quinta-feira, 20 de junho de 2013

Leia aqui os posts sobre os 13 dias que abalaram o Brasil

20.06.2013
Do BLOG DAS FRASES, 18.06.13
Por Saul Leblon


O day-after: implicações de uma vitória

A vitória superlativa das ruas com a reversão do reajuste tarifário em SP foi saboreada pelos dirigentes do MPL com um misto de euforia e alívio. 

A continuidade dos protestos evidenciava uma crescente diluição do movimento nas tinturas de uma desqualificação do governo federal e das conquistas econômicas e sociais dos últimos dez anos. 

A jovem liderança do MPL, que se declara de esquerda, admite que já não sabia como reverter a usurpação martelada pela mídia conservadora. 

Há opções óbvias. 

Incompreensivelmente, porém, ainda não adotadas por quem conta com os holofotes da boa vontade a sua disposição, nesse momento. 

Uma sugestão prosaica: convocar uma entrevista coletiva e desautorizar o dispositivo midiático conservador, que surfa na onda dos novos cara-pintadas para rejuvenescer a narrativa de um antipetismo histórico. 

A abusada antecipação da campanha de 2014 inclui cenas -e ameaças-- de invasão de palácios, mesmo quando ocupados por governantes já comprometidos com a redução tarifária. 

Essa era a agenda da 'comemoração da vitória' no RS, nesta 5ª feira. 

Qual o propósito dessa 'sessão fotográfica' com data e hora marcada? 

Aos integrantes do MPL não cabe o bônus da ingenuidade. 

Embora jovens, souberam fixar um alvo de notável pertinência histórica.

A mobilização de massa pela tarifa zero e por uma cidade dos cidadão carrega a promessa de um chão firme do qual se ressente o planejamento democrático no país. 

Só um movimento urbano forte, capaz de disputar a construção da cidade com a lógica do lucro imobiliário poderá reverter o caos das grandes metrópoles. 
Se for a semente disso, o batismo de fogo do MPL, com todas as suas lacunas, já terá valido a pena. 

Antes, porém, precisa se desvencilhar da carona oportunista que hoje embaralha a sua extração histórica e pode ferir de morte a credibilidade conquistada nas ruas. 

Ao PT, o day-after, se caracterizar o espaço de uma trégua, deve abrigar uma desassombrada avaliação das razões pelas quais as ruas e uma parcela da juventude já não se expressam através do partido, de sua capilaridade e dos fóruns oferecidos até aqui por suas administrações. 

Ao conjunto das forças progressistas, sobretudo os partidos de esquerda, cumpre a autocrítica mais aguda.

O sectarismo autodestrutivo que gerou um arquipélago de entes incomunicáveis abriu um vácuo no espectro das mobilizações de massa. 

Nesse oco de alianças, choca o ovo da serpente que inocula na sociedade uma histérica rejeição à política e à organização democrática do conflito social. 

O que se viu nesses 13 dias que abalaram o Brasil, mais uma vez, é que em política não existe vácuo. 

A incapacidade da esquerda de fazer alianças com seus pares e, desse modo, oferecer uma agenda crível às angústias e anseios da cidadania, pavimentou o despontar de visões e concepções regressivas turbinadas pela mídia conservadora. 

Foi só um aperitivo. Convém não esperar pelo banquete para reagir. A ver


O bonde da história está passando

A insatisfação desprovida de agenda, liderança e capacidade de negociação -que implica hierarquizar, exigir e transigir, conforme as circunstâncias- leva à revolta desordenada que se desespera com o paradoxo de sua própria força. Uma força descomunal que gira em falso e se exaure. No chão achatado pelo peso da inconsequência estratégica floresce a regressividade social e política. Nenhuma sociedade admite se transformar em um parafuso espanado, à mercê da incerteza permanente.. O PT e os partidos à esquerda do PT talvez ainda tenham condições de definir uma agenda progressista para a estupenda energia liberada pelas explosões de protestos que varrem o país há 13 dias. Talvez. Mas para isso precisam vencer uma rejeição mútua e autodestrutiva, que não é propriamente novidade na história da esquerda mundial. Na Alemanha, nos anos 20, essa negociação não se deu. No Chile, em 1973, ela tampouco aconteceu. Na Espanha de 2011, idem. Os resultados são conhecidos. O Brasil não é a Alemanha de Weimar, nem o Chile de Allende ou a Espanha do PP, onde o neofranquismo ascendeu à sorrelfa dos indignados que coalhavam a Praça do Sol. Mas o Brasil está vivendo um movimento de massas vigoroso e espontâneo. Que se espalha magistralmente sem que as forças de esquerda disponham, sequer, de um fórum para avaliar um denominador de propostas críveis, capaz de transformá-lo na alavanca reordenadora de um processo de desenvolvimento que vive o seu ponto de mutação. Ou alguém acha que basta revogar centavos de tarifa e a pasta de dente gentilmente voltará ao tubo? Se as forças democráticas, lideradas pelos partidos de esquerda e as organizações progressistas, não tiverem a capacidade de construir as linhas de passagem para um novo ciclo, com um salto de democracia participativa e metas de qualidade para a dimensão pública da vida, alguém o fará. Na direção oposta à da democracia social que o país luta por construir desde o fim da ditadura militar e antes dela. Todo o dispositivo conservador opera febrilmente no sentido de desqualificar a capacidade progressista de conduzir o passo seguinte da economia e da sociedade. O projeto que pretendem recuperar é sabido. Talvez ainda haja tempo de evitá-lo. Há muito a se perder e muito a se ganhar na roleta dos dias que correm. O bonde da história está passando. E a esquerda não é a única a disputar a vaga do motorneiro.

Saturação e projeto

A rapidez e a abrangência dos acontecimentos em marcha turvam a compreensão mais geral do que se passa no país.

Sentenças frívolas e ligeirezas interessadas tentaram instrumentalizar o aluvião desregrado, comprimindo-o entre as margens de uma canaleta estreita.

Foram atropeladas.

A mídia conservadora encabeça a série dos revezes. 

Movida inicialmente pelo indisfarçável objetivo de desgastar gestões progressistas – na esfera municipal e federal— os veículos conservadores foram rapidamente desalojados da carona desautorizada.

Da sofreguidão convocatória partiram para o linchamento dos ‘vândalos’. 

Em seguida, foram atropelados pela truculência repressiva, acobertada, no caso de São Paulo, pelo governo estadual que apoiam. 

Recuaram, entre estupefatos e perplexos.

O que se viu nas últimas horas espraiou essa mesma perplexidade nas diferentes dimensões da vida política e partidária. 

Em 11 capitais, milhares foram às ruas.

Os 20 centavos que motivaram a mobilização original em São Paulo , no dia 6 de junho, tornaram-se ainda mais irrisórios diante da abrangência e da intensidade do que se vê, 12 dias depois. 

O que está em jogo é muito mais do que caraminguás. 

As ruas requisitam uma nova agenda política para o Brasil. 

Não significa desqualificar conquistas e avanços preciosos dos últimos anos.

Mas a história apertou o passo. Talvez até porque a musculatura do percurso agora o permite.

A verdade é que as engrenagens e canais disponíveis não souberam interpretar o vapor acumulado nessa marcha batida. 

Um viés economicista pretendeu resolver na macroeconomia – à frio – aquilo que pertence ao escrutínio permanente da democracia: as escolhas do futuro e os sacrifícios do presente. 

Restritas, em grande parte, à negociação parlamentar, essas escolhas foram blindadas com o ferrugem dos interesses consolidados.

Com os desvios sabidos e as consequências conhecidas.

As ruas requisitam um aggiornamento da agenda política brasileira.

A inauguração de um novo ciclo histórico depende de programas e projetos que reflitam esse sentimento difuso que brota de norte a sul. 

Saturação diante do caos urbano. 

Angústia coletiva com o definhamento da dimensão pública da vida.

Opressão da existência individual, sobrecarregada de demandas coletivas ainda não contempladas.

Insensibilidade da representação política tradicional diante do grito entalado no fundo do peito de milhões que sacolejam diariamente nos ônibus e metrôs lotados.

Tudo isso e muito mais que isso.

No capitalismo globalizado não temos mais o 'privilégio' do sofrimento exclusivamente local.

A ordem neoliberal tornou-se uma usina de desordem urbi et orbi. 

Líderes não lideram. 

Mercados mandam. Governantes obedecem.

A soberania nacional tornou-se intrinsecamente subversiva e disfuncional. Ao mesmo tempo e com igual intensidade.

Os instrumentos convencionais de escrutínio coletivo não respondem aos estímulos. 

As urnas decidem; o dinheiro desautoriza. A mídia abjura.

Os fundamentos do sistema perderam a aderência da sociedade. 

Como um trem fora dos trilhos, o que seria o fim da História forma hoje um comboio desgovernado, que marcha ora na inércia, ora fora dos trilhos. 

Mas não cai. E não cairá por si.

A liderança do processo brasileiro está em aberto. 

Mais que isso.

A ausência de uma plataforma capaz de dar unidade e coerência a aspirações fragmentadas e avulsas pode asfixiar o que as ruas tentam dizer. 

Vem da Espanha reluzente de protestos na Praça do Sol um alerta desconcertante. 

Madri e Barcelona consagraram-se como o epicentro da indignação global. 

Desde 15 de maio de 2011, quando o 'Democracia Já' convocou uma manifestação na Praça do Sol, até os protestos em 92 países, em 15 de outubro de 2011, passaram-se fulminantes cinco meses de ascensão linear das ruas. 

A passeata original deu lugar a um acampamento formado por um mar de indignados.

A ocupação na Praça do Sol resistiria por 79 dias. 

O termo 'indignado' globalizou-se. 

Surgiu o 'Ocupe Wall Street’, que mirou com argúcia o alvo da indignação: o dinheiro sem pátria e a pátria rentista sem fronteira, mas detentora de governos e Estados.

Em outubro de 2011, o sentimento nascido na Praça do Sol tornou-se o novo idioma político global, compartilhado por um milhar de cidades em todos os continentes. 

Mas nem por isso imune às sombras.

No momento em que as praças rugiam a insatisfação de milhares de vozes, o voto popular consagrava nas urnas o Partido Popular, de Aznar.

A cepa herdeira do franquismo obteve uma vitória esmagadora nas eleições espanholas de 20 de novembro de 2011.

A votação recebida pelo conservadorismo, que hoje esfola e sangra o povo espanhol, estendendo o desemprego a 52% de sua juventude, garantiu-lhe, ainda, maioria folgada no Parlamento.

O paradoxo do 'sol e da escuridão' não pode ser esquecido, nem minimizado pelo frescor da indignação que ecoa agora de uma dezena de capitais do país.

Hoje, ninguém é de ninguém. 

Em política, como dizem, com razão, suas 'raposas', não existe vácuo.

Na Espanha, a vitória eleitoral do ultra-conservadorismo, em 2011, só foi possível porque a abstenção, sobretudo jovem, atingiu proporções epidêmicas no berço mundial dos indignados. 

A exemplo do que ocorreu na Espanha, nos EUA e, mais recentemente, na Itália , em algum momento os indignados brasileiros serão chamados a refletir - talvez precocemente - sobre as escolhas do poder. 

O poder de Estado. 

Os compromissos que a luta pelo poder impõe. 

A impossibilidade de ignorá-la; e, sobretudo, a escolha da melhor estratégia para pautar o seu exercício, a cada movimento da história.

(Leia também: 'A resposta é mais democracia'; neste blog)

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Pesquisador da FGV diz que manifestações nas ruas são “a cara da web”

20.06.2013
Do portal da Agência Brasil
Por Flávia Villela

Rio de Janeiro – As manifestações espalhadas pelo país são a representação do mundo digital. Para o pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), Luiz Antonio Joia, que estuda e-participação (ação política pela rede social) e cidadão mediado por tecnologias, o fenômeno dos protestos brasileiros é algo inédito no país graças à internet e às redes sociais.

“Esse movimento é a cara da web. Ele é anárquico, sem dono e impessoal, que se autorregula e suporta qualquer coisa. É a transposição da World Wide Web [o sistema da internet] para o mundo real. É surpreendente e imprevisível”, ponderou ele.

O professor defende que a rede mudou a concepção de tempo e de espaço das pessoas e as relações sociais, tornando-se um ator no processo de reivindicações. “Você passa a saber tudo o que acontece em tempo real, o que faz com que as pessoas se engajem numa velocidade absurda. A tecnologia não gera o fenômeno, ela o amplifica”, comentou. Ele lembrou do movimento Diretas Já, que demorou cerca de um mês para ser organizado, enquanto o movimento atual, com o que chama de “boca a boca digital”, levou dias para ser orquestrado.

A internet permitiu que vários fatores, como o aumento de preço do ônibus, os gastos do país com a Copa das Confederações, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 37 (que retira poderes de investigação do Ministério Público) e o Projeto da “Cura Gay”, contribuíssem para a união de grupos insatisfeitos com questões diferentes e que hoje saem as ruas. “Os R$ 0,20 foram apenas o que disparou o gatilho, tudo isso mediado pela tecnologia da informação e da comunicação”, explicou.

Se, por um lado, a característica anárquica dos movimentos é surpreendente, a falta de liderança e de pauta do movimento criam uma questão complexa, segundo o professor. “Você pode ter na mesma passeata duas pessoas lutando por coisas totalmente opostas. Diferentemente da Primavera Árabe e de movimentos na Europa, no Brasil não há uma pauta”, lembrou.

De acordo com o pesquisador, esse cenário pode apresentar risco para o movimento. “O perigo da falta de foco é que oportunistas e partidos políticos podem apropriar-se desse movimento. É importante que as pessoas digam o que querem e, sobretudo, como querem, como implantar esse projeto”.

Como acadêmico, Joia se diz entusiasmado com os recentes acontecimentos. “Não dá para prever o que vai acontecer, pode não dar em nada, mas deixará uma semente. São sinais que devemos acompanhar e depois tirar lições que sirvam para nossos alunos e para a sociedade”.

Edição: Davi Oliveira
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BRASIL247: DILMA, ASSUMA O COMANDO

20.06.2013
Do portal BRASIL247
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Só ela tem poder e autoridade para restabelecer a ordem; cenas de destruição diárias têm potencial para arruinar a imagem do País num momento crítico; Itamaraty em chamas e um repórter com uma bala de borracha na testa foram as imagens mais fortes do dia; se, dias atrás, o “Brasil amanheceu mais forte”, como disse a presidente, hoje ele está mais fraco, muito mais fraco; festival de irresponsabilidade da mídia, sobretudo da Globo, que narra os protestos como se fosse um desfile de Carnaval, contribui para o avanço da violência

247 - Neste exato momento, em que o Palácio do Itamaraty, um dos símbolos de Brasília e uma joia da arquitetura de Oscar Niemeyer, está sendo atacado por manifestantes e chegou a ter focos de incêndio, a presidente Dilma Rousseff despacha com as ministras Gleisi Hoffmann e Ideli Salvatti, no Palácio do Planalto. Pela TV, ela acompanha a evolução dos protestos, mas o Palácio do Planalto ainda não tomou uma decisão sobre o que fazer.

Numa das maiores manifestações de protesto da história do País, que mobiliza cerca de 1 milhão de pessoas em mais de uma centena de cidades, ainda não se ouviu uma palavra da presidência da República. Ocorre que só Dilma, e mais ninguém, tem poder e autoridade para restabelecer a ordem pública, num momento crítico, em que os olhos do mundo estão voltados para o País. A reivindicação inicial dos manifestantes, que era a redução das tarifas de ônibus, já foi atendida. De resto, há apenas demandas difusas, contra as quais ninguém é contra. Mais saúde, mais educação e menos corrupção.

No rastro de violência, um repórter da GloboNews, Pedro Vedova, foi atingido por uma bala de borracha. Carros de TV da Record e do SBT já foram incendiados. Neste momento, a sede do jornal O Globo, no Rio também está cercada por manifestantes. No entanto, na Globo, cobrem-se as manifestações, que descambam para a barbárie, como se o Brasil estivesse diante de um desfile de Carnaval.

Em São Paulo, a Rodovia Castelo Branco foi interditada nos dois sentidos. O Rodoanel também chegou a ser fechado e milhares de trabalhadores levarão cinco, seis horas ou mais para retornar a seus lares.

Depois do primeiro dia de protestos intensos, a presidente Dilma Rousseff afirmou que "o Brasil amanheceu mais forte". Hoje, ele está mais fraco.

E amanhã exigirá um mínimo de ordem.
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PROTESTOS URBANOS: Redes sociais, boatos e jornalismo

20.06.2013
Do portal OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, 18.06.13
Por Sylvia Debossan Moretzsohn*,  na edição 751

O comportamento da grande imprensa na cobertura da repressão às manifestações contra o aumento das passagens de ônibus e contra os gastos exorbitantes para a realização da Copa do Mundo no Brasil forneceu mais um estímulo a quem propõe o abandono da “velha mídia” em nome das redes sociais, apresentadas como fonte das informações verdadeiras e veiculadas sem as mediações que as deturpam ou lhes retiram a força.
Infelizmente, as coisas não são simples assim.
De fato, os episódios dos últimos dias deixaram claro, mais uma vez, que a grande imprensa elege um lado, distorce os fatos, silencia as vozes dissonantes e, diante das evidências – as cenas de barbárie da quinta-feira (13/6), em São Paulo –, tenta atabalhoadamente correr atrás do prejuízo, sem entretanto conseguir livrar-se do jornalismo meramente reativo e declaratório: não consegue ser crítica às fontes oficiais, apenas reverbera seus discursos, mesmo os mais estapafúrdios, como o que assevera não ter havido excessos na repressão aos protestos no Maracanã, no domingo (16/6), ou o que informa sobre o cadastramento de jornalistas para as próximas manifestações, que usariam coletes de identificação – algo impensável mesmo em tempos pré-internet, quando o número de meios de comunicação era infinitamente menor.
São vícios, talvez, de quem se acostumou a substituir a apuração ativa e autônoma, que frequentemente suscitava conflitos internos na Redação, pela passividade da reprodução de releases de assessorias de imprensa, perfeitamente adequados aos objetivos de um jornalismo bem comportado, que não deseja fazer marola.
Ilusões na rede
Na era da internet, esse bom-mocismo subserviente desmorona, mas nem por isso o que circula na rede é garantia de boa informação. Especialmente quando se trata de situações de alta tensão, como estas que estamos vivendo, que provocam reações exacerbadas e muitas vezes resultam na disseminação de boatos ou simplesmente mentiras.
Num vídeo que circulou amplamente na internet, uma jovem paulistana, participante do movimento contra o aumento das tarifas, convocava: “Desliga a TV e vem pra internet. Porque na internet não tem manipulação...”.
Pobre mocinha.
Uma adolescente pode acreditar no que quiser, mas há muita gente experiente que cai nas armadilhas dessa cacofonia e desse imediatismo típicos do meio virtual. É assim que mesmo jornalistas compartilham automaticamente textos, fotos e vídeos sem qualquer preocupação com a checagem, às vezes sem nem mesmo lerem ou repararem melhor nas imagens. E frequentemente fazem comentários, e ajudam a criar a bola de neve da desinformação.
Reações irrefletidas
Um exemplo foi uma foto divulgada no Facebook no dia seguinte à batalha campal da Avenida Paulista: um jovem carregando uma policial, enaltecido como uma demonstração da atitude solidária de um manifestante contra a truculência da repressão. Ocorre que a foto era de 2010, de uma passeata de professores da rede pública de São Paulo, e o jovem em questão era um policial infiltrado no movimento – o famoso P2 –, que socorria uma colega. O alerta, em tom de ironia, foi dado pelo jornalista Caio Barbosa, de O Dia, em sua página no Facebook, e nos comentários indicava-se o link para a reportagem da época, que questionava a presença de um policial do serviço secreto naquela manifestação (ver aqui).
Outro exemplo, mais relevante pelas suas consequências alarmistas, foi o do boato sobre a censura às rádios CBN e BandNews FM, que teriam sido tiradas do ar “por ordem da Fifa” (?!) porque estavam cobrindo os protestos do lado de fora do Maracanã, pouco antes do jogo de domingo (16/6).
Diante da repercussão, a Band informou, pouco depois das 14h, pelo Twitter, que não havia censura alguma: apenas não tinha o direito de transmissão, via internet, para fora do Brasil, dos jogos da Copa das Confederações. À noite, no Facebook, o jornalista Álvaro Oliveira Filho, da CBN, divulgou texto esclarecendo que tampouco houve qualquer censura à rádio onde trabalha: simplesmente o site das emissoras do Sistema Globo de Rádio estava fora do ar, um problema que foi resolvido ao final da tarde, mas as rádios transmitiam normalmente. Os celulares funcionavam mal – “sei que isso é raro no Brasil, mas aconteceu neste domingo”, ironizou – e, algumas vezes, os repórteres que cobriam o conflito nos arredores do estádio entravam no ar e a ligação caía.
“Nem por isso deixamos de relatar o que acontecia nas ruas próximas ao estádio, com a ajuda também das imagens que recebíamos pela TV.
Num determinado momento, o locutor Evaldo José, ao meu lado, foi avisado que Genilson Araújo estava pronto para entrar no ar e o chamou. Genilson, no olho do furacão, não ouviu o chamado, não percebeu que estava no ar e disse para os policiais [que perseguiam manifestantes refugiados na Quinta da Boa Vista]: ‘Vocês não podem entrar aí, não. Aí tem criança. O que é isso?’

“Ao perceber que Genílson não sabia que estava no ar, Evaldo retomou a transmissão. Foi o suficiente para que várias histórias fantasiosas surgissem e se espalhassem rapidamente pelas redes sociais, fazendo com que a CBN chegasse aos trend topics do twitter. Disseram que Genilson havia entrado no ar chorando, que a Fifa havia tirado a CBN do ar.”
No calor da hora
A proliferação de boatos ocorre com imensa facilidade porque a fluidez do mundo virtual o torna particularmente permeável a esse tipo de coisa. Além disso, as redes sociais são um reflexo do comportamento das pessoas na vida cotidiana, cuja característica é precisamente o automatismo, a reação irrefletida. Por isso não é possível, simplesmente, substituir a informação jornalística pelo que circula na internet, por mais que as redes também sejam uma riquíssima fonte de informação e expressão da criatividade e da irreverência diante da brutalidade e da opressão.
Mas, como sempre, é preciso filtrar para zelar pela credibilidade e combater o caos.
Por isso, cada vez mais, necessitamos de jornais – melhor dizendo, necessitamos de jornalismo, dessa atividade comprometida em mergulhar na turbulência do cotidiano para recolher dali as informações confiáveis e divulgá-las.
Jornalismo, entre várias coisas, é isso: o exercício do senso crítico no calor da hora. Por isso é tão difícil. Por isso é tão necessário. E por isso, também, é tão necessária a crítica ao jornalismo que descumpre seu papel.

Leia também
Eles são todos nós – Luciano Martins Costa
Muito além dos 20 centavos – Sylvia Debossan Moretzsohn
A ira está solta – Alberto Dines
Em São Paulo, vinagre dá cadeia – Piero Locatelli
Gás de provocação – Mauro Malin
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*Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)
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A Revista Veja sob nova administração?

20.06.2013
Do BLOG  DO MIRO
Por Paulo Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:

A revista Veja parece estar sob nova administração, poucas semanas depois da morte do proprietário e editor Roberto Civita.

A capa de José Dirceu parece ter sido a última de uma era em que a revista foi, quase sempre, detestável.

O sinal de mudança está na cobertura dos protestos, primeiro no papel e depois na internet.

Na internet, nos primeiros dias, a revista pareceu seguir inercialmente a orientação anterior de reacionarismo inflamado e desconectado da realidade.

O blogueiro Reinaldo Azevedo comandou a cobertura inicialmente, e logo foi seguido por seus colegas Augusto Nunes e Ricardo Setti, como o Diário notou anteriormente.

Azevedo chamou os manifestantes de vagabundos, celerados, remelentos, terroristas e vândalos.

Ele parecia ecoar o promotor Rogério Zagallo, que pedira à Tropa de Choque que atirasse nos “bugios” porque eles estavam provocando um congestionamento no local em que ele estava com seu carro.

Nunes seguiu na mesma linha. Setti também. Ele chegou a republicar um artigo do publicitário aposentado Neil Ferreira no qual este, como Zagallo, sugerir passar fogo nos manifestantes, parte de uma “guerra suja”.

Parece claro que Azevedo e companheiros, como Zagallo, cometeram um erro de avaliação monumental: associaram o MPL ao PT.

A mudança veio na edição impressa.

A Veja, para surpresa de muita gente, não rosnou como seus blogueiros. Os jovens nas ruas já não eram vagabundos.

O que ocorreu?

Provavelmente, uma conversa. Não mais que isso.

Os herdeiros de Roberto Civita, Gianca (área administrativa) e Titi (conselho editorial) devem ter dito que não estavam de acordo com aquela visão que vinha se propagando no site. A reputação da revista já tinha problemas antigos. Mas a deles ainda não.

Quem conhece as cúpulas das empresas jornalísticas sabe bem que quinze minutos de conversas são suficientes para conversões profundas em editores que pareciam fanáticos.

O que se viu, depois que a Veja da semana passada chegou às bancas, foi uma mudança de tom veloz nos blogueiros.

O momento mais icônico – e divertido – foi um texto em que Setti dizia, do nada, que sabia que tinha “exagerado” ao chamar os manifestantes de baderneiros.

Augusto Nunes mudou de assunto por algum tempo, e ao voltar estava bem diferente. Pelo que entendi, parecia interessado em entender o significado dos protestos.

Não quer dizer, é claro, que a revista se tornará libertária. Mas é previsível que ela vá buscar um tom de conservadorismo civilizado, como a The Economist, para ficar num bom caso.

Na Globo, uma conversão súbita parecida ocorreu com Arnaldo Jabor.

Dias depois de fazer um pronunciamento histérico contra os protestos, tomado como se fosse Feliciano, ele se desculpou abjetamente.

Quem acredita que ele não recebeu uma instrução para se desdizer acredita em tudo, para usar a máxima de Wellington.

As palavras odiosas de Jabor circularam amplamente na internet e cobraram seu preço. Sempre que os manifestantes encontravam um repórter da Globo, a hostilidade era imediata.

Caco Barcellos, tido como uma voz destoante no ultraconservadorismo da Globo, levou um sopapo e foi expulso vergonhosamente de uma manifestação.

Num gesto de desespero e de automutilação, a Globo tirou a marca dos microfones de seus jornalistas, para preservar sua integridade física.

Caco apanhou por Jabor, pode-se dizer.

Nos últimos dias, o tom bem mais baixo, Reinaldo Azevedo tem repetido que seu blog bate incessantemente recordes de audiência. (Pode-se imaginar a qualidade do público atraída pela pregação de ódio obtuso de Azevedo.)

Os anúncios autocongratulatórios de recorde podem ser um sinal de que ele está sentindo que os ares mudaram na Veja, sob a nova geração de Civitas.
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TV DA DITADURA TENTA O GOLPE CONTRA DILMA: A cobertura exclusiva que a Globo está fazendo das manifestações é uma tentativa de golpe

20.06.2013
Do Blog OS AMIGOS DO PRESIDENTE LULA

Apenas um exemplo, para estimular o raciocínio.
Perceberam a mudança brusca de editorial das empresas de comunicação?
Todas juntas, em um único discurso, como sempre.

Pense bem, essas grandes empresas de comunicação nunca apoiaram nada que fosse bom para o povo, sempre trataram manifestações como se fossem terrorismo.
Por que, de repente, tão rápido, A Globo mudou de idéia? Pense nisso!.
(Facebook da Flaviane Vasconcelos)
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Urariano Mota: Chega de afagos demagógicos

20.06.2013
Do blog VI O MUNDO
Por Urariano Mota, em Direto da Redação

 
Recife (PE) - No momento em que esta coluna entra no ar, o trânsito no centro do  Recife está parado. Os jovens nas ruas em manifestações de protesto viraram o maior carnaval fora de época em Pernambuco.

A parada geral recebeu a providencial força de uma greve de motoristas de ônibus em toda região metropolitana. Natural e coerente, pois o  protesto é contra o aumento das passagens, não? Não. É contra tudo. E, justiça seja feita, o mundo todo, tudo da terra aos céus precisa de mudanças, do campo à cidade, das mulheres aos homens, das crianças aos jovens, do povo ao povo.

Tudo precisa de mudanças reais, radicais e na maior urgência. Pelas trombetas de toda a imprensa, tudo tem que ser agora, a hora é esta. “Vem para a rua” virou um grito de oprimidos sob o patrocínio do capitalismo.

Isso longe está de ser um fenômeno do acaso, uma aparição marginal à lógica do tempo.  Se só víssemos a realidade com os olhos de hoje, seria inexplicável notar que toda a mídia esteja unida na divulgação e no apoio aos jovens nas ruas. No rádio, jornais, revistas e televisão, os caras são a juventude revoltada.

Projeta-se até mesmo uma telenovela com os novos heróis, numa assimilação rápida do instante presente, numa criação inédita, pois nenhuma arte fez isso até hoje. O sistema é esperto e multiforme. Há até quem diga que a depredação de bancas de revista e lojas será um ótimo negócio para os bancos: os pequenos empresários, falidos, procurarão empréstimos a qualquer taxa de juros.

O protesto virou um happening. É a maior festa do Face. Um evento de sucesso. Mas a “juventude indignada” é mais que um movimento nascido no Facebook. Além de ser o que dele falam alguns sociólogos, quando o veem como resultado das condições sociais e econômicas do Brasil, os protestos nas ruas parecem ser, de imediato, um acúmulo da doutrinação da mídia que, à semelhança de música do hit parade, martelou denúncias diárias e frequentes do mensalão, na fúria contra os governos Lula e Dilma.

Ele, o espantalho Lula/Dilma, com as suas bolsa família, perdão, Bolsa esmola e prounis, ameaçou diminuir o poder secular da elite brasileira. Mas como pode um protesto de jovens ser conservador, pois tudo que é jovem é novo e belo, pois não? Como poderia um protesto contra o mundo  se voltar contra governos à esquerda?

Pois sim. Em São Paulo, militantes de partidos políticos foram expulsos do ato na Praça da Sé. Mais, em maioria, os jovens nas ruas negam a existência de partidos políticos, quero dizer, negam o direito à existência dessas legítimas expressões da democracia. Em seu lugar, nas ruas levantam bandeiras e lemas velhos, desde a Itália e Alemanha dos anos 30: falam em  “nação”, em “pátria”, quando mais próprio deveriam falar no fascínio do fascismo sobre as suas cabecinhas.

O movimento, aqui e ali, tem se transformado em algo sujo e excludente, que todos conhecemos como a direita. Em página do facebook, as múmias da ditadura aproveitam e criam um Golpe Militar 2014, com quase 5.000 pessoas. É essa a primavera brasileira?
Alegam, os velhinhos à moda paizão, que  isso é a minoria, que tais ocorrências não refletem o caráter dessa coisa nova, linda e inexplicável de um movimento de massa independente. 

Então, como assimilar jovens universitários com bandeiras do gênero “Foda-se o Brasil”? Seria isso a revolta justa de alguém excluído dos benefícios dos últimos governos? Um programa de construção para a identidade nacional? Ou será algo mais próximo de velhíssimos fascistas que sobrevivem em peles de pouca idade, malhadas, dos grupos neonazistas ou alienados em geral que se referem a nordestinos como os mendigos do Bolsa Família?

Mas isso é um fenômeno marginal, fala-se, em um movimento de mais de 100 mil em passeata, em multidões de Galo da Madrugada em pacífica reivindicação.

Sim, com tais extremos, é minoritária a expressão do fascio. Mas há uma imensa massa despolitizada onde tais apelos impressionam. Numa pesquisa empírica, que os órgãos de melhor método poderão confirmar, perguntem aos revoltados da hora quais os problemas do Brasil. A maioria vai declarar que o maior deles é a  corrupção.

Em cartazes, todos vemos nas passeatas “Cadê a Dilma da guerrilha?”. Vídeos no YouTube com falas de carinhas moças chamam para as ruas com “Vamos parar a roubalheira do governo… Vamos parar com essa palhaçada do governo do Brasil… O Inimigo é o Governo”.

A terra é fértil para a pregação de coisas antigas em rostinhos e corpos jovens. Esse é o dado novo, que se desconfiávamos não adivinhávamos. O gigante acordou, o gigante de nossas consciências acordou. Chega de afagos demagógicos.
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PARTIDO DA MÍDIA GOLPISTA: GLOBO DERRUBA A GRADE. É O GOLPE !

20.06.2013
Do blog CONVERSA AFIADA,
Por Paulo Henrique Amorim

Cobertura da Globo, na tevê aberta, é um incitamento à derrubada da Dilma, à força


A Rede Globo, em tevê aberta, nesta quinta-feira, um dia depois de os prefeitos do Rio e de São Paulo reduzirem as tarifas, derrubou a grade de programação e se dedicou, sem comerciais !,  a abrasileirar o Golpe pela tevê que a Direita conseguiu, por 48 horas, contra o Chavéz, na Venezuela.

Clique aqui para ler “tem um monte de Cabo Anselmo nas ruas”.

A Globo, tão boazinha, fala em democracia, não violência, paz, luta contra a corrupção e entra no Brasil inteiro com imagens ao vivo do quebra-quebra, do desmando, da falta de Governo !.

É a pseudo  – informação.

Porque a Globo não desce lá embaixo.

É do alto, do helicóptero.

O repórter fala do que vê na tevê.

Não vê o que se diz lá embaixo.

A “cobertura” não tem contexto.

Não tem outro lado.

Outra versão.

Não tem uma autoridade.

Por duas horas seguidas, a Globo não põe no ar uma única palavra de alguém, com o manto da autoridade, para jogar agua na fervura.

É pau, ao vivo.

Pau !

O desmando, a desorganização.

A saturação do caos.

Os repórteres, coitados, vítimas do gás lacrimogênio.

É o “jornalismo catástrofe”!

Invadam o Itamaraty ! Subam no Congresso. Fechem a ponte Rio-Nietroi. Esculhambem o Governo !

Porque o William Bonner esta aqui, desde cedo, para dar visibilidade !

Ponham fogo que fica mais “televisivo”.

Lamentável, diz a repórter !

E tome fogo!

Lamentável.

E tome pau !

O Palácio do Planalto cercado !!!

É um Golpe.

Manjado.

Na Venezuela, deu certo, por 48 horas.

Lá não tinha Copa do Mundo que a Globo não pode permitir que dê certo – clique aqui para ler “Globo boicota e fatura com a Copa”.

Aqui tem.

De repente, o brasileiro passou a odiar futebol.

A próxima cobertura da Globo, depois de derrubar a grade de programação, é o impeachment da Dilma.

Palavra de ordem que já se viu na Avenida Paulista, ao lado de “ditadura, já !”

Viva a Democracia !

Como disse o Conversa Afiada, a Globo embolsou o Movimento do Passe Livre.

Não existe passeata de 50 mil pessoas apartidária.

Ou não dá em nada, ou derruba o Governo.

A Globo vai derrubar !

Paulo Henrique Amorim

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PERNAMBUCANOS VÃO ÀS RUAS. FOTOS E VÍDEOS

20.06.2013
Do portal do DIÁRIO DE PERNAMBUCO, hotsite







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Fonte:http://hotsites.diariodepernambuco.com.br/politica/2013/protestorecife/

PAULO MOREIRA LEITE: A verdade e a propaganda

20.06.2013
Do portal ISTOÉ INDEPENDENTE, 19.06.13
Por Paulo Moreira Leite

Confesso que só posso ficar preocupado quando ouço nossos prefeitos e governadores dizerem que o transporte vive com orçamento apertado, sem margem para cortes no preço da passagem.

E que, por esse motivo, serão obrigados, de coração partido, a cortar gastos em saúde, educação e outras áreas prioritárias.

Não quero falar de prefeitos particulares, nem de um governador específico. Mas enxergo um exercício de propaganda nesse movimento. Um esforço para dizer que, no fundo, o reajuste era uma medida boa ou pelo menos aceitável socialmente – pois impedia cortes no dinheiro das escolas e postos de saúde. 

Difícil acreditar. Conforme foi amplamente anunciado durante as manifestações, as empresas de ônibus, no país, têm uma margem de lucro acima da média internacional. Divulgou-se durante os protestos que nossas empresas respondem por 10% dos custos do transporte, contra 33% em outros países. Não sei se os dados corretos são estes. Podem ser um pouco mais, quem sabe um pouco menos. Seja como for, o brasileiro gasta 5% de seu orçamento mensal com transporte, contra 2% em outros países. Os gastos com transporte público têm aumentado nos últimos anos, apesar de todo subsídio criado com medidas recentes, como o Bilhete Único. Isso porque o crescimento econômico oferece empregos e oportunidades, que tiram a pessoa de casa e aumentam a procura por transporte coletivo.

A questão real é outra. Sem fazer associações levianas nem suposições erradas, é fácil reconhecer que as empresas de ônibus são uma das grandes fontes de receita de nossas campanhas eleitorais.

É por isso que seus ganhos privados são intocáveis. As empresas recuperam, no dia a dia, aquele investimento feito no financiamento de candidatos. Além de transportar passageiros, elas precisam sustentar grandiosos esquemas de marketing, equipes de propaganda, publicitários, jornalistas, cabos eleitorais e assim por diante.

Está certo? Errado?

A questão não se resolve com falsos moralismos. Do ponto de vista político, esta situação -- lamentável -- sublinha a necessidade de uma reforma eleitoral para assegurar que campanhas sejam financiadas, exclusivamente, por recursos públicos.

Há outro ponto, também. Os protestos mostraram o caráter prioritário do transporte coletivo na vida social de um país que há muito tempo tornou-se uma nação urbana.

Também mostraram que a população considera que já dá uma imensa contribuição para a cidade e agora quer uma nova repartição de custos e benefícios, em que não seja a única parte a fazer sacrifícios.

Se as empresas de ônibus chegaram a seu limite – oferecendo serviços de péssima qualidade, que continuam entre os mais caros do mundo depois da revogação do último reajuste –, caberá discutir o modelo de transporte adotado pelas grandes cidades brasileiras nos últimos anos. 

Cabe planejar e debater grandes mudanças no sistema de transporte, sem hipocrisia nem falsos argumentos. 

Concorda? 
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Fonte:http://www.istoe.com.br/colunas-e-blogs/colunista/48_PAULO+MOREIRA+LEITE

Marilena Chauí: Haddad tem que quebrar o cartel dos empresários de ônibus

20.06.2013
Do blog VI O MUNDO, 
Por  Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atualvia Geledés


A filósofa e professora aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Marilena Chauí, avalia que a eventual revogação do aumento da tarifa de ônibus, embora importante, não resolverá o problema do transporte público de São Paulo.

“Enquanto o prefeito não quebrar o oligopólio dos empresários de ônibus, vamos andar sempre mal das pernas, não vai funcionar, mesmo que no curto prazo ele atenda às exigências do movimento e revogue o aumento da tarifa. No longo prazo o problema não estará resolvido”, disse à Rádio Brasil Atual.

Ela lembrou de quando era secretária municipal de Cultura, na gestão da prefeita Luíza Erundina (1989-93), quando foi elaborado o Projeto de Lei da Tarifa Zero, que pretendia custear o transporte público através de uma reforma tributária muncipal. “Erundina enfrentou a máfia dos ônibus, e uma reação em cadeia provocada pelos grandes empresários da construção civil e dos lojistas. Movimentos contrários dos chamados bairros nobres, como Cidade Jardim, Higienópolis, Moema, pipocaram. Foi uma coisa medonha no nível da sociedade civil, e os empresários de ônibus se mancomunaram com a Cãmara Municipal para impedir a aprovação do projeto.”

Ontem o secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto, admitiu que os empresários são um grupo difícil de enfrentar. “São um setor atrasado, tanto que foram contra a criação do Bilhete Único. É um setor cartelizado. Hoje é muito difícil retirar um operador do sistema”, avalia.

Chauí afirmou que as manifestações pela revogação do aumento das passagens são legítimas e têm de estar na pauta dos movimentos sociais. “As manifestações não poderiam ser mais justas, significa que a luta pela dignidade do cidadão na luta pela educação, pela saúde, pelo trabalho, na moradia, tem de incluir aquilo que é condição de mobilidade, que é o transporte.”

A professora, que é uma das conselheiras que esteve presente na reunião de ontem (18) do Conselho das Cidades, afirmou que a convocação do Movimento Passe Livre como participantes da reunião pelo prefeito foi democrática, mas ressalta que o prefeito Fernando Haddad (PT) demorou a agir.

“As reações do governador Geraldo Alckmin e do prefeito foram diferentes, embora as duas demoradas. Alckmin reagiu com a polícia e com prisão. E Haddad foi pego de surpresa, demorou na resposta. Mas a atitude do prefeito foi de grandeza política porque ele chamou os movimentos, todas as lideranças, o conselho, o secretariado, para um debate transparente.”

A filósofa ressalta, porém, que o momento atual de mobilização e protestos é importante para a democracia, mas não configura um momento histórico. “Não é momento histórico, é um instante politicamente importantíssimo, no qual a sociedade vem às ruas e manifesta sua vontade e sua opinião. Mas a ação política é efêmera, não tem força organizativa do ponto de vista social e política, não tem uma força de permanência, caráter dos movimentos sociais organizados, de presença organizada em todos os setores da vida democrática.”

Ouça aqui a entrevista de Chauí à repórter Marilu Cabañas.

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