quarta-feira, 15 de maio de 2013

Nem a medicina cubana cura a mitomania de Augusto Nunes

15.05.2013
Do BLOG DA CIDADANIA, 14.05.13
Por Eduardo Guimarães

Uma das polêmicas mais surpreendentes levantadas pela autoproclamada “imprensa brasileira” – um reduzido conjunto de agências bilionárias de propaganda política e ideológica – versa sobre anúncio feito na semana passada pelo chanceler Antônio Patriota de que o Brasil deve “importar” seis mil médicos cubanos para suprir a trágica carência desses profissionais nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, nas pequenas cidades, enfim, nos grotões do país.
A situação é alarmante. O índice de médicos por mil habitantes no Brasil é de 1,8. Apesar de o país ter quase 400 mil médicos e formar mais de uma dezena de milhares deles ao ano, sabe-se que 70% desse contingente atuam no Sul e no Sudeste. Ou seja: o sujeito se forma em uma universidade paga por todos os brasileiros e não devolve nada à coletividade.
Há, inclusive, um projeto de lei do senador Cristóvam Buarque para obrigar médicos recém-formados em universidades públicas a exercerem a profissão por dois anos em municípios com menos de 30 mil habitantes ou em comunidades carentes de regiões metropolitanas.
Esses setores da “imprensa” nacional, no entanto, passaram a encampar a costumeira gritaria de entidades de médicos como a Academia de Medicina de São Paulo e o Conselho Federal de Medicina contra a importação de médicos sobretudo de Cuba.
Trata-se de puro corporativismo, claro, mas, ainda assim, inexplicável.
A grande pergunta que surge, diante da oposição de entidades como o CFM à atuação de médicos estrangeiros – não só cubanos, pois o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, diz que se pretende trazer médicos também da Espanha e de Portugal –, é sobre por que essa corporação, que só enxerga o próprio umbigo, não quer médicos estrangeiros atuando onde os médicos brasileiros não têm interesse em atuar.
O cretinismo político-ideológico é o que parece estar por trás da gritaria contra uma medida que pode resolver uma tragédia social que obriga legiões de brasileiros a se deslocarem o tempo todo de regiões em que não há médicos para os grandes centros urbanos do Sul e do Sudeste.
Para torpedear uma medida que poderia melhorar a vida de muita gente – o que, evidentemente, renderia dividendos políticos ao governo que a adotasse –, a corporação médica está recebendo apoio de pistoleiros autoproclamados “jornalistas”. O blogueiro da revista Veja Augusto Nunes, por exemplo, publicou um post em que mente descaradamente sobre a medicina cubana.
Alguns trechos do post mentiroso de Nunes:
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Hoje, quando um cubano vai a um hospital, leva um presente para o médico. É um acordo informal para que o atendam bem e rápido. Levam também desinfetante, agulha, algodão, linha para as suturas”.
A medicina cubana é uma das mais atrasadas do mundo, constata a repórter Nathalia Watkins na edição de VEJA desta semana. A maioria dos seus profissionais se forma sem nunca ter visto um aparelho de ultrassom, sem ouvir falar em stent coronário e sem poder se atualizar pela internet”.
Cuba gradua médicos em escala industrial com formação incompleta (…) Pelos padrões do Brasil, os cubanos não poderiam sequer realizar procedimentos banais como ressuscitação ou traqueostomia”.
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O blogueiro da Veja ainda afirma que os 6 mil médicos cubanos estão “prontos para aumentar as taxas de mortalidade” no Brasil. Isso quando se sabe que Cuba tem  indicadores de saúde entre os melhores das Américas, segundo uma entidade “comunista” chamada Organização Mundial de Saúde (OMS).
Essa polêmica levantada pela mídia oposicionista é literalmente criminosa, pois pretende torpedear uma medida que pode revolucionar a saúde brasileira atacando um dos pontos mais responsáveis pelo ainda baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, que, apesar de ter subido muito na década passada, ainda é incompatível com um país rico como este. E tudo visando impedir o que Nunes, Veja e o resto da mídia tucano-golpista não querem, que o Brasil dê um salto qualitativo na saúde.
Recorro, então, ao insuspeito jornal O Estado de São Paulo, que reproduziu matéria da sucursal da rede de tevê pública britânica BBC no Brasil, a qual afirma que “Saúde e educação são os principais êxitos do regime cubano”. Vale ler, logo abaixo, o trecho da reportagem do veículo britânico que versa sobre o sistema de saúde pública de Cuba.
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O ESTADO DE SÃO PAULO
Estado garante educação até o nível superior e fornece amplo sistema da saúde.
01 de janeiro de 2009 | 5h 45
(…)
O regime de Fidel Castro desenvolveu um gigantesco sistema nacional de cobertura a todos os cidadãos, sem exceções de nenhum tipo.
O sistema de saúde de Cuba é composto por quatro níveis: o médico de família, que costuma viver a poucas quadras de seus pacientes; o clínico geral de bairro; os hospitais de zona e os institutos especializados.
Todo atendimento é gratuito, com exceção dos medicamentos, que são subsidiados pelo Estado.
Nenhuma doença fica de fora do sistema de saúde cubano, que oferece tratamentos a problemas que vão desde simples dores de cabeça a enfermidades relacionadas à Aids, passando por assistência odontológica e até mesmo cirurgias plásticas.
O resultado deste sistema de saúde tão amplo pode ser observado quando se comparam as estatísticas das Nações Unidas sobre esperança de vida. Cuba ocupa o terceiro lugar em todo continente americano, com expectativa de vida de 76 anos para os homens e 80 para mulheres.
Já em relação à mortalidade infantil, as estatísticas da ONU apontam que o índice de Cuba é de cinco mortes a cada 1.000 nascimentos, o que situa o país em um nível só comparável ao do Canadá no continente americano.
(…)
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Como se vê, nem a excelência da medicina cubana seria capaz de curar a enfermidade que não acomete apenas o blogueiro da Veja em questão, mas seus patrões, o resto da mídia tucano-golpista e as corporações de médicos que, no mais das vezes, formam-se ao custo dos impostos dos brasileiros e, uma vez formados, dão a esse povo uma banana.  A mitomania do tal blogueiro e seus congêneres parece incurável.

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Privilégios da mídia têm que acabar


15.05.2013
Do BLOG DO MIRO, 13.05.13
Por Paulo Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:

Li “A Renúncia de Jânio”, do jornalista Carlos Castelo Branco, o último grande colunista político brasileiro.

O que me levou a esse velho livro foram as recentes evocações do infame golpe militar de 1964 em seu aniversário, no dia 31 de março.

O golpe, de alguma forma, começa em Jânio, o demagogo que renunciou à presidência em 1961 quanto estava fazia apenas sete meses no cargo, por motivos jamais explicados.

Mas o que mais me chamou a atenção no livro é um episódio que mostra bem o regime de privilégios fiscais desfrutados há muito tempo pelas empresas jornalísticas brasileiras.

Castelinho, que foi assessor de imprensa de Jânio, conta que certa vez estava preparando uma sala para um pronunciamento que ele, Jânio, faria naquela noite em rede nacional de televisão.

No lugar escolhido, a biblioteca do Palácio da Alvorada, Castelinho viu sobre a mesma um exemplar do Estadão de domingo. Em cima, estava um bilhete do presidente: “Não toquem neste jornal. Preciso dele”.

“Só soube do que se tratava quando Jânio o ergueu na mão para exibi-lo audaciosamente ao país [na fala em rede] como fruto de privilégios, o esbanjamento de papel comprado com subvenção oficial, pago, portanto, pelo povo”, escreveu Castelinho.

É o chamado “papel imune”. Os contribuintes subvencionam há décadas o papel usado para imprimir jornais e revistas.

Jânio apontou o mal, mas não foi capaz de resolvê-lo. Os mesmos empresários que tanto falam num Estado mínimo não se embaraçam em, nas sombras, mamar nele em coisas como o papel imune, e em muitas outras.

Dinheiro público foi sempre usado também para financiar – em condições de mãe para filho – empreendimentos que deveriam ser bancados por nossos intrépidos, aspas, capitalistas da mídia.

Nos anos 90, Roberto Marinho comemorou ao lado de FHC a inauguração de uma supergráfica projetada para quando o jornal chegasse – hahaha – à marca de 1 milhão de exemplares.

FHC não estava na foto porque Roberto Marinho queria promovê-lo. É que o governo tinha concedido um empréstimo especial às Organizações Globo para fazer a gráfica que hoje parece uma piada.

Por que o empréstimo? Ora, a Globo era então já uma potência. Tinha mais de metade do faturamento da publicidade nacional, graças à tevê e a expedientes amorais como o chamado BV (bonificação por vendas).

A empresa poderia, perfeitamente, bancar o passo (torto) que decidira dar com a nova gráfica. Mas não. O Estado babá estava ali, à disposição, na figura sorridente de FHC.

Essencialmente, o resultado é que a fortuna da família Marinho foi poupada do risco de um investimento que poderia fracassar, como aconteceu.

Coisa parecida aconteceu com as outras grandes empresas em suas incursões para fazer novos parques gráficos: dinheiro farto, quase dado.

Fora o papel imune, naturalmente.

E fora, mais recentemente, artifícios como a criação de PJs (pessoas jurídicas) para reduzir os impostos pagos.

Note. As companhias jornalísticas não querem pagar impostos, mas depois esperam que o Estado – com dinheiro alheio, do “Zé do Povo”, como dizia o patriarca Irineu Marinho – esteja com os cofres cheios para bancar seus investimentos.

Para completar a tragicomédia, as empresas promovem campanhas sistemáticas de engambelação coletiva destinadas a provar, aspas, que os impostos são elevados no Brasil.

Não são. A carga tributária brasileira, na casa de 35%, é bem menor que a de países modelos, como a Escandinávia.

A diferença é que, neles, as corporações pagam o que devem. Vá, na Dinamarca ou na Noruega, inventar PJs e você é chutado da esfera corporativa e submetido a desprezo nacional.

Para que o Brasil avance socialmente, as mamatas das empresas de mídia – fiscais e não só fiscais — têm que acabar.

Não é fácil, como vemos ao constatar o que deu do brado janista de meio século atrás. Sucessivos governos têm vergado ao poder de intimidação da mídia. (Para a qual vigora ainda uma inacreditável reserva de mercado, aliás.)

Mas nada é fácil.

O poder de manipulação da mídia se reduziu, graças à internet.

Se há uma hora para fazer o que deve ser feito, é esta.

O dinheiro que custam as mordomias bilionárias da mídia deve servir à sociedade: que se construam escolas, hospitais e estradas com ele, em vez de vê-lo dar acesso à lista de superricos da Forbes.
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Dona de cabaré processa igreja evangélica

15.05.2013
Do blog  PRAGMATISMO POLÍTICO
Por Diógenes Dantas, nominuto

“Eu não sei como vou decidir este caso, mas uma coisa está patente nos autos: Temos aqui uma proprietária de cabaré que firmemente acredita no poder das orações e uma igreja inteira declarando que as orações não valem nada!”, comentou o juiz a quem o processo foi submetido

aquiraz dona cabaré igreja evangélica
A história da dona de cabaré que processou a igreja evangélica agitou a belíssima Aquiraz, no litoral cearense.
Em Aquiraz, no Ceará, Dona Tarcília Bezerra construiu uma expansão de seu cabaré, cujas atividades estavam em constante crescimento após a criação de seguro desemprego para pescadores e vários outros tipos de bolsas.
Em resposta, uma igreja evangélica local iniciou uma forte campanha para bloquear a expansão, com sessões de oração de manhã, à tarde e à noite.
O trabalho de ampliação e reforma progredia célere até uma semana antes da reinauguração, quando um raio atingiu o cabaré queimando as instalações elétricas e provocando um incêndio que destruiu o telhado e grande parte da construção.
Após a destruição do cabaré, o pastor e os crentes da igreja passaram a se gabar “do grande poder da oração”.
Então, Dona Tarcília processou a igreja, o pastor e toda congregação sob o argumento que eles “foram os responsáveis pelo fim de seu prédio e de seu negócio, utilizando-se da intervenção divina, direta ou indireta e das ações ou meios.”
Na contestação à ação judicial, a igreja, veementemente, negou toda e qualquer responsabilidade ou qualquer ligação com o fim do edifício.
O juiz, a quem o processo foi submetido, leu a reclamação da autora e a resposta dos réus e, na audiência de conciliação, comentou:
- Eu não sei como vou decidir este caso, mas uma coisa está patente nos autos: Temos aqui uma proprietária de cabaré que firmemente acredita no poder das orações e uma igreja inteira declarando que as orações não valem nada!
Só sei que foi assim.

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Atirador invade igreja, mata sogra do pastor e fere três pessoas

15.05.2013
Do portal da FOLHA DE PERNAMBUCO
Por Danúbia Julião*

 Feridos foram levados para o Hospital Regional do Agreste, em Caruaru

Espaço ficou totalmente revirado e com marcas de sangue espalhadas pelo chão


A polícia continua a caça ao homem apontado como o responsável pelos disparos dentro de uma igreja, durante um culto evangélico, na noite da última terça-feira (14), no bairro Parque da Cidade, em Caruaru. O pedreiro Vicente Henrique de Andrade, de 50 anos, fugiu logo após o crime, usando o matagal como sua rota. O atirador acabou matando a sogra do pastor, Josefa Bezerra da Silva, atingida no peito esquerdo; e ferindo outros três fiéis.

Adielson Galvão/Cortesia
Homem era conhecido por ser agressivo com a família
Emerson Caetano dos Santos, de 32 anos, que levou um tiro na mandíbula e passou por cirurgia, tem quadro de saúde estável, mas sem previsão de alta; Severino Pedro Oliveira da Silva, de 41, que foi atingido no braço direito, já recebeu alta, e Marilene Nicássio da Silva, de 38, atingida com um tiro no ombro direito, passa por avaliação de um ortopedista. Ambos estão em atendimento no Hospital Regional do Agreste (HRA), na cidade.


Segundo a esposa do suspeito, Cícera Maria da Silva Monteiro, de 40 anos, quando o homem não viu seus dois filhos em casa e descobriu que estavam na igreja, pegou a arma que tinha comprado há três meses e foi em busca dos garotos. O irmão de 16 anos, observando as intenções do pai, foi até a igreja avisar aos irmãos. Ele seguiu o adolescente pelo percurso de cerca de 100 metros, chegou a disparar contra o filho pelo menos três vezes, nenhum dos tiros o atingiu.
Segundo a mulher, Vicente não aceitava que ninguém da família saísse de casa, muito menos que fosse à igreja. Quando chegou no local, encontrou Rubens Henrique Monteiro de Andrade, de 23 anos, e Jeferson Henrique Monteiro de Andrade, de 19 anos, e entrou atirando para matá-los, mas acabou atingindo os fieis. “Ele saiu atirando a esmo. O intuito era atirar nos filhos”, disse o delegado. A sogra do pastor estava sentada ao lado de um deles, e acabou sendo atingida. Josefa morava ao lado da igreja que ajudou o genro a construir.
Cícera agora está amedrontada. Segundo ela, antes de fugir, Vicente foi na casa da família e avisou que iria voltar para matar os filhos. “Tenho medo. Hoje tem polícia aqui em casa, mas amanhã quando tudo esfriar, ele pode vir matar meus filhos”, lamentou. A mulher confirmou ainda que eram comuns agressões diárias. Segundo ela, a violência já começava ao acordar. Com os vizinhos, ele era educado e tranquilo, mas massacrava a família, mesmo quando não estava bêbado.
Segundo o delegado regional de Caruaru, Thiago Uchoa, com base nos depoimentos colhidos com familiares e amigos, o homem sempre foi muito agressivo com a esposa e os filhos, mas nunca houve nenhum tipo de denúncia sobre os crimes. Tiago Uchoa acredita que o Vicente tenha distúrbio mental, que era agravado com a ingestão frequente de bebida alcoólica. Porém, a suspeita só poderá ser confirmada após a prisão do homem. A família morou no bairro da Iputinga, no Recife, e se mudou para Caruaru há um ano. As buscas e investigações continuam.
*Com informações de Renata Coutinho e Lívia Mota, da Folha de Pernambuco

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As bombas lá fora: A história de uma farsa – Capítulo 3

15.05.2013
Do blog O Cafezinho

As dívidas de campanha
Em algum momento lá trás, eu mencionei o “mínimo distanciamento histórico” em relação aos fatos que produziram o escândalo do mensalão. Preciso agora enfatizar o termo “mínimo”, ou mesmo me contradizer. Não há distanciamento histórico. As bombas ainda explodem lá fora. O editorial do Globo hoje, 15 de maio de 2013, é: “Mensalão recoloca STF em risco”, onde o jornalão assevera que o tribunal “precisa ter consciência de que, ao decidir sobre novo julgamento, pode pôr a perder a credibilidade obtida com sua atuação no caso até agora”. É uma ameaça. O Globo, pela enésima vez, põe uma faca no pescoço dos ministros do STF e diz: vão em frente.
A grande ironia é que o Globo está certo. Só que ao contrário. O STF está, de fato, em risco de se desmoralizar, mas se se curvar mais uma vez aos interesses políticos e às chantagens da família Marinho.
Eu falei nas bombas que estouram lá fora porque me lembrei de um comentário de alguém sobre Jules Michelet, talvez o mais querido historiador francês. Em 1848, Michelet escrevia sobre a revolução francesa enquanto ouvia, do lado de fora de sua casa, as bombas de uma outra revolução acontecendo. Os mesmos princípios estavam em jogo: a república, a democracia, a igualdade social. Michelet era um ardente republicano e defensor dos legados da revolução francesa, mas não podia negar os erros trágicos e brutais das lideranças que assumiram o poder no auge do “terror” jacobino. Michelet, todavia, era inteligente demais para publicar uma denúncia contra a revolução que pudesse ser instrumentalizada por seus adversários políticos para atacar os princípios que ele, Michelet, acreditava. Michelet era o que, mais tarde, os marxistas chamariam de “intelectual orgânico”. Hoje em dia, a historiografia oficial francesa lê Michelet com muita cautela, tentando separar seu engajamento ideológico e seus inegáveis talentos literários dos acontecimentos históricos em si. Após um certo tempo, a academia tende a analisar os fatos com a frieza de um dissecador de cadáveres. Mas todos admitem que, se você quiser sentir um pouco do calor revolucionário que emanava das ruas parisienses, naqueles cinquenta anos a partir da queda da Bastilha; se quiser entender o que aconteceu não apenas de maneira cerebral ou acadêmica, mas apreender sobretudo suas reverberações espirituais, então você precisa ler a História da Revolução Francesa de Jules Michelet.
Ao abordar a aparição de Marcos Valério no palco da história política brasileira, começaremos a falar dos grandes erros do PT. O erro fundamental, naturalmente, foi ganhar as eleições. Um parente meu, alguns meses após a posse de Lula, quando a onda de cobranças deflagrou mais uma fornada “desencantados com a política”, me disse assim mesmo: “O PT não deveria ter ganho”. Não era ironia. Havia muita gente, na própria esquerda, que entendia que o PT não deveria ter ganho, para evitar o processo de corrosão ética e ideológica provocado pelo poder.
Quando escavamos as origens do mensalão, batemos em alguma coisa sólida lá embaixo, guardamos a pá e abrimos o baú encontrado, o que vemos?
A vitória de Lula não representa, naturalmente, apenas a vitória pessoal do ex-metalúrgico, nem somente a ascenção do Partido dos Trabalhadores às funções máximas do Executivo. Há um corte histórico, que nem o mais raivoso inimigo do PT poderá negar. Uma coisa é o que acontece na superfície dos acontecimentos. A festa do povo nas ruas. A cantoria, o choro e as bebedeiras. Outra coisa é o movimento silencioso e profundo das placas tectônicas da história.
Vamos aos fatos.
Primeiro, a campanha. Todos os crimes eleitorais acontecem na campanha. A campanha eleitoral, em si, é o crime fundamental do regime democrático.
Não por outra razão, quando os petistas começam a se recuperar do susto que levaram com o escândalo do mensalão, repetirão em coro: a culpa é das campanhas! Daí nasce o desejo de fazer uma reforma política para tampar o ralo por onde escorre toda a decência e toda a ética.
Só que não vão conseguir. As campanhas eleitorais continuarão, para sempre, sendo um crime político. Porque é nas campanhas que se mobilizam todas as forças, todos os recursos, se amarram todos os compromissos. É nas campanhas que, invariavelmente, vemos despontar no horizonte, caminhando em nossa direção, um homem manco, de rosto estranho, com um pé deformado, semelhando um pé… de cabra.
Perdoem-me a caricatura, que tentarei desfazer mais adiante, mas não posso resistir: que figura mais parecida com o diabo senão aquele risonho moço de careca luzidia chamado Marcos Valério?
A única maneira de pôr fim a este grande crime político, ao crime original, é dar fim às campanhas. Ou seja, é dar fim ao regime democrático e instalar a ditadura. De preferência, uma ditadura de juízes vitalícios. Aí sim, o país poderá respirar aliviado, as classes instruídas poderão olhar, satisfeitas, para os donos do poder, que serão homens cultos e severos, e que não chegaram onde chegaram através de campanhas políticas sujas.
Ah, mas não é somente um crime. As campanhas mobilizam uma grande quantidade de mão-obra. São milhares, quiçá milhões de pessoas trabalhando em todo país, em tudo que é tipo de atividade. A moeda mais valiosa em qualquer campanha é o trabalho. Qualificado, naturalmente. Se há dinheiro para pagar o trabalho, paga-se. Se não se tem, faz-se dívidas. Arrisca-se. As campanhas mobilizam as apostas mais temerárias que se pode conceber. Empresários, ativistas, políticos, donas de casa, todo mundo aposta alguma coisa.
Após a vitória, Lula chama a equipe que coordenava a questão do financiamento de sua campanha. Obviamente, sempre fora a questão crucial para a vitória. E deixemos claro uma coisa: o PT não ganhou as eleições apenas por causa do amor dos companheiros à causa. A campanha de Lula foi rica em recursos. E falo do Caixa 1, contabilizado. O professor Wanderley Guilherme dos Santos fez um levantamento das eleições de 2002 e verificou que Lula ganhara mais dinheiro que seu adversário, José Serra. Os empresários brasileiros, apesar de toda afinidade ideológica com o PSDB, estavam traumatizados pela incompetência do governo FHC. O país quebrara várias vezes, a carga tributária quase dobrara, os juros atingiram níveis insuportáveis. Só quem ganhava dinheiro, em tese, eram os bancos. Mas até os bancos quebraram! O capitalismo brasileiro foi empurrado à força para a esquerda, porque entendeu que precisava de uma coisa básica para continuar produzindo riqueza: consumidores.
Pizzolato, que já participara de várias campanhas e entendia de economia, em função de seu trabalho no Banco do Brasil, era um dos que trabalhavam no núcleo financeiro do comitê e descreve a reunião com Lula em tons vívidos. Os cardeais estavam todos presentes: José Dirceu, Palocci, Gushiken, etc. Lula só pediu uma coisa: quero as contas de campanha totalmente ordenadas. Quero ser diplomado sem a mínima mácula. E assim foi feito. Todos trabalharam como loucos para ordenar sabe-se lá quantos milhares de notas fiscais, preencher sabe-se lá quantas planilhas. Mas tudo foi cumprido à risca e Lula é diplomado com as contas de campanha em dia.
Aí, vem uma outra reunião. A campanha nacional fora paga, mas os dirigentes regionais aparecem com enormes dívidas. Dívida tem que ser paga! Ainda mais naquele Brasil em profunda crise econômica, desemprego altíssimo, como era em 2003. Ouvíamos casos famosos de gente matar outra por dívida de 15 reais. Que dizer então das milionárias dívidas de campanha?
“Então Lula fez uma loucura”, diz Pizzolato, embora mais tarde admita que talvez fosse o melhor a fazer. Quando a gritaria dos diretórios regionais em relação às dívidas começou a ficar alta demais, Lula chamou Delúbio Soares, tesoureiro do partido e mandou: “Resolve isso, Delúbio”. O diretório nacional do PT, por orientação do recém eleito chefe de Estado, assume as milionárias dívidas dos núcleos regionais. O PT, de uma hora para outra, mesmo tendo ganhado as eleições, se tornava uma instituição completamente falida e endividada.
O Delúbio era o cara com mais intimidade com Lula, conta Pizzolato. Quando Lula mandou ele assumir todas as dívidas, ele quase caiu da cadeira e rebateu de pronto: “No meu, não, né, presidente (ele agora já chamava Lula de presidente)! No meu arde!”
Palocci dá um risinho, bate nas costas de Delúbio e diz alguma coisa sobre o peso de “ser governo”.
Delúbio vai atrás de dinheiro. O fundo partidário estava mais liso que a careca de Valério: tudo havia sido gasto para que Lula se diplomasse com as contas pagas, totalmente limpo. Onde está o dinheiro? Nos bancos. Segundo Pizzolato, Delúbio gostava de fumar charutos; quem trabalhava mesmo eram os dois secretários à sua disposição. Vão ao Banco do Brasil pegar emprestado. Só que o patrimônio do PT só permitia ao partido pegar uns 2 milhões de reais. Não dava nem para encher o buraco do dente. A dívida total era mais de 50 milhões de reais. Os bancos não queriam emprestar para o PT por uma questão burocrática básica: o partido tinha um limite baixo.
Ironia quase trágica. O partido que vencera as eleições presidenciais não tinha limite. Mas o empresário Marcos Valério tinha. Ele podia pegar quanto dinheiro quisesse, porque era bem relacionado. “Hoje o pessoal fala mal do Valério, mas na época ele foi o salvador da pátria”, conta Pizzolato.
Com Marcos Valério como avalista, o PT conseguiu levantar dois bons empréstimos com o BMG e o Rural. Parte do problema estava sanado. Até aí tudo bem. Mas ainda faltava dinheiro. Então Valério faz um acerto com Delúbio. Aí nasce, efetivamente, o “mensalão”. Valério faz um empréstimo em seu nome, para pagar as dívidas do PT. Delúbio fazia assim, conta Pizzolato: conforme os diretórios iam ligando para cobrar o pagamento das dívidas, ele ligava para uma secretária de Valério para fazer os pagamentos. Tudo isso acontecia em 2003. Só que o tempo foi passando; em poucos meses, haveria outra eleição. Novas dívidas começaram a surgir…
O Lula? Ele sabia de tudo? Esse e mais detalhes, vamos deixar para o próximo capítulo.
PS: Agradeço profundamente a todos que tem apoiado meu trabalho. Não há ditado mais útil, neste caso, do que “a união faz a força”.  Reitero aqui a minha disposição de fazer uma série completa de artigos sobre o mensalão, com base em documentos, entrevistas, mas sobretudo tentando desintoxicar o tema de todo proselitismo conservador e tendencioso que foi se acumulando ao longo do tempo. Peço licença, mais uma vez aos assinantes, para deixar os posts abertos, e libero a sua reprodução em qualquer espaço, desde que dado o link.  Se quiser me ajudar a continuar fazendo esse trabalho, pode fazê-lo na forma de doações (clique aqui) ou assinaturas do blog O Cafezinho(aqui).
Prefácio: Mensalão, a história de uma farsa.
Capítulo 1: Acusações contra Pizzolato lembram Dreyfus e Kafka.
Capítulo 2: O caso Visanet.

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Enem bate 1,6 milhão de inscrições em três dias


15.05.2013
Do portal de notícias, R7
Por R7 com Agência Brasil

Ritmo de inscrição é mais acelerado que nos outros anos, diz governo

enem
Evelson de Freitas/Estadão Conteúdo
Inep prevê que mais de 6,1 milhões de participantes façam a prova do Enem neste ano

O número de inscritos para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2013 superou a marca de 1,6 milhão na manhã desta quarta-feira (15), de acordo com o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

Na segunda-feira (13), primeiro dia das inscrições, o número de participantes chegou a 420 mil. Segundo o governo, o ritmo é o mais acelerado de todos os anos. Só na primeira hora, por exemplo, foram mais de 100 mil GRU (Guia de Recolhimento da União) geradas.

A taxa de inscrição custa R$ 35 e pode ser paga até o dia 29 deste mês para a prova que será realizada nos dias 26 e 27 de outubro. As inscrições, no entanto, terminam no dia 27 de maio.

A isenção do pagamento da taxa de inscrição é dada automaticamente aos participantes que concluírem o Ensino Médio neste ano matriculado no sistema de ensino público.

O estudante que não tiver na condição de aluno da rede pública deve declarar carência e comprovar que é membro de família de baixa renda ou estar em situação de vulnerabilidade socioeconômica. No ato da inscrição, feita via internet, o candidato deve dispor de documentos comprobatórios da situação de carência.

O edital ressalta que é necessário prestar informações exatas e fidedignas na declaração, “sob pena de responder por crime contra a fé pública e de ser eliminado do exame” aquele que mentir ao preencher a inscrição.

O Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), responsável pela aplicação do exame, fará a análise da solicitação de isenção e exigir, a qualquer tempo, os documentos comprobatórios da situação de carência declarada.

O edital informa que é responsabilidade do participante do exame a verificação da solicitação de isenção por meio do sistema de acompanhamento da inscrição, no site do Inep.

Os participantes que tiverem o pedido de inscrição negado devem se inscrever no período oferecido normalmente.

Confira o edital completo publicado no Diário Oficial.
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DILMA QUIS DERROTAR CUNHA. ATÉ A ÚLTIMA EMENDA

15.05.2013
Do blog CONVERSA AFIADA
Por Paulo Henrique Amorim

 Dilma não quis dar uma “vitória moral” à dupla Dantas-Cunha.


Por que a votação na Câmara teve que chegar à quarta-feira ?

Não teria sido possível negociar antes com o Eduardo Cunha e apressar o serviço ?

Estaria tudo concluído na terça-feira à noite e a matéria chegaria mais cedo ao Senado.

Conversa Afiada tinha previsto que a Presidenta ia para o voto, sem negociar.

discurso da Presidenta Dilma Rousseff na posse do ministro Afif Domingos foi claro: não tem acordo com o Daniel Dantas, Eduardo Campriles e Eduardo Cunha e seus aliados de ocasião.

Navalha
O que está por trás dessa estratégia ?
Derrotar Cunha.
Mostrar o tamanho dele.
Já que o PMDB não o controla, ela tem que provar que Dantas e Cunha não a sitiarão no Palácio.
Dilma poderia deixar Cunha ganhar um ou outro destaque e apressar a votação.
Perder para ganhar.
Mas, isso daria um pedaço de vitória a Cunha e a Dantas.
Ele teria uma “vitória moral”.
Mas, Dilma precisava reduzir Cunha e Dantas às suas devidas proporções.
Cunha pode mandar no PMDB.
Mas, não manda nela.
Não teve acordo.
Era preciso derrotá-lo em todos os destaques.
Ou o Brasil é uma republiqueta em que um empresário condenado a dez anos de cadeia – que o delegado Protógenes chama de “banqueiro bandido” – possa imobilizar a República ?
O Governo Dilma não é o Governo Fernando Henrique.
Cunha aprendeu.
E Dantas também.



Paulo Henrique Amorim

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Ultra-capitalismo: do terrorismo ao calote mundial

15.05.2013
Do portal da Agência Carta Maior, 31.07.11
Por Marcelo Salles*


Por que não podemos classificar o terrorista norueguês como ultra-capitalista? Por que temos que nos conformar com o rótulo na capa da revista Veja, que o chama de ultra-nacionalista, ou com as variantes usadas no restante das corporações de mídia.

Por que não podemos classificar o terrorista norueguês como ultra-capitalista? Por que temos que nos conformar com o rótulo na capa da revista Veja, que o chama de ultra-nacionalista, ou com as variantes usadas no restante das corporações de mídia (atirador, terrorista, extremista e outros tantos, que confundem muito mais do que explicam). São confiáveis esses veículos de comunicação que imediatamente após o tiroteio apontavam o dedo para um providencial “extremista islâmico”? -- versão que, aliás, não resistiu a 24 horas.

Estou sendo radical? O capitalismo não prega genocídios? O capitalismo tem um lado humano? 

Quando digo que o marginal norueguês é ultra-capitalista não estou pensando nos postulados de Adam Smith ou naquilo que é permitido que se publique a respeito do sistema que domina o mundo. Estou me referindo ao que é escondido (o trabalho escravo ou semi-escravo e a máquina de moer essa gente que trabalha por um salário mínimo de fome) e ao que está implícito, às sutis formas de produção e reprodução de subjetividades, que interferem nas formas de sentir, pensar e agir dos cidadãos e, conseqüentemente, da própria sociedade em que estes estão inseridos. 

O assassino em massa que chocou o mundo agiu influenciado por doutrinas que pregam a concorrência violenta, o ódio ao próximo. Essa teoria que joga a culpa de tudo em estrangeiros, negros, gays, ou em qualquer um que seja diferente. É reducionista, mas funciona. Em vez de reconhecer os próprios defeitos, o que demanda tempo, reflexão e análise, basta jogar a culpa em alguém com quem a pessoa não se reconhece: o outro.

Não me parece casual que o alvo do assassino tenha sido um acampamento da juventude socialista, que reuniu centenas de jovens de todos os cantos do mundo – inclusive do Brasil. O bandido criticava o multiculturalismo e chegou a dizer que esse era o grande problema do nosso país. Essa seria a razão para sermos uma sociedade “disfuncional”, de segunda classe.

É evidente que o genocida norueguês nunca assistiu a um desfile da Estação Primeira de Mangueira. E nem viu um Neymar da vida jogando. Muito menos teve a oportunidade de apreciar uma partida como a de quarta-feira, entre Flamengo e Santos. Ali, na Vila Belmiro, quando todos os deuses do futebol (que não são nórdicos, por suposto) baixaram simultaneamente em campo, ficou provada a existência de milagres. Esses milagres que permitem uma jogada como a do terceiro gol do Santos, quando o miscigenado Neymar fez com a bola algo que desafia a compreensão até mesmo dos deuses. Esses milagres que fizeram com que o Flamengo virasse uma partida após estar perdendo por três gols de diferença, sendo que o miscigenado Ronaldinho fez três e foi chamado de “gênio” pelo melhor jogador do mundo na atualidade. Foi um jogo que será lembrado daqui a cem a nos. Deve ser duro para os racistas ouvirem isso, mas a verdade é que esses milagres nascem justamente com a miscigenação que as teorias nazistas repudiam. Futebol e música soam melhor quando tem mistura, é assim em qualquer lugar do mundo. 

A propósito: o nazismo não era capitalista? Se não, o que era?

A dificuldade de se entender o discurso do premiê da Noruega é compreensível. Todos ficaram chocados quando ele afirmou que discursos de ultra-direita são legítimos. Isso porque as corporações de mídia não conseguiram traduzir para o bom português; preferiram fingir que ele não estava se referindo à ultra-direita, ou seja, a versão mais descarada do capitalismo. Para as corporações de mídia é melhor apostar na confusão do que mostrar ao povo brasileiro que seus sócios e amigos defendem, por exemplo, o cercamento de favelas. Ou o abandono da gente pobre. A tortura de traficantes varejistas. 

Os tiros disparados na Noruega também ecoam nos Estados Unidos. O extremismo do assassino nórdico tem tudo a ver com o fundamentalismo neoliberal de mercado. Ambos reivindicam para si a verdade, como se existisse apenas uma, a deles. Ambos consideram-se pertencentes a uma casta superior. E ambos agiram com planejamento, método e frieza. 

Agora a maior economia do mundo anuncia tranqüilamente que pode dar um calote amplo, geral e irrestrito, mas não aparece um economista para entoar os cânticos de “irresponsável”. Onde estão os fiscais dos fundamentos da economia? Onde os que diziam que Lula quebraria o Brasil? Cadê a turma que defendia o modelo estadunidense como digno de ser seguido? Estão todos quietinhos, debaixo da cama, morrendo de medo das conseqüências, imprevisíveis, de uma moratória dos Estados Unidos.

O mundo não está nessa situação porque de vez em quando aparece um lunático disposto a tudo para fazer valer sua irracionalidade. Chegamos a este ponto porque o modelo de sociedade adotado pela maior parte do mundo não presta. Quem sabe a União de Nações Sul-Americanas – Unasul – aponte uma nova direção.


(*) Marcelo Salles é jornalista. No Twitter é @marcelosallesJ

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CONVERSA AFIADA: MATARAM VARGAS POR CAUSA DA PETROBRAS

15.05.2013
Do blog CONVERSA AFIADA
Por Murilo Silva*

Em 1954 como hoje o tema da corrupção escondia o principal: de quem é o petróleo ? Nosso ou da Chevron ?


Paulo Henrique Amorim entrevistou o professor Aloysio Castelo de Carvalho, da Universidade Federal Fluminense, que acaba de lançar o livro: ”O caso Última Hora e o cerco da imprensa ao governo Vargas”, uma coedição da Editora da UFF com a Nitpress.

Confira a entrevista em áudio e texto:
PHA – Eu converso com o professor Aloysio Castelo de Carvalho, que acaba de lançar o livro: “Caso Última Hora”. Ele também lançou recentemente o ”Rede da Democracia - O Globo, O Jornal e o Jornal do Brasil na queda do governo Goulart”. Professor Aloysio  Castelo de Carvalho, se o senhor pudesse resumir a tese do seu livro, “O Caso Última Hora”, por favor:

Aloysio: O Caso Última Hora surge como contrapartida à campanha em favor da Petrobras. 


A campanha contra a “Última Hora” é uma campanha contra o Governo Getúlio Vargas. Contra as propostas, contra o projeto do Governo Vargas que o jornal “Última Hora” apoiava. 

É uma campanha contra esse modelo de desenvolvimento em bases nacionalistas, que dá ênfase ao Estado. Formalmente, a questão da “Última Hora” surge do apoio financeiro do Estado à criação do jornal  “Última Hora” de Samuel Wainer, em 1961. 

Mas, a questão política que esta por trás é uma campanha contra o Governo, contra Vargas, contra o projeto dele de Estado e de sociedade.


PHA – E o centro dessa campanha (contra Vargas) é (a política d)o “Petróleo é Nosso”?
Aloysio – Sim. “O Petróleo é Nosso” é uma campanha que mobilizou a opinião pública; é a maior campanha política da História do Brasil.

E ela teve um impacto muito grande na UDN, no meio militar e sindical.

Que tipo de impacto? Desestruturou a UDN, que passou a apoiar a proposta de Vargas. A UDN nesse momento teve uma crise de representatividade. 

Ela (a campanha) mobiliza os militares, ela politiza o ambiente militar – o que nunca é bom para os setores liberais de direita. E também ela estimula os sindicatos e os trabalhadores a participar da discussão sobre o modelo de desenvolvimento.

Então, esse impacto da campanha da Petrobras, que coloca em discussão para toda a sociedade que tipo de modelo de Estado, que tipo de modelo de desenvolvimento tem sua contrapartida na campanha contra a “Última Hora”, que é centrada no tema da corrupção.

Então, a campanha contra a “Última Hora” é uma campanha que esvazia o debate político e conseguiu hegemonizar, porque a imprensa liberal daquela época hegemonizava a informação.


PHA – Quem eram os principais inimigos de Vargas? Ou e portanto da “Última Hora”?
Aloysio – O primeiro é o Lacerda. Começa com o Lacerda. Ele tinha posições extremadas. O Lacerda desde que Vargas assume a presidência ele não aceita a vitória de Vargas.

Os setores liberais, conservadores, Lacerda, parte da imprensa, o (jornal) “O Estado de S. Paulo” e os demais, não aceitam a volta de Vargas pelas eleições. 

Na visão desses setores liberais havia uma disfunção da democracia – como pode um ditador em 37 voltar pelas eleições diretas?

Então eles não aceitam, e aí já tentam barrar a posse de Vargas. 

“O Globo” e o Chateaubriand aceitam a posse (de Vargas). Mas vão cerrar a oposição aí (na questão do Petroleo é Nosso) e se aproveitam do tema da corrupção, que surge ali com (o empréstimo à) a “Última Hora” . 

Porque a corrupção é o tema central ali, da oposição.


PHA – O senhor já escreveu sobre a Rede que se montou para derrubar o Jango. Agora o senhor escreve sobre a “Última Hora” e a Petrobras. Isso não inspira o senhor a escrever sobre os dias de hoje?

Aloysio – Inspira. Eu estou me voltando agora para o tema que é o regime militar de 64 até a liberalização política do Geisel.

Hoje já está ficando mais claro para a opinião pública que o projeto de liberalização do governo militar era um projeto autoritário. Um projeto de continuidade.

A Comissão da Verdade esta aí deixando público que os presidentes militares apoiavam a tortura.

E durante esse tempo todo jornais como “O Globo” apoiavam esses presidentes.

Nós temos que esclarecer essas conexões da imprensa com a ditadura militar, esse é meu foco agora.


PHA Então, o senhor vai se contrapor frontalmente à obra política do jornalista Elio Gaspari, que transforma os generais Geisel e Golbery nos grandes paladinos da abertura política do país?

Aloysio – Não só o Elio Gaspari. Nós temos a academia. Nós temos professores que defendem que o projeto dos militares é um projeto democrático.

PHA – Quem mais além do Elio Gaspari o senhor mencionaria ?
Aloysio – Eu não queria citar nomes, mas no âmbito acadêmico é muito forte essa posição de que o projeto dos militares era um projeto de democracia. 

Eles não conseguem perceber que eles (os militares) foram derrotados por um movimento muito forte da sociedade. Mas havia uma intenção de continuidade. 

O Governo Medici é uma época de sucesso econômico, um sucesso econômico com custos sociais enormes, mas o Brasil se tornou a 6ª economia do mundo. 

Então, os militares viram que era uma oportunidade tentar legitimar o regime pelo campo eleitoral. 

E ai foram perdendo sucessivamente espaço e  controle. Mas, tinha um projeto autoritário de continuidade do aparelho repressivo. 

A gente vê hoje um torturador como o Ustra chegar e afrontar uma Comissão da Verdade como ele afronta.

Isso significa o que? Que nada foi desmontado. 

Nós temos ai um aparelho repressivo que não foi desmontado, não foi desvendado, e esse projeto todo recebeu o apoio de setores dominantes,  liberais e conservadores da imprensa.

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Murilo Silva, editor do Conversa Afiada


Não deixe de ler no Blog do Dirceu: leilão da Petrobras foi um um sucesso.

Leia também sobre o grande sucesso no lançamento do bônus da Petrobras no mercado internacional, com um spread cada vez mais baixo.

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