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segunda-feira, 31 de março de 2014

A grande imprensa apoiou o golpe e a ditadura

31.03.2014
Do blog CÃES DE GUARDAS: JORNALISTA E CENSORES
Por Beatriz Kushnir

Os grandes veículos se passam por adversários da ditadura, mas colaboraram com ela e não tiveram papel relevante para o fim do regime

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Desde fins da da década de 1990, parte da historiografia brasileira sublinha que o (equivocado) processo de Anistia cunhou a (errônea) visão de que vivemos envoltos em uma tradição de valores democráticos. A partir das lutas pela Anistia, como sublinha Daniel Aarão Reis, “libera-se” a sociedade brasileira de “repudiar a ditadura, reincorporando sua margem esquerda e reconfortando-se na ideia de que suas opções pela democracia tinham fundas e autênticas raízes históricas”. Nesse momento, plasmou-se a imagem de que a sociedade brasileira viveu a ditadura como um hiato, um instante a ser expurgado. Confrontando-nos à tal memória inventada, há no período republicano longos momentos de exceção – como nos referimos aos regimes ditatoriais.
Se tais premissas correspondessem aos fatos, restaria explicar: por que houve apenas restritos episódios de resistência vinculados igualmente a pequenos grupos? Por que se permitiu aprovar uma Anistia recíproca, que mesmo nestes 50 anos após o golpe civil-militar, ainda é tema espinhoso de revisão?
A luta contra o arbítrio, de forma armada ou não, definitivamente não caiu nas graças do povo deste berço esplêndido. E, certamente, os meios de comunicação de massa – a grande imprensa e posteriormente, a TV – têm um papel preponderante nas escolhas sociais implantadas.
São clássicos os editoriais do Correio da Manhã nas vésperas do 1º de Abril de 1964, clamando por “Basta” e “Fora” a Jango. Igualmente, é emblemática a noção de que este jornal, ao realizar um “mea-culpa” e se colocar em oposição ao novo regime, foi punido com perseguições que levaram a sua falência. Esquecem-se, contudo, os amplos problemas de gerenciamento vividos por Niomar Moniz Sodré.
Ícones de resistência são lembrados, afirmados, expostos e sublinhados maciçamente para ratificar a tradição democrática brasileira, como: a meteorologia para o 14/12/1968, no Jornal do Brasil; as receitas de bolo do Jornal da Tarde; os poemas de Camões no Estadão; os inúmeros jornalistas perseguidos, demitidos, torturados e mortos; etc., que definiriam a grande imprensa brasileira como resistente ao golpe e, posteriormente, ao arbítrio. Mesmo com todo este esforço, o processo ditatorial perdurou por mais de duas décadas.
Meio século depois e com inúmeros textos publicados sobre a mais recente ditadura brasileira, poder-se-ia ressaltar que nunca a grande imprensa brasileira estampou na primeira página dos periódicos um aviso claro afirmando: “Este jornal está sob censura”. As estratégias acima apontadas e outras, que frequentemente voltam à tona para reforçar a ação resistente, contavam com a capacidade do público leitor em decifrar pistas.
O jornalista Oliveiros Ferreira, que por décadas trabalhou no Estadão, narrou as ligações recebidas pela redação indagando que a receita de bolo na primeira página do Jornal da Tarde estava errada. O bolo solava. Ou, como definiu Coriolano de Loyola Cabral Fagundes, censor desde 1961 e que atuou no Estadão, os poemas de Camões foram ali uma concessão. Certamente a censura federal apostava que o leitor não entenderia o seu porquê, ou se tranquilizaria na (efêmera) ilusão que mesmo no arbítrio lhe eram permitidos lampejos de resistência, os quais, efetivamente nada alteravam. Algo semelhante, contudo, não foi autorizado à (antiga) Veja, que, durante a “distensão” do governo Geisel, substitui as matérias censuradas por imagens de diabinhos, já que não se podiam publicar espaços em branco. Advertida, teve que parar, pois certamente o leitor de Veja à época entenderia o recado. Certamente como compreendeu a mensagem da revista quando da morte de Vlado, numa nota pequena de desculpas por não poder nada mais expressar.
Os inúmeros jornalistas perseguidos, demitidos, torturados e mortos sofreram estas horríveis barbáries enquanto atuavam como militantes das esquerdas, em ações armadas ou como simpatizantes, como demonstram os processos que arrolam os seus nomes. Da mesma forma, existiram imposições governamentais de expurgos nas redações. Tais limpezas ocorreram logo depois do golpe e perduraram até e inclusive no governo Geisel, que impunha a bandeira do fim da censura. Muitos jornalistas/militantes poderiam ser citados como vítimas destas ações, já que, como pontuava lúcida e ferinamente Cláudio Abramo, “nas redações não há lugar para lideranças. Os donos dos jornais não sabem lidar com jornalistas influentes que, muitas vezes, se chocam com as diretrizes do comando. O jornalista tem ali uma função, mas ‘ficou forte, eles eliminam’.”
Os meios de comunicação são empresas que buscam o lucro, vendendo a visão particular sobre um fato e, como Abramo por vezes demarcou, um “equívoco que a esquerda geralmente comete é o de que, no Brasil, o Estado desempenha papel de controlador maior das informações. Mas não é só o Estado, é uma conjunção de fatores. O Estado não é capaz de exercer o controle, e sim a classe dominante, os donos. O Estado influi pouco, porque é fraco. Até no caso da censura, ela é dos donos e não do Estado. Não é o governo que manda censurar um artigo, e sim o próprio dono do jornal. Como havia censura prévia durante o regime militar, para muitos jornalistas ingênuos ficou a impressão de que eles e o patrão tinham o mesmo interesse em combater a censura”.
Existiram pouco mais de 220 censores federais, muitos deles com o diploma de jornalista – sendo que o primeiro concurso público para o cargo ocorreu em 1974, quando Geisel prometia o fim da censura. Estas duas centenas de pessoas atuavam reprimindo: cinema, TV, rádio, teatro, jornais, revistas, etc., entre 1964 e 1988, em todo o território nacional. Para que as expectativas governamentais dessem certo, os donos das empresas de comunicação tinham de colaborar – e não resistir.
Inúmeros arquétipos podem corroborar tal ideia, até porque a autocensura não é desconhecida das redações, e não se iniciou no pós-1964 no Brasil. No Jornal do Brasil, por exemplo, editou-se, em 29/12/1969, como me cedeu o seu exemplar o secretário de Redação, José Silveira, uma circular interna de cinco páginas, elaborada pelo diretor do jornal, José Sette Câmara, para o editor chefe, Alberto Dines, denominada “Instruções para o controle de qualidade e problemas políticos”, criada com o objetivo de “instituir na equipe um (...) Controle de Qualidade (...) sob o ponto de vista político”.
Estabelecida dias antes do Decreto-Lei 1.077, de 26/01/1970, que legalizou a censura prévia, e um ano após o AI-5, a diretriz de Sette Câmara pontuava que “não se trata de autocensura, de vez que não há normas governamentais que limitem o exercício da liberdade de expressão, ou que tornem proibitiva a publicação de determinados assuntos. Em teoria há plena liberdade de expressão. Mas na prática o exercício dessa liberdade tem que ser pautado pelo bom senso e pela prudência”, já que “a posição do JB ao proferir que este não é a favor nem contra, (...) não é jornal de situação, nem de oposição. O JB luta pela restauração da plenitude do regime democrático no Brasil, pelo retorno do estado de direito. (...) Enquanto estiver em vigor o regime de exceção, temos que usar todos os nossos recursos de inteligência para defender a linha democrática sem correr os riscos inúteis do desafio quixotesco ao Governo. (…) O JB teve uma parte importante na Revolução de 1964 e continua fiel ao ideário que então pregou. Se alguém mudou foram os líderes da Revolução. [Nesse sentido, o JB deverá] sempre optar pela suspensão de qualquer notícia que possa representar um risco para o jornal. Para bem cumprirmos o nosso maior dever, que é retratar a verdade, é preciso, antes de mais nada, sobreviver”. Sette Câmara termina decretando que, “na dúvida, a decisão deve ser pelo lápis vermelho”.
Em meados da década de 1970, foi a vez da Rede Globo – uma concessão pública – formalmente instituir o “Padrão Globo de Qualidade”, ao contratar José Leite Ottati – ex-funcionário do Departamento de Polícia Federal – para realizar a censura interna e evitar prejuízos advindos da proibição de telenovelas. Segundo Walter Clark, a primeira interdição da censura na Globo ocorreu em 1976, na novela Despedida de casado. Para blindar a emissora, o “Padrão Globo de Qualidade” receberia o auxílio de pesquisas de opinião feitas por Homero Icaza Sanchez – o “Bruxo” –, encarregado de identificar as motivações da audiência.
Definindo toda essa tática, Clark explicou que, “(...) enquanto a Censura agia para subjugar e controlar a arte e a cultura do país, perseguindo a inteligência, nós continuávamos trabalhando na Globo para fazer uma televisão com a melhor qualidade possível.” Organizada a autocensura, o “Padrão Globo de Qualidade” teve acrescidos outros ingredientes para o seu sucesso. Em sintonia com a imagem, divulgada pelo governo autoritário, de um “Brasil Grande”, formulou-se também uma “assessoria militar” ou uma “assessoria especial” composta por Edgardo Manoel Ericsen e pelo coronel Paiva Chaves. Segundo Clark, “ambos foram contratados com a função de fazer a ponte entre a emissora e o regime. Tinham boas relações e podiam quebrar os galhos, quando surgissem problemas na área de segurança”.
Esquema semelhante a este foi adotado pela Editora Abril, exposto em uma correspondência de Waldemar de Souza – funcionário da Abril e conhecido como “professor” –, a Edgardo de Silvio Faria – advogado do grupo e genro do sócio minoritário Gordino Rossi –, na qual comunicava o contato tanto com o chefe do Serviço de Censura em São Paulo – o censor de carreira e jornalista José Vieira Madeira –, como com o diretor do Departamento de Censura de Diversões Públicas – Rogério Nunes – para facilitar a aprovação das revistas e a chegada às bancas sem cortes.
Estes vínculos do “professor” com membros do governo são anteriores a esse período e justificam seu potencial de negociação. Desde novembro de 1971 o relações-públicas do DPF, João Madeira – irmão de José Vieira Madeira –, expediu uma carta ao diretor-geral da Editora Abril na qual ratificava o convite do general Nilo Caneppa, na época diretor do DPF, a Waldemar de Souza para que fosse a Brasília ministrar um curso especial aos censores. Em maio de 1972, o próprio general Caneppa enviou a Vitor Civita, diretor-geral da Abril, uma correspondência de agradecimento pelas palestras sobre censura de filmes, que Waldemar de Souza proferiu na Academia Nacional de Polícia. Para continuar colaborando, no ano seguinte, Souza formulou uma brochura intitulada “Segurança Nacional: o que os cineastas franceses esquerdistas já realizaram em países da América do Sul e pretendem repetir aqui no Brasil”. E, em 1974, com o general Antonio Bandeira no comando do DPF, Waldemar de Souza, em caráter confidencial, expôs o porquê de censurar Kung Fu e sua mensagem que “infiltra a revolta na juventude”.
Por fim, mas não menos importante, há a atuação do Grupo Folha da Manhã, proprietário da Folha de S. Paulo e da Folha da Tarde, entre outros, no período. Em dezessete anos, entre 19/10/1967 e 7/5/1984, o país foi dos “anos de chumbo” ao processo das Diretas Já, e a Folha da Tarde vivenciou uma redação tanto de esquerda engajada – até o assassinato de Marighella –, como, a partir daí, de partidários e colaboradores do autoritarismo.
Durante uma década e meia sob o comando de policiais, o jornal adquiriu um apelido: o de “maior tiragem”, já que muitos dos jornalistas que ali trabalharam eram igualmente “tiras” e exerciam cargos na Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. A partir deste perfil de funcionários, a Folha da Tarde carrega a acusação de “legalizar” mortes decorrentes de tortura, se tornando conhecido como o Diário Oficial da Oban.
Isto explica o porquê de os carros do Grupo Folha da Manhã serem incendiados por militantes de esquerda, nos dias 21/9/1971 e 25/10/1971. A ação era uma represália, já que o grupo era acusado de ceder automóveis ao Doi-Codi que, com esse disfarce, montava emboscadas, prendendo ativistas.
Nesse momento de ponderações sobre os 50 anos do golpe, recordo-me que, quando dos 30 anos do AI-5, o jornalista Jânio de Freitas publicou na Folha de S. Paulo uma advertência não cumprida por seus pares, inclusive agora, nas reflexões dos periódicos aos 50 anos do golpe civil-militar de 1964. Corroborando com tudo o que foi exposto aqui, Freitas lembrava em 1998 que “a imprensa, embora uma ou outra discordância eventual, mais do que aceitou o regime: foi uma arma essencial da ditadura. Naqueles tempos, e desde 64, o Jornal do Brasil [...] foi o grande propagandista das políticas do regime, das figuras marcantes do regime, dos êxitos verdadeiros ou falsos do regime.  (...) Os arquivos guardam coisas hoje inacreditáveis, pelo teor e pela autoria, já que se tornar herói antiditadura tem dependido só de se passar por tal”.
O jornalista ao finalizar, adverte, e peço-lhe licença para me utilizar aqui, de suas conclusões. Trocarei 30 por 50 anos, AI-5 por golpe civil-militar de 1964, e o que estiver entre colchetes é de minha autoria. Assim: precisamos aproveitar os 50 anos do golpe civil-militar de 1964 para mostrar mais como foi o regime que [se instaurou a partir dali], eis uma boa iniciativa. Mas não precisava [como fizeram muitas narrativas recentes] reproduzir também os hábitos de deformação costumeiros naqueles tempos.
* Beatriz Kushnir é historiadora, doutora em História pela Unicamp, autora, entre outros de, Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988 (Boitempo, 2012)
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Fonte: http://caesdeguarda-jornalistasecensores.blogspot.com.br/

ÔNIBUS ENGUIÇADOS OU ACIDENTADOS E ATÉ COM PAINEL SEM IDENTIFICAÇÃO DE CARRO

31.03.2014
Do blog MOVIMENTO PINTURA LIVRE, 24.03.14


Enquanto se anuncia a alteração de pontos de ônibus em Ipanema, para as obras do metrô na Zona Sul do Rio de Janeiro, e O Globo lança uma reportagem baseada em foto com a atriz Lucélia Santos pegando um ônibus, eis que irregularidades acontecem na Cidade Maravilhosa e até mesmo no outro lado da Baía da Guanabara.

No último fim de semana, foi observado o péssimo estado de conservação do carro C41384, da Real Auto Ônibus (frota do consórcio Transcarioca), na linha 315 Central / Recreio, via Linha Amarela. Com cinco anos de fabricação, o carro parece mais antigo, e sacolejava como nos antigos carros da recém-desativada Turismo Trans1000.

Mas o que se nota, também, é que o painel interno do referido veículo não apresentava qualquer tipo de identificação do número do carro. É comum também não haver identificação de carro nos tetos dos ônibus, assim como se deixa de identificar o número e o destino de linhas nos letreiros lateral e traseiro, seja de lona ou digital.

Um carro da Transportes Futuro chegou a circular, na última sexta-feira, entre o Itanhangá e a Barra da Tijuca, bastante lotado, sem apresentar qualquer identificação do número e do destino da linha, mesmo no letreiro digital dianteiro, num horário de grande movimento e demanda e num logradouro da importância da Av. das Américas.



Em Copacabana, como mostra a foto no alto deste texto, mostra um veículo da Transportes São Silvestre enguiçado, na altura da Rua Raul Pompeia, em Copacabana, já se preparando para ser rebocado pelo guincho da Intersul, o que mostra o quanto até guinchos e cabines também foram castigados pela padronização visual do prefeito Eduardo Paes.

A Transportes São Silvestre, antes empresa exemplar, também apresenta ônibus sucateados e com alguns amassos, algo que se tornou regra entre os ônibus cariocas. Nota-se que, mesmo num bairro como Copacabana, passam dezenas de ônibus que, juntos parecem um comboio de caminhões de entulho de tanto chacoalharem enquanto rodam, em alta velocidade.


No outro lado da Baía da Guanabara, houve um acidente com um ônibus da Santo Antônio Transportes, carro 2.2.061, considerado semi-novo - fabricado em 2011 - , que servia um dos ramais da linha 39 Piratininga / Centro e se dirigia, sem passageiros, ao Centro de Niterói.

O poste foi atingido e houve rumores de que a energia elétrica tivesse que ser cortada em todo o entorno do Jardim Icaraí para o conserto do poste, mas o corte foi apenas parcial. Apesar do sério acidente, não houve feridos.


E nada como lembrar um episódio com uma atriz para completar a tragicomédia. Pois recentemente a veterana atriz e produtora Lucélia Santos causou polêmica ao afirmar que é passageira de ônibus. A atitude, em si, é bastante correta, mas a julgar pelo estado do transporte coletivo no Grande Rio, ela já significa assumir riscos e transtornos.

Nota-se que a reportagem de capa da Revista O Globo de ontem não mencionou em um momento sequer os nomes das empresas. Os coitados dos entrevistados já tinham a trabalheira de mencionar os números das linhas, e um deles reclamou da mudança do código de um ramal da linha 233 (Rodoviária / Barra da Tijuca) para 302.

A pintura padronizada não foi questionada, aparentemente, mas pelo tom da reportagem podemos inferir que a medida nem de longe está sendo apoiada pela população. Pelo contrário, ela traz desvantagens, incômodos, transtornos, confusão. A população apenas "aceita", um hábito "herdado" das imposições da ditadura militar.

A própria Lucélia havia pego ônibus da Tijuca e da Barra da Tijuca, mas na foto ela posa provavelmente diante de um ônibus da Real Auto Ônibus, que geralmente liga a Zona Sul e a Barra da Tijuca a bairros do Centro, de São Cristóvão / Maracanã e do Parque União / Maré.

Tudo virou confusão, transtornos, irregularidades. E os passageiros ainda vão ter que se deslocar para outros pontos, porque Ipanema virou um canteiro de obras. Esse é o modelo de mobilidade urbana e transporte coletivo feito por pessoas que não usam ônibus, não sabem o que é interesse público e mais parecem governar para riquinhos de Barcelona prestes a visitar o Rio de Janeiro.
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Fonte: http://movimentopinturalivre.blogspot.com.br/2014/03/onibus-enguicados-ou-acidentados-e-ate.html

JUSTIÇA PARTIDARIZADA: STF fez imenso favor ao PSDB e deu péssimo exemplo

31.03.2014
Do blog ESQUERDOPATA, 28.03.14


Favor supremo
O Supremo Tribunal Federal fez um imenso favor ao PSDB. Livrou Eduardo Azeredo, do PSDB-MG, de responder, perante o STF, pelos crimes de que é acusado, no chamado “mensalão tucano”.

Alívio para o réu e seu candidato, Aécio Neves. Eles podem comemorar, quem sabe, com um vinho da mesma marca que Merval Pereira e Carlos Alberto Sardenberg apostaram, na CBN, em tom de chacota, para se enebriar com a prisão dos petistas. “Tim-tim”! Um brinde aos dois pesos e duas medidas.

Comparada à fúria com que tratou os petistas na Ação Penal 470, a sessão que tirou Azeredo da reta do Supremo marcou a volta da tranquilidade e da troca de gentilezas às quais a Suprema Corte já parecia desacostumada.

Ninguém bateu boca, ninguém insultou ninguém. Nada como um julgamento de tucano para que os ministros do STF demonstrem que todos estão entre amigos, e o quanto suas excelências são homens cordiais, e não chefes de capangas. Águas passadas, pelo menos, até que apareça outro petista na reta.

Em ano eleitoral, a decisão vale ouro. O STF aliviou para Azeredo, que viu seu processo voltar à estaca zero. Agora, vai responder perante um juiz de primeira instância. Depois, poderá recorrer indefinidamente, até ver sua ação retornar, mais uma vez, ao Supremo.  

Quando isso acontecer, muitos dos atuais ministros não mais estarão por lá. Os remanescentes, com mais cabelos brancos, ou cabelo algum, terão que reavivar a memória ou fazer um Google para relembrar quem é Azeredo e o que disseram a seu respeito.

Aécio e o PSDB, ao contrário do que aconteceu com o PT, enfrentarão as urnas sem um condenado enclausurado para ser utilizado pela campanha adversária. Melhor, impossível.

Péssimo exemplo para a Justiça brasileira


O inquérito e a ação penal contra Azeredo tornaram-se um péssimo exemplo para a Justiça brasileira. Para quem dizia que a AP 470 era um divisor de águas, a ação penal contra Eduardo Azeredo foi uma ducha de água fria.

As denúncias contra o tucano vieram à tona no mesmo ano de 2005 e pelo mesmo Marcos Valério, pivô do escândalo contra os petistas. Tudo na mesma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, a CPMI “dos Correios”.

Por alguma razão misteriosa, enquanto a PGR autuou o inquérito contra os petistas em 2007, o de Azeredo só foi providencialmente enviado em 2009.

Agora é tarde para julgar Azeredo


O então Procurador, Roberto Gurgel, demorou quatro anos para constatar o óbvio: que o mensalão tucano “retrata a mesma estrutura operacional” e "envolve basicamente as mesmas empresas do grupo de Marcos Valério e o mesmo grupo financeiro (Banco Rural)” que estavam presentes na AP 470. Quatro anos para se chegar a essa conclusão banal merecem um sorvete na testa.

A única diferença substancial entre os dois escândalos era justamente o tempo. As acusações contra Azeredo eram do século passado. Se referiam à sua campanha a governador em 1998.

Tivesse Gurgel dado prioridade à acusação mais antiga, os principais crimes de que Azeredo é acusado não estariam prescritos.

No STF, o inquérito contra Azeredo virou a Ação Penal 536. Seu primeiro relator foi ninguém menos que Joaquim Barbosa.

Barbosa, sem alarde, sem esbravejar, declarou Azeredo livre do crime de formação de quadrilha “até mesmo porque já estaria prescrito pela pena em abstrato”, disse no voto em que se desmembrou aquele processo.

Azeredo também está livre de ser julgado por corrupção ativa e corrupção passiva. Tudo prescrito, graças à demora da Procuradoria e ao "cochilo" do STF.

Contra o tucano, ninguém gritou pela urgência dos prazos, ao contrário do que fez Gilmar Mendes com Joaquim Barbosa, publicamente acusado de demorar demais a trazer os petistas a julgamento.

Sobre Azeredo, apareceu um Joaquim Barbosa de cabeça baixa e discurso modorrento, que esboçou uma desavença meramente protocolar com a decisão de tirar  do Supremo o julgamento desse acusado.

Barbosa, mais uma vez, jogou para a plateia, sem antes sonegar um fato tão concreto quanto seu apartamento em Miami: o julgamento de Azeredo, seja onde for, não levará a nada.

A impunidade já está sacramentada, em grande medida, com o festival de prescrições que o ex-Procurador e o Supremo lhe deram de presente. Belo trabalho.

Critério claro e cristalino


Foi uma tarde triste para o Supremo, mas Joaquim Barbosa sequer se deu ao trabalho de franzir a testa. Nem gastou sua saliva para cuspir uma única diatribe.

De maneira patética, a maior parte da sessão que livrou Azeredo foi gasta com a tentativa de se dizer que haverá algum critério para novos julgamentos em que acusados renunciem a seus mandatos. Critério?

Marco Aurélio Mello foi o primeiro a reagir que não se pode obrigar os ministros do Supremo a decidirem sempre do mesmo jeito.

Luís Roberto Barroso pediu, encarecidamente, a compreensão de todos para se dar uma resposta à opinião pública. Como explicar que se julgou os petistas de um jeito, e os tucanos, de outro? Como evitar que isso seja considerado um casuísmo? Impossível. Casuísmo feito, casuísmo é.

Resultado? A sessão acabou sem se definir critério algum. Para contribuir com a discussão, Joaquim Barbosa reclamou que estava atrasado para um evento.

Assim sendo, o único e verdadeiro critério já está claríssimo. Só não vê quem não quer. Para ser condenado, o réu tem que ser filiado ao PT, de preferência, ou ter sido apoiador de algum de seus governos.

Enquanto isso, os tucanos colecionaram mais um caso em que foram acusados de inúmeros crimes, mas tudo ficou por isso mesmo.
(*) Antonio Lassance é cientista político.
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Fonte:http://www.esquerdopata.blogspot.com.br/2014/03/stf-fez-imenso-favor-ao-psdb-e-deu.html

DITADURA MILITAR "DESENHOU" O PADRÃO DE INTELECTUALIDADE NO PAÍS

31.03.2014
Do  blog MINGAU DE AÇO
Por  Alexandre Figueiredo

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
Paradigma do intelectual favorecido pela ditadura militar.

Nos últimos anos, surgem denúncias de que os cursos de pós-graduação nas universidades, sejam elas particulares ou públicas, e nos círculos intelectuais em geral, produzem trabalhos científicos e monográficos medíocres.

Eu mesmo senti na pele isso, já que os meios acadêmicos há muito tempo dão preferência a trabalhos meramente descritivos do que aqueles que pudessem analisar as diversas problemáticas existentes nos diversos fenômenos da vida humana no Brasil.

A situação é tão séria que, se fossem jovens e brasileiros hoje, pensadores como Noam Chomsky e Umberto Eco seriam barrados já nos primeiros portões entre o bacharelado e as inscrições para o mestrado.

Vamos fazer uma comparação. Um médico sanitarista quer estudar uma doença que anda dizimando a população de determinado lugar. Se fosse num meio acadêmico saudável, ele lançaria questionamentos, identificaria o vírus, verme ou inseto transmissor, e combateria a doença a partir de uma vacina desenvolvida a partir de uma combinação de substâncias.

Mas, se for pelo contexto acadêmico que se vive no Brasil nos últimos 45 anos, o médico não pode estudar a doença. No máximo, identificará os agentes transmissores da doença, descreverá todo o processo de doença e mortes, e depois relativizará, provavelmente se limitará a dizer que as vítimas não estavam preparadas para enfrentar as doenças. As vítimas, portanto, levam a culpa pela doença.

A geração de intelectuais que temos, de analistas neoliberais parcialmente reformistas - mas sem coragem plena para superar a pobreza e as desigualdades sociais - a cientistas com projetos inócuos, passando pela intelectualidade "bacana" que pouco está ligando para os problemas da cultura popular brasileira, se formou graças a um padrão ideológico vigente desde a ditadura militar.

Isso se deu há cerca de 45 anos. Veio o AI-5 e os últimos expurgos dos meios políticos e acadêmicos que ainda faziam oposição à ditadura militar entre 1964 e 1968. O higienismo sócio-político e cultural, depois do auge das manifestações oposicionistas entre 1967 e 1968, criou um ambiente "asséptico" que refletiu nas classes acadêmicas que passaram a dominar o cenário do "milagre brasileiro".

E se o ideólogo neoliberal Roberto Campos tinha a imagem "queimada" - sobretudo pelo movimento estudantil que, numa alusão de que Campos era capitalista ferrenho, lhe deu o apelido pejorativo de Bob Fields - , verbas da Fundação Ford, a serviço da CIA, propiciaram a ascensão de um intelectual que modernizou as ideias de Campos num contexto supostamente progressista.

Sim, estamos falando de Fernando Henrique Cardoso, que mais tarde exerceu dois mandatos como Presidente da República e tornou-se o principal paradigma de intelectual no país. Um dos fundadores do PSDB, a ele se cercam barões midiáticos, empresários entreguistas, tecnocratas e uma linhagem de pensamento que vigora até hoje nos círculos intelectuais contemporâneos.

Fernando Henrique Cardoso só discordava da política de "poder duro" determinada pela ditadura militar. Mas ele acabou modernizando as teorias neoliberais de Campos num contexto de "poder suave" (a nova estratégia neoliberal, que vale até hoje) que propõe um desenvolvimento subordinado do Brasil sem que se apelasse para a violência política então adotada pela ditadura.

Graças à influência de FHC na USP, exterminou-se a reflexão crítica dos meios acadêmicos. Criou-se um estigma equivocado, mas dominante, de que contestar o "estabelecido" é "menos científico", e que refletir de forma questionadora os problemas cotidianos é um manifesto de "opinião" e não de "abordagem científica".

Parece ridículo, mas é isso que acontece. O problema acontece, mas você não pode contestar. Se contestar, está emitindo uma "opinião", e não uma "abordagem científica". "Científico" ficou associado ao processo meramente descritivo dos problemas cotidianos, muitos deles nem vistos como problemas, mas como "fenomenologias" que só devem ser identificadas.

O trabalho monográfico passou a ser contaminado por um mito de "imparcialidade" comparável ao da imprensa conservadora, um mito que durante muito tempo era atraente e visto com aparente unanimidade. O acadêmico, tal como o jornalista, não poderia tomar uma posição, seu trabalho era neutro, como um observador de um problema que ele era proibido de resolver.

O que está por trás desse padrão de intelectualidade, que gerou uma geração recente de intelectuais "bacanas", que defendem a bregalização da cultura popular e jogam no lixo qualquer questionamento sobre desnacionalização, mediocrização e imbecilização cultural, é não só a herança da ditadura militar, mas também a do pensamento neoliberal e dos investimentos estrangeiros.

HERANÇA DA DITADURA, DE FHC E ATÉ DE GEORGE SOROS!!

Intelectuais que tentam parecer "progressistas", como Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e Hermano Vianna - com a ressalva de que este último assume seu vínculo com os barões da mídia e sua herança acadêmica de FHC - são na verdade herdeiros de uma linha de pensamento tramada nos bastidores da ditadura civil-militar após o AI-5.

Não se podia torturar todos os brasileiros. Tinha-se que criar um padrão de cultura, de pensamento acadêmico, de assistencialismo sócio-econômico e educacional, para que, dentro das estruturas do poder dominante, resolver os problemas sociais para minimizar as inquietações da sociedade com a situação cotidiana lastimável.

Veio o Mobral para alfabetizar os brasileiros sem que represente um risco de, com um povo educado, ameaçar o poderio dominante. O coronelismo radiofônico veio impor a música brega para o gosto popular, e toda uma mídia da época passou a trabalhar uma imagem caricata do "popular" que nem as chanchadas teriam coragem de fazer.

Para completar o trabalho, criou-se uma intelectualidade cujo método de pensamento apostava numa "problemática" sem problemas, num "debate" que não debatia, num "pensamento reflexivo" que não refletia coisa alguma, numa "provocação" que nada provoca etc. Uma intelectualidade que desperdiçava o domínio do processo de pesquisa e questionamento para reafirmar o "estabelecido".

E isso contagia até pessoas consideradas experientes. O sociólogo Milton Moura, da Universidade Federal da Bahia, escreveu uma verdadeira BOBAGEM intitulada "Esses pagodes impertinentes...", no periódico Textos, da UFBA, em 1996, coisa que nem os delírios engraçadinhos de um André Forastieri seriam capazes de despejar na imprensa.

Mas Moura se beneficiou de sua visibilidade e seu status acadêmico, defendendo a imbecilização cultural puxada pelo É O Tchan, e antecipando toda uma blindagem intelectual que, anos mais tarde, transformaria inócuos e tolos funqueiros em pseudo-vanguarda e falsos ativistas sociais.

Na ciência, então, a ênfase está muito mais em coisas inofensivas, como analisar a influência da música no desempenho de atletas olímpicos. Temos grandes cientistas, mas os investimentos priorizam trabalhos inócuos, e os grandes feitos científicos acabam "morrendo" por causa da burocracia e de outros interesses político-econômicos.

E isso criou toda uma tradição castradora do pensamento humano. Enquanto lá fora há grandes intelectuais que não temem fazer questionamentos aprofundados mesmo com verbas estatais, aqui o que se vê são "pesquisadores" e "pensadores" escrevendo bobagens ou pesquisando paliativos.

E seu pessoal ainda se caba em estar contribuindo para o progresso de nosso país. Mas, felizmente, não é preciso um diploma de pós-graduação para percebermos que toda essa intelectualidade é herdeira da ditadura militar, do neoliberalismo de FHC e até mesmo das verbas enviadas pelo astuto especulador financeiro George Soros, o "domador de feras esquerdistas".
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Fonte: http://mingaudeaco.blogspot.com.br/2014/03/ditadura-militar-desenhou-o-padrao-de.html