sexta-feira, 31 de julho de 2015

Juvandia Moreira vê tentativa de criminalizar sindicalismo. Sobre o marmitex: “É a visão pequena de uma elite preconceituosa”

31.07.2015
Do blog VI O MUNDO, 30.07.15

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por Luiz Carlos Azenha

Um jantar para debater a conjuntura tratado pela Polícia Federal como se fosse evidencia de alguma trama obscura.

O tom conspiratório reproduzido por jornalistas que não questionam, apenas reproduzem como verdade absoluta os vazamentos da PF e do Ministério Público.

Vazamentos que, nos Estados Unidos, como escrevemos aqui, são impensáveis — tanto no FBI quanto na Promotoria.

Neste clima de julgamento midiático, produzido com a ajuda de autoridades públicas, basta uma única menção para que uma nuvem de suspeita paire sobre o citado.

“É uma tentativa de criminalizar todo o movimento sindical”, reage Juvandia Moreira, presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo.

Na primeira entrevista desde que teve seu nome citado no blog do Estadão que serve de canal semi-oficial dos vazamentos, Juvandia reage: o jantar do qual ela participou, na casa do empresário Marcelo Odebrecht, foi apenas mais uma das muitas conversas sobre a conjuntura das quais ela participa.

Estavam presentes os presidentes do Itaú e do Bradesco, Roberto Setubal e Luiz Carlos 

Trabuco, os empresários Jorge Gerdau e Abilio Diniz, o ex-presidente Lula e outros. Convidado, João Roberto Marinho não compareceu. O outro sindicalista presente foi Sergio Nobre, dos Metalúrgicos do ABC.

Para ela, o episódio envolve um verdadeiro show de preconceitos.

“Durante o jantar, falei sobre como era necessário investir em mobilidade urbana, já que os trabalhadores reclamam do tempo que gastam para se deslocar. Também falei sobre a necessidade de ampliar o crédito e de investir na educação para poder agregar valor às matérias primas brasileiras”, descreve Juvandia.

Porém, a “descoberta” do jantar pela PF foi tratada pelo Estadão como algo bombástico, como se tivesse havido uma reunião clandestina.

“Por que os jornalistas não foram ouvir o Gerdau sobre o jantar? Ou o Trabuco?”, diz Juvandia, para quem a presença de sindicalistas ao lado de empresários foi tratada como algo suspeito.

“Eles se incomodam que o Lula quer ouvir todo mundo, fala com todo mundo. É uma característica dele. Querem um presidente que só fala com empresário, que não se mistura com os trabalhadores, que são a maioria dos brasileiros?”, pergunta ela.

Juvandia integra o conselho do Instituto Lula e o Conselho da Cidade, que debate questões relativas à administração de São Paulo. São posições que garantem a ela interlocução que vai muito além do cargo de presidente do Sindicato dos Bancários.

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O vazamento de documento confidencial pelo Estadão também expôs a mulher do empresário Marcelo Odebrecht, que escreveu ao marido quando soube que dois sindicalistas estavam entre os convidados:

“Se sujar minha toalha de linho ou pedir marmitex… vou pirar. Saudações sindicais??? Não mereço”, escreveu Isabela, referindo-se ao fato de que Juvandia, ao confirmar sua presença no jantar, despediu-se com “saudações sindicais”.

Para a presidente do Sindicato dos Bancários, outra demonstração de preconceito.

“Eles acham que o trabalhador tem de viver de marmitex, mesmo”, comenta Juvandia. “Acham exótico um trabalhador sentar na mesa com um empresário”.

Ela estranhou o apego de Isabela aos bens materiais implícito na menção à toalha de linho.

“É a visão pequena de uma elite preconceituosa, que acumula suas fortunas a partir da exploração do trabalho de milhares de pessoas, de trabalhadores”, resume.

Para além dos comentários infelizes de Isabela, Juvandia lamenta que a presença em um jantar seja considerado “indício” a partir do qual jornalistas fazem ilações descabidas.
Como a que o próprio Estadão fez, a partir do relatório da PF:
Juvandia Leite e Sergio Nobre são administradores da Editora Gráfica Atitude. Segundo denúncia do Ministério Público Federal, uma parte da propina paga para o ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque na Diretoria de Serviços foi direcionada por empresas do grupo Setal Óleo e Gás, controlado por Augusto Mendonça – delator da Lava Jato – para a Editora Gráfica Atitude Ltda.
O pagamento teria sido feito a pedido do então tesoureiro do PT João Vaccari Neto. Os procuradores da força-tarefa sustentam que existem, ainda, “vários indicativos de ligação da Gráfica Atitude com o PT”.
Subsequentemente, o mesmo Estadão voltou a fazer acusações à Gráfica Atitude, desmentidas em nota oficial:
Em relação a matéria “Gráfica ligada ao PT girou R$ 67 mi em cinco anos, aponta PF”, divulgada nesta quarta-feira (22) no blog do jornalista Fausto Macedo, no site Estadão, assinado por Julia Affonso, Valmar Hupsel Filho e Ricardo Brandt, a Editora Gráfica Atitude Ltda esclarece: 
1. A Editora Gráfica Atitude, fundada em 2007, não funciona como gráfica e sim como editora com o objetivo de viabilizar um projeto de comunicação construído em conjunto por entidades sindicais e movimentos sociais para levar à sociedade informação de qualidade e fortalecer a luta dos trabalhadores e sua participação maior em assuntos relacionados ao seu cotidiano.
2. A Editora Atitude é formada por 40 entidades sindicais que escolheram o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC para representa-los. Localizada no centro de São Paulo, sua estrutura é composta por 34 profissionais que integram a equipe.
3. A Editora Atitude é uma empresa privada que produz conteúdo jornalístico para vários veículos, sem vínculo partidário. Seu conteúdo é focado no mundo do trabalho, no emprego,  no crescimento econômico do País com inclusão social, nos direitos humanos e na defesa da cidadania do povo brasileiro.
4. A matéria publicada pelo site ignora os depoimentos de diretores, funcionários e coordenadores da Editora Atitude, prestados no mês de julho, perante à justiça, onde foram esclarecidas as demandas com total transparência.
5. As transações financeiras da Editora passam por uma única conta corrente e sua contabilidade é retratada nos respectivos extratos. Entre junho de 2010 a abril de 2015, a Editora teve receita média de R$ 6,1 milhões/ano (o que totaliza R$ 33 milhões no período) para custeio de despesas com a folha de pagamento e produção jornalística, valor este totalmente compatível com as atividades prestadas.
6. Não é verdadeira a informação de que seriam depositados em espécie (em dinheiro) na conta Editora Atitude R$ 17,95 milhões entre dezembro de 2007 e março de 2015. Não há nenhuma movimentação financeira em dinheiro feita pela Editora e todos os depósitos ocorrem por meio de cheques cruzados e nominais.
7. A matéria também erra ao relacionar a Odebrecht com a Editora Atitude. Em relação a reunião organizada a pedido do ex-Presidente Lula em 2012, tratou-se de evento realizado  entre sindicalistas e empresários para debater a conjuntura nacional, absolutamente comum no meio político e empresarial.
8. A Editora contesta a publicação do Estado de São Paulo que apresenta relatório policial confidencial, expondo dados pessoais de jornalistas e dirigentes sindicais.
9. A Editora Atitude reafirma que toda a receita da empresa destina-se ao custeio das atividades de  produção jornalística.
O presidente da CUT, Vagner Freitas, em recente artigo resumiu como vê a série de acusações:
As tentativas de criminalização dos movimentos social e sindical, comandada há décadas pela elite empresarial brasileira, em especial pelos proprietários de jornais e revistas, rádios e televisões, atraem a cada dia novos atores de áreas como Justiça, Ministério Público e até da Polícia Federal, formada em sua maioria por trabalhadores assalariados. Incomodados com os avanços sociais dos últimos anos, eles se unem para acabar com os embates por melhores condições de trabalho e renda, mais justiça e inclusão social, desenvolvimento econômico e social, com distribuição de renda.
Acusar de suspeita de corrupção, com a garantia de uma repercussão descuidada e sensacionalista da mídia, alimentada por vazamentos seletivos, é a arma que esses grupos consideram mais letal especialmente para atingir o movimento sindical combativo e que passou a ser usada mais frequentemente, sem constrangimentos nem preocupação com a verdade dos fatos.
Por outro lado, a defesa de Marcelo Odebrecht acertou na mosca ao denunciar o “reality show judiciário” — que atira primeiro e pergunta depois –, que não seria possível não houvesse um verdadeiro conluio entre agentes públicos vazadores e jornalistas turbinadores de denúncias, que fizeram ilações a partir de anotações aparentemente desconexas encontradas nos celulares do empresário:
Em seu afã de incriminar MARCELO a todo custo, a Polícia Federal nem se deu ao trabalho de tentar esclarecer as anotações com a única pessoa que poderia interpretá-las com propriedade – seu próprio autor. Ao reverso, tomou desejo por realidade e precipitou-se a cravar significados que gostaria que certos termos e siglas tivessem.
E, mais uma vez, transformou as peculiaridades do processo eletrônico em sua aliada na tática de atirar primeiro e perguntar depois. Sabedora de que a livre distribuição de chaves eletrônicas tornou os processos da Lava Jato uma espécie de reality show judiciário, a polícia lançou no mundo as anotações pessoais de MARCELO e as tortas interpretações que deu a elas, e aguardou que fossem quase instantaneamente noticiadas como verdades absolutas.
Houvesse tido a cautela que sua função exige, e a Polícia Federal teria evitado a barbaridade que, conscientemente ou não, acabou por cometer: levou a público segredos comerciais de alta sensibilidade em nada relacionados aos pretensos fatos sob apuração, expôs terceiros sem relação alguma com a investigação e devassou mensagens particulares trocadas entre familiares do peticionário, que logo caíram no gosto de blogs sensacionalistas.
Lamentavelmente, a obstinação investigativa e persecutória de autoridades que atuam na Lava Jato parece ter turvado sua compreensão de que o país não se resume a um caso criminal. Há indivíduos, famílias, empresas, finanças, obras e empregos em jogo – no caso das empresas do grupo Odebrecht, são mais de 160.000! –, que deveriam impor um mínimo de cuidado na análise e divulgação de documentos e informações por parte dos agentes públicos, ao menos até que bem esclarecidos seu conteúdo e eventual pertinência com as apurações.
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Fonte: http://www.viomundo.com.br/denuncias/juvandia-moreira-ve-tentativa-de-criminalizar-sindicalistas-sobre-o-marmitex-e-a-visao-pequena-de-uma-elite-preconceituosa.html
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