quinta-feira, 17 de julho de 2014

GLOBO SONEGA: O Grande Jogo vai começar

17.07.2014
Do blog O CAFEZINHO, 13.07.14
Por Miguel do Rosário

Em Kim, obra-prima de Rudyard Kipling, sobre um garoto indiano que adere ao serviço secreto britânico, os protagonistas costumam falar no “Great Game”, o “Grande Jogo”, que tratava da guerra de espiões travada entre Rússia e Inglaterra para o controle da Ásia.

O termo me veio à memória ao lidar com o assunto mais explosivo do momento: a decisão do “garganta profunda” de liberar a íntegra dos documentos que tratam da sonegação da Globo.

O grande jogo começou.

Na sexta-feira de manhã estivemos no Centro Aberto de Mídia, conversamos com vários jornalistas, explicando o teor da denúncia sobre a sonegação da Globo.

Se a Globo decidir dar “um sumiço” em alguns blogueiros, a imprensa internacional, nacional e até mesmo rádios locais, já estão de olho.

Entretanto, é preciso dar alguns esclarecimentos sobre a origem dos documentos e informar onde eles estão.

O processo foi roubado em 2006, uma servidora foi presa, e ele permaneceu desaparecido por vários anos, até que algumas páginas começaram a vazar em 2013.

A mesma fonte, que até hoje se mantém anônima, voltou a entrar em contato e nos garantiu que, a partir desta semana, começa a vazar a íntegra do processo.

Ela nos informou que está no exterior do país, por questão de segurança. Como aperitivo, nos enviou as seguintes imagens, já publicadas semana passada em alguns blogs:

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A partir de segunda ou terça, ela disponibilizará, na internet, os primeiros documentos inéditos.

A fonte se comprometeu a devolver a íntegra do processo às autoridades competentes, depois que o vazamento for completo. Cópias da íntegra do documento foram feitas, mas apenas serão enviadas aos blogueiros caso aconteça alguma coisa com a fonte original. Até o momento, apenas o “garganta profunda” detêm o processo.

No momento da entrega às autoridades, faremos um ato público, com presença de movimentos sociais, sindicatos e todos os interessados em combater a sonegação das grandes empresas, sonegação que sangra os cofres públicos e tira dinheiro da saúde e educação, além de aumentar o peso nos ombros da classe média, dos pequenos empresários e dos trabalhadores.

Aproveito para recapitular o caso e preparar a opinião pública para a chegada desses novos documentos.

No ano passado, o Cafezinho publicou um post informando sobre o vazamento de 25 documentos de um processo administrativo da Receita Federal, no qual a Globo era condenada a pagar R$ 615 milhões, em 2006, em valores não atualizados.
Essas páginas estão aqui:

A imprensa manteve um silêncio sepulcral sobre o escândalo, apenas quebrado quando um internauta descobriu, meio por acaso, um outro fato cabeludo ligado ao processo: os documentos haviam sido roubados por uma servidora da Receita Federal, que logo depois foi condenada e presa.

A blogosfera mergulhou em peso na investigação do caso, fazendo talvez a primeira grande investigação jornalística coletiva da nossa história.

A servidora, Cristina Maris Meinick Ribeiro, autora do furto, condenada pela Justiça Federal, após cumprir um período de prisão, foi liberada com um habeas corpus solicitado junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), concedido pelo ministro Gilmar Mendes. Simples servidora, ela foi defendida por um dos maiores escritórios de advocacia do país.
Aí não teve jeito. A grande mídia foi obrigada a entrar. O Jornal da Record fez três reportagens especiais:


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Fizeram até filme do Hitler protestando contra o vazamento do processo.

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Há exatamente um ano, no dia 13 de julho, a Folha também noticiou o caso:

folha

Desde então, a mesma fonte que havia feito o vazamento, depois de ameaçar (no bom sentido) várias vezes que iria entregar a íntegra dos documentos, recuou e sumiu.

Agora reapareceu. E garantiu que, dessa vez, irá entregar tudo, e já nos deu algumas provas de que está falando sério.

Importante ressaltar que nossa (digo “nossa” porque foram vários movimentos sociais) primeira iniciativa, ao receber as páginas do processo, foi encaminhá-las ao Ministério Público Federal, para que este investigasse a sonegação de impostos, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e demais crimes contra o sistema financeiro, cometidos eventualmente pela Rede Globo.

O Ministério Público aceitou a denúncia e abriu inquérito. A esta altura, a notícia já ganhava o UOL e a Agência Brasil:

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Após apurar a consistência das denúncias, o Ministério Público decidiu encaminhá-las à Delegacia Fazendária da Polícia Federal, na Superintendência do Rio de Janeiro, que aceitou abrir um inquérito sobre o caso.

É o inquérito 926/2013, conduzido pelo delegado Rubens Lyra.

Desde então, não houve novidades sobre o caso. A PF age com discrição, o que se compreende, em se tratando da maior empresa de mídia da América Latina.

O jogo recomeça agora, com o reaparecimento do nosso “garganta profunda”, que provavelmente por estar vivendo no exterior, sentiu-se mais seguro para vazar o resto dos documentos.

Ele havia prometido iniciar o vazamento a partir deste domingo, mas nos pediu mais dois dias para se organizar melhor.

Achamos até bom, porque o Brasil estará hoje e amanhã muito absorvido pelo final da Copa do Mundo.
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Fonte:http://www.ocafezinho.com/2014/07/13/globogate-o-grande-jogo-vai-comecar/#sthash.K6wvzjy7.dpuf

Revista Fortune revela já em 64 elo entre empresários de SP e embaixada dos EUA para dar golpe

17.07.2014
Do portal OPERA MUNDI, 24.01.14
Por Felipe Amorim | São Paulo 

Apenas cinco meses após o golpe que depôs o presidente João Goulart, a tradicional revista norte-americana Fortune publicava uma longa reportagem narrando a parceria entre o então embaixador dos EUA, Lincoln Gordon, e os empresários paulistas que articularam a conspiração. Enquanto setores civis e militares se armavam e ensaiavam a rebelião, lideranças golpistas foram pessoalmente à embaixada perguntar qual seria a posição de Washington caso fosse deflagrada uma guerra civil no Brasil. “Cauteloso e diplomático, Gordon deixou a impressão de que, se os paulistas conseguissem segurar [o comando da guerra civil] por 48 horas, obteriam o apoio e o reconhecimento dos Estados Unidos”, escreveu a publicação.
Essa é a apenas uma das revelações do artigo publicado por Philip Siekman na edição da Fortune de setembro de 1964, intitulado “When Executives Turned Revolutionaries” (Quando executivos viraram revolucionários), que completava no subtítulo: "Uma história ainda não contada: como os empresários de São Paulo conspiraram para derrubar o governo infectado de comunistas do Brasil". [clique aqui para ler o texto, em inglês] A revista dá voz aos empresários "bandeirantes" para mostrar como os executivos se articularam para financiar a conspiração armada que depôs Jango. Embora voltada ao público norte-americano, a reportagem repercutiu no país, acirrou rivalidades entre os golpistas paulistas e cariocas e foi usada como panfleto para incentivar a vinda de investimentos estrangeiros para o país.


Entre os fatos mais reveladores do texto de Siekman, a revista procurou destacar o papel central que o Ipês (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e seus líderes desempenharam na conspiração. Primeiro, arrecadando fundos dos principais industriais paulistas e cariocas: “No total, cerca de 400 empresas contribuíram para a instituição; e o fluxo de caixa anual não passava dos US$ 500 mil”. E, mais tarde, ao decidir adotar métodos mais diretos: “Células de vigilância começaram a se equipar com armas leves, instalar fábricas clandestinas de granadas de mão, e escolher um local para levar a cabo operações de guerrilha na guerra civil que consideravam inevitável e iminente”. O Ipês foi fundado em 1961 "oficialmente" para defender a livre iniciativa e a economia de mercado; a entidade uniu acadêmicos conservadores, empresários e militares para desestabilizar o governo Jango.
A partir de um ponto de vista do empresariado paulista, Fortune traça o panorama do cenário político, econômico e social do Brasil, concluindo que, sem a intervenção, a situação só poderia ter levado o país ao caos. “De repente e quase milagrosamente”, diz Fortune, eles haviam salvado a nação, interpreta a publicação. Se antes a revista só imaginava duas possíveis saídas para o Brasil — um “Estado totalitarista dominado por comunistas” ou uma “guerra civil sangrenta e complexa” —, os “Paulistas” teriam forjado a terceira via: uma revolta que durou dois dias, pôs Jango no exílio e seus simpatizantes na cadeia. É por isso que, de acordo com a revista, o levante deveria ser merecidamente chamado de “a Revolta dos Paulistas”.

A revista Fortune foi fundada em 1930, meses após o crash da bolsa de NY, pelo editor Henry Luce — o mesmo que criou as icônicas Life TIME. Pioneira ao especializar-se em finanças e negócios, a publicação existe até hoje e faz parte de um dos maiores conglomerados de mídia do mundo.
Foto:

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Kennedy, Gaspari: jornalismo e história

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Os principais nomes: Ayres, Mesquita e Resstel
O jornalista Philip Siekman reconta os pormenores da conspiração utilizando como personagens alguns líderes ipesianos e expoentes militares do golpe. Três deles tiveram, segundo a Fortune, papel central: Paulo Ayres Filho, representante da indústria farmacêutica; Júlio de Mesquita Filho, diretor-proprietário do jornal O Estado de S.Paulo; e o coronel Rubens Resstel, responsável pelo planejamento da mobilização civil-militar em São Paulo.
Reprodução/Fortune
Para ilustrar o artigo, revista Fortune traz foto de Júlio de Mesquita Filho (centro), diretor-proprietário do Estadão

Anticomunista ferrenho, Ayres Filho é descrito como um dos idealizadores do Ipês e principal incentivador da função marqueteira do instituto: por meio de panfletos, cartilhas liberais, peças publicitárias e vídeos “educativos”, o Ipês deveria influenciar a opinião pública.
Segundo a revista, o diretor do Estadão, Júlio de Mesquita Filho — “um dos recrutas mais proeminentes” e “líder nominal do grupo” —, teve papel fundamental no setor logístico da conspiração, sobretudo às vésperas do golpe, quando as células civis já começavam a se preparar para o confronto. “O grupo Mesquita sozinho gastou cerca de US$ 10 mil em armas, incluindo uma série de metralhadoras”, relata a publicação.

[Retrato de Paulo Ayres Filho, industrial paulista do setor farmacêutico e diretor do Ciesp (Centro de Indústrias do Estado de São Paulo), instituição que compartilhava membros, funções e objetivos com a Fiesp]
O coronel Rubens Resstel, por sua vez, é caracterizado como o elo essencial entre os civis ipesianos e o Exército. Militar graduado e egresso da tropa que lutara na 2ª Guerra Mundial, Resstel teve a função de convencer os altos comandos e a jovem oficialidade de militares que permaneciam céticos e legalista.
Também são citados na matéria como importantes conspiradores civis: Gilbert Huber (proprietário das Listas Telefônicas Brasileiras), Adhemar de Barros (governador de São Paulo), e os advogados João Adelino Prado, Luiz Werneck e Flávio Galvão (jornalista e advogado doEstadão).
Reprodução/Fortune
À direita, o conspirador coronel Rubens Resstel na revista Fortune: "decidimos tê-los no almoço antes que eles nos tivessem no jantar"

Repercussão: rusgas
É difícil dizer se a revista Fortune de fato “sensibilizou” o público-alvo norte-americano e contribuiu para melhorar a imagem dos “revolucionários” brasileiros no exterior. Mas uma coisa é certa: além de repercutir na política e na imprensa nacional, a publicação da reportagem causou reações distintas nas fileiras do Ipês; tanto massageou egos dos empresários paulistas, quanto desagradou seus rivais cariocas.
O historiador e cientista político René Armand Dreifuss, em seu livro 1964: a conquista do Estado, relata a insatisfação das lideranças ipesianas do Rio de Janeiro com a publicação da reportagem e a exposição dos empresários paulistas. Um dos documentos que encontrou em sua pesquisa foi um telegrama endereçado a João Baptista Leopoldo Figueiredo (presidente do Ipês-SP e primo-irmão mais velho do futuro presidente do país), enviado por Harold Cecil Polland, líder do Ipês-Rio. Nele, Polland comenta a “questão muito séria” e “prejudicial”: “Fomos desagradavelmente surpreendidos pelo artigo da Fortune sobre a Revolução, comprometedoramente comentado pela Tribuna da Imprensa e Última Hora”.
No dia 19 de setembro de 1964, o jornal Última Hora, de Samuel Weiner, também repercutiu a reportagem em uma nota na primeira página: “’Fortune’ e a História Secreta da ‘Revolução’”. O jornal destacou as revelações sobre o embaixador Lincoln Gordon, pedindo esclarecimentos a ele e ao governo Castello Branco, o primeiro presidente do regime civil-militar. “É uma história inteiramente diferente da que tem sido contada em discursos e entrevistas dos participantes do movimento, e até mesmo nas reportagens mais indiscretas que se publicaram em nosso País”, escreveu o jornal.
Recado
Logo no início do artigo, o jornalista Philip Siekman já havia dado o tom do problema brasileiro: o ceticismo dos investidores estrangeiros em aplicar seus dólares no Brasil seria uma questão de falta de comunicação. “A história da revolução brasileira, com todos seus aspectos encorajadores, não tinha sido, até o momento, totalmente contada na imprensa norte-americana”.
Ao finalizar a reportagem, Siekman volta a se dirigir aos mesmos investidores, defendendo que, como os industriais paulistas haviam feito a parte deles, os norte-americanos teriam de fazer a deles. “Se o Brasil não morrer na mesa de cirurgia enquanto os novos homens tentam curar as mazelas, o país vai precisar de polpudas infusões de ajuda exterior.” Mais adiante, Siekman incentiva os executivos internacionais a vencerem o ceticismo em relação ao Brasil, mostrando que o governo Castello Branco até já revisara as leis de remessas de lucros, “abrindo as portas para um fluxo normal das filiais à matriz”. “Para os investidores”, diz Siekman, “distância é sinônimo de objetividade, mas também dificulta previsões”.
“No ano que vem, os diretores de uma empresa norte-americana vão ter dificuldades em explicar a seus acionistas por que investiram no Brasil em 1964. Daqui a dez anos, podem vir a achar ainda mais difícil explicar por que não investiram nada”, arremata a revista.
* Colaborou Rodolfo Machado
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Abaixo, primeira página do jornal Última Hora repercutindo a matéria da Fortune[clique para ler a edição completa de 19/09/1964]
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Fonte:http://operamundi.uol.com.br/conteudo/reportagens/33603/revista+fortune+revela+ja+em+64+elo+entre+empresarios+de+sp+e+embaixada+dos+eua+para+dar+golpe.shtml

A COPA “AMARELOU”: No país da Amazônia, o Mundial ficou aquém de suas metas ambientalistas

17.07.2014
Do portal da REVISTA SAMUEL, 10.07.14


Pela segunda vez na história do Mundial de Futebol, o Brasil é o país anfitrião do maior evento esportivo do planeta. Talvez a principal diferença entre o torneio de 1950 e o de 2014 esteja no alcance e na instantaneidade com que bilhões de pessoas acompanham os jogos, resultados e fatos relacionados à Copa.
Ao mesmo tempo em que o futebol e as Copas ganharam cada vez mais adeptos e torcedores, maior passou a ser a cobertura da mídia do evento que acontece a cada quatro anos. No caso do Brasil de 2014, são cerca de 20 mil jornalistas de todos os cantos do mundo relatando, fotografando e mostrando o que acontece no país.
A Samuel, agora em sua versão eletrônica, também dedica o período da Copa a trazer o que a mídia independente do Brasil e do mundo vem registrando sobre o antes, o durante e o depois do evento, seus participantes e espectadores. Textos e vídeos postados diariamente darão a medida dos diferentes olhares e observações que irão marcar o cotidiano dos 32 países representados no evento.
Veja todo o material do especial Samuel na Copa:

Tânia Rêgo / Agência Brasil
ONG Rio da Paz faz protesto na praia de Copacabana criticando gastos com a Copa do Mundo no Brasil (06/07/14)

Imaginava-se que esta seria a “Copa Verde”, a celebração da Copa do Mundo mais verde até hoje acontecendo no Brasil, o primeiro país em biodiversidade e vital para o modo como o mundo responde às mudanças climáticas.
Mas em vez de “Copa Verde”, o evento tornou-se motivo de conflitos pela injustiça social. Embora em vários aspectos o torneio tenha mostrado ser insustentável do ponto de vista ambiental, no final das contas o legado duradouro da Copa do Mundo pode representar uma mudança no modo como os futuros eventos esportivos mundiais serão comercializados e construídos.
Desde os Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, os megaeventos esportivos mais internacionais vêm tentando se definir como ambientalmente sustentáveis. Mas vários acadêmicos e especialistas em sustentabilidade concordam em que nenhum desses eventos – com o seu maciço rastro de carbono e imensa necessidade de infraestrutura – preencheu esse requisito no longo prazo.
A meta é realista? Outras prioridades normalmente deixam de lado as promessas verdes.
Este certamente é o caso no Brasil: a economia está claudicante, os brasileiros estão furiosos com a conta da Copa do Mundo, as mais cara até hoje, as acusações de corrupção estão no ar e os serviços públicos como saúde, educação, habitação e transporte estão em declínio. Os impactos sobre o meio ambiente estão quase no fim de uma longa lista de queixas.
Referência em sustentabilidade
Não se trata de dizer que megaeventos podem não causar impacto. A Copa do Mundo de 2006 na Alemanha empenhou-se em ser neutra em carbono. Os ingressos para as partidas também podiam ser usados nos sistemas de transporte público. Alguns estádios tinham energia solar, cisternas para coleta de água da chuva e estacionamento gratuito para bicicletas. Já as análises sobre as Olimpíadas de Pequim 2008 atribuem a esses jogos o avanço em tecnologias ambientais e a aceleração de algumas reformas nacionais na questão do meio ambiente. E as Olimpíadas de Londres 2012 foram elogiadas por fortalecer padrões de sustentabilidade, focando em estratégias que futuros megaeventos poderiam adotar.
Mais difícil mesmo é levar os esforços de sustentabilidade para além dos estádios. E as expectativas do público por sustentabilidade nesses eventos de larga escala estão aumentando. Hoje elas incluem não apenas emissões de carbono, controles de poluição e reciclagem, mas preocupações com a justiça social.
Nenhum megaevento até agora deixou isso tão em evidência como a Copa do Mundo deste ano. E mesmo assim a sustentabilidade a longo prazo continua sendo uma ilusão.
"Os tipos de avanços que ocorreram no Brasil relacionados com a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos não são o que a maioria das pessoas descreveria como sustentáveis em termos sociais ou físicos”, diz Jay Coakley, professor emérito de sociologia da Universidade do Colorado, em Colorado Springs (EUA), que estuda sustentabilidade em eventos esportivos.
Em segundo plano

Megaeventos esportivos se tornaram tão caros para as cidades anfitriãs que poucos recursos sobram para lidar com as necessidades das comunidades pobres e das classes trabalhadoras que eles afetam, disse Coakley. “A sustentabilidade ficou em segundo plano em relação a alimentação, habitação, assistência à saúde, educação e transporte público básico.”

A Fifa, organizadora da Copa do Mundo, anunciou sua estratégia de sustentabilidade há dois anos, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Sustentabilidade, no Rio de Janeiro (RIO+20). Incluía certificação no sistema internacional LEED de edifícios verdes para os estádios, compensações de carbono relacionadas ao Brasil, reciclagem e medidas de conservação da água.
Mas os protestos sobre a Copa que varreram o Brasil demonstraram a dissonância entre os compromissos da Fifa com um evento verde e ambientalmente sustentável e a gritaria da população por causa da falta de investimento social duradouro.
“As questões ambientais estiveram totalmente ausentes dos protestos”, disse Fabián Echegaray, fundador da Market Analysis, uma empresa de pesquisa de mercado com sede no Brasil, especializada em sustentabilidade.
Limitado a estádios

Echegaray acha que o plano da Fifa de compensação das emissões e as características verdes dos projetos ficaram restritos aos 12 estádios espalhados pelo país, onde os jogos estão sendo realizados.

Tudo o mais – das emissões de viagens aéreas à dependência de táxis abastecidos com gasolina para os traslados e a movimentação pelas cidades, na falta de um sistema de transporte público que funcione bem – vai contra até mesmo o critério mais tradicional de sustentabilidade. A ausência de investimento significativo em infraestrutura de transporte público motivou, em parte, o clamor público. 
Não se trata de dizer que a conexão entre meio ambiente e sustentabilidade social ficou de fora do radar da Fifa. Além de medidas de eficiência energética, compensações de carbono e sistemas de reciclagem de lixo, a Fifa promove a criação de programas sociais em comunidades onde os jogos estão sendo realizados.  
Mas Graeme Hayes, professor de política e sociologia na Universidade Aston, na Inglaterra, duvida que esses esforços possam resultar no tipo de benefício de longo prazo que uma definição mais inclusiva de sustentabilidade iria requerer.  
J.P.Engelbrecht/ PCRJ
Torcedores brasileiros assistem a partida entre Brasil e Chile no Mineirão, Belo Horizonte  (28/06/14)

Londres 2012

Os Jogos Olímpicos de Londres 2012 trilharam esse caminho. Os organizadores prometeram os primeiros jogos verdadeiramente sustentáveis, abrangendo não só compensações de carbono e recursos de tecnologias verdes, mas um plano para atender às necessidades habitacionais, de diversidade social e desenvolvimento comunitário do leste de Londres.

A prestação de contas sobre o carbono foi rigorosa, disse Hayes, que estudou os esforços de sustentabilidade para os Jogos de Londres 2012. Mas as Olimpíadas ficaram aquém de atingir as metas sociais mais amplas.
“Você olha para Londres dois anos depois e pergunta: o que mudou? Que efeito teve de modo geral sobre a sociedade britânica, e no que diz respeito ao que é ambientalmente e não ambientalmente sustentável?” pergunta Hayes. “Você teria de dizer que os resultados são insignificantes.”
'Choque e pavor'

A abordagem da sustentabilidade nesses megaeventos, acrescenta Hayes, tem a ver mais com os organizadores e a elite social encenando uma visão de “choque-e-pavor” que deslumbra os espectadores, mas não resolve desafios sociais de longa data.

No Brasil, os exemplos são muitos:

- A Fifa festejou a instalação de painéis solares e medidas para a redução de consumo e conservação da água no novo estádio construído em São Paulo, ao custo de 420 milhões de dólares, e na reforma do legendário Maracanã, no Rio, avaliada em 500 milhões de dólares. Mas enquanto isso moradores eram expulsos de algumas das favelas do Rio e 5 mil sem-tetos armavam acampamento perto da Arena Corinthians em São Paulo, em protesto contra a falta de habitação a preço acessível na cidade. 

- O prazo final para a conclusão da primeira linha de um monotrilho de ligação de subúrbios de São Paulo e para trasladar os visitantes rapidamente de e para o aeroporto, reduzindo a poluição e o congestionamento do tráfego, foi adiado em meio a atrasos na obra. Novas linhas estão planejadas, mas sem um claro cronograma de entrega.

- O novo estádio de Manaus, em plena Amazônia, detentor da certificação LEED, engloba o que há de mais moderno em sistemas de refrigeração e aquecimento em termos de eficiência energética. Mas os planos de prover todo o estádio com energia solar tiveram de ser abandonados por causa dos atrasos da obra. Enquanto isso, brasileiros irados questionam o custo - 300 milhões de dólares - para construir um enorme estádio em uma remota cidade que pode nunca mais sediar evento tão grande.   

- Mas o setor esportivo tem condições de mudar mercados inteiros para torná-los mais 'verdes", disse Allen Hershkowitz, cientista sênior do Conselho Nacional de Defesa dos Recursos Naturais (NRDC, na sigla em inglês), dos Estados Unidos, que tem trabalhado com muitas ligas esportivas e é cofundador da Aliança dos Esportes Verdes. 

Leonardo Lourenço/ Portal da Copa
Conjuntos habitacionais próximos ao estádio Itaquera, em São Paulo, decorados para a Copa

Opinião pública

"Temos as indústrias do plástico, energia, têxtil, transportes e química envolvidas, portanto, quando o esporte profissional abraça a gestão ambiental, de fato afeta a cadeia mundial de suprimentos."

E isso é mais do que apenas reduções concretas em emissões de carbono, lixo ou uso do lixo, acrescentou Hershkowitz. O esporte pode influenciar a opinião pública - e até a ação do governo - sobre mudança climática e sustentabilidade de um modo que os debates sobre ciência e política não podem, disse ele. 

"Os cientistas não são necessariamente os melhores comentaristas. Mas as pessoas de fato prestam atenção aos esportes." Hershkowitz acredita que o movimento pelos esportes verdes tem o potencial de ser um dos mais influentes na história do ambientalismo. Mas quando o NRDC recebeu um pedido para trabalhar com o Brasil nas suas metas de sustentabilidade para a Copa do Mundo, a entidade recusou.

Totalidade dos impactos

Hershkowitz disse que não havia meios de comprovar a legitimidade das alegações sobre o meio ambiente e os preparativos para os jogos pareciam repletos de desafios em termos de justiça social. 

"É preciso olhar para a totalidade dos impactos, não só para os materiais e estruturais", disse ele. "Vimos bilhões de dólares em investimentos, um esforço muito visível. É uma área para avanços em tecnologia ecologicamente preferível, mas também (para se garantir) questões de igualdade e justiça social como parte das metas de sustentabilidade." 
No Brasil, não ficou claro que isso poderia acontecer. "A Copa do Mundo é uma oportunidade perdida", disse ele. Mas, em seu fracasso, a Copa do Mundo 2014 poderia ter, por fim, um impacto duradouro em sustentabilidade. 
Hayes acha que a imagem das pessoas indo para as ruas em um país obcecado por futebol vai persistir quando a atenção se voltar para futuros megaeventos, notavelmente a Copa do Mundo de 2022 no Catar, que já enfrenta críticas por práticas de exploração de trabalhadores e a sua pegada de carbono.
Serão os cidadãos, contudo, e não a Fifa e o Comitê Olímpico Internacional, que pressionarão para que a justiça social e a sustentabilidade se tornem parte mais significativa do planejamento de eventos futuros, segundo Hayes.
 "O Brasil é algo realmente muito grande porque tem legitimidade no mundo do futebol como lar do jogo bonito, o lar do futebol", disse ele.  "O Brasil dizendo 'nós não queremos isso’ é algo vai realmente causar grande abalo."
 

Tradução Maria Teresa de Souza

Texto originalmente publicado em The Daily Climate, agência de notícias independente com cobertura sobre energia, meio ambiente e mudança climática.

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Fonte:http://revistasamuel.uol.com.br/conteudo/view/20666/A_copa_amarelou_.shtml