteiro do golpe, que precisará ser embalado numa fôrma legal.
Para isso, é preciso antes aprofundar a narrativa de que haveria, como diz o ministro, um "método de governança" ancorado na corrupção, e numa "concepção ideológica, de que Estado e partido se confundem".
A teoria é bem doida. Segundo ela, bancos, empreiteiras, diversas grandes companhias brasileiras, todas teriam dado apoio ao PT em sua busca pela instalação do maoísmo comuno-petista no Brasil.
Lula, o grande mentor desse plano macabro, teria tido financiamento (ele mesmo abriu os dados, após a quebra de seu sigilo bancário) de Microsoft, Odebrecht, dezenas de grandes empresas, todas elas interessadas em apoiar o sinistro projeto petista de poder.
Entretanto, depois do que fizeram no mensalão, em que transformaram a Visanet em empresa pública e condenaram Pizzolato por um desvio que não ocorreu, e que, se tivesse ocorrido, não teria sido ele o responsável, está claro que terão agora muito mais elementos para brincar de montar narrativas.
Desmontar essas farsas não seria tão difícil, tivesse o governo instrumentos para se comunicar diretamente com o povo. Mas os poucos que o governo tinha, como o Café com a Presidenta, foram deliberadamente abandonados.
Gilmar ainda aproveita a entrevista para ofender blogs críticos à sua atuação com acusações levianas e, até mesmo criminosas, no limite da injúria e da difamação. Para autoritários como Gilmar, deveria existir apenas essa imprensa cartelizada, que agora lhe incensa, que abafa escândalos, apenas essa mídia herdeira da ditadura e da privataria.
Sou contra a judicialização da política e do debate político, mas Nassif está de parabéns por processá-lo, pela simples razão de que foi Gilmar quem processou Nassif primeiro.
Outro fator a elevar a instabilidade política é o aprofundamento da crise econômica. Hoje, segunda-feira, o boletim Focus do Banco Central, que apura semanalmente as expectativas do mercado para a economia, estimou uma queda de 2,26% no PIB deste ano. É uma queda enorme para uma economia do nosso tamanho. Se confirmada, será a maior que tivemos em bastante tempo.
Para 2016, espera-se nova queda no PIB, de 0,4%.
É óbvio que a instabilidade política dessa vez explodiu como bomba no colo da economia brasileira. Além disso, o ajuste fiscal foi feito com muita brutalidade. Aumento de juros, cortes de gastos, tudo feito de maneira brusca, sem a sensibilidade necessária para que não resultassem em redução da atividade econômica e, portanto, queda na arrecadação, neutralizando o próprio objetivo do ajuste.
A Lava Jato, que ingenuamente achamos ter chegado a uma etapa declinante há algumas semanas, ganhou corpo de maneira extraordinária. Seus procuradores, o juiz Sergio Moro, Gilmar Mendes, além da mídia, retomaram os trabalhos de imagem junto à opinião pública. Diferente do governo, esses agentes da oposição dão importância à comunicação e ao simbolismo das coisas. O Ministério Público brandiu uma suposta "devolução" de 1 ou 2 bilhões de reais aos cofres públicos, número abstrato mas encorpado, para galvanizar a operação com uma tinta generosa, deixando de lado a própria realidade econômica, que mostra um país em forte recessão dentre outras razões justamente pela maneira como a operação foi conduzida.
Nos anos que sucederam a II Guerra, as grandes empresas europeias que haviam apoiado o nazismo, não foram destruídas por nenhuma campanha moralista, mas salvas com dinheiro público. Algumas foram incorporadas ao Estado, como a Renault francesa, para que não houvesse desemprego. Bush fez a mesma coisa com a General Motors: estatizou-a. Aqui no Brasil, fez-se campanha aberta para destruir as principais empresas brasileiras de engenharia e construção civil, e agora se fala que devolverão R$ 2 bilhões, como se isso pagasse o prejuízo para o Estado de termos empresas, que pagavam bilhões de reais, todos os anos, na forma de impostos, além da geração de empregos, fechando as portas e falindo.
Esta semana, a novela da Lava Jato terá como personagem principal o ex-deputado Pedro Correa, que decidiu aceitar acordo de delação premiada. Político astuto e conservador, não será surpresa se Correa fizer o jogo manjado da Lava Jato. O destino feliz dos delatores que entraram no jogo (Barusco, o corrupto mais antigo e mais intenso de todos, já está curtindo praia em liberdade) dos procuradores e Sergio Moro já delineou para todos os réus o caminho a ser seguido: ajudar a montar o quebra-cabeça já previamente elaborado pela acusação. Os procuradores e Moro conseguiram convencer vários réus a colaborarem: ainda veremos as delações de Marcelo Odebrecht, Nestor Cerveró e Fernando Baiano.
A pontuação do golpômetro ainda pode subir um bocado antes de voltar a baixar.
O script disso tudo está sendo muito bem preparado.
Em Minas Gerais, o governador Pimentel entra na mesma máquina de moer reputações que corrói o PT em toda parte. A PF tucana está mordendo seu pé, tentando criar uma Lava Jato mineira para lhe derrubar. O fato de Pimentel possuir um longo rabo de "consultorias" milionárias, cobradas de sindicatos patronais, não lhe ajuda muito.
Até o momento, tudo indica que Pimental enfrentará essas acusações ao "estilo Dilma", ou seja, usará a tática de apanhar calado, de maneira que o esforço dos movimentos sociais de criar, em Minas, um núcleo nacional de resistência contra a escalada conservadora e golpista, encontrará dificuldades.
Por fim, temos um PT e governo ainda em curto-circuito político. A ideia de recriar a CPMF durou poucos dias, e apenas serviu para ilustrar a desorganização política de ambos.
O PT continua preocupado demais em oferecer algum tipo de proposta à sua militância. Falar em CPMF, sem antes fazer uma trabalho de esclarecimento sobre a questão tributária no país, é evidentemente estupidez. A mesma coisa vale para o imposto de grandes fortunas.
Um auditor fiscal de Minas, blogueiro, e leitor do Cafezinho, que estuda há anos a questão do tributo sobre as heranças, publicou um artigo, com gráficos, que mostra como a nossa opinião pública é mal informada, e como o governo e o PT são incompetentes ao tratar de qualquer questão tributária sem antes trazer comparativos entre países.
Até a década de 70, EUA e Inglaterra financiaram suas estruturas sociais com alíquotas máximas altíssimas sobre o imposto de herança, de 80% a 90% do total! Hoje baixaram essas alíquotas máximas para 40%. Mesmo assim, observa-se que o Brasil possui as menores alíquotas máximas tributárias no mundo.
Ranking
Não se pode, em plena crise econômica, falar impunemente de aumento de impostos. É preciso antes reduzir a evasão fiscal, simplificar e racionalizar os processos de pagamento, reduzir para os pequenos, para os empreendedores, para a classe média, e aumentá-los, após inteligente campanha de esclarecimento, para os setores sociais mais ricos.
A cultura da sonegação, por sua vez, deve ser combatida com inteligência, não com truculência judicial, não com criminalização do empreendedorismo, mas com reformas que simplifiquem o pagamento de tributos, descentralizem as cobranças, e prometam maior eficiência e transparência no uso dos recursos.
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Fonte:http://www.ocafezinho.com/2015/08/31/inaugurado-o-golpometro/
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