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quinta-feira, 27 de março de 2014

Fabio Venturini: No golpe dos empresários, “se uma empresa foi beneficiada, a mais beneficiada foi a Globo”

27.03.2014
Do blog VI O MUNDO
Por  Luiz Carlos Azenha


Fabio Venturini fez o mestrado na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo sobre os empresários e o golpe de 64. Está concluindo o doutorado sobre os empresários e a Constituição de 1988.

Ele esmiuçou os detalhes de “como a economia nacional foi colocada em função das grandes corporações nacionais, ligadas às corporações internacionais e o Estado funcionando como grande financiador  e impulsionador deste desenvolvimento, desviando de forma legalizada — com leis feitas para isso — o dinheiro público para a atividade empresarial privada”. Segundo ele, é isto o que nos afeta ainda hoje, já que os empresários conseguiram emplacar a continuidade das vantagens na Carta de 88.

Venturini cita uma série de empresários que se deram muito bem durante a ditadura militar, como o banqueiro Ângelo Calmon de Sá (ligado a Antonio Carlos Magalhães, diga-se) e Paulo Maluf (empresário que foi prefeito biônico, ou seja, sem votos, de São Paulo).

Por outro lado, apenas dois empresários se deram muito mal com o golpe de 64: Mário Wallace Simonsen, um dos maiores exportadores de café, dono da Panair e da TV Excelsior; e Fernando Gasparian. Ambos eram nacionalistas e legalistas. A Excelsior, aliás, foi a única emissora que chamou a “Revolução” dos militares de “golpe” em seu principal telejornal.

Sobre as vantagens dadas aos empresários: além da repressão desarticular o sindicalismo, com intervenções, prisões e cassações, beneficiou grupos como o Ultra, de Henning Albert Boilesen, alargando prazo para pagamento de matéria prima ou recolhimento de impostos, o que equivalia a fazer um empréstimo sem juros, além de outras vantagens. Boilesen, aliás, foi um dos que fizeram caixa para a tortura e compareceu pessoalmente ao DOI-CODI para assistir a sessões de tortura. Foi justiçado por guerrilheiros.

Outros empresários estiveram na mira da resistência, como Octávio Frias de Oliveira, do Grupo Folha, que apoiou o golpe. Frias e seu sócio Carlos Caldeira ficaram com o espólio do jornal que apoiou João Goulart,  Última Hora, além de engolir o Notícias Populares e, mais tarde, ficar com parte do que sobrou da Excelsior. Porém, o que motivou o desejo da guerrilha de justiçar Frias foi o fato de que o Grupo Folha emprestou viaturas de distribuição de jornal para campanas da Operação Bandeirante (a Ultragás, do Grupo Ultra, fez o mesmo com seus caminhões de distribuição de gás). Mais tarde, a Folha entregou um de seus jornais, a Folha da Tarde, à repressão.

[Ouça Ivan Seixas explicando o motivo do Octavião, da Folha, ter medo de ser fuzilado]

[Clique aqui para ouvir a entrevista do pesquisador que investigou o papel da Folha e do Estadão no golpe]

“Se uma empresa foi beneficiada pela ditadura, a mais beneficiada foi a Globo, porque isso não acabou com a ditadura. Roberto Marinho participou da articulação do golpe, fez doações para o Ipes [Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais, que organizou o golpe]. O jornal O Globo deu apoio durante o golpe. Em 65, o presente, a contrapartida foi a concessão dos canais de TV, TV Globo Canal 4 do Rio de Janeiro e Canal 5 São Paulo”, diz Fabio Venturini.

“Porém, na década de 70, a estrutura de telecomunicações era praticamente inexistente no Brasil e foi totalmente montada com dinheiro estatal, possibilitando entre outras coisas ter o primeiro telejornal que abrangesse todo o território nacional, que foi o Jornal Nacional, que só foi possível transmitir nacionalmente por causa da estrutura construída com dinheiro estatal”, afirma o pesquisador.

“Do ponto-de-vista empresarial, sem considerar o conteúdo, a Globo foi a que mais lucrou”, continua, já que em 1985, no ocaso da ditadura, “Roberto Marinho era o dono da opinião pública”.

Segundo Fabio Venturini, na ditadura imposta a partir de 1964 os militares se inspiraram na ditadura de Getúlio Vargas.

Lembra que, naquela ditadura, o governo teve vários problemas para controlar um aliado, o magnata das comunicações, Assis Chateaubriand.

“No golpe de 64 o Assis Chateaubriand já estava doente, o grupo Diários Associados estava em decadência. O Roberto Marinho foi escolhido para substituir Assis Chateaubriand. Tinha o perfil de ser uma pessoa ligada ao poder. Tendo poder, tendo benefício, ele estava lá. A Globo foi pensada como líder de um aparato de comunicação para ser uma espécie de BBC no Brasil. A BBC atende ao interesse público. No Brasil foi montada uma empresa privada, de interesse privado, para ser porta-voz governamental. Se a BBC era para fiscalizar o Estado, a Globo foi montada para evitar a fiscalização do Estado. Tudo isso tem a contrapartida, uma empresa altamente lucrativa, que se tornou uma das maiores do mundo [no ramo]“, conclui.

Venturini fala em pelo menos dois mistérios ainda não esclarecidos da ditadura: os dois incêndios seguidos na TV Excelsior, em poucos dias, e a lista dos empresários que ingressaram no DOI-CODI para ver sessões de espancamento ou conversar com o comandante daquele centro de torturas, Carlos Alberto Brilhante Ustra.

[Para ver a lista dos que entraram no DOPS, clique aqui]

Na entrevista abaixo, o pesquisador também fala do papel central no golpe desempenhado por Julio de Mesquita Neto, do Estadão [leia aqui reportagem da revista Fortune, de setembro de 64, que deixa isso claro].

Comenta a tese, muito comum na Folha de S. Paulo, de que houve um contragolpe militar para evitar um regime comunista, o que chama de “delírio” [leia aqui como o PCB havia assumido, na época, compromisso com a via eleitoral].

Venturini também fala do papel de Victor Civita, do Grupo Abril, que “tinha simpatia pela ordem” e usou suas revistas segmentadas para fazer a cabeça de empresários, embora não tenha conspirado.

Finalmente, explica a relação dos empresários com as nuances da ditadura pós-golpe. Um perfil liberal, pró-americano, em 64; um perfil ‘desenvolvimentista’, mais nacionalista, a partir de 67/68.

[O Viomundo só é capaz de produzir todo o conteúdo exclusivo linkado nesta página por conta da colaboração de nossos assinantes. Junte-se a eles!]

Compareça ao evento deste sábado, TV Globo: Do golpe de 64 à Censura hoje para saber muito mais sobre o papel da mídia na quartelada do primeiro de abril.

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Fonte:http://www.viomundo.com.br/denuncias/fabio-venturini-no-golpe-dos-empresarios-se-uma-empresa-foi-beneficiada-a-mais-beneficiada-foi-a-globo.html

"Planos da CIA avançaram muito na Venezuela", diz ex-agenteA CIA não sabia quando o contratou para conspirar contra Havana, mas Raúl Capote era da segurança nacional cubana

27.03.2014
Do portal OPERA MUNDI
Por Revista Chávez Vive | Caracas    
Raúl Capote é cubano. Mas não um qualquer. Em sua juventude, foi cooptado pela Agência Central de Inteligência (CIA, por sua sigla em inglês) dos Estados Unidos. Ofereceram a ele uma quantidade infinita de dinheiro para conspirar em Cuba. Mas havia um detalhe inesperado pelos Estados Unidos. Capote, na verdade, trabalhava para a segurança nacional cubana. Desde então, cumpriu funções como agente duplo. Conheça a sua história, por meio dessa entrevista exclusiva concedida à Chávez Vive, em Havana.

Como foi seu processo de cooptação?

Começou como um processo de muitos anos, de vários anos de preparo e de cooptação. Eu era líder de um movimento juvenil em Cuba que, naquele momento, deu origem a uma organização, a Asociación Cultural de Hermanos Saiz [Associação Cultural de Irmãos Saiz, em tradução livre], uma associação de jovens criadores, jovens pintores, escritores, artistas. Eu trabalhava em uma cidade do sul de Cuba, centro-sul de Cuba, Cienfuegos, que tinha caraterísticas que, para o inimigo, se tornaram muito interessantes, porque era uma cidade onde estava sendo construído um polo industrial importante naquele momento. Estava sendo construída uma usina elétrica, a única que seria construída em Cuba, e havia muita gente jovem trabalhando na obra. Portanto, era uma cidade que, além disso, tinha muitos jovens engenheiros graduados na União Soviética. Estamos falando dos últimos anos da década de oitenta, durante todo aquele processo da Perestroika. E muitos engenheiros cubanos que chegavam a Cuba nessa época, graduados lá, eram considerados pessoas que chegavam com essa ideia da Perestroika. Portanto, era um território interessante, onde havia muita gente jovem. E o fato de que eu era um líder juvenil de uma organização cultural, que movimentava um importante setor dos engenheiros que estavam interessados pelas artes, interessou os norte-americanos, que começaram a frequentar as nossas reuniões. Nunca se identificavam como inimigos, nem como oficiais da CIA.

Eram vários, ou sempre uma mesma pessoa?

Vários. Não se apresentavam nunca como oficiais da CIA, nem gente que estivesse querendo causar prejuízo.

Quem se supunham que eram?

Apresentavam-se como pessoas que vinham nos ajudar, em nosso projeto, e que tinham a possibilidade de o financiar. Que tinham a possibilidade de o tornar realidade. A proposta, como tal, parecia interessante porque, enfim, um projeto no mundo da literatura requer que você conheça uma editora, que tenha relacionamentos editoriais. É um mercado muito complexo. E vinham em nome de editoras. O que acontecia é que, durante o processo de contato conosco, ficava bastante evidente o que realmente queriam. Porque, uma vez que faziam o contato, que começavam a frequentar as nossas reuniões, que começavam a prometer o financiamento, vinham, então, as condições para sermos financiados.

Que condições exigiam?

Diziam-nos: “Nós temos a possibilidade de pôr o mercado à disposição de vocês, de fazê-los chegar ao mercado do livro ou das artes plásticas ou do cinema ou do que quer que seja, mas nós precisamos da verdade, porque o que se vende no mercado é a imagem de Cuba. A imagem de Cuba tem que ser uma imagem realista, das dificuldades, do que acontece no país”. Queriam viciar a realidade de Cuba. O que estavam pedindo é que você fizesse uma crítica à revolução, baseada nas linhas de propaganda contra Cuba que eles administravam.

Quão alto pode ser o orçamento desta gente?

Eles vinham com uma quantidade de dinheiro infinita por causa da fonte do dinheiro, [que], claro, nós com o tempo conseguimos saber de onde vinha. Por exemplo, a USAID [Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, por sua sigla em inglês] era a patrocinadora maior, a contratadora maior de todo esse orçamento, que era canalizado por meio das ONGs, que muitas vezes eram inventadas para Cuba. Eram ONGs que não existiam, que foram criadas unicamente para esse tipo de trabalho em Cuba, e estamos falando de milhares e milhares de dólares. Eles não trabalhavam com orçamentos reduzidos. Por exemplo, em um determinado momento me ofereceram dez mil dólares somente para incluir elementos da propaganda contra Cuba no romance que eu estava escrevendo.

De que ano estamos falando?

Estamos falando de 1988, 89...

Quantas pessoas podem ter sido contatadas por esta gente, ou cooptadas?

Realmente não durou muito o sucesso da empreitada, porque em Cuba havia toda uma cultura de confrontar esse tipo de coisa, e as pessoas tinham claro que podia existir algo por trás dessa história de quererem nos ajudar. Não era novo na história do país, e, portanto, era muito difícil chegar aonde nós estávamos. Em um momento determinado, lá por 92, nós fizemos uma reunião, todos os membros da organização, e decidimos expulsá-los. Impedir que assistissem qualquer das nossas reuniões. Essa gente, que já estava chegando com propostas concretas, e condicionando, além disso, a ajuda econômica que nos estavam dando. Mas acontece que no momento que nós os recusamos, os expulsamos da sede da associação, então, começaram  a particularizar. Começaram a me visitar, em particular, e a alguns outros colegas, gente jovem. Com alguns tiveram sucesso, ou seja, conseguiram, inclusive, tirar alguns deles do país.

Que perfil eles buscavam, mais ou menos, se é que pode ser especificado um perfil?

Eles queriam, sobretudo nessa época, apresentar Cuba como um país que estava [mergulhado] no caos. Que o socialismo em Cuba não tinha conseguido satisfazer as necessidades da população, e que Cuba era um país que o socialismo tinha levado à pobreza absoluta e que, como modelo, não servia. Era a chave do que se perseguia, sobretudo naquele momento.

Por quanto tempo você foi agente da CIA?

Estivemos nessa história inicial até 94. Porque em 94 eu vim para Havana, voltei à capital e aqui, na capital, comecei a trabalhar no Sindicato dos Trabalhadores da Cultura, um sindicato que representa os trabalhadores da cultura na capital, e me tornei ainda mais interessante para eles, porque passei de dirigir, de ser líder de uma organização juvenil que tinham 4.000 membros, a diretor de uma organização sindical que tinha 40.000 filiados. Ou seja, uma organização sindical com 40.000 filiados, somente na cidade de Havana. E, então, a coisa ficou bem mais interessante. Continuaram os contatos. Nessa época apareceu uma professora de uma nova universidade que veio com a missão de promover a produção da minha obra literária, de se transformar em minha representante, de organizar eventos.

Pode dar o nome?

Não, porque realmente usavam pseudônimos. Nunca usavam os nomes reais. E esse tipo de trabalho, de me promover como escritor, era no que eles estavam muito interessados, porque queriam me transformar em uma personalidade dentro desse mundo. Assim, me comprometeriam com eles de maneira indireta. E aí, em 2004, chegou a Havana uma pessoa que é bem conhecida na Venezuela, a Kelly Keiderling. Kelly veio a Havana trabalhar como chefe do Escritório de Imprensa e Cultura. Prepararam uma reunião, um coquetel, e nesse coquetel tive um encontro com doze servidores públicos norte-americanos, norte-americanos e europeus. Não somente eram norte-americanos. Eram todos pessoas que tinham experiência, alguns que tinham experiência, inclusive, dentro da própria União Soviética, outros tinham participado de treinamentos na Iugoslávia, na Revolução das Cores, e tinham muito interesse em me conhecer. Kelly se transformou em uma pessoa muito próxima. Começou a me a preparar, a me a instruir. Comecei a receber dela um treinamento muito sólido: a criação de grupos alternativos, a criação de grupos independentes, a organização e formação de líderes juvenis, sobretudo, em projetos de cultura, mas que sempre fossem alternativos, que não participassem do trabalho das instituições culturais. Isso foi em 2004-2005. Kelly saiu praticamente de cena em 2005-2006. E eu comecei a trabalhar, ela me apresentou, me colocou em contato direto, com oficiais da CIA. Supostamente, eu já estava comprometido com eles, estava pronto para a próxima missão, e me puseram em contato com Renee Greenwald, um oficial da CIA que começou a trabalhar comigo de maneira direta, e com um senhor que se chamava Mark Waterhein, que era, nesse momento, o chefe do Projeto Cuba, da Fundação Pan-americana para o Desenvolvimento.

Este senhor Mark, além de dirigir o Projeto Cuba, tinha um vínculo direto com Cuba, na questão do financiamento do projeto contra a Revolução, além de estar envolvido em tarefas contra a Venezuela. Ou seja, era um homem que [...]; muitos de sua equipe, dos servidores públicos desse famoso projeto, também trabalhavam contra a Venezuela nessa época. Estavam estreitamente vinculados. Às vezes, era muito difícil diferenciar quem trabalhava com Cuba e quem não, porque muitas vezes se intercalavam. Por exemplo, havia venezuelanos que vinham trabalhar comigo, que trabalhavam em Washington, que estavam subordinados à Fundação Pan-americana e à CIA, e vinham a Cuba também para me treinar, e trazer suprimentos. Daí nasce a ideia de criar uma fundação, um projeto que se chamou Gênesis.

O Gênesis é talvez a matriz, como ideia, de muitas das coisas que acontecem no mundo no dia de hoje, nesse momento, porque o Gênesis é um projeto dirigido aos jovens universitários cubanos. Estavam fazendo algo similar na Venezuela. Por que, o que acontece? A ideia era transformar as universidades — universidades que sempre foram revolucionárias, que tinham produzido revolucionários, de onde saíram muitos dos revolucionários de ambos os países —, em universidades que fossem fábricas de reacionários. Então, como você pode fazer isso? Formando líderes. O que começaram a fazer na Venezuela? Enviavam estudantes para a Iugoslávia, financiados pelo Instituto Republicano Internacional (IRI), que era financiado pela USAID e pelo Albert Einstein Institute, e os enviavam, em grupos de dez, com seu professor.

Sabe os nomes dos venezuelanos?

Não, estamos falando que enviaram centenas. Eu falava com o professor, e olhava um grupo e depois outro. Porque estavam trabalhando no longo prazo. Era o mesmo plano contra Cuba. O Gênesis promovia, dentro da universidade, um plano de bolsas de formação de líderes para estudantes cubanos e professores cubanos. O plano era muito parecido. Inclusive, em 2003, eles prepararam aqui, em Havana, um curso na Seção de Interesses dos Estados Unidos que se chamava Derrubando um Líder, derrubando um ditador, que está baseado na experiência de [do movimento] Otpor para tirar Milosevic do poder. E é a ideia, dentro da universidade cubana, estavam trabalhando no longo prazo, porque todos esses projetos têm sempre um prazo longo para que tenham resultado. Por isso, também começaram cedo na Venezuela. Eu acho, inclusive, não tenho provas, mas acho que na Venezuela começaram antes do governo de Chávez, porque o plano de transformar as universidades latino-americanas, que sempre foram fontes dos processos revolucionários, em universidades reacionárias, para reverter a situação e criar uma nova direita, é mais antigo que o processo venezuelano.

A CIA só trabalha em Caracas?

Não, trabalha em toda a Venezuela. Mas, naquele momento, o Gênesis tinha um plano de bolsas para formar líderes em Cuba. Propunham aos estudantes uma bolsa em uma grande universidade norte-americana, ou uma grande universidade europeia, para se formarem como líderes, com tudo pago. Cobriam suas despesas, lhes davam bolsas completas. Estamos falando de 2004-2005. Era muito evidente. Então, esses líderes voltariam à universidade em algum momento. Eram estudantes. Terminariam sua graduação. Esses líderes, quando terminassem suas graduações, ocupariam diferentes cargos, diferentes possibilidades, como engenheiros, como licenciados em diferentes setores da sociedade cubana, mas alguns estariam constantemente preparando líderes dentro da universidade. Uma das missões mais importantes dos líderes das universidades era ocupar a liderança das principais organizações juvenis da universidade. No caso de Cuba, estamos falando da União de Jovens Comunistas e da Federação Estudantil Universitária, ou seja, [a ideia] não era criar grupos paralelos nesse momento, mas liderar as organizações que existiam em Cuba. Ao mesmo tempo, formar um grupo de líderes nas estratégias de golpe suave. Ou seja, treinar gente para que, quando o momento fosse oportuno, no momento ideal, pudessem acontecer as famosas revoluções de cores ou guerras não violentas, que você sabe bem que, de não violentas, não têm nada.

Que perfil buscam em um professor, para ser cooptado?

É muito fácil no caso dos professores. Identificam na universidade professores descontentes com a instituição, gente frustrada, porque consideram que a instituição não lhes banca, ou não reconhece seus méritos. Se são idosos, melhor ainda. Não especificam. Escolhem pessoas idosas para que você as selecione. Se ele recebe uma bolsa, ou e, de repente, recebe um convite para participar de um grande congresso internacional de determinada ciência, ele vai estar eternamente agradecido, porque foi você que descobriu seu talento, que nunca tinha sido reconhecido pela universidade. Então, constroem um currículo desse homem que você manda estudar fora, que é da sua universidade e que participa de um grande evento e tem sua obra publicada. Quando [um professor desse tipo] regressava a Cuba, regressava com um tremendo currículo, porque tinha participado de um evento científico de primeiro nível, passado por cursos em grandes universidades, e seu currículo tinha se tornado muito bom, portanto, a influência que ele poderia ter na universidade era maior, porque poderia ser reconhecido como uma personalidade em sua especialidade, embora na prática o homem fosse um ignorante.

E, quão eficientes eram esse tipo de cooptações, esse tipo de missões que eles vinham cumprir?

No caso de Cuba, não deu muito resultado. Primeiro, por uma razão importantíssima: quem estava dirigindo o projeto era eu, e eu realmente não era um agente da CIA, era um agente da Segurança Cubana, portanto, todo o projeto passava por minhas mãos, e esperava-se que eu o executasse, o plano passava sempre pelo trabalho que eu podia fazer, e o que fazíamos era atrapalhá-lo o máximo possível, ao termos conhecimento, de imediato, do que se estava planejando. Mas atente para o fato de que o fim do plano estava calculado para o momento em que desaparecessem as figuras históricas da Revolução. Eles estavam calculando um prazo de cinco ou dez anos para que Fidel desaparecesse da cena política, e desaparecessem de cena Raúl e os líderes históricos do país. Esse era o momento que estavam esperando, quando isso acontecesse, [um movimento] deveria surgir da universidade, com todo o apoio da imprensa internacional e com todo o apoio das ONGs, da USAID, e de toda esta gente que trabalha ao redor do dinheiro norte-americano da CIA, e surgiria uma organização que se apresentasse publicamente como uma alternativa ao que a Revolução estava fazendo. Isso é o que acontecia com a Fundação Gênesis para a Liberdade.

O que é essa Fundação?

A Fundação Gênesis para a Liberdade deveria ter um discurso aparentemente revolucionário porque a ideia era confundir as pessoas. A ideia é que dissessem que eram revolucionários, que o que queriam era fazer mudanças no governo, mas, na prática, na essência do projeto, quando você se perguntava qual era o projeto, o discurso e o projeto eram exatamente os mesmos da direita tradicional, porque as mudanças que eles promoviam eram as mudanças que a direita, fazia tempo, estava promovendo dentro do país. Na prática, quase tiveram a grande oportunidade, segundo o critério deles, em 2006, quando foi dada a notícia na televisão de que Fidel, por razões de doença, deixava de ocupar as responsabilidades que tinha no governo, e eles sempre disseram que a Revolução Cubana, no dia que Fidel morresse, iria cair. Porque a Revolução era Fidel e a Revolução cairia no dia seguinte ao que Fidel não estivesse ali, se morresse ou saísse do governo, e calcularam que aconteceriam confrontos internos, que haveria descontentamento com isso, com aquilo. Cálculos que não sei de onde tiraram, mas acreditavam neles. E, naquele momento, acharam que era hora de começarem a atuar.

Estamos falando de 2006. E qual era o plano?

Contataram-me automaticamente. Nos reunimos com o chefe da representação da CIA, aqui em Havana, e também apareceram diplomatas, e um me disse: “Vamos organizar uma provocação. Vamos organizar um levantamento popular em um bairro central de Havana, que tenha uma pessoa que esteja disposta a liderar, pela democracia, e vamos executar um grupo de provocações, em diferentes locais, de forma que as forças de segurança cubanas se vejam obrigadas a atuar contra essa gente, e depois vamos armar uma grande campanha de imprensa” — e começa a explicar como todo isso ia funcionar. O interessante disso, o que chamava muito a atenção, era como poderia ser possível que um servidor público da Seção de Interesses dos Estados Unidos tivesse o poder de convocar os principais meios de comunicação, e que essa gente o obedecesse com esse servilismo? Era muito chamativo. A ideia era [um disparate]; inclusive eu lhe disse: “Isso que você está me dizendo é um disparate. Este homem que você menciona, — o rapaz que eles tinham escolhido para ser o cabeça do levantamento se chamava Alci Ferrer, um agente jovem, médico — esse rapaz não vai liderar ninguém. Ninguém vai protestar no centro de Havana.”

A data que tinham escolhido era nada menos que o dia do aniversário de Fidel, e me disseram: “Esse [é o] dia!”, e eu disse: “Olha cara, se esse homem, nesse dia, resolver fazer um discurso, ou quiser incitar qualquer coisa no centro de Havana, o povo vai responder forte, inclusive, é possível que o matem. Porque, se ele se põe em um bairro de trabalhadores humildes a fazer essas coisas, os vizinhos...”. E ele me diz, textualmente: “O melhor que pode acontecer é que matem esse homem; se matam esse homem, seria perfeito”, e me explica o que iria acontecer. “Só falta ele provocar. Que saiam para a rua, e que aconteça um enfrentamento ali. Se acontecer isso, a imprensa vai se encarregar de construir o resto”, e completa: “Vamos armar uma grande campanha midiática para demonstrar que em Cuba há caos; que em Cuba há ingovernabilidade; que em Cuba, Raúl é incapaz de sustentar as rédeas do Governo; que a população civil está sendo assassinada, que os estudantes estão sendo reprimidos na rua, assim como o povo na rua, que a polícia está cometendo crimes”. Qualquer semelhança com a Venezuela não é puro acaso. Assim é.

Então, o que deveria acontecer nessas circunstâncias?

Uma vez que estivessem criadas todas as matrizes de opinião, e que todas as matrizes midiáticas tivessem construído essa imagem, que o mundo inteiro tivesse a visão de que em Cuba estava acontecendo um grande desastre, e que estavam matando pessoas; e que tudo estava acabando, minha organização deveria cumprir a tarefa final.

Qual era a tarefa final?

Bom, convocar a imprensa internacional, em minha condição de professor universitário, em minha condição de escritor, em minha condição de líder dessa organização, solicitar publicamente ao governo dos Estados Unidos a intervenção de Cuba para garantir a vida dos civis e para trazer tranquilidade e paz ao povo cubano. Falar ao país em nome do povo cubano. Imagina só!

Esse plano fracassou. Não deu certo, mas, quando você vê, depois, a maneira como se armou a guerra na Líbia, a maneira como foi construída. Mais de 80% da informação que vimos foi construída, fabricada. O mesmo fizeram na Síria, o mesmo na Ucrânia. Tive a oportunidade de conversar com muitos ucranianos, agora que estiveram nas bases. Pessoas que estão a favor de se unirem à Europa. Eu procurei falar com eles esses dias. Buscando saber como foram esses processos. E eles ficaram assombrados com as imagens que o mundo transmitiu. O que aconteceu em Miami , e eles mesmos o dizem: “Nós estávamos protestando aí, mas essas coisas que aparecem na televisão, isso era um grupo, ou seja, tinha setores, locais onde havia grupos de direita, de uma direita muito extrema, onde houve incidentes desse tipo, e onde botaram fogo, mas, a maior parte das manifestações não teve essas caraterísticas”. Ou seja, esta é, uma vez mais, a repetição do esquema, usando todos os meios de comunicação.

O relacionamento entre o da CIA e as embaixadas, nos respetivos países, é direto, então?

Sim, totalmente. Cada embaixada da América Latina, todas as embaixadas norte-americanas têm oficiais da CIA, trabalhando dentro delas, que utilizam a fachada de servidores públicos diplomáticos.

Até onde você sabe, onde há maior presença da CIA na região?

Bom, em um determinado momento, o Equador foi uma potência forte nisso, tinha uma concentração forte e, com certeza, a Venezuela, porque em 2012, quando eu fui à Feira do Livro em Caracas, toda essa gente que trabalhou comigo contra Cuba, todos os oficiais da CIA, inclusive Kelly Keiderling, estavam em Caracas. E eu participei de um programa de televisão, lá na [emissora] Venezuelana de Televisão, no qual falamos sobre esse tema, sendo muito cuidadosos porque estamos falando de dois países que têm relações. Esse não é o caso de Cuba, ou seja, Cuba não tem relacionamentos com os Estados Unidos, é um inimigo declarado. Mas estávamos falando de servidores públicos que tinham relações diplomáticas e era muito embaraçoso fazer isso, sem ter provas concretas que pudessem ser apresentadas. Assim mesmo, a entrevista e a denúncia do que estava acontecendo foram feitas. Kelly Keiderling é uma perita nesse tipo de guerra. Eu não tenho a menor dúvida. Quando se segue o itinerário dela... Os países onde esteve, e quando esteve nesse tipo de conflito.

Ela percorreu uma série de países do mundo, onde ocorreram situações muito semelhantes a que ela se empenhou em realizar na Venezuela. E quando você analisa a Venezuela e o que aconteceu nos últimos dias e a maneira como se atuou, eu penso que na Venezuela foram tremendamente agressivos na manipulação da informação. Tremendamente agressivos. Chegarem a tal ponto que é uma torpeza, porque há imagens que evidentemente nem são na Venezuela. Eu estava vendo uma muito famosa, na qual aparece um soldado com um jornalista, com uma câmera, que são coreanos. Essa é uma imagem da Coréia. São asiáticos. Não se parecem em nada com um venezuelano. Inclusive os uniformes que utilizam. Foram muito agressivos com a imagem que se projetou ao mundo do que acontece na Venezuela. Controlam os meios. A maior parte das pessoas do mundo está vendo a imagem do que eles estão querendo dizer.

Eles controlam a mídia, há algum jornalista, conhecido ou não conhecido, que você tenha visto nos processos de treinamento?

Não.

A CNN, por exemplo?

Não. Tinha um cara que estava muito vinculado, em um dado momento, à mim aqui, que serviu de ligação para que eu conhecesse um oficial da CIA, que era o Antony Golden, que era de Reuters, mas, enfim, era um elemento  independente de Reuters. A CNN tem estado sempre muito vinculada a todas essas coisas. A CNN, desde o período de trabalho [da CIA], e sobretudo nessa última etapa de trabalho, e, especialmente a CNN em espanhol, tem sido uma ferramenta indiscutível do trabalho desta gente, mas, o problema é que é necessário entender uma coisa para poder compreender o que está acontecendo: para poder armar uma campanha destas é necessário entender que, hoje em dia, não existe nenhum tipo de canal de televisão que atue por si só. Aí estão os conglomerados das comunicações, e quem os dirige? Por exemplo, a Time Warner e a Aol, e todas essas grandes companhias da televisão a cabo, de televisão em general, de cinema, enfim, quem é o dono? É a Westinghouse, a General Electric. Os mesmos que te fabricam um avião de combate, a mesma indústria armamentista norte-americana, é a mesma gente que hoje em dia é dona das cadeias de televisão, das produtoras de cinema, dos jornais, das editoras de livros. Então, os mesmos caras que produzem um avião de combate, e que [produzem] um biscoitinho doce que você vai comer à noite, que te apresentam um artista, são os mesmos que dirigem os diários do mundo inteiro. A quem responde essa gente?

Quando você vê o que está acontecendo na Venezuela, e compara com o que tinha planejado em Cuba, a que conclusão pode chegar?

É uma estratégia nova, que foram desenvolvendo com a experiência que tiveram no mundo inteiro, mas vejo, estou convencido, de que só deu certo, quando nesses locais o povo não apoia a revolução. Conseguiram com [Slobodan] Milosevic [ex-presidente iugoslavo] porque Milosevic era um líder na Iugoslávia já com uma imagem muito decadente, por causa das coisas que aconteciam na Iugoslávia. Aconteceu o mesmo na Ucrânia, porque [Viktor]Yanukovych [ex-presidente ucraniano] era um homem que tinha muito pouco apoio popular, e deu resultado em outros locais, a partir do pouco apoio que tinham os governantes, por parte do povo. Onde quer tenha havido um governo legítimo, um governo sólido, e gente disposta a defender a revolução, o plano fracassou.

E, para que fase passamos quando esse plano falha?

Vão continuar tentando, eles vão continuar [se] aperfeiçoando. Nós somos o inimigo. Ou seja, Venezuela, Cuba, tudo o que se está fazendo na América Latina como uma alternativa. Nós somos os dissidentes do mundo. Nós vivemos em um mundo onde o capitalismo domina. Onde domina essa nova maneira de ser do capitalismo, que já nem sequer se pode chamar de imperialista, é algo novo, algo que vai bem além do que os estudiosos do marxismo escreveram na história, anos atrás. É algo novo, inovador. É um poder praticamente global das grandes transnacionais, desses megalopólios que criaram. Então, nós somos o inimigo. Nós estamos apresentando um projeto alternativo. A solução que o mundo nos propõe não é essa. Nós sabemos como fazer, e Cuba, Venezuela, os países da Alba [Aliança Bolivariana para as Américas], demonstraram que pode ser feito, que não é nada mais, [que dure] um ou dois dias. A Revolução Cubana tem 55 anos de existência. Está validada por 55 anos de existência, e, com vontade política, conseguiu fazer coisas que o governo norte-americano, nem com todo o dinheiro do mundo, conseguiu. Então isso é um mau exemplo.

Eu dizia a meus estudantes, vocês imaginam se os “indignados ” na Espanha, se os milhares e milhões de operários que na Espanha não têm trabalho, se os gregos, se toda essa gente no mundo inteiro, soubesse o que nós estamos fazendo? Você imagina se as pessoas soubessem quem é Chávez? Ou quem é Fidel? Ou as coisas que estamos fazendo aqui? E as coisas que estamos fazendo com tão poucos recursos, só com a vontade de fazer a revolução, e repartir a riqueza? O que aconteceria com o capitalismo? Quanto duraria o capitalismo, que tem de gastar biliões de dólares, todo os dias, para construir sua imagem e enganar as pessoas? O que aconteceria se as pessoas soubessem quem somos realmente? Que coisa é realmente a Revolução Cubana, e que coisa é, realmente, a Revolução Venezuelana? Porque, se você fala com um espanhol e pergunta a ele sobre Chávez, ele te dá uma opinião péssima de Chávez porque é o que construíram em sua mente; e você encontra um desempregado que te diz que Chávez é um cara terrível porque a mídia o convenceu que é assim, mas, se essa gente soubesse do que se trata realmente [...] Então, eles não podem permitir que inimigos tão formidáveis, como nós, estejamos ali, à porta.

Do ponto de vista da soberania nacional de nossos povos, como pode ser freado o trabalho da CIA? Já falávamos da consciência do povo, que é fundamental neste tipo de ações, mas, concretamente, como se pode prever o trabalho da CIA? O que pode ser feito? Que recomendações faria?

Penso que há uma coisa que Chávez disse, e que Fidel também disse sempre, que é a chave para derrotar o império, que é a unidade. Não é uma palavra de ordem, é uma realidade. É a única forma que você tem de derrotar um projeto como esse. Projeto surgido dos Serviços Especiais, e surgido do capitalismo. Só é possível com a unidade popular.

Estaríamos falando de uma unidade cívico-militar?

Sim, a unidade em todos os sentidos. A unidade baseada na diversidade, nos povos, mas, a unidade como nação, a unidade como projeto. Onde quer que as pessoas se dividam, há outra realidade.

Onde é necessário se concentrar? Em que área é necessário concentrar a força, para se defender deste tipo de ações, deste tipo de ataques?

O exército para derrotar isso é o povo. Eu acho que a experiência cubana o ensinou muito bem. Há experiências no mundo que mostram muito claramente. O que aconteceu no mundo, quando não foi o povo o protagonista da defesa da revolução? E quando o povo foi protagonista, o que aconteceu? E é o caso de Cuba. Nós conseguimos derrotar milhões de vezes a CIA e o Império porque o povo foi o protagonista.

A CIA utiliza o banco de dados das redes sociais, e esse tipo de coisas, para definir seus planos?

São os donos. São os donos disso. Bom, aí estão as denúncias de [Edward] Snowden e tudo o que saiu no Wikileaks, e todas essas coisas que, não é que seja um segredo para ninguém, porque se suspeitava, mas está demonstrado. Está demonstrado que os servidores, a internet, são deles. Todos os servidores do mundo, afinal, morrem nos servidores dos norte-americanos. São a mãe da internet e de todas as redes e os serviços estão controlados por eles. Eles têm acesso a toda informação. E não põem limites na hora de gravar. O Facebook é um banco de dados extraordinário. As pessoas põem tudo no Facebook. Quem são os amigos, que gostos têm, que cinema veem, o que consomem. E essa é uma fonte de informação em primeiríssima mão.

Tem estado em contato com Kelly Keiderling, após o que passou na Venezuela?

Não, não tive contato com ela. Não sei qual foi seu destino final, depois do que aconteceu (ela foi expulsa da Venezuela por se reunir com terroristas e financiá-los).

Com a experiência que ela tem, até que ponto pode ter penetrado na Venezuela, e nas universidades venezuelanas?

Eu tenho certeza de que chegou bastante longe. É uma agente muito inteligente, muito bem preparada, muito capaz, e muito convencida do que está fazendo. A Kelly é uma pessoa convencida do trabalho que está realizando. Convencida da justeza do seu ponto de vista, do que está fazendo. Porque é uma representante incondicional do capitalismo. Porque provém da elite do capitalismo. É orgânica da ação que está realizando. Não há nenhum tipo de contradição. E, baseado na experiência de seu trabalho, de sua capacidade, tenho a segurança de que ela conseguiu chegar bem longe, conseguiu chegar bem longe e deu continuidade a um trabalho que não é de agora, é um trabalho que vem sendo feito há muito tempo, de reverter o processo nas universidades venezuelanas. Mas até onde podem chegar, no longo prazo, é o processo bolivariano que vai mostrar, na medida em que as pessoas tenham consciência do que pode acontecer. Se essa direita fascista se tornar incontrolável, conseguirá chegar ao poder outra vez.

Qualquer pessoa que tenha contatos, que tenha como chegar ao povo, qualquer ativista de um movimento, pode ser cooptado pela CIA?

Vão encontrá-lo, vão tentar fazê-lo. Se for jovem e líder, vão tentar cooptá-lo para seus interesses. Nós temos de formar os nossos líderes. Nós não podemos deixar isso à espontaneidade, nem podemos deixar isso ao inimigo. Então, se deixamos ao inimigo, são espaços que o inimigo ocupa. Um projeto alternativo que nós deixamos sem atender, que não percebemos a necessidade de nos aproximarmos dele, é um projeto do que o inimigo vai tentar, por todos os meios, tomar para si. Usando a enorme quantidade de dinheiro que tem para isso, que não tem limite, quanto a recursos que pode utilizar, porque está em jogo o futuro e, sobretudo, os jovens são a chave.

O bom é que os jovens são o presente da América Latina. A revolução latino-americana que está aqui, que está em todos os lados, é dos jovens. Se não fosse, bem, nunca teria resultado, e se você conseguisse que esses jovens pensassem diferente, se você conseguisse que esses jovens achassem que este capitalismo selvagem é a solução a todos seus problemas, então, não há revolução para a América latina. Simplesmente.

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Fonte:http://operamundi.uol.com.br/conteudo/entrevistas/34549/planos+da+cia+avancaram+muito+na+venezuela+diz+ex-agente.shtml

Mais fatos sobre Pasadena que a mídia esconde

27.03.2014
Do blog CAFEZINHO, 23.03.14
Por Miguel do Rosário

Acabo de publicar no Tijolaço o texto abaixo, que me custou um domingo inteiro de pesquisa.
Agora as coisas ficaram mais claras. Os brasileiros foram enganados mais uma vez pela mídia. As notícias sobre a refinaria de Pasadena trazem informações vergonhosamente manipuladas.
O assunto foi politizado com fins eleitorais, de maneira que o PT tem a obrigação de vencer o seu medo já patológico da mídia e enfrentá-lo de cabeça erguida. Até porque está em jogo aqui muito mais do que o PT. Estão jogando contra a Petrobrás e, portanto, contra a nossa soberania econômica.
Mais que isso, estão tentando passar a perna nos brasileiros e matar vários coelhos com uma só pancada. Desgastar a presidente, tirando-lhe votos, e de bucha forçar a Petrobrás a vender por alguns trocados uma refinaria que, para ser construída novamente, num lugar tão estratégico como o canal de Houston, custaria talvez mais de 2 bilhões de dólares. Talvez muito mais que isso.
Eu tiro esse valor de várias fontes. Em 2003, em sua coluna no Baltimore Sun, o jornalista Jay Hancock estima que construir uma refinaria igual à de Pasadena custaria mais de 1 bilhão. O New York Times, por sua vez, informa que a estimativa inicial do governo do Paquistão para construir uma refinaria de petróleo com capacidade para 40 mil barris por dia, é de 600 milhões de dólares. A construção da Abreu Lima, em Pernambuco, com capacidade de 230 mil barris por dia, está custando US$ 17 bilhões. Qual o objetivo em nos fazer acreditar que uma refinaria situada no coração do corredor petrolífero dos EUA, funcionando a pleno vapor, com capacidade para processar até 120 mil barris por dia, não vale os US$ 1 bilhão pagos pela Petrobrás? Sem contar que, neste bilhão estão incluídos estoques e milionários custos processuais. O preço efetivamente pago pela refinaria foi a metade disso.
Pasadena, aliás, vale mais que dinheiro. Como tudo que envolve segurança energética, ela também possui um valor estratégico e político.
Para adaptar-se às novas exigências ambientais, a refinaria de Pasadena passou a adotar, a partir de 2005, um sistema que reduz drasticamente a emissão de gases poluentes na atmosfera.
A implantação dessa tecnologia pela Astra foi um dos motivos que fizeram seu preço subir tanto de 2005 para 2006.
Uma coisa é comprar uma refinaria com gravíssimos problemas ambientais, trabalhistas e logísticos.
Outra coisa é comprar uma refinaria que investiu mais de US$ 100 milhões para se adaptar às rígidas exigências ambientais vigentes hoje nos Estados Unidos, e que também resolveu suas outras pendências.
A mídia repete que a Petrobrás pagou US$ 360 milhões por uma refinaria que tinha sido vendida por apenas US$ 42 milhões no ano anterior. E aí houve uma incompetência incrível por parte da comunicação da Petrobrás e do governo. O próprio Gabrielli confundiu a opinião pública ao dar a informação, até hoje não confirmada, aliás, por nenhum documento, nem mesmo por um mísero link para alguma reportagem, sem contextualizá-la adequadamente.
Fica parecendo que estamos falando de um carro que alguém compra por 42 mil reais e depois revende por 360 mil.
Refinaria não é carro.
O valor de uma refinaria é medido pelo seu posicionamento estratégico (no caso de Pasadena, ela está localizada no coração do principal “corredor” energético da maior potência do planeta), pelo maquinário usado, assim como pela existência ou não de pendências tributárias, trabalhistas e ambientais.
A Astra comprou uma refinaria cheia de problemas. Pasadena tinha vivido, a partir de meados dos anos 90, a maior greve da história da indústria petrolífera, a qual apenas foi resolvida em 2002.
A poderosa OCW, o principal sindicato de trabalhadores da indústria petrolífera dos EUA, vinha lutando há muitos anos contra a Crown Central Petroleum (nome da refinaria antes de ser comprada pela Astra, em 2005). A Crown era acusada de violar direitos humanos, racismo, poluição, falta de segurança, entre outros problemas.
Em 1999, a estatal petrolífera da Noruega informa que não iria mais trabalhar com a Crown Central Petroleum enquanto ela não respondesse às denúncias.
Todos pareciam odiar a refinaria, e com razão.
A empresa, então controlada por Henry Rosenberg, era acusada de racismo contra trabalhadores afrodescendentes, e de não tomar cuidado para evitar a poluição jogada sobre a vizinhança pobre, a maior parte composta de latino-americanos.
Para piorar, uma série de explosões vinham causando transtornos à refinaria. Só em 2001, foram três.
É preciso considerar todos esses fatores quando se analisa o negócio feito pela Astra no início de 2005.
Sob a nova direção, todos esses problemas seriam resolvidos.
Astra ainda ganharia a sorte grande, na forma de uma tragédia, ocorrida no mesmo ano. Os furacões Katrina e Rita causaram danos a inúmeras refinarias do Texas. Pasadena sofreu alguns danos, mas poucos. Entretanto, com a redução da oferta causada pela paralisação de dezenas de refinarias da região, as cotações do produto refinado disparariam, aumentando exponencialmente o faturamento daquelas que permaneceram em atividade.
E aí entra a Petrobrás na história. O ano é 2006 e o seu presidente era Sérgio Gabrielli.
A Petrobrás ainda vivia a era anterior à descoberta do pré-sal. Mas já tinha planos ambiciosos de expansão internacional.
Quer dizer, à luz dos projetos atuais da estatal, de centenas de bilhões de dólares, o plano de investimento da Petrobrás em 2006, para o período 2007 a 2011, parece até tímido. Em 2006, Gabrielli viaja à Londres, Nova York e Boston para apresentar o novo plano de investimento da empresa.
Segundo esta apresentação, a empresa pretendia investir US$ 75 bilhões no período, sendo US$ 12 bilhões fora do país
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Grande parte desses investimentos internacionais seria feito na exploração de petróleo no golfo do México. A empresa esperava aplicar, fora do Brasil, o seu know how de prospecção e exploração em águas profundas. Deu certo. De 2001 a 2005, a Petrobrás vinha anunciando várias descobertas no Golfo.
Comprar uma refinaria nos EUA era um sonho da companhia desde 1999. Com sua entrada no golfo do México, a ideia agora parecia ainda melhor. A razão é simples. A Petrobrás exploraria petróleo e gás no golfo e usaria a refinaria de Pasadena, que tem acesso ao golfo através da baía de Houston, para processá-los e vendê-los ao consumidor norte-americano.
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Negócios com refinaria, como qualquer outro do setor de petróleo, sofrem com as variações bruscas de preço. Naquele momento, o preço dos derivados vinha subindo rapidamente, e as perspectivas eram excelentes.
É muito fácil, hoje, criticar Gabrielli e o Conselho de Administração por decisões feitas em 2006. Os anos de 2006 a 2007 foram férteis em decisões que se revelaram, no mínimo, questionáveis, ou mesmo desastrosas, nos anos seguintes. Em 2008, algumas das melhores e mais tradicionais empresas do mundo, como a General Motors e a Lehman Brothers, declaram-se à beira da falência. A primeira é praticamente estatizada pelo governo americano, em mais uma prova de que a ideologia neoliberal é um dogma apenas para economistas subdesenvolvidos. A secular Lehman, por sua vez, vai pro saco.
A utopia hegemônica pós-queda do muro de Berlim, de que um mundo regido pelas leis do mercado e pela competência da iniciativa privada traria uma longa e estável prosperidade, terminou em pesadelo. Governos do mundo desenvolvido tiveram que torrar trilhões de dólares para tampar o buraco deixado pela má-gestão temerária de até então respeitadas corporações privadas.
Em 2008, a crise financeira mundial faz o preço dos derivados de petróleo despencarem, reduzindo a lucratividade das refinarias. É neste momento que a Petrobrás, que vinha descobrindo, sucessivamente, novas reservas gigantes de petróleo em águas ultraprofundas da costa brasileira, decide suspender, por tempo indefinido, seus planos de investir na refinaria de Pasadena. Até então, a Petrobrás planejava investir quase US$ 2 bilhões em Pasadena para dobrar a sua capacidade de refino, dos então 100 ou 120 mil barris para algo próximo de 200 mil barris/dia. O projeto previa a construção de uma nova unidade processadora, dentro da refinaria, voltada para óleos pesados, como é o petróleo brasileiro até hoje extraído nas áreas do pós-sal. Desistiu disso, por enquanto. Paradoxalmente, o pré-sal trouxe um grave problema de caixa à Petrobrás. Para que a empresa possa converter aquele óleo sujo e malcheiroso, situado a milhares de metros abaixo da superfície marinha, em dinheiro para aplicarmos em educação, ela antes tem que investir dezenas ou mesmo centenas de bilhões de dólares em maquinários, plataformas, tecnologia e mão-de-obra. A empresa está numa caça alucinada por recursos, vendendo seus ativos no mundo inteiro, numa tentativa de fazer caixa e focar investimentos nas novas reservas descobertas. Está vendendo inclusive alguns ativos que possuía no Golfo do México.
No momento, a Petrobrás parece não saber o que fazer com a refinaria de Pasadena. Vender agora não valeria a pena, porque não conseguiria o preço que deseja.
Desde 2012, entretanto, o mercado de refino tem melhorado, elevando a lucratividade das refinarias. Em outubro de 2012, o New York Times publicou um artigo cujo título, traduzido livremente por mim, significa: “Refino de petróleo volta a criar fortunas”.
A descoberta de novos campos de gás e petróleo no golfo e no Texas trouxe vida nova às refinarias da região, onde também se localiza a de Pasadena, porque lhes deu competitividade sobre suas concorrentes no exterior. Ao invés de pagar altos preços por petróleo importado do oriente médio, as refinarias texanas agora podem se beneficiar de novos campos descobertos no sul do estado, que lhe fornecem matéria-prima a um custo muito menor. Segundo o New York Times, o lucro das refinarias da região cresceu 400% de 2008 a 2012.
Em julho do ano passado, o site especializado Oil Price fez uma entrevista com Fadel Gheit, diretor e analista sênior de uma respeitada empresa do setor, na qual Gheit afirma que o negócio com refinarias, que durante tanto tempo foi o patinho feio da indústria do petróleo, agora estava se transformando num lindo cisne. O título da matéria vai direto ao ponto: “O negócio com refinaria nos EUA será a gema da indústria do petróleo”. Repare bem o que ele disse: refinarias nos EUA.
É preciso muito cuidado, portanto, para evitar que interesses obscuros utilizem o momento eleitoral para pressionar a Petrobrás a vender uma refinaria estratégica, situada no centro do cinturão petrolífero do país mais rico do mundo.
prosapolitica-charge-do-pelicano
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Fonte:http://www.ocafezinho.com/2014/03/23/mais-verdades-sobre-pasadena-que-a-midia-esconde/

ALTMAN: "A PRESIDENTE FALARÁ ESTA NOITE?"

27.03.2014
Do portal BRASIL247
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Fonte:http://www.brasil247.com/pt/247/poder/134618/Altman-A-presidente-falar%C3%A1-esta-noite.htm