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domingo, 16 de março de 2014

Joaquim Nabuco, a desconstrução da escravidão e a insanidade da sociedade

16.03.2014
Do portal FAZENDO MEDIA, 09.03.14
Por  Fábio Nogueira
Latuff
Latuff
Os fenômenos dos rolezinhos iniciados no final do ano passado expõem o lado hipócrita das classes dominantes brasileiras, as mesmas que em dezembro estavam chorando por Nelson Mandela. Nos noticiários de TV’s, periódicos e internet observamos o clamor das pessoas pela morte do líder da luta contra a segregação racial na África do Sul.
Os rolezinhos abalaram as estruturas de uma classe econômica e formadora de opinião nas zonas residenciais mais ricas do eixo Rio-São Paulo. A iniciativa foi organizada por jovens oriundos das favelas, locais onde o poder público por sua perversidade deixa não somente o jovem mas também todos os moradores sem qualquer tipo de lazer e cultura.
Contudo, quando esses mesmos favelados resolvem “invadir” o território de um habitat hostil a tudo aquilo que é diferente, o espírito de união de Mandela desaparece como fumaça. Vimos na internet e outros veículos os vômitos das pessoas que têm pavor a gente diferenciada, não padronizada à estética anglo-saxônica. Quase dizendo: O que eles querem aqui?
O livro A busca de um caminho para o Brasil – A Trilha do círculo vicioso, do professor Hélio Santos da USP, é bastante claro e direto quando o assunto é saber qual é o seu devido lugar. Ele explica o porquê de falarmos sobre o cordial racismo à moda brasileira.
Quando o assunto é dividir os espaços físicos há séculos dominados por aqueles que mandam e desmandam nesse país, a cordialidade racista diz sutilmente que você deveria estar no seu “lugar” e não se misturar para contaminar. De certa maneira, cita o professor, a ascensão social do negro mexe nas estruturas de um sistema escravista que ainda está ativa em nossas mentes. Afinal, todos nós ainda temos um pouco do senhor de engenho dentro de nós.
O livro faz um paralelo de dois Brasis: o primeiro persiste em não dividir os conhecimentos, privilégios e status, e o outro com sua população majoritariamente negra tenta se largar de vez dos grilhões do que sobrou da escravidão.
Nós últimos onze anos ocorreram avanços no campo social. Melhorou a condição dos mais necessitados, inclusive com destaque às políticas de ações afirmativas ou cotas nas universidades. A população negra foi a maior beneficiada, mas vista com ojeriza pelas classes dominantes.
Coincidência ou não, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) das domésticas criou uma verdadeira revolta nas madames que tinham naquela empregada uma “quase” pessoa da família. Quase, porém sem carteira assinada e dormindo em verdadeiros cubículos. Há casos em que os closets (armários de roupas e sapatos) são muito maiores que os quartos das domésticas. Esse é o Brasil tão falado pelo mundo pela formação de seu povo. Tão lindo e tão belo.
Somos realmente um povo de características contraditórias. As mulheres, por exemplo, embora representem a maioria da população brasileira, são espancadas e mortas diariamente. Apesar disso, sempre criticamos os países islâmicos. Criticamos também os Estados Unidos pela segregação racial, por massacrar os índios e negros, mas somos o país onde se registra a maior taxa de homicídios entre negros e índios. E, agora, entre os homossexuais.
Que país é esse tão contraditório?
Semanas atrás, na cidade do Rio de Janeiro, um jovem de rua, negro, foi espaçando por “justiceiros” de classe média. O rapaz foi deixado na rua nu e ensanguentado, lembrando os tempos da escravidão. O mais estarrecedor da história são os comentários nas redes sociais: à beira da bizarrice e sanidade mental.
Neste contexto, a frase de Joaquim Nabuco continua atual: Nossas mentes não foram abolidas, há muito do senhor de engenho dentro de nós, simplesmente não assumimos como tais. Para o brasileiro, basta esconder a sujeira e está tudo ótimo. A vida segue e continuaremos a matar negros, mulheres, índios e homossexuais. O pior ainda nesse caso do menino foi uma jornalista, achando-se a voz da verdade, apoiando tais atitudes em rede nacional.
A onda direitista da mídia conservadora tem ganhado adeptos com o mesmo perfil. Os argumentos beiram o absurdo, pregam a volta de fantasmas (os militares) que há anos deixaram suas marcas sentidas até hoje. Outra bizarrice se encontra na área do legislativo federal, onde são famosas as bancadas de políticos representados por setores com objetivos próprios e não da população: os latifundiários, a saúde privada, educação privada e religiosa, etc. Esta última tem apresentando projetos bem próprios do conservadorismo extremo.
Do outro lado, há uma classe que se perpetua em baixo desses grupos com forte poder econômico, machistas, racistas e homofóbicos. Eles estão massacrando quem ousa desafiá-los. Até quando? Sou daqueles que ainda acredita numa revolta popular, para mudarmos e conquistarmos uma sociedade mais justa e igualitária para gerações futuras. Um lugar onde todos possam crescer num mundo solidário.
A desconstrução da escravidão e sua obra requer muita luta. A onda de protesto no Brasil surtirá efeito quando todos que lutam por liberdade colocarem suas vaidades de lado em favor de um país melhor. Uma nação onde todos possam realmente ter as mesmas oportunidades de direitos.
Para isso, a educação é fundamental. Uma pedagogia inclusiva, com a diversidade do povo brasileiro. Pois a atual educação brasileira, nascida sob o ciclo da exclusão, não serve de mais nada. É preciso pensar que tipo de país realmente queremos para as gerações vindouras. Estamos preparando esta geração para conviver com as diferenças? O tempo nos responderá.
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Fonte:http://www.fazendomedia.com/joaquim-nabuco-a-desconstrucao-da-escravidao-e-a-insanidade-da-sociedade/

O Brasil e a América Latina, segundo Perry Anderson

16.03.2014
Do portal da Agência Carta Maior, 24.02.14
Por Marco Aurélio Weissheimer

Luiz Munhoz/Divulgação
O neoliberalismo segue aprofundando seu poder no mundo. Só na América do Sul a direção adotada tem sido a contrária, com maior ênfase no papel do Estado e no controle público e menos nas privatizações. A América Latina está no contrafluxo, sendo portadora de uma esperança que não existe em nenhum outro lugar do mundo hoje. E esse processo traz uma novidade importante. A maior nação do continente, o Brasil, não está na retaguarda como estava em 1820, mas sim na linha de frente. O Brasil foi o primeiro país latino-americano a cancelar uma viagem aos EUA, que costuma ser um tradicional exercício de humildade para os governos da região. Tudo isso ainda é uma obra em andamento, concluiu, mas é um processo no contrafluxo da ideologia mundial dominante que representa uma esperança para outros lugares do mundo.

A avaliação é do historiador marxista britânico, Perry Anderson, que esteve em Porto Alegre, segunda-feira (14), para uma conferência no evento Fronteiras do Pensamento. De 1815 a 2013: a América Latina e o concerto político das nações. Esse foi o tema abordado pelo historiador na conferência proferida no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Perry Anderson partiu de uma sugestão básica: a coisa mais próxima do sistema internacional de estados que vemos no início do século 21 é a ordem política estabelecida na Europa, na primeira metade do século 19, com o Congresso de Viena, conferência entre embaixadores das grandes potências europeias de então, realizada entre 1814 e 1815, com o objetivo de redesenhar o mapa político do continente após a derrota de Napoleão. Essa conferência, assinalou o historiador, resulto em um novo concerto político entre as nações europeias que se estendeu até por volta de 1853, quando eclodiu a Guerra da Crimeia. Esse concerto instituiu uma frente política entre as cinco grandes potências da época – Inglaterra, Rússia, Prússia, Áustria e França - cujos objetivos principais eram evitar o surgimento de levantes revolucionários e de novas guerras no território europeu.

Os governos dessas potências formaram uma pentarquia com o objetivo de preservar a paz no continente e, é claro, defender seus interesses políticos e econômicos. Assim como ocorre em nossos dias, como nos casos do Iraque e do Afeganistão, os integrantes da pentarquia do Congresso de Viena enfrentaram tentativas de sublevações no território europeu. Essas tentativas vieram, indicou Perry Anderson, e foram reprimidas na Itália, na Espanha e na Hungria, por tropas da Áustria, da França e da Rússia, respectivamente. Estabeleceu-se uma forma de equilíbrio, uma coordenação estabilizadora, que a Europa até então não conhecia. Durante cerca de quarenta anos, até a Guerra da Crimeia, não houve qualquer guerra importante na Europa e nenhuma sublevação.

Esse período costuma ser apontado por historiadores como um avanço civilizatório, assinalou ainda Perry Anderson. Desde o Renascimento a Europa não conhecera um período de paz tão prolongado. Os países que compunham a pentarquia tinham, é certo, importantes diferenças entre si. A Rússia czarista estava numa categoria a parte, pois ainda era uma monarquia feudal. A Grã-Bretanha, por sua vez, era a única potência capitalista avançada. Esses dois países eram as duas potências militares da época: a Grã-Bretanha possuindo o maior poder naval, e a Rússia o maior poder terrestre. Esses dois poderes hegemônicos, destacou o historiador, expandiram seus impérios, enquanto os demais disputaram franjas na periferia (a França, na Argélia e na Indochina, por exemplo, os Estados Unidos no México e outros países europeus na África, especialmente).

O que vai acabar destruindo a paz de Viena são conflitos na periferia desses impérios, como ocorreu com o barril de pólvora dos Balcãs que detonou a Primeira Grande Guerra Mundial. A partir daí, instala-se um período de anarquia competitiva entre as grandes potências que resultará em duas sangrentas guerras mundiais, como se sabe. Depois, entre 1945 e 1989, o sistema político internacional será regido pela Guerra Fria, com dois blocos opostos disputando influência no mundo. Esse período chegará ao fim em 1991, com a desaparição da União Soviética. Hoje, destacou Perry Anderson, vivemos outra metamorfose do sistema político internacional com o surgimento de uma espécie de nova pentarquia, constituída por Estados Unidos, União Europeia, Rússia China e Índia. O historiador apontou as particularidades desses novos candidatos a donos do mundo:

A União Europeia comanda o maior PIB do planeta, mas segue sendo uma confederação incompleta de Estados. A Rússia, embora bem menor que a União Soviética, ainda possui a maior massa de terras do mundo e o segundo arsenal nuclear. A Índia, em breve, será o país mais populoso do mundo e também é uma potência nuclear. Os Estados Unidos são o maior poder econômico, financeiro, tecnológico e militar. E a China é um regime comunista que preside a economia mais dinâmica do pós-guerra.

Na avaliação de Perry Anderson, estamos vivendo um lento processo de cristalização de um consenso entre essas nações. Um consenso baseado em algo mais prosaico, do que ocorreu no Congresso de Viena, mas, por outro lado, mais complexo. O perigo maior não é a ameaça da guerra, mas sim a interdependência econômica que prende essas nações em um abraço mútuo. “As principais ameaças para a estabilidade vêm da possibilidade de desordem econômica. É por isso que algo equivalente ao que foi feito no Congresso de Viena, foi criado por meios dos fóruns do G4, G7 e G20”, observou o historiador.

O risco maior para a estabilidade política internacional hoje, enfatizou, é o estouro de crises financeiras como a que ocorreu em 2008. “O início do século 21 está muito distante do universo polarizado do pós-guerra. A globalização unificou os interesses objetivos subjacentes desses países e a legitimidade interna dessas grandes potências depende da manutenção do crescimento econômico. O temor comum de todas elas é o de um colapso desse crescimento”.

E a América Latina o que tem a ver com tudo isso? Perry Anderson estabeleceu um paralelo entre os movimentos de independência e de libertação colonial que ocorreram no continente latino-americano quando o sistema político europeu era regido pelo Congresso de Viena e o recente ciclo de governos progressistas na região que caminham na contramão da ortodoxia neoliberal que domina a economia mundial. Quando a contrarrevolução triunfou na Europa, com o Congresso de Viena, a América Latina viveu um momento de emancipação. Um dos fatores que contribuiu para isso, no âmbito da política europeia, foi o enfraquecimento da Espanha que era objeto de preocupação por parte da pentarquia. Em 1823, exemplificou o historiador, uma revolução liberal na Espanha foi esmagada pela França. E será a Grã-Bretanha que ditará as condições e os termos da independência brasileira.

Com o colapso do sistema do Congresso de Viena, a América Latina ganhou espaço para respirar e se reavivar politicamente. A primeira grande revolução do século XX, lembrou Anderson, ocorreu no México. “Os Estados Unidos estavam muito preocupados com a Primeira Guerra Mundial e a situação de anarquia internacional”. Seguiram-se outros processos revolucionários em países como Nicarágua, El Salvador, Cuba, Bolívia, Chile, Peru e Venezuela, entre outros. Onda após onda, as revoltas populares marcaram a América Latina no século 20. No último quarto do século, houve uma guinada neoliberal em praticamente todo o continente. Pela primeira vez, destacou o historiador, o continente estava alinhado com a ideologia dominante do capitalismo global.

No século 21, isso mudará abruptamente com o surgimento de governos de esquerda e progressistas na Venezuela, Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador, Peru e Chile. “Raramente essas experiências se articulavam como ocorreu no início deste século”, apontou. Nenhuma dessas experiências é igual, reconheceu Perry Anderson, mas elas apresentam um fato comum. “Com todas as restrições e ressalvas necessárias, há um fato que é expressivo. O neoliberalismo segue aprofundando seu poder no mundo. Só na América do Sul a direção adotada tem sido a contrária, com maior ênfase no papel do Estado e no controle público e menos nas privatizações. Esse é um panorama similar ao que tivemos no século 19. Com as guerras no Iraque e no Afeganistão, os Estados Unidos deixaram a região um pouco de lado. A América Latina está no contrafluxo, sendo portadora de uma esperança que não existe em nenhum outro lugar do mundo hoje”.

E uma novidade importante desse processo, disse ainda Anderson, é que a maior nação do continente, o Brasil, não está na retaguarda como em 1820, mas sim na linha de frente. “O Brasil não faz parte da pentarquia (“por não ter armas nucleares e estar muito longe da Eurásia, entre outras razões”, mas em vez disso, oferece ao mundo um novo horizonte de reformas sociais”. Falando sobre o recente episódio da espionagem praticada pela Agência Nacional de Segurança dos EUA contra o governo e empresas do Brasil, Perry Anderson destacou a reação da presidenta Dilma Rousseff: “Foi o primeiro país latino-americano a cancelar uma viagem aos EUA, que costuma ser um tradicional exercício de humildade para os governos da região”. Tudo isso ainda é uma obra em andamento, concluiu, mas é “um processo no contrafluxo da ideologia mundial dominante que representa uma esperança para outros lugares do mundo”.
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Fonte:http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/O-Brasil-e-a-America-Latina-segundo-Perry-Anderson/6/29203

O capitalismo como religião

16.03.2014
Do porta FAZENDO MEDIA, 24.02.14
Por Fábio Py Murta de Almeida
O capitalismo como religiãoO livro “O capitalismo como religião” chega ao público brasileiro no ano de 2013 sendo uma obra de quatro mãos. Não que tenha sido escrito por mais de uma pessoa: seu responsável fora o filósofo judeu-alemão Walter Benjamin.
Contudo, na forma que o livro se encontra é um esforço editorial do franco-brasileiro Michael Lowy, radicado em Paris como professor do École de Hautes Études en Sociences Sociales (EHESS). Ele organiza a série de escritos avulsos de Benjamin, com o intuito de unir fragmentos de momentos diferentes da vida do filósofo mais que em conjunto mostram o legado anti-capitalista do filósofo, até quando assumia o limiar místico.
No livro Michael Lowy também nos brinda com uma introdução a vida e a obra do filósofo judeu alemão intitulada: “Walter Benjamin, crítico da civilização”, ela que além de apresentar a vida informa o lugar vivencial dos textos do filósofo, bem como se detém em cada fragmento com seus interesses. No exercício explicativo demonstra três eixos temáticos da trajetória intelectual de Benjamin: a questão da prática, o problema da modernidade individualista e a questão do novo romantismo. A fim de cumprir tal intuito o livro separou dezessete fragmentos na seguinte ordem. O texto que abre a organização contém o título do livro: “O Capitalismo como Religião”: defendendo que o capitalismo é uma religião cultural, com uma celebração de um culto sem sonho, sem piedade.
Seu culto é baseado na culpa, transformando a culpa em universal, expressando até a ideia da deidade em torno da culpa. De forma, simplificadora “o capitalismo é uma religião puramente de culto, desprovida de dogma” percebendo que ele “se desenvolveu como parasita do cristianismo” (p. 23) – não só demonstrado na base do calvinismo mais nas tendências cristãs ortodoxas.
O fragmento “Romantismo” (1913, produzido por conta de um congresso da juventude) é voltado à comunidade, a juventude e contra o individualismo moderno. Benjamin conclama os jovens a desistir do romantismo falso ligado ao indivíduo, pois, para ele, “nada não há de verdadeira no que nos oferecem de dramas ou heróis da história, de vitórias da técnica e da ciência” (p.54). O verdadeiro romantismo (esquecido da juventude) é um indefinido, ligado a franqueza, aos nexos espirituais e da história do trabalho.
No “Drama Barroco e tragédia”, Benjamin compara dois estilos artísticos de época. Na tragédia o herói morre símbolo de ironia, pois “a morte é a imortalidade irônica; esta é a origem da ironia trágica” quando “a morte constitui uma imortalidade irônica; irônica por sua determinante desmedida; a morte trágica (…) isso é a expressão propriamente dita da culpa do herói.” (p.61). Já, o tempo do drama barroco é finito, e em sua generalidade não mística.
Por outro lado, Benjamin retoma as comparações do drama barroco e a tragédia em seu: “O Significado da Linguagem no Drama Barroco e na tragédia” (1916) percebendo que no trágico como legalidade do discurso oral dos homens a partir do original humano. Nela, “cada discurso é tragicamente decisivo, palavra por palavra é imediatamente trágica”. No drama barroco, o som impregna a obra com dois princípios que o ordenam metafisicamente, circularidade e a repetição, pois, a “música é o círculo do sentimento (…) que destrói a tranqüilidade do anseio profundo que dissemina a tristezas da natureza”. O “mundo do drama barroco é um mundo especial que sustenta sua validade grandiosa e equivalente também frente à tragédia” (p.67).
Na continuação o fragmento “As Armas do Futuro” (1925) é escrito em decorrência dos confrontos e os ocorridos na I Guerra Mundial, quando utilizaram armas químicas (que ocasionaram as bombas químico-nucleares da II Guerra). Critica os métodos químicos destacando o estado das cidades européias antes e depois de sua utilização, entende que antes nelas havia “cheiro parecido com o das violetas”, e com a utilização das armas químicas “logo em seguida, o ar se tornará sufocante.”. Vislumbra o contra-senso do projeto armamentista das nações quando “a França possui hoje pelo menos 2500 aeronaves no serviço ativo à paz” (p.70).
Para ele, o capitalismo moderno do início do século XX constrói um dilema quando seu projeto de paz é armada, o que se amplia no uso de gazes nos confrontos armados: “o gás mostarda corroeu a carne e quando não acarreta diretamente na morte, produz queimaduras cuja cura demanda de três meses” (p.71).
Depois, Benjamin dá espaço aos livros que mais marcaram sua vida até 1929. O que revela no texto: “Livros que permanecem vivos”; o primeiro livro é Spatromishe Kunstindustrie de Alois Riegl, no qual a partir do império romano antigo percebe que toda descoberta científica desenrola numa revolução procedimental. O segundo é Eisenbauten de Alfred Gotthold, quando relaciona a fundição do ferro do século XIX com a história da construção das casas. O terceiro éEstrela da Redenção de Franz Rosenzweig que trás uma proposta sistemática de teologia judaica, a partir da intervenção da dialética hegeliana da obra de Herman Cohen. A última obra (e não menos importante) é a História e consciência de classe de Georg Lukács, obra filosófica coesa do marxismo, uma reunião crítica a filosofia e a luta de classes na direção da revolução concreta.
Em 1929, escreve comentários aos livros de E.T.A. Hoffmann e Oskar Panizza. Autores que se preocupam com o social, o político e o religioso. Chama Panizza de teólogo mesmo contabilizando ataques radicais a igreja e papado, com posição irreconciliável ao ofício teológico como E.T.A. Hoffmann que era artista e “despejava todo seu escárnio e toda sua raiva”. Hoffmann tinha afinidade com romances que giravam em torno do “catolicismo medieval e, sobretudo do seu complemento, as missas negras, a bruxaria e o satanismo” (p.136), assim, Benjamin se interessa por temas negros, de protesto frente às religiões oficiais.
Ainda em 1929 escreve uma resenha de “Brion, Bartolomé de las Casas”, onde desponta elementos interessantes ao cristianismo da libertação, quando ao invés de o bispo manter o “domínio sobre a Índia”, ele “em nome do catolicismo (…) se contrapõe aos horrores cometidos em nome do catolicismo” (p.172) no destaque o filósofo critica a forma das estruturas das grandes religiões.
Entre 1930 e 1931 escreve “Crítica Teológica. Sobre Willy Haas, Gestalten der Zeit” desenvolvendo traços de Kafka, Talmude, Kierkegaard, Tomás de Aquino, Pascal, Inácio de Loyola. Apropria-se de Kafka com direito a exegese da sua teologia da fuga, embasado no contexto de uma teologia no romance criminal. Na obra, a teologia tem um sentido pleno, levada pela arte com aspectos destrutivos, quando a iluminação teológica determina a política quanto da economia.
Os últimos quatro artigos na resenha são da década de 1930. O primeiro é do ano de 1931, “Um entusiasta da cátedra: Franz von Baader”, escreve sobre Baader e suas conexões com Schelling, o caracterizando como ‘filósofo da natureza’. Para Benjamin, Baader pensava em direção ao infinito com uma máquina elétrica, uns escolásticos e outros místicos. Ele penava pelo caminho dos românticos, passando pela vida interior com nova paisagem intelectual, sendo ligado ao espiritualismo extremo chegando a estudar o montanhismo.
No primeiro momento, apropriava-se das teorias físicas e industriais se aproveitando das teorias românticas da natureza, para, posteriormente, se envolver ao universalismo contraposto romântico da atuação congestionada de Goethe. Buscava com suas intervenções cumprir metas de conciliação das esferas cristãs com as ações místicas e politicamente estava à frente dos contemporâneos vislumbrando a “situação social das classes trabalhadoras” com seu romantismo da práxis.
Em 1937, escreve: “Béguin, L’âme romantique” quando enfatiza o romantismo alemão, como excelência de romantismo. No escrito busca não perceber as teorias românticas como corretas, mas, como as histórias que brotam de locais, espaços. Para ele, o romantismo completa um processo que havia sido iniciado nos oitocentos com a secularização da tradição mística – mesmo que Novallis seja uma afirmativa mística. Afirma que o período da secularização da tradição mística coincidiu com o desenvolvimento social e industrial que colocou “em cheque a experiência mística perdendo o legado sacramental” (p.144). No ano de 1938 produz dois textos: “Instituto Alemão de Livre Pesquisa”, e, “Crônica dos desempregados alemães”.
No texto sobre o instituto destaca seu legado interdisciplinar orientando os trabalhos na condição do desenvolvimento social e de sua teoria. O instituto lutou contra o positivismo, pois “considerava a sociedade burguesa como eterna e tratar suas contradições – tanto teóricas quanto práticas – como bagatela” (p.151). Também foi algo de Frankfurt o pragmatismo americano pela relação monolítica de teoria e práxis. Isso por que, o instituto tinha a pretensão de avaliar criticamente na modernidade o conhecimento e a ciência.
Agora, sobretudo, nos trabalhos do instituto se tecem críticas ao conjunto da consciência burguesa percebendo na figura de Robespierre, a consistência de uma liderança burguesa, quando o “terror no fim das contas, adere esse fantástico e há um fantástico, e há um tipo de interiorização que é capaz de se manifestar como crueldade” (p.156).
No segundo texto de 1938, “Crônica dos desempregados alemães. Sobre o romance Die Rettung, de Anna Seghers”, reconhece que alguns romancistas feriam o privilégio burguês entre eles, Hamsun que “deixou de lado as ‘pessoas simples’ (…) que os êxitos que obteve se deve em parte à natureza bastante complexa das suas pessoas humildes do campo” (p.159), num tempo difícil pela quantidade de pessoas desempregadas no país. A autora avista os proletários que pouco significavam a época, por que eram implicantes e tinham a iniciativa de viver como as outras pessoas. Por isso, se afastavam deles mesmos o que ocorreu em Findlingen – povoado minerador. Sua esperança estava no jovem Lorentz, desempregado, que “deixou, no povoado cinzento, o rastro luminoso que Bentsch jamais esquecerá” (p.162).
Essa centelha de esperança do relato de Anna Sehers faz dela aos olhos de Benjamin, a ‘cronista dos desempregados alemães’, cuja base é a fábula o que fornece a seu livro um toque romanesco. Além disso, percebe que para se libertarem das amarras político-sociais a aposta de redenção seria nas crianças proletárias, pois não “serão esquecidas tão cedo por nenhum leitor” (p.166).
Portanto, como foi escrito acima, no livro “O Capitalismo como religião” se percebe o esforço de se re-visitar outras fontes da rica e trágica trajetória de Benjamin. Novamente, saúda-se o empenho de Michael Lowy em organizar um punhado de textos inacessíveis que auxiliam a revelar mais do filósofo rebelde – que já maduro uniu o marxismo com neo-romantismo (do drama, do trágico, da religião e da magia).
Como se vem dizendo desde a apresentação, Lowy dá ‘liga’ a massa de textos salteados de Benjamin, afinando em mais sua compreensão. Com ela detalha-se com mais riqueza sua trajetória de formação romântica na década de 1910, sua guinada marxista heterodoxa em 1924, até sua súbita/trágica morte entre a Espanha e a França (em 1940).
Enfim, se espera que com acesso a novos textos, artigos e resenhas de Benjamin animem tanto o vetor da popularização de suas ideias no Brasil, quanto o vetor acadêmico. Pois, com novas fontes que se solidifiquem novas linhas de pesquisas nas disciplinas mais prováveis como: Filosofia, Sociologia e História; bem como também, ajude a depurar a atuação teórico/prática nos movimentos políticos alternativos (como movimentos sociais) e nos ramos embelecidos pelo cristianismo heterodoxo da Teologia da Libertação.
Serviço:
BENJAMIN, Walter. O capitalismo como religião. São Paulo: Boitempo Editorial, 2013, 192p. (Série: Marxismo e Literatura).
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Fonte:http://www.fazendomedia.com/o-capitalismo-como-religiao/

Do Estadão: como Joaquim Barbosa planejou friamente sentença e pena para fechar José Dirceu na cadeia

16.03.2014
Do blog TIJOLAÇO, 28.02.14
Por  Fernando Brito

barbosa4
Não é um petista, embora seja um desafeto do Ministro Joaquim Barbosa, que já o mandou chafurdar no lixo.
É Felipe Recondo, o repórter que o Estadão, corretamente, bancou como setorista do Supremo Federal contra a vontade de seu presidente que, inclusive, tentou vingar-se sobre a mulher do jornalista, funcionária concursada do tribunal.
Ele narra, com destalhes escabrosos da perfídia, como Joaquim Barbosa deliberou condenar sem provas o ex-ministro José Dirceu e “calculou”  a pena de forma que, além de não haver prescrição, garantisse a prisão do réu em regime fechado.
Uma armação que, quando apontada pelo Ministro Luís Roberto Barroso, a megalomania de Barbosa o fez admitir com um ”Foi para isso mesmo, ora!”
Diz Recondo, e eu grifo:
“A porta mal abrira e ele (Barbosa) iniciava um desabafo. Dizia estar muito preocupado com o julgamento do mensalão. A instrução criminal, com depoimentos e coleta de provas e perícias, tinha acabado. E, disse o ministro, não havia provas contra o principal dos envolvidos, o ministro José Dirceu. O então procurador-geral da República, Roberto Gurgel, fizera um trabalho deficiente, nas palavras do ministro.
Piorava a situação a passagem do tempo. Disse então o ministro: em setembro daquele ano, o crime de formação de quadrilha estaria prescrito. Afinal, transcorreram quatro anos desde o recebimento da denúncia contra o mensalão, em 2007. Barbosa levava em conta, ao dizer isso, que a pena de quadrilha não passaria de dois anos. Com a pena nesse patamar, a prescrição estaria dada. Traçou, naquele dia em seu gabinete, um cenário catastrófico.
O jornal O Estado de S. Paulo publicou, no dia 26 de março de 2011, uma matéria que expunha as preocupações que vinham de dentro do Supremo. O título era: “Prescrição do crime de formação de quadrilha esvazia processo do mensalão”.
Dias depois, o assunto provocava debates na televisão. Novamente, Joaquim Barbosa, de pé em seu gabinete, pergunta de onde saiu aquela informação. A pergunta era surpreendente. Afinal, a informação tinha saído de sua boca. Ele então questiona com certa ironia: “E se eu der (como pena) 2 anos e 1 semana?”.
Trata-se, portanto, de uma inversão completa da ética da magistratura e do princípio da impessoalidade na aplicação da lei.
Joaquim Barbosa, como relator do processo  definiu a sentença e a pena que desejava para o acusado e não, ao contrário, escrutinou a culpabilidade nos autos e a ela adequou sentença e pena.
“Sim, ele calculara as penas para evitar a prescrição. Ora!”, diz Recondo.
O que o repórter do Estadão narra não é um comportamento de magistrado, é um comportamento inadmissível, perante a ótica e a ética do exercício da magistratura.
Luís Roberto Barroso, diz o repórter, “não sabia dessa conversa ao atribuir ao tribunal uma manobra para punir José Dirceu e companhia e manter vivo um dos símbolos do escândalo: a quadrilha montada no centro do governo Lula “…
Mas “ apenas repetiu o que os advogados falavam desde 2012 e que outros ministros falavam em caráter reservado.”
Agora é público, e é um escândalo.
Não houve alguém que veio “com o voto pronto”, como acusou Barbosa a Barroso.
Houve alguém, relator do processo, que veio com uma sentença e uma pena prontas, independentes dos autos,  com o propósito específico e deliberado de evitar uma prescrição e encarcerar  um réu em regime fechado.
É, em tese, crime de responsabilidade.
Mas não há nem onde nem quem possa ser capaz de julgar o imperador.
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Fonte:http://tijolaco.com.br/blog/?p=14744

Falta educação financeira aos consumidores

16.03.2014
Do portal FOLHA DE PERNAMBUCO, 15.03.14
Por Amanda Claudino, da editoria de Economia 


Cerca de 23,5 milhões de brasileiros entraram na lista de inadimplentes em 2013


Fonte: Serasa, SPC e Senacon

 O cenário econômico do País mudou, mas as atitudes dos consumidores brasileiros não. A prova disso é que, mesmo em uma época de inflação ainda sob controle, de baixa taxa de desemprego e de forte estímulo ao consumo, cerca de 23,5 milhões de brasileiros entraram na lista de inadimplentes em 2013, segundo dados da Serasa Experian. Nos últimos cinco anos, de acordo como SPC, 52 milhões de brasileiros deixaram de pagar, pelo menos, uma dívida. Aliado a isso, grande parte dos consumidores ainda não temo hábito de poupar parte das suas finanças e nem de correr atrás de seus direitos, bandeiras reforçadas neste sábado, no Dia Mundial do Consumidor. 

Na opinião do economista da Serasa, Luiz Rabi, embora o número de inadimplentes esteja em estabilidade, ainda é bastante alto. A inadimplência dos consumidores brasileiros é maior, por exemplo, do que a dos colombianos e mexicanos. “Antes, a inadimplência se justificava porque o índice de desemprego era alto e o salário era corroído pela inflação. Hoje, isto não existe mais. É problema de excesso de compromissos e falta de controle“, explicou Rabi. Durante cinco anos, as contas do analista de suporte, João Clayton*, 38 anos, não fechavam no fim do mês. 

“Eu tinha um carro e tudo que ganhava, usava para manter o carro, mas eu tinha outras despesas do dia-a-dia. Para conseguir pagar tudo, usava o cartão de crédito e o cheque especial”, lembrou. Para conseguir quitar as dívidas, que chegaram a R$ 10 mil, ele conseguia empréstimos consignados. “A gente vai fazendo uma coisa aqui, outra ali, e, quando vê, já virou uma bola de neve”, contou.

Há um ano, depois de muitas indas e vindas nos cadastros do SPC e da Serasa, Clayton conseguiu quitar todas os seus débitos. “Vendi meu carro antigo e paguei uma parte das dívidas. Com um novo consignado, consegui quitar o restante”. Com o que sobrou do dinheiro, ele deu entrada em um carro novo. “Eu me reeduquei: diminuí as saídas no fim de semana, cortei os gastos desnecessários. Ainda sobra um pouco no fim do mês, mas eu não poupo”, disse. Poupar, aliás, é um hábito que poucos brasileiros têm. 

Em um levantamento realizado pelo SPC, os pesquisadores perguntaram aos consumidores quantos deles conseguiram poupar alguma quantia no mês anterior: 54% dos entrevistados revelaram não ter conseguido guardar nada. O problemas dos brasileiros, de acordo com professor de economia da Faculdade Boa Viagem Roberto Ferreira, é histórico. “Vivemos cinco décadas em um processo inflacionário descontrolado e isso criou um hábito do comprar ‘aqui e agora’, com medo de que houvesse perda no poder de compra”, explicou. 

* Nome fictício para preservar a fonte..

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Fonte:http://www1.folhape.com.br/cms/opencms/folhape/pt/economia/noticias/arqs/2014/03/0062.html

Maduro diz que EUA assumem abertamente liderança de plano para derrubá-lo

16.03.2014
Do portal OPERA MUNDI, 14.03.14
Por Luciana Taddeo | Caracas     

Presidente venezuelano afirmou que vice norte-americano, Joe Biden, tentou fazer lobby contra Caracas durante posse de Bachelet, no Chile
O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, afirmou nesta sexta-feira (14/03) que os Estados Unidos assumiram “a liderança aberta” de um plano para derrubá-lo. Segundo ele, há informação direta de chefes de Estado que altos funcionários do governo dos Estados Unidos, como o vice-presidente Joe Biden, estão fazendo lobby contra o país sul-americano.


“Já é evidente, os Estados Unidos assumiram a liderança aberta do derrocamento do governo da Venezuela, é assim. O governo dos EUA neste momento é refém das políticas do lobby republicano e dos lobbies de direita de Miami. Houve lobby como não se via há não sei quanto tempo”, expressou o chefe de Estado em coletiva de imprensa realizada no Palácio de Miraflores.

Agência Efe

Segundo Maduro, Biden fez críticas em diversas reuniões de que participou no Chile, na posse de Michele Bachellet. “O continente saiu como um só para lhe dizer: deixem quieta a Venezuela, tirem suas mãos da Venezuela”, disse. “Estão levando o presidente [Barack] Obama a um abismo, vai se chocar com a Venezuela e vai acabar de se isolar contra toda América Latina e o Caribe”, considerou.


Maduro disse ainda que se tentou mostrar os protestos venezuelanos como uma “Primavera Árabe”, mas que a primavera venezuelana se deu em 1989, na onda protestos contra o pacote de medidas neoliberais de Carlos Andrés Pérez, conhecida como “Caracaço”, e na constituinte realizada no início do governo de Hugo Chávez, que levou à elaboração da nova Constituição do país.

Mais cedo, o chanceler venezuelano, Elías Jaua, disse que o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, era o principal alentador da violência nas manifestações que se registram no país há um mês e o denunciou como “assassino do povo venezuelano”. “Não vamos baixar o tom com nenhum império enquanto vocês não ordenarem a seus lacaios na Venezuela o cessar da violência contra o povo”.


O Departamento de Estado dos EUA, por meio de sua porta-voz Marie Harf, declarou posteriormente que os funcionários venezuelanos que atribuem a Washington a onda de protestos “estão faltando descaradamente com a verdade” sobre o que está acontecendo no país sul-americano. Kerry tinha afirmado, na última quarta, que os EUA estavam dispostos a aplicar sanções contra a Venezuela ou invocar a Carta Democrática Interamericana da OEA (Organização das Nações Unidas).


O secretário de Estado disse, no entanto, que ainda confiava que outros países da região assumissem um papel “mais ativo” para influenciar no avanço do diálogo entre o governo e a oposição.


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Fonte:http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/34375/maduro+diz+que+eua+assumem+abertamente+lideranca+de+plano+para+derruba-lo.shtml

Denúncia de “regalias” de Dirceu reflete o desespero da mídia

16.03.2014
Do blog TIJOLAÇO
Por  Miguel do Rosário

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Além de ser capa da Veja, Dirceu também aparece diariamente no jornal O Globo, sempre numa reportagem negativa e mentirosa sobre “regalias”. Hoje, domingo de seu aniversário não podia ser diferente. Na página 10, a reportagem traz o título que já diz tudo: “Dirceu faz aniversário sob suspeita de regalia”.
Até onde vai a pequenez dos homens?
Os barões da mídia conseguiram cumprir seu objetivo: prenderam Dirceu. Nesta sexta-feira, os jornalões estamparam enormes manchetes falando que o mensalão chegou ao fim. Folha, Globo, Estadão trouxeram infográficos gigantescos, daqueles que jamais fizeram para o trensalão ou para o mensalão tucano.
Só que o mensalão não acabou. Os jornais ficaram viciados nesse tipo de história. Não basta prender os petistas. É preciso humilhá-los até se tornarem poeira.
Suponho, todavia, que a mídia passou muito da medida.
Dirceu é um homem agora com quase 70 anos, preso na Papuda. Onde a nossa mídia quer chegar com essa perseguição dentro do presídio?
Nunca se viu isso nem com bandidos ou traficantes famosos.
A Veja faz uma reportagem de capa para “denunciar” que Dirceu tinha uma unha encravada?
Na verdade, a imprensa incorre numa contradição absolutamente ridícula.
Como se pode achincalhar, na grande mídia, um cidadão que está preso, ou seja, que não pode responder, e ao mesmo tempo dizer que ele tem “regalias”?
Como se pode omitir a informação que Dirceu está encarcerado ilegalmente em regime fechado, pois deveria estar cumprindo o regime semi-aberto, que é a sentença definida pelo próprio Judiciário, e afirmar que Dirceu tem “regalias”?
Ao agir com tanta arbitrariedade, a mídia transforma José Dirceu num mártir. A mesma coisa vale para Genoíno. Até Delúbio Soares, que foi um dos nomes mais pisoteados, porque era quem efetivamente lidava com dinheiro, está recuperando prestígio, diante da violência midiática contínua de que é vítima.
Não importa a profundidade com que a mídia procura enterrar esta semente; ela voltará a germinar e a buscar o céu e a liberdade.
Alguns barões da mídia já deveriam ter percebido que não se deve esticar uma corda além de suas capacidades físicas. Ela vai arrebentar.
A violência da mídia contra o PT se tornou patológica, doentia. E qual o resultado? Num dos anos mais difíceis para o partido, porque lideranças carismáticas foram condenadas e presas, após um julgamento que inúmeros juristas consideraram político, e que jovens vieram as ruas protestar contra tudo e todos, o PT foi a legenda que mais ganhou filiados.
E agora, analistas da própria grande imprensa prevêem que o PT amplie sua bancada no Congresso para mais de 100 deputados.
O mundo real se distancia cada vez mais das ficções políticas da mídia. Esta esqueceu algumas lições simples do que poderíamos chamar de “economia da justiça”. Em sua obsessão por baixar o preço de Dirceu, a mídia apenas está deixando-o mais acessível a mais gente.
O povo não entende direito o que aconteceu no mensalão, até porque a mídia jamais quis explicar. Mas o entendimento de que há uma perseguição, tornada cada vez mais ridícula, na medida em que o homem já está preso e não pode se defender, e agora se aproxima dos 70 anos de idade, isso é fácil de assimilar.
A revolta contra essa perseguição faz muito mais do que as críticas aos erros da Ação Penal 470. Ou melhor, confirma estes erros, na medida em que, se houvesse uma condenação justa, a mídia não precisaria apelar para essa tentativa de criar um “pós-julgamento” e uma condenação “extra”, além daquela que os réus já estão cumprindo.
A perseguição à Dirceu reflete o desespero da mídia para não perder o controle sobre a narrativa da Ação Penal 470. Ao se apegar em assuntos tão “profundos”, como a denúncia de que Dirceu comeu um lanche do Mac Donalds dentro do presídio (segundo uma fonte “em off”), a mídia tenta abafar as críticas crescentes à conduta do ministro Joaquim Barbosa.
No entanto, apenas adia uma tendência inevitável: a sociedade considerar o julgamento do mensalão uma grande fars
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Fonte:http://tijolaco.com.br/blog/?p=15444

Chile, as três filhas e seus três pais

16.03.2014
Do portal da Agência Carta Maior
Por Eric Nepomuceno

Na posse presidencial, o sorriso luminoso de Isabel, filha de seu pai, Salvador Allende, e de Michelle, filha de seu pai, Alberto Bachelet, alumbrou tudo.  

Arquivo
Na política, como na vida, muitas vezes as coincidências e os simbolismos ajudam a restabelecer a verdade, a resgatar o passado, a reivindicar a memória. Fazem justiça e mostram que os que acreditam que a realidade é muito mais rica, diversificada e surpreendente que a mais delirante das imaginações têm razão. É o que acaba de acontecer no Chile.

Primeiro, a filha de um militar – um brigadeiro – torturado e morto se reelege presidente. Sua frustrada adversária é filha de outro militar – outro brigadeiro – que comandava a unidade onde seu colega de armas e amigo da vida inteira foi assassinado.
    
Segundo: terminada a votação democrática, onde a nova mandatária teve 62% dos votos, chega a hora de receber a faixa presidencial em cerimônia solene. E a vencedora a recebe das mãos de outra mulher, a presidente do Senado, filha, por sua vez, do homem que sonhou com chegar ao socialismo pela via democrática e pacifica e preferiu se imolar antes de entregar o poder aos abjetos e indignos golpistas.

As três são filhas, as três têm pais, e têm nome e sobrenome: Michelle e Alberto Bachelet, Evelyn e Fernando Matthei, Isabel e Salvador Allende.

A primeira vai presidir o Chile pelos próximos quatro anos. A terceira presidirá o Senado. Aliás, e a propósito, Isabel Allende (favor não confundir com a escritora) é a primeira mulher a presidir o Senado chileno em seus pouco mais de dois séculos de existência.  E seu primeiro ato oficial foi justamente dar investidura presidencial a Michelle, filha de Alberto Bachelet, militar legalista, fiel a Salvador Allende – e que por isso foi preso, torturado e assim morreu.

Resta à terceira mulher dessa história, a terceira filha, tentar não naufragar, com seu ressentimento à tiracolo, nas águas plácidas onde jazem os esquecidos, os desimportantes.
    
No auge da cerimônia da posse presidencial, Isabel Allende perguntou a Michelle Bachelet: “Senhora presidenta eleita, jura desempenhar fielmente o cargo de presidente da República?”.  A resposta veio num jato: “Prometo”. Não deixa de ser significativo, num país tão católico, prometer em vez de jurar. Não deixa de ser significativo, em qualquer país do mundo, deixar claro que prometer – empenhar a palavra – é mais do que jurar.

A segunda presidência de Michelle, a filha de Alberto Bachelet, começa com uma ampla lista de problemas e desafios. Para começar, o Chile é um país com crescimento robusto (a média dos quatro anos do direitista Sebastián Piñera foi de 5,5% anuais), mas também é uma das nações de maior desigualdade social num continente especialmente desigual. Há que ver até que punto Michelle conseguirá corrigir distorções como esta.

Além disso, o panorama econômico insinua tempos turbulentos: Piñera deixa como legado poucos recursos em caixa, uma moeda desvalorizada, uma inflação cujo nível de pressão ainda é tolerável mas que poderá entrar em espiral se o preço do cobre nos mercados internacionais continuar baixando. Ao mesmo tempo, deixa um país onde são necessários urgentes investimentos públicos em vários segmentos, a começar pela educação e em energia (o Chile, embora tenha abundantes recursos hídricos, tem sua geração de energia baseada essencialmente em carvão e petróleo).

Michelle Bachelet encontra várias reformas à espera de atenção emergencial – a reforma educacional, a tributária, e muito especialmente a reforma constitucional.

A atual Constituição chilena é de 1980. Foi herdada de Pinochet. E como se esse estigma fosse pouco, ou talvez justamente por isso, contém lacunas profundas e aberrações absurdas. As titubeantes tentativas de Piñera para impor tênues reformas tropeçaram no veto dos mais radicais de seu próprio espectro político e ideológico.

Todos os desafios conhecidos e anunciados, e todos os que irão aparecendo em cascata, terão como ponto de partida o trabalho dessas duas filhas, Michelle e Isabel, de seus dois pais, Alberto e Salvador. Pela primeira vez na história chilena as presidências da Nação e do Senado são ocupadas por duas mulheres – socialistas as duas, com um passado trágico as duas, vítimas, as duas, da mais cruel e perversa ditadura que assolou o Chile.

E mais: de uma ditadura da qual sobrevivem pesados resquícios, tanto na política quanto na sociedade. Porque o pinochetismo sobrevive ao seu abjeto criador, e está espalhado por aí. Também esse é um dos desafios que Michelle Bachelet irá enfrentar.

País que cultiva com rigor os rituais mais solenes, o Chile impõe um protocolo severo às cerimônias. No caso da posse de um presidente, então, mais e mais. A não ser pelo juramento do novo mandatário, tomado pelo presidente do Senado, não há discursos, não se diz nada mais que as rígidas palavras previstas pelo cerimonial.

Agora, não foi necessário dizer nada. O sorriso luminoso de Isabel, filha de seu pai, Salvador Allende, e de Michelle, filha de seu pai, Alberto Bachelet, alumbrou tudo. O silêncio de Evelyn, filha de seu pai, Fernando Matthei, foi de uma eloqüência magistral e esclarecedora.

Foi como uma espécie de resgate, uma correção da história para voltar ao seu leito, como uma suave, doce vingança da democracia. E assim estiveram presentes, nesse ato singular, Salvador e Alberto, ao lado de suas filhas Isabel e Michelle. E, com eles, todos os mortos e desaparecidos e todas as vítimas da longa, horrenda noite que se abateu sobre o Chile, e que de alguns anos para cá vem, pouco a pouco, se desfazendo no amanhecer, nas manhãs renovadas.

Falta muito, com certeza. É preciso debater questões que vão do aborto ao matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, há que se discutir a política externa e o lugar em que o país se situará no mapa geopolítico do continente, é preciso ver como fazer com que a educação pública que soube ser exemplo para os vizinhos recupere seu nível de qualidade, é preciso repensar a previdência social sucateada, a saúde pública abandonada.

Falta muito, mas os dias são feitos de amanheceres. Que a história continue a se escrever a si mesma, de coincidência em coincidência, de simbolismo em simbolismo. Para honrar a memória dos dois pais dessas duas filhas. Do terceiro pai, o da terceira filha, o lodo do justo esquecimento se encarregará.
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Fonte:http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Chile-as-tres-filhas-e-seus-tres-pais/6/30484