sábado, 31 de agosto de 2013

Igor Buys: O Bloco Negro e as fantasias fascistas ocultas

31.08.2013
Do blog VI O MUNDO, 

MARILENA CHAUÍ E O BLOQUEIO NEGRO: CRÍTICAS AGUÇADÍSSIMAS QUE PEDEM RESPOSTAS LÍMPIDAS E RESPEITOSAS

Não sei mais quantas vezes procurei sinalizar aos companheiros da esquerda patriótica — patriótica e não nacionalista, frise-se bem; porque esquerda nacionalista seria um paradoxo — que o Bloco Negro e a Mídia Ninja são novos atores a serem ouvidos, compreendidos, e não imediata e reativamente confrontados, pois que, sobretudo, estão: em processo de amadurecimento ainda, buscando definições, redefinições e realizando autocríticas públicas.

Dilma e Lula não pouparam elogios a tudo o que está se passando nas ruas, desde junho, embora o ex-presidente, em dado momento, tenha destacado: quase tudo é bom, mas também existe fascismo*.

Ao pessoal do Bloqueio Negro, especificamente, hoje, eu diria que a professora Marilena Chauí é pessoa a ser seduzida, ouvida com muita atenção e tino de bons entendedores, e não, em qualquer hipótese, confrontada inutilmente.

Chauí deu uma palestra para o inusitado público da Academia de Polícia Militar do Estado do Rio de janeiro e, sempre precisa, sempre indefectível nas suas avaliações, do alto de toda a sua experiência acadêmica e credibilidade pública que, até hoje, só os mais vis e caricaturais expoentes da extrema direita se dispuseram a contestar, teceu ponderações as mais relevantes sobre o Bloco Negro.

Não assisti ainda nenhum vídeo contendo a palestra na íntegra, mas a Folha de São Paulo pinçou dois tópicos do discurso da filósofa, um dos quais vem perfeitamente ao encontro de algo que nós mesmos já dissemos no texto SEPARAÇÃO PROGRESSIVA ENTRE BLOQUEIO NEGRO E “ANONYMOUS” (OU ANÔNIMO) E VALORES SIMBÓLICOS DE SUAS MANIFESTAÇÕES; texto este elogiado e divulgado na página do Bloco Negro RJ.

O primeiro, em importância, dos tópicos que o jornal destaca é o seguinte.

Chauí afirmou ainda que as manifestações de junho em nada se assemelham aos protestos de maio de 1968, na França. Para ela, as reivindicações atuais dialogam com o poder constituído, o Estado. “O grande lema [em 1968] era: é proibido proibir porque nós somos contra todas as formas de poder. Não se reivindicou nada. [...] As manifestações de junho não disseram ‘não’ a coisa nenhuma. Eles se dirigiram ao poder, ao Estado e pediram diminuição da tarifa, mais verba para educação, saúde, CPIs e auditorias contra a corrupção e contra a Copa. Fizeram demandas institucionais ao poder.”.

Ora, isso nós mesmos já dissemos, com outras palavras, no texto supracitado, enquanto criticávamos o discurso do Anônimo contra o quebra-quebra de bens privados e a favor da mesma prática em relação a bens públicos, i.e., de bens do povo brasileiro, pois segundo “ele” — que, depois, descobri ser uma mulher —, o que é dos outros é dos outros:

O que é dos outros é dos outros, inclusive bancos. Ou seja: a propriedade privada é um direito “sacrossanto”, como quer João Locke e sua doutrina, o liberalismo, que se fulcra inteiramente em teses teológicas: a propriedade, portanto, não deve ser violada! O quebra-quebra deve se restringir aos bens públicos, pagos e reparados com o fruto do trabalho da família do Amarildo desaparecido, e de cada um de nós. Pois mesmo os isentos de recolher o I.R., pagam os impostos embutidos nos preços dos produtos que consomem, pagam taxas, pedágios, etc.. E isso para manter a iluminação das ruas, o calçamento, a limpeza urbana, o sistema de esgotos, de água encanada. Isso para manter a educação pública, que deve ser mais inclusiva, a saúde pública, que deve ter qualidade, o policiamento, que deve ser feito de modo ético e estritamente fiscalizado. Se alguém luta por mais investimentos em educação pública, luta, claramente, por uma presença mais efetiva do Estado nesse campo; se luta por saúde pública de qualidade, luta por melhor atuação do Estado nesse outro campo; se luta contra a corrupção da máquina pública, quer ver o Estado limpo; e quem luta por tudo isso, e mais transporte público gratuito, pede, não indireta, — mas diretamente, por um Estado onipresente, que atenda a todos, que evolua mais rápido do que já tem feito na direção do Estado de Bem-Estar Social.

Assim, as bandeiras levantadas nas manifestações de rua destes dias são bandeiras em prol de um Estado melhor, e não da sua elisão imediata e inviável. Eis a correta e inelutável interpretação do valor simbólico desses atos.

Está certíssima a Professora Marilena Chauí nesse ponto e nós, tendo buscado alguma aproximação via R.I.C. com os praticantes de Bloqueio Negro do Rio e de outros Estados, podemos explicar os exatos motivos da aparente contradição: existem muitos anarcocomunistas e a anarcossindicalistas entre os adeptos da tática em questão; existem, ainda, pessoas oriundas das esquerdas partidárias, e todos estes, junto com os que ainda buscam definições, têm freqüentado palestras e rodas de debates com acadêmicos de orientação marcadamente comunista libertária — ou socialista libertária, como estes têm preferido dizer, numa versão light, ou diet da mesma expressão. Eu mesmo compareci, recentemente, a uma palestra seguida de debate anunciada por eles com os historiadores Alexandre Samis, professor do Colégio Pedro II, e Carlos Augusto Addor, professor da UFF; o primeiro, mais próximo, pelo que me pareceu, do anarcossindicalismo, o segundo, definindo-se como um socialista libertário.

Ora, é patente que a “derrubada” do Estado, hoje, sem o colapso anterior do sistema internacional de exploração conduzir-nos-ia de imediato ao anarcocapitalismo, i.e., a um ultraneoliberalismo: ponto mais distante possível do anarquismo propriamente dito, em qualquer vertente aceitável. Assim, a pauta do Bloco Negro tem sido, sim, sem sombra de dúvida, de demandas institucionais ao poder constituído, mas não, por conta disto, estrategicamente, antianarquista. Sabemos que estratégia, em política, é a algo mais amplo que as táticas adotadas sob a sua inspiração. Assim, por exemplo: as táticas de bloqueio negro seriam um dos caminhos que a estratégia anarquista considerou empregar, nas últimas décadas. Sucede que tais demandas ao Estado, no sentido de fortalecê-lo, melhorando-o, ao invés do emprego do princípio do quanto pior melhor, constituem-se num institucionalismo — provisório, dentro da estratégia libertária, que é absolutamente lúcido e, mesmo, imprescindível dentro da boa análise da conjuntura.

Na pós-modernidade plena que adentra, aos poucos, o embate entre tendências político-econômicas que fará sentido será tão-só esse: entre o anarcocounismo — ou anarcossocialismo, a quem prefira — e o anarcocapitalismo, defendido, aqui e ali, por muitos e bem iconizado por Jorge Soros. O comunismo marxiano ortodoxo, o stalinismo, o maoísmo, tudo isso soçobrou, antes da virada do século, junto com a tendência messiânica do próprio Marx, esse crítico genial do capitalismo, que, não obstante, se pretende capaz de engendrar um modelo universal de gestão política e social, sem levar em conta a incomensurável diversidade de culturas, de línguas — e linguagens, i.e., de esquemas especiais de objetividade-subjetividade —, de perspectivas históricas e graus de evolução em relação à arqué de cada pacto nacional existente.

E, além da nota do internacionalismo, que precisa ser repensada em termos de — plurinacionalismo, o marxismo inspirou, ainda, regimes verticalizados e burocratizados em excesso, que as sociedades da informação, embriões da sociedade do conhecimento, onde quer que já tenham se estabelecido, não acatarão mais, em qualquer hipótese. Quanto ao liberalismo, este vetusto sistema seiscentista só pode ser e só é objeto das defesas bufas de um pequeno grupo de comediantes tristes e raivosos disfarçados de intelectuais e jornalistas, a maioria dos quais já devia estar presa por charlatanismo. O que temos pela frente é, repetimos: o embate entre o socialismo libertário e o anarcocapitalismo, este último, entendido como um capitalismo sem fronteiras, — sem bancos centrais, com uma moeda única universal e etc..

E, estrategicamente, a posição dos comunistas libertários não pode ser outra que a institucionalista provisória, com a busca do Estado de Bem-Estar Social e do represamento do neoliberalismo e de sua investida contra os direitos trabalhistas e sociais em geral. Isso para, mais adiante, após o colapso certo — e ajudado — do sistema internacional de geração de mais-valia, finalmente, poder-se propor as bases de uma sociedade horizontalmente organizada, sem estruturas de cogência, onde possa ser posta em prática a abolição penal e outras bandeiras anarquistas basilares.

O segundo tópico no discurso da Professora Marilena Chauí que o jornal já citado traz a baila é o seguinte:

Temos três formas de se colocar. Coloco os “blacks’ na fascista. Não é anarquismo, embora se apresentem assim. Porque, no caso do anarquista, o outro [indivíduo] nunca é seu alvo. Com os ‘blacks’, as outras pessoas são o alvo, tanto quanto as coisas”, disse ela.

A crítica é novamente precisa. É aguda, cirúrgica e dura, extremamente dura. Sobretudo, porque aproveita, não só aos jovens do Bloco Negro, mas a toda a esquerda, que visa pessoas renitentemente: Fora Cabral, Fora FHC; Fora Alckmin, Fora Collor, fora este, fora aquele. Esse modelo — aliás, façamos justiça, criada pela Convergência Socialista, ou PSTU para conclamar a sociedade a pedir o impedimento de Fernando Collor — tem sido uma marca das esquerdas, desde então. E trata-se de um grito de guerra que visa a pessoas.

O Bloco Negro visa, outrossim, aos policiais, que são pessoas; usam, inclusive, o slogan internacionalmente difundido All Cops Are Bastards, sigla A.C.A.B., ou 1.3.1.2., em codificação numérica. E, da mesma forma, as esquerdas, em toda parte, usam o quiçá ainda mais difundido slogan: Fuck Police. Basta que pesquisemos sobre um e outro através da R.I.C. e teremos miríades de resultados nas mãos, ilustrações, cartazes virtuais e etc.. Então, novamente: é aquele contato estreito dos bloqueadores com as esquerdas partidárias, seus erros e acertos, o que tem definido a sua conduta nos pontos destacados pela ilustre acadêmica.

Zizek diz que todos temos as nossas fantasias fascistas ocultas e, como desnuda a filósofa, essas unidades entre pessoas que formamos para atacar outras pessoas e para nos protegermos, mutuamente, são sempre, inelutavelmente, persecutórias, logo, na sua extensão ao campo político: fascistas. Portanto, devemos, todos os progressistas, inclusive o Bloco Negro, tomar muito cuidado com o abuso promíscuo desses esquemas de aglutinação em torno de ações antipessoais: contra indivíduos mais que contra idéias equivocadas, conceitos e preconceitos enferrujados, sem renunciar, por outro lado, à prerrogativa de pedir impedimentos de políticos e agentes públicos políticos em casos de necessidade real e urgente de tal recurso.

Não podemos esperar, é certo, que os jovens praticantes de bloqueio negro sejam os mais puros entre os mais puros de todos os ativistas progressistas que conhecemos: seria cobrar demais deles, já nos seus primeiros passos dentro do cenário político pátrio. Mas precisamos, sim: louvar esses jovens como vanguardistas por trazerem à baila a palavra anarquismo, como uma das tags do momento, quando o comunismo libertário estava ainda sendo visto como meramente romântico pela sociedade brasileira, distraída, até ontem, em relação ao adentrar desta Terceira Contemporaneidade, ou Terceira Pós-modernidade, que ora temos conhecido de frente no terreno político.**

*Esse comentário de Lula sucedeu ao entrevero entre Carecas do Brasil e participantes do Fórum de São Paulo, iniciado, gratuitamente, por aqueles e comentado por nós em A CONFUSÃO EMBARAÇOSA DO PORTAL iG ENTRE SKINHEADS DEEXTREMA DIREITA, ANARCOSKINHEADS, ANARQUISTAS E FASCISTAS.

**Já escrevemos noutra nota de rodapé: [...] primeiro, veio a Idade de Bronze da Contemporaneidade, com Kant e seu — Sapere aude; depois, veio a Idade de Prata da Pós-modernidade, com o positivismo, a retomada da suposição, da poesia como via de conhecimento, o que permitiu todo o progresso tecnológico descomunal observado nos dois últimos séculos passados; finalmente, avistam-se as alvas da Idade de Ouro da Contemporaneidade, que adentra com a hecatombe do sistema de exploração e a eliminação dos resíduos modernos e [...] socráticos.

Leia também:

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Levante da Juventude: “Devolvemos à Globo o lixo que ela joga no povo brasileiro”

31.08.2013
Do blog VI O MUNDO

Manifestação do Levante Popular em frente à Globo. 

Jovens fazem ato pela democratização da mídia e “devolvem” merda à Globo
Do Setor de Comunicação do  Levante Popular da Juventude, via e-mail

O 2º ato contra o monopólio da mídia reuniu 600 pessoas em protesto na frente da Rede Globo, no Brooklin, em São Paulo, na noite desta sexta-feira (30/8).

A manifestação foi organizada por movimentos de juventude, de mulheres e de democratização da comunicação, como o Levante Popular da Juventude, a Marcha Mundial das Mulheres, o Coletivo Intervozes e o Centro de Estudos Barão de Itararé. Cerca de 40 adeptos do Black Bloc participaram do protesto.

“Devolvemos à Globo a merda que a emissora joga para o povo brasileiro todo dia em seus jornais”, disse Juliane Furno, militante do Levante Popular da Juventude, que organizou uma série de intervenções no protesto.

Duas faixas com as expressões “Fora Globo” e “Abaixo a Mídia Machista” foram jogadas da Ponte Estaiada (fotos acima).

Os manifestantes protestaram contra o monopólio no sistema de comunicação eletrônico (TV e rádio), cobraram o cumprimento da Constituição que proíbe concessões a políticos e defenderam a democratização da mídia.

“A Globo é o símbolo da ditadura da comunicação. Os nossos protestos contra a Rede Globo colocam em pauta a necessidade da democratização da comunicação, para acabar com os monopólios da informação e da cultura”, disse Thiago Pará Wender, diretor da União Nacional dos Estudantes (UNE).

“A sonegação de impostos da Globo deixa claro que o ‘Criança Esperança’ é uma hipocrisia.  A Globo é uma empresa corrupta, desviou mais de R$ 600 milhões do país, ao deixar de pagar impostos e multas. Se ela quisesse mesmo ajudar as crianças, a primeira atitude era pagar em dia seus impostos”, denunciou Juliane.

A placa da ponte Octávio Frias de Oliveira foi rebatizada pela segunda vez com o nome de Vladimir Herzog, em homenagem ao jornalista que foi torturado até a morte no DOI-CODI em São Paulo, em 1975, pelo regime militar. Frias de Oliveira foi fundador do Grupo Folha, acusado de contribuir com a repressão durante da ditadura.

Os jovens saíram em marcha da Praça General Gentil Falcão em torno das 20h, passou pela Rede Globo e retornou ao local da concentração. O protesto terminou às 22h e não houve conflitos com a Polícia Militar.
 São Paulo
 Rio de Janeiro

 Salvador
Santa Maria (RS)
Belém (PA)

Leia também:

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ÉPOCA LEVA AO PAROXISMO A ARTE DE SER PESSIMISTA

31.08.2013
Do portal BRASIL247

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MEDALHÕES DO QUANTO PIOR, MELHOR, PERDEM APOSTAS

31.08.2013
Do portal BRASIL247
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JUIZ INDEPENDENTE DEVE TER SALÁRIO MILIONÁRIO?

31.08.2013
Do portal BRASIL247
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Na Suécia, juízes e políticos são "cidadãos comuns"

31.08.2013
Do portal TERRA NOTÍCIAS, 28.08.2012
Por BANDNEWS

Governantes e magistrados não têm direito a salários altos e regalias no país europeu

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MONOPÓLIO DA MÍDIA: É preciso escrever quantas vezes forem necessárias

31.08.2013
Do blog DoLaDeLá, 
Por Venício A.Lima

Esse “controle” da mídia pelos oligopólios privados se sustenta de diferentes formas. Uma delas é o poderoso (e bem remunerado) lobby que nos últimos 25 anos tem pressionado continuamente deputados e senadores e impedido que normas e princípios da Constituição de 1988 relativas à comunicação social sejam regulamentados. Sem serem regulamentados, não são cumpridos.

É por isso que, apesar de a Constituição rezar que “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio” (parágrafo 5º do artigo 220), apenas uns poucos grupos privados controlam os meios de comunicação diretamente ou indiretamente através de “redes” de afiliadas cuja “formação” não obedece a qualquer regulação.
É por isso que, apesar de a Constituição rezar que “os Deputados e Senadores não poderão firmar ou manter contrato com pessoa jurídica de direito público, autarquia, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviço público, salvo quando o contrato obedecer a cláusulas uniformes” (alínea ‘a’ do inciso I do artigo 54), muitos deles mantêm vínculos com empresas privadas concessionárias do serviço público de radiodifusão, numa viciosa circularidade que inviabiliza a aprovação de projetos que regulem as normas e princípios constitucionais sobre a comunicação social no Congresso Nacional.
É por isso que, apesar de a Constituição rezar que a produção e a programação das emissoras de rádio e televisão devem atender “aos princípios de preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação; regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei; respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família” (artigo 221), o que se escuta nas emissoras de rádio e se vê na televisão, salvo raras exceções, é exatamente o oposto.
É por isso que, apesar de a Constituição rezar que as outorgas e renovações de concessões, permissões e autorizações para o serviço público de radiodifusão sonora e de sons e imagens devem “observar o princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal” (artigo 223), a imensa maioria das concessões, permissões e autorizações de radiodifusão no país continua a ser explorada por empresas privadas.
O paradoxo do Estado financiador do “controle” privado
No Brasil, os “critérios técnicos” adotados pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom-PR) para distribuição dos recursos oficiais de publicidade se baseiam na diretriz “comercial” que considera “a audiência de cada veículo [como] o balizador de negociação e de distribuição de investimentos. A programação de recursos deve ser proporcional ao tamanho e ao perfil da audiência de cada veículo” (ver Transparência e a desconcentração na publicidade do governo federal“).
Como já argumentei neste Observatório (verPublicidade oficial: Quais critérios adotar?), o artigo 1º da Constituição de 1988 reza que um dos fundamentos da democracia brasileira é o pluralismo político (inciso V) e, logo em seguida, o artigo 5º garante que é livre a manifestação do pensamento (inciso IV). Essa garantia é confirmada no caput do artigo 220, que impede a existência de qualquer restrição à manifestação do pensamento, à expressão e à informação.
Por outro lado, o inciso I, do artigo 2º do Decreto nº 6.555/2008, que “dispõe sobre as ações de comunicação do Poder Executivo Federal”, determina que “no desenvolvimento e na execução das ações de comunicação (...), serão observadas as seguintes diretrizes, de acordo com as características de cada ação: afirmação dos valores e princípios da Constituição”.
Decorre, portanto, que a responsabilidade primeira da negociação e distribuição de qualquer investimento oficial – inclusive, por óbvio, aqueles de publicidade – deveria ser a proteção e garantia do pluralismo político e da liberdade de expressão.
Da mesma forma, considerando apenas que “a programação de recursos deve ser proporcional ao tamanho e ao perfil da audiência de cada veículo”, a Secom-PR descumpre também os princípios gerais da atividade econômica definidos no “Título VII – Da Ordem Econômica e Financeira” da Constituição.
Na verdade, contrariam-se os incisos IV (livre concorrência), VII (redução das desigualdades regionais e sociais) e IX (tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte) do artigo 170, e o parágrafo 4º (repressão ao abuso de poder econômico, com vistas à eliminação da concorrência e aumento arbitrário dos lucros) do artigo 173.
A Secom-PR – vale dizer, o Estado brasileiro –, paradoxalmente, tem sido um dos principais financiadores do “controle” que os oligopólios privados exercem sobre a mídia no Brasil.
Inversão da realidade
Ao difundir a noção de que o Estado brasileiro é o único agente capaz de exercer o “controle da mídia” e, ainda mais, ao empunhar como exclusivamente suas as bandeiras da liberdade de expressão e da liberdade da imprensa, os oligopólios privados de mídia constroem publicamente a imagem daqueles que pelejam para que mais vozes tenham acesso ao debate público como se fossem os inimigos da liberdade e pretendessem fazer exatamente o que, de fato, já é feito por eles, os oligopólios privados – isto é, o “controle” da mídia.
Com o desmesurado poder de que desfrutam, conseguem fazer prevalecer publicamente uma inversão do que de fato acontece (o processo de “inversão da realidade”, como se sabe, foi identificado, nomeado e explicado faz mais de 150 anos).
O debate na Faculdade de Direito da UFMG me ofereceu a oportunidade de argumentar, ainda uma vez mais, que, apesar das normas e princípios da Constituição de 1988, existe, sim, “controle” da mídia no Brasil. E ele tem sido exercido exatamente por aqueles que se apresentam como defensores exclusivos da liberdade de expressão e da liberdade: os oligopólios privados de mídia.
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Ditadura militar deu a Roberto Marinho uma rede nacional de apoio ao golpe e à tortura.

31.08.2013
Do blog DOC, 09.04.13


A MÍDIA NA DITADURA

Falta um tema na variada agenda da Comissão Nacional da Verdade. Criada com a finalidade de apurar as violações dos direitos humanos ela não incluiu na pauta de trabalho a análise do papel da imprensa, como é feito com a Igreja, por exemplo, durante a ditadura, tramada e sustentada por civis e militares.

A imprensa foi arauto da trama golpista contra o presidente João Goulart. Sempre conservadores, os “barões da mídia” brasileira agem sempre na fronteira do reacionarismo. Apoiar golpes, por isso, não chega ser exatamente novidade. Alardeiam o principio do liberalismo sem, no entanto, comprometer-se com a democracia. Assim, promovem feitiços, como o de 1964, e tornam a própria imprensa vítima da feitiçaria.

Patrões e empregados são testemunhas importantes de uma história que precisa ser passada a limpo. É necessário ir além do que já se sabe. Isso só ocorrerá com o depoimento daqueles que viveram os episódios ou estiverem próximos deles.

A ditadura “exerceu o terror de Estado e provocou medo na sociedade civil. Não há indícios, porém, de que o medo fosse a razão do consentimento” que a imprensa deu aos generais, como anota a cientista política Anne-Marie Smith, no livro “Um acordo forçado”.

Ela põe o dedo na ferida ainda aberta – “E se outros jornais tivessem protestado quando o general Abreu proibiu qualquer publicidade do governo no Jornal do Brasil em 1978?” – e se aproxima da resposta: “Os obstáculos à solidariedade não foram criados, nem reforçados, nem explorados pelo regime. A falta de solidariedade foi uma desvantagem gerada pela própria imprensa”.

APOIO DO GLOBO

Império da mídia brasileira, o apoio do sistema O Globo à ditadura nunca foi negado, embora hoje seja disfarçado. Uma das razões para esse comportamento passado, que se encaixa na reflexão de Smith, encontra explicação no livro “Dossiê Geisel”, de Celso Castro e Maria Celina D’Araujo.

No governo Geisel, o ministro das Comunicações Euclides Quandt vetou novas concessões ao nascente sistema Globo por receio de que Roberto Marinho chegasse ao monopólio da opinião pública. Ele, então, foi ao ministro da Justiça, Armando Falcão e falou “do constante apoio” que deu ao governo.


“Disse também que o comportamento da Rede Globo deveria fazê-la merecedora de atenção e favores especiais do governo”, registra o livro.

Marinho apelou sem constrangimentos. Ameaçou vender a Rede Globo caso não tivesse apoio para continuar a crescer. O resto da história todo mundo sabe.

A mídia reage, hoje, ao projeto sobre a atualização das leis de comunicação com argumento falso e insensato que o objetivo é o de censurar. No entanto, em plena ditadura, adotou a inércia, o silêncio, diante dos atos concretos de restrição à liberdade de escrever. Não de escrever sobre tudo, mas, somente sobre certos assuntos como tortura e assassinato nos porões da ditadura. Essa é a diferença em relação à genérica denúncia de restrição à festejada liberdade de imprensa.

A censura, nesse contexto, cumpria outro papel. Excluía a responsabilidade direta dos donos da mídia e de muitos editores autoritários coniventes que sempre se desculparam ao apontar a censura governamental como a razão do silêncio.

A ditadura seria outra – talvez Ditabranda – contada a partir do que foi publicado na ocasião.

Maurício Dias  Carta Capital
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Fonte:http://professordoc.blogspot.com.br/2013/04/ditadura-militar-deu-roberto-marinho.html?spref=tw