quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Médicos furiosos com Dilma podem afundar o PSDB e o DEM

17.10.2013
Do BLOG DA CIDADANIA, 15.10.13
Por Eduardo Guimarães
Em maio deste ano, o Brasil recebeu um alerta da Organização Mundial de Saúde (OMS): o país tem apenas 17,6 médicos para cada 10 mil pessoas – ou 1,76 médico para cada mil habitantes – e esse número, segundo a organização, é metade do encontrado em países europeus. No Maranhão, por exemplo, teríamos índice comparável aos de Iraque ou Índia.
O número da OMS parece superestimado quando se sabe que o número de médicos em atividade no Brasil chegou a 388.015 em outubro de 2012, segundo registros do Conselho Federal de Medicina (CFM). Contudo, grande parte dos médicos com registro que permite atuarem na profissão, não a exercem.
As estimativas não-oficiais do número de médicos no país giram em torno de 300 mil profissionais atuando regularmente. Pelo critério da OMS, pois, teríamos um número ainda pior: 14,9 médicos por cada 10 mil brasileiros, ou 1,49 por grupos de mil.
Nos países europeus, por exemplo, o número de médicos beira a três por grupos de mil habitantes.
Em julho último, matéria da revista IstoÉ antecipou a chegada de programa governamental que já vinha em gestação quando a OMS alertou para a situação de extrema carência de médicos no país, sobretudo nas regiões ermas ou nas periferias dos grandes centros urbanos, problema que ameaçava deprimir ainda mais a situação do Desenvolvimento Humano no país.
O programa Mais Médicos traria milhares de profissionais de saúde para cá de forma a mitigar efetivamente um dos maiores problemas que o Brasil tem na área de saúde: o estudo de medicina é caro, acessível somente para pessoas das classes sociais mais altas, que chegam a ter que se dedicar somente ao estudo durante ao menos 8 anos, sem poder trabalhar.
Programas governamentais como o de cotas nas universidades deverá aumentar, nos próximos anos, a diversificação de classe social e até de etnia entre a classe médica, além de aumentar o número de médicos formados. Contudo, a ampla resistência a uma política que visa popularizar mais uma profissão que se faz imprescindível em qualquer grotão do país vem atrasando a formação de um perfil de médicos que se disponham a ir trabalhar onde os de classe social mais alta não querem.
Surpreendentemente, os médicos que não se dispõem a ir trabalhar nas regiões desassistidas por esse tipo de profissional – e que são os mais organizados em corporações de classe – passaram a combater furiosamente o novo programa governamental que responderia aos alertas internacionais para a carência de médicos no país.
O nível de irritação da classe médica com o programa do governo federal foi aumentando a níveis antes insuspeitos. Em 31 de julho, quase um mês após a matéria da revista IstoÉ sobre o programa Mais Médicos, ocolunista do jornal O Globo Ilimar Franco noticiou no portal daquele veículo uma manifestação impressionante de médicos de Brasília:
Um grupo de médicos protestava ontem na frente do Ministério da Saúde contra o programa Mais Médicos, que abre postos de trabalho para médicos estrangeiros. O grito de guerra: “Somos ricos, somos cultos. Fora os imbecis corruptos“.
A atitude dos médicos, como era previsível ao usarem o “argumento” de que são “ricos e cultos” fez com que a maioria da população ficasse a favor do que começaram a pregar que fosse repudiado.
No Ceará, o presidente do Sindicato dos Médicos daquele Estado convocou um protesto contra médicos cubanos então reunidos em um evento do Ministério da Saúde. À saída, os médicos organizados passaram a vaiar seus colegas cubanos chamando-os de “escravos” por parte dos salários deles no Brasil ficar retida pelo governo de seu país.
Confira, aqui, a entrevista que o presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará, José Maria Pontes, deu ao Blog à época dos fatos.
Mais adiante, como parte do enredo, uma jornalista divulgou na internet a surpreendente “opinião” de que as médicas cubanas negras que estavam chegando ao país se pareceriam com “empregadas domésticas”. Essa afirmação foi vista como racista e quase gerou denúncia do Ministério Público.
Por essas e por outras, a guerra que esse setor organizado e estridente da classe médica vem travando para desacreditar o programa Mais Médicos vem sendo perdida para o governo. De acordo com pesquisa Datafolha divulgada em 12 de agosto, 54% dos entrevistados se disseram favoráveis ao Mais Médicos. A mesma pesquisa, realizada em junho, registrou índice de aprovação de 47%. Ao mesmo tempo, a rejeição ao programa diminuiu de 48% em junho para 40% em agosto.
E esse apoio continua crescendo. Em setembro, o Instituto Paraná de Pesquisas entrevistou 2,5 mil pessoas em todo país e aquele apoio de agosto ao programa Mais Médicos agora chegava aos 70,38%, corroborando dados de pesquisa Ibope feita pouco antes para a Confederação Nacional dos Transportes, que apontou que 74% dos brasileiros apoiavam a vinda de médicos estrangeiros para o país.
O fracasso (até aqui) dos médicos em influir na sociedade para obrigar o governo federal a interromper o programa Mais Médicos só fez estimular as entidades representantes da categoria a intensificar suas ações políticas. Os médicos que não conseguiram chantagear o governo agora querem derrotá-lo na eleição presidencial do ano que vem.
Segundo matéria do jornal O Globo, entidades de classe como a Associação Médica Brasileira vêm estimulando médicos a se filiarem a partidos políticos de oposição ao governo federal e a induzirem pacientes humildes a votarem contra Dilma Rousseff na eleição presidencial do ano que vem.
Sob estímulo das entidades de classe, estão ocorrendo filiações em massa de médicos a partidos de oposição, principalmente ao PSDB e ao DEM.
Segundo a AMB, pelo menos 300 médicos já se filiaram ao PSDB do Ceará, a convite do ex-senador tucano Tasso lereissati (CE). No Mato Grosso do Sul e em Goiás, o DEM já articula um número grande de filiações até novembro. O deputado Luiz Henrique Mandetta (MS) trabalha junto ao líder do partido na Câmara, Ronaldo Caiado (GO), para fazer um ato político e filiar, em um dia, cerca de mil profissionais.
Com base no número de quase 400 mil médicos com registro no país, o presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), Florentino Cardoso, afirmou ao jornal carioca que a maior parte dos médicos em atividade no país vai influenciar o eleitorado. A classe médica teria capacidade de movimentar 40 milhões de votos em 2014 (400 mil médicos influenciariam 100 pessoas cada um).
A conta, porém, é absolutamente inverossímil. Em primeiro lugar, os médicos dizem, claramente, que têm capacidade de influenciar pessoas pobres que, durante os processos eleitorais, viriam consultá-los sobre para quem devem dar seus votos. Pessoas humildes, porém, são justamente as pessoas que sofrem com a ausência de… Médicos (!!?).
Como os médicos vão dar conselhos em lugares aos quais sequer querem ir?
Os médicos que aceitarem fazer essa pregação abjeta e, em boa medida, imoral – médicos dizem que querem se aproveitar da baixa escolaridade de pessoas humildes para fazê-las votar de forma que beneficia só a eles mesmos – estão superfaturando a própria influência política, como mostram as pesquisas.
A ameaça que alguns médicos – seguramente não todos e, talvez, não tantos – estão fazendo à presidente da República pode produzir efeito oposto, pois com o programa Mais Médicos tendo se tornado tão popular os partidos que estão filiando em massa médicos contrários a esse programa certamente colarão em si mesmos a pecha de serem contra o desejo da maioria votante.
O que fica da nova ofensiva de parte da classe médica é uma certa perplexidade com profissionais que deveriam ser humanistas por definição, mas que, com a postura que estão adotando de forma crescente, vêm desmoralizando a sua profissão, fazendo com que seja vista como exercida por pessoas insensíveis, arrogantes e gananciosas.
Os médicos dificilmente influirão na decisão eleitoral da sociedade, ao menos como pretendem. O mais provável é que aqueles que pretendem influenciar se sintam chocados ao receberem pregação contra um programa social que quem precisa de médico sabe que é bom para si. Assim, os alvos eleitorais dos médicos votarão de forma oposta à que recomendarem.
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A estranha visão de Joaquim Barbosa

17.10.2013
Do BLOG DO MIRO, 15.10.13

Por Paulo Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:

Para Joaquim Barbosa, os Estados Unidos são uma coisa vaga que atende, basicamente, a suas conveniências do momento.

Num congresso de jornalismo, ele citou os americanos ao se referir, mais uma vez, ao caso da funcionária que ele tentou retirar do STF por alegado conflito de interesses.

A funcionária, como se sabe, é casada com um repórter do Estadão com quem JB teve uma encrenca pública. JB mandou-o “chafurdar no lixo” depois que o jornalista noticiou gastos de 90 000 reais em dinheiro público na reforma nos banheiros do seu aposento funcional de presidente do STF em Brasília.

JB fracassou em afastá-la do STF. Ela está lotada no gabinete de Lewandowsky, que não viu sentido no pleito de JB e a manteve. Se conheço a alma humana, Lewandowsky aproveitou para vazar a tentativa frustrada de vingança.

Nos Estados Unidos isso não aconteceria, voltou a afirmar Barbosa ao se referir ao caso.

Bem, primeiro e antes de tudo, “conflito de interesse”, a rigor, existiu na tentativa de JB de prejudicar a mulher do jornalista. Ele tentou usar seu poder como presidente do STF para uma vendetta pessoal.

Mas, muito além disso, se a referência são os Estados Unidos, JB não tem muito do que se gabar.

Nos Estados Unidos, um presidente do STF patrocinaria – com dinheiro público, sempre – uma viagem de jornalistas apenas para que eles fizessem matérias laudatórias sobre ele? Lembremos: a viagem – para a Costa Rica – foi feita num avião da FAB.

Que aconteceria, nos Estados Unidos, se um presidente do STF fosse flagrado comprando um apartamento com uma pequena trapaça para sonegar impostos? E se ele arrumasse emprego para o filho numa grande organização jornalística com um contencioso bilionário na Receita Federal?

Falta a JB, além de tudo, a discrição essencial a um magistrado em sua posição. Em sua loquacidade irreprimível, ele opina sobre tudo. Em breve, é possível que palpite na escalação da seleção. É verdade que a mídia o incentiva a opinar sobre qualquer coisa, mas ele deveria ter noção de suas limitações e se resguardar. Se um dia aprender a responder “não sei”, terá feito um avanço considerável. Mas não: até sobre o jornalismo investigativo ele julga ter algo a dizer. Digo apenas o seguinte: se o jornalismo investigativo funcionasse, a vida de Joaquim Barbosa seria muito menos confortável: a mídia teria esquadrinhado, por exemplo, a compra do apartamento em Miami.

Em vez disso, o que se viu foi uma cobertura miserável, em grande parte por conflito de interesse: a mídia enxerga nele um aliado, e por isso o escândalo passou virtualmente em branco por jornais, revistas e telejornais. Combatividade, só no jornalismo independente feito na internet — ainda sem os recursos necessários para investigações mais caras.

Para Joaquim Barbosa, “conflito de interesse” é aquilo que seus desafetos fazem. Se ele olhar para o espelho, verá alguém sem nenhuma autoridade moral para falar sobre o assunto.
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