segunda-feira, 15 de junho de 2015

MARIAFRÔ: Enquanto existirem Barbosas e Saletes

15.06.2015
Do blog MARIAFRÔ, 04.06.15
Por MariaFrô


Ontem escrevi um pequeno texto no Facebook sobre nosso anestesiamento diante das boas coisas, das boas lutas, sobre minha angústia diante de nós que ao que parece desaprendemos a recolher o que realmente importa. Parece que só sabemos reclamar e nos indignar diante do inusitado, das coisas sem importância, no balanço da rede de posts sem noção do Facebook.
Diante de meu texto, a professora Tânia me enviou um artigo de José Arbex, escrito em 1999. Ele foi produzido num contexto econômico neoliberal, onde o que vivemos hoje em termos de apartheid econômico e social ainda era mais agudizado: em 2000, tínhamos 50 milhões de brasileiros vivendo em situação de indigência, hoje o Brasil saiu do mapa da fome. Mas, possivelmente os valores neoliberais de fins do século XX quando Arbex escreveu seu artigo tenham se encorpado e invadido até mesmo os ambientes dos Barbosas e Saletes.
Como é um texto longo (e na era das redes sociais as pessoas estão abrindo mão do seu tempo de reflexão), resolvi republicá-lo em partes, quem sabe assim, o texto de Arbex seja lido na íntegra.
HISTÓRIA SEM FIM
Por José Arbex, na Caros Amigos, fevereiro de 1999
Barbosa e Salete, o bombeiro e a catadora de papel, seres humanos direitos.
José Barbosa de Andrade tinha 33 anos, era casado com Sandra Andrade, 32 anos, com quem tinha três filhos (Wesley, 11 anos, Amanda, 4 anos, e Murilo, 3 anos). Barbosa era soldado, servia na Rocam (Rondas Ostensivas com Apoio de Motos), parte do 2o Batalhão de Choque da Polícia Militar, onde recebia um salário de 700 reais mensais. Barbosa está morto. No dia 6 de janeiro, ele desapareceu nas águas imundas do Tamanduateí, ao tentar salvar a sem-teto, Salete Aparecida Rodrigues, 48 anos, uma catadora de papel que caiu no rio quando passava pela ponte da rua São Caetano, no centro de São Paulo. Salete foi salva. Mas o corpo de Barbosa só seria encontrado cinqüenta horas depois. Deprimida, abandonada pela família, Salete disse que preferia ter morrido a ter sido salva à custa da vida do soldado. Ela tem duas filhas, uma de 11 anos que vive em Guarulhos com uma parente, e a mais velha, de 35 anos, que mora em uma favela. Por causa de uma fratura no fêmur direito, Salete foi internada e operada no Hospital do Servidor Público. Nenhum dos seus cinco irmãos foi visitá-la. Barbosa foi enterrado com honras militares, no Mausoléu da PM, no Cemitério do Araçá.
Barbosa e Salete encarnaram, no brevíssimo instante de um encontro que jamais se consumou, a dimensão de um grandioso mito, com todos os seus ingredientes – o heroísmo e a tragédia, a generosidade e a desesperança, a força do sentido ético e o sentimento arrasador de solidão. Vidas que se cruzaram nas ruas da grande cidade, resultando em um desfecho surpreendente, cujo sentido, se existir, permanecerá para sempre refratário a qualquer indagação. Histórias assim cotidianas revelam com intensidade fulgurante que a cidade, sob a aparência de uma “normalidade” rotineira, é de fato um palco turbulento, enigmático e desconhecido, um imenso caos feito de paixões subterrâneas, de fantasias e pulsões que move cada um de nós, os seus habitantes. A cidade é a manifestação aparente de uma ordem que só existe de forma muito frágil, precária. A cidade é a ilusão de uma ordem que quase não existe.
Nada disso é rigorosamente “novo”. Ao contrário, o caos urbano é um dos grandes signos dessa fase da história que se convenciona chamar modernidade. Karl Marx e Friedrich Engels já haviam assinalado que, no sistema capitalista, as comunidades são apenas aparentes, já que aquilo que une os homens em grandes aglomerações urbanas é também aquilo que os separa: a disputa por emprego, por melhores salários, a busca do lucro, as estratégias individuais de ascensão social, a exploração de uns pelos outros. As cidades não tendem a criar relações reais de compaixão e solidariedade, mas, ao contrário, sua grande vocação é alimentar o medo, aprofundar a solidão – daí, aliás, o caráter excepcional da história de Barbosa e Salete, à qual voltaremos mais adiante. Não por acaso, foi através da observação dos grandes e miseráveis bairros operários de Manchester – as primeiras concentrações industriais do planeta – que Marx e Engels detectaram aquilo que chamaram a “verdade” do capitalismo, feita de miséria, alienação, brutalidade.
Para ler as demais partes do artigo acesse os links abaixo
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Fonte:http://www.revistaforum.com.br/mariafro/2015/06/04/enquanto-existirem-barbosas-e-saletes-parte-1/
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