sexta-feira, 9 de maio de 2014

Cotas para negros: por que mudei de opinião. Juiz federal, mestre em Direito e ferrenho opositor das cotas explica as razões que o fizeram mudar de ideia

09.05.2014
Do blog PRAGMATISMO POLÍTICO, 12.11.13

william douglas cotas raciais

William Douglas, juiz federal (RJ), mestre em Direito (UGF), especialista em Políticas Públicas e Governo (EPPG/UFRJ), professor e escritor, caucasiano e de olhos azuis
Roberto Lyra, Promotor de Justiça, um dos autores do Código Penal de 1940, ao lado de Alcântara Machado e Nelson Hungria, recomendava aos colegas de Ministério Público que “antes de se pedir a prisão de alguém deveria se passar um dia na cadeia”. Gênio, visionário e à frente de seu tempo, Lyra informava que apenas a experiência viva permite compreender bem uma situação.
 
Quem procurar meus artigos, verá que no início era contra as cotas para negros, defendendo – com boas razões, eu creio – que seria mais razoável e menos complicado reservá-las apenas para os oriundos de escolas públicas. Escrevo hoje para dizer que não penso mais assim. As cotas para negros também devem existir. E digo mais: a urgência de sua consolidação e aperfeiçoamento é extraordinária.

Embora juiz federal, não me valerei de argumentos jurídicos. A Constituição da República é pródiga em planos de igualdade, de correção de injustiças, de construção de uma sociedade mais justa. Quem quiser, nela encontrará todos os fundamentos que precisa. A Constituição de 1988 pode ser usada como se queira, mas me parece evidente que a sua intenção é, de fato, tornar esse país melhor e mais decente. Desde sempre as leis reservaram privilégios para os abastados, não sendo de se exasperarem as classes dominantes se, umas poucas vezes ao menos, sesmarias, capitanias hereditárias, cartórios e financiamentos se dirigirem aos mais necessitados.
 
 
 
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Não me valerei de argumentos técnicos nem jurídicos dado que ambos os lados os têm em boa monta, e o valor pessoal e a competência dos contendores desse assunto comprovam que há gente de bem, capaz, bem intencionada, honesta e com bons fundamentos dos dois lados da cerca: os que querem as cotas para negros, e os que a rejeitam, todos com bons argumentos.
 
Por isso, em texto simples, quero deixar clara minha posição como homem, cristão, cidadão, juiz, professor, “guru dos concursos” e qualquer outro adjetivo a que me proponha: as cotas para negros devem ser mantidas e aperfeiçoadas. E meu melhor argumento para isso é o aquele que me convenceu a trocar de lado: “passar um dia na cadeia”. Professor de técnicas de estudo, há nove anos venho fazendo palestras gratuitas sobre como passar no vestibular para a EDUCAFRO, pré-vestibular para negros e carentes.
 
Mesmo sendo, por ideologia, contra um pré-vestibular “para negros”, aceitei convite para aulas como voluntário naquela ONG por entender que isso seria uma contribuição que poderia ajudar, ou seja, aulas, doação de livros, incentivo. Sempre foi complicado chegar lá e dizer minha antiga opinião contra cotas para negros, mas fazia minha parte com as aulas e livros. E nessa convivência fui descobrindo que se ser pobre é um problema, ser pobre e negro é um problema maior ainda.
 
Meu pai foi lavrador até seus 19 anos, minha mãe operária de “chão de fábrica”, fui pobre quando menino, remediado quando adolescente. Nada foi fácil, e não cheguei a juiz federal, a 350.000 livros vendidos e a fazer palestras para mais de 750.000 pessoas por um caminho curto, nem fácil. Sei o que é não ter dinheiro, nem portas, nem espaço. Mas tive heróis que me abriram a picada nesse matagal onde passei. E conheço outros heróis, negros, que chegaram longe, como Benedito Gonçalves, Ministro do STJ, Angelina Siqueira, juíza federal. Conheço vários heróis, negros, do Supremo à portaria de meu prédio.
 
Apenas não acho que temos que exigir heroísmo de cada menino pobre e negro desse país. Minha filha, loura e de olhos claros, estuda há três anos num colégio onde não há um aluno negro sequer, onde há brinquedos, professores bem remunerados, aulas de tudo; sua similar negra, filha de minha empregada, e com a mesma idade, entrou na escola esse ano, escola sem professores, sem carteiras, com banheiro quebrado. Minha filha tem psicóloga para ajudar a lidar com a separação dos pais, foi à Disney, tem aulas de Ballet.
 
A outra, nada, tem um quintal de barro, viagens mais curtas. A filha da empregada, que ajudo quanto posso, visitou minha casa e saiu com o sonho de ter seu próprio quarto, coisa que lhe passou na cabeça quando viu o quarto de minha filha, lindo, decorado, com armário inundado de roupas de princesa. Toda menina é uma princesa, mas há poucas das princesas negras com vestidos compatíveis, e armários, e escolas compatíveis, nesse país imenso. A princesa negra disse para sua mãe que iria orar para Deus pedindo um quarto só para ela, e eu me incomodei por lembrar que Deus ainda insiste em que usemos nossas mãos humanas para fazer Sua Justiça. Sei que Deus espera que eu, seu filho, ajude nesse assunto. E se não cresse em Deus como creio, saberia que com ou sem um ser divino nessa história, esse assunto não está bem resolvido. O assunto demanda de todos nós uma posição consistente, uma que não se prenda apenas à teorias e comece a resolver logo os fatos do cotidiano: faltam quartos e escolas boas para as princesas negras, e também para os príncipes dessa cor de pele.
 
Não que tenha nada contra o bem estar da minha menina: os avós e os pais dela deram (e dão) muito duro para ela ter isso. Apenas não acho justo nem honesto que lá na frente, daqui a uma década de desigualdade, ambas sejam exigidas da mesma forma. Eu direi para minha filha que a sua similar mais pobre deve ter alguma contrapartida para entrar na faculdade. Não seria igualdade nem honesto tratar as duas da mesma forma só ao completarem quinze anos, mas sim uma desmesurada e cruel maldade, para não escolher palavras mais adequadas.
 
Não se diga que possamos deixar isso para ser resolvido só no ensino fundamental e médio. É quase como não fazer nada e dizer que tudo se resolverá um dia, aos poucos. Já estamos com duzentos anos de espera por dias mais igualitários. Os pobres sempre foram tratados à margem. O caso é urgente: vamos enfrentar o problema no ensino fundamental, médio, cotas, universidade, distribuição de renda, tributação mais justa e assim por diante. Não podemos adiar nada, nem aguardar nem um pouco.
 
Foi vendo meninos e meninas negros, e negros e pobres, tentando uma chance, sofrendo, brilhando nos olhos uma esperança incômoda diante de tantas agruras, que fui mudando minha opinião. Não foram argumentos jurídicos, embora eu os conheça, foi passar não um, mas vários “dias na cadeia”. Na cadeia deles, os pobres, lugar de onde vieram meus pais, de um lugar que experimentei um pouco só quando mais moço. De onde eles vêm, as cotas fazem todo sentido.
 
Se alguém discorda das cotas, me perdoe, mas não devem faze-lo olhando os livros e teses, ou seus temores. Livros, teses, doutrinas e leis servem a qualquer coisa, até ao nazismo. Temores apenas toldam a visão serena. Para quem é contra, com respeito, recomendo um dia “na cadeia”. Um dia de palestra para quatro mil pobres, brancos e negros, onde se vê a esperança tomar forma e precisar de ajuda. Convido todos que são contra as cotas a passar conosco, brancos e negros, uma tarde num cursinho pré-vestibular para quem não tem pão, passagem, escola, psicólogo, cursinho de inglês, ballet, nem coisa parecida, inclusive professores de todas as matérias no ensino médio.
 
Se você é contra as cotas para negros, eu o respeito. Aliás, também fui contra por muito tempo. Mas peço uma reflexão nessa semana: na escola, no bairro, no restaurante, nos lugares que freqüenta, repare quantos negros existem ao seu lado, em condições de igualdade (não vale porteiro, motorista, servente ou coisa parecida). Se há poucos negros ao seu redor, me perdoe, mas você precisa “passar um dia na cadeia” antes de firmar uma posição coerente não com as teorias (elas servem pra tudo), mas com a realidade desse país. Com nossa realidade urgente. Nada me convenceu, amigos, senão a realidade, senão os meninos e meninas querendo estudar ao invés de qualquer outra coisa, querendo vencer, querendo uma chance.
 
Ah, sim, “os negros vão atrapalhar a universidade, baixar seu nível”, conheço esse argumento e ele sempre me preocupou, confesso. Mas os cotistas já mostraram que sua média de notas é maior, e menor a média de faltas do que as de quem nunca precisou das cotas. Curiosamente, negros ricos e não cotistas faltam mais às aulas do que negros pobres que precisaram das cotas. A explicação é simples: apesar de tudo a menos por tanto tempo, e talvez por isso, eles se agarram com tanta fé e garra ao pouco que lhe dão, que suas notas são melhores do que a média de quem não teve tanta dificuldade para pavimentar seu chão. Somos todos humanos, e todos frágeis e toscos: apenas precisamos dar chance para todos.
 
Precisamos confirmar as cotas para negros e para os oriundos da escola pública.
 
 
Temos que podemos considerar não apenas os deficientes físicos (o que todo mundo aceita), mas também os econômicos, e dar a eles uma oportunidade de igualdade, uma contrapartida para caminharem com seus co-irmãos de raça (humana) e seus concidadãos, de um país que se quer solidário, igualitário, plural e democrático. Não podemos ter tanta paciência para resolver a discriminação racial que existe na prática: vamos dar saltos ao invés de rastejar em direção a políticas afirmativas de uma nova realidade.
 
Se você não concorda, respeito, mas só se você passar um dia conosco “na cadeia”. Vendo e sentindo o que você verá e sentirá naquele meio, ou você sairá concordando conosco, ou ao menos sem tanta convicção contra o que estamos querendo: igualdade de oportunidades, ou ao menos uma chance. Não para minha filha, ou a sua, elas não precisarão ser heroínas e nós já conseguimos para elas uma estrada. Queremos um caminho para passar quem não está tendo chance alguma, ao menos chance honesta. Daqui a alguns poucos anos, se vierem as cotas, a realidade será outra. Uma melhor. E queremos você conosco nessa história.
 
Não creio que esse mundo seja seguro para minha filha, que tem tudo, se ele não for ao menos um pouco mais justo para com os filhos dos outros, que talvez não tenham tido minha sorte. Talvez seus filhos tenham tudo, mas tudo não basta se os filhos dos outros não tiverem alguma coisa. Seja como for, por ideal, egoísmo (de proteger o mundo onde vão morar nossos filhos), ou por passar alguns dias por ano “na cadeia” com meninos pobres, negros, amarelos, pardos, brancos, é que aposto meus olhos azuis dizendo que precisamos das cotas, agora.
 
E, claro, financiar os meninos pobres, negros, pardos, amarelos e brancos, para que estudem e pelo conhecimento mudem sua história, e a do nosso país comum pois, afinal de contas, moraremos todos naquilo que estamos construindo.
 
Então, como diria Roberto Lyra, em uma de suas falas, “O sol nascerá para todos. Todos dirão – nós – e não – eu. E amarão ao próximo por amor próprio. Cada um repetirá: possuo o que dei. Curvemo-nos ante a aurora da verdade dita pela beleza, da justiça expressa pelo amor.”
 
Justiça expressa pelo amor e pela experiência, não pelas teses. As cotas são justas, honestas, solidárias, necessárias. E, mais que tudo, urgentes. Ou fique a favor, ou pelo menos visite a cadeia.
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Fonte:http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/11/por-que-tornei-favor-das-cotas-para-negros.html

Uma inocente morreu, satisfeita Sheherazade?

09.05.2014
Do portal BRASIL247, 06.05.14
Por MARCUS VINÍCIUS
 
Ministro Paulo Bernardo, não espere que outra vítima seja imolada pelos algozes do pensamento único. Ministro José Cardozo, assuma suas obrigações. Não deixem o Brasil sucumbir à insânia dos barões da imprensa
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Fonte:http://www.brasil247.com/pt/247/artigos/138927/Uma-inocente-morreu-satisfeita-Sheherazade.htm

Racismo na USP: estudante negra é impedida de entrar na universidade

09.05.2014
Do blog PRAGMATISMO POLÍTICO, 08.05.14
 
Aluna negra foi barrada mesmo apresentando a carteirinha da faculdade, enquanto estudantes brancos ingressavam no campus sem qualquer problema
 
racismo usp aluna negra
Fachada da Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP-USP)
 
Mônica Gonçalves, aluna da Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP-USP), foi impedida de entrar no prédio da Faculdade de Medicina (FMUSP). De acordo com seu depoimento no Blogueiras Negras, os guardas da universidade deixavam pessoas brancas entrar, mas ela, que é negra, foi barrada. Mesmo apresentando a carteirinha da faculdade, Mônica não pôde entrar sob a justificativa de que não era estudante da Medicina.
 
“Aleguei que outras pessoas estavam entrando, que estava me comunicando com colegas que disseram estar lá”, contou Mônica. “Pedi que chamassem alguém que pudesse mediar aquela discussão”. “Outro guarda, que se identificou como responsável por intervir nessas situações, veio ao nosso encontro. Nesse momento, um homem – branco – entrou sem que nenhuma identificação lhe fosse solicitada”, relatou a estudante. Por fim, a aluna conseguiu entrar no prédio sendo escoltada por seguranças.
 
Em nota, o Centro Acadêmico dos cursos de Nutrição e Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP) Emilio Ribas (CAER) se manifestou sobre o caso. A entidade repudiou a “ação racista do corpo de segurança da FMUSP” e ainda classificou como racismo institucionalizado.
 
O CAER ainda comparou: “Foi com o argumento de estar cumprindo ordens que a segurança da FMUSP barrou a companheira Monica na entrada, justamente o mesmo argumento de que se utiliza a Polícia Militar para se justificar quando assassina jovens pretos nas periferias de todo o país”.
 
O Centro Acadêmico também relembrou outros casos de racismo na USP. “Entre os diversos casos de racismo na USP este ano tivemos os ocorridos em 13/03, do professor André Martin, chefe do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Letras, que disse que ‘Se o Exército brasileiro não estiver lá (no Haiti), quem vai pôr ordem na macacada?’. E o de 08/04, onde no campus Ribeirão um jovem preto estudante de Direito foi ameaçado com uma arma de fogo e insultado por um policial civil dentro do campus Ribeirão”.

Atualização de conteúdo

O Centro Acadêmico dos cursos de Nutrição e Saúde Pública (CAER) citou o episódio do professor André Martin, do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Letras, como um dos incidentes recentes envolvendo questões raciais na USP. Dezenas de leitores enviaram mensagens a Pragmatismo Político relatando que o caso não passara de um mal entendido e que havia, inclusive, uma carta aberta do supracitado docente publicada a respeito da polêmica.
 
Não ouvimos ambos os lados e reconhecemos o erro. Publicamos a carta na íntegra a seguir e nos retratamos:
 
CARTA ABERTA AOS ESTUDANTES DO DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA DA FFLCH-USP
 
Queridos alunos,
 
Negros, brancos e de todas as cores
 
Estupefato diante da repercussão causada a partir de um pequeno incidente em sala de aula, ocorrido na turma da noite da disciplina Regionalização do Espaço Mundial, na última terça-feira, vejo-me consternado, na obrigação de esclarecer a todos o que realmente aconteceu. E vamos direto aos fatos.
 
Eu nunca disse a frase que está circulando por aí nas redes sociais. E veja, estão me acusando não apenas de haver pronunciado uma suposta frase racista, mas pessoas que não me conhecem, estão escrevendo que eu sempre fui racista. É estarrecedor. A frase literal que pronunciei foi a seguinte: “E se as tropas brasileiras não estivessem no Haiti? Eles iriam se pegar e aí o imperialismo norteamericano diria: “nós temos que intervir para por ordem nessa macacada”. Que tirem os leitores, suas próprias conclusões. Poderia um estudante liberal me acusar de marxista ultrapassado, mas me chamarem de racista? É insano. Não sei com que interesses políticos estão tentando criar um factóide, se aproveitando do fato de que, por ora, ocupo o cargo de Chefe do Departamento de Geografia. Menciono este aspecto porque não foi casual ressaltarem esta condição, que para mim é passageira, mas que para se criar uma imagem desfavorável a meu respeito, e atingir por extensão toda a USP, vem bem a calhar. Ora, colocada a questão nos termos dos meus detratores eu começo perdendo de goleada: de um lado um aluno negro, pobre e indefeso. De outro o poderoso homem branco, professor e ainda por cima, Chefe. Quem vai ficar do meu lado, ainda mais que o meio utilizado para me difamar são as redes sociais, que eu não freqüento? Só que eles se esqueceram de uma coisa: eu ainda não entrei em campo, não comecei a jogar, não fui ouvido.
 
Quem está portanto na condição de vítima de calúnia, difamação e preconceito sou eu, aliás de quatro preconceitos bem caracterizados, a saber:
 
1-) Se saiu no facebook, então é verdade, aconteceu mesmo. Ora, quem está replicando o que leu, acha que a realidade está na rede e não na sala de aula. Por que não procurar os alunos que assistiram a aula para apurar a verdade? É lamentável como esta ferramenta vem sendo utilizada para aniquilar o debate público de idéias. A discussão nunca é publica, e nunca se dá em torno de idéias. É bem mais fácil, e divertido talvez, neste multiplicador de fofocas eletrônico, esculhambar a pessoa.escolhida como oponente.
 
2-) O aluno tem sempre razão. Este é outro mantra típico da pedagogia pós-moderna dominante. Sempre fui extremamente aberto com meus alunos, tenho 38 anos de magistério e nunca me aconteceu nenhum incidente em sala de aula. Respeito a opinião de todos, mas procuro externar a minha, sem receio do patrulhismo ideógico do “políticamente correto”, que também está amplamente disseminado. Essa visão nasceu na escola privada como extensão da idéia de que “o freguês tem sempre razão”.
 
3-) Não existem negros racistas, ou em outra versão, todo branco, é, no fundo, racista. Esta já é uma posição mais perigosa, que alguns setores do movimento negro brasileiro infelizmente importaram, acríticamente, dos Estados Unidos. Ela se baseia na teoria do “Black Atlantic” onde as identidades não se dão pelo território, nacionalidade, ou classe social, mas sim pela raça, ou outra característica étnica. Desse modo mesmo que involuntáriamente, quem compartilha dessa visão termina reabilitando um conceito já amplamente desacreditado pela ciência, ao mesmo tempo em que não percebe estar fazendo o jogo do imperialismo, ao procurar dividir a nação brasileira entre brancos e negros, de forma análoga ao que estão tentando fazer na porta de entrada do Heartland, ao colocar ucranianos contra russos, mesmo que isto ponha em risco a paz mundial.
 
4-) Toda autoridade constituída é ilegítima e portanto tem de ser contestada. É a tal coisa do “Chefe”. Se a pessoa ocupa algum cargo, possui algum poder, então essa pessoa não deve ser lá flor que se cheire. Por princípio, deve ser autoritária, ou então corrupta, se não as duas coisas. Ora, eu estava na sala de aula na condição de professor, não de Chefe.Jamais utilizei meu cargo como argumento de autoridade, aliás, mesmo como professor nunca agí dessa maneira E vale registrar: levei a aula até o fim, normalmente. Apenas um aluno que se sentiu ofendido, retirou-se, e não vários, como se espalhou, mentirosamente. Uma pergunta inocente: se tivesse de fato proclamado uma sentença racista, será que não seria a classe toda, ou uma imensa maioria dela que se revoltaria contra mim, e não um pequeno grupo?
 
Para terminar quero dizer que não tenho nenhum problema em pedir desculpas pessoalmente, ao aluno que se sentiu ofendido, pois jamais tive qualquer intenção de fazê-lo
 
Espero honestamente que este episódio infeliz, sirva ao menos como pretexto para que coloquemos o debate acerca das sobrevivências do preconceito racial no Brasil, num novo patamar. Que tal organizarmos uma mesa-redonda sobre “Brasilidade, Africanidade e preconceito racial no Brasil?” Podem contar com o apoio do Chefe do Departamento de Geografia para tanto.
 
Respeitosamente
 
André Martin
 
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Fonte:racismo-na-usp-estudante-negra-e-impedida-de-entrar-na-universidade

Imprensa e high society: “Eu sou cara; gasto muito”.

09.05.2014
Do blog PALAVRA LIVRE, 07.05.14
Por Davis Sena Filho

As relações dos jornalistas empregados das grandes corporações midiáticas com o mundo empresarial e com os caciques políticos do campo conservador são antigas e muitas delas promíscuas. A verdade é que muitos jornalistas se transformam em porta-vozes de grandes negócios e, evidentemente, defendem e repercutem nas diferentes mídias os interesses e os pensamentos de seus patrões, que são os magnatas bilionários da imprensa de mercado.

Quando a madame Ticiana Villas Boas, apresentadora do Jornal da Band concede uma entrevista e começa a deitar falação sobre seu mundo farto e luxuoso, ela apenas reflete o que acontece com muitos profissionais de mídias que mantêm relações com homens poderosos os quais se tornam seus aliados de interesses, bem como muitos deles vão mais além quando, por exemplo, resolvem casar com uma jornalista, a exemplo de Ticiana.

A candidata a madame, ora deslumbrada, cometeu uma indiscrição e “infeliz” gafe, e com isso mostrou, irrefragavelmente, que grande parte dos jornalistas da imprensa-empresa são completamente divorciados do mundo real e alienados sobre as condições sociais do povo brasileiro, da luta política e das questões econômicas e financeiras que norteiam o Brasil, no que diz respeito a programas de Governo e projetos de País.

Porém, não há como ser de outra forma. Os jornalistas, como muitos juízes e médicos, somente para exemplificar, geralmente são filhos das classes dominantes, médias e médias altas. São pequenos burgueses e realmente não se preocupam em conhecer as realidades do País e muitos menos as dores e dilemas que incomodam e fazem seu povo sofrer. Pelo contrário, levam para seus ofícios todos seus preconceitos e valores aprendidos em seus lares, em casa e ensinados pelos seus pais e grupos sociais que integram desde suas infâncias.

São pessoas geralmente urbanas, que não conhecem o Brasil e foram criadas para acreditar que o País não presta, enquanto consideram algumas capitais europeias e norte-americanas como suas referências e as cortes a serem admiradas, como se eles vivessem ainda nos tempos do Brasil colônia e por isso não conseguem, de forma alguma, perceber que este País é o lar de uma Nação poderosa, multifacetada, multirracial e cultural, bem como dona de um PIB que a coloca em sétimo lugar no mundo, sendo que em um prazo de dez anos ou menos o Brasil vai ser a quinta potência econômica do planeta.

Contudo, todos esses fatores não importam para gente como a Ticiana Villas Boas. O complexo de vira-lata, o desprezo pelo Brasil e seu povo, aprendido e ensinado em seus lares, escolas, clubes, associações e grupos sociais diversificados, mas pertencentes à burguesia, os impedem de enxergar, de forma transparente e clara, as realidades brasileiras, além de se colocarem contra os interesses do Brasil e a favor das classes privilegiadas e dos países ditos desenvolvidos, que controlam o sistema capitalista em dimensão global.

Existem muitos jornalistas — homens e mulheres — que, tal qual à Ticiana, são membros integrantes  das oligarquias e como tais se comportam, só que de forma discreta. Engana-se aquele que pensa que os meios de comunicação privados estão a serviço da população e em defesa da coisa e da causa pública. Quem pensa assim não passa de um tolo, ou, obviamente, trata-se de uma pessoa que ideologicamente e politicamente conservadora e, por conseguinte, comunga com o que a imprensa de negócios privados pensa e quer para o País e a sociedade.

Entretanto, grande parcela do povo brasileiro não é cúmplice dos desejos dos magnatas bilionários de imprensa, da classe rica em geral e da direita partidária, e se recusa a apoiar o que os burgueses e os pequenos burgueses (classe média) consideram como prioridade para si e para os outros, quando um homem ou mulher do povo sabe que sua vida melhorou, e muito, nos últimos 12 anos, com a ascensão de governantes trabalhistas.

A verdade é que os jornalistas da chamada grande imprensa são mancomunados com os interesses patronais e por isso é praticamente impossível para essa categoria desunida e pseudamente intelectualizada realizar, por exemplo, um movimento grevista organizado, reivindicatório e voltado à defesa do ofício de jornalista, uma das profissões mais difíceis de exercer.

Ofício laboral de caráter tenso por causa dos baixos salários da grande maioria dos jornalistas, das más condições de trabalho, de chefes autoritários, do elitismo social dos que controlam as redações com mão de ferro e, principalmente, da cumplicidade dos que receberam espaço e por causa disso vendem suas almas àqueles que deveriam ser combatidos, a exemplo de seus patrões — os megaempresários oligarcas de mídias, que lutam, ferozmente e historicamente, contra o desenvolvimento do Brasil e a emancipação do povo brasileiro.

Chefetes vaidosos, ignorantes e intolerantes, que transformam as redações em sucursais do inferno para se darem bem na vida, sem se preocuparem com seus colegas e com o que determinam em reuniões de pauta, que se um leitor, ouvinte e telespectador tivesse a oportunidade de participar de uma delas sairia de tal  encontro de jornalistas com os olhos esbugalhados, os pelos arrepiados e os cabelos em pé, a sentir calafrios e a perceber que realmente a imprensa burguesa e alienígena é golpista e não tem o mínimo compromisso com o Brasil e seu povo.

Só os ingênuos ou os de má-fé acreditam integralmente no que a imprensa-empresa repercute. Somente os completamente alienados ou os que politicamente têm interesses inconfessáveis podem acreditar e ter fé em uma pessoa como a Ticiana Villas Boas, uma magnata que ocupa a bancada de um jornal de âmbito nacional sem saber o que acontece em volta de si, bem como no Brasil e no mundo sempre em conflito.

Alienação e deslumbramento que demonstram, à toda prova, que existem muitos jornalistas que não têm a mínima condição de dar pitaco ou fazer críticas açodadas, sem, no entanto, não ter conhecimento algum sobre os desejos e os anseios de uma sociedade, como a brasileira, que luta para ter uma vida de melhor qualidade, já que vítima e alvo de uma burguesia perversa, que escravizou seres humanos por quase 400 anos, além de negar-lhe o acesso à terra, ao emprego e à esperança de viver com respeito e dignidade.

E é essa imprensa mercantilista que faz a vez dos partidos políticos, com o apoio inequívoco de promotores, procuradores e juízes, aliados do campo político ocupado pela direita e atores importantes de um processo draconiano, que pune seus adversários e inimigos, mas não efetiva as mesmas medidas para muitos de seus aliados políticos e empresariais, que cometeram toda sorte de crimes, mas mesmo assim considerados cidadãos inimputáveis, porque “amigos” de uma imprensa corrupta, que tem lado e de um sistema judicial capataz e feitor da Casa Grande.

A madame Ticiana Villas Boas não é a única profissional de imprensa a girar pelos salões do high society. Existem muitos que desfilam nesses pagos ou que fingem e desejam ardentemente frequentá-los, como se isso fosse a coisa mais importante do mundo, quando a verdade é que não é.

Volto a repetir: a imensa maioria dos jornalistas ganha mal, vive em um ambiente ridiculamente vaidoso e cruelmente competitivo, é explorada com uma carga horária por demais longa, alimenta-se mal, sofre pressões inerentes ao ofício, bem como se torna muitas vezes alvo de bullying de chefetes mequetrefes e rastaqueras, que não têm a mínima noção de civilidade, porque, indubitavelmente, defendem seus espaços e seus interesses como cães esfomeados defendem seus ossos.

Ticiana é apenas mais uma. A moça nem sabe o que diz e se bobear não está nem aí para o jornalismo e o que pensam dela, pois dá a impressão que apenas ocupa espaço na Band por vaidade. Afinal, seu marido, Joesley Batista, é o dono da Friboi. A direita e seus órgãos de imprensa espalhavam boatos, calhordas e mentirosos, que tal empresa pertencia ao Lulinha, filho do ex-presidente trabalhista Luiz Inácio Lula da Silva.

E os coxinhas de classe média, reacionários, desinformados e ignorantes, ficavam a espalhar a “notícia” cafajeste nas redes sociais... Assim são as coisas. Nada como um dia após o outro. O marido da Ticiana, para quem não sabe, é ainda dono da Neutrox, Seara e dos sabonetes Francis, e seus produtos são objetos de publicidade na Rede Bandeirantes. Bingo!

Essas relações imprensa-empresários-políticos são muito comuns no meio jornalístico. Existem inúmeros jornalistas da considerada mídia tradicional (Folha, Estadão, O Globo, Zero Hora, Correio Braziliense, Veja, Época, Redes Globo, Band, SBT, CBN, Jovem Pan etc.) envolvidos até a medula com o projeto hegemônico dos grandes empresários, dos interesses de governos estrangeiros (EUA/UE) e seus patrões controladores de monopólios midiáticos e golpistas de carteirinha desde os tempos do estadista Getúlio Vargas.

A madame Ticiana Villas Boas é apenas mais uma, e deve ter deixado com muita raiva o mundo burguês, porque ela foi indiscreta e ostentou a riqueza dos ricos e dos muito ricos. A classe alta não gosta disso, pois gasta seus bilhões em silêncio, pois só abre a boca para impedir que as riquezas e rendas sejam distribuídas. Ticiana não somente ostentou a riqueza dela. Ela não compreendeu as regras da “elite” e mostrou o quanto as classes dominantes são fúteis, descompromissadas e alienadas. E completou: “Eu sou cara; gasto muito”. Que beleza! É isso aí.
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Fonte:http://davissenafilho.blogspot.com.br/2014/05/imprena-e-high-society-eu-sou-cara.html