terça-feira, 3 de setembro de 2013

RENATO ROVAI: A espionagem dos EUA e a Globo

03.09.2013
Do BLOG DO MIRO
Por Renato Rovai, em seu blog:

Este fim de semana foi, digamos assim, curioso do ponto de vista da Globo. De um lado a emissora reconheceu que não deveria ter dado “apoio editorial” à ditadura militar, mas fez um zigue-zague imenso pra chegar nesse ponto tímido da auto-crítica depois de 39 anos do golpe. Em um dos momentos do editorial, teve a cara-de-pau de dizer que Roberto Marinho protegia os “seus comunistas”. Como se a Rede Globo não tivesse sido uma das sócias investidoras que mais recebeu dividendos de todos os horrores que foram realizados no Brasil durante mais de 20 anos.

A Globo era um grupo de comunicação menor antes do golpe. E ao seu final era um império. Durante o governo Sarney chegou a nomear ministros da economia. Se alguém dúvida, perguntem ao Mailson da Nóbrega como foi essa história. E em 1989 elegeu um presidente da República.

Mas se é verdade que a Globo era sócia investidora da ditadura também é verdade que os EUA eram os maiores interessados em tudo que acontecia por aqui.

Enquanto a Globo lucrava no varejo, os EUA lucravam no atacado. E a subserviência brazuca aos EUA era um projeto que tinha na Globo seu principal aliado.

Por isso é até curioso que o Fantástico de ontem tenha revelado provas apresentadas por Snowden de que o governo de Obama grampeou Dilma e o governo brasileiro. Algo que não é exatamente novidade. O governo dos EUA e a CIA sempre tiveram agentes secretos e colaboradores em todas as partes do mundo para coletar informações acerca dos países que por algum motivo representassem algum tipo de “risco” aos interesses do império.

A questão é que hoje os EUA grampeiam de maneira moderna os nossos governantes. E de certa maneira com a conivência deles. O professor Sérgio Amadeu, por exemplo, demonstrou em recente estudo que ao instalar o Windows nos seus computadores, os ministros brasileiros estão autorizando a Microsoft a espionar de forma autorizada suas comunicações. Mas mesmo assim o software livre é defenestrado nos governos. O dinheiro que se gasta no Brasil com softwares proprietários poderia ser utilizado para investir num amplo programa de tecnologia nacional. É muito, mas muito dinheiro.

Acontece que nossos governantes parecem ignorar ou fazem de conta que ignoram que a internet é uma tecnologia de controle. E por isso é fundamental ter regramentos claros para impedir que o controle seja exercido de forma ilegal a partir dela.

Se o governo brasileiro não quiser que os fluxos informativos de seus interesses e do interesse dos seus cidadãos sejam utilizados de forma ilegal, o que é preciso fazer com urgência é aprovar um Marco Civil da Internet onde isso seja ponto central. Em que a neutralidade da rede e a privacidade do cidadão sejam garantidas com base em lei. Exatamente o contrário do que tem sido defendido pelo ministro da Comunicações, Paulo Bernardo, que entende a internet na esfera dos negócios e não dos direitos. Dos negócios que permitirão às teles, quase todas de capital estrangeiro, se adonar de todos as nossas conversas e interações. Se adonar de toda a possibilidade inventiva do povo brasileiro, já que é pela internet que hoje já passam boa parte das nossas produções culturais, educacionais, informativas etc. Já que será pela internet que boa parte da nossa soberania como país existirá ou deixará de existir.

Mas o que tem feito o ministério das Comunicações do ponto de vista estratégico? Tem fortalecido à inovação e a produção nacional ou têm feito acertos para garantir que o capital estrangeiro se fortaleça? Quanto o governo brasileiro investiu para que o país esteja disputando na área de hardwares e softwares de comunicação nos últimos anos? Quais são os programas para que universitários empreendam e disputem o mundo a partir da criação na sociedade da informação?

O grampo de Dilma precisa ser visto também neste contexto. Nas relações internacionais vale o “quem pode mais chora menos”. Não é na base do discurso que os homens bons se rendem aos argumentos. Diplomacia é demonstração de força e não de gogó.

Não vai ser com um programa entreguista nesta área que vamos conseguir ter voz global. O governo dos EUA vai ouvir os reclamos do Brasil e vai responder dizendo que em nome da segurança do seu povo e dos interesses do seu país vai continuar investigando quem achar que deve investigar. E como toda a nossa circulação de informação passa pelas tecnologias deles, vamos ter que fazer bico e continuar reclamando. No máximo.

Quanto a Globo, o pirão desandou lá pelas bandas do Jardim Botânico. A Globo percebeu que o Google, o Facebook e Youtube que entregam nossos dados pro governo Obama são seus inimigos da vez. Claro, junto com as teles. E que ela precisa buscar novos aliados para não perder muito do seu poder e das suas verbas publicitárias nos próximos anos.

E por isso os filhos do Roberto Marinho foram visitar o Lula. Eles querem o Lula na presidência porque acham que ele teria força pra enfrentar os grandões de lá. E que poderia encarar o Obama ou quem estiver de plantão na Casa Branca para defender não o povo brasileiro, mas os interesses dos nossos grupos de comunicação, como a Globo.

Parece uma loucura o raciocínio, mas a Globo sabe que não poderá brincar nos próximos anos. Ou vai ver seu patrimônio esfarelar.
E aí que o governo Dilma passa a ter uma janela de oportunidade para construir uma mudança completa na nossa regulação da comunicação. Mas para isso precisaria ter alguém com credibilidade e grandeza para operar esse projeto. Não, com todo o respeito, um Paulo Bernardo. Que vai para Veja xingar o seu partido e os militantes da área que dirige num momento em que mais de 1 milhão estavam nas ruas protestando.

O momento é muito oportuno para se construir um grande acordo que faça com que o Brasil se defenda dos grandes grupos internacionais e ao mesmo tempo amplie a democratização na área das comunicações e se desenvolva tecnologicamente. Mas isso não vai se conseguir no gogó. E nem xingando os aliados.
*****

Brasil manifesta indignação e cobra explicações formais dos EUA sobre espionagem de Dilma e autoridades

03.09.2013
Do portal da Agência Brasil,
Por Renata Giraldi  e Carolina Sarres

Brasília – O governo do Brasil reiterou hoje (2) a indignação às autoridades dos Estados Unidos em meio às denúncias de espionagem de agências norte-americanas sobre dados da presidenta Dilma Rousseff e assessores, conforme divulgado ontem (1º) no programa Fantástico, da TV Globo. Os ministros José Eduardo Cardozo (Justiça) e Luiz Alberto Figueiredo Machado (Relações Exteriores) reiteraram ser inadmissível aceitar qualquer tipo de violação, mas evitaram mencionar futuras providências que deverão ser tomadas contra os Estados Unidos.
Cardozo e Figueiredo cobraram dos Estados Unidos explicações, por escrito e formais, sobre as denúncias. “A violação da soberania não pode acontecer sob nenhum pretexto", disse Cardozo, lembrando que a indignação foi exposta aos norte-americanos. “Nós confrontamos com aquilo que foi revelado.”
Em seguida, o ministro da Justiça reiterou que “a violação da soberania não pode acontecer sob nenhum pretexto”. Segundo ele, a situação se agrava quando a violação ocorre “sob o ponto de vista político e empresarial”. “Isso fica, sem sombra de dúvidas, piorada”.
Na semana passada, Cardozo esteve em Washington, nos Estados Unidos, para reuniões com o vice-presidente Joe Badin, a assessora para Assuntos de Contraterrorismo, Lisa Monaco, e o chefe de Departamento de Justiça, Eric Holder. O ministro disse que apresentou como sugestão a adoção de protocolo de entendimento entre Estados Unidos e Brasil para a investigação em caso de suspeitas de terrorismo ou atos ilícitos.
Cardozo disse que a proposta se baseia na fixação de regras que a interceptação de dados só pode ser feita em território nacional, com ordem judicial e sob presunção de inocência. “Diante de indícios, se existirem práticas, o governo norte-americano poderia solicitar dentro do protocolo um acesso a essas informações”, disse. “Nós dissemos que não nos furtaríamos ao diálogo, desde que a questão não se colocasse de forma meramente retórica.”
Figueiredo acrescentou que a violação da privacidade e dados pessoais, sejam de autoridades, como a presidenta da República, e dos cidadãos em geral é “incompatível” com a parceria existente atualmente entre Brasil e Estados Unidos. “É uma violação inconcebível e inaceitável da soberania brasileira”, ressaltou.
Pela manhã, Dilma convocou ministros para duas reuniões de emergência no Palácio do Planalto para discutir as denúncias de espionagem. As reuniões ocorreram em duas etapas: a primeira, que começou por volta das 10h, teve a presença dos ministros Cardozo, José Elito (Gabinete de Segurança Institucional), e Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência).
A segunda reunião, ocorreu logo depois, com Cardozo e os ministros Paulo Bernardo (Comunicações), Celso Amorim (Defesa) e Luiz Alberto Figueiredo Machado (Relações Exteriores). Antes das reuniões, Figueiredo convocou o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, para prestar esclarecimentos formais ao governo brasileiro e cobrou explicações por escrito das autoridades norte-americanas.
Edição: Fábio Massalli
******

REDE GLOBO E A DITADURA: O dia em que a Globo piscou

03.09.2013
Do portal da Revista CARTACAPITAL, 
Por Luis Nassif 

As Organizações Globo surpreenderam o país com uma autocrítica de seu apoio à ditadura. Soou artificial 

Na sexta-feira passada, as Organizações Globo surpreenderam o país com uma autocrítica de seu apoio à ditadura.
Soou artificial.
Um dia antes, manifestantes jogaram merda em sua sede, em São Paulo. Nas redes sociais, com exceção da revista Veja, não existe organização capaz de despertar tanto amor e ódio.
***
Para entender essa demonstração de fraqueza da Globo, é preciso analisar o atual estágio da mídia brasileira.
O mercado da Internet está sendo disputado por três grupos: a mídia convencional, as empresas de telefonia e as grandes redes sociais, como Google e Facebook.
Antes, mídia vendia publicidade; telefonia vendia pulsos; redes sociais vendiam sonhos. Agora, as redes sociais vendem publicidade, ligações telefônicas e filmes sob demanda. Nos EUA, já dominam completamente a publicidade nacional (dos grandes produtos) e os classificados.
***
No ano passado, o Google se tornou-se o segundo faturamento em publicidade do país, atrás apenas da Globo, e à frente da Abril e demais grupos de mídia, com R$ 2,5 bilhões. Este ano, deverá crescer R$ 1 bi.
***
Tanto grupos da velha mídia como empresas de telefonia têm razão ao pleitear isonomia com grupos de fora – que não pagam impostos no Brasil nem contribuições às quais são obrigadas TVs a cabo.
Para estabelecer a isonomia, haveria a necessidade de um novo ordenamento jurídico. O caminho seria a Lei dos Meios – proposta há anos pelo então Secretário de Comunicações do governo federal Franklin Martins.
No entanto, demonizou-se a Lei dos Meios, como se fosse um instrumento para calar a mídia. Agora, necessita-se de uma mudança legal que defina os novos marcos das comunicações. E a Globo quedou-se só.
***
Dias atrás, um interlocutor de João Roberto Marinho – um dos herdeiros da Globo – ouviu dele manifestação de surpresa com o ódio que a empresa desperta, o desassossego com a crise dos aliados - seus três maiores aliados, Folha, Abril e Estadão, perdem fôlego a cada dia que passa -, o desconforto com a competição das redes sociais.
***
De fato, as empresas de telecomunicações contam com o lobby escancarado do Ministro Paulo Bernardo.
Já a Globo enfrenta o momento mais delicado de sua história sem dispor do antigo poder de definir as leis a seu talante e estando cada vez mais isolada.
É por aí que se entendem as mudanças.
Nos últimos tempos, a Globo trocou seu lobista em Brasília – Evandro Guimarães, competente porém herdeiro dos tempos do “eu sou o senhor do universo”- por outro, mais político. Nomeou para cargo de direção uma executiva incumbida de começar a enxugar a estrutura de custos para adaptar-se aos novos tempos.
Provavelmente seu noticiário começará a se tornar menos tendencioso e poderá até a voltar a praticar jornalismo de primeira, crítico porém plural. Ouvintes da CBN, telespectadores do Jornal Nacional e da Globo News voltarão a saborear comentaristas equilibrados, com bom senso, criticando, sim, mas sem prever mais o fim do mundo e a invasão do país pelas forças de Fidel Castro.
Seja qual for a mudança, continuará poderosa. Mas os tempos de poder absoluto não mais voltarão. Nos próximos anos, terá que fazer algo impensável para quem se considerava um império: sair do pedestal, legitimar-se novamente, montar redes de aliados.
******

Após queimadas, Aneel determina que limpem vegetação sob linhas de transmissão

03.09.2013
Do portal da FOLHA DE PERNAMBUCO
Por Agência Brasil

Inspeção concluiu que a vegetação estava com porte inadequado 

BRASÍLIA – A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) determinou que todas as concessionárias de transmissão de energia façam a limpeza de vegetação da área onde estão as linhas de transmissão, para evitar queimadas de grandes proporções, como a que provocou um blecaute na Região Nordeste na semana passada. Uma inspeção feita por técnicos da agência concluiu que a vegetação no local estava com porte inadequado, o que caracteriza falta de limpeza da faixa.
Renato Araújo/Agência Brasil
Para Aneel, empresas responsáveis pelas linhas atingidas deverão ser responsabilizadas
O diretor-geral da Aneel, Romeu Rufino, disse nesta terça-feira (3) que a agência não concluiu a análise sobre as causas da queda no fornecimento de energia, mas as empresas responsáveis pelas linhas atingidas pela queimada na semana passada deverão ser responsabilizadas. “A empresa tem o direito e a obrigação de manter a faixa limpa, essa é uma obrigação normal e contratual da concessão”, disse.


As empresas responsáveis pelas linhas de transmissão atingidas pela queimada são a Transmissora Aliança de Energia Elétrica (Taesa) e a Interligação Elétrica Norte Nordeste (Ienne). A multa máxima aplicada, segundo a legislação do setor, é 2% da receita anual da concessão. A causa do incêndio está sendo apurada pelo Instituto Nacional do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
“Nessa época do ano, em que a vegetação seca pega fogo mais fácil, a empresa tem que redobrar a atenção na questão da limpeza da faixa. Se a vegetação estivesse baixa, o fogo não atingiria a proporção que atingiu”, disse Rufino.
Ele acrescentou que a investigação sobre o desligamento da Região Nordeste do Sistema Interligado Nacional continua. “A repercussão do acidente, a dimensão e a retomada do sistema são coisas que vamos seguir investigando”, disse.
Segundo o Operador Nacional do Sistema, o blecaute foi provocado pelo desligamento automático de duas linhas de transmissão que interligam os sistemas Sudeste/Centro-Oeste com o Nordeste, localizadas entre as subestações Ribeiro Gonçalves e São João do Piauí, no interior do Piauí, onde foram identificados focos de queimadas.
Os consumidores que tiveram prejuízos com o blecaute da semana passada, como queima de equipamentos elétricos, devem pedir o ressarcimento junto à distribuidora de energia da região.
*****

GOLPISTAS DE VOLTA: Os saudosos da ditadura e o Sete de Setembro

03.09.2013
Do blog TIJOLAÇO
Por Fernando Brito

facist
Ontem,  escrevi aqui que pouco importa se os que brincam de “Anonymous” sejam ou não de direita.
Queiram ou não, ao fazer um movimento amorfo e sem identidade política, como alegam, servem de hospedeiros a todos os grupos facistóides e antidemocráticos, que não podem exibir-se com seu próprio rosto, mas se agarra como carrapatos a esse movimento.
Reproduzo, aí em cima, um deles, presente no Facebook., ligado ao mesmo grupo de picaretas que Andre Barrocal apontou em sua reportagem O desfile golpista, na Carta Capital.
O que pretendem, realizar o sonho de Fernando Henrique, que chamou o Sete de Setembro de “palhaçada”?
Provocar os militares com “black blocs”?
Esticar uns cartazes e faixas contra os médicos cubanos que foram os únicos a aceitar trabalhar em lugares em que os brasileiros não querem ir?
Ou será que vão defender a espionagem americana, que quer tirar a riqueza do pré-sal brasileiro daqui, para que “esses comunistas do governo não possam sair dando bolsa-família por aí”?
O que essas pessoas defendem, abrigada em meio aos “anonymous”, que não se furtam a carregá-los consigo, é o que de pior e mais corrupto este país já teve, o regime de 64.
O regime da opressão e da morte de muitos brasileiros.
E de atraso para todos.
Os meninos de classe média que acham que isso é uma “micareta”, uma curtição, já não tem o direito de deixar de ver que dão cobertura para os remanescentes das trevas ditatoriais.
Diz-me com quem andas e te direi quem és, não é assim?
******

Gerson Carneiro: Alegria em meio ao inferno

03.09.2013
Do blog VI O MUNDO, 22.08.13
Por Gerson Carneiro, especial para o Viomundo

Gerson: “Evitei fotogravar miséria. E vi muito”

Fragmentos do Haiti.

Para fechar a trilogia dessa aventura deixei para escrever o último relato aqui no Brasil. 

Primeiro porque quis concluí-la, depois em razão de sua imprevisibilidade e do desgaste prazeroso físico e emocional.

Foi uma aventura gratificante, repleta de expectativas e surpresas.

Esse terceiro relato não será um texto lógico e cadenciado, mas, sim, um registro aleatório de memorias. Por isso, fragmentos do Haiti.

A noiva apressada

Sábado, 10 de agosto, véspera do início da minha viagem ao Haiti. Fui padrinho de um casamento. Planejei tudo para que não desapontasse minha esposa, amiga de infância da noiva, e não alterasse o calendário de minha viagem.

Mas, apreensivo com a expectativa da viagem, fugiu de mim o horário exato do casório. 

Eis que me encontrava em casa no finalzinho da tarde e o telefone tocou. Era a noiva informando que eu, o padrinho, estava atrasado. Foi aí que pus em prática toda a rapidez baiana e tudo deu certo. Celebração e festa maravilhosas.

Na manhã da segunda-feira, dia 12, encontrei meus afilhados no aeroporto na Cidade do Panamá. Estavam indo curtir a lua de mel em Punta Cana na República Dominicana.

– O que você está fazendo aqui? — me perguntaram.

– Esqueceram? Sou o padrinho. Tenho que tomar conta de vocês. Por isso estou acompanhando-os.

Estava nada. Foi uma tremenda coincidência. Eu estava indo para o Haiti e eles para a República Dominicana, que faz fronteira com o Haiti e unicamente divide o espaço geográfico da ilha com este.

FBI haitiano

Como se esperaria, com emoção e expectativas, estava eu no aeroporto de Porto Príncipe, aguardando o check in para voltar ao Brasil.

Cheguei  por volta das 11h e o meu voo só seria às 18h30. Como o traslado do acampamento ao aeroporto é complicado, aproveitei e fui junto com meu amigo Bryan Avey, que estava de partida para Los Angeles, cujo voo era às 13h15.

Ele fez o check in e seguiu viagem. Eu fiquei aguardando a abertura do balcão da companhia aérea, o que ocorreu por volta das 15h.

Antes disso, quando Bryan já estava voando, a energia elétrica do aeroporto caiu por cerca de meia hora. Encostei em uma parede e minha cultura preconceituosa me fez tenso, mas nada aconteceu.

No saguão do aeroporto, observei que cinco policiais conduziam, continuamente, seus cães em direção às malas para que as cheirassem, imagino que à procura de drogas ilícitas. Mas os cães, tão magricelas e apáticos, não se mostravam animados para cumprir a tarefa. Tanto que os policiais até abriam e vasculhavam as malas eles próprios, ficando os cães sentados, sem fazer nada.

Era notório que aqueles cães não estavam preparados para a tarefa a que estavam sendo submetidos, gerando, assim, um espetáculo grotesco de imitação de policiais do FBI. Temi: esses cães estão famintos, se cheirarem minha mala ficarão excitados com o meu sanduíche de pão com frango que trouxe do acampamento (pra aguentar a longa espera!) e estarei ferrado.

Logo percebi que minha preocupação era inútil e precipitada.Os policiais haitianos vasculhavam as malas apenas de outros haitianos, não incomodavam os estrangeiros a quem chamam de “brancos”. Lembrei imediatamente da letra da canção do Gilberto Gil e do Caetano Veloso: “O Haiti é aqui”.

Hostilidade no Haiti

Reservei uma tarde para visitar a base militar brasileira. Chegando na portaria fui informado por soldados que para adentrar à área restrita e permitida seria necessária autorização de algum superior.

Como estava acompanhado por um missionário brasileiro, que mora no Haiti e visita lá com frequência, este entrou em contato com o capelão da base, que veio a nós e autorizou nossa entrada.

Andei pela pequena área permitida, tirei algumas fotos, vi de longe o monumento aos soldados brasileiros mortos no terremoto (21 no total) e retornei.

No trajeto de volta, um soldado raso brasileiro, de nome Couto, me interpelou se eu tinha autorização da ONU para estar ali. Disse que não tinha autorização da ONU mas de um superior dele. Ele então disse que era proibido tirar fotos. No instante em que falava isso, dois soldados tiravam fotos da gente (estávamos em três). Nisso o missionário brasileiro perguntou: se é proibido tirar fotos, por que seus colegas estão tirando da gente? O soldado respondeu que eles eram da segurança.

Engraçado que éramos brasileiros, visitando a base militar brasileira, falando português…Foi a primeira e única vez que fomos fomos hostilizados no Haiti. E por brasileiros.

Concluí que eram soldados que precisavam comprovar serviço naquele dia e encontraram uma oportunidade.

O preço do bem

Ainda durante o planejamento da viagem procurei saber o volume de malas  permitido para transporte sem cobrança de taxa. Rapidamente li no site da companhia que eram permitidas duas malas de 32 quilos cada. Tudo bem. Minha mala com pertences pessoais pesava 15 quilos e a mala de donativos pesava 30 quilos.

Lá fui para o check in quando surpreendentemente fui informado que a franquia dependia do destino, e para o Haiti eram permitidas duas malas somando ambas 32 quilos. O excedente seria cobrado US$ 125 até 45 quilos. Para os EUA (indo ou voltando) eram, sim, permitidas duas malas de 32 quilos cada. Como minhas duas malas somavam exatamente 45 quilos, tive que pagar os US$ 125, mesmo informando para a atendente que a mala de 30 quilos tratava-se de donativos. A resposta obtida: “Não vou poder te ajudar nessa. Deus te recompensa”.

Ok. Deus já está me recompensando.

Haiti fragmentado

O Haiti é a síntese de toda interferência maligna humana no mundo. Percebi que todo problema do Haiti, toda miséria, toda violência, toda ignorância, é resultante exclusivamente da ganância do homem que anula qualquer preocupação com o futuro do planeta e da população.

É forte o sentimento de segregação no Haiti.

É tão evidente e marcante a questão da opressão no Haiti que a maioria dos haitianos detentores de um emprego qualquer se sente autoridade. Até o funcionário da companhia aérea, na fila para fazer a triagem dos passageiros, age como se fosse um policial interrogando um suspeito. E quando se trata de um haitiano pobre saindo do país, é humilhado. Eu presenciei isso.

É constrangedor ver haitianos humilhando haitianos.

Tratam com certa simpatia brasileiros. Poderia ter tirado proveito e ter vestido minha camisa do Brasil para conquistar alguma simpatia… Mas nem a camisa levei comigo, pois não fui ao Haiti fazer propaganda do meu país nem obter vantagens. Tampouco minha viagem foi patrocinada pelo meu país.

A população do Haiti (pelo menos da capital, há regiões diversas que não lembram em nada a capital) está à míngua. Não há transporte público, não há saneamento básico, não há hospitais, não há escolas públicas, não há segurança. A cidade inteira, exceto o bairro dos ricos, que não fiz questão de conhecer, é uma grande favela. A sensação de andar pela cidade é a de que estava andando em uma extensa favela.

É tão triste e vergonhoso que uma série de ditadores passou pelo Haiti e jogou o país na miséria total.

E o governo haitiano cobra US$ 400 dólares para um cidadão haitiano obter um simples passaporte.

Passei em frente à casa do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide que se encontra exilado em sua imensa mansão. Em uma rua esburacada, poeirenta, de repente aparece um muro alto, cercando um quarteirão inteiro. Lá dentro está o mundo particular do ex-presidente. Imagino um verdadeiro oásis.

Nessa mesma rua está o Jardim dos Pássaros. Uma enorme praça que seria pública, cercada por muros aonde só tem acesso o atual Presidente e os seus chegados.

No Haiti tudo funciona perfeitamente bem e rápido se for através de suborno. Até adoção de criança. Para um estrangeiro adotar uma criança haitiana o processo dura em média três anos. Se for através de suborno não demora três meses. O que menos importa ao esquema corrupto é a criança.

O material para construção de uma igreja, proveniente dos EUA, ficou esperando liberação no porto por sete meses.

Outra coisa chocante: vi seis vales que antes eram rios que desembocavam nos arredores da capital (um deles no centro da capital). Esses vales estão preenchidos de areia e pedras; o da capital, além de areia e pedra, por muito lixo.

Eram rios, que não mais voltarão a ser rios. Não há árvores na cadeia de montanhas que cerca a capital. Resultado de anos e anos de exploração, sem reposição, para fabricação de carvão. Matou os rios. Quem pensa que aquela conversa de extinção de rio é bobagem, que vá a Porto Príncipe conferir que não o é.

A capital do Haiti não é para turistas. É muito perigoso. Há muito ladrão. Os tiros que ouvi em duas madrugadas eram conflitos relacionados a ladrões. Aqui tenho que tomar o necessário cuidado para não cair na síntese simplista e ignorante de que a miséria aleija o caráter de um povo. Não. O Haiti tem um povo bom.

Mas uma população submetida à miséria extrema (vi pessoas lavando o rosto na água que corria na rua), ao desemprego extremo, mas com necessidades básicas e naturais de sobrevivência. Acredito que deva haver alguma ligação para explicar o alto índice de violência. Alguém com conhecimento específico saberá explicar. Não sou especialista em nada, conto apenas o que presenciei, senti, vi, e ouvi.

O índice de desemprego é altíssimo. E não é por não ter o que fazer. A ONU e o governo local deveriam estar de fato empenhados na reconstrução da capital. Implantando tudo o que necessário é e já relatei sobre a ausência: escolas, saneamento, segurança, pavimentação, transporte. Chego a pensar até no despropósito da MINUSTAH (Mission des Nations Unies pour la Stabilisation en Haiti) com a reconstrução do Haiti.

Em nome de Jesus

Em que pese a mensagem transmitida no filme “Quanto Vale ou É por Quilo?”, a presença de missionários evangélicos no Haiti é um alento para o povo sofrido.

Tive a oportunidade de estar em um culto evangélico e presenciei a entrega do povo à alegria de estar ali louvando, cantando e dançando. Em dado momento pareceu que estava eu em um salão de festa, sentindo o calor de adultos e crianças cantando e dançando.

Eles lêem o evangelho, pregam um pouco e depois caem na “farra”. Muito diferente dos cultos evangélicos no Brasil.

Como se vê no vídeo amador gravado por mim (está abaixo). Nele, o pastor haitiano Frederick Nozil aparece tocando baixo elétrico. Aliás, o pastor morou nos EUA e estava prestes (faltava um dia para vencer o prazo) a assinar a documentação para ganhar o visto americano permanente, mas teria que residir para sempre lá. Decidiu voltar para o Haiti para cuidar do seu povo.

Fiquei a pensar o que seria daquele povo sem a oportunidade de manifestar tamanha alegria.

Muintos dançam sem ter comido nada naquele dia. Observei que naquela tarde ninguém havia comido nada. Apenas bebido água.

Conheci um missionário evangélico americano, Thomas Osbeck, que está no Haiti desde 1998. Passou por vários momentos tensos. Apanhou diversas vezes de milicianos. Não foi assassinado porque gerenciava um orfanato, mas sofreu extorsão várias vezes. Hoje gerencia também uma escola que fundou para dar continuidade aos cuidados às crianças órfãs. Em torno de 250 crianças.

O governo haitiano só autoriza o funcionamento de igreja se esta mantiver uma escola em suas dependências. Transferindo assim a função e responsabilidade da Educação.

Fiquei hospedado com missionários evangélicos brasileiros que lá estão há dois anos: Marlon Mata, Rafael Lira, Vanessa Thomaz, Dilenee Lopes, Cristilene Pereira e Lucas Sobreira.  Fazem um trabalho relevante para manter elevada a autoestima do povo haitiano.


Água mole em pedra dura…

Nem sempre fura. O povo haitiano tem uma resiliência vigorosa (capacidade de, após momento de adversidade, conseguir se adaptar ou evoluir positivamente frente à situação adversa).  É um povo sorridente.

Caem na gargalhada quando são surpreendidos por brancos que se arriscam a conversar com eles no dialeto Kreyol. O missionário brasileiro Marlon Mata (o mesmo que me acompanhou à base militar brasileira) gostava de surpreendê-los quando vinham conversando em inglês. Respondia em Kreyol: “Desculpe, não falo inglês, só Kreyol”.

Ouvíamos então uma gargalhada só.

“O índice de suicídio é baixo e não se vê haitiano deprimido. Desenvolveram resistência ao sofrimento”, contou-me Marlon.

Vaidade não tem nacionalidade

No geral, o haitiano é vaidoso, talvez até seja uma inconsciente fuga do seu estado de carência. É comum ver nas ruas haitianos trajando roupa social em pleno sol escaldante que produz no forasteiro a sensação térmica de 40 graus positivos. O que me disseram é que muitas vezes falta-lhes comida, mas fazem questão de se mostrarem bem vestidos.
Evitei fotogravar miséria. E vi muito.

Recompensa

Aceitei o convite e fui ao Haiti, daqui do Brasil, sozinho. Fui convidado por meu amigo americano, Bryan Avey, que reside em Los Angeles. Nos encontramos no aeroporto de Porto Príncipe. Foi uma viagem cheia de expectativas, até de medo. A volta, do momento que saí do acampamento até o em que entrei em casa, durou 24 horas. Toda a viagem produziu um cansaço físico e emocional, por tudo que vivi. Mas foi muito gratificante.

No penúltimo dia, aproveitei para ir à praia. No Haiti, paga-se para frequentá-las. Há praias de US$1, 10, 20 e 40 dólares. O diferencial é a infraestrutura, mas todas são naturalmente lindas. A que fui, fica a 70 quilômetros da capital. E custava U$ 20 dólares.

Cheguei em casa no Brasil na quarta-feira, 21 de agosto, às 10h. Fiquei de quarentena, vivendo o estado do choque cultural reverso. E na manhã do dia seguinte, ou seja, hoje, registrei estas memórias.

Leia também:

*****

Síndrome do Sotaque Estrangeiro: Britânica acordou com sotaque chinês

03.09.2013
Do portal JORNAL CIÊNCIA
Por OSMAIRO VALVERDE
Como você se sentiria se fosse dormir e acordasse com sotaque de outro país?
Você é brasileiro, mas acordou com sotaque russo, indonésio, dinamarquês ou grego. O que fazer?
Sarah Colwill, de 38 anos, não tem a resposta. Em 7 de março de 2010 ela acordou para sua rotina diária e quando pronunciou a primeira palavra percebeu que tinha algo que soava como chinês.
Ela é uma das poucas pessoas no mundo a ser diagnosticada oficialmente com a Síndrome do Sotaque Estrangeiro, um problema que afeta apenas 61 pessoas no mundo, em casos clinicamente confirmados entre o ano de 1941 a 2012.
Quem gostaria de viver com um sotaque e uma voz que não lhe pertence? A BBC realizou um documentário que mostrou o drama de Sarah.
Tudo começou quando ela sentiu uma forte dor de cabeça, sendo levada às pressas para o hospital. Os médicos ficaram perplexos quando na manhã seguinte ela acordou com um sotaque de um chinês que aprendeu a falar inglês.
Tem sido uma coisa horrível. As pessoas automaticamente assumem que sou estrangeira”, disse.
Estima-se que esta síndrome é provocada por fortes dores de cabeça que leva a uma lesão neurológica. Muitos médicos ainda veem o problema com ceticismo.
O esposo de Sarah, Kay Russel, 52, que também está no documentário, sofreu do mesmo problema. Após fortes dores de cabeça, acordou com um sotaque francês: “Até eu conhecer Kay, pensava que eu era a única pessoa no mundo que estava passando por isso”, disse.
A síndrome é raríssima e faltam profissionais para estudá-la. Um dos poucos que se habilita a desvendar o mistério, o professor Nick Miller, acrescenta: “Existem alguns tópicos comuns que permeiam suas histórias. Há muita frustração sobre “por que eu?” e “por que é que ninguém consegue explicar isso comigo?””.
Não existe nenhum tipo de cura ou tratamento. Os portadores até podem realizar terapia vocal com fonoaudiólogos, mas até o momento nada parece surtir efeito.
*****

BRASIL247: "TEMOS QUE PUNIR QUEM PRATICOU ESPIONAGEM"

03.09.2013
Do portal BRASIL247
******

Laura Greenhalgh: Doutor Preto teria algo a dizer aos médicos brasileiros

03.09.2013
Do blog VI O MUNDO, 02.09.13
Por Laura Greenhalgh, no Estadão, sugestão de Fátima Oliveira


Espetáculo patético. Médicos estrangeiros são obrigados a cruzar um corredor polonês de manifestantes em jalecos brancos gritando slogans que julgam ser de grande elevação espiritual – “Revalida!”, “volta pra casa”, “escravo, escravo…”.

A nau dos insensatos parecia ecoar no dia seguinte, na imagem publicada de um médico cubano, negro, visivelmente constrangido pelo protesto de que era alvo, em Fortaleza. E as insanidades prosseguiram: da tuiteira que indaga como lidar com médicas parecidas a domésticas a comentaristas tratando os vaiados como “agentes cubanos”. É triste, bate até um desalento. Não funciona dizer que é culpa do governo, saída fácil a escamotear o pior. Trata-se de preconceito.

Sabemos não é de hoje que a medicina no Brasil se fez uma profissão tão branca quanto a roupa que distingue seus profissionais – apenas 1,5% deles se declaram negros, segundo o IBGE. Dado estatístico, de uma constatação empírica – afinal, quantos clínicos ou cirurgiões negros você conhece?

Não é de hoje que este país sofre da má distribuição de seus médicos, o que faz com que vastidões continuem desassistidas para o atendimento básico, o que dizer então dos casos em que se requer atendimento especializado.

Como não é de hoje que, embora tenhamos o SUS, predomina em nossas vidas, bem como em nossas expectativas de futuro, a visão mercadológica da medicina, no sentido de que o melhor estará sempre reservado a quem pode bancar. Mas, ainda que saibamos de tudo, vale indagar se os atores do protesto terão vaiado apenas os profissionais de fora, inscritos no programa oficial.

Saiu vaiada a medicina social brasileira. Como saíram vaiados profissionais que deram e dão duro para fazer com que a saúde seja um direito de todos neste país. Hoje pretendo usar este espaço para lembrar de um deles, por coincidência negro e, mais coincidência ainda, neto de escravos.

Chamava-se Justiniano Clímaco da Silva, mas a clientela o tratava como “Doutor Preto”. Fez história no Paraná, precisamente em Londrina, onde trabalhou até morrer, em 2000, aos 93 anos.
Destacou-se numa cidade muito pobre até idos de 1930, depois enriquecida pela cafeicultura – cidade em cujos anais consta a saga vitoriosa dos colonos brancos, de origem europeia, nem tanto a força de trabalho dos negros libertos. E não foram poucos – no século 19, os escravos representavam 25% da população do Estado.

Pois bem, Justiniano Clímaco nasceu preto e pobre em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, em 1908. Filho de carpinteiro e criada doméstica, cismou de imitar o Dr. Bião, médico da cidade. Queria ser como ele. Então virou preto, pobre e pretensioso. Tanto fez que lhe arrumaram estudos num seminário e cama na casa de uma tia em Salvador.

Formou-se em 1933 numa classe com 95 alunos, contabilizados aí uma única mulher e ele, o único negro. Topou com a notícia de que a Companhia de Terras Norte do Paraná, firma inglesa que loteava uma vasta área do Estado, recrutava braços para a lavoura, apesar do avanço do tifo e da febre amarela. Pensou: se tem doença, precisa de médico. É lá que eu vou.

Assim começa a maior viração do Doutor Preto, 50 anos de clínica, mais de 30 mil pacientes, fundador de hospitais na região e tema de trabalho acadêmico de Maria Nilza da Silva, da Universidade Estadual de Londrina (UEL). A pesquisa da socióloga, da qual participou a aluna Mariana Panta, dá conta de um “escravo da medicina”, usando expressão do médico cubano vaiado em Fortaleza.

Justiniano Clímaco chegou em 1938 a uma Londrina sem luz elétrica para acionar o infravermelho que trouxe de Salvador. Fervia e flambava os próprios instrumentos, não tinha raio X, anestesiava os pacientes com máscaras de clorofórmio, rastreava tumores por apalpação, ouvia pulmões e corações longamente.

Dizia: “Clínica geral tem que ser feita assim: sem pressa”. Foi pioneiro no uso da penicilina ao tratar doenças sexualmente transmitidas, que proliferavam numa fronteira agrícola com gente de tudo quanto é lugar. Com o tempo, arrumou um Ford 28 para atender na roça e levar casos graves até Curitiba – 400 quilômetros por terra, dois dias de viagem.

Cobrava de quem tinha para pagar. E aceitava uma leitoinha, ou um queijo caseiro, por serviços prestados. Da clínica que abriu inicialmente, Casa de Saúde Santa Cecília, passou a se articular com os mais influentes para criar instituições como a Santa Casa de Londrina e a Sociedade Médica de Maringá.

Chegou a arrancar do presidente Dutra os tostões necessários para um hospital de tuberculosos em Apucarana, depois transferido para Londrina. Hoje ali funciona o Hospital Universitário, centro de referência médica do norte do Paraná.

Um belo dia Doutor Preto achou que seria bom provar do poder. Disputou uma vaga como deputado estadual, foi o quinto mais votado, mas odiou os anos na política, vividos solitariamente numa pensão em Curitiba. Queria voltar para a clientela. E dela não mais se separou.

Voltou também para a garotada do ginásio, ele que se tornara poliglota – falava além de grego e latim, alemão e francês.

Perguntavam-lhe por que dar aulas, afinal, já suava o jaleco. “Docendo discitur“, respondia. Ensinando é que se aprende. Só um dia perdeu as estribeiras com paciente.

O sujeito marrento o interpelou no corredor do hospital, perguntando pelo Doutor Clímaco. Ouviu um naturalíssimo “sou eu”. E rebateu com um insultuoso “não vem não, negão, vai logo chamar o médico”. Preconceito não só fere, como turva os sentidos.

Justiniano Clímaco agarrou o homem e jogou-o no rua. Sem consulta. Fez cardiologista seu único filho, adotivo, e doou tudo para a cidade, inclusive a maleta de médico. A casa onde morou até morrer foi derrubada, mas seu nome continua de pé numa unidade básica de saúde. Neto de escravos, Doutor Preto teria algo a dizer aos médicos brasileiros que hoje vaiam médicos cubanos.

Leia também:

******