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sábado, 14 de junho de 2014

A grosseria contra Dilma

14.06.2014
Do blog PRAGMATISMO POLÍTICO

A grosseria contra Dilma   “No limite, o que a torcida fez na tarde desta quinta-feira foi informar ao planeta que o Brasil está deixando de ter uma noção qualquer de civilidade”, afirmou Josias de Souza

vaia dilma elite branca
O colunista Josias de Souza censurou o comportamento da torcida brasileira na abertura da Copa do Mundo ao xingar a presidente Dilma Rousseff. Segundo ele, foi uma prova em âmbito mundial de que o Brasil está deixando de ter uma noção qualquer de civilidade. Leia:
Quando Ronaldo disse estar “envergonhado” com os desacertos da organização da Copa, Dilma Rousseff reagiu à moda de Nelson Rodrigues: “Tenho certeza que nosso país fará a Copa das Copas. Tenho certeza da nossa capacidade, tenho certeza do que fizemos. Tenho orgulho das nossas realizações. Não temos por que nos envergonhar. Não temos complexo de vira-latas.”
Nesta quinta-feira, Dilma submeteu seu orgulho a teste na tribuna de honra do Itaquerão. Dali, assistiu à partida inaugural da Copa do Mundo. Dessa vez, tentou blindar-se no silêncio. Absteve-se de discursar. Não funcionou. Como queria a presidente, a torcida exorcizou o vira-latismo. Mas, desamarrando suas inibições, incorporou um pitbull.
Ao entoar o hino nacional, ao ovacionar os jogadores, a arquibancada tomou-se de um patriotismo inatural. Contudo, rosnou com agressividade inaudita ao dirigir-se a Dilma. Fez isso uma, duas, três, quatro vezes. Diferentemente do envelope de uma carta ou do e-mail, a vaia não tem nome e endereço. Pode soar inespecífica. Como no instante em que o serviço de som anunciou os nomes de Dilma e de Joseph Blatter.
Até aí, poder-se-ia alegar que o destinatário da hostilidade era o cacique da Fifa, não Dilma. A coreografia estimulava a versão. Blatter levantou-se. Dilma manteve-se sentada. O diabo é que o torcedor, salivando de raiva, tratou de dar nome aos bois. Foi assim no coro entoado nas pegadas da cerimônia de abertura da Copa.
“Ei, Dilma, vai tomar no c…”, rosnava um pedaço da multidão. “Ei, Fifa, vai tomar no c…”, gania outra ala. Quando Dilma foi exibida no telão do estádio vibrando com o segundo gol do Brasil, arrostou, solitariamente, uma segunda onda de xingamentos.
Após a comemoração do terceiro gol, ela ouviu um derradeiro urro: ‘Ei, Dilma, etc…”
O que fizeram com Dilma Rousseff no Itaquerão foi indesculpável. Vamos e venhamos: ela não era nem culpada de estar ali. Com as vaias da Copa das Confederações ainda não cicatrizadas, Dilma teria ficado no Palácio da Alvorada se pudesse. Foi ao alçapão do Corinthians porque o protocolo a escalou.
Vaiar autoridade em estádio é parte do espetáculo. Numa arena futebolística, dizia o mesmo Nelson Rodrigues, vaia-se até minuto de silêncio. Porém, ao evoluir do apupo para o palavrão, a classe média presente ao Itaquerão exorbitou. Mais do que uma pose momentânea, o presidente da República é uma faixa. Xingá-la significa ofender a instituição.
Quando o xingamento é transmitido em rede mundial, adquire uma pungência hedionda. No limite, o que a torcida fez na tarde desta quinta-feira foi informar ao planeta que o Brasil está deixando de ter uma noção qualquer de civilidade.
Quando o fenômeno atinge uma platéia como a do Itaquerão, com grana para pagar os ingressos escorchantes da Fifa, a deterioração roça as fronteiras do paroxismo. Evaporam-se os últimos vestígios de institucionalidade.
A sociedade tem os seus abismos, que convém não mexer nem açular. Dilma não se deu conta disso. E vive a cutucar os demônios que o brasileiro traz enterrados na alma. Fez isso pela penúltima vez no pronunciamento levado ao ar na noite da véspera. Muita gente achava que ela merecia uma reprimenda sonora. Mas a humilhação do xingamento transpassou a figura da presidente, atingindo a própria Presidência.
Quem deseja impor a Dilma um castigo que vá além da vaia, tem à disposição um instrumento bem mais eficaz do que a língua. Basta acionar, no silêncio solitário da cabine de votação, o dedo indicador. O gesto é simples. Mas a pata de um pitbull não é capaz de executá-lo.
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PARTICIPAÇÃO SOCIAL CAUSA OJERIZA NA DIREITA BRASILEIRA: A direita mostra a cara

14.06.2014
Do BLOG DO MIRO, 
Por Mauricio Dias, na revista CartaCapital:



O decreto de criação da Política Nacional de Participação Social (PNPS) fez a direita botar a cara para fora mais uma vez. Assumiu a distância que a separa do cidadão e, principalmente, dos movimentos sociais. Desde 1964, quando radicalizou e sustentou a derrubada de um governo constitucionalmente eleito, a reação conservadora não se assanhava tanto quanto agora.

Tangida pelo vozerio da mídia contra o decreto, enviado há duas semanas ao Congresso por Dilma Rousseff, a decisão da presidenta esbarrou no batismo de fogo. À falta da ameaça comunista, manuseada pelos idiotas da Guerra Fria, foi o PNPS tachado pelos patetas recentes de repetir políticas bolivarianas, chavistas. 

Traduzindo a acusação, o decreto seria uma forma de reduzir o papel do Legislativo. E, mais, seria uma tentativa do governo de usar um instrumento da democracia direta para controlar os movimentos sociais.

Medo. Medo de quê? O decreto orienta a criação de conselhos, comissões, ouvidorias, audiências públicas, conferências e mais coisas no sentido de instruir consultas à “sociedade civil” sobre ações do governo. 

“Somos a favor da consulta, a favor da participação de todos os segmentos no processo de estruturação das políticas do governo”, afirmou a presidenta em defesa da política de participação social. 

Para alguns, porém, o decreto seria algo como o Cavalo de Troia. Traria embutido nos seus 22 artigos um processo de superação dos trabalhos do Legislativo. Pura superstição conservadora.

Debruçada sobre a questão há vários anos, a professora Thamy Pogrebinschi afirma que “há um alto grau de diálogo entre deliberações propostas nas conferências nacionais e a ação dos parlamentares no Congresso”.

De acordo com as pesquisas feitas por ela, considerando projetos e legislação aprovada, “o Parlamento brasileiro espelhou de forma convergente em sua ação legislativa as demandas da sociedade civil em 3.057 oportunidades”.

Decididamente, não gostam da democracia do lado de baixo da linha do Equador. Gostam de vê-la engessada por descaso com as transformações exigidas nas mobilizações sociais, como ocorreu nas jornadas populares de 2013. 

Não é difícil rastrear as reações primárias da direita. Se a PNPS representa para ela um dos princípios da política chavista, o programa Mais Médicos chegou a ser identificado como infiltração do regime cubano no Brasil. Elementar: como os médicos são funcionários do governo cubano, logo são espiões. O sistema de cotas para negros, pardos, pobres e indígenas foi rejeitado, inicialmente, por uma suposição preconceituosa: quebraria o princípio da meritocracia.

Para dar o último exemplo de uma lista muito mais longa, fica registrado o fracasso da democracia brasileira: a regulação da mídia não foi discutida e muito menos votada. Prevaleceu a falsa ideia de que o objetivo era censurar a imprensa.

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BAIXARIA DE UMA ELITE BRANCA E INDECENTE: Quem é a turma do vai tomar no c...

14.06.2104
Do BLOG DO MIRO, 13.06.14
Por Renato Rovai, em seu blog:
 
O Brasil é um país complexo e muito difícil de explicar, mas a sua elite não. Ela é previsível e está sempre no mesmo lugar. As elites do mundo não costumam ser muito diferentes, mas a brasileira é das piores.

Não à toa o Brasil foi o último país do planeta a acabar com a escravidão, não à toa somos um dos poucos países que só agora está vivendo um ciclo democrático de três décadas. Todos os outros nossos períodos de democracia duraram menos do que isso.

E todas as ditaduras e a escravidão longínqua que tivemos são obras da nossa elite. Que se julga o Brasil. Que se acha a dona do país. Que é altamente corrupta, mas que faz de conta que o que lhe move na política é a defesa do interesse público.

Os que xingaram Dilma na tarde de ontem de maneira patife e abjeta são os netos e bisnetos daqueles que torturam negros nas senzalas. São os filhos daqueles que apoiaram a tortura na ditadura militar. São os mesmos que há pouco fizeram de tudo para que não fosse aprovada a legislação da empregada doméstica e que nos seus almoços de domingo regados a champanhe francês e a vinho italiano sobem na mesa para gritar contra o Bolsa Família.

Essa elite que xingou Dilma daquela maneira no Itaquerão sempre envergonhou o país. E ontem só aprontou mais uma. Não foi um ponto fora da curva no processo histórico. E também não foi nada inocente.

Aécio Neves mais do que todos os outros candidatos que o PSDB já teve simboliza esse elite. É o típico bon-vivant, que nunca trabalhou na vida, que surfou até os 20 anos no Rio de Janeiro e que depois foi brincar de motocross até os 25 anos na montanhas de Minas Gerais, para só depois entrar na política e ir defender os interesses da família e de seu segmento social.

Ontem, Aécio deu uma entrevista ao Globo onde atiçava seu eleitorado a sitiar a presidenta da República. E ao mesmo tempo milhares de panfletos eram distribuídos na entrada do Itaquerão associando o PT à corrupção. Pra criar o clima do ataque à presidenta.

O mesmo Aécio que botou a polícia do Rio para invadir a casa de pessoas que ele suspeita estarem criticando-o na Internet. O mesmo Aécio que silenciou a imprensa de Minas Gerais e colocou-a de joelhos para os seus projetos pessoais.

Quem xingou Dilma não foi nem um punhado de inocentes e nem a massa ignara. Foi o pedaço do Brasil que odeia o brasileiro.

Para este pedaço do Brasil que é a cara de Aécio, tanto faz se o presidente é Dilma, Lula, José ou Maria. O que eles não aceitam e que o país não seja apenas um lugar para eles exercerem sua sanha dominadora.

E por isso que o Bolsa Família, o aumento do salário mínimo, as políticas de cotas, a legislação da empregada doméstica e alguns outros programas sociais são tão abominados por essa gente. Eles querem que o povo morra de fome. Querem que o povo vá tomar naquele lugar. O xingamento não é para a presidenta. É para o Brasil que a elegeu. Porque na democracia desses patifes, o voto deles teria que valer mais do que o do sertanejo ou da mulher que luta pela sobrevivência dela e dos filhos nas periferias das grandes cidades.

Os netos e bisnetos dos escravistas e os filhos dos que apoiaram a tortura na ditadura. É esse Brasil que nos envergonha do ponto de vista histórico que nos envergonhou ontem xingando uma presidenta legítima, uma chefe de Estado que tem atuado dentro dos limites da Constituição.

Esse Brasil precisa ser derrotado mais uma vez. Porque se o projeto petista tem seus limites e poderia ser muito melhor, o desses caras é o que há de mais asqueroso. É o vai tomar no cu.
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Fonte:http://altamiroborges.blogspot.com.br/2014/06/quem-e-turma-do-vai-tomar-no-c.html#more

Foi a “elite branca” que vaiou a presidenta Dilma na abertura da Copa

14.06.2014
Do blog  de Rodrigo Vianna, 13.06.14
 
Vergonha!
Sabe de onde iniciaram as vaias e xingamentos contra a presidenta Dilma Rousseff (PT) no jogo Brasil e Croácia na abertura da Copa do Mundo na Arena Corinthians?
Da área VIP do estádio (conforme G1 e Folha), composta basicamente por quem pagou R$ 990,00 nos ingressos e por “celebridades”, principalmente artistas da Rede Globo de Televisão e demais redes de TV.
A maioria desses artistas entraram de graça no estádio, com ingressos cortesias, ou pagaram quase mil reais em cada entrada.
É esse tipo de gente que desrespeita uma senhora ao lado de sua filha, e que não aceita a redução das desigualdades sociais no Brasil nos últimos 10 anos.
A ESPN disse que o público que xingou Dilma é um público diferente, que paga ingresso caro ou é convidado, e que foi uma grosseria, uma má-educação, lamentável, deplorável e deprimente.
O respeitado jornalista Juca Kfouri disse que a torcida foi mal-educada, que é a torcida da “elite branca” e algo não cidadão e não democrático, e que essa torcida nunca vaiou o Paulo Maluf.

Juca informou que conversou com os voluntários e funcionários do estádio e que 95% deles não gostaram dos xingamentos à presidenta informou que os trabalhadores presentes na Arena Corinthians disseram que não gostaram das ofensas contra Dilma vindas dos endinheirados.
Veja o vídeo:

Leia outros textos de Plenos Poderes
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Fonte:http://www.revistaforum.com.br/rodrigovianna/plenos-poderes/foi-a-elite-branca-que-vaiou-a-presidenta-dilma-na-abertura-da-copa.html#more-30210

Arnaldo Marques: Folha mente, manipula e desinforma sobre despesas com a Copa

14.06.2014
Do blog MARIAFRÔ, 23.05.14

O que me chama a atenção na matéria mentirosa da Folha (que novidade!) é que mesmo a Folha engordando 3 vezes mais o total do dinheiro emprestado pelo BNDES aos estados/municípios e setor privado para a construção dos estádios, ela mostra sem querer que o mote #educação #padraoFIFA é uma imensa bobagem, já que os recursos públicos tanto para a educação como para a saúde são vultosos.

Nem vou falar que só com os gastos dos turistas estrangeiros durante a Copa o Brasil vai receber o que emprestou para construir os estádios. Nem vou falar do que já foi construído ou ampliado e que ficará depois da Copa. Vou me atear à desinformada comparação entre os gastos com estádios e o tal educação #padraoFIFA, saúde #padraoFIFA.

O que o BNDES EMPRESTOU para a construção de estádios representa uma semana dos gastos com educação no Brasil. Como a Folha incluiu malandramente gastos empregados na infra-estrutura de mobilidade urbana, a conta passou a ser a de um mês. Entenderam por que sempre disse que comparar os investimentos públicos pra educação e saúde com gastos para a realização da Copa além de uma comparação improcedente, se fosse atendida deixaria em apuros todos os brasileiros quem dependem de saúde e educação públicas?

Por Arnaldo Ferreira Marques em seu Facebook

Na verdade, Folha, os 25,8 bilhões incluem a infraestrutura criada ou ampliada que usa a Copa como pretexto (aeroportos, BRTs, avenidas, VLTs etc.). Isso não é “gasto com a Copa”, é gasto em serviços públicos essenciais que foi acelerado a partir do “embalo” da Copa.
Alguém acredita que seria implantado um VLT a toque de caixa em Cuiabá se a cidade não fosse sede da Copa?
Mas está certíssimo: se esse tipo de investimento só se concentrar em São Paulo e Rio, a migração não para nunca. Deixa Cuiabá se desenvolver e se tornar um polo de atração.
O “gasto com a Copa” (estádios) é de cerca de 8 bilhões, portanto 10 dias dos gastos da educação.
Mas alguém duvida que, com raras exceções (Curitiba, por exemplo), nossos estádios antigos eram inseguros e desconfortáveis para os FlaxFlu, Náutico x Sport, Bahia x Vitória, Grenal, SanSão, Corinthians x São Paulo, Atlético x Cruzeiro pelo Brasil afora?

E tem gente com a cara de pau de comparar o Brasil, onde esporte é paixão e religião, com a África do Sul, onde a Copa do Mundo é um evento como outro qualquer, como se fosse uma convenção de médicos ou um encontro de escoteiros.

Nossos estádios são preciosos, lotam fácil com 70 mil pessoas (e se andavam esvaziados não é por falta de paixão, é por serem inseguros e desconfortáveis, não fossem lucrativos Grêmio e Palmeiras não teriam construído os seus). Gastar neles não é jogar dinheiro fora.
Enfim, quanto ao fato de nossos estádios serem absurdamente mais caros que os de Copas anteriores, isso é MENTIRA.

Todas as “””análises””” que vi apontando esse suposto “superfaturamento absurdo” manipulam os dados, comparando sutilmente euros (ou dólares) com reais sem fazer o câmbio (??), ou apresentando custos de obras europeias inauguradas em 2004, 2003, até nos anos 1990!

E ainda vêm com um “custo por assento”, como se a metragem de arquibancada fosse um bom termo de comparação, desconsiderando o tipo de solo, a área total (pode ter menos assentos mais mais infraestrutura, serviços etc.). Mas, mesmo por assento, nossos preços estão na média dos estádios recentes.

Filho, liga pra Vale e pergunta quanto custava a tonelada do minério de ferro em 2002, e compara com o preço de hoje.

A realidade é que praticamente todos os estádios recentes (do porte dos brasileiros) custaram entre 300 e 500 milhões de euros, que é exatamente o custo das arenas brasileiras.
Eu tenho ‘n’ pontos de crítica à organização da Copa 2014, mas o que não dá é para inventar problema onde não existe. Isso só confunde

Leia também:

Da série: A culpa é do PT

Operação #afundaBrasil na mídia monopolizada e partidarizada em pleno vapor

A “babaquice” da pauta única da mídia concentrada sobre a fala de Lula no #4blogprog e na Virada Cultural



A mídia concentrada e reacionária vai investigar a denúncia do criador de Dilma Bolada?
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Fonte:http://mariafro.com/2014/05/23/arnaldo-marques-folha-mente-manipula-e-desinforma-sobre-despesas-com-a-copa/

A falta de educação da nossa elite, por Urariano Mota

14.06.2014
Do portal GGN/Luis Nassif, 13.06.14

Texto para a coluna “Prosa, Poesia e Política”, em Rádio Vermelho.
Urariano Mota

Primeiro, caberia, cabe a pergunta: elite de quê? Qual elite? Será quem paga um mil reais, ou 990 reais para assistir a uma partida de futebol?

O chamado “publico diferenciado”, que uma colunista da Folha já chamou de “gente cheirosa, ou gente perfumada”, e que o ex-ditador Figueiredo achava superior ao povo, que tinha cheiro pior que cheiro de cavalo, lembram? Pois o público diferenciado na abertura da Copa retratou bem a elite que vaia os médicos cubanos, chamando-os de negros escravos. É a mesma que escandalizou o mundo civilizado, quando Lula recebeu o prêmio de Doutor Honoris Causa na França. Lembram? Eu lembro: um dos jornalistas brasileiros, perdão, nascido no Brasil quis dizer, perguntou ao diretor do Instituto e Estudos Políticos de Paris que concedeu o título a Lula:

“Era o caso de premiar quem se orgulhava de nunca ter lido um livro?”. O professor manteve sua calma e deu um olhar de assombrado. Talvez Descoings soubesse que essa declaração de Lula não consta em atas, embora seja certo que Lula não tenha um título universitário. Também é certo que quando assumiu a presidência, em primeiro de janeiro de 2003, levantou o diploma que é dado aos presidentes do Brasil e disse: “Uma pena que minha mãe morreu. 

Ela sempre quis que eu tivesse um diploma e nunca imaginou que o primeiro seria de presidente da República”. E chorou.

“Por que premiam um presidente que tolerou a corrupção?”, foi a pergunta seguinte. Outro colega brasileiro, perdão, nascido no Brasil eu quis dizer, perguntou se era bom premiar alguém que uma vez chamou de “irmão” a Muamar Khadafi. Outro, ainda, perguntou com ironia se o Honoris Causa de Lula era parte da política de ação afirmativa do Sciences Po.

Descoings o observou com atenção antes de responder: “As elites não são apenas escolares ou sociais”, disse. “Os que avaliam quem são os melhores, também. Caso contrário, estaríamos diante de um caso de elitismo social. Lula é um torneiro mecânico que chegou à presidência, mas pelo que entendi foi votado por milhões de brasileiros em eleições democráticas”.

O fato é que o espantalho Lula/Dilma, com as suas Bolsa Família, perdão, Bolsa esmola e Prounis, ameaçou diminuir o poder secular da elite brasileira.

Essa elite é a mesma dos protestos nas ruas do ano passado, vocês lembram. Se perguntássemos aos revoltados da hora quais eram os problemas do Brasil, a maioria declarava que o maior deles era a corrupção.

Em cartazes, todos víamos nas passeatas “Cadê a Dilma da guerrilha?”. Vídeos no YouTube com falas de carinhas moças chamam para as ruas com “Vamos parar a roubalheira do governo… Vamos parar com essa palhaçada do governo do Brasil… O Inimigo é o Governo”. São deles as vaias, os palavrões contra a primeira presidenta do Brasil. “Ei, Dilma, vai tomar no c...". A vaia começou na área VIP do estádio, mas se espalhou rapidamente por outros setores. Os protestos recomeçaram logo após a execução do Hino Nacional, quando parte da torcida hostilizou a presidente com o mesmo coro.

Mas a elite é isto, meus amigos: não existe festa no mundo que ela não estrague. Com a sua secular falta de educação.  Que ela confunde com boas maneiras, com saber sentar-se à mesa, saber distinguir um vinho de outro, que ela macaqueia, fingindo que conhece, meu Deus, que ridículo. Educação é a do homem do povo, que socorre e ajuda outro, que manifesta solidariedade. Mas essa educação, de classe, está certa, enfim: cada macaco no seu galho, como cantava um compositor baiano.  O nosso é ficar junto a quem trabalha e sonha pela humanidade.

Xô, elite vagabunda.
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Fonte: http://jornalggn.com.br/noticia/a-falta-de-educacao-da-nossa-elite-por-urariano-mota

Prisão com fins políticos

14.06.2014
Do portal da Revista CartaCapital,
Por Marcelo Auler 

As recentes decisões do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, de cortar o direito ao trabalho externo dos presos pela Ação 470 – o conhecido processo do “Mensalão” -, sob a justificativa da necessidade de cumprirem um sexto da pena – contrariando decisões anteriores do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e colocando em risco um direito adquirido por milhares de outros presos –, geraram contestações e reprovações.

No Rio de Janeiro, contudo, uma decisão judicial – da 3ª Vara Criminal – de fevereiro passado, motiva críticas por um selecionado grupo de juristas, intelectuais e representantes de Organizações Governamentais, sem, contudo, repercutir na imprensa. Até porque, as contestações se respaldam justamente na pressão exercida pela mídia a favor da manutenção da prisão preventiva do tatuador Fabio Raposo e o auxiliar de serviços gerais Caio Silva de Souza, ambos com 22 anos. Os dois se apresentaram à polícia como responsáveis por acionarem o rojão que, na noite de 6 de fevereiro passado provocou a morte do cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago Ilídio de Andrade, de 49 anos, durante uma manifestação na Praça Duque de Caxias, no centro da cidade.

Caio e Fabio foram acusados pela promotora Vera Regina de Almeida pelos crimes de explosão e homicídio doloso, triplamente qualificado - motivo torpe, pela impossibilidade de defesa da vítima e pelo emprego de explosivo.  O rojão que acenderam no chão da praça, desgovernado, atingiu a cabeça do repórter cinematográfico que estava entre a multidão que protestava e o grupo de policiais militares encarregado de conter a massa usando bombas de efeito moral, gás lacrimogênio e até tiros de armas de fogo.

Todo o questionamento que vem sendo feito por juristas, intelectuais e movimentos sociais é justamente pela acusação de homicídio doloso – com intenção de matar - que além de servir para manter os dois presos desde fevereiro, poderá levá-los a um júri popular onde as penas, 
no caso de condenação, chegam aos 30 anos de reclusão.

Na quinta-feira 22 um júri simulado, organizado por cerca de 19 entidades civis dentro da tradicional Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, deixou claro que todas as partes – inclusive o procurador de justiça aposentado Avelino Gomes Moreira Neto, que atuou no MP por 26 anos, que há um exagero responsabilizar os jovens por crime premeditado.

Um estudo apresentado pelo perito Ricardo Molina, após simulações com 12 rojões idênticos, demonstrou que estes fogos de artifício, usados sem a vara de sustentação – como ocorreu na manifestação – tornam-se incontroláveis, sem direção, podendo percorrer distâncias que variam de sete a 333 metros, em um raio de 180 graus: “Mais ou menos resumindo, não se sabe absolutamente o que vai acontecer com cada um dos projeteis. Sem a vareta de direção ele é absolutamente errático”, concluiu Molina.

Isso embasa a tese de que os jovens, ainda que autores de uma atitude irresponsável, não poderiam ter intenção de atingir ninguém especificamente, pois os rojões eram incontroláveis. Uma tese explorada justamente pelo procurador Moreira Neto: “A explosão foi realizada de forma irregular; quem sabe, quem conhece, quem deseja atingir alguém não manipula (o rojão) de forma irregular”.
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Também o jurista Nilo Batista, que funcionou como advogado de defesa dos jovens, destacou que o próprio delegado Mauricio Luciano, da 17ª DP, ao pedir a prisão preventiva dos dois destacou que “neste lamentável episodio de violência, dois jovens, incialmente não identificados, acendem o artefato que dispara sem rumo, vindo atingir (o cinegrafista) – ele escreveu isto, frisa Batista - dispara sem rumo”. O simples fato de não terem domínio sobre a trajetória do rojão, tanto para Moreira Neto, como para Batista não permitiria ao delegado e ao Ministério Público partir para a tese do homicídio doloso (com intenção). Por esta tese, os jovens queriam atingir a polícia e acabaram ferindo mortalmente o jornalista.

“Eu não achei viável essa versão (de atingir a polícia) porque de maneira alguma esse instrumento poderia chegar ao local mencionado nos autos e relacionado na denúncia”, insiste o procurador resumindo sua posição no caso: “Se lermos esse laudo (da polícia) a que me referi vamos concluir que não houve dolo, intenção de atingir qualquer pessoal com este rojão. Trata-se de pura inexperiência de seus autores (...) Acho que os réus agiram com culpa e não com dolo. O indivíduo não queria atingir ninguém, mas era previsível que acontecesse. Se houvesse a devida atenção, o projetil não seria nem acesso. Mas, como não houve a devida atenção o projetil foi aceso e acabou causando esta tragédia.”

O júri foi composto por sete representantes da sociedade, altamente respeitados e dignos de credibilidade: a psicóloga Cecília Coimbra (Grupo Tortura Nunca Mais); o músico e compositor Marcelo Yuka, paraplégico por conta de um assalto; o diretor de teatro Amir Haddad; a presidente do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio, Paula Máiran; o teólogo Antônio Carlos Costa, fundador da ONG Rio de Paz; o coronel reformado Jorge da Silva, ex-chefe do Estado Maior Geral da PM do Rio e ex-Secretário estadual de Direitos Humanos; e o psicanalista Joel Birman, professor de Teoria Psicanalítica na UFRJ e no Instituto de Medicina Social da UERJ. Todos favoráveis à desclassificação do crime de homicídio doloso, triplamente classificado, para o homicídio culposo (sem intenção de matar).
Questão Política. Para Batista a necessidade da polícia e do MP partirem para uma acusação de crime culposo, triplamente qualificado – com penas mais fortes – inclusive associando-o ao crime de explosão – jamais foi usado para quem solta rojões e fogos de artifícios – tem uma conotação clara política, visando impedir as manifestações de rua que ocorriam com frequência.

“Os punhais se afiaram imediatamente por que a direita veio, pois era a chance de passar a lei contra “terroristas”, entre aspas, porque na verdade uma lei contra as manifestações, contra os manifestantes, portanto, uma lei contra a manifestação de pensamento porque parece que as dez famílias que têm o controle da comunicação no nosso país querem que sejam monopólio deles”.

O advogado também frisou a questão de a prisão preventiva contrariar paradigmas judiciais que já se tornaram jurisprudência, uma vez que os réus se apresentaram de livre e espontânea vontade, antes mesmo de a polícia ter noção de quem seriam os responsáveis pela explosão. “A jurisprudência questiona a própria prisão em flagrante de quem se apresenta. Porque a finalidade da medida cautelar extrema, drástica, iníqua, é uma antecipação (da pena). Nesse caso tinha as patas e o focinho de uma antecipação de pena. Era claramente uma antecipação de pena porque interessava muito para passar a lei de terrorismo, enfim, colocar aquela visão conservadora sobre o risco das manifestações”.

Ele reforçou a tese do interesse político ao lembrar que o delegado falou em investigar “a rede solidária de advogados que atendiam - e espero que continuem a atender - os manifestantes presos. O que isto? A investigação sobre vínculos políticos destes advogados e militantes lembra aqueles IPMs da ditadura. Como é que pode isso? O delegado está interessado em saber a que partido pertence o militante que é da defesa de um garoto preso. 

Com que autoridade? Que investigação é essa? Que polícia é essa? Que estado é esse que só tem esta polícia, que só cresce, só é prestigiada, que os pobres está lá controlando o cotidiano”.

Batista ainda realçou a afirmação de Molina de que foi o choque do artefato na cabeça do cinegrafista que o derrubou. A explosão do rojão ocorreu 1,853 segundo após o projetil ter impactado a cabeça dele. Isto, segundo o advogado dá força à tese do Sindicato dos Jornalistas de que as empresas não estão fornecendo material de proteção aos seus profissionais. Caso usasse um capacete, o ferimento no cinegrafista poderia ter evitado sua morte. Mas esta é outra tese que as empresas de comunicação evitam debater.

Para Nilo, o Ministério Público foi claro ao frisar que as “decorrentes tentativas de desestabilização da ordem social, constantemente estampadas nas páginas dos jornais precisa ser estancada o que torna necessária a prisão daqueles elementos incentivadores, autores de atos de vandalismos”. Isto, segundo ele, é uma demonstração que a prisão preventiva dos jovens que se apresentaram espontaneamente serve para “que outros se aterrorizem e não participem de manifestações. Haverá algo mais imoral, mais kantianemente imoral que alguma pessoa ser presa para produzir efeito em outras?”

Ele está convencido de que o juiz percebeu a capitulação errada do crime, mas não quis rejeitar a denúncia como deveria por conta da pressão social – em especial da mídia – deixando-o para fazê-lo futuramente. Foi quando destacou que “a preocupação rápida da justiça”, como o juiz destacou, acaba se tronando um linchamento, um terror, “principalmente quando a opinião publica foi mobilizada”. Defendeu, portanto, a necessidade de uma análise mais cuidadosa para um julgamento justo, admitindo a presunção da inocência.

Porém, quando o juiz decide que “a pertinência meritória” sobre a denúncia “será avaliada ao término da instrução criminal, assegurados o contraditório e a ampla defesa”, ele, na verdade, mantém presos jovens que causaram a morte do cinegrafista por uma fatalidade, sem que tivessem interesse específico em atingi-lo ou mesmo a qualquer outra pessoa.

Destacando que não há “nenhum elemento que embase, racional e fundadamente do ponto de vista jurídico penal uma acusação de homicídio qualificado e nem por explosão. Mas tem sim, um homicídio culposo”. Ele, na sua leitura polícia do caso lembra que isso, porém, é pouco pois a direita precisava de muita acusação para chamá-los (os jovens) de assassinos”. 

Ao mesmo tempo em que forçaria – como tentou forçar – a criação de uma lei dita antiterrorismo que atingiria sim o direito às manifestações públicas.
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Fonte: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/prisao-com-fins-politicos-9628.html

A cortina de ferro de Washington na Ucrânia

14.06.2014
Do portal OPERA MUNDI, 14.06.14
Por Diana Johnstone* | Counterpunch | Washington

Líderes da Otan encenam farsa deliberada na Europa, desenhada para reconstruir uma Cortina de Ferro entre Rússia e Ocidente

Com uma unanimidade surpreendente, os líderes da OTAN (Organização dos Estados do Atlântico Norte) fingem surpresa em relação a eventos que eles planejaram com meses de antecedência. Eventos que eles deliberadamente provocaram estão sendo mal representados como repentinos, surpreendentes, “agressão russa” sem justificativa. Os Estados Unidos e a União Europeia levaram a cabo uma provocação agressiva na Ucrânia que eles sabiam que forçaria a Rússia a reagir defensivamente, de uma forma ou de outra.
Efe

Ucraniano em Kiev: conflito que dividiu Oriente e Ocidente no leste europeu começou no fim de 2013

Eles não poderiam ter certeza de como exatamente o presidente russo Vladimir Putin reagiria quando ele viu que os Estados Unidos estavam manipulando o conflito político na Ucrânia para instalar uma tentativa do governo pró-Ocidente de se unir à OTAN. Esse não era apenas um caso de “esfera de influência”, nas “cercanias” da Rússia, mas uma questão de vida ou morte para a marinha russa, assim como uma ameaça grave à segurança nacional na fronteira da Rússia.

Uma armadilha foi, assim, armada para Putin. Se corresse o bicho pegava, se ficasse o bicho comia. Ele não poderia reagir de menos e trair os interesses nacionais básicos da Rússia, permitindo que a OTAN avançasse suas forças hostis até uma posição ideal de ataque.

Ou ele poderia reagir demais, enviando as forças russas para invadir a Ucrânia. O Ocidente já estava pronto para isso, preparado para gritar que  Putin era o “novo Hitler”, prestes a invadir a pobre e indefesa Europa, que só poderia ser salva (novamente) pelos generosos norte-americanos.

Na realidade, o movimento de defesa da Rússia foi um meio termo razoável. Graças ao fato de a esmagadora maioria dos crimeanos se sentirem russos, tendo sido cidadãos russos até que [Nikita] Khrushev [ex-secretário-geral do Partido Comunista Soviético] frivolamente concedeu o território à Ucrânia em 1954, uma solução democrática e pacífica foi encontrada. Os crimeanos votaram em voltarem a fazer da parte da Rússia em um referendo que foi perfeitamente legal de acordo com a lei internacional, apesar de violar a Constituição da Ucrânia, que estava em frangalhos por ter sido recentemente violada pela deposição do presidente devidamente eleito do país, Viktor Yanukovich, o que foi facilitado por milícias violentas. A mudança de status da Crimeia foi alcançada sem derramamento de sangue, nas urnas.

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Ainda assim, os gritos de indignação do Ocidente foram tão histericamente hostis quanto se Putin tivesse reagido excessivamente e tivesse submetido a Ucrânia à uma campanha de bombardeio no estilo norte-americano, ou invadido totalmente o país — o que talvez tenham esperado que ele fizesse.

O secretário de Estado norte-americano John Kerry liderou o coro de íntegra indignação, acusando a Rússia do tipo de coisa que o seu próprio governo tem o hábito de fazer. “Você não pode simplesmente invadir outro país sob um falso pretexto para reivindicar seus interesses. Isso é um ato de agressão que é completamente enganoso nos termos da sua alegação”, pontuou Kerry. “É um comportamento do século 19 no século 21”. Em vez de rir dessa hipocrisia, a mídia norte-americana, políticos e comentaristas, zelosamente adotaram o tema da agressão expansionista inaceitável de Putin. Os europeus seguiram com um eco fraco, obediente.

Foi tudo planejado em Ialta
Em setembro de 2013, um dos mais ricos oligarcas ucranianos, Victor Pinchuk, pagou por uma conferência estratégica de elite sobre o futuro da Ucrânia que aconteceu no mesmo palácio em Ialta, na Crimeia, onde [Franklin] Roosevelt [então presidente dos EUA], [Joseph] Stalin [então primeiro-ministro da União Soviética] e [Winston] Churchill [então primeiro-ministro do Reino Unido] se encontraram para decidir o futuro da Europa em 1945. A The Economist, um dos meios de comunicação de elite cobrindo o que eles chamaram de “uma amostra de democracia feroz”, publicou que: “O futuro da Ucrânia, um país de 48 milhões de pessoas, e o da Europa estava sendo decidido em tempo real”. Entre os participantes estavam [o ex-presidente dos EUA] Bill Clinton e Hillary [Clinton ex-secretária de Estado dos EUA], o [ex-]diretor da CIA, general David Petraeus, o ex-secretário do Tesouro [dos EUA] Lawrence Summers, o ex-presidente do Banco Mundial Robert Zoellick, o ministro do Exterior sueco Carl Bildt, [o presidente de Israel] Shimon Peres, [o ex-primeiro-ministro do Reino Unido] Tony Blair, [o ex-chanceler da Alemanha] Gerhard Schröder, [o ex-diretor-geral do Fundo Monetário Internacional] Dominique Strauss-Kahn, [o ex-primeiro-ministro italiano] Mario Monti, o presidente da Lituânia Dalia Grybauskaitè, e o influente ministro do Exterior da Polônia Radek Sikorski. Tanto o presidente Viktor Yanukovich, deposto cinco meses depois, e seu sucessor eleito recentemente Petro Poroshenko estavam presentes. O ex-secretário de Energia Bill Richardson estava lá para falar sobre a revolução do gás de xisto que os Estados Unidos esperavam usar para enfraquecer a Rússia ao substituir o “fracking” pelas reservas de gás natural da Rússia. O centro da discussão era o “Acordo Global e Aprofundado de Livre-Comércio” (DCFTA, por sua sigla em ingês) entre a Ucrânia e a União Europeia, e a possibilidade da integração da Ucrânia ao Ocidente. O tom geral era de euforia sobre a possibilidade de romper os laços da Ucrânia com a Rússia em favor do Ocidente.

Conspiração contra Rússia? Claro que não. Ao contrário de Bilderberg, os procedimentos não foram secretos. Encarando uma dúzia ou mais de VIPs americanos e uma grande amostra da elite política europeia estava um conselheiro de Putin chamado Sergei Glazyev, que deixou bem clara a posição da Rússia.

Glazyev injetou uma dose de realismo político e econômico na conferência. A Forbes publicou à época a “diferença gritante” entre os pontos de vista russo e ocidental, “não apenas sobre a conveniência da integração da Ucrânia à União Europeia, mas sobre seu provável impacto”. Ao contrário da euforia europeia, a visão russa era baseada em “críticas muito específicas e pontuais” sobre o impacto do Acordo de Comércio na economia da Ucrânia, notando que a Ucrânia tinha uma enorme dívida externa, financiada com empréstimos do exterior, e o que o aumento substancial na importação de bens ocidentais poderia apenas dilatar o déficit. A Ucrânia iria “declarar moratória das suas dívidas ou requereria um resgate considerável.”

O repórter da Forbes concluiu que “a posição dos russos é mais próxima da realidade que as conversas alegres vindas de Bruxelas e Kiev.”

Em relação ao impacto político, Glazyev destacou que a minoria de pessoas de idioma russo na Ucrânia oriental poderia chegar a dividir o país em protestos contra o rompimento dos laços com a Rússia, e que a Rússia teria legalmente o direito de apoiá-los, de acordo com o The Times de Londres.

Resumidamente, enquanto planejavam incorporar a Ucrânia à esfera ocidental, os líderes ocidentais estavam perfeitamente cientes de que esse movimento ocasionaria sérios problemas com os ucranianos que falavam russo, e com a própria Rússia. Em vez de buscar um acordo, os líderes ocidentais decidiram ir em frente e culpar a Rússia por qualquer coisa que saísse mal. O que saiu mal em primeiro lugar foi Yanukovich, que deu pra trás quando encarou o colapso econômico implícito no Acordo de Comércio com a União Europeia. Ele adiou a assinatura, esperando por um melhor negócio. Já que nada disso foi explicado claramente para o público ucraniano, seguiram-se protestos ultrajados, que foram rapidamente explorados pelos Estados Unidos... contra a Rússia.

A Ucrânia como uma ponte…ou um calcanhar de Aquiles
A Ucrânia, um termo que quer dizer “fronteira”, é um país que não tem fronteiras históricas; que se alongou demais para o Oriente e demais para o Ocidente. A União Soviética foi responsável por isso, mas a União Soviética não existe mais, e o resultado é um país sem uma identidade unificada e que emerge como um problema para si mesmo e para seus vizinhos.

Foi estendido demais para o Oriente, incorporando um território que poderia na verdade ser russo, como parte de uma política geral para distinguir a União Soviética do Império Czarista, alargando a Ucrânia às custas de seu componente russo e demonstrando que a União Soviética era realmente uma união entre repúblicas socialistas. Desde que a União Soviética fosse governada por uma liderança comunista, essas fronteiras não importavam muito.

Foi estendida longe demais para o Ocidente no final da Segunda Guerra Mundial. A vitoriosa União Europeia estendeu a fronteira ucraniana para incluir regiões ocidentais, dominadas pela cidade denominada variavelmente como Lviv, Lwow, Lemberg ou Lvov, dependendo de ela pertencer à Lituânia, à Polônia, ao Império Habsburgo ou à União Soviética, uma área que se tornou um antro de sentimentos anti-Rússia. Isso era sem dúvida exprimido como um movimento de defesa, para neutralizar elementos hostis, mas criou a fundamentalmente dividida nação que hoje constitui as águas conturbadas perfeitas para uma pesca hostil.

A reportagem da Forbes citada acima destacou que: “Nos últimos cinco anos, a Ucrânia esteve basicamente jogando um jogo duplo, falando para a União Europeia que estava interessada em assinar a DCFTA enquanto dizia para os russos que estava interessada em entrar para a união aduaneira”. Ou Yanukovich estava tentando se decidir, ou estava tentando conseguir o melhor negócio dos dois lados, ou estava procurando a maior aposta. De qualquer forma, ele nunca foi “o homem de Moscou”, e sua queda deve muito, certamente, ao seu próprio papel em puxar as duas extremidades para o meio. O jogo dele era perigoso ao colocar poderes maiores um contra o outro.

Pode-se dizer com segurança que o que faltava era algo que até agora parece estar totalmente em falta na Ucrânia: uma liderança que reconhecesse a natureza dividida do país e que trabalhasse diplomaticamente para tentar encontrar uma solução que satisfizesse tanto as populações locais e seus laços históricos com o Ocidente católico e com a Rússia. Em resumo, a Ucrânia poderia ser uma ponte entre o Ocidente e o Oriente — e isso, incidentalmente, foi precisamente a posição da Rússia. A posição da Rússia não foi a de dividir a Ucrânia, muito menos de conquistá-la, mas de facilitar o papel do país como ponte. Isso envolveria um tanto de federalismo, do governo local, que até agora está em falta no país, com o os governadores locais selecionados não por eleição, mas pelo governo central em Kiev. Uma Ucrânia federal poderia tanto desenvolver relações com os Estados Unidos, como manter uma vital (e lucrativa) relação econômica com a Rússia.

Mas essa disposição requer a prontidão ocidental para cooperar com a Rússia. Os Estados Unidos nitidamente vetaram essa possibilidade, preferindo explorar a crise para estigmatizar a Rússia, “o inimigo”.
Plano A e Plano B
A política norte-americana, já evidente na reunião da Ialta de setembro de 2013, foi implementada em terra firme por Victoria Nuland, ex-conselheira do embaixador adjunto da OTAN Dick Cheney, porta-voz de Hillary Clinton e esposa do neoconservador teórico Robert Kagan. O papel de influência dela nos eventos da Ucrânia prova que a influência neoconservadora no Departamento de Estado, estabelecida durante o governo de Bush II, foi mantida por Obama, cuja única contribuição visível para a mudança da política externa foi a presença de um homem descendente de africanos na presidência, calculada para impressionar o mundo com a virtude multicultural dos Estados Unidos. Como muitos dos presidentes recentes, Obama está lá como um vendedor temporário das políticas feitas e executadas por outros.

Conforme Victoria Nuland se vangloriou em Washington, desde a dissolução da União Soviética em 1991, os Estados Unidos gastaram 5 bilhões de dólares para ganhar influência política na Ucrânia (isso é o que se chama “promover a democracia”). Esse investimento não é “pelo petróleo”, ou por qualquer vantagem econômica imediata. Os motivos principais são geopolíticos, porque a Ucrânia é o calcanhar de Aquiles da Rússia, o território com o maior potencial para causar problemas para a Rússia.

O que chamou publicamente a atenção para o papel de Victoria Nuland na crise ucraniana foi o uso de uma palavra feia por ela, quando ela disse ao embaixador norte-americano, “Foda-se a União Europeia”. Mas o barulho sobre o seu palavrão encobriu suas más intenções. A questão era quem deveria tirar o poder do presidente eleito Viktor Yanukovich. O partido da chanceler alemã Angela Merkel esteve promovendo o ex-boxeador Vitali Klitschko como seu candidato. A rejeição rude de Nuland significou que os Estados Unidos, não a Alemanha ou a União Europeia, deveriam escolher o próximo líder, e que não era Klitschko, mas “Yats”. E realmente era Yats, Arseniy Yatsenyuk, um tecnocrata de segunda linha patrocinado pelos Estados Unidos e conhecido por seu entusiasmo pelas políticas de austeridade do FMI e pela carteirinha de membro da OTAN, quem foi contratado. Isso colocou um governo patrocinado pelos Estados Unidos, reforçado nas ruas pela milícia fascista, com pouca representação eleitoral mas muita maldade armada, em uma posição de administrar as eleições de 25 de maio, das quais o Oriente russófono foi largamente excluído.

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Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama fez constantes intervenções e ameaças de sanções no conflito Rússia-Ucrânia
O Plano A para o golpe de Victoria Nuland era provavelmente instalar, rapidamente, um governo em Kiev que unisse a OTAN, assim formalmente dando a deixa para que os Estados Unidos tomassem posse da indispensável base naval da Rússia no Mar Negro em Sebastopol, na Crimeia. Reincorporar a Crimeia à Rússia era sua defesa necessária para evitar que isso acontecesse.

Mas a jogada de Nulan foi de fato uma vitória tática. Se a Rússia falhasse em se defender, arriscaria perder sua inteira frota meridional — um desastre nacional completo. Por outro lado, se a Rússia reagisse, como era mais provável, os Estados Unidos então teriam ganho uma vitória política que era talvez seu principal objetivo. A jogada totalmente defensiva de Putin é retratada pelos meios de comunicação ocidentais, fazendo eco aos líderes políticos, como um “expansionismo russo” não provocado, que a máquina da propaganda compara a Hitler tomando a Checoslováquia e a Polônia.

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Dessa forma, uma ruidosa provocação ocidental, usando a confusão política da Ucrânia contra uma fundamentalmente defensiva Rússia, conseguiu impressionantemente produzir uma mudança total no Zeitgeist artificial produzido pelos meios de comunicação de massa ocidentais. De repente, nos dizem que o “Ocidente amador da liberdade” está frente a frente com a ameaça do “expansionismo agressivo russo”. Uns quarenta anos atrás, os líderes soviéticos entregaram os pontos sob a ilusão de que a renúncia pacífica à sua parte poderia levar a uma parceria amigável com o Ocidente, e especialmente com os Estados Unidos. Mas aqueles que nunca quiseram que a Guerra Fria terminasse estão tendo a sua vingança. Não importa o “comunismo”; se, em vez de advogar a ditadura do proletariado, o líder atual da Rússia é simplesmente antiquado de certa forma, a mídia ocidental consegue fabricar um monstro a partir disso. Os Estados Unidos têm um inimigo de quem salvar o mundo.

A volta da rede de proteção
Mas, antes de mais nada, os Estados Unidos precisam da Rússia como inimiga para poder “salvar a Europa”, o que é outra forma de dizer, “para poder continuar a dominar a Europa”. Os donos das políticas de Washington pareciam estar preocupados com a possibilidade de a inclinação de Obama em direção à Ásia e o descaso com a Europa poderem enfraquecer o controle dos EUA sobre seus aliados na OTAN. As eleições parlamentares europeias de 25 de maio revelaram uma grande medida de insatisfação com a União Europeia. Essa insatisfação, notadamente na França, está ligada à crescente percepção de que a União Europeia, longe de ser uma alternativa potencial aos Estados Unidos, é, na verdade, um mecanismo que prende os países europeus à globalização nos termos dos EUA, e ao declínio econômico e às políticas externas, guerras e etc. dos EUA.

A Ucrânia não é a única entidade que foi se alargou demais. Também aconteceu com a União Europeia. Com 28 membros de línguas, culturas, história e mentalidade distintas, a União Europeia é incapaz entrar em acordo sobre qualquer política externa além da que é imposta por Washignton. A extensão da União Europeia para antigos satélites da Europa oriental quebrou totalmente qualquer consenso mais profundo que poderia ser possível entre os países da comunidade econômica original: França, Alemanha, Itália e os países Benelux [Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo]. A Polônia e os Países Bálticos veem a associação à União Europeia como útil, mas seu coração está na América — onde muitos dos seus mais influentes líderes foram educados e treinados. Washington é capaz de explorar a nostalgia anticomunista, russofóbica e até pró-nazista do nordeste da Europa para levantar o falso grito de “os russos estão chegando!” e obstruir a crescente parceria econômica entre a antiga União Europeia, notadamente a Alemanha, e a Rússia.

A Rússia não é uma ameaça. Mas para os ruidosos russofóbicos nos Países Bálticos, na Ucrânia ocidental e na Polônia, a própria existência da Rússia é uma ameaça. Encorajada pelos Estados Unidos e pela OTAN, essa hostilidade endêmica é a base política para a nova “cortina de ferro” pensada para alcançar o objetivo decifrado em 1997 por Zbigniew Brzezinski em The Grand Chessboard [O Grande Tabuleiro de Xadrez, em tradução livre]: manter o continente eurasiano dividido para perpetuar a hegemonia mundial dos Estados Unidos.

A antiga Guerra Fria serviu a esse propósito, cimentando a presença militar norte-americana e sua influência política na Europa ocidental. Uma nova Guerra Fria pode impedir que a influência dos Estados Unidas seja diluída pelas boas relações entre a Europa ocidental e a Rússia.

Obama veio à Europa prometendo ostensivamente “proteger” a Europa ao colocar mais tropas em regiões o mais perto possível da Rússia, enquanto ao mesmo tempo ordenava que a Rússia retirasse suas próprias tropas, de seu próprio território, ainda longe da conturbada Ucrânia. Isso parece arquitetado para humilhar Putin e tirar dele seu apoio político em casa, em um momento no qual os protestos estão aumentando na Ucrânia oriental contra o líder russo por abandoná-la a mercê dos matadores vindos de Kiev.

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Jovem iça bandeira da autoproclamada "República Popular de Donetsk" em Mariupol; região poderá formar novo Estado: "Nova Rússia"
Para apertar o cerco dos EUA na Europa, os Estados Unidos estão usando uma crise artificial para exigir que seus aliados devedores gastem mais com “defesa”, notadamente comprando os sistemas de armas dos Estados Unidos. Apesar de os Estados Unidos estarem ainda longe de prover as necessidades energéticas da Europa pelo novo boom do fracking, essa possibilidade está sendo considerada um substituto às vendas de gás natural da Rússia — estigmatizadas como uma “maneira de exercer pressão política”, algo do qual uma venda hipotética de energia dos EUA é presumidamente inocente. A Bulgária e até a Sérvia estão sendo pressionadas para bloquear a construção do gasoduto que levaria o gás russo aos Balcãs e ao sul da Europa. 

Do dia D ao Dia do Juízo Final
Hoje, dia 6 de junho, o septuagésimo aniversário do desembarque do Dia D está sendo encenado na Normandia como uma celebração gigante da dominação norte-americana, com Obama à frente de um elenco estelar de líderes europeus. Os últimos velhos soldados sobreviventes e aviadores presentes são como fantasmas de uma era mais inocente na qual os Estados Unidos estavam ainda no começo dessa nova carreira de mestre do mundo. Eles são reais, mas o resto é uma farsa. A televisão francesa está inundada com as lágrimas dos jovens aldeões da Normadia de puro amor pela França. Essa imagem idealizada do passado é implicitamente projetada no futuro. Em setenta anos, a Guerra Fria, uma narrativa dominante de propaganda, e acima de tudo Hollywood, convenceram os franceses, e a maior parte do Ocidente, que o Dia D foi o momento de virada que ganhou a Segunda Guerra Mundial e salvou a Europa da Alemanha nazista.

Vladimir Putin veio para a celebração e foi cuidadosamente evitado por Obama, autonomeado árbitro da Virtude. Os russos estão prestando tributo à operação do dia D que libertou a França da ocupação nazista, mas eles — e os historiadores — sabem o que a maior parte do Ocidente esqueceu: que o Wehrmarcht [conjunto das forças armadas alemãs durante do Terceiro Reich] foi decisivamente vencido não pela aterrisagem na Normandia, mas pelo Exército Vermelho. Se o grosso das forças alemãs não tivesse sido encurralado lutando uma guerra perdida no fronte oriental, ninguém celebraria do Dia D como está sendo celebrado hoje.

Putin está sendo largamente creditado como sendo o “melhor jogador de xadrez”, que ganhou a primeira rodada da crise ucraniana. Ele sem dúvida fez o melhor que pôde, enfrentando a crise que lhe foi imposta. Mas os Estados Unidos têm inteiras fileiras de peões que Putin não tem. E isso não é apenas um jogo de xadrez, mas xadrez combinado com pôquer, por sua vez combinado com roleta russa. Os Estados Unidos estão preparados para assumir riscos que os líderes mais prudentes russos preferem evitar... enquanto é possível.

Talvez o aspecto mais extraordinário da farsa atual é a subserviência dos “velhos” europeus. Aparentemente abandonando toda a sabedoria acumulada da Europa, advinda de suas guerras e tragédias, e até abstraindo seus próprios interesses, os líderes europeus atuais parecem prontos a seguir seus protetores norte-americanos para outro Dia D... D de Desgraça.

A presença de um líder russo que busca a paz pode fazer a diferença na Normandia? Bastaria que os meios de comunicação de massa dissessem a verdade e que a Europa produzisse líderes sábios e corajosos, para que a máquina falsa de guerra perdesse seu brilho, e para que a verdade começasse a emergir. Uma Europa pacífica é ainda possível, mas por quanto tempo?

(*) Diana Johnstone é autora de Fools’ Crusade: Yugoslavia, NATO, and Western Delusions [Cruzada dos Tolos: a Iugoslávia, a OTAN e as Desilusões Ocidentais, em tradução livre]. Ela pode ser encontrada pelo e-mail diana.johnstone@wanadoo.fr
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Fonte:http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/35662/+a+cortina+de+ferro+de+washington+na+ucrania.shtml