terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A classe média suicida

03.12.2013
Do blog TIJOLAÇO, 23.11.13
Por Fernando Brito

Em 1942, jovem filósofo francês Valentin Feldman, integrante da Resistência Francesa, diante de um pelotão de fuzilamento formado por soldados do Governo de Vichy, aliado dos nazistas, gritou para seus algozes, segundos antes de eles dispararem:
- Imbecis, é por vocês que vou morrer!
O comportamento da elite brasileira, por vezes, lembra o daqueles franceses, que, por covardia e interesses pessoais, tornaram-se agentes da dominação hitleriana sobre o país.
O Brasil jamais, em sua história, foi mais um país de classe média como é hoje – não obstante ainda termos uma legião imensa de  excluídos. Parece mesmo irônico que o governo petista viesse a repetir aquela frase com que procurava desqualificar, nos tempos de imaturidade, Getúlio Vargas, apontado como “o pai dos pobres e a mãe dos ricos”.
Ontem, o BC divulgou o salto dos gastos de brasileiros no exterior: US$ 2,1 bilhões em abril de 2013, 17% acima do registrado em abril do ano passado. Nos quatro primeiros meses do ano, passaram de US$ 8 bilhões.
É obvio que tamanha gastança não é feita pelas elites tradicionais, apenas. Grande parte dela provém da classe média que, deslumbrada com seu poder de compra crescente, viaja à Turquia por causa da novela da Globo ou compra enxovais de bebês em Nova York.
Não se está condenando estas pessoas – embora haja coisas bem melhores para motivar viagens – mas apontando a contradição entre o que podem hoje e o que se deixam levar a pensar sobre o governo que sustenta um crescimento econômico que lhes permite o que, antes, não podia fazer.
Mas é impressionante como ela se deixa levar pelo catastrofismo econômico que, há anos e sob as mais variadas formas, os porta-vozes da dominação financeira que subjugou este país impõem através da mídia e daqueles que ela seleciona como “analistas de economia”.
Porque é ele, o mundo das finanças e dos ganhos astronômicos que não perdoa que, em parte, tenha tido de moderar seus apetites sobre a carne suculenta deste país que, antes, devoravam sem qualquer moderação.
Ontem, o Brasil 247 pôs o dedo na ferida: embora a inflação inicie uma trajetória de queda, a economia aumente sua atividade e o IBGE acabe de registrar o menor índice de desemprego para o mês de abril em 11 anos,  a pressão do catastrofismo não dá tréguas.
O 247 vai ao ponto: eles querem é mais juros.
Os juros que, aliás, a classe média paga em seu consumo.
Como os soldados de Vichy, eles seguem o que os colaboracionistas da dominação lhes ordenam. E nem percebem que são ordens, acham que é mesmo aquilo o que pensam.
Felizmente, também como na França ocupada, eles são minoria, como provam as pesquisas de opinião sobre a popularidade do Governo Dilma.
Mas são os que têm voz, pelos meios de comunicação.
Porque nós, os que defendemos uma trajetória de libertação e avanço deste país, não falamos. E, quando falamos, nos fixamos muito mais na crítica às concessões que a política obriga um governo progressista a fazer.
E, sob este clima, toda sorte de oportunismos se espalha: os marinismos, as chantagens parlamentares do PMDB, a dança com que Eduardo Campos se oferece como alternativa à direita, desfalcada de um José Serra que afunda – atirando, aliás – e um Aécio Neves que não decola.
E, tal como naquela França do pré-guerra, não vão faltar figuras como a de Pierre Laval, que passou de socialista a expoente da direita e um dos maiores colaboradores dos alemães.
Se não entendermos que teremos, nas eleições do ano que vem, de enfrentar corações e mentes desta classe média ascendente com o máximo de solidez possível na base de apoio ao Governo progressista, estaremos correndo sérios riscos.
Isso, de maneira alguma, significa deixarmos de pensar o que pensamos e combater desvios – políticos e pessoais – do poder.
Mas, também, e jamais, esquecermos que a luta que se trava é maior e mais, muito mais, importante e vital.
É pelos direitos do povo brasileiro – mesmo os de sua classe média  – de viver melhor, num país livre, que não mais será escravo de ninguém.
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Quando a Europa salva os bancos, quem paga?

03.12.2013
Do portal do YOUTUBE, 28.09.13
PorBlogue Aventar

Excelente documentário do canal Arte de Junho de 2013 sobre os beneficiários dos resgates bancários na Europa - não, não foram os países nem sequer os cidadãos que com os seus impostos pagam estes regates. Trata-se de um documentário extremamente sóbrio e objectivo. Inclui entrevistas a vários ministros das finanças europeus, a ex-administradores de bancos (os actuais não dão entrevistas), a activistas, etc. Mostra quem realmente beneficiou dos resgates e mostra também as profundas consequências destes resgates.


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Fonte:http://www.youtube.com/watch?v=UwFolpgpksU

A Doença da Classe Média Brasileira

03.12.2013
Do blog DoLaDeLá, 31.10.13

A primeira vez que ouvi a Marilena Chauí bradar contra a classe média, chamá-la de fascista, violenta e ignorante, tive a reação que provavelmente a maioria teve: fiquei perplexo e tendi a rejeitar a tese quase impulsivamente. Afinal, além de pertencer a ela, aprendi a saudar a classe média. Não dá para pensar em um país menos desigual sem uma classe média forte: igualdade na miséria seria retrocesso, na riqueza seria impossível. Então, o engrossamento da classe média tem sido visto como sinal de desenvolvimento do país, de redução das desigualdades, de equilíbrio da pirâmide social, ou mais, de uma positiva mobilidade social, em que muitos têm ascendido na vida a partir da base. A classe média seria como que um ponto de convergência conveniente para uma sociedade mais igualitária. Para a esquerda, sobretudo, ela indicaria uma espécie de relação capital-trabalho com menos exploração.
Então, eu, que bebi da racionalidade desde as primeiras gotas de leite materno, como afirmou certa vez um filósofo, não comprei a tese assim, facilmente. Não sem uma razão. E a Marilena não me ofereceu esta razão. Ela identificou algo, um fenômeno, o reacionarismo da classe média brasileira, mas não desvendou o sentido do fenômeno. Descreveu “O QUE” estava acontecendo, mas não nos ofereceu o “PORQUE”. Por que logo a classe média? Não seria mais razoável afirmar que as elites é que são o “atraso de vida” do Brasil, como sempre foi dito? E mais, ela fala da classe média brasileira, não da classe média de maneira geral, não como categoria social. Então, para ela, a identificação deste fenômeno não tem uma fundamentação eminentemente filosófica ou sociológica, e sim empírica: é fruto da sua observação, sobretudo da classe média paulistana. E por que a classe média brasileira e não a classe média em geral? Estas indagações me perturbavam, e eu ficava reticente com as afirmações de dona Marilena.
Com o passar do tempo, porém, observando muitos representantes da classe média próximos de mim (coisa fácil, pois faço parte dela), bem como a postura desta mesma classe nas manifestações de junho deste ano, comecei lentamente a dar razão à filósofa. A classe média parece mesmo reacionária, talvez não toda, mas grande parte dela. Mas ainda me perguntava “por que” a classe média, e “por que” a brasileira? Havia um elo perdido neste fenômeno, algo a ser explicado, um sentido a ser desvendado.
Então adveio aquela abominável reação de grande parte da categoria médica – justamente uma categoria profissional com vocação para classe média - ao Programa Mais Médicos, e me sugeriu uma resposta. Aqueles episódios me ajudaram a desvendar a espuma. Mas não sem antes uma boa pergunta! Como pode uma categoria profissional pensar e agir assim, de forma tão unificada, num país tão plural e tão cheio de nuanças intelectuais e políticas como o nosso? Estudantes de medicina e médicos parecem exibir um padrão de pensamento e ação muito coesos e com desvios mínimos quando se trata da sua profissão, algo que não se vê em outros segmentos profissionais. Isto não pode ser explicado apenas pelo que se convencionou chamar de “corporativismo”. Afinal, outras categorias profissionais também tem potencial para o corporativismo, e não o são, ao menos não da mesma forma. Então deveria haver outra interpretação para isto.
Bem, naqueles episódios do Mais Médicos, apesar de toda a argumentação pretensamente responsável das entidades médicas buscando salvaguardar a saúde pública, o que me parecia sustentar tal coesão era uma defesa do mérito, do mérito de ser médico no Brasil. Então, este pensamento único provavelmente fora forjado pelas longas provações por que passa um estudante de medicina até se tornar um profissional: passar no vestibular mais concorrido do Brasil, fazer o curso mais longo, um dos mais difíceis, que tem mais aulas práticas e exigências de estrutura, e que está entre os mais caros do país. É um feito se formar médico no Brasil, e talvez por isto esta formação, mais do que qualquer outra, seja uma celebração do mérito. Sendo assim, supõe-se, não se pode aceitar que qualquer um que não demonstre ter tido os mesmos méritos, desfrute das mesmas prerrogativas que os profissionais formados aqui. Então, aquela reação episódica, e a meu ver descabida, da categoria médica, incompreensível até para o resto da classe média, era, na verdade, um brado pela meritocracia. 
A minha resposta, então, ao enigma da classe média brasileira aqui colocado, começava a se desvelar: é que boa parte dela é reacionária porque é meritocrática; ou seja, a meritocracia está na base de sua ideologia conservadora. 
Assim, boa parte da classe média é contra as cotas nas universidades, pois a etnia ou a condição social não são critérios de mérito; é contra o bolsa-família, pois ganhar dinheiro sem trabalhar além de um demérito desestimula o esforço produtivo; quer mais prisões e penas mais duras porque meritocracia também significa o contrário, pagar caro pela falta de mérito; reclama do pagamento de impostos porque o dinheiro ganho com o próprio suor não pode ser apropriado por um Governo que não produz, muito menos ser distribuído em serviços para quem não é produtivo e não gera impostos. É contra os políticos porque em uma sociedade racional, a técnica, e não a política, deveria ser a base de todas as decisões: então, deveríamos ter bons gestores e não políticos. Tudo uma questão de mérito.
Mas por que a classe média seria mais meritocrática que as outras? Bem, creio que isto tem a ver com a história das políticas públicas no Brasil. Nós nunca tivemos um verdadeiro Estado do Bem Estar Social por aqui, como o europeu, que forjou uma classe média a partir de políticas de garantias públicas. O nosso Estado no máximo oferecia oportunidades, vagas em universidades públicas no curso de medicina, por exemplo, mas o estudante tinha que enfrentar 90 candidatos por vaga para ingressar. O mesmo vale para a classe média empresarial, para os profissionais liberais, etc. Para estes, a burocracia do Estado foi sempre um empecilho, nunca uma aliada. Mesmo a classe média estatal atual, formada por funcionários públicos, é geralmente concursada, portanto, atingiu sua posição de forma meritocrática. Então, a classe média brasileira se constituiu por mérito próprio, e como não tem patrimônio ou grandes empresas para deixar de herança para que seus filhos vivam de renda ou de lucro, deixa para eles o estudo e uma boa formação profissional, para que possam fazer carreira também por méritos próprios. Acho que isto forjou o ethos meritocrático da nossa classe média. 
Esta situação é bem diferente na Europa e nos EUA, por exemplo. Boa parte da classe média europeia se formou ou se sustenta das políticas de bem estar social dos seus países, estas mesmas que entraram em colapso com a atual crise econômica e tem gerado convulsões sociais em vários deles; por lá, eles vão para as ruas exatamente para defender políticas anti-meritocráticas. E a classe média americana, bem, esta convive de forma quase dramática com as ambiguidades de um país que é ao mesmo tempo das oportunidades e das incertezas; ela sabe que apenas o mérito não sustenta a sua posição, portanto, não tem muitos motivos para ser meritocrática. Se a classe média adoecer nos EUA, vai perder o seu patrimônio pagando por serviços privados de saúde pela absoluta falta de um sistema público que a suporte; se advém uma crise econômica como a de 2008, que independe do mérito individual, a classe média perde suas casas financiadas e vai dormir dentro de seus automóveis, como se via à época. Então, no mundo dos ianques, o mérito não dá segurança social alguma.
As classes brasileiras alta e baixa (os nossos ricos e pobres) também não são meritocráticas. A classe alta é patrimonialista; um filho de rico herda bens, empresas e dinheiro, não precisa fazer sua vida pelo mérito próprio, portanto, ser meritocrata seria um contrassenso; ao contrário, sua defesa tem que ser dos privilégios que o dinheiro pode comprar, do direito à propriedade privada e da livre iniciativa. Além disso, boa parte da elite brasileira tem consciência de que depende do Estado e que, em muitos casos, fez fortuna com favorecimentos estatais; então, antes de ser contra os governos e a política, e de se intitular apolítica, ela busca é forjar alianças no meio político. 
Para a classe pobre o mérito nunca foi solução; ela vive travada pela falta de oportunidades, de condições ou pelo limitado potencial individual. Assim, ser meritocrata implicaria não só assumir que o seu insucesso é fruto da falta de mérito pessoal, como também relegar apenas para si a responsabilidade pela superação da sua condição. E ela sabe que não existem soluções pela via do mérito individual para as dezenas de milhões de brasileiros que vivem em condições de pobreza, e que seguramente dependem das políticas públicas para melhorar de vida. Então, nem pobres nem ricos tem razões para serem meritocratas. 
A meritocracia é uma forma de justificação das posições sociais de poder com base no merecimento, normalmente calcado em valências individuais, como inteligência, habilidade e esforço. Supostamente, portanto, uma sociedade meritocrática se sustentaria na ética do merecimento, algo aceitável para os nossos padrões morais. 
Aliás, tenho certeza de que todos nós educamos nossos filhos e tentamos agir no dia a dia com base na valorização do mérito. Nós valorizamos o esforço e a responsabilidade, educamos nossas crianças para serem independentes, para fazerem por merecer suas conquistas, motivamo-as para o estudo, para terem uma carreira honrosa e digna, para buscarem por méritos próprios o seu lugar na sociedade.
Então, o que há de errado com a meritocracia, como pode ela tornar alguém reacionário?
Bem, como o mérito está fundado em valências individuais, ele serve para apreciações individuais e não sociais. A menos que se pense, é claro, que uma sociedade seja apenas um agregado de pessoas. Então, uma coisa é a valorização do mérito como princípio educativo e formativo individual, e como juízo de conduta pessoal, outra bem diferente é tê-lo como plano de governo, como fundamento ético de uma organização social. Neste plano é que se situa a meritocracia, como um fundamento de organização coletiva, e aí é que ela se torna reacionária e perversa. 
Vou gastar as últimas linhas deste texto para oferecer algumas razões para isto, para mostrar porquê a meritocracia é um fundamento perverso de organização social. 
a) A meritocracia propõe construir uma ordem social baseada nas diferenças de predicados pessoais (habilidade, conhecimento, competência, etc.) e não em valores sociais universais (direito à vida, justiça, liberdade, solidariedade, etc.). Então, uma sociedade meritocrática pode atentar contra estes valores, ou pode obstruir o acesso de muitos a direitos fundamentais.
b) A meritocracia exacerba o individualismo e a intolerância social, supervalorizando o sucesso e estigmatizando o fracasso, bem como atribuindo exclusivamente ao indivíduo e às suas valências as responsabilidades por seus sucessos e fracassos. 
c) A meritocracia esvazia o espaço público, o espaço de construção social das ordens coletivas, e tende a desprezar a atividade política, transformando-a em uma espécie de excrescência disfuncional da sociedade, uma atividade sem legitimidade para a criação destas ordens coletivas. Supondo uma sociedade isenta de jogos de interesse e de ambiguidades de valor, prevê uma ordem social que siga apenas a racionalidade técnica do merecimento e do desempenho, e não a racionalidade política das disputas, das conversações, das negociações, dos acordos, das coalisões e/ou das concertações, algo improvável em uma sociedade democrática e pluralista.
d) A meritocracia esconde, por trás de uma aparente e aceitável “ética do merecimento”, uma perversa “ética do desempenho”. Numa sociedade de condições desiguais, pautada por lógicas mercantis e formada por pessoas que tem não só características diferentes mas também condições diversas, merecimento e desempenho podem tomar rumos muito distantes. O Mário Quintana merecia estar na ABL, mas não teve desempenho para tal. O Paulo Coelho, o Sarney e o Roberto Marinho estão (ou estiveram) lá, embora muitos achem que não merecessem. O Quintana, pelo imenso valor literário que tem, não merecia ter morrido pobre nem ter tido que morar de favor em um hotel em Porto Alegre, mas quem amealhou fortuna com a literatura foi o Coelho. Um tem inegável valor literário, outro tem desempenho de mercado. O José, aquele menino nota 10 na escola que mora embaixo de uma ponte da BR 116 (tema de reportagem da ZH) merece ser médico, sua sonhada profissão, mas provavelmente não o será, pois não terá condições para isto (rezo para estar errado neste caso). Na música popular nem é preciso exemplificar, a distância entre merecimento e desempenho de mercado é abismal. Então, neste mudo em que vivemos, valor e resultado, merecimento e desempenho nem sempre caminham juntos, e talvez raramente convirjam. 
Mas a meritocracia exige medidas, e o merecimento, que é um juízo de valor subjetivo, não pode ser medido; portanto, o que se mede é o desempenho supondo-se que ele seja um indicador do merecimento, o que está longe de ser. Desta forma, no mundo da meritocracia – que mais deveria se chamar “desempenhocracia” - se confunde merecimento com desempenho, com larga vantagem para este último como medida de mérito.
e) A meritocracia escamoteia as reais operações de poder. Como avaliação e desempenho são cruciais na meritocracia, pois dão acesso a certas posições de poder e a recursos, tanto os indicadores de avaliação como os meios que levam a bons desempenhos são moldados por relações de poder; e o são decisivamente. Seria ingênuo supor o contrário. Assim, os critérios de avaliação que ranqueiam os cursos de pós-graduação no país são pautados pelas correntes mais poderosas do meio acadêmico e científico; bons desempenhos no mercado literário são produzidos não só por uma boa literatura, mas por grandes investimentos em marketing; grandes sucessos no meio musical são conseguidos, dentre outras formas, “promovendo” as músicas nas rádios e em programas de televisão, e assim por diante. Os poderes econômico e político, não raras vezes, estão por trás dos critérios avaliativos e dos “bons” desempenhos.
Critérios avaliativos e medidas de desempenho são moldáveis conforme os interesses dominantes, e os interesses são a razão de ser das operações de poder; que por sua vez, são a matéria prima de toda a atividade política. Então, por trás da cortina de fumaça da meritocracia repousa toda a estrutura de poder da sociedade.
Até aí tudo bem, isso ocorre na maioria dos sistemas políticos, econômicos e sociais. O problema é que, sob o manto da suposta “objetividade” dos critérios de avaliação e desempenho, a meritocracia esconde estas relações de poder, sugerindo uma sociedade tecnicamente organizada e isenta da ingerência política. Nada mais ilusório e nada mais perigoso, pois a pior política é aquela que despolitiza, e o pior poder, o mais difícil de enfrentar e de combater, é aquele que nega a si mesmo, que se oculta para não ser visto.
e) A meritocracia é a única ideologia que institui a desigualdade social com fundamentos “racionais”, e legitima pela razão toda a forma de dominação (talvez a mais insidiosa forma de legitimação da modernidade). A dominação e o poder ganham roupagens racionais, fundamentos científicos e bases de conhecimento, o que dá a eles uma aparente naturalidade e inquestionabilidade: é como se dominados e dominadores concordassem racionalmente sobre os termos da dominação.
f) A meritocracia substitui a racionalidade baseada nos valores, nos fins, pela racionalidade instrumental, baseada na adequação dos meios aos resultados esperados. Para a meritocracia não vale a pena ser o Quintana, não é racional, embora seus poemas fossem a própria exacerbação de si, de sua substância, de seus valores artísticos. Vale mais a pena ser o Paulo Coelho, a E.L. James, e fazer uma literatura calibrada para vender. Da mesma forma, muitos pais acham mais racional escolher a escola dos seus filhos não pelos fundamentos de conhecimento e valores que ela contém, mas pelo índice de aprovação no vestibular que ela apresenta. Estudantes geralmente não estudam para aprender, estudam para passar em provas. Cursos de pós-graduação e professores universitários não produzem conhecimentos e publicam artigos e livros para fazerem a diferença no mundo, para terem um significado na pesquisa e na vida intelectual do país, mas sim para engrossarem o seu Lattes e para ficarem bem ranqueados na CAPES e no CNPq. 
A meritocracia exige uma complexa rede de avaliações objetivas para distribuir e justificar as pessoas nas diferentes posições de autoridade e poder na sociedade, e estas avaliações funcionam como guiões para as decisões e ações humanas. Assim, em uma sociedade meritocrática, a racionalidade dirige a ação para a escolha dos meios necessários para se ter um bom desempenho nestes processos avaliativos, ao invés de dirigi-la para valores, princípios ou convicções pessoais e sociais.
g) Por fim, a meritocracia dilui toda a subjetividade e complexidade humana na ilusória e reducionista objetividade dos resultados e do desempenho. O verso “cada um de nós é um universo” do Raul Seixas – pérola da concepção subjetiva e complexa do humano - é uma verdadeira aberração para a meritocracia: para ela, cada um de nós é apenas um ponto em uma escala de valor, e a posição e o valor que cada um ocupa nesta escala depende de processos objetivos de avaliação. A posição e o valor de uma obra literária se mede pelo número de exemplares vendidos, de um aluno pela nota na prova, de uma escola pelo ranking no Ideb, de uma pessoa pelo sucesso profissional, pelo contracheque, de um curso de pós-graduação pela nota da CAPES, e assim por diante. Embora a natureza humana seja subjetiva e complexa e suas interações sociais sejam intersubjetivas, na meritocracia não há espaço para a subjetividade nem para a complexidade e, sendo assim, lamentavelmente, há muito pouco espaço para o próprio ser humano. Desta forma, a meritocracia destrói o espaço do humano na sociedade.
Enfim, a meritocracia é um dos fundamentos de ordenamento social mais reacionários que existe, com potencial para produzir verdadeiros abismos sociais e humanos. Assim, embora eu tenda a concordar com a tese da Marilena Chauí sobre a classe média brasileira, proponho aqui uma troca de alvo. Bradar contra a classe média, além de antipático pode parecer inútil, pois ninguém abandona a sua condição social apenas para escapar ao seu estereótipo. Não se muda a posição política de alguém atacando a sua condição de classe, e sim os conceitos que fundamentam a sua ideologia. 
Então, prefiro combater conceitos, neste caso, provavelmente o conceito mais arraigado na classe média brasileira, e que a faz ser o que é: a meritocracia.

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Valter Sanches: Os jornais tradicionais desinformam intencionalmente a sociedade, pois não gostam da democracia, especialmente na comunicação

03.12.2013
Do blog MARIAFRÔ, 01.12.13
Por Valter Sanches em seu Facebook

Os jornais tradicionais desinformam intencionalmente a sociedade, pois não gostam da democracia. Especialmente na comunicação. Qualquer mínima iniciativa fora do seu controle é fortemente combatida. Com mau jornalismo e mentiras. E se recusam a se corrigir. Abaixo, a carta que enviamos à ombudsman da FSP, devidamente ignorada na sua coluna de hoje:
“Prezada Suzana Singer,
Encaminho abaixo carta do diretor do Comunicação do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e presidente da Fundação Sociedade, Comunicação, Cultura e Trabalho com comentários a respeito de matéria publicada ontem (26/11) pela Folha de SP sob o título “Anatel autoriza nova antena que ampliará alcance da TV da CUT”.

Atenciosamente,
Patrícia de Paula
Coordenadora de Assessoria de Imprensa
Sindicato dos Metalúrgicos do ABC
(11) 4128-4253 / 4061-1066
São Bernardo do Campo, 27 de novembro de 2013
Prezada Suzana Singer/Ombudsman – FSP,

Em relação à matéria publicada no último dia 26 de novembro (Folha de SP, caderno Poder, pág. A11) a Fundação Sociedade, Comunicação, Cultura e Trabalho gostaria de esclarecer questões fundamentais que não foram abordadas no texto:

- A transferência das antenas de transmissão da TVT de São Caetano do Sul para a Av. Paulista faz parte de um replanejamento da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) para a Região Metropolitana de São Paulo, no processo de antecipação da digitalização das TVs, que envolveu todas as entidades e empresas de comunicação televisiva. Para a realização deste replanejamento, foram realizadas reuniões entre a Agência, o Ministério das Comunicações e as entidades nos dias 1º e 2 de abril de 2013.

- Pelo acordo feito com a Fundação durante esse processo, a TVT – que teria direito a duas geradoras (uma em Mogi das Cruzes e outra em São Caetano do Sul), cada uma com dois canais (um analógico e outro digital) – abriu mão da geradora de Mogi das Cruzes (que será transformada em retransmissora) e dos canais analógicos, ficando apenas com a geradora de São Caetano. E recebeu autorização para cota deslocada para a antena da Av. Paulista, procedimento comum e que já é autorizado e utilizado por inúmeras emissoras. A Fundação aguarda desde Julho de 2012 essa autorização. Na verdade, desde 1987, data do nosso primeiro pedido de concessão.

- Desconhecemos a existência de qualquer documento interno da Anatel desaconselhando os procedimentos. Essa informação nos causa estranheza, uma vez que os técnicos da Agência não só estavam presentes às reuniões como as coordenaram.

- Nos causa estranheza, da mesma forma, as motivações que moveriam uma suposta fonte do jornal na Anatel, tentando apontar uma irregularidade técnica no processo de implantação de uma TV Educativa como a TVT, única outorgada a um Sindicato de trabalhadores. Talvez, para alguns, haja uma inconformidade com um mínimo – e ainda muito tímido – processo de democratização do espectro da radiodifusão no Brasil, que representamos.
Valter Sanches
Diretor de Comunicação do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e presidente da Fundação Sociedade, Comunicação, Cultura e Trabalho
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"Thanksgiving Day" e "Black Friday": um antagonismo?

04.12.2013
Do portal ULTIMATOONLINE, 29.11.13

Se existem datas "tipicamente" americanas que foram importadas para o Brasil sem muito êxito elas são o Thanksgiving Day (Dia de Ações de Graças) e o Black Friday (Sexta Negra). Digo isto porque as aspirações brasileiras em torno destas datas não chegam perto da realização dos seus criadores. Porém, como fui questionado sobre ambas as datas, gostaria de refletir sobre o antagonismo que percebo entre elas, principalmente no contexto cristão protestante.

O Black Friday é a expressão americana para descontos no varejo. Para mim, nada tem a ver com doutrinas espiritualistas afro-brasileiras, como li recentemente na internet. O Black Friday é puro merchandising, é marketing, é a sexta-feira da quarta semana de novembro em todos os anos. Segundo dados do site oficial, o Black Friday brasileiro em 2012 reuniu 300 lojas virtuais (marca bem superior aos 50 parceiros de 2011), cada uma anunciando ofertas que poderiam chegar a 75%. 

Grandemente celebrado nos Estados Unidos e Canadá, o Thanksgiving Day ou o Dia de Ação de Graças é um feriado cristão em gratidão a Deus pelos acontecimentos durante o ano. A história do costume permeia o século XVII, com a imigração de puritanos (protestantes ingleses) para o Novo Mundo. O "Mayflower" levava a bordo muitas famílias que fugiam da perseguição religiosa em busca de liberdade. Os protestantes das 13 colônias fundadas, apesar das adversidades, mantiveram sua fé em Deus; e o Senhor os abençoou. No outono de 1621, tiveram uma colheita tão abençoada quanto abundante. Emocionados e sinceramente agradecidos, reuniram os melhores frutos, e convidaram os índios, para juntos celebrarem uma grande festa de louvor e gratidão a Deus. Nascia o "Thanksgiving Day". No Brasil, inspirados pelo dia norte-americano, desde o Presidente Dutra e a Lei 781, passando pelo Marechal Castelo Branco (1966), o Dia Nacional de Ação de Graças está instituído na quarta quinta-feira de novembro em todos os anos, apesar de uma intensidade diferente.

Definido os termos, reflito: as datas de ambos acontecimentos são próximas, sendo que uma precede a outra; uma fala de consumo, a outra de produção; uma denota desconto a outra profusão; uma estabelece a compra exagerada e a outra a simplicidade da gratidão. Calma! Não sou contra nem uma, nem outra... Só reflito no antagonismo destas realidades. A oposição de idéias é clara. 

Gostaria apenas que os leitores refletissem sobre os perigos do consumismo desenfreado (ênfase), tão proeminente que é celebrado após o Dia de Ação de Graças. Marketing perigoso. Reflitam sobre a insignificância da comemoração de gratidão em nosso país cristão... Omissão perigosa.

Enfim, a grande verdade é que, para muitos (incluindo cristãos protestantes) o sincero Thanksgiving Day é seu Black Friday bem sucedido. Neste ponto, não há antagonismo, é mero consumismo.
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Mensalão do PSDB: dez anos parado. Aécio, não cobra rapidez e Barroso, diz que não comenta

03.12.2013
Do blog OS AMIGOS DO PRESIDENTE LULA, 02.12.13

A primeira ação judicial que trata dos. fatos relacionados ao mensalão do PSDB completou ontem dez anos de tramitação no Supremo Tribunal Federai Distribuída para o então relator, ministro Carlos Ayres Britto, no dia 1° de dezembro de 2003, a ação civil pública por atos de improbidade administrativa está praticamente parada na Corte neste período de uma década. Segundo denúncia da Procuradoria-Geral da República, o mensalão do PSDB foi um esquema de arrecadação ilegal de recursos para a campanha à reeleição do então governador de Minas, Eduardo Azeredo (PSDB), em 1998. A ação por improbidade foi ajuizada quatro anos antes da denúncia criminal e é o primeiro processo envolvendo a campanha tucana daquele ano.

A ação pede a indisponibilidade ou bloqueio cautelar de bens até o limite de R$ 12 milhões do ex-governador mineiro e atual deputado e outros dez requeridos - entre eles Marcos Valério Fernandes de Souza, seus sócios na SMPB, já condenado no mensalão federal, e o atual senador Clésio Andrade (PMDB-MG).

Os procuradores e promotores afirmam 11a peça conjunta dos Ministérios Públicos Federal e Estadual que o governo de Minas autorizou de forma ilegal o pagamento de R$ 3 milhões das estatais Companhia Mineradora de Minas (Comig, atual Codemig) e Companhia de Saneamento do Estado (Copasa) para a agência SMPB, como objetivo de patrocinar o evento esportivo Enduro da Independência.

Trata-se do grosso do desvio  de dinheiro público apontado em 2007 na denúncia criminal do mensalão do PSDB  pelo então procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza - para quem o “esquema delituoso verificado no ano de 1998 foi a origem e o laboratório dos fatos descritos” na acusação formal do mensalão federal.

O prosseguimento da ação aguarda o julgamento pelo plenário do Supremo de dois recursos apresentados em 2005 contra a decisão do então relator Ayres Britto, que havia determinado a remessa dos autos à Justiça Estadual de Minas, entendendo que não cabe foro privilegiado para crimes de improbidade administrativa. Ayres Britto completou 70 anos no fim do ano passado e se aposentou compulsoriamen-frido dos Mares Guia, como réu. Ele atuou como coordenador-ge-ral da campanha de 1998, quando candidato a deputado federal.

Não há data para a análise dos recursos pelo plenário do STF. O gabinete de Barroso informou que o ministro não iria comentar

O tesoureiro da campanha do PSDB ao governo de Minas em 1998, Cláudio Mourão, fará 70 anos em abril e também poderá requerer a prescrição — cujo prazo de 16 anos entre a ocorrência do fato e a aceitação da denúncia cai pela metade quando o réu completa tal idade. No caso do mensalão mineiro foram 12 anos entre os fatos (1998) e o acolhimento da acusação criminal formal (2010). Na ação civil, não há risco de prescrição.

Na prática, a falta de conclusão da ação civil no Supremo impede desdobramentos do caso. A Promotoria de Defesa do Patrimônio Público prepara uma nova ação contra réus pedindo a devolução de recursos que saíram do antigo Banco do Estado de Minas Gerais (Bemge) e foram parar na campanha à reeleição de Azeredo.

Além dos R$ 3 milhões já apontados na ação que corre no STF, R$ 500 mil de empresas do grupo Bemge foram desviados por meio de patrocínio do Iron Biker, outro evento esportivo organizado pela SMPB, segundo laudos do Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal.

Pedidos.


 Por solicitação do promotor João de Medeiros, o então procurador-geral Roberto Gurgel encaminhou no fim de 2012 ofício ao STF pedindo que fosse dada preferência ao julgamento dos recursos da Pet 3067 - nome do processo na Corte. Questionada, a assessoria jurídica do atual procurador-geral, Rodrigo Janot, afirmou que o Ministério Público “já fez, tecnicamente, o possível” e a questão agora depende exclusivamente do Judiciário.

Em junho deste ano, o presidente do STF e do Conselho Nacional de Justiça, Joaquim Barbosa, criticou o desempenho dos tribunais brasileiros no julgamento de processos de improbidade. O tema foi incluído nas metas do Judiciário para 2013, mas apenas 36,55% dos processos protocolados até 2011 haviam sido julgados.

Condenado pelo mensalão federal a 6 anos e 2 meses de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro, Rogério Tolentino figura na ação cível como advogado de Valério, seus sócios e das empresas. “É uma coisa bem antiga, não existia nada de mensalão... Essa coisa ficou parada muito tempo”, diz Tolentino. “Não serei mais esse advogado. Fui e não sou, apesar de constar meu nome.” As informações são do jornal O Estado de São Paulo
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Wolglan Melo: A mídia que bate em Chico nem olha pra Francisco

03.12.2013
Do blog VI O MUNDO
Por Wolglan Melo*, especial para o Viomundo
A mídia até agora pouco ou nada falou sobre o assunto

Nos últimos dias, graças ao interesse em comum de meia dúzia de veículos de comunicação que compõem a chamada grande mídia em nosso país (grande na estrutura e minúscula na transparência de suas notícias), o cidadão brasileiro tem sido informado em tempo real sobre os desdobramentos da Ação Penal 470, que terminou como começou: arbitrariedades, politização do judiciário, ego, vaidade e a sumária condenação do ex-ministro Zé Dirceu, do ex-presidente do PT, José Genoíno, e do ex-tesoureiro Delúbio Soares.

Por apresentar inúmeros equívocos, que já foram repudiados, por unanimidade, até mesmo pela OAB, o processo por si só já seria suficiente para refletirmos o comportamento cínico dessa mídia que faz questão de varrer, a todo o momento, a verdade para debaixo do tapete e, em um show de anti-jornalismo, transforma erros explícitos em verdades que tomam conta do senso comum e, com isso, tenta transformar a sua opinião publicada em opinião pública.

Adaptando uma frase ostentada nos cartazes dos indignados que acamparam na praça Puerta Del Sol, em Madrid/Espanha, à realidade da nossa conjuntura política, podemos dizer que, neste caso, “tiraram a justiça, deturparam os fatos e aplicaram a lei”.

Caixa 2, caciques do PSDB e o trensalão

O curioso é que essa mesma mídia, que diz ser imparcial, ética e transparente, cobre com afinco as decisões do STF, mas ignora com um enorme profissionalismo dois episódios recentes de extremo interesse para a sociedade brasileira.

O primeiro diz respeito ao TRENSALÃO. De acordo com Everton Rheinheimer, ex-diretor da Siemens, há 16 anos, existe um forte esquema de corrupção comandado pelo PSDB no governo de São Paulo, cujo objetivo principal era o abastecimento do Caixa 2 do PSDB e do DEM.

O ex-diretor disse também que a sua ex-empresa compartilha uma conta na Suiça que já movimentou mais de R$ 64 milhões para o pagamento de lobistas, políticos e altos funcionários do governo tucano que eram beneficiados pelo esquema de corrupção nas licitações do Metrô de São Paulo.

“Eu tô te explicando pra te confundir”

A grande mídia, visando desvincular o PSDB da denúncia, informa desinformando. Em vez de comunicar à população que o caso se trata de CORRUPÇÃO, QUADRILHA e principalmente de um CAIXA 2 tocado pelo PSDB, em um contorcionismo midiático surpreendente, a grande mídia tem afirmado que o caso envolve ILEGALIDADE, CARTEL, CARTEL COM AVAL DO GOVERNO e outras palavras brandas. Ou seja, buscando despistar a atenção do espectador, nenhuma citação direta foi feita até agora em relação aos denunciados e ao partido tucano.

Helicóptero, cocaína e política

Já o segundo caso escancara, ainda mais, o cinismo de determinados veículos da grande mídia. No último domingo (24/11), a Polícia Federal apreendeu 450kg de cocaína em um helicóptero da empresa Limeira Agropecuária, que é propriedade do deputado estadual Gustavo Perrella (SDD/MG), filho do senador Zezé Perrella (PDT-MG), aliado político histórico do presidenciável Aécio Neves (PSDB/MG). A mídia até agora pouco ou nada falou sobre o assunto.

Não quero ser leviano e nem utilizar os mesmos e espúrios mecanismos utilizados, frequentemente, pela grande mídia para levantar suspeitas, mas é muito estranho que quase MEIA TONELADA DE COCAÍNA seja apreendida em um helicóptero de uma família tradicional da política mineira que, por tabela, tem relações intrínsecas com um candidato à Presidência da República e tudo isso seja desinteressante.

Pergunto aos meus botões: já imaginaram se o assunto envolvesse um filho, primo, sobrinho ou amigo de alguém do PT? Por exemplo, já pensou se o deputado estadual Gustavo Perrella fosse o deputado federal Zeca Dirceu, filho do ex-ministro Zé Dirceu? Será que a mídia teria a mesma inércia? Apostaria que não! Concordo com o jornalista Renato Rovai quando diz que “o que importa para a mídia não é o crime, mas a legenda do criminoso”.

Esses três exemplos nos dão uma noção clara de como essa mídia atua no Brasil. Fica claro que, de fato, o pau da mídia que bate em Chico nem olha pra Francisco.

Resumo da ópera: a verdade na grande mídia só ocorre quando ela fala do espaço ou do fundo do mar. Do contrário, é preciso ter muito cuidado, pois até o ‘bom dia’ dela, dependendo do interesse que ela tenha no dia, pode estar distorcido.

*Wolglan Melo é jornalista em Brasília.

Leia também:

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Fonte:

GENOCÍDIO DO ARAGUAIA: "RECEBEMOS ORDEM PARA MATAR TODOS. E MATAMOS"

03.12.2013
Do blog NÁUFRAGO DA UTOPIA, 28.03.2011
Por Celso Lungaretti

"A ordem era atirar primeiro, perguntar depois"
Merece nosso reconhecimento a revelação, na edição dominical da Folha de S. Paulo (27/03), das diretrizes da Marinha ordenando a eliminação dos guerrilheiros do Araguaia.

Mas, justiça seja feita, foi a combativa revista IstoÉ quem primeiramente trouxe a comprovação irrefutável de que as Forças Armadas brasileiras haviam executado, de forma sistemática,  os guerrilheiros do Araguaia já rendidos, em sua edição nº 2036 (12/11/2008).

Tratou-se da reportagem A Tropa do Extermínio, baseada em documentos secretos fornecidos e entrevista concedida por José Vargas Jiménez -- que, como sargento, participara da chamada Operação Marajoara.

Eis os trechos mais marcantes:
"Pela primeira vez surge um documento do Exército brasileiro comprovando que os militares enfrentaram os militantes do PCdoB no Araguaia (1972/1975) com ordem para matar. Chamado de Normas Gerais de Ação - Plano de Captura e Destruição, o documento, de 5 de setembro de 1973, elaborado pelo Centro de Informação do Exército (CIEx), ao qual IstoÉ teve acesso, relaciona os 'terroristas traidores da nação' que deveriam ser 'destruídos'.
 Em outubro de 1973, este documento estava na mochila do então 3º sargento José Vargas Jiménez, quando desembarcou de um avião militar Hércules C-130, na base militar de Marabá (PA), e subiu em um caminhão do Exército rumo ao quilômetro 68 da Rodovia Transamazônica para combater na Operação Marajoara - a terceira e derradeira fase da Guerrilha do Araguaia. O verbo 'destruir' redigido no documento, segundo Vargas, hoje 1º tenente da reserva, é um eufemismo para matar. 'A ordem era exterminar', afirmou Vargas à IstoÉ.
Os papéis agora revelados pelo tenente da reserva José Vargas Jiménez mostram como os militares montaram a Operação Marajoara para destruir totalmente os guerrilheiros do PCdoB no Araguaia.
Primeiro, eles prenderam e torturaram os camponeses que moravam nas diversas localidades relacionadas no documento. Com isso, reuniram informações e 'ganharam' apoio da população na luta contra os insurgentes.
O Vargas de 1973 e o documento
secreto que ele entregou à IstoÉ
 A seguir, os militares entraram na mata sem uniforme para caçar e exterminar os comunistas.  (...) Primeiro foram mortos os comandantes da guerrilha.
Em 14 de outubro de 1973, os militares deram início ao que Vargas chama de 'fase do extermínio'. No documento que o então sargento carregava, agora revelado por IstoÉ, está detalhado quem era quem no esquema insurgente. "Tínhamos um álbum de fotos, nomes e área (região) onde atuavam, além de seus destacamentos", lembra o militar.
Chamado de Plano de Captura e Destruição, o relatório, na primeira página, identificava os grupos de guerrilheiros que deveriam ser abatidos, por prioridade. A chamada comissão militar da guerrilha deveria ser dizimada em primeiro lugar. 'Eles eram prioridade 1', diz Vargas.
Com a relação nas mãos, os militares se embrenharam na floresta e a matança começou. 'Numa caminhada pela região de Caçador, encontrei três corpos de guerrilheiros abandonados na mata. Um deles era o André Grabois, filho de um dos líderes dos comunistas. Um outro, um mateiro, um de meus soldados decepou-lhe o dedo, tirou a carne, e colocou o osso num colar', afirma o tenente da reserva.
Vargas também se recorda que em 24 de novembro, depois de um tiroteio, outros corpos foram abandonados. 'Como não conseguimos identificar um deles, recebemos ordens pelo rádio para decapitar e cortar as mãos do inimigo, para identificação. Os outros corpos foram abandonados por lá. É claro que os animais os comeram. Nós não tínhamos obrigação de carregar corpo de guerrilheiro e nem de enterrá- los', diz. Segundo Vargas, quando as fotos não eram suficientes para identificar os abatidos, suas cabeças e mãos eram cortadas para posterior reconhecimento na Base de Marabá.
O Vargas de 2008 ainda
justificava a tortura
No dia de Natal de 1973, um combate exterminou oito integrantes da comissão militar do PCdoB. (...) Um mês depois, em São Domingos das Latas, Vargas capturou  Piauí, como era conhecido o estudante de medicina Antônio de Pádua Costa. Piauí havia assumido o comando do principal destacamento dos guerrilheiros depois do massacre do Natal. '
Esse eu peguei na mão, depois de uma luta', conta o militar. 'Eu o entreguei vivo ao CIEx. Mas ele consta na lista de desaparecidos políticos', afirma.
A caçada final aos comunistas começou em 1º de outubro de 1973. (...) A tropa de Vargas embarcou rumo a Bacaba, uma das duas bases militares na região, situada ao norte da área de combate, as margens da Transamazônica. A outra base militar era a de Xambioá, ao sul, próximo ao atual Estado do Tocantins. Partindo das duas bases, fizeram um cerco aos moradores e guerrilheiros.
Entrando de casa em casa, os militares colecionaram prisões de camponeses. (...) Nas bases militares, os camponeses eram submetidos a todo tipo de tortura. 'Eles eram colocados descalços em pé em cima de latas, só se apoiando com um dedo na parede, tomavam telefones -- tapas nos ouvidos -- e choques elétricos', conta o militar. "Prendi mais de 30", contabiliza. "Um deles eu coloquei nu em um pau-de-arara, com o corpo lambuzado de açúcar, em cima de um formigueiro".
A crueza na descrição da carnificina prosseguiu na entrevista de Vargas, da qual constam estas outras  pérolas:
"A ordem era atirar primeiro, perguntar depois. Recebemos ordem para matar todos. E matamos. Se algum guerrilheiro sobreviveu à terceira fase, foi porque colaborou com a gente e ganhou uma nova identidade".
A denúncia da IstoÉ foi lembrada em protesto
contra assassinatos do Morro da Providência
"Primeiro, prendemos todos os homens da região. Criamos um Grupo de Autodefesa , formado por moradores bem remunerados, que nos ajudavam entregando os comunistas. Depois que matamos os comandantes da guerrilha, os outros ficaram perambulando famintos pela selva. Numa tática de desmoralização, quando eles eram capturados, eles eram amarrados pelo pescoço e expostos pelas ruas dos vilarejos. (...) Desfilamos com o corpo de Oswaldão, o líder máximo deles, dependurado num helicóptero. Foi o fim do mito".
 "Torturar é normal numa guerra. Para obter informações, você tem que apelar, fazer uma tortura, senão o cara não conta. Não existe lei numa guerra. Você mata ou morre. A tortura nunca vai acabar. É assim que funciona".
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Um dia em Luanda, a cidade mais cara do mundo

03.12.2013
Do portal OPERA MUNDI, 
Por Manuel Sebastião | Agência Efe | Luanda    

Capital de Angola ultrapassou Tóquio como o local mais custoso do planeta para expatriados; aluguéis chegam a US$ 30 mil
Os US$ 3.000 (cerca de R$ 7.000) recebidos todo mês pelo espanhol José Aguilar por seu trabalho em uma empresa de petróleo americana em Luanda servem, a duras penas, para custear a vida na cidade considerada a mais cara do mundo.


Segundo o estudo sobre o custo de vida em mais de 200 cidades, publicado anualmente pela empresa de consultoria de RH Mercer, Luanda ultrapassou Tóquio em 2013 como a cidade mais proibitiva do mundo para expatriados.

Wikimedia Commons
Ao fundo, a região da Restinga, em Luanda

Aguilar, que, aos 28 anos, passou os últimos seis em Luanda, disse à Agência Efe que chegar ao fim do mês é uma corrida, já que o aluguel do seu pequeno apartamento no bairro de expatriados de Alvalade lhe consome um terço de seu salário.
Em Alvalade, alugar uma casa pode custar US$ 30 mil (quase R$ 70 mil) por mês. Por isso, quase nenhum angolano pode se dar ao luxo de viver lá. No bairro só vivem diplomatas e estrangeiros ligados à economia de petróleo do país, o segundo produtor da África Subsaariana, atrás apenas da Nigéria.
Aguilar admite que seu dia a dia é uma despesa permanente na cidade mais cara do mundo, e é quase impossível economizar algum dinheiro para enviar a sua mãe, que está desempregada na Espanha.

Assista:

"Os estrangeiros pagam tudo mais caro que os angolanos", reclama o jovem espanhol, uma situação comum em muitas cidades africanas, onde a economia dos expatriados e das populações locais são totalmente desconectadas.
Assim, enquanto o salário mensal de um angolano de classe média se situa em US$ 200 (R$ 466), os dos estrangeiros se contam por milhares, gastos em seus bairros com serviços e padrões que se aproximam, em algumas ocasiões, aos da Europa.
Um africano comprará em um mercado local, já um estrangeiro optará por um supermercado de um centro comercial, e o vendedor de um mercado fixará preços diferentes a seus produtos quando se aproximar um cliente negro ou de um branco.
Wikimedia Commons
Vista da avenida 4 de Fevereiro, em Luanda; aluguéis podem chegar a US$ 30 mil, e prato de carne, a US$ 40

Um prato de carne em um restaurante particularmente caro no centro de Luanda gira em torno de US$ 40 (R$ 93), enquanto em um hotel, custa quase US$ 100 (R$ 233). Uma lata de cerveja local, a popular Cuca, à venda em cada rua de Luanda por 100 kwanzas angolanas (US$ 1,3, pouco mais de R$ 3), quintuplica seu preço em bares, discotecas, hotéis e aeroportos.

Tudo é possível em uma cidade que chegou a alcançar uma inflação de 1.000% durante a guerra civil que afetou o país e terminou em 2002. Agora, essa taxa se situa nos 9,8%, segundo o Banco Nacional de Angola.
Pelo menos no setor imobiliário os preços baixaram, a casa de Aguilar custava há alguns anos cerca de cinco vezes mais, mas a construção com financiamento do governo da China de novas áreas residenciais fez com que o preço dos aluguéis diminuísse.

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A imensa "bolha" econômica da capital angolana também se deve em parte ao êxodo em massa de moradores do interior do país durante a guerra, que buscaram, nas cidades como Luanda, tranquilidade e meios de subsistência.
Mas a capital, que foi projetada para acomodar 600 mil pessoas, chegou a abrigar 6 milhões durante o conflito, e os preços das moradias dispararam. No entanto, o negócio imobiliário segue crescendo, segundo o promotor Mateus Soares.
O empresário, que se dedica aos aluguéis há 12 anos, disse à Efe que seu negócio consegue manter sua mulher e seus cinco filhos. "Os lucros caíram muito, mas são suficientes para alimentar a minha família, pagar a escola das crianças e a assistência médica", explicou Soares. Seus clientes são na maioria estrangeiros, e com cada contrato de aluguel que pode fechar, recebe 10% do valor.

Wikimedia Commons
Angola passa por boom construtivo; na foto, obras de um hotel na região do Alvalade

Estas enormes desigualdades, tônica nas cidades do continente, são especialmente acentuadas em Luanda, onde seus habitantes usam qualquer truque para espremer ao máximo seus normalmente magros recursos.
Não é de estranhar que até as próprias autoridades admitam que ninguém em Luanda vive apenas com o seu salário, mas também recorre a outros "negócios".
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