quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

STF PARTIDARIZADO: Pedro Serrano: No Fla-Flu da política brasileira, Gilmar Mendes escolheu o Flu

06.02.2014
Do blog ESCREVINHADOR, 05.02.14
Por Igor Felippe, no Escrevinhador

A declaração do ministro do STF, Gilmar Mendes, sobre a vaquinha de militantes e simpatizantes dos petistas condenados na AP 470, vulgo mensalão, para arrecadar recursos para pagar multas não impressionou o professor de direito constitucional da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Pedro Serrano.

“Essa dinheirama, será que esse dinheiro que está voltando é de fato de militantes? Ou estão distribuindo dinheiro para fazer esse tipo de doação? Será que não há um processo de lavagem de dinheiro aqui? São coisas que nós precisamos examinar. E se for um fenômeno de lavagem? De dinheiro mesmo de corrupção? As pessoas são condenadas por corrupção e estão agora festejando coleta de dinheiro. É algo estranho”, disse Mendes.

Serrano, que é mestre e doutor em Direito do Estado, é um dos maiores críticos do julgamento do mensalão. Alega que direitos constitucionais não foram respeitados, como presunção de inocência e duplo grau de jurisdição. Em relação à declaração de Mendes, o professor tem uma linha moderada e não desaprova o ministro.

“A manifestação do ministro Gilmar Mendes foi antipática e politizada demais, mas ele exerceu seu direito de cidadão”, avalia Serrano. Para ele, qualquer autoridade pode requisitar a investigação e, enquanto cidadão, expressar críticas à arrecadação, inclusive políticas. “Os juízes não são um semi-deus, são cidadãos que erram, cometem equívocos, têm sentimentos e emoções”.

O jurista avalia que esse tipo de declaração de ministro do STF tem um efeito reverso positivo, que é derrubar o mito de que os juízes não têm ideologia e estão alheios às grandes questões políticas da sociedade.

“Os juízes têm uma posição política e uma ideologia. O Gilmar Mendes contribui por deixar suas posições claras. Assim, ele aproxima o Judiciário da sociedade”, acredita o professor. “Existe um clima de polarização na sociedade, que é um verdadeiro Fla-Flu. O ministro é adepto do Flu”.

Serrano avalia que existe uma tendência mundial de maior participação dos juízes das altas cortes nos debates na sociedade. “A liturgia do cargo de ministro de tribunais superiores está mudando. Não havia essa postura. O Judiciário tem cumprido um papel mais pró-ativo nas discussões da sociedade”, afirma.

“O ser humano pode não ter partido, mas tem ideologia. No entanto, o juiz não pode agir como ativista”, pondera. Segundo ele, é a Constituição que determina a separação entre exercício da cidadania e o ativismo político dos agentes do Judiciário.

O jurista afirma que o pensamento jurídico admite a existência de ideologia nos operadores do direito e desenvolveu a Teoria da Argumentação, que busca justamente critérios objetivos para isolar as ideologias e as subjetividades nos julgamentos.

Sobre a arrecadação de recursos para o pagamento das multas, ele não vê indícios de lavagem de dinheiro e considera que é uma manifestação legítima de cidadãos de contribuir com uma causa. Para ele, a quantidade de recursos levantados e a velocidade demonstram que existe um sentimento de parte da sociedade de que os condenados sofreram injustiças no julgamento. “Quanto mais o tempo passar, mais gente vai olhar para trás com um olhar crítico”, prevê.

As doações feitas para José Genoino e Delúbio Soares somam cerca de R$ 1,7 milhão. O Ministério Público faz investigação da vaquinha para pagar as multas impostas no processo. O deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) protocolou um pedido de apuração na Procuradoria-Geral da República. Para o tucano, há suspeitas de lavagem de dinheiro e apologia ao crime, porque o PT trata os condenados como “heróis nacionais”.

Leia outros textos de GeralPlenos Poderes
****
Fonte:http://www.rodrigovianna.com.br/geral/pedro-serrano-no-fla-flu-da-politica-brasileira-gilmar-mendes-escolheu-o-flu.html

Bancada ruralista resiste na definição de trabalho escravo

06.02.2014
Do portal da Revista Fórum
Por Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação | Republicado por: CarbonoBrasil
Fonte: AmarcBrasil
O Ministério Público Federal lançou campanha para o rádio e a televisão e uma cartilha de orientação para procuradores de combate ao trabalho escravo. Nos últimos quatro anos foram ajuizados 469 processos criminais no país, mas nenhum denunciado foi punido.
A campanha, lançada na terça-feira, 28 de janeiro, Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo em homenagem aos três fiscais e ao motorista do Ministério do Trabalho assassinados na área rural de Unaí, Minas Gerais, em 2004, quando vistoriavam situação de coletores de feijão, pede maior agilidade do Judiciário.
Levantamento da repórter Carolina Brígido, de O Globo, mostra que nenhum acusado de contratar trabalhadores em condições análogas às de escravo foi condenado em definitivo, nem começou a cumprir pena pelo crime no período analisado.
A repórter constatou, contudo, que a fiscalização está mais severa. Se o Ministério Público instaurou 73 procedimentos investigativos em 2010, eles saltaram para 702 no ano passado. A Polícia Federal envolveu-se em 34 investigações em 2010, no ano passado foram 185.
Esse é um crime que clama aos céus, frisa a mensagem da presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) no marco do Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo.
“Causa perplexidade a disseminação da prática do trabalho escravo em diferentes ramos da economia, envolvendo pessoas do campo e da cidade, na agropecuária, na construção civil, na indústria têxtil, nas carvoarias, nos serviços hoteleiros e até em situações familiares classificadas como servidão doméstica”, afirma a nota dos bispos.
Diante dessa triste realidade, urge reafirmar de forma inequívoca “o inalienável valor da vida e da dignidade humanas que transcendem qualquer atividade econômica. Criada à imagem e semelhança de Deus, toda pessoa humana é templo de Deus que não pode ser profanado”, destaca a nota.
Segundo análise dos bispos, cabe ao Estado brasileiro, em primeiro lugar, adotar medidas de combate ao trabalho escravo, de defender e proteger os que lutam contra essa chaga social, e de punir de maneira exemplar os responsáveis por tais crimes.
O trabalho escravo quando ocorre em área rural é praticado, via de regra, na pecuária, nas plantações, na extração de carvão vegetal e no desmatamento. No meio urbano ele ocorre nas confecções de roupas e na construção civil. Nos dois meios, as vítimas são de todo o tipo, de crianças, jovens a mulheres e homens.
O artigo 149 do Código Penal define o crime como “reduzir alguém à condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto”. A pena é de reclusão de dois a oito anos, além do pagamento de multa.
A bancada ruralista tenta, no Congresso, alterar a legislação para descaracterizar o que é trabalho escravo. Os ruralistas querem alterar a lei e limitar a definição de escravidão aos casos em que há ameaças e violência física direta, ignorando os casos de degradação humana, ainda recorrentes no país.
Depois de 19 anos de tramitação, a Proposta de Emenda à Constituição do Trabalho Escravo será votada pelo Congresso Nacional. Ela prevê a expropriação das áreas em que for deflagrado trabalho escravo e sua destinação para a reforma agrária ou uso social no caso de propriedades urbanas.
Desde que o Governo Federal reconheceu a existência de trabalho escravo contemporâneo em 1995, mais de 46 mil pessoas foram resgatadas da escravidão. A Comissão Pastoral da Terra e a Walk Free realizam campanha de conscientização a respeito na Semana de Combate ao Trabalho Escravo, que iniciou no dia 27 de janeiro e se estende até o dia 3 de fevereiro.
*****
Fonte:http://revistaforum.com.br/blog/2014/02/bancada-ruralista-resiste-na-definicao-de-trabalho-escravo/

AP 470: Ao levantar falsas suspeitas, Gilmar Mendes se desqualifica para julgar mensalão

06.02.2014
Do portal da REDE BRASIL ATUAL, 05.02.14
Por Helena Sthephanowitz

Ministro do Supremo Tribunal Feder al se altera com sucesso da mobilização de simpatizantes de Genoino e Delúbio, e deveria até ser impedido de continuar no julgamento 
mendesSTF.jpg
Gilmar Mendes, em sessão no STF: envolvimento emocional exposto contra um partido e seus seguidores
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, do nada, levantou a suspeita em público, para a imprensa, de que pode haver um processo de lavagem de dinheiro nas vaquinhas convocadas pela internet para pagar as multas de José Genoino e Delúbio Soares, impostas como parte da condenação que receberam ao fim do julgamento do mensalão. José Dirceu e João Paulo Cunha ainda não tiveram suas multas definidas.
Lembremos ao ministro: a coleta desse dinheiro ficou hospedada em sites que trabalham com total transparência. Para serem aceitas, todas as doações devem obrigatoriamente ser  identificadas, e na página da internet há uma clara explicação sobre os procedimentos para declarar o valor doado no imposto de renda.
Algumas pessoas famosas contaram ter feito doação. Por exemplo, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Nelson Jobim, que foi nomeado por FHC, disse ter doado R$ 10 mil para Genoino, com quem tem amizade.
Genoino e Delúbio têm a solidariedade e o respeito de amigos, familiares, ativistas políticos e de trabalhadores – gente comum, simples eleitores e cidadãos – pela história de lutas políticas e sindicais e que consideram que ambos foram vítimas de um julgamento político.
Foram esses amigos, familiares, ativistas e eleitores que fizeram doações, com o total até ultrapassando os valores das multas. Um gesto de solidariedade que não é novo para petistas ou para quem conhece a história daquele partido. A deputada Luiza Erundina, quando foi condenada em um processo civil a ressarcir o custo de impressos feitos quando ela era prefeita, mesmo sendo do PSB, contou com a solidariedade de vários militantes do PT para arcar com a penalidade.
Por tudo isso, não há o menor indício de que tenha havido crime de "lavagem de dinheiro". O ministro Gilmar Mendes levantou suspeitas indevidas, irresponsáveis, ofensivas e até levianas. É de se perguntar se não seria o caso de os prejudicados moverem processo por danos, por mais que a conjuntura seja estranha. Levantar falsas suspeitas de que pessoas presas estejam cometendo outros crimes traz graves prejuízos à imagem de quem já sofreu uma condenação penal para se ressocializar.
Mas note o paradoxo da situação: como Genoino ou Delúbio poderiam mover um ação contra Gilmar Mendes por danos morais se eles ainda vão ser julgados pelo próprio Mendes nos embargos infringentes? É quase certo seriam mais retaliados ainda.
A atitude do ministro é imprópria e demonstra envolvimento emocional, falta de objetividade e de imparcialidade para julgar os réus. Se tratada com seriedade por seus pares no STF, Mendes talvez devesse ser impedido de participar da parte do processo que ainda falta, em que couberam embargos infringentes de Genoino e Delúbio.
*****
Fonte:http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/helena/2014/02/ao-levantar-falsas-suspeitas-gilmar-mendes-volta-a-mostrar-desequilibrio-para-julgar-mensalao-9082.html

Experiências latino-americanas de recuperação de empresas por trabalhadores inspiram europeus

06.02.2014
Do portal da Agência Carta Maior, 05.02.14
Por Nicolas Tamasauskas - Especial para Carta Maior

Encontro em Marselha, no sul da França, reuniu operários, militantes e pesquisadores da autogestão e das fábricas recuperadas pelos trabalhadores.
Nicolas Tamasauskas - Especial para Carta Maior
Paris - Em meio à crise na zona do euro e a questionamentos crescentes quanto à agenda de governos e do modelo econômico na Europa, experiências na América Latina são referência na construção de alternativas ao desemprego em massa e à luta pela autodeterminação dos trabalhadores no velho continente. É o que se verificou em encontro próximo a Marselha, no sul da França, nos dias 31 de janeiro e 1º de fevereiro. A cidade de Gémenos recebeu a primeira edição do "Encontro Regional para Europa e Mediterrâneo – A Economia dos Trabalhadores". Foi organizado nas instalações da Fralib, fábrica de produção de chás que teve as atividades interrompidas pela multinacional Unilever com a transferência da produção para a Polônia, visando menores custos trabalhistas. A fábrica está hoje sob o controle dos trabalhadores e a marca é objeto de disputa judicial.

Exemplos de empresas autogeridas pelos operários na Argentina, no Brasil e no México, as pesquisas e a conquista de espaços nas universidades para o tema na América Latina, e as análises sobre os caminhos desse tipo de construção coletiva prenderam a atenção dos europeus. O encontro foi organizado pelos cooperados da Fralib, em conjunto com o Programa Facultad Abierta da Universidade de Buenos Aires, a Associação Autogestão - França, a rede workerscontrol.net, projeto Officine Zero (Itália), o ICEA (Instituto de Ciências Econômicas e Autogestão – Espanha) e a Aspas (Associação de Solidariedade com a América do Sul - França). Reuniu mais de 200 pessoas, entre trabalhadores, militantes da autogestão e pesquisadores de universidades. Resultou na troca de experiências e formas de mobilização, e no consenso sobre a necessidade de aprofundamento de intercâmbio e da solidariedade entre os países. Também, forçosamente, uma comparação entre os momentos distintos vividos pela Europa e pela América Latina.

“A América Latina teve uma década progressista, com avanços em maior e menor intensidade nos países, mas deveremos verificar uma reação da direita, e as conquistas alcançadas nos últimos anos terão de ser defendidas, como as práticas e os debates de autogestão”, afirmou Andrés Ruggeri, do programa Facultad Abierta (Argentina), um dos principais organizadores do evento. “Na Europa temos um panorama muito difícil, uma crise que tende a se aprofundar, uma situação em que as forças conservadoras aproveitam para impor suas reformas neoliberais”, completou, enfatizando a importância do fortalecimento dos movimentos de resistência e de autogestão. 

“O capitalismo tem uma grande capacidade de se remodelar, e por isso os trabalhadores têm de adaptar-se, buscar maneiras de enfrentar as situações que se colocam”, disse Célia Pacheco Reyez, professora de sociologia da Universidade Autonôma Metropolitana da Cidade do México, que estuda o trabalho precário.

Gerard Cazorla, operador de máquinas há 33 anos na Fralib, que conduziu parte dos estrangeiros em uma visita pela fábrica, ressaltou que o contato com os casos argentinos, por exemplo, reforça a crença no sucesso da recuperação francesa.

Apesar da “inversão histórica de posição” entre América Latina e Europa, pelos importantes movimentos sociais e pelas experiências de resistência e construção de alternativas, seguem notórias as diferenças nos sistemas de proteção social e de acesso aos direitos dos trabalhadores nos países dos dois continentes. Mesmo sem conseguir produzir, em decorrência das disputas judiciais em torno da fábrica, os operários da Fralib foram remunerados, por determinação da Justiça, pela Unilever durante parte da ocupação, iniciada em 2011, e por mais alguns meses recebem o seguro-desemprego.

Ao longo de décadas, o sistema de remuneração na França no entanto vem retrocedendo. “Quando entrei na Fralib, um operador de máquinas recebia o equivalente a um salário mínimo acrescido em 40%, hoje a média é de 3% a mais sobre salário mínimo”, informou operário.

Grécia – “Seria importante criar uma rede internacional mais estável, permitindo um empreendimento apoiar ao outro politicamente, criar uma voz comum internacional e até mesmo com apoio material ou econômico", afirmou o grego Theodoros Karyotis, representante de associação de iniciativas solidárias à Vio.me, empreendimento de trabalhadores em Tessalônica, que participou do encontro na França ao lado de dois operários, atuando também como intérprete.

Composta por 70 trabalhadores quando da sua falência, a Vio.me tem situação análoga à Fralib, em menor escala. Após um ano sem receber seus direitos trabalhistas e sem poder acessar o sistema de auxílio-desemprego no país, decidiram pela ocupação da fábrica. A empresa produzia materiais para construção civil. Hoje não possui capital para seguir essa linha produtiva e tampouco mercado. “A crise na Grécia faz a construção civil estar completamente parada”, disse Karyotis.

Com isso, comercializa hoje produtos de limpeza com insumos naturais, que não oferecem danos ambientais. No próximo dia 12 a Vio.me completa um ano sob controle operário, e se ampara na venda informal dos seus produtos, uma cooperativa de vinte pessoas apoiada em associações de solidariedade “de dezenas de cidades gregas”. Além disso, a cooperativa tem a figura do “membro solidário”, integrante da comunidade que, ao adquirir produtos, tem o direito de participar da tomada de decisões do empreendimento. “É uma forma a mais que o empreendimento tem de buscar o apoio da comunidade.”

Um dos países mais afetados pela crise, a Grécia vê o surgimento de diversas experiências desse tipo, segundo Karyotis. “Têm surgido muitas cooperativas produtivas e de consumo. Também redes de intercâmbio e estruturas solidárias, como centros de atendimento médico gratuito”, afirmou.

Os gregos propuseram nos debates do Encontro a criação de um fundo internacional de apoio aos empreendimentos, com recursos das próprias empresas recuperadas e cooperativas, iniciativa que recebeu o apoio de outros trabalhadores e militantes, como o francês Benoit Borrits, da Associação Autogestão da França.

Conquista argentina – A Argentina traz diversos exemplos de autogestão. Florescentes na profunda crise que o país viveu na virada dos anos 90 para os 2000, fábricas recuperadas por trabalhadores se consolidaram, funcionam a pleno vapor e estão amparadas não só em uma histórica mobilização de operários, no apoio e envolvimento das comunidades onde as fábricas estão inseridas e em mecanismos legais que permitem que as fábricas falidas passem ao controle dos antigos funcionários.

É o caso da cooperativa Têxtil Pigue, localizada em uma cidade de 15 mil habitantes a 600 quilômetros de Buenos Aires. Na semana passada a cooperativa obteve a titulação, outorgando aos trabalhadores a propriedade dos meios de produção. A iniciativa argentina foi representada na França por Francisco Martinez. “Esse encontro e esse cenário nos lembram muito momentos do início de nossa luta”, disse. A cooperativa reúne hoje 140 trabalhadores cooperados.

Brasil - Os brasileiros Vanessa Moreira Sigolo, pesquisadora do tema vinculada ao Nesol (Núcleo de Economia Solidária da Universidade de São Paulo) e Flavio Chedid, do Soltec (Núcleo de Solidariedade Técnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro), mostraram os resultados de levantamento nacional concluído no ano passado.

O Brasil possui 67 empresas recuperadas por trabalhadores em funcionamento, atuantes em diferentes segmentos, como metalurgia, mineração, indústria têxtil e outros. O estudo “Empresas recuperadas por trabalhadores no Brasil” foi conduzido por pesquisadores de 10 universidades públicas brasileiras, consolidado a partir de pesquisas de campo, entrevistas com trabalhadores e análise dos resultados.

“A pesquisa buscou trazer a público as experiências de milhares de trabalhadores, que a partir da luta contra o desemprego, criaram formas coletivas e autogeridas de produção e trabalho”, disse Vanessa. “As experiências de autogestão são parte da história de resistência contra a exploração do trabalho e hoje retomam sua atualidade em face das crises sociais, econômicas e ecológicas do capitalismo contemporâneo, sendo centrais para a renovação do socialismo e das lutas sociais”, completou.

Faculdade aberta em risco – Se a Argentina é vanguarda na autogestão e possui mais de 300 empreendimentos em funcionamento, a discussão e os projetos de atuação no meio acadêmico podem estar em risco.

Programa de extensão surgido na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires em 2002 e grande articulador do evento, a exemplo também de Encontro análogo que aconteceu no Brasil ano passado em João Pessoa (PB), o Facultad Abierta sofre a ameaça de fechamento pela instituição. Uma lista de apoio ao centro de pesquisa foi assinada pelos participantes do encontro na França. “Nós enfrentamos questionamentos dentro da faculdade, uma ameaça de fechamento, mas independente do que aconteça, a luta vai continuar”, disse Andrés Ruggeri.

Dario Azzelini, sociólogo alemão de origem italiana, apresentou no seminário a página na internet sobre experiências e debates sobre controle operário. Segundo o militante, o siteworkerscontrol.net está aberto à contribuições de artigos e relatos em português, espanhol, inglês e alemão. “A proposta é ser um arquivo virtual para discussões de experiências do presente e também daquelas que já aconteceram”, disse.

Ideia maluca – O projeto Officine Zero, com sede em Milão, na Itália, é outra experiência a aproximar os trabalhadores e o "lado de fora da fábrica". Ocupada desde o começo de 2012, a oficina de reforma de vagões ferroviários está sendo transformada em pólo de apoio a trabalhadores em situação precária, manifestações culturais como teatro, artes plásticas e música. No evento, foi exibido o documentário “Pazza Idea” (ideia maluca, em italiano), relatando a ação de jovens integrantes de coletivo cultural situado próximo à fábrica.

O encontro debateu ainda novos movimentos de resistência à crise do capitalismo, usando como mote os protestos em diferentes países. Carlos Schmidt, professor do Núcleo de Economia Alternativa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, destacou as manifestações surgidas no Brasil em decorrência da organização da Copa do Mundo, "corrupção jamais vista no país, que provoca grande sensibilização popular". 

Fralib – Marca centenária (criada em 1892), o chá Elephante foi comprado pela Unilever em 1972, sendo produzido em Marselha e em Le Havre, no norte da França. Em 1997, a multinacional fechou a unidade de Le Havre e, após a pressão dos trabalhadores, transferiu parte dos funcionários (54 famílias) para a planta situada no extremo sul do país, como a família de Olivier Leberquier, delegado da CGT (central sindical francesa). A decisão de fechar também a fábrica do sul em 2010 desencadeou duas ocupações, intercaladas por disputas judiciais e a presença de seguranças privados contratados pela Unilever, instrumento previsto na legislação da França. A empresa pretende centralizar sua linha de chás na marca Lipton. A primeira ocupação aconteceu em agosto de 2011 e durou quatro meses. Em maio do ano seguinte fizeram mais uma ocupação até setembro. Finalmente, a fábrica foi vendida pela Unilever para o governo local de Marselha, que a repassou aos trabalhadores.

Hoje o chá tem uma pequena produção para distribuição militante e como forma de sensibilizar apoio para a luta dos trabalhadores da Fralib. Essa produção está sendo feita sem os aditivos químicos que eram utilizados pela Unilever para aromatizar anteriormente. O produto tem sido comercializado de maneira informal, com apoio de associações, partidos políticos e sindicatos.

Trabalhadores da Fralib e sindicatos tem organizado regularmente campanhas de boicote aos produtos da Unilever, e em especial aos chás da marca Lipton.


Créditos da foto: Nicolas Tamasauskas - Especial para Carta Maior
******

Fonte:http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Experiencias-latino-americanas-de-recuperacao-de-empresas-por-trabalhadores-inspiram-europeus%0a%0a/6/30190

PSDBacusa Estátua da Liberdade de quebra de decoro

06.02.2014
Do  blog AMORAL NATO, 05.02.14


Estatua_Liberdade12_Vargas_Dirceu_Genoino
PSDB protocolou junto ao STF um processo contra a estátua. Monumento teria sido flagrado com o braço levantado, em claro sinal de apoio a petistas.

via Carta Maior

Um dos símbolos da liberdade pode estar com seus dias contados. O PSDB protocolou ontem, junto ao Supremo Tribunal Federal, e nas mãos de seu mais isento ministro, Gilmar Mendes, um processo contra a Estátua da Liberdade por quebra de decoro monumental.

A estátua teria sido flagrada com o braço erguido, o que foi considerado pelos tucanos como uma clara referência ao gesto feito por José Dirceu e José Genoíno.

Um dos líderes que protocolaram o pedido ameaçou: “Ou aquela piriguete abaixa aquele braço ou vamos às últimas consequências. Cogitamos inclusive derrubá-la.”

Um ministro do Supremo que não quis se identificar disse que a estátua pode ser enquadrada no “domínio do fato” e no artigo 45 do Código Penal, que reza que, sendo petista, todo castigo é pouco. Perguntado sobre o que seria esse “domínio do fato”, o ministro não soube responder.

Em uma coletiva dada hoje pela manhã, em Nova Iorque, o ícone mundialmente conhecido disse que prestou solidariedade aos “companheiros” presos por razões humanitárias. E atacou os tucanos: “Eu sou feita de cobre. Já esses que me acusam são um bando de caras de pau.”

O símbolo maior da Baía de Nova Iorque já havia feito o mesmo gesto anteriormente em comemoração à vitória dos atletas Tommie Smith e John Carlos, que ergueram o punho cerrado nas Olimpíadas do México, em 1968, em homenagem aos Panteras Negras, grupo que lutava pelos direitos civis contra o apartheid nos Estados Unidos.

Questionada sobre se não deveria fazer o mesmo sobre Guantânamo, reagiu com indignação: “Mas eu fiz; vocês é que não prestaram atenção.”

Uma repórter da rede de comunicação ultradireitista Fox News perguntou à estátua se ela não se envergonhava de emprestar sua imagem a “comunistas brasileiros”, em vez de continuar como garota propaganda do “american way of life”. Irritada, a estátua lembrou: “Minha filha, eu sou francesa. Vim de presente morar aqui nessa espelunca”.

A estátua foi também indagada se doou dinheiro para as vaquinhas que estão sendo organizadas para pagar a multa imposta aos condenados. “Ah, isso não. Devo confessar que sou muito mão fechada e ando dura faz tempo.”

******
Fonte:http://amoralnato.blogspot.com.br/2014/02/psdb-acusa-estatua-da-liberdade-de.html

Cuba responde à Dra. Ramona, dois anos antes.

06.02.2014
Do blog TIJOLAÇO
Por  Fernando Brito

E a Dra. Ramona vai servir cafezinho a médico que não atende povão

medbrasileira
Em novembro de 2011, foi postado no Youtube o vídeo de resposta do governo cubano à deserção de médicos ligados às suas missões humanitárias por todo mundo.
Quase dois anos  antes, portanto, da implantação do nosso “Mais Médicos”.
O vídeo mostra, direitinho, o passo a passo do caminho escolhido pela Dra. Ramona Rodriguez, inclusive as alegações de trabalho escravo.
Não houve surpresa nenhuma e o vídeo poderia ter sido assistido por qualquer um pela internet, inclusive pela “surpreendida” Dra. Ramona.
E quantifica no número de médicos atraídos dos programas de assistência internacional para os Estados Unidos: menos de 2%.
Pessoalmente, acho que qualquer um tem o direito de ir para onde quiser.
E acho também que, se quer que um curso univesitário caríssimo, como é o de medicina (que custa entre R$ 300 mil e R$ 500 mil), seja propriedade particular, deve pagar por isso.
Eu tenho 37 anos de trabalho e não tenho como pagar isso para um filho estudar medicina. Uma pessoa da família, depois de tentar medicina por dois anos – porque a concorrência para as universidade públicas é tão dura que passar ou ficar na beira é loteria, não conhecimentos – fez enfermagem numa universidade federal porque os pais, microempresários, não podiam pagar R$ 5 mil de mensalidade.
Se é dado pelo Estado, tem de ser retribuído em benefício social.
Ou pago, como financiamento.
Se fosse um brasileiro, mesmo com 50% de bolsa do Pro-Uni, se quisesse financiar um curso de Medicina de R$ 270 mil de valor total, o estudante pagaria, entre 2021 e 2040, 258 prestações de R$ 843.
Isso porque os juros são subsidiados, de 3,4% ao ano, bem menores que a inflação.
Se é para sermos da liberdade e da propriedade particular do capitalismo sem restrições, pode ir pagando a mensalidade …
Mas devemos dar os parabéns à Dra. Ramona. Ela vai ser contratada para funções administrativas na Associação Médica Brasileira, para ajudar a combater o Programa Mais Médicos. Enquanto isso, o povo de Pacajás que fique doente sem médico.  Os médicos brasileiros e a médica Ramona Rodriguez estão se lixando para eles.
*****
Fonte:http://tijolaco.com.br/blog/?p=13465

Confiança em Meio à Angústia

06.02.2014
Do portal ENCONTRE A PAZ


"Está alguém entre vós sofrendo, faça oração" (Tg 5.13).

O que é angústia? Muitos poderiam dar uma resposta bem pessoal e subjetiva a essa pergunta. Falando de modo geral, angústia é um sentimento que acompanha o homem desde seu nascimento até a morte em todas as situações da vida; a angústia é companheira do ser humano. A angústia é uma das mais fortes opressoras da humanidade, é um sentimento da alma que pode atacar na mesma medida tanto o rei como o mendigo. Angústia é uma emoção que pode ser abafada mas não desligada. O homem natural não pode se desviar nem escapar dela. Na verdade existiram e existem pessoas de caráter forte que, com sua determinação, se posicionam obstinadamente diante da angústia, mas elas também não conseguem vencê-la totalmente. Podemos tentar ignorar a angústia, mas não escaparemos de situações dolorosas.

O que a Bíblia diz sobre a angústia? Ela diz, por exemplo, que angústia e sofrimento podem se tornar visíveis. Gênesis 42.21 nos relata um exemplo disso quando os irmãos de José chegaram ao Egito para comprar cereal e se encontraram no palácio de José, e, não sabendo o que fazer disseram uns aos outros: "Na verdade, somos culpados, no tocante a nosso irmão, pois lhe vimos a angústia da alma, quando nos rogava, e não lhe acudimos..." A angústia, assim diz a Bíblia, não só paralisa a língua, mas também faz com que ela fale. Em Jó 7.11 ouvimos Jó dizer: "Por isso não reprimirei a minha boca, falarei na angústia do meu espírito, queixar-me-ei na amargura da minha alma". Mas angústia também faz com que até ímpios cheios de justiça própria se sintam perturbados. Bildade descreve o ímpio em Jó 18.11 dessa maneira: "Os assombros o espantarão de todos os lados, e o perseguirão a cada passo"

A Escritura também ensina que a angústia é mais forte do que a maior abastança. Zofar nos comunica isto em Jó 20.22: "Na plenitude da sua abastança, ver-se-á angustiado, toda a força da miséria virá sobre ele". Angústia também provoca trevas. Quando Isaías teve que anunciar uma punição sobre Israel, falou acerca das conseqüências desse juízo: "Bramam contra eles naquele dia, como o bramido do mar; se alguém olhar para a terra, eis que só há trevas e angústia, e a luz se escurece em densas nuvens" (Is 5.30). E em Isaías 8.22 o profeta tem que proclamar sobre o povo apóstata: "Olharão para a terra, eis aí angústia, escuridão, e sombras de ansiedade, e serão lançados para densas trevas".

Esses são exemplos negativos, mas também há exemplos positivos. No Salmo 119.143, Davi nos ensina que a palavra de Deus sempre é mais forte que a angústia: "Sobre mim vieram tribulação e angústia, todavia os teus mandamentos são o meu prazer". A angústia está presente, mas a alegria na palavra de Deus é maior. Uma outra tradução diz: "Fiquei cercado por sofrimento e desespero, mas os teus mandamentos foram a minha grande alegria". O poder de Deus também sempre é maior do que a angústia: "Se ando em meio à tribulação, tu me refazes a vida; estendes a mão contra a ira dos meus inimigos, e a tua destra me salva" (Sl 138.7). Em Isaías 9.2 temos a promessa: "O povo que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz". No Novo Testamento, Paulo confirma essa gloriosa verdade: "Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?... Porque eu estou bem certo de que nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem cousas do presente, nem do porvir, nem poderes, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor" (Rm 8.35;38-39).

E o que disse o Senhor Jesus sobre a angústia? É muito esclarecedor e elucidativo observar que Ele nunca afirmou que neste mundo não haveria sofrimento. Na verdade, muitas vezes, se prega que ao se tornar cristão, a pessoa não terá mais tribulações ou tentações. Mas isso não é verdade. O próprio Senhor Jesus disse claramente: "No mundo passais por aflições..." (Jo 16.33) . E então Ele acrescenta o glorioso ‘mas’: "mas tende bom ânimo, eu venci o mundo". Em outras palavras: o mundo é o reino de Satanás, mas Minha vitória sobre esse mundo pode ser a sua vitória também, isto é, em Mim vocês têm a possibilidade de vencer a própria angústia. Essa é a posição de Jesus em relação à angústia!

Quem foi o primeiro homem que se defrontou com a angústia? Foi Adão, logo após cair em pecado. Antes da queda, Adão não conhecia esse sentimento. Contudo, depois do pecado ter entrado em sua vida, ele foi invadido pelo terrível sentimento de temor: "E chamou o Senhor Deus ao homem, e lhe perguntou: Onde estás? Ele respondeu: Ouvi a tua voz no jardim, e, porque estava nu, tive medo e me escondi" (Gn 3.9-10). De repente Adão e Eva tiveram medo de Deus, seu Criador, com o qual antes formavam uma unidade , uma harmonia perfeita! Antes de caírem em pecado, eles se alegravam quando Deus vinha ao jardim, mas agora, de repente, foram invadidos pelo medo. Que conseqüências devastadoras tem a sua desobediência até os dias de hoje!

Agora chegamos à pergunta mais importante: quem provou os mais profundos abismos da angústia em todos os tempos? Foi o homem Jesus Cristo no Jardim do Getsêmani. Ali Ele sofreu uma angústia tão grande que não fazemos a menor idéia do que possa ter sido passar pelo que Ele passou. Quando temos medo, quando não sabemos mais o que fazer, podemos olhar para Jesus e nos lembrar de que Sua tribulação ainda foi muito maior. Desse sentimento angustiante do nosso Senhor já lemos profeticamente no Salmo 22: "Não te distancies de mim, porque a tribulação está próxima, e não há quem me acuda. Muitos touros me cercam, fortes touros de Basã me rodeiam. Contra mim abrem as bocas, como faz o leão que despedaça e ruge. 

Derramei-me como água, e todos os meus ossos se desconjuntaram; meu coração fez-se como cera, derreteu-se-me dentro de mim. Secou-se o meu vigor, como um caco de barro, e a língua se me apega ao céu da boca; assim me deitas no pó da morte" (vv. 11-16). Essas palavras do Senhor sofredor descrevem a profundeza abismal e ilimitada que Jesus Cristo sofreu no Jardim do Getsêmani: a agonia da morte. Lucas 22.44 fala disso: "E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue, caindo sobre a terra". Ele lutou com a morte não só na cruz mas também no Getsêmani, pois ali Ele estava morrendo. Ali Ele estava em terríveis e pavorosas agonias de morte. Este fato é refletido nas palavras: "E, estando em agonia..." Ele se encontrava em agonia de morte porque Satanás estava a ponto de matá-lO. Satanás, o príncipe e dominador desse mundo, nessa ocasião, lutou pelo seu reino pois sabia muito bem que o Getsêmani era a última etapa antes do Calvário, e se Jesus alcançasse a cruz salvaria a humanidade. 

Por isso no Getsêmani, Satanás se lançou com todas as forças sobre o Cordeiro de Deus e tentou matá-lO. Ali Jesus estava à beira da morte; Ele lutou com a morte. Esse ataque à Sua vida e à Sua obra redentora provocou uma violenta e mortal angústia, uma verdadeira agonia de morte. Isso Ele suportou como homem e não como Deus, caso contrário Ele teria chamado legiões de anjos, e Satanás teria que retirar-se imediatamente. É uma grande mentira e uma ofensa à honra dizer que no Getsêmani Jesus teve medo da cruz. Aconteceu o contrário: Ele enfrentou a angústia de morrer no Getsêmani, de morrer antes da cruz, pelo que Seu sacrifício expiatório teria sido frustrado. 

Ele não teve medo da morte na cruz, pois Ele mesmo testificou de maneira bem clara: "Por isso o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai" (Jo 10.17-18). Jesus Cristo não quis morrer no Getsêmani, mas Ele estava morrendo, e isso O afligiu tanto que entrou em agonia e suou gotas de sangue. Jesus teve que experimentar as piores profundezas da angústia, o que significa que sofreu grande aflição. Isto deveria e pode nos ajudar e nos consolar em nossas angústias e tribulações.

Como podemos vencer nossas angústias? Depositando nossa confiança no Deus Todo-Poderoso. Como podemos fazer isso? Jesus já fez isso antes de nós e nos serve de exemplo. Em Hebreus 5.7 lemos algo maravilhoso a esse respeito: "Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte, e tendo sido ouvido por causa da sua piedade...". Aqui se trata do momento no Getsêmani, quando Jesus, em Sua ilimitada angústia, confiou no Deus Todo-Poderoso e 

O invocou em oração. Isto não é novidade para nós. Mas talvez precisamos aprender de maneira totalmente nova a aplicar isto também em nossas vidas. Jesus nos deixou o melhor exemplo de como confiar no Deus Todo-Poderoso em nossa angústia. Em Hebreus 2.18 está escrito de maneira tão consoladora: "Pois naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados". Com outras palavras: tendo sofrido e vencido e triunfado no Getsêmani, Ele também pode nos ajudar em nossos medos e angústias, e nos ajuda a vencê-los. 

Ele quer nos ensinar a orar com perseverança justamente nesses momentos. Ele próprio não viu outra maneira para sair da Sua angústia do que por meio de petições e súplicas. Quanto mais devemos nós também trilhar esse caminho para sair de todas as nossas angústias e apertos que nos surpreendem quase que diariamente. Tiago acentua muito esse aspecto quando diz: "Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração. Está alguém alegre? Cante louvores" (Tg 5.13). Será que não seria válido começarmos a considerar e interiorizar essa verdade de maneira totalmente nova em nossas vidas? Vamos começar a confiar nEle incondicionalmente em qualquer situação? Confiar significa orar, e orar significa confiar! Os seguintes exemplos da vida de Davi devem nos mostrar o quanto ele também acreditava nessa realidade:

– "Responde-me quando clamo, ó Deus da minha justiça; na angústia me tens aliviado; tem misericórdia de mim e ouve a minha oração" (Sl 4.1).
– "Na minha angústia invoquei o Senhor, gritei por socorro ao meu Deus" (Sl 18.6).
– "Sendo assim, todo homem piedoso te fará súplicas" (Sl 32.6).
– "Desde os confins da terra clamo por ti, no abatimento do meu coração" (Sl 61.2).
– "Não escondas o teu rosto do teu servo, pois estou atribulado" (Sl 69.17).
– "Em meio à tribulação invoquei o Senhor, e o Senhor me ouviu e me deu folga" (Sl 118.5).

Não são testemunhos maravilhosos? Davi creu que só havia uma escapatória na angústia: invocar o Senhor em perfeita confiança.

O que significa invocar o Senhor na angústia, orando? Essa pergunta é respondida pelas orações de Davi. Por exemplo, várias vezes aparece a expressão ‘clamar’: "Responde-me quando clamo, na minha angústia... gritei", "desde os confins da terra clamo por ti", "em meio à tribulação invoquei o Senhor". Percebemos que Davi pediu socorro ao céu. Aqui temos uma chave para sermos realmente libertos das angústias. Não se trata de simplesmente orar, mas temos de clamar e suplicar. Para compreender isso devemos também observar melhor as orações de nosso Senhor Jesus feitas ao Pai quando Ele se encontrava angustiado. Tomaremos como exemplo as Suas orações e Sua confiança no Deus Todo-Poderoso. 

Pois do ponto de vista bíblico, a expressão ‘invocar o Senhor‘ significa ainda muito mais. "Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte, e tendo sido ouvido por causa da sua piedade" (Hb 5.7). Quando se toma essa declaração literalmente, então chegamos irrefutavelmente à conclusão de que o Senhor, na verdade, gritou, clamou e até chorou de forma audível. Não sabemos a que distância os discípulos estavam do seu Senhor no Jardim do Getsêmani, mas eles devem ter dormido profundamente, pois aparentemente não ouviram a oração de Jesus. O que nosso Senhor padeceu ali nem conseguimos explicar nem entender a fundo, mas deve ter sido uma situação terrível. Em Lucas 22.44 está escrito: "E, estando em agonia, orava mais intensamente"

Mas se queremos saber com mais precisão o que significa o que nosso Senhor "...ofereceu com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas" a Deus, então devemos nos dar ao trabalho de estudar essas orações. Algo interessante chama a nossa atenção, ou seja: exceto no texto já citado de Hebreus 5.7, em nenhum evangelho é dito que o Senhor começou a clamar ou a gritar nessa oração. Somente Lucas indica tal situação com a expressão "...e orava mais intensamente". Mateus descreveu o episódio da seguinte maneira: "Adiantando-se um pouco, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai: Se possível, passe de mim este cálice! 

Todavia, não seja como eu quero, e, sim, como tu queres! Tornando a retirar-se, orou de novo, dizendo: Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade!... Deixando-os novamente, foi orar pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras" (Mt 26.39;42 e 44). E Marcos escreve: "E, adiantando-se um pouco, prostrou-se em terra; e orava para que, se possível, lhe fosse poupada aquela hora. E dizia: 

Aba, Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, e, sim, o que tu queres!... Retirando-se de novo, orou repetindo as mesmas palavras... E veio pela terceira vez..." (Mc 14.35;36;39 e 41). Aqui vemos melhor o que a oração de nosso Senhor podia significar, pois duas cousas chamam a nossa atenção:

1. Jesus Cristo não pronunciou essa oração apenas uma vez, mas três vezes.

2. Ele orou três vezes, mas não deixou de submeter-se à perfeita vontade de Seu Pai cada vez que orou. Que profundo mistério está oculto nessas orações!

Nosso Senhor, portanto, orou três vezes. Se Hebreus 5.7 diz que o Senhor "nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas" então não se trata, em primeiro lugar, da forma de Sua oração. Não se trata da questão se o Senhor clamou e gritou de maneira pungente, e, sim, que o Senhor fez esta oração três vezes! Em outras palavras: Ele orou com persistência. Jesus Cristo se encontrava na maior angústia, e esta angústia O levou a orar. Mas essa oração não foi apenas um grito curto e isolado ao Pai. Não, Ele orou três vezes de maneira muito consciente e lúcida repetindo sempre as mesmas palavras. 

Depois da primeira oração, a Bíblia diz claramente: "Tornando a retirar-se, orou de novo, dizendo..." e depois da segunda vez: "E deixando-os novamente, foi orar pela terceira vez...". " como seria bom se compreendêssemos isso para a nossa vida pessoal de oração!

Muitas vezes nos defrontamos com todo tipo de angústias e apertos, e o que fazemos então, quando somos tentados dessa maneira? No mesmo momento enviamos um fervoroso pedido de socorro ao céu. Mas assim que nos sentimos mais ou menos bem, seguimos novamente a rotina do dia. Não é de admirar se logo em seguida a mesma angústia nos surpreenda outra vez. A oração de nosso Senhor pronunciada conscientemente três vezes nos mostra de maneira bem clara que nós, se de fato queremos vencer as angústias que se repetem, não devemos apenas orar de vez em quando ao céu. Precisamos chegar ao ponto de levar uma vida de oração perseverante, regular. Somente assim nos tornamos filhos de Deus que conseguem lidar de maneira correta com suas angústias. Somente assim venceremos as nossas tribulações. Três testemunhos claros das Escrituras nos exortam a orar dessa maneira:

– "Regozijai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, na oração perseverantes" (Rm 12.12).

– "Perseverai na oração, vigiando com ações de graça" (Cl 4.2).

– "Com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito, e para isto vigiando com toda perseverança..." (Ef 6.18).

Se a Bíblia diz em Hebreus 5.7 que a oração de Jesus foi ouvida e que Ele encontrou livramento da Sua angústia, então isso só aconteceu depois da Sua oração insistente e perseverante.

Mas ainda havia um outro ponto importante: nosso Senhor continuamente se entregava totalmente à vontade de Seu Pai: "E, adiantando-se um pouco, prostrou-se em terra; e orava para que, se possível, lhe fosse poupada aquela hora. E dizia: Aba, Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, e, sim, o que tu queres" (Mc 14.35-36). Não fazemos idéia de como isso é importante. Não apenas orando três vezes as mesmas palavras, mas, com isso, sempre se submetendo à vontade de seu Pai, Jesus demonstrou uma confiança tão grande que jamais haverá confiança maior. 

Foi algo grandioso, em Sua angústia, Ele ter se apresentado três vezes a fim de orar as mesmas palavras. Mas por Ele – por assim dizer no tom fundamental da sua oração – sempre voltar a Se submeter a Deus foi uma prova bem especial de Sua confiança no Seu Pai celestial. Ele sabia: Eu posso orar que este cálice passe de mim, mas se meu Pai celestial o quer de outra maneira, então eu aceito e me coloco totalmente em Suas mãos. Isso é confiança total no Deus Todo-Poderoso! Devemos ter isso em mente, pois apesar de irmos a Deus em oração, clamando e levando a Ele a nossa angústia, em última análise esperamos que Ele faça o que nós queremos. Reflitamos no que estava em jogo ali no Getsêmani: ou Ele morria ali mesmo, deixando de salvar a humanidade, ou Ele morria na cruz, como estava previsto, salvando a humanidade por tomar sobre Si a maldição do pecado. E embora a Sua obra redentora estivesse em jogo, Ele não fez a sua própria vontade, mas se submeteu totalmente à vontade de Seu Pai.

Você não quer se tornar uma pessoa assim, que aprenda a lidar com as suas angústias e a vencê-las? Então confie no Deus Todo-Poderoso, começando a levar uma vida de oração regular e perseverante. Mas nunca se esqueça de submeter-se totalmente à vontade do Senhor Jesus enquanto ora. Essa entrega, seja o que for, sempre deve ser expressa em cada oração que você faz. Se você segue esse caminho, você se tornará um cristão que, na verdade, ainda sente todas as angústias e apertos desse mundo, mas apesar disso permanece totalmente tranqüilo em tudo. Estará seguro nas mãos do Senhor, aconteça o que acontecer. O que Ele faz é sempre bom! "No mundo passais por aflições; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo" (Jo 16.33). Essas são palavras do Senhor Jesus. Você crê nelas? Então viva de acordo com esta fé, confiando – justamente quando o medo quer se apoderar de suas emoções – no Deus Todo-Poderoso e invocando-O em oração! (Marcel Malgo - www.apaz.com.br)
******
Fonte:http://www.apaz.com.br/mensagens/confianca.html

Mentiras propagadas pelo pensamento econômico dominante

06.02.2014
Do portal da Agência Carta Maior, 01.02.14
Por Vicenç Navarro (*)

Grande parte dos argumentos mostrados pelos meios de informação e persuasão econômicos para justificar certas políticas são pura ideologia cheia de mentira

Arquivo
Permita-me, senhor leitor, que eu converse com você como se estivéssemos tomando um café, explicando-lhe algumas das maiores mentiras apresentadas diariamente no noticiário econômico. Você deveria ter consciência de que grande parte dos argumentos mostrados pelos maiores meios de informação e persuasão econômicos do país para justificar as políticas públicas ora implementadas são posturas claramente ideológicas, que não se sustentam com base na evidência científica existente. Vou citar algumas das mais importantes, mostrando que os dados contradizem aquilo que se diz. E também tentarei explicar por que continuam repetindo essas mentiras, apesar de a evidência científica questioná-los, e com que finalidade elas são apresentadas diariamente a você e ao público.

Comecemos por uma das mentiras mais importantes, que é a afirmação de que os cortes de gastos nos serviços públicos do Estado de bem-estar social – tais como saúde, educação, serviços domésticos, habitação social e outros (que estão prejudicando enormemente o bem-estar social e a qualidade de vida das classes populares) – são necessários para que o déficit público não aumente. E você se perguntará: “E por que é tão ruim que o déficit público cresça?”. E os reprodutores do senso comum lhe responderão que o motivo de se reduzir o déficit público é que o crescimento desse déficit determina o crescimento da dívida pública, que é o que o Estado tem que pagar (predominantemente aos bancos, que têm uma quantia em torno de mais da metade da dívida pública na Espanha) por ter pedido emprestado dinheiro dos bancos para cobrir o rombo criado pelo déficit público.
Reforça-se, assim, que a dívida pública (considerada um peso para as gerações futuras, que terão de pagá-la) não pode continuar crescendo, devendo-se, para isso, reduzi-la diminuindo o déficit público. Isso quer dizer, para eles, cortar, cortar e cortar o Estado de bem-estar até o ponto de acabar com ele, que é o que está acontecendo na Espanha.

Os argumentos utilizados para justificar os cortes não são críveis.
  
O problema com esta postura é que os dados (que o senso comum oculta ou ignora) mostram exatamente o contrário. Os cortes são enormes (nunca foram tão grades durante a época democrática) e, ainda assim, a dívida pública continua crescendo e crescendo. Veja o que está acontecendo na Espanha, por exemplo, com a saúde pública, um dos serviços públicos mais importantes e mais demandados pela população. O gasto público com saúde enquanto parte do PIB se reduziu em torno de 3,5% no período 2009-2011 (quando deveria ter crescido 7,7% durante esse mesmo período para chegar ao gasto médio dos países de desenvolvimento econômico semelhante ao nosso), e o déficit público diminuiu, passando de 11,1% do PIB em 2009 para 10,6% em 2012. A dívida pública não baixou, mas continuou aumentando, passando de 36% do PIB em 2007 para 86% em 2012. Na verdade, a causa do aumento da dívida pública se deve, em parte, à diminuição dos gasto público.

Como isso pode acontecer?, você se perguntará. A resposta é fácil de enxergar. A diminuição do gasto público implica a redução da demanda pública e, com isso, a diminuição do crescimento e da atividade econômica, fazendo com o que o Estado receba menos recursos através de impostos e taxas. Ao receber menos impostos, o Estado de se endivida mais, e a dívida pública continua crescendo. Desnecessário afirmar que o maior ou menor impacto que estimula o gasto público depende do tipo de gasto. Mas os cortes são nos serviços públicos do Estado de bem-estar, que são os que criam mais emprego e que estão entre os que mais estimulam a economia. Permita-me repetir essa explicação devido à sua enorme importância.

Quando o Estado (tanto central como autônomo e local) aumenta o gasto público, aumenta a demanda de produtos e serviços, e com isso, o estímulo econômico. Quando reduz, diminui a demanda e o crescimento econômico, fazendo com que o Estado receba menos fundos. É aquilo que, na terminologia macroeconômica, se conhece como o efeito multiplicador do gasto público. O investimento e o gasto público facilitam a atividade da economia, o que é negado pelos economistas neoliberais (que se promovem, em sua grande maioria, pelos maiores meios de informação e persuasão do país), apesar da enorme evidência atestada pela literatura científica (veja meu livro Neoliberalismo y Estado del Bienestar, editora Ariel Económica, 1997. Em português, Neoliberalismo e Estado de bem-estar).

Outra farsa: gastamos mais do que temos

O mesmo senso comum está dizendo também que a crise se deve ao fato de termos gastado demais, acima de nossas possibilidades. Daí a necessidade de apertar os cintos (que quer dizer cortar, cortar e cortar o gasto público). Via de regra, essa postura é acompanhada da afirmação de que o Estado tem que se comportar como as famílias, ou seja, “em nenhum momento pode gastar mais do que recebe”. O presidente Rajoy e a Sra. Merkel repetiram essa frase milhares de vezes. 

Essa frase tem um componente de hipocrisia e outro de mentira. Deixe-me explicar o porquê de cada um deles. Eu não sei como você, leitor, comprou seu carro. Mas eu, como a grande maioria dos espanhóis, comprou o carro a prazo, quer dizer, usando crédito. Todas as famílias se endividaram, e assim funciona o orçamento familiar. Pagamos nossas dívidas conforme entram os recursos que, para a maior parte dos espanhóis, vem do trabalho. E daí surge o problema atual. Não é que as pessoas gastaram além de suas possibilidades, mas foram suas rendas e suas condições de trabalho que pioraram mais e mais, sem que a população fosse responsável por isso. Na verdade, os responsáveis por isso acontecer são os mesmos que estão dizendo que é preciso cortar os serviços públicos do Estado de Bem-estar e também diminuir os salários. E agora têm a ousadia (para colocar de maneira amável) de dizer que você e eu somos os culpados porque gastamos mais e mais. Eu não sei você, mas eu garanto que a maioria das famílias não comprou e não acumulou produtos como loucos. Pelo contrário. 

A mesma hipocrisia existe no argumento de que o Estado gastou muito. Veja você, leitor, que o Estado espanhol gastou muito – não muito mais –, mas muito menos do que outros países de nível de desenvolvimento econômico semelhante. Antes da crise, o gasto público representava somente 39% do PIB, enquanto a média da UE-15 era de 46% do PIB. Na época, o Estado deveria ter despendido, no mínimo, 66 bilhões de euros a mais no gasto público social para ter gastado o correspondente ao seu nível de riqueza. Não é certo que as famílias ou o Estado tenham gastado mais do que deveriam. Apesar disso, continuarão afirmando que a culpa é da maioria da população, que gastou muito e agora tem que apertar os cintos. 

Você também provavelmente escutou que esses sacrifícios (os cortes) precisam ser feitos “para salvar o euro”.

Novamente, esta ladainha de que “estes cortes são necessários para salvar o euro” se reproduz. Contudo, ao contrário daquilo que se anuncia constantemente, o euro nunca esteve em perigo. Não há sequer uma mínima possibilidade de alguns países periféricos (os PIGS, Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) da zona do euro serem expulsos da moeda. Na verdade, um dos problemas entre os muitos que estes países têm é que o euro está excessivamente forte e saudável. Sua cotação esteve sempre acima do dólar e seu poder dificulta a economia dos países periféricos da zona do euro. E outro problema é que o capital financeiro alemão lhes emprestou, com grandes lucros, 700 bilhões de euros, e agora quer que os países periféricos os devolvam. Se algum deles deixar o euro, o sistema bancário alemão pode entrar em colapso. O setor bancário (cuja influência é enorme) não quer nem ouvir falar da saída dos países devedores da zona do euro. Eu lhes garanto que é a última coisa que eles querem. 

Essa observação a favor da permanência no euro é certamente óbvia, e não um argumento. Na verdade, acredito que os países PIGS deveriam ameaçar sair do euro. Mas é absurdo o argumento que se utiliza de que a Espanha deve, ainda mais, reduzir o tempo de visita ao médico para salvar o euro (que é o código para dizer, “salvar os bancos alemães e lhes devolver o dinheiro que emprestaram obtendo lucros enormes”). São essas as falácias constantemente expostas. Eu lhes garanto que são apresentadas sem que sejam comprovadas por nenhuma evidencia. Isso é claro. 

A causa dos cortes 

E você se perguntará: Por que então fazem esses cortes? A resposta é fácil de encontrar, ainda que raramente seja vista nos grandes meios de comunicação. É o que se costumava chamar de “luta de classes”, mas agora a mídia não utiliza essa expressão por considerá-la “antiquada”, “ideológica”, “demagógica” ou qualquer adjetivo que usam para mostrar a rejeição e desejo de marginalização daqueles que veem a realidade de acordo com um critério diferente, e inclusive oposto, ao daqueles que definem o senso comum do país.

Mas, por mais que queiram ocultar, essa luta existe. É a luta de uma minoria (os proprietários e gestores do capital, quer dizer, da propriedade que gera rendas) contra a maioria da população (que obtém suas rendas a partir de seu trabalho). É aquilo que meu amigo Noam Chomsky chama de guerra de classes – conforme expõe em sua introdução ao livro Hay alternativas. Propuestas para crear empleo y bienestar social en España, de Juan Torres, Alberto Garzón e eu (Em português, Há alternativas. Propostas para criar emprego e bem-estar social na Espanha).
Desnecessário dizer que essa luta de classes variou de acordou com o período em que se vive. Esta que está acontecendo agora é diferente daquela da época de nossos pais e avós. Na verdade, agora está inclusive mais ampla, pois não é somente das minorias que controlam e administram o capital contra a classe trabalhadora (que continua existindo), mas inclui também grandes setores das classes médias, formando as chamadas classes populares, conjuntamente com a classe trabalhadora. Essa minoria é fortemente poderosa e controla a maioria dos meios de comunicação, e tem também grande influência sobre a classe política. E esse grupo minoritário deseja que os salários diminuam, que a classe trabalhadora fique aterrorizada (daí a função do desemprego) e que perca os direitos trabalhistas e sociais. E está reduzindo os serviços públicos como parte dessa estratégia para enfraquecer tais direitos. A privatização dos serviços públicos, consequência dos cortes, também é um fator importante por permitir a entrada do grande capital (e muito particularmente do capital financeiro e bancários, e das seguradoras) nesses setores, aumentando seus lucros. Você deve ter lido como, na Espanha, as companhias privadas de seguro de saúde estão se expandindo como nunca haviam conseguido antes. 

E muitas das empresas financeiras de alto risco (quer dizer, altamente especulativas) estão atualmente controlando grandes instituições de saúde do país graças às políticas privatizantes e aos cortes feitos pelos governos, que justificam essa medida com toda a farsa (e acredite que não há outra forma de dizer) de que precisam fazer isso para reduzir o déficit público e a dívida pública.

(*) Catedrático de Políticas Públicas da Universidade Pompeu Fabra e Professor de Políticas Públicas na Johns Hopkins University. Site pessoal www.vnavarro.org   


Créditos da foto: Arquivo
*****
Fonte:http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/Mentiras-propagadas-pelo-pensamento-economico-dominante/7/30160