quinta-feira, 13 de março de 2014

Quem não deve não teme: Serra falta a depoimento sobre Alstom-Siemens

13.03.2014
Do blog TIJOLAÇO
Por Fernando Brito

serra carte
E olha que era só como testemunha…
Do repórter Fausto Macedo, no Estadão:
O ex-governador José Serra (PSDB) não compareceu na tarde desta quinta-feira 13, para depor como testemunha no inquérito civil do Ministério Público Estadual que investiga a compra de 320 carros da CPTM em 2008. Os advogados de Serra argumentaram que ainda não tiveram acesso aos autos e que Serra não foi notificado a tempo para comparecer ao Ministério Público.
O promotor Cesar Dario Mariano, que conduz o inquérito civil, ressaltou que “não está investigando” o ex-governador. “Serra é testemunha no inquérito”, disse o promotor.
O inquérito de Mariano é uma das investigações do MP sobre o suposto cartel de multinacionais do setor metroferroviário que teria atuado em São Paulo, entre 1998 e 2008, nos governos Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin, todos do PSDB.
A compra dos 320 carros da CPTM é alvo das investigações da promotoria porque um executivo da multinacional alemã Siemens declarou à PF que foi pressionado pelo Governo Serra para que a empresa não recorresse à Justiça contra a contratação da CAF, que venceu o certame com o preço 15% menor em relação ao oferecido pela Siemens.
O promotor informou que vai notificar novamente o ex-governador para depor como testemunha.
E depois o Serra diz que merecia uma “medalha anti-cartel”…
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Fonte:http://tijolaco.com.br/blog/?p=15312

A publicação mais canalha da história da mídia brasileira

13.03.2014
Do blog ESQUERDOPATA


Gushiken foi vítima da degeneração moral da Veja


A Veja não desceu, subitamente, ao abismo jornalístico a que chegou.

Foi um processo, foi uma caminhada em que houve marcos.

Isso me ocorre ao ler, agora, que a Justiça enfim condenou a revista a pagar uma indenização à família de Gushiken.

É uma cifra irrisória perto do tamanho da infâmia, 100 000 reais, mas é melhor isso que os 10 000 reais anteriormente determinados pela Justiça.

Gushiken foi vítima de um dos marcos da transformação da Veja num panfleto canalha: uma reportagem que falava de alegadas contas no exterior de líderes petistas.

Entre os caluniados, estava Gushiken. No texto, a revista admitia que publicara acusações de tamanha gravidade mesmo sem ter conseguido comprová-las.

Mais que uma frase, é uma confissão de má fé assassina.

Que publicação digna mata a reputação de alguém sem comprovar a veracidade de dossiês que vão dar na redação por mãos altamente suspeitas?

No caso, por trás das acusações da revista – sabe-se agora – estava uma das personagens menos confiáveis do Brasil contemporâneo, Daniel Dantas.

Fora transposta uma barreira ali, na marcha da Veja rumo ao horror jornalístico.

Mais ou menos naqueles dias, outro marco no declínio moral da revista fora estabelecido quando foi feita uma enorme resenha para louvar um romance do então redator-chefe Mario Sabino.

Publicações decentes, em casos assim, dão, quando muito, uma nota seca para registrar o lançamento de um livro de um funcionário.

Quanto mais graduado este funcionário, menor o espaço, esta é a lógica, para evitar a desmoralização da publicação perante o público e perante seus próprios jornalistas.

Mas o romance de S
abino – um notório bajulador de patrões segundo o qual o granjeiro Frias foi um gênio do jornalismo — apareceu como algo digno de Proust, ou coisa parecida.

Também ali um marco foi vencido. Uma revista que faz aquele tipo de coisa faz tudo. À luz disso você entende como colunistas como Mainardi e Reinaldo Azevedo foram ganhando espaço numa revista em cuja época de ouro — os anos 1980 — eles seriam vistos como uma abominação.

Minha interpretação para o processo de degeneração ética da Veja junta um patrão que não aceitava a decadência da revista com o advento da internet e editores fracos que não souberam mostrar a ele os limites da abjeção.

Roberto Civita jamais de livrou dos efeitos da queda de Collor. Mesmo com técnicas jornalísticas altamente discutíveis – tanto que Collor foi absolvido de todas as acusações pelo STF – o impeachment deu uma aura de poder superior à Veja e a Civita.

Os anos passaram, e a magia ficou para trás. Caso Lula fosse derrubado pela Veja, o prestígio perdido seria recuperado. Provavelmente foi isso que levou Roberto Civita a fazer da Veja o que ela é hoje.

Para tanto, ele contou com editores fracos, sobretudo Eurípides Alcântara. Um bom editor teria mostrado a Roberto Civita que a imagem da revista seria destruída com aquele tipo de jornalismo.

“Estou protegendo você de você mesmo”, em algum momento o editor diria. Mas quem conhece Eurípides sabe que um comportamento altivo diante do patrão está acima de suas possibilidades.

Fomos colegas de redação na Veja no começo da década de 1980. Uma jornalista que era chefiada por ele me contou um pequeno episódio que não é grande senão por revelar a personalidade de Eurípides.

Elio Gaspari, diretor adjunto, chamara a repórter e Eurípides para reclamar de um texto que chegara às mãos dele.

Elio falou de uma coisa que Eurípides tinha feito. Imediatamente, como me contou na época a jornalista, ele pisou no pé dela para que ela ficasse calada e não dissesse que o erro era de Eurípides.
Fraude criminosa

Gushiken acabou sendo vítima do afrouxamento moral da revista. Mais importante que a cifra em si é uma frase usada na sentença: “falácia de doer na retina”.

Não foi o único triunfo póstumo de Gushiken. Também o editor da seção Radar, Lauro Jardim, foi condenado a 10 000 reais de indenização por uma nota na qual afirmava que Gushiken pagara com dinheiro público uma conta de cerca de 3 000 reais num restaurante.

Lauro é um caso clássico do que a Veja faz com as pessoas que trabalham lá. Contratei-o, em meados dos anos 1990, para ser editor da Exame no Rio de Janeiro.

Nunca imaginei que Lauro acabaria fazendo parte de um jornalismo tão sujo quanto este da Veja. Era um bom rapaz, e foi absolutamente corrompido por um ambiente tóxico e amoral.

Carregará para sempre o anátema de ser um dos principais homens desta Veja que está aí.

Quanto a Gushiken, não viveu para ver as reparações judiciais.

A imagem com que passará para a história é a de um homem íntegro que lutou por um Brasil melhor, e foi por isso perseguido.

Quanto à Veja, a posteridade conferirá a ela o título de publicação mais canalha da história da mídia brasileira.


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Fonte:http://esquerdopata.blogspot.com.br/2014/03/a-publicacao-mais-canalha-da-historia.html

FHC diz que Dilma “desvaloriza” deputados. Com ele, deputado era “valorizado” para votar reeleição, né?

13.03.2014
Do  blog TIJOLAÇO, 12.03.14
Por  Fernando Brito

fhcdepuutados
Fernando Henrique Cardoso anda impossível.
Aproveitando que seu candidato é um nada, ele sentiu que pode ser alguma coisa na sucessão e anda falando pelos cotovelos.
Mas cada uma que eu vou te contar.
Claro que no tempo dele era diferente, não é?
As privatizações, por exemplo, foram super-discutidas, não foi?  Só faltou convocarem um plebiscito  para que o povo dissesse que estava louco para ver tudo vendido para estas maravilhosas empresas de telefonia e de eletricidade,não é?
E o arrocho dos salários? Só saiu porque houve multidões de trabalhadores na frente do Congresso, aos gritos de “me arrocha, me arrocha, me arrocha”!
Os servidores, então, chegavam a organizar marchas masoquistas, carregando coleiras, chicotes e outros petrechos de flagelação, implorando às autoridades que os humilhassem, maltratassem, torturassem…
E o socorro aos bancos falidos com o Proer? Querem exemplo maior de discussão? Foi começar a quebradeira e “pá-pum”, tomou-se a decisão. Certamente ouviram a população via facebook, no final de semana. O que, não tinha facebook na época? Isso é detalhe, ora…
Do mesmo feito foi a reforma da previdência, acabando com o tempo de serviço de 30 e 35 anos. Foi lindo! Aquele pessoal de cabelos embranquecidos, numa demonstração de vitalidade, enchendo a Esplanada exigindo trabalhar mais tempo e ganhar menos de aposentadoria.
O senador Paulo Paim, gritando “negro quando pinta, três vezes trinta” exigia aposentadoria só aos noventa anos, vocês lembram?
Mas nada, nada foi tão democrático quanto a reeleição. Aqueles deputados gravados dizendo que receberam dinheiro para votar, história que o jornalista Palmério Dória acabou por confirmar com o autor das gravações, o ex-deputado Narciso Mendes, no seu livro “O Príncipe da Privataria”, mostra a que nível de bom relacionamento entre Executivo e Legislativo o Brasil chegou: em lugar de deputado pedir propina, o Governo já mandava pagar, para evitar essa coisa desagradável.
Por tudo isso, Fernando Henrique, é que o povo jamais tira você da memória e quer sempre saber de que lado você está, para poder se orientar sabiamente.
E ir pro lado oposto.
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Fonte:http://tijolaco.com.br/blog/?p=15274

Duas pessoas são indiciadas por difamar ex-namorados na internet

13.03.2014
Do portal G1, 10.03.14 
Por Gilcilene Araújo
Do G1 PI

Delegada diz que jovens estavam inconformados com o fim de namoro.  Pessoas enviavam emails difamando o ex- namorado e atual companheira.

Duas pessoas foram indiciadas em Teresina pelo crime de difamação e por falsa identidade na internet. A coordenadora da Delegacia de Repressão aos Crimes Tecnológicos (Dercat), delegada Christiane Vasconcelos, afirmou que os inquéritos foram concluídos no mês de fevereiro, mas ressaltou que as investigações acontecem desde 2012. A delegada contou que o modo usado pelos suspeitos para difamar as vítimas são bem parecidos.
Delegada Cristiane Vasconcelos, titular da Delegacia de Repressão aos Crimes de Alta Tecnologia (Dercat) (Foto: Gilcilene Araújo/G1)
Delegada Cristiane Vasconcelos, 
titular da Delegacia
Dercat (Foto: Gilcilene Araújo/G1)
“Em um dos casos, uma jovem de 21 anos foi vítima de seu ex-namorado que criou uma conta de e-mail similar à sua para conversar com seus contatos. Ele difamava a moça ao se passar por ela e afirmar para os amigos e familiares que era garota de programa. A vítima ficou muito abalada porque o ex-namorado também mandou fotos sensuais da garota”, revelou.

Já no segundo caso, conforme a delegada, uma jovem foi vítima da ex do seu atual namorado. A indiciada criou conta de e-mail como se fosse homem e com este endereço passou a enviar mensagem para o rapaz dizendo que a nova companheira não era fiel.

“Ela dizia que a jovem lhe traía porque tinha relacionamentos com outros homens. Foram diversas mensagens e email como o mesmo conteúdo. Esta prática configura difamação e violência moral”, ressaltou Christiane Vasconcelos.

A delegada alerta para o fato de que essas condutas se configuram crime com penas previstas por lei. “ A punição varia de três meses a um ano porque tem menor potencial. Além disso, as vítimas também podem solicitar na justiça o pagamento de indenização por danos morais.

A Delegacia de Repressão aos Crimes Tecnológicos também investiga a morte da estudante Júlia Rebeca, de 17 anos. A jovem foi encontrada pela tia em seu quarto com o fio da prancha alisadora enrolada em seu pescoço no dia 14 de novembro de 2013, na cidade de Parnáiba, no Litoral do Piauí. A polícia investiga a hipótese da adolescente ter cometido suicídio após ter um vídeo íntimo compartilhado pela internet.
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Fonte:http://g1.globo.com/pi/piaui/noticia/2014/03/duas-pessoas-sao-indiciadas-por-difamar-ex-namorados-na-internet-em-teresina.html

Depois de morto, Gushiken derrota Veja

13.03.2014
Do BLOG DO MIRO, 12.03.14

http://pigimprensagolpista.blogspot.com.br/

Por Rodrigo Vianna, no blogEscrevinhador:

“A Veja dá a entender que não eram fantasiosas as contas no exterior. E não oferece um único indício digno de confiança. Infere, da identidade dos acusadores e dos interesses em jogo, a verdade do conteúdo do documento. A falácia é de doer na retina.” (trecho da sentença que condenou “Veja”)

Quase oito anos se passaram. A Justiça levou tanto tempo para ser feita, que a vítima dos ataques covardes já não está entre nós. Fundador do PT, bancário de profissão, Luiz Gushiken foi ministro da Secom na primeira gestão Lula. Por conta disso, teve seu nome incluído entre os denunciados do “mensalão” (e depois retirado do processo, por absoluta falta de provas)…

Mas os ataques de que tratamos aqui são outros. Em maio de 2006, a revista “Veja” publicou uma daquelas “reportagens” lamentáveis, que envergonham o jornalismo. A torpe "reportagem"  (acompanhada de texto de certo colunista que preferiu se mudar do Brasil – talvez, por vergonha dos absurdos a que já submeteu os leitores) acusava Gushiken de manter conta bancária secreta no exterior. Segundo a publicação da editora Abril, os ministros Marcio Thomaz Bastos, Antonio Palocci e José Dirceu (além do próprio Lula!) também manteriam contas no exterior.

Qual era a base para acusação tão grave? Papelório reunido por ele mesmo – o banqueiro Daniel Dantas. A “Veja” trabalhou como assessoria de imprensa para Dantas. Da mesma forma como jogou de tabelinha algumas vezes com certo bicheiro goiano. Mas mesmo ataques vis precisam adotar alguma técnica, algum rigor.

No caso das “contas secretas”, não havia provas. Havia apenas o desejo da revista de impedir a reeleição de Lula. O vale-tudo estava estabelecido desde o ano anterior (2005) – com a onda de “denuncismo” invadindo as páginas (e também as telas – vivi isso de perto na TV Globo comandada por Ali Kamel) da velha imprensa.

Pois bem. Gushiken processou a “Veja”. O trabalho jurídico (árduo e competente – afinal, tratava-se de enfrentar a poderosa revista da família Civita) ficou por conta do escritório Manesco, Ramires, Perez, Azevedo Marques Sociedade de Advogados – com sede em São Paulo. Em primeira instância, a revista foi evidentemente derrotada. Mas a Justiça arbitrou uma indenização ridícula: 10 mil reais! Sim, uma revista que (supostamente) vende 1 milhão de exemplares por semana recebe a “punição” de pagar 10 mil reais a um cidadão ofendido de forma irresponsável. Reparem que este blogueiro, por exemplo, que usou uma metáfora humorística para se referir a certo diretor da Globo (afirmando que ele pratica “jornalismo pornográfico”), foi condenado em primeira instância a pagar 50 mil reais a Ali Kamel! E a “Veja” deveria pagar 10 mil… Piada. 

Mas sigamos adiante na história de Gushiken. O ex-ministo recorreu ao Tribunal de Justiça de São Paulo. Antes que os desembargadores avaliassem a demanda, Gushiken morreu. Amigos mais próximos dizem que o estado de saúde dele (Gushiken lutava contra um câncer) se agravou por conta dos injustos ataques que sofreu nos últimos 8 anos.

Gushiken morreu, mas a ação seguiu. E os herdeiros agora acabam de colher nova vitória contra “Veja”. O TJ-SP mandou subir a indenização para 100 mil reais, e deu uma lição na revista publicada às margens fétidas da marginal.

O desembargador Antonio Vilenilson, em voto seguido pelos demais desembargadores da Nona Câmara de Direito Privado do TJ-SP (apelação cível número 9176355-91.2009.8.26.0000), afirmou: 

“A Veja dá a entender que não eram fantasiosas as contas no exterior. E não oferece um único indício digno de confiança. Infere, da identidade dos acusadores e dos interesses em jogo, a verdade do conteúdo do documento. A falácia é de doer na retina.”

Quanto aos valores, o TJ-SP sentenciou:

“A ré abusou da liberdade de imprensa e ofendeu a honra do autor. Deve, por isso, indenizá-lo. No que diz com valores, R$ 10.000,00 não condizem com a inescusável imprudência e com o poderio econômico da revista. R$ 100.000,00 (cem mil reais) atendem melhor às circunstâncias concretas.”

Chama atenção que a Justiça tenha levado 8 anos para julgar em segunda instância (portanto, há recursos possíveis ainda nos tribunais superiores) caso tão simples. O “Mensalão” – com 40 réus na fase inicial – foi julgado antes.

A Justiça é rápida para julgar pobres, pretos, petistas. E eventualmente é rápida também para punir blogueiros que se insurgem contra a velha mídia. Mas a Justiça é lenta para punir ricos, tucanos e empresas de mídia.

De toda forma, trata-se de vitória exemplar obtida por Gushiken – que era chamado pelos amigos mais próximos de “samurai”… 

E falando em samurais, há um ditado oriental que diz mais ou menos o seguinte : submetido ao ataque de forças poderosas, o cidadão simples deve agir como o bambu - sob ventania intensa pode até se inclinar, mas jamais se quebra.

O “samurai” ganhou a batalha. Inclinou-se, ficou perto de quebrar-se. Mas está de pé novamente. E é de se perguntar, depois da sentença proferida: quem está morto mesmo? Gushiken ou o “jornalismo” apodrecido da revista ”Veja”?

Nunca antes na história desse país, o Judiciário adotou expressão tão precisa e elegante para descrever fenômeno tão abjeto: a revista da família Civita produz “falácias de doer na retina”. E não são poucas.


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Fonte:http://altamiroborges.blogspot.com.br/2014/03/depois-de-morto-gushiken-derrota-veja.html

No tempo da ditadura

13.03.2014
Do blog ESQUERDOPATA, 11.03.14


“Como é que a gente faz hoje quando entra num táxi e o motorista diz que tempos bons eram os da ditadura?”, me perguntou o amigo Nirlando Beirão.

Diz que:

No tempo da ditadura, a gente não podia escrever sobre o tempo da ditadura, nem qualificar o regime como uma ditadura. No tempo da ditadura, ao invés de uma análise crítica sobre a ditadura, digo regime, neste espaço teria um poema de Camões ou uma receita de bolo, pois seria censurada.

Todo mundo que era contra a ditadura era comunista. Todos se tornaram suspeitos, subversivos em potencial. E muitos que, em 1964, conspiraram com os militares, na missão de impedir que comunistas tomassem o poder, e o Brasil se transformasse numa diabólica ditadura do proletário, perceberam a manobra e foram depois acusados de ligações com comunistas.

No primeiro ato da ditadura, o AI-1 (Ato Institucional Número 1), baixado pela Junta Militar em 9 de abril de 1964, cassaram os opositores dos comunistas, os trabalhistas: João Goulart, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, parte da bancada do PTB, partido fundado por Getúlio Vargas, como Almino Afonso e meu pai, Jânio Quadros, Miguel Arraes, o deputado católico Plínio de Arruda Sampaio, o economista Celso Furtado, o jornalista Samuel Weiner, até o presidente da Petrobras, marechal Osvino Alves. Nenhum deles era comunista.

Entre outros cassados, estavam membros da corporação que mais perseguições sofreu durante a ditadura: os próprios militares, como o general-de-brigada Assis Brasil, o chefe do Gabinete Militar, Luís Tavares da Cunha Melo, e os almirantes Cândido de Aragão e Araújo Suzano. Milhares de oficiais foram expulsos das Forças Armadas durante a ditadura.

Bem antes ditadura, o PCB (Partido Comunista do Brasil) já era ilegal, e seus líderes, eles, sim, comunistas, viviam na clandestinidade. A intenção do Golpe de 64 era impedir o avanço comunista no Brasil e restaurar a democracia em dois anos. Não demorou muito, o ex-presidente Juscelino Kubitschek, candidato à reeleição, foi cassado acusado de corrupção e colaborar com comunistas.

No primeiro teste eleitoral, em 1965, não foram eleitos os candidatos dos militares em Minas Gerais e Guanabara. Baixaram o AI-2 (Ato Institucional Número Dois). Partidos políticos foram extintos. Poder Judiciário sofreu intervenção. Foram reabertos processos de cassação. Carlos Lacerda, então aliado, dormiu conspirador e acordou subversivo.

O novo partido da situação, Arena, não engrenava. Iria ser derrotado nos Estados mais populosos. A paciência dos militares se esgotou: o AI-3 foi baixado em 1966, determinando que eleição de governadores seria indireta, executada por colégios eleitorais, e prefeitos das capitais, estâncias e cidades de segurança nacional seriam nomeados.

O AI-4, de 1966, revogou definitivamente a Constituição de 1946 e proclamou outra. O AI-5, de 1968, suspendeu as garantias constitucionais da Constituição que tinham acabado de promulgar. Despachos da presidência de República passaram a valer mais que leis. Congresso, Assembleias Legislativas e Câmeras dos Vereadores foram fechados por um ano. O Presidente podia decretar intervenção de Estados e Municípios. Estavam proibidas atividades e manifestação de natureza política e suspenso o direito de habeas corpus.

Finalmente, parte da sociedade civil que apoiou o Golpe percebeu que militares não sabiam negociar nem ser contrariados. Não têm intimidades com jogo político. Na essência, não praticam a democracia: obedecem sem questionar um comando, uma hierarquia imposta de cima para baixo.

Foram acusados de comunistas os subversivos dom Elder Câmara, dom Pedro Casaldáliga e dom Paulo Evaristo Arns, que se encontrara em 1964 em Três Rios com tropas do general Olimpio Mourão Filho, deflagrador do Golpe, para oferecer assistência religiosa.

Nos tempos da ditadura, não se discutiam os grandes investimentos. Militares construíram uma usina nuclear com tecnologia obsoleta, numa região de difícil evacuação, e duas estradas paralelas ao Rio Amazonas, a Transamazônica e a Perimetral Norte, que foram tomadas pela floresta anos depois, devastando nações indígenas. Estatizaram companhias telefônicas e de energia. Colaboraram para o desmantelamento da malha ferroviária brasileira.


Editores de livros, como Ênio da Silveira, foram presos. Jornalistas, como toda a redação do Pasquim, entre eles, Paulo Francis, foram presos. Até um escritor no início simpático ao Golpe, como Rubem Fonseca, foi censurado. Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos e expulsos do Brasil. Raul Seixas foi convidado a se retirar, depois de ironizar o regime com “sou a mosca que pousou na sua sopa”. Chico Buarque se exilou. Teatros foram depredados, atores espancados. Parte da classe teatral, como Zé Celso e Boal, foi embora. Glauber Rocha também se mandou.

O contrabando e o jogo do bicho se associaram a agentes da repressão e se fortaleceram. O crime organizado nasceu. A promiscuidade entre polícia e bandido, tema do filme Lúcio Flávio (Babenco), se consolidou na ditadura, que promoveu e anistiou depois torturadores. O Comando Vermelho surgiu num presídio da ditadura.

Ao terminar em março de 1985, a ditadura deixou uma inflação que virou hiper (a acumulada de 1984 foi de 223,90%), uma moeda desvalorizada (um dólar valia 4.160 cruzeiros), uma dívida externa que nos levou à moratória (FMI suspendeu em fevereiro de 1985 o crédito ao Brasil, que não cumpria as metas depois de sete tentativas). Outra herança: desmantelamento do ensino público.

O Brasil é governado há 20 anos por três subversivos acusados de comunistas pela ditadura: FHC, ex-professor da USP cassado e exilado, Lula, sindicalista cassado e preso, e Dilma, terrorista acusada de liderar uma organização clandestina que praticava a luta armada. Líderes do antigo PCB fundaram o PPS. Todos estão na legalidade e participam da vida democrática, como o PCB e seu racha, o PCdoB, parte da base aliada.

O Brasil talvez tenha sido vítima de uma das maiores farsas da História: nunca correu o risco de virar comunista.
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Fonte:http://esquerdopata.blogspot.com.br/2014/03/no-tempo-da-ditadura.html

Calcutá: capital colonial e metrópole indiana para se conhecer a pé

13.03.2014
Do portal OPERA MUNDI, 12.03.14
Por Luis A. Gómez | Calcutá 

Segunda área urbana mais populosa do país é um dos centros culturais e políticos mais importantes da Índia
A partir dessa região de planícies úmidas, o império britânico expandiu sua conquista do subcontinente asiático. É possível vê-la ainda da ribeira do sagrado Ganges, onde estava o famoso templo de Kali até que chegou, como sempre, um empresário com visão e ambições, buscando um lugar para se estabelecer e começar seus negócios.
Sanjay Mandal/Opera Mundi
Calcutá é a terceira maior metrópole hindu com uma malha urbana de 14 milhões de pessoas e milhares de bondes e carros 

Hoje, fica ali um bairro um velho e festivo, Kalighat, onde há festivais religiosos todas as semanas. Mas, em 1686, Job Charnok , sem dúvida um pouco nervoso, perguntou aos locais o nome do edifício. “Kalikhata”, responderam: o templo de Kali. “Oh, Calcutá então”, disse, e assim a batizaram. Chamok foi funcionário e administrador da East Indian Company, tradicionalmente considerado o fundador da cidade de Calcutá.

Centro geográfico de um imenso golfo que domina o delta do Ganges, essa cidade foi, desde então, o filtro do comércio terrestre que vinha da China ou ia para lá. Por aqui, passaram durante décadas as duas ervas mais importantes para a coroa britânica: o chá e o ópio, cultivados em fazendas mais ao norte por índios pobres e escravizados. Aqui se fizeram fortunas.

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Restam as ruínas, como nos velhos edifícios que o tempo colonial deixou de herança. Como o velho Writer’s Building, hoje sede do governo estatal: um monte de ladrilhos vermelhos e janelas de madeira recheado de obscuros corredores. O gigante de mármore chamado Victoria Memorial, que celebra uma rainha. O antigo clube de golfe, o mais antigo do mundo, onde os nobres, os funcionários de altos cargos e alguns senhores locais jogavam; lá os caddies carregavam os tacos de seus patrões em sacolas de couro feitas com trombas de elefantes.

Depois da colônia, veio a independência da Índia, em 1950. Com os anos, os povoadores mudaram seu nome, para ajustá-lo à sua língua, que é a terceira mais falada do mundo e tem um desses ágeis alfabetos em sânscrito. Calcutá, então, a terceira maior metrópole hindu com uma malha urbana de 14 milhões de pessoas, milhares de carros, bondes e corvos espertos que ajudam reciclar muito do que é desperdiçado.

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Hoje, quando o poder da Índia está em outras cidades, em outros territórios, é uma cidade barulhenta e algo decadente, mas cheia de encantos para o andarilho que vem de longe. Diferentemente das capitais atuais, Calcutá é amável, agradece à visita e à curiosidade e se abre a seu visitante como um velho salão de chá e bolachas de manteiga.

Comer em primeiro lugar

Em meio ao calor e à escassez, os bangla (ou bengalis, como sempre entenderam, mal, os europeus) são cordiais e sorridentes. Em geral, são curiosos e perguntam a origem e o nome de cada estrangeiro que passa. Comparada às capitais latino-americanas, Calcutá é uma cidade relativamente segura (pequeno furtos são ocasionais) e barata.

Sanjay Mandal/Opera Mundi
Cheia de sabores, é cosmopolita à sua maneira. Nessa cidade, é possível encontrar a cozinha e os rostos de outros povos, como os tibetanos, os naga (vindos do nordeste do país), que apreciam os sabores da carne de porco e do bambu junto ao seu arroz.

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A comida local, que tem muito peixe e camarão do rio, servida com todo o esplendor em milhares de barracas de rua. É possível desfrutar de muitas coisas a cada esquina, desde caldo de cana até aromáticos curries, lentilhas amarelas ou lanches de frango apimentado acompanhado de espinafre. Também deliciosos copinhos de barro com tchai. E o que mais tem dado fama à Calcutá: seus doces de leite e iogurte, variados e populares.

Ou é possível começar pelo básico, indo ao mercado. Os vendedores de especiarias e de massala -- termo genérico indiano para a mistura de ervas, especiarias e aromatizantes, geralmente fritos por alguns segundos para realçar seu aroma -- do New Market terão a infinita paciência de explicar para que serve cada pó culinário, com que carne ou em que prato. Ou as propriedades gerais do cardamomo, da pimenta, da cúrcuma ou das diversas nozes.

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De qualquer maneira, entre provar comidinhas e comprar especiarias, a lição será sempre a mesma: algum sabor, alguma receita explicará um passado, a velha rota da seda e chegará até a Europa e às capitais mais crioulas do continente americano. Comer, neste outro lado do mundo, pode ser sempre uma viagem à origem de certas afinidades, de algum antigo sabor que herdamos deles sem saber.

A velha ponte e as ruas

Assim como a comida é encontrada na rua, é caminhando que se veem alguns dos melhores atrativos de Calcutá. É possível vislumbrar a história desse imenso país olhando as fachadas de outrora, algumas já carcomidas. Ou indo caminhar pela ponte de Howrah, sobre o rio, em uma manhã qualquer. Lá, desde o mercado de flores até a velha estação de trens do outro lado, é possível admirar carregadores, mensageiros, vendedores de jornais e condutores de riquixás.

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Ou ainda, pode-se caminhar lendo as placas de algumas ruas, inclusive as mais recentes, como a deHo Chi Minh Sarani, uma rua comum e sem atrativos, a não ser pelo nome e porque ali está localizado o consulado norte-americano. Não é por acaso.

Calcutá é a cidade que foi governada por mais tempo pelo partido comunista na história -- 38 anos. E ainda que a memória desses governos não seja sempre amável, é possível cruzar avenidas enfeitadas com bandeiras vermelhas com seus martelos e foices. Foram os comunistas que arquitetaram os detalhes dessa rua, em plena guerra do Vietnã: com toda a cerimônia mudaram o nome nos anos 70, apenas para que o governo dos Estados Unidos tivesse de imprimir em toda a sua correspondência oficial o nome do tio Ho.

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Também é necessário perambular pelos parques, como o velho campo de Maidan, uma extensão de imensa campina. Vale perguntar aos idosos que passeiam por ali quem foram os 11 jogadores de futebol que, um século atrás, venceram uma equipe de jovens oficiais britânicos em uma partida histórica muito lembrada. Qualquer um contará como eles jogaram em Maidan, sem sapatos, contra seus amos, e venceram por 3 a 2, rodeados de camponeses e serventes que celebraram cada gol como se fosse uma vitória militar.

Ou pode ser interessante ficar calado em qualquer calçada, admirando os artesãos, que fabricam selos, placas de automóveis ou cinturões, e ver as pessoas passarem. Quase 20% da população dessa cidade é de muçulmanos. Há dezenas de mesquitas. Em cada bairro e em cada loja é possível perceber um fenômeno que hoje a imprensa nem mesmo retrata: a convivência simples de gente diferente. Calcutá tem um passado colonial, mas é tolerante.

E o outono é ideal para andar por essas ruas. O calor diminui e as chuvas já se foram. Os festivais religiosos de outubro colorem cada bairro. As festas e as comidas brilham mais que em outra estação do ano.

A arte de conversar

Os bengalis têm uma formação singular: qualquer um escreve, pinta ou canta, toca algum instrumento e lê dezenas de livros em seu idioma, conhece sua história coletiva quase de cor. Sob a ponte do mercado de Garahiat, por exemplo, compra-se os tecidos mais bem fabricados do mundo, a seda local e as camisas mais elegantes, é possível jogar xadrez em meio do ruído dos automóveis, caminhões e transeuntes.

Sanjay Mandal/Opera Mundi
"Enxame" de táxis em calcutá. Movimentada, cidade é atraente por sua história, culinárias e cultura para todos os tipos de viajante

Aqui cresceram e foram criados pelo menos dois prêmios Nobel -- o poeta cantor Rabindranath Tagora e o economista Amartya Sen --, um dos mais importantes cineastas (Satyajit Ray) e uma lista especial de artistas e intelectuais que inclui o compositor e músico Ravi Shankar, a crítica e teórica Gayatri Spivak e um engenheiro de origem humilde apelidado Bose, que foi estudar na América e começou lá um negócio de sistemas de áudio.

Pode-se perguntar em qualquer esquina pela música ou o cinema que floresceram nessa cidade, assim como o teatro ou as artes plásticas. As pessoas pararão para conversar e comentar suas preferências. Assim, é possível conhecer uma das tradições culturais mais apreciadas em Calcutá: a adda, ou tertúlia, no qual a arte de conversação cortês e apaixonada faz o tempo passar enquanto se fuma e se pensa.

E se falamos de livros, um bonde velho pode levar ao College Street, distrito de livrarias e imprensas. Milhões de exemplares são vendidos todos os dias. Velhos clássicos, de todas as culturas, e novidades, usados ou recém-importados. Não há cidade que tenha um bairro como esse. E, no coração do bairro, a Indian Coffee House é onde os estudantes conversam e os velhos professores seguem debatendo a história. O café é ruim, mas o ambiente é o termômetro político da cidade. E contra o que dizem as normas, todo mundo fuma em suas mesas.

Deixar os campos de Kali, a feroz deusa com 12 braços, será igualmente simples. A modernidade trouxe um novo aeroporto, táxi e carros para alugar por preços razoáveis (20 dólares por dia, motorista incluso). A ferrovia é em si mesma uma aventura, e leva para todas as partes da Índia. Mas, nessa capital antiga se voltará sempre para comer e perambular, porque ela segue tendo esse espírito aberto que permite decifrá-la e desfrutá-la.

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Fonte:http://operamundi.uol.com.br/conteudo/viagens/34154/calcuta+capital+colonial+e+metropole+indiana+para+se+conhecer+a+pe+.shtml