terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O deus mercado e as pragas do Egito brasileiro

10.02.2015
Do blog TIJOLAÇO, 09.02.15
Por Fernando Brito

pragas
Uma das melhores leituras de economia é a do blog do professor Fernando Nogueira da Costa, da Unicamp, que nunca a enxerga separada da política e da história das sociedades.
Hoje, Fernando produz um relato tragicômico do que parece estar acontecendo em nosso País.
Troque o Egito pelo Brasil e a divindade pela adoração ao deus Mercado, que se converteu em um monoteísmo a quem todos, em nome do bom-senso, temos de cultuar e a história das pragas que se estão a abater em nosso país – ou nos jornais de nosso país – em ruínas.
Como se sabe, nossas classes dirigentes e altos hierarcas vivem uma situação desesperadora.
Afora o derrièrre da atriz Paola Oliveira, parece que nada de bom surge nunca na mídia.
O deus Mercado assim o exige.
Com uma pequena diferença em relação ao outro, que faz das trevas o esplendor.
Este deus, o Mercado, é bom em fazer o contrário: transforma em treva tudo o que fulgia.

As pragas de um  deus vingativo

Fernando Nogueira da Costa
Pior que está não pode ficar… Este autoengano é comum em momentos de infelicidade. Quando o “tornar-se presente” é um ato triste, o ser humano lembra das coisas boas que já ocorreram no passado — “ele era feliz e não sabia” — e busca esperança de que outras poderão ocorrer no futuro. Ou então verifica que também aconteceram coisas boas em 2014, por exemplo, o desempenho no mercado de trabalho (4,8% foi a menor taxa de desemprego média anual desde o início da série em 2003) — que pode piorar…
Outra fuga mística é ver que pior aconteceu com o Egito Antigo, quando uma doutrina religiosa que defendia a existência de uma única divindade quis impor o culto ou a adoração de um único deus: o seu.
As 10 Pragas que um deus vingativo lançou sobre o Egito tiveram por fim levar Faraó a reconhecer e a confessar que o deus dos hebreus era supremo, estando o seu poder acima da nação mais poderosa que era então o Egito, cujos habitantes deveriam ser punidos por sua grosseira idolatria a outros deuses. Coitados, eram inocentes úteis nessa disputa de poder… :)
1) Água em sangue – A primeira praga, a transformação do Nilo e de todas as águas do Egito em sangue, causou desonra ao deus-Nilo, Hápi. A morte dos peixes no Nilo foi também um golpe contra a religião do Egito, pois certas espécies de peixes eram realmente veneradas e até mesmo mumificadas.
2) Rãs – A rã, tida como símbolo da fertilidade e do conceito egípcio da ressurreição, era considerada sagrada para a deusa-rã, Heqt. Assim, a praga das rãs trouxe desonra a esta deusa.
3) Piolhos – A terceira praga resultou em os sacerdotes-magos reconhecerem a derrota, quando se viram incapazes de transformar o pó em borrachudos, por meio de suas artes secretas. Atribuía-se ao deus Tot a invenção da magia ou das artes secretas, mas nem mesmo este deus pôde ajudar os sacerdotes-magos a imitar a terceira praga.
4) Moscas – A linha de demarcação entre os egípcios e os adoradores do deus de uma religião teocêntrica veio a ficar nitidamente traçada da quarta praga em diante. Enquanto enxames de moscões invadiam os lares dos egípcios, os israelitas na terra de Gósen não foram atingidos pela praga. Deus algum de outras religiões pôde impedí-la, nem mesmo Ptah, “criador do universo”, ou Tot, senhor da magia.
5) Peste sobre bois e vacas – A praga seguinte, a pestilência no gado, humilhou deidades tais como: Seráfis (Ápis) – deus sagrado de Mênfis do gado, a deusa-vaca, Hator e a deusa-céu, Nut, imaginada como uma vaca, com as estrelas afixadas na sua barriga. Todo gado do Egito morreu, mas nenhum morreu de Israel.
6) Feridas sobre os egípcios – Deus nesta praga zombou a deusa e rainha do céu do Egito, Neite. Moisés jogou o pó para o céu que deu um tumor ulceroso na pele do povo que doeu demais. Os magos também pegaram a doença e não puderam adorar a sua deusa e rainha religiosa. Israel novamente foi poupado dessa praga.
7) Chuva de pedras – A forte saraivada envergonhou os deuses considerados como tendo controle sobre os elementos naturais; por exemplo, Íris – deus da água e Osiris – deus de fogo.
8) Gafanhotos – A praga dos gafanhotos significava uma derrota dos deuses que, segundo se pensava, garantiam abundante colheita. Deus encheu o ar de gafanhotos. Os deuses egípcios (Xu – deus do ar e Sebeque – deus-inseto) não puderam fazer nada para não deixar acontecer.
9) Escuridão total – Com esta praga Deus derrubou o deus principal do Egito, Rá, o deus-sol. A palavra Faraó significa sol, ele era um deus. Egito ficou nas trevas (sem ver nadinha) durante 3 dias, mas Israel ficou na luz.
10) Morte de todos os primogênitos – inclusive entre os animais dos egípcios – A morte dos primogênitos resultou na maior humilhação para os deuses e as deusas egípcios. Os governantes do Egito realmente chamavam a si mesmos de deuses, filhos de Rá ou Amom-Rá.
‘Tá vendo? Por aqui, por ora, só falta água e luz…
P.S. do Tijolaço: …e sacerdotes
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Fonte:http://tijolaco.com.br/blog/?p=24666
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