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domingo, 5 de outubro de 2014

MANIPULAÇÃO DA MÍDIA PARTIDARIZADA: A grande mídia vai às urnas

02.10.2014
Do portal OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, 30/09/14
Por Sávia Lorena Barreto Carvalho de Sousa* , na edição 818

As palavras em si não são detentoras de poder, mas há poder nelas tanto para manter uma estrutura como para subvertê-la desde que sejam pronunciadas por alguém (ou instituição) que detenha legitimidade. Faltando poucos dias para a escolha dos governantes brasileiros pelos próximos quatro anos, intensifica-se o debate sobre o papel da mídia na política, especialmente durante as eleições. Até que ponto vão os tentáculos do poder da grande mídia? O poder de informar, de mandar ler e mandar ver, é permeado pelo universo da linguagem. Em uma sociedade onde a imagem tem papel privilegiado no mercado de bens simbólicos, é possível, sim, pensar uma mudança social a partir de uma conjectura que passe pela linguagem.
Se a política parece caminhar desinteressante e distante da vida do cidadão comum brasileiro, é durante as eleições que os sujeitos mais se aproximam do universo político, consolidando os momentos que antecedem e precedem o voto como singulares na vida em sociedades democráticas. A política é o palco privilegiado das disputas de poder – com destaque para as legendas partidárias – mas é através da comunicação que essa tensão é estruturada, absorvida e ressignificada ao público. Assim, cabe ao campo do jornalismo o monopólio da produção e difusão da informação, ou seja, ele é o detentor do direito simbólico de nomear. Neste universo, mesmo que muitos queiram ter voz para ter direito à fala, é preciso ter acumulado capital político. No Brasil, desde a redemocratização, o papel dos meios de comunicação vai além do informativo, sendo também político e eleitoral, propondo assim diversas interpretações da realidade.
Trata-se aqui não do poder físico, mas do poder subjetivo, que pode ser comparado a fios invisíveis cuja presença nem sempre é notada. Na perspectiva do filósofo francês Michel Foucault, o poder é relacional, e não estático, ou seja, nas relações de comunicação, aquele que luta para dar a última palavra no processo é o que detém mais poder. Entre todas as instituições sociais, como a Igreja e o Estado, cabe ao campo do jornalismo a tarefa específica de trazer para si a condição de dizer ao outro como ele deve ver o mundo. Por essa função, a relação entre a mídia e os políticos nem sempre é transparente, já que envolve não apenas o reconhecimento da fala do outro, mas também a possibilidade de concretizar uma relação de poder e convencimento.
A linguagem é, portanto, um espaço onde existe a ocorrência dos exercícios de poder. O fim do ensino da retórica nas escolas explica o impacto da força política da linguagem, já que capacitar as pessoas a terem condições de argumentar enquanto sujeitos sociais de direito é desestabilizador o status quo. Apesar de ter passado de disciplina obrigatória nas escolas para um conjunto de práticas de discursos quase extinta de divulgação e taxada como desnecessária, os reflexos da retórica ainda podem ser observados nos atuais processos comunicativos.
Mídia esconde opinião para manter credibilidade
A opção partidária por parte dos órgãos de imprensa não são ilegítimas. O que ocorre no Brasil, no entanto, é que o posicionamento da mídia raramente – com algumas exceções, como o jornal O Estado de S.Paulo e a revista CartaCapital – é declarado em editorial. Ao marcar território em um determinado lado da disputa política, o meio de comunicação buscaria, de maneira ideal, restringir suas posições aos espaços opinativos dos veículos, como os próprios editoriais. Ao mesmo tempo em que as disputas ideológicas dos últimos anos na política brasileira se tornam mais superficiais, e os principais candidatos disputam o lugar de centro na política, a mídia segue como instituição com papel preponderante no processo de disputas políticas e eleitorais no país. Esse lugar central no cenário eleitoral, porém, é questionado por alguns estudiosos da comunicação e política, que relacionam a experiência no voto resultante de uma democracia mais sólida, além do aumento no nível de escolaridade, como fatores que explicam uma nova posição, menos impactante, dos veículos de informação durante as eleições.
Alguns grupos ou indivíduos possuem mais força social do que outros para disputar o monopólio do poder. As classes tentam, através de posições ideológicas, reproduzir o campo das posições sociais, buscando através de uma luta simbólica prevalecer seus interesses em relação a outras classes. A estratégia é tanto interna quanto externa, pois para que a dominação seja mantida é preciso a legitimidade dentro do campo e fora dele. Os meios de comunicação que se colocam como porta-vozes da realidade e interpretadores das verdades – e não como emissores de opiniões de grupos seletos – ganham assim um espaço diferenciado de credibilidade.
O jornalismo opinativo é percebido claramente como persuasivo, e essa percepção deixa alerta o leitor. A cumplicidade é essencial na relação entre dominante e dominado, e na dinâmica jornalística isso se consagra no ritual em que o leitor reconhece que a instância midiática possui autoridade, como instituição, de trazer para si o papel de imparcial e equilibrada, representando o interesse dos dominados e dissimulando interesses diversos. É preciso ressaltar que o leitor não pode ser definido como uma caixa vazia, onde os meios de comunicação irão depositar informações. O leitor não parte apenas dos fatos noticiados para construir sua posição. Ele traz consigo uma série de referências que não serão abandonadas quando passa a ter contato com a produção discursiva do jornalismo.
Se o político consegue convencer que sabe mais que o eleitor, este último dá a ele a representação através do voto. Nesta arena de disputas, um dos envolvidos se coloca subjetivamente no lugar de não saber. O poder pode ser exercido por qualquer um, ou seja, mesmo sem dono, o poder segue um sentido. Controlar os discursos de uma determinada instituição é também ter o controle sobre um certo tipo de poder.
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*Sávia Lorena Barreto Carvalho de Sousa é mestre em Comunicação e jornalista
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Fonte:http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed818_a_grande_midia_vai_as_urnas

ELEIÇÕES 2014: A verdade na boca da urna

02.10.2014
Do portal OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, 03.10.14
Por Luciano Martins Costa,na edição 818  

Comentário para o programa radiofônico do Observatório

Encerrada a campanha eleitoral oficial nos meios de comunicação, os dois institutos de pesquisa mais acreditados pela imprensa tratam de ajustar seus números para a possibilidade de a presidente Dilma Rousseff ser reeleita no primeiro turno. Embora as análises dos especialistas se concentrem na retomada de ânimo do candidato do PSDB, Aécio Neves, que se apresenta como destinatário do “voto útil” contra o atual governo, a comparação entre as duas rodadas mais recentes de pesquisas mostra que seu eleitorado não cresceu no Sudeste, onde se concentra sua principal base.
Uma nova consulta está sendo elaborada, e deve ser divulgada noe sábado (4/10), quando o Ibope e o Datafolha terão a última chance de comprovar a validade de suas metodologias antes da verdade das urnas.
O discurso dos analistas oscila entre admitir a possibilidade de uma decisão no primeiro turno e a convicção de que “a maior probabilidade é a de um segundo turno” entre a petista Dilma Rousseff e a ex-petista Marina Silva. De qualquer maneira, os números indicam que a imprensa, mais uma vez, perdeu a conexão com a realidade política do país.
Pode-se afirmar que a grande maioria dos brasileiros está demonstrando que apoia a estratégia adotada pelos governos que se sucedem em Brasília desde 2003, mas aponta para a necessidade de algumas correções.
Desde o acirramento da disputa, com a morte do ex-governador Eduardo Campos e o ingresso da ex-ministra Marina Silva como candidata a presidente pelo PSB, os discursos de campanha e os temas dos debates se concentraram na questão da corrupção e nas supostas capacidades administrativas dos candidatos. No que se refere às diferenças de doutrinas entre o governo atual e seus oponentes, Aécio Neves se apresentou como o lídimo defensor do conjunto de crenças que definem o liberalismo econômico, enquanto a presidente da República representa a instrumentalização do Estado como garantia de orientação social para a economia.
Marina Silva ficou entre os dois mundos: sua defesa de uma “nova política” não passou no teste de realidade, quando ela vacilou em questões como direitos de minorias e foi apanhada em contradições.
A imprensa perdeu
Seja qual for o resultado da votação no domingo (5), pode-se dizer que a imprensa sai como a grande perdedora, porque não conseguiu colocar seu candidato predileto em condições de vencer a eleição. Até este momento, mesmo o mais otimista entre os adeptos da candidatura de Aécio Neves considera altamente improvável que ele consiga coletar os votos para superar o primeiro turno com potencial para levar consigo uma porcentagem significativa de apoios entre os adeptos de Marina Silva.
Na coluna “Panorama político” do Globo, lê-se que, se a ex-ministra não for para o segundo turno, seus correligionários vão se dividir, com uma parte aderindo ao PSDB e outra parte voltando ao ninho petista, onde as carreiras de Eduardo Campos e de Marina Silva foram geradas. Em outra coluna do mesmo jornal, também se pode apreciar como a derrota iminente pode afetar o senso crítico, em um texto que dá voz a teorias conspiratórias e prevê uma grave crise institucional no próximo governo.
Embora possa parecer ocioso repetir as evidências de que as grandes empresas de comunicação agem como uma organização partidária, convém discutir o uso que fazem dos institutos de pesquisa, como referência de uma objetividade que de fato não existe. Uma coisa é a coleta de dados e a complexidade das análises que são produzidas por profissionais a serviço dessas organizações. Outra coisa é o conjunto das informações que os editores selecionam para levar ao público.
Observe-se, por exemplo, como, segundo o Ibope, a taxa de rejeição da presidente Dilma Rousseff caiu de 36% no dia 25 de agosto para 29% na quinta-feira (2/10). Se isso é real, trata-se de um fenômeno de comunicação. Na verdade, esse número sempre coincidiu com os 23% a 29% dos que consideram seu governo “ruim ou péssimo”, que, no contexto brasileiro, é o critério mais confiável para definir o núcleo duro da oposição.
A mídia tradicional passou toda a campanha tentando ampliar esse campo, em sua cruzada contra o partido que governa o país desde 2003, mas falhou mais uma vez.
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Fonte:http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a_verdade_na_boca_da_urna

Blogueiros do PIG estão desnorteados

05.10.2014
Do BLOG DO MIRO
Por Altamiro Borges


Não é fácil ser jornalista chapa-branca do PIG (Partido da Imprensa Golpista) numa eleição tão carregada de surpresas. Nas anteriores, desde a redemocratização do país, a tarefa foi mais simples. Para derrotar Lula na primeira eleição direta, em 1989, a mídia forjou o “caçador de marajás” e os colunistas amestrados se fingiram de mortos. Nas duas seguintes, quase todos apostaram as suas fichas no “príncipe da Sorbonne”. Com a vitória de Lula, em 2002, todos viraram oposicionistas radicais e fizeram campanha pela volta dos amigos tucanos ao poder. Agora, os jornalistas de aluguel, cada um com seu blog, já tinham aderido à campanha de Aécio Neves. Mas a trágica morte de Eduardo Campos embaralhou o jogo.

Para derrotar o temido “lulopetismo”, uma obsessão doentia desta turma chapa-branca dos impérios midiáticos, alguns deixaram o ninho tucano e expressaram seu amor pela ex-petista Marina Silva. O “imortal” Merval Pereira, por exemplo, postou vários textos de elogio à candidata-carona do PSB. Outros não chegaram a este extremo, mas sinalizaram que dariam apoio a ex-senadora no segundo turno. Agora, com o derretimento de Marina Silva, eles retornam ao ninho de forma militante. Em texto neste sábado, Ricardo Noblat, que também é pago pela Rede Globo, implorou ao eleitorado para que permita o segundo turno. Já na sua postagem deste domingo, ele garante que a ex-verde Silva dará apoio a Aécio Neves.

“Marina Silva já decidiu: caso não dispute o segundo turno da eleição contra Dilma Rousseff, apoiará Aécio Neves. O anúncio do apoio deverá ser feito na segunda-feira. No mais tardar na terça-feira... Por mais que tenha dito que Aécio e Dilma não apresentaram programas de governo, ela admite que informalmente Aécio tem um, sim. E que o programa de Aécio é o mais parecido com o seu programa”, garante o blogueiro com base em fontes não reveladas. No auge da sua militância, Noblat chega a dar conselhos. “Pareceria arrogância demais Marina preferir a neutralidade, como o fez em 2010 quando negou seu apoio a Dilma e a José Serra. A neutralidade removeria Marina do primeiro plano da política nacional”.

Já Merval Pereira até lamenta que Marina Silva tenha sido “atropelada na reta final”, mas conclama a união da direita para derrotar Dilma. Para o “imortal” da famiglia Marinho, a ex-verde tem “obrigatoriamente de fazer um gesto político em direção ao companheiro de oposição que estará no segundo turno. Se mais uma vez decidir ficar em cima do muro estará confirmando que é uma liderança política não gregária, que se recusa ao jogo democrático... Sair da disputa sem apoiar o projeto oposicionista que a superou nas urnas, numa eleição tão apertada quanto essa, é ajudar que o grupo político que está no poder continue predominando”.

Dos blogueiros chapa-branca que empesteiam a mídia hegemônica, o único que parece desiludido é Josias de Souza, da Folha. Ele inclusive anunciou neste domingo que anulará parte do seu voto. Já no artigo postado no sábado, ele fez duras críticas à “inépcia da oposição”. Para ele, a liderança folgada de Dilma Rousseff decorre da “incompetência” da direita, que não soube aproveitar o clima de descontentamento presente nas “praças cheias de junho de 2013”. Diante deste cenário, o blogueiro da famiglia Frias se mostra bem desanimado com o futuro. Como se observa, é difícil ser blogueiro chapa-branca numa eleição tão complexa. Reinaldo Azevedo, pitbull da Veja, confessou sua tentação para “criar galinhas”. Outros ameaçam deixar o Brasil! Que tristeza!

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Fonte:http://altamiroborges.blogspot.com.br/2014/10/blogueiros-do-pig-estao-desnorteados.html

Juristas de Exceção: Carlos Medeiros, pai do AI-1 e da Constituição da ditadura

02.10.2014
Do portal ÚLTIMA INSTÂNCIA, 27.07.14
Por Rodolfo Machado

Apelidado de “Robespierre mineiro”, jurista teve ascensão meteórica durante o governo do marechal Castello Branco

Um dos juristas mais influentes dentre aqueles que contribuíram para conferir roupagem legal ao regime de exceção estabelecido entre 1964 e 1985, Carlos Medeiros Silva (1907-1983) ficou conhecido por ter redigido, em coautoria com seu mentor Francisco Campos, o Ato Institucional n.º 1, que inaugurou oficialmente a ditadura militar brasileira, promulgado em 09 de abril de 1964.
De datilógrafo da Constituição “Polaca” de 1937, elaborada por Campos, apelidado de “Chico Ciência”, o jurista mineiro se tornou ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) já em 1965, preenchendo a vaga criada pelo AI-2 (Ato Institucional nº 2) – que ampliou o número de ministros do Supremo de 11 para 16, com vistas a obter maior controle sobre o órgão máximo do Poder Judiciário.
O trabalho de Medeiros no STF foi interrompido por um chamado do Marechal-Presidente Humberto de Alencar Castello Branco, que o escolheu para a pasta da Justiça e Negócios Interiores, permanecendo no cargo de 1966 a 1967. Ao substituir  Milton Campos e Mem de Sá (tidos como muito “liberais” para o Ministério da Justiça do novo regime ditatorial), recebeu como missão constitucionalizar os atos institucionais e fornecer ao novo regime a aparência legal de uma normalidade democrática forte e “renovada”, utopicamente apostando, com isso, encerrar o ciclo “revolucionário”.
O jurista mineiro também elaborou o projeto de Constituição em 1966, mas seu texto foi tido como demasiadamente autocrático até mesmo pelos congressistas golpistas. No entanto, a exigência do AI-4, de concluir a Carta no prazo exíguo de 12 de dezembro de 1966 a 24 de janeiro de 1967, obrigou os "constituintes" da ditadura militar a buscarem uma solução incomum para fazer alterações no texto de Medeiros: atrasar em 12 horas o relógio do Congresso Nacional.
Fonte: STF
“Aí você pergunta: mas será que a milicada não estava vendo isso? Estava. Eles tinham microfone secreto... Tinha tudo lá. Mas o próprio Castello Branco disse: ‘Não, deixa, deixa assim que é melhor, porque o projeto deles é melhor do que o do Carlos Medeiros’. E, assim, foi votada a Constituição de 1967”, relata o jornalista Carlos Chagas em depoimento ao CPDOC da Fundação Getúlio Vargas.

Assim, Medeiros acabou sendo o pai da Constituição da ditadura, ainda que com a inclusão de diversas emendas dos parlamentares da época.

Defesa dos AIs (Atos Institucionais)

Antes de galgar os cargos de ministro do STF e de ministro da Justiça, Carlos Medeiros já prestava “esclarecimentos” à dita grande imprensa sobre o sentido e teor do primeiro Ato Institucional “revolucionário”.

Em 11 de abril de 1964, o jurista conferenciou ao jornal O Globo que, “sem o Ato Institucional, não teria havido uma revolução, mas um golpe de Estado”, proclamando que o AI-1 constituiu-se adequadamente como “o veículo da revolução para interceptar um processo de dissolução do poder e do governo, que se processava rapidamente”. Em 30 de abril daquele ano, na Confederação Nacional do Comércio no Rio de Janeiro, Carlos Medeiros caracterizou o primeiro Ato da ditadura como “uma lei constitucional temporária”, apostando precocemente que a norma editada pelo Comando Supremo da Revolução vigoraria até o termo nela prefixado, a saber: 31 de janeiro de 1966. Ao contrário dos prognósticos de Medeiros, a ditadura instaurada pelo golpe de 1964 postergou-se por mais 21 anos, deixando à Nova República de 1985 um legado de abismo social e concentração de renda.


No final do mês de abril de 1964, naquela mesma ocasião, o jurista sustentou a necessidade de “melhor separar o joio do trigo”, preocupando-se, junto às classes patronais, com a precariedade do expurgo de elementos “subversivos e corruptos” realizado até aquele momento. Aconselhava assim, urgentemente, para a necessidade de uma legislação adequada à repressão dos crimes contra o Estado e seu patrimônio, supostamente cometidos pelo governo Goulart, bem como de atos da chamada “guerra revolucionária”, buscando legalizar os execráveis expurgos operacionalizados por coronéis (alguns retirados da reserva) a serviço do novo regime.

A publicação de atos institucionais estava apenas começando (foram 17, ao todo). Em 1965, Carlos Medeiros teve a oportunidade de sustentar, em sessão de julgamento do STF, que a natureza do AI-2 era de “um ato de emergência, um ato constitucional, que tem uma inspiração revolucionária”, contrapondo-se assim ao ministro Evandro Lins, que denunciava, então, o alargamento na utilização de atos institucionais em detrimento das garantias da parcialmente revogada Constituição de 1946. Não por acaso, Evandro Lins foi cassado posteriormente com base no AI-5.

Outro ministro do STF também cassado pelo AI-5 é Vitor Nunes Leal, autor do clássico Coronelismo, enxada e voto e cuja trajetória pessoal se entrecruza com a da família de Carlos Medeiros Silva. É justamente Nunes Leal quem revela que “colegas mais íntimos às vezes o chamavam, afavelmente, ‘Robespierre’, sob os seus mais veementes protestos”. O “Robespierre mineiro” havia “estado longamente no segredo e na intimidade dos grandes acontecimentos nacionais”, vivenciando toda uma “existência que se desdobrava nas altas esferas do Estado” e participando “pessoalmente da embriagante tarefa de fazer a história”.

Ainda conforme indiscreta crítica de Nunes Leal, endereçada a Medeiros na despedida deste do Supremo para assumir o Ministério da Justiça, o jurista mineiro de fato “aprendeu a pressionar as molas do poder, e é bem provável que o gosto desse vinho do Olimpo não lhe tenha desagradado. Acho mesmo que uma das perguntas mais bem avisadas que ocorreria a um Presidente no justo momento de assumir o governo seria esta: ‘Onde está o Carlos Medeiros?’”.

São tantas as leis, decretos-leis e decretos com a marca da sua autoria ou da sua preponderante elaboração que mesmo V. Exa. terá perdido a conta. Se tivéssemos o hábito norte-americano de lhes dar o nome do proponente, um leitor desavisado pensaria que vivemos em regime monárquico, pois seria preciso dizer LEI Carlos I, Carlos II, Carlos XX, Carlos XXX, e assim por diante, numa longa dinastia numérica a invadir a casa das centenas (Nunes Leal)

A respeito da Constituição de 1967, o jurista Pontes de Miranda observou que, apesar dos arrogados propósitos “revolucionários”, “na Constituição de 1967 há mais subservidade do que revolucionaridade”. “Não se avança para o futuro, como seria de mister, sabiamente”.

Em suas Memórias: A verdade de um revolucionário, o deflagrador do golpe de 1964 Olympio Mourão Filho, embora elogiando o “nietzschiano” Francisco Campos que tinha “o vício do totalitarismo”, lamentava, porém, que ele tivesse deixado “um filho que não tem suas faculdades e cultura”. Referindo-se a Carlos Medeiros Silva, pontuava: o “autor da Constituição de 1967 e da Lei de Segurança Nacional (LSN), a célebre 314, que define a mentalidade dominante no Brasil: só se combate o comunismo com a repressão cada vez mais forte”.

Crédito: STF
Medeiros (2º em pé da dir. para esq.) na composição do STF em 65; Nunes Leal (1º sentado à esq.) e Lins (4º em pé da esq. para dir.)

Estado de emergência e advocacia privada
De modo contrário ao general, entretanto, Carlos Medeiros orgulhosamente reivindicava a autoria do preceito constitucional que tornara responsável pela Segurança Nacional toda e qualquer pessoa natural ou jurídica diante do Estado, estampado na LSN de 1967, apostando ainda na “renovação constitucionalista” iniciada em 1964, apta a libertar “os poderes políticos da nação de certos preconceitos constitucionais, cuja ordem remonta aos primórdios do racionalismo liberal”.

O jurista de direita embateu-se também pela criação do Estado de Emergência, que completaria os instrumentos destinados a dotar o chefe do governo dos poderes indispensáveis contra as ameaças extremistas de ruptura da ordem democrática. Amparando-se em Mirkne Guetzevitch, o mineiro indicou a chamada “racionalização do poder” como os “novos rumos do constitucionalismo” a “toda uma geração que hoje já se mostra emancipada dos preconceitos individualistas e liberais”; razão esta sempre lida e entrelida, conservadoramente, de acordo com os interesses das classes dominantes.

Eis o motivo de Carlos Medeiros defender que era preciso armar o poder de instrumentos eficazes e de ação pronta quando o equilíbrio das forças fosse ameaçado diante do “auspicioso fenômeno da ascensão das massas”, entendendo que a instituição de uma “ditadura constitucional” seria o último recurso do constitucionalismo para que a democracia pudesse sobreviver nos países ocidentais.

Na visão de mundo de Carlos Medeiros, não se deveria confundir “uma ação vigorosa e eficaz” com “poderes despóticos”, tendo em vista que “os problemas constitucionais não são primariamente problemas de direito, mas de poder”.

Na figura desse mineiro lumiar do reacionarismo, que ainda atuou como editor-chefe da Revista Forensee da Revista de Direito Administrativo, essa vocação autocrática da política do jurista caminhou umbilicalmente vinculada à advocacia privada, sempre em defesa do grande capital estrangeiro e de seus associados “nacionais”.


Advogado e estrategista do departamento jurídico da Light and Power Co., ao lado do ex-ministro da Justiça de Costa e Silva Luis Antonio da Gama e Silva, o mineiro Carlos Medeiros também participou do “bilionário réveillon da Light”, na grande negociata do último ano da década de setenta, conforme reportou à época o jornal Movimento (Edição 183, 1979). O periódico estampava a manobra da Brascan e do Estado de Segurança Nacional, em que o governo militar brasileiro, ao constatar os problemas financeiros da Light Co., premiou-a, em vez de anular a concessão, comprando a companhia por um valor muito acima do mercado. “Vergonha. Toda a história da negociata do ano. 1,3 bilhão de dólares por um ferro-velho que já era nosso. Parabéns Gama e Silva, Carlos Medeiros, M. Simonsen, advogados peritos da Light and Power Co.”, noticiava o Movimento.

No final da vida, enfim, a maior contribuição de Carlos Medeiros, simples caricatura regressiva do revolucionário burguês da França, foi ter ajudado a compor, aqui nos trópicos, em prol de sua classe, “uma estatização que até as multinacionais são a favor: a estatização dos prejuízos”.

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Fonte:http://ultimainstancia.uol.com.br/conteudo/noticias/72041/juristas+de+excecao+carlos+medeiros+pai+do+ai-1+e+da+constituicao+da+ditadura.shtml