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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Apoio a Genoino constrange seus carrascos

20.01.2014
Do BLOG DA CIDADANIA, 18.01.14
Por Eduardo Guimarães
Com tantos assuntos ocupando o noticiário político – “rolezinhos”, escândalos envolvendo o PSDB de São Paulo etc. –, um deles, a despeito da relevância, teve cobertura desproporcionalmente pequena. O ex-deputado José Genoino, praticamente sem pedir, recebeu doações em dinheiro de mais de seiscentos mil reais em cerca de uma semana.
Pressionada por amigos e admiradores do ex-deputado – que já estavam criando sites para arrecadar a pequena fortuna necessária para pagar a multa que lhe foi imposta por sua condenação –, sua família criou umsite oficial contendo informações a quem quiser colaborar.
O site de fundo vermelho-PT e letras brancas tem algumas poucas fotos de Genoino durante sua luta contra a ditadura e nos dias atuais. A página é despojada, objetiva e já anuncia no alto que os advogados do ex-deputado estão questionando judicialmente a majoração que a multa sofreu por determinação judicial – de 468 mil reais foi aumentada para 667 mil.
Há, também, as instruções para doação, que pode ser feita via depósito bancário, cartão de crédito etc. O doador recebe uma senha para acompanhar a evolução da arrecadação e o número de contribuintes.
Da última vez que vi – e lá se vão dias –, cerca de mil pessoas registraram suas doações. Todavia, a quantidade de contribuintes é muito maior porque essas cerca de mil pessoas são as que fizeram repasses de quantias que arrecadaram em “vaquinhas” que encabeçaram, com as quais, muitas vezes, 10, 20, 30 pessoas contribuíram.
Essa informação sobre a quantidade de doadores ser bem maior do que a registrada não me foi passada pela família ou por uma filha do ex-deputado com quem tenho me comunicado de vez em quando via e-mail, mas por experiência própria e por relatos de amigos-leitores.
Eu mesmo, fiz minha doação a Genoino na conta de uma pessoa que estava recebendo doações de todos os valores para repassar a ele. Segundo me relatou, houve depósitos de 30, 50, 100 reais. Não sei quantas pessoas foram, mas não foram poucas.
Arrisco dizer, porém, que umas vinte mil pessoas devem ter feito doações, se não forem mais.
Perguntei-me: quantos políticos podem dizer que, caso precisassem, receberiam tal solidariedade. Imagino que José Dirceu também receberia. E acho que todos os outros petistas condenados no julgamento do mensalão também. Duvido, porém, que os condenados de outros partidos ou políticos em geral, de qualquer partido, conseguiriam tal feito.
Esse fenômeno que beneficiou o ex-deputado, no entanto, praticamente não ganhou destaque na mídia.
Enfim, se minha estimativa de 20 mil contribuintes for razoável – e não vejo como não seria –, trata-se de gente suficiente para lotar um pequeno estádio de futebol. São políticos, sindicalistas, estudantes, donas de casa, pedreiros, marceneiros, advogados, engenheiros, filósofos, artistas, religiosos, jornalistas… E por aí vai.
Serão todos “mensaleiros” ou “apoiadores de bandidos”? Famílias inteiras contribuíram. Alguns, sei que doaram mesmo passando por dificuldades financeiras. Conheço gente desempregada que contribuiu.
Não foi um bando de ingênuos, de caipiras ou de ladrões que apoiou o ex-deputado. Foram cidadãos educados, de várias classes sociais, politizados, muitos dos quais nunca viram esse homem na vida. Doaram porque, no fundo de suas consciências, tendo acompanhado cada passo do julgamento do mensalão, entenderam que a condenação de Genoino foi injusta.
Essa realidade incomoda os carrascos do ex-deputado – a mídia (adiante de qualquer outro), o STF, o PSDB, o PPS, o DEM, o PSOL e todos os que, políticos ou não, fazem oposição cerrada ao PT e não tiveram um pingo de comiseração por uma família que, além de tantos sofrimentos, atravessa dura crise financeira e, sobretudo, emocional.
A família de Genoino, para arcar com a vida em Brasília – uma das cidades mais caras do Brasil, onde o ex-deputado, em contrariedade às leis penais, cumpre prisão domiciliar –, já vem tendo que se desfazer dos poucos bens que esse homem acumulou ao longo de décadas na política. Mesmo assim, o jornal O Estado de São Paulo não teve dó.
Matéria repugnante desse jornal, em tom de denúncia, revelou que a casa que essa família alugou em um condomínio fechado tem aluguel de 4 mil reais. Citou “três suítes” nessa “mansão”. Um “escândalo”…
Aluguel nesse valor em uma cidade como Brasília, contudo, só dá para uma casa comum de classe média. E o imóvel, obrigatoriamente, tem que ser num condomínio fechado, pois a família de Genoino já esteve sob ameaça de antipetistas fanáticos após se instalar naquela cidade para cuidar dele durante sua prisão domiciliar
Vale lembrar, ainda, que o ex-deputado está em prisão domiciliar devido a seus problemas de saúde.
Essas milhares de pessoas que apoiam Genoino, a própria situação financeira dele e dessa família composta por pessoas simples como a professorinha Miruna – a filha que tem lutado como uma leoa pelo pai, expondo-se à virulência das redes sociais e da mídia com uma coragem rara –, são fatos mortais para a teoria de que ele é um “bandido”.
Que bandido é esse que, ao longo de toda uma vida na política, mergulha em situação financeira tão grave que obriga sua família a vender um de seus dois automóveis (com anos de uso) para poder pagar o aluguel da “mansão” que o Estadão, de uma forma inimaginavelmente calhorda, inventou?
Tudo isso não combina com a imagem que a mídia, o STF e os inimigos do PT em geral criaram para Genoino, pois não? Daí o constrangimento dos carrascos dele.
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Fonte:http://www.blogdacidadania.com.br/2014/01/apoio-a-genoino-constrange-seus-carrascos/

Quantos sábados o Iguatemi aguentaria fechado?

20.01.2014
Do portal da Agência Carta Maior, 18.01.14
Por  Saul Leblon 

Há 57 anos uma negra chamada Rosa Parks deu um rolezinho sobre as prerrogativas dos brancos no transporte coletivo de Montgomey, nos EUA.  


O Museu Henry Ford, em Detroit, nos EUA, guarda inúmeras relíquias  da história norte-americana sobre rodas.

O veículo no qual  Kennedy foi baleado  está lá.

Gigantescas locomotivas  que desbravaram a expansão ferroviária do país no século XIX ilustram em toneladas de ferro e aço  o sentido da expressão revolução metal-mecânica.

Perto delas os esqueléticos Fords-bigode que deram origem à indústria automobilística, de que Detroit foi a capital um dia, parecem moscas.

O museu abriga  também um centenário ônibus da ‎ National City Lines, de número 2857, um GM com o número  1132, que fazia a linha da Cleveland Avenue na cidade de Montgomery, no Alabama,  em  1 de dezembro de 1955.

A ocupação de um assento  naquele ônibus  mudaria  a história dos direitos civis nos EUA promovendo um salto na luta pela igualdade  entre negros e brancos no país.

O verdadeiro símbolo do episódio não é o velho GM, mas a costureira e ativista dos direitos dos negros, Rosa Park (1923-2005) que  naquela noite se recusou   a ceder o lugar a um branco.

Rosa tinha 40 quando desafiou a física do preconceito no Alabama dos anos  50, segundo a qual  brancos e negros não poderiam usufruir coletivamente do mesmo espaço, ao mesmo tempo.

Rosa Parks viveria mais 50 anos para contar e recontar esse rolezinho sobre as prerrogativas dos brancos , que transformaria  o velho GM em um centro de peregrinação política.

O último presidente a sentar-se no mesmo banco do qual ela só saiu presa  foi Barak Obama.

Em 2012 depois de alguns segundo em silencio no mesmo lugar, ele disse: ‘É preciso um gesto de coragem das pessoas comuns para mudar a história’.

Rosa Parks era uma pessoa comum até dizer basta a uma regra sagrada  da supremacia branca nos EUA.

Em pleno boom de crescimento do pós-guerra, quando  negros se integravam ao mercado de trabalho e de consumo norte-americano, eles não dispunham de espaço equivalente nem no plano político, nem nos espaços públicos, como o interior de um veículo de passageiros.

No Alabama os bancos da frente dos ônibus eram exclusivos dos brancos;  os do fundo destinavam-se  aos negros.

Detalhes evitavam o contato entre as peles de cores distintas: os negros compravam seu bilhete ingressando pela porta da frente, mas deveriam descer e embarcar pela do fundo.

À medida  em que os assentos da frente se esgotavam  os negros deveriam  ceder seu lugar a um novo passageiro branco que embarcasse no trajeto.

Rosa Parks estava fisicamente exausta  aquela noite  e há muitos anos cansada  da desigualdade que  humilhava sua gente.

Ela recusou a ordem do motorista e  não cedeu o lugar mesmo ameaçada. Sua prisão  gerou um boicote maciço dos negros de Montgomery.

Durante longos meses eles  que se recusaram a utilizar o transporte coletivo da cidade provocando atrasos nos locais de trabalho e prejuízos às empresas de transporte.

Milhões de panfletos explicativos  seriam distribuídos diariamente; de forma pacífica,  grupos de ativistas vasculhavam os pontos de ônibus da cidade para convencer  negros a aderi ao boicote.

Quase um ano depois  a lei da segregação dentro dos  ônibus foi extinta.

Neste sábado, um dos shoppings mais luxuosos de SP , o Iguatemi JK, cerrou as portas para impedir  que movimentos sociais fizessem ali um protesto contra a discriminação em relação aos pobres.

O Iguatemi foi um dos pioneiros a obter liminar na Justiça de SP autorizando  seguranças a selecionar o ingresso de clientes  para barrar a juventude dos rolezinhos - marcadamente composta de  jovens da periferia,  pretos, mestiços e pobres.

A memória dos acontecimentos de 57 anos atrás em Montgomery convida a perguntar :

 - A exemplo das transportadoras racistas do Alabama, quantos sábados o Iguatemi aguentaria de portas cerradas, cercado por manifestações pacíficas  e desidratado pela fuga de seus clientes tradicionais?

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Fonte:http://www.cartamaior.com.br/?/Editorial/Quantos-sabados-o-Iguatemi-aguentaria-fechado-/30045

Janot deixa Marco Aurélio de Mello em saia justa. Por que omitiu o principal documento do propinão tucano?

20.01.2014
Do blog OS AMIGOS DO PRESIDENTE LULA, 19.01.14

O STF aprontou mais uma.

O ministro Marco Aurélio de Mello virou o relator do inquérito 3815, que investiga o propinão tucano da Siemens e Alstom no metrô e trens do Alckmin (PSDB-SP) em São Paulo.

Ficou no STF apenas a investigação sobre quem tem fôro privilegiado, ou seja, os quatro demotucanos que são deputados federais.

Mello mandou a papelada do processo para o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, dar seu parecer, como é de rotina. Mas não enviou o único documento que justifica a manutenção do caso no Supremo por citar o envolvimento dos quatro deputados federais.

Mello não enviou a Janot o depoimento do ex-diretor da Siemens Everton Rheinheimer que, em delação premiada, acusa de receberem propina os hoje secretários estaduais e deputados federais licenciados Edson Aparecido (PSDB), José Aníbal (PSDB) e Rodrigo Garcia (DEM), assim como o deputado federal Arnaldo Jardim (PPS-SP).

Sem esse documento, Janot não teria elementos suficientes para justificar dar continuidade ao inquérito, e o caminho seria o engavetamento.

Como Janot sabe da existência deste documento, ele pediu em ofício de 11 páginas a Marco Aurélio, que precisa dele para poder opinar, uma vez que não havia como apreciar, "com a segurança devida, os elementos que supostamente indiquem a participação de detentores de prerrogativa de foro nas práticas delitivas".

No ofício, Janot adianta que há "fortes indícios de existência do esquema de pagamento de propina pela multinacional alemã Siemens a agentes públicos vinculados ao Metrô de São Paulo".

É uma tremenda saia justa para o ministro Marco Aurélio de Mello. Afinal por que omitir justamente a peça chave do inquérito no STF?

Em tempo: Se Mello também não recebeu esse depoimento, quem o colocou em alguma "pasta errada"?

(Com informações do Jornal O Dia / Ig)
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Fonte:http://osamigosdopresidentelula.blogspot.com.br/2014/01/janot-deixa-marco-aurelio-de-mello-em.html

O Ministério Público, a mídia e os golpes

20.01.2014
Do blog TIJOLAÇO, 19.01.14
Por Miguel do Rosário

mp
Já que hoje estamos fazendo um tour pelo blog do Nassif, me parecem pertinentes alguns comentários sobre uma outra instigante análise do jornalista, desta vez sobre o hábito do Ministério Público paulista de vazar investigações sob segredo de justiça para determinados órgãos de imprensa.
Nassif observa que é hora de todo o Ministério Público fazer uma profunda reflexão sobre o seu relacionamento com a mídia.
O questionamento de Nassif toca num ponto sensível e profundo da democracia brasileira. Qual a função política do Ministério Público?
Está claro que o MP tem uma função política. Assim como o Judiciário. E aí reside o perigo que até o momento o governo jamais considerou. É público e notório que o MP brasileiro não tem igual no mundo. É o mais poderoso. A mesma coisa vale para o Judiciário. Juntos, eles formam um poderoso estamento social, segundo o clássico conceito de Weber.
O perigo, a meu ver, está no seguinte ponto: quais são os meios pelos quais esses estamentos se informam? A grande imprensa brasileira, como a conhecemos, enquanto também um estamento social importante, ganha dinheiro vendendo produtos a todas as classes sociais, mas a fonte de seu poder reside principalmente na sua penetração junto às classes dirigentes, as classes médias altas, que formam os estamentos superiores das empresas públicas e privadas no país.
Por exempolo, a mídia não define quem serão os melhores escritores do país, mas o seu apoio é vital para a sobrevivência, inclusive física, de qualquer profissional da literatura.
A hegemonia ideológica da mídia junto às camadas superiores do funcionalismo é a única explicação para as truculências inacreditáveis que assistimos durante a Ação Penal 470. E a única também que justifica o fato do Ministério Público inclinar-se, de maneira tão constrangedora, a confundir as pastas, esquecê-las, quando se trata de investigar quadros ligados à direita partidária ou empresarial.
Mais perturbador que tudo, porém, é a suspeita de que há elementos do MP fazendo dobradinha com a mídia. Por isso, é tão importante que sejam estabelecidos protocolos mínimos de comportamento entre os serviços de investigação e os órgãos de imprensa, para que não vejamos o surgimento de núcleos subversivos, ou mesmo golpistas, de ação política, que tentem ganhar o poder não através do voto, e sim através de conspiratas institucionais.
Aliás, estamos diante de uma grande ironia histórica. Mídia e Supremo trataram articulações eleitorais e parlamentares, de partidos e quadros que jamais intentaram ganhar o poder de outra forma que não via sufrágio universal, como um “golpe” para se “perpetuar no poder”. A existência de esquemas de caixa 2 não implica em intenção golpista, porque se todos os partidos a praticam, poderíamos chamar-lhe, algo cinicamente, de uma subversão igualmente “democrática”.
Entretanto, estamos diante da velha inversão de valores. Os que lutam via eleições seriam os golpistas. Os que tentam ganhar no tapetão judiciário, numa dobradinha com ministério público e mídia, passando por cima do eleitor, estes são os “salvadores da democracia”.
A inversão de valores é a tradição mais antiga e mais duradoura da imprensa brasileira. Vide os editoriais nos primeiros dias que sucederam o golpe de 1964. Por eles, o Brasil nunca viveu dias mais profundamente democráticos. Segundo os mesmos jornais, nunca houve uma ação política mais genuinamente democrática do que a derrubada de João Goulart. Eles – os órgãos de imprensa hegemônicos – continuam os mesmos, governados pelas mesmas famílias, sustentados pelas mesmas agências de publicidade, influenciando decisivamente, hoje como ontem, segmentos poderosos dos “estamentos” superiores.
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Fonte:http://tijolaco.com.br/blog/?p=12798

Facebook não é mesa de botequim

20.01.2014
Do portal do DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 19.01.14

Internautas usam as redes sociais para externar seus preconceitos, intolerâncias e insensatez, sem medir as consequências de suas opiniões


Uma semana após postar um comentário de sete linhas no Facebook, o professor universitário Ademir Ferraz voltou a utilizar a sua linha do tempo mais de 30 vezes para encampar vários papéis: de vítima, arrependido, mal interpretado, perseguido e, por fim, de possível candidato a deputado e arauto da bandeira heterossexual. Acusado de disseminar homofobia na rede, já tem contra ele 62 queixas na ouvidoria da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), onde ensina há mais de 30 anos. Uma sindicância foi aberta pela universidade para apurar tais denúncias.

Involuntariamente, foi como internauta que o docente reacendeu o debate sobre a utilização das mídias sociais como plataforma de opinião pessoal ao expressar em seu perfil, no dia 9 de janeiro, entre outros termos adjetivados, que tem “ódio a homo galinha”. Alvo de duros questionamentos, inclusive de seus próprios alunos, patinou entre várias respostas diferentes, sempre negando a titulação de preconceituoso. Não baixou a guarda e convocou virtualmente os heterossexuais a se unirem, ao mesmo tempo em que cogitou pedir perdão de joelhos a quem se sentiu ofendido. 

Diario ouviu profissionais de áreas tão diversas quanto a própria natureza da internet, mas todos convergem para a linha da cautela como princípio básico de qualquer manifestação de opinião on-line: “Nem em mesa de bar se pode dizer tudo o que se pensa e o que se deseja, pois a ausência de freios verbais pode provocar colisão com o ponto de vista do parceiro de conversa, o qual se usar do mesmo expediente iniciará um inevitável e desnecessário conflito”, pontua Antonio Carlos Xavier, professor de Linguística do Departamento de Letras da UFPE e estudioso dos chamados hipertextos (textos digitais que costumam surgir em blocos junto com outros formatos, como imagens, sons e efeitos gráficos). 

Em coro, os entrevistados alertam para a falsa ideia de liberdade de expressão sem limites éticos e legais. Algo que ajudaria a explicar a multiplicação de casos polêmicos como o do professor no Brasil e mundo (ver quadro), muitos com implicação direta no trabalho através de demissões ou processos, mesmo que as postagens tenham conteúdo de natureza pessoal.

O jornalista Luiz Carlos Pinto, que no mestrado e doutorado em Sociologia pela UFPE se debruçou sobre as reações da sociedade civil contra ameaças de controle do trânsito de informações na rede, faz uma ressalva antes de registrar sua opinião: “O Facebook não é internet. São coisas diferentes. O Facebook não é público, não é democrático, não é gratuito, muito menos livre. É um negócio com regras privadas e que tem um dono”, diz ele, adicionando que o usuário da rede criada pelo programador americano Mark Zuckerberg paga pelo serviço com muito “tempo e atenção”.

A despeito do conteúdo, postagens como do professor, segundo Luiz Carlos Pinto, dificilmente teriam a mesma carga negativa de uma manifestação publicada numa plataforma tradicional da web. “A visibilidade foi maior porque foi postado em uma rede. Se fosse em um blog institucional da universidade, por exemplo, aquilo possivelmente não teria tanta repercussão”, diz o pesquisador, que disse estranhar o fato de um agente de ensino federal, pago com dinheiro público, contrarie a legislação e incite a intolerância. “A opinião dele dá a medida da cultura política, da cultura homofóbica, do nosso traço nacional. Sou a favor da liberdade de expressão, da mesma forma que defendo a responsabilidade pelos atos civis praticados por cada um”.

Perfil virtual não blinda o cidadão 

O procurador de Justiça de Pernambuco José Lopes, que costuma estudar o debate jurídico envolvendo os delitos de internet, explica que os crimes contra a honra de terceiros, incluindo injúria, calúnia e difamação, só podem virar processo se alguém se sentir pessoalmente ofendido com uma postagem e mover voluntariamente uma ação. “O Ministério Público, com exceção do crime de racismo, não atua como titular da ação”, lembra Lopes, que defende a atualização das leis nacionais, com dispositivos específicos para a rede mundial: “Nós estamos mais de dez anos defasados em relação a países europeus. Ofensa à honra é subjetiva do indivíduo. Um bandido com mais de 600 crimes nas costas também tem sua honra. Isso não muda na internet”. 

José Lopes lembra que o velho bom senso ainda é o melhor antídoto para evitar problemas: “Não existe pseudoanonimato quando se trata de crime na rede. O perfil virtual não blinda o cidadão que está por trás dele”. Antonio Xavier adota o mesmo tom e sugere que o usuário pense duas vezes antes de pulverizar um pitaco ou comentário: “A internet é sim um território livre, mas as pessoas não estão isentas das consequências que uma verborragia pode lhes trazer. É preciso refrear a língua, ponderar as palavras e pensar no mal-estar que certas coisas postadas podem causar”.

Em tempo: segundo a assessoria de comunicação de UFRPE, as queixas contra o Ademir Ferraz ainda estão em análise na ouvidoria da universidade. Elas serão apreciadas de acordo com a Lei do Servidor Público, que levará em conta apenas o conteúdo postado por ele na função de professor, e não na esfera privada.

Casos polêmicos envolvendo postagens nas mídias sociais

- A jornalista Micheline Borges, do Rio Grande do Norte, publicou em seu perfil que médicas cubanas tinham “cara de empregada doméstica”. Ela responde a um processo por danos morais movido pelo Sindicato das Domésticas de São Paulo.

- A estudante paulista Mayara Petruso, que nas redes sociais publicou que “nordestino não é gente”, foi processada pela Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE) por crime de racismo. No ano seguinte, a estudante gaúcha Sophia Fernandes também foi alvo de outra denúncia da OAB pelo mesmo motivo.

- Em um caso emblemático, o deputado Marcos Feliciano (PSC-SP) causou polêmica ao postar no Twitter o comentário “a podridão dos sentimentos dos homoafetivos leva ao ódio, ao crime, à rejeição”. Ele foi processado no STF por crime de preconceito e sua gestão na Comissão de Direitos Humanos da Câmara foi alvo de vários protestos.

- Justine Sacco, executiva de uma multinacional, foi demitida após postar um comentário no Twitter que provocou repercussão instantânea nas mídias sociais e na imprensa: “Indo para a África. Tomara que não pegue Aids. Brincadeira, 
sou branca”.

- O cantor Ed Motta causou polêmica há três anos ao postar que “mulher feia tem que ser megacompetente (risos)”. Criticado, alegou que não sabia que seu perfil no Facebook estava aberto ao público e disse que não passou de “brincadeiras com amigos”.

- O promotor de Justiça de São Paulo Rogério Zagallo foi demitido da universidade privada onde ensinava no ano passado após postar no Facebook que a polícia poderia matar os manifestantes do Movimento Passe Livre, pois ele mesmo arquivaria os processos.

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Fonte:http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/vida-urbana/2014/01/19/interna_vidaurbana,484997/facebook-nao-e-mesa-de-botequim.shtml