quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Jornalistas demitidos na crise dão força à imprensa alternativa grega

11.02.2015
Do portal  OPERA MUNDI,25.12.12
Por  Roberto Almeida |
Enviado especial a Atenas - 25/12/2012 

Novos meios de comunicação já começaram a pautar grande jornais de diversas partes do mundo


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Dos escombros da crise grega, um grupo de jornalistas, a maioria demitidos dos principais veículos de comunicação do país, envia sinais de socorro em inglês em rádios online, documentários, contas no Twitter e recém-lançados sites de notícias. Sem dinheiro e dependendo de voluntários, eles usam um modelo de negócios diferente para continuar trabalhando. O dinheiro vêm de cafés, pequenos restaurantes e ONGs.

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A corrente alternativa grega já pauta a cobertura de jornais de alcance mundial, como o britânicoThe Guardian, e inspira reportagens especiais sobre os efeitos de uma crise sem precendentes, como a que apresentou os casos de tortura policial contra militantes anarquistas. Eles tentam manter a Grécia em pauta no noticiário internacional e, especialmente, desfazer a imagem de um país de preguiçosos, ventilada pelos veículos conservadores europeus.
O primeiro grande passo foi dado por Aris Chatzistefanou, um ex-repórter da popular rádio Skai. Demitido por não concordar com cortes em seu salário, ele ajudou a idealizar o documentário Debtocracy, que fala sobre a dívida grega. Em entrevista a Opera Mundi em abril deste ano, Chatzistefanou falou sobre sua experiência pessoal de deixar o universo do jornalismo diário para embarcar em alternativas antiausteridade.


Na esteira de Aris, a Radio Bubble é uma empreitada de militantes de diversos matizes da esquerda grega, em que curiosamente também há jornalistas demitidos da rede de rádio Skai. Com uma longa carta de princípios, que remete à carta de princípios éticos do sindicato de jornalistas gregos, a emissora online tem sua maior arma em uma hashtag no Twitter: #rbnews. A exemplo da primavera árabe, o grupo espera que a mudança venha do jornalismo cidadão.

“Somos apartidários, mas temos membros de vários grupos políticos, incluindo da Syriza [oposição de esquerda ao atual governo grego] e de anarquistas. Nossa receita vem de um café na rua Ippokrates [no bairro de estudantes de Exarchia], onde fazemos eventos e festas – apesar de os cafés já não serem uma boa fonte de renda durante a crise”, explicou Marina, uma colaboradora da rádio, a Opera Mundi.

A Radio Bubble não tem editor-chefe e todos os posicionamentos políticos são discutidos em reuniões semanais. “Temos uma coisa que ficou apagada por um longo tempo nas redações: alma. Nós discutimos, discordamos, chegamos a conclusões e a consensos. Encontramos um assunto ‘quente’ e vamos atrás. Queremos ver as coisas como outros não viram – nós não fazemos parte de uma indústria jornalística que faliu por causa de seu silêncio”, diz a rádio em sua carta de princípios.

O último “assunto quente” abordado pela Radio Bubble foram as privatizações de diversos setores do Estado grego desde a explosão da crise. “Fizemos esse trabalho com o apoio de uma ONG belga e estamos preparando uma tradução para o inglês”, contou Marina. O documento foi base para um especial na rádio, que aos poucos, com ajuda de voluntários, tenta reunir membros dos demais países europeus em crise: Portugal, Espanha, Irlanda e Itália.

“As notícias que ouvimos da Espanha hoje são exatamente as mesmas que ouvíamos na Grécia há um ano”, falou a jornalista grega. “Por isso queremos unir forças e trocar informações, porque o pior ainda está por vir.”

A Radio Bubble tem hoje 15 pessoas trabalhando em um “time principal” e pelo menos 20 pessoas em um “segundo círculo” de colaboradores. Ela acaba do colocar no ar os primeiros programas em inglês e francês, e aguarda tradutores para espanhol e português.

Exemplos

Marina, a colaboradora da Radio Bubble, não diz seu sobrenome com medo de possíveis retaliações no futuro. Ela afirma que somente com o aumento de iniciativas como a rádio, a Grécia não sairá de pauta na imprensa internacional – a única capaz de operar alguma mudança institucional no governo grego.

Para ela, há apenas um exemplo de bom jornalismo investigativo no país. Kostas Vaxevanis, editor da revista Hot Doc, publicou recentemente uma lista de gregos com contas no exterior. Os dados estavam em um pen drive, compilados pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) e entregues ao governo grego pela presidente do órgão, Christine Lagarde. Os nomes nunca haviam sido expostos.


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Vaxevanis chegou a ser preso após ter publicado a lista e, após enorme repercussão internacional, foi solto. O processo judicial, ainda em curso, mostra a dificuldade da Grécia em lidar atualmente com uma imprensa livre capaz de fazer tremer os alicerces do país. Sozinho, o editor da Hot Doc não mudará o cenário grego, mas uma legião de jornalistas segue o mesmo caminho.


O blog Keep Talking Greece, que surgiu após o movimento dos indignados em Atenas, é um deles, assim como de gregos expatriados que operam blogs à distância, como o Greek Crisis Now, em francês e baseado na Bélgica, que discute o país com um viés antropológico.

Do outro lado, a crise

Enquanto isso, na Avenida Akidimias, a sede do Sindicato dos Jornalistas de Jornais Diários Gregos é uma panela de pressão. Opera Mundi acompanhou em novembro a tensão que envolveu o novo pedido de blackout nas redações gregas por perdas nos planos de saúde. Na ocasião, havia uma clara divisão entre jornalistas, preocupados com a cobertura da crise no país, e a necessidade de entrar em greve e encorpar as manifestações antiausteridade.

É bastante clara, também, a resposta crítica da população em relação à imprensa tradicional grega. Com o país há quatro anos em queda livre, a confiança no jornalismo como vetor de mudanças desabou, refletida no tratamento por vezes ríspido da população grega com repórteres e cinegrafistas.

Nas manifestações que Opera Mundi acompanhou, não havia sinais de equipes de reportagem, a não ser as instaladas nas sacadas cinco estrelas do Hotel Grande Bretagne, em frente à Praça Syntagma e ao Parlamento.

O “Jornal dos Jornalistas”

No espectro político dos jornais diários gregos, todos são de raiz conservadora, à exceção de um, o Η ΕΦΗΜΕΡΙΔΑ ΤΩΝ ΣΥΝΤΑΚΤΩΝ, ou “Jornal dos Jornalistas”, recém-fundado a partir da extinção de um antigo jornal de centro-esquerda, o Eleftherotypia. “É um modelo diferente, em cooperativa”, explica Marina.

Com uma redação formada, basicamente, por ex-funcionários do Eleftherotypia, o “Jornal dos Jornalistas” pretende ser uma voz alternativa diária à crise grega. “Nosso trabalho surge em um momento em que uma grande parte da sociedade acredita que a mídia não é confiável por sua identificação com os interesses de seus donos e das autoridades”, diz o Jornal dos Jornalistas, em editorial de 20 de outubro deste ano. “Ele é nossa resposta à crise.”

Aberto a vozes plurais, ele pretende expor o lado humanitário da crise. “O Jornal dos Jornalistas quer ajudar a discutir a crise e confrontar ideias, sem dogmatismos e obsessões. Quer trazer à tona a humanidade que nos cerca e a solidariedade que nos humaniza”, encerra-se o editorial.


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Fonte:http://operamundi.uol.com.br/conteudo/reportagens/26155/jornalistas+demitidos+na+crise+dao+forca+a+imprensa+alternativa+grega.shtml#/0
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