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terça-feira, 30 de outubro de 2012

Invadida pelas privatizações, Varsóvia ilustra "frenesi" do livre mercado na Polônia

30.10.2012
Do portal OPERA MUNDI, 20.10.12
Por  Roberto Almeida | Varsóvia

Até mesmo o Palácio da Cultura e Ciência, um presente de Joseph Stalin, já se tornou vítima dos outdoors gigantescos

Roberto Almeida/Opera Mundi

Na selva de aço, concreto e vidros espelhados do centro novo de Varsóvia, a fila de pessoas segue um neon que resiste bravamente, com seu brilho opaco, gritando um nome em vermelho: Emilia. Quem é? Emilia é o nome da antiga fábrica estatal de móveis, a Meble Emilia. Patrimônio arquitetônico polonês, ela foi vendida pelo governo por 115 milhões de zlotys, ou R$ 75 milhões. O neon vai cair e, em breve, ela pode deixar um buraco na história e virar mais um arranha-céu.

O prédio da Meble Emilia, de três andares e linhas retas, construído em 1976, foi adotado pelo Museu de Arte Moderna da Polônia para uma única exposição, inaugurada no último dia 12 de outubro, sobre a evolução da arquitetura e da publicidade no país. O título sugere o momento que Varsóvia atravessa, com os arroubos de um capitalismo feroz, e o quanto a privatização da loja é simbólica: Miasto n Sprzedzaż, ou Cidade à Venda.

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“Bem-vindo à Polônia”, disse um funcionário do museu a Opera Mundi, como se levantasse o tapete para mostrar a sujeira. “Não sabemos o que vai acontecer, mas pode ser que essa seja a última exposição no prédio. Daqui saíram os melhores móveis poloneses, é muito marcante. Hoje ele é uma referência, mas pode virar um igual a todos os outros.”


Para entender esse pessimismo, basta olhar pela janela. O cenário é de extremos. Na principal avenida da cidade, a Marszalkowska, os outdoors têm pelo menos oito andares e encobrem quase completamente as fachadas austeras dos edifícios do período comunista, apagando o passado com mensagens estridentes de consumo.

Na mesma avenida, ao redor da superpopulosa estação Centrum do metrô, um enorme shopping center, com as marcas britânicas H&M, Marks & Spencer e TkMaxx, rouba a cena com anúncios de moda monstruosos e coloridos, logo em frente à brutal imponência do Palácio da Cultura e Ciência, o prédio mais alto da Polônia.

Até mesmo o palácio, construído a mando de Joseph Stalin em 1952, e ofertado aos poloneses como um presente da União Soviética em 1956, já foi vítima dos outdoors gigantescos. Durante a Eurocopa deste ano - Varsóvia foi uma das sedes do torneio europeu de futebol - ele carregou uma bandeira com patrocinadores que quase encobriu seus 42 andares.

Roberto Almeida/Opera Mundi

O prédio, que hoje sedia um complexo de cinemas, teatros e exposições, não é unanimidade entre os poloneses, mas estampá-lo com anúncios, para os curadores da exposição, foi como colocar um cartaz de Coca-Cola no Big Ben, em Londres, uma propaganda de margarina na Estátua da Liberdade, em Nova York, ou a logomarca de um a marca de câmeras fotográficas no Portão de Brandenburgo, em Berlim.

“Otimistas, pensamos que até a Eurocopa de 2012 conseguiríamos limpar essa sujeira toda de propaganda. Houve até um momento em que achamos que estávamos próximos de atingir o objetivo. Foram os pessimistas, porém, que se provaram certo no final”, escreveu o arquiteto e ativista polonês Marcin Rutkiewicz, em um dos manifestos da exposição. Ou seja, ainda não há regulamentação de publicidade na Polônia e pouco cuidado com parte do patrimônio histórico.

A loja Emilia, fundada em 1976, foi comprada pelo fundo privado Griffin Topco II, com sede em Luxemburgo. O controlador do fundo é o Oaktree Capital Group, que tem sede em Los Angeles, nos Estados Unidos. Ela fica fora do centro histórico e turístico de Varsóvia, completamente destruído durante a Segunda Guerra Mundial pelos nazistas e em reforma permanente pelo governo polonês.

Ideais de cidade

A Polônia, com seus 38 milhões de potenciais consumidores, navega a crise econômica europeia com uma certa calmaria. As taxas de desemprego não passam dos 10%, muito abaixo dos países mais afetados pelo péssimo momento que vive o bloco. O PIB (Produto Interno Bruto) polonês deve desacelerar este ano, mas a estimativa é que tenha crescido mais de 4% no ano passado. Desde 2000, a média tem sido de 3% - valores muito superiores à média na Europa e comparável à do Brasil.

Varsóvia, com seus 1,7 milhões de habitantes, vem a reboque nesse crescimento, e o sintoma mais claro é a radical transformação do que se vê na superfície. Canteiros de obras e guindastes se revezam na construção de prédios de escritórios no entorno da Warszawa Centralna, a Estação Central, competindo em altura com o Palácio da Cultura e Ciência. O choque mexe com arquitetos e ativistas.

Roberto Almeida/Opera Mundi
O prédio da loja Emilia estava abarrotado na abertura da exposição. Pequenos cartazes foram impressos com os dizeres A Cidade NÃO está à Venda (Miasto NIE na Sprzedaz) e um setor inteiro foi dedicado à corrente guerrilha contra os gigantescos outdoors - desde exemplos de pessoas que, de suas janelas, cortaram buracos nos cartazes para poder olhar para a cidade, até protestos de organizações de direitos humanos.

“Críticas ao caos espacial na Polônia são crescentes. Lemos sobre um ‘espaço gritante’, sobre outdoors agressivos, sobre não existirem provisões legais e sobre as falhas em executar as provisões que existem”, relata o arquiteto Blazev Brzostek. “Ao mesmo tempo, novos grupos de entusiastas aparecem, pedindo a preservação de velhos neons e mosaicos de parede, por exemplo. Parece que essas ações são mais sintomáticas de uma busca por continuidade cultural do que por um entusiasmo passageiro de ver os tempos de comunismo como cool.”

Além dos neons da loja Emilia, alguns poucos podem ser vistos em uma loja de instrumentos musicais na Praça da Constituição, mais ao sul da cidade, na mesma avenida Marszalkowa dos shopping centers. Do outro lado da rua, porém, um prédio inteiro foi encapado por um anúncio da Samsung, que também colocou sua logomarca no terraço.

“O frenesi do livre mercado que varreu a Polônia nos anos 1990 criou um novo cenário urbano. Para alguns, era uma prova confortante de atividade social, para outros um sintoma de deterioração estética”, afirma Brzostek. “O abandono [da herança comunista] tornou invisíveis os avanços estéticos do passado, dispensados sem remorso. É dinheiro ruim que expulsa o que há de bom”, diz.


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Eduardo já faz um aceno ao senador Humberto Costa

30.10.2012
Do BLOG DA FOLHA, 29.10.12
Publicado por José Accioly

(Foto: José Accioly/Blog da Folha)


Eles estiveram em palanques opostos durante toda eleição municipal no Recife. De um lado, o senador Humberto Costa (PT) criticou um suposto não cumprimento de acordo de apoio ao PT no pleito e, na reta final de campanha, colocou a polêmica da PPP da Compesa no debate eleitoral. Do outro, o governador Eduardo Campos foi à Televisão desmentir o petista e cravar como desespero o discurso do ex-prefeiturável. Nos bastidores, muitos comentavam que a relação entre os dois líderes teria azedada. Contudo, Campos, nesta segunda-feira (29), fez um aceno ao aliado em busca de reconstruir as pontes entre os dois.
Ao comentar a prisão do comerciante José Ramos Lopes Neto – sentenciado pela Justiça com autor do assassinato de Maristela Just, em 1989 -, Eduardo Campos lembrou-se da atuação de Humberto Costa, enquanto parlamentar na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), na defesa dos direitos das mulheres. O cacique socialista aproveitou para render, em nome do petista, a solidariedade a todos os envolvidos no caso.
“Quero parabenizar em especial o senador Humberto Costa. Fui deputado com ele na Assembleia e o vi fazer vários pronunciamentos cobrando a investigação do crime”, disse Eduardo Campos, lembrando que, na época, o aliado petista mobilizou movimentos sociais em busca de Justiça.

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Fonte:http://www.folhape.com.br/blogdafolha/?p=57559

MENSALÃO: A RETÓRICA DO ÓDIO NA COBERTURA .

30.12.2012
Do portal FAZENDO MEDIA, 29.10.12
Por Jaime Amparo Alves

Os brasileiros no exterior que acompanham o noticiário brasileiro pela internet têm uma impressão de que o país nunca esteve tão mal. Explodem os casos de corrupção, a crise ronda a economia, a inflação está de volta e o país vive imerso no caos moral. Isso é o que querem nos fazer crer as redações jornalísticas do eixo Rio-São Paulo. 

Com seus gatekeepers escolhidos a dedo, Folha de S.Paulo,Estado de S.Paulo,Veja e O Globo investem pesadamente no caos com duas intenções: inviabilizar o governo da presidenta Dilma Rousseff e destruir a imagem pública do ex-presidente Lula da Silva. Até aí, nada novo. Tanto Lula quanto Dilma sabem que a mídia não lhes dará trégua, embora não tenham – nem terão – a coragem de uma Cristina Kirchner de levar a cabo uma nova legislação que democratize os meios de comunicação e redistribua as verbas governamentais para o setor. Pelo contrário, a Polícia Federal segue perseguindo as rádios comunitárias e os conglomerados de mídia Globo e Abril celebram os recordes de cotas de publicidade governamentais. 

O PT sofre da síndrome de Estocolmo (aquela em que o sequestrado se apaixona pelo sequestrador) e o exemplo mais emblemático disso é a posição de Marta Suplicy como colunista de um jornal cuja marca tem sido o linchamento e a inviabilização política das duas administrações petistas em São Paulo


O que chama a atenção na nova onda conservadora é o time de intelectuais e artistas com uma retórica que amedronta. Que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso use a gramática sociológica para confundir os menos atentos já era de se esperar, como é o caso das análises de Demétrio Magnoli, especialista sênior da imprensa em todas as áreas do conhecimento. Nunca alguém assumiu com tanta maestria e com tanta desenvoltura papel tão medíocre quanto Magnoli: especialista em políticas públicas, cotas raciais, sindicalismo, movimentos sociais, comunicação, direitos humanos, política internacional… Demétrio Magnoli é o porta-voz maior do que a direita brasileira tem de pior, ainda que seus artigos não resistam a uma análise crítica.
Jornalismo lombrosiano
Agora, a nova cruzada moral recebe, além dos já conhecidos defensores dos “valores civilizatórios”, nomes como Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro. A raiva com que escrevem poderia ser canalizada para causas bem mais nobres se ambos não se deixassem cativar pelo canto da sereia. Eles assumiram a construção midiática do escândalo, e do que chamam de degenerescência moral, como fato. E, porque estão convencidos de que o país está em perigo, de que o ex-presidente Lula é a encarnação do mal, e de que o PT deve ser extinto para que o país sobreviva, reproduzem a retórica dos conglomerados de mídia com uma ingenuidade inconcebível para quem tanto nos inspirou com sua imaginação literária.
Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro fazem parte agora daquela intelligentsia nacional que dá legitimidade científica a uma insidiosa prática jornalística que tem na Veja sua maior expressão. Para além das divergências ideológicas com o projeto político do PT – as quais eu também tenho –, o discurso político que emana dos colunistas dos jornalões paulistanos/cariocas impressiona pela brutalidade. Os mais sofisticados sugerem que, a exemplo de Getúlio Vargas, o ex-presidente Lula se suicide; os menos cínicos celebraram o “câncer” como a única forma de imobilizá-lo. Os leitores de tais jornais, claro, celebram seus argumentos com comentários irreproduzíveis aqui.
Quais os limites da retórica de ódio contra o ex-presidente metalúrgico? Seria o ódio contra o seu papel político, a sua condição nordestina, o lugar que ocupa no imaginário das elites? Como figuras públicas tão preparadas para a leitura social do mundo se juntam ao coro de um discurso tão cruel e tão covarde já fartamente reproduzido pelos colunistas de sempre? Se a morte biológica do inimigo político já é celebrada abertamente – e a morte simbólica ritualizada cotidianamente nos discursos desumanizadores – estaríamos inaugurando uma nova etapa no jornalismo lombrosiano?
O espetáculo da punição
Para além da nossa condenação aos crimes cometidos por dirigentes dos partidos políticos na era Lula, os textos de Demétrio Magnoli, Marco Antonio Villa, Ricardo Noblat, Merval Pereira, Dora Kramer, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Eliane Cantanhêde, além dos que agora se somam a eles, são fontes preciosas para as futuras gerações de jornalistas e estudiosos da comunicação entenderem o que Perseu Abramo chamou apropriadamente de “padrões de manipulação” na mídia brasileira. Seus textos serão utilizados nas disciplinas de deontologia jornalística não apenas como exemplos concretos da falência ética do jornalismo tal qual entendíamos até aqui, mas também como sintoma dos novos desafios para uma profissão cada vez mais dominada por uma economia da moralidade que confere legitimidade a práticas corporativas inquisitoriais vendidas como de interesse público.
O chamado “mensalão” tem recebido a projeção de uma bomba de Hiroshima não porque os barões da mídia e os seus gatekeepers estejam ultrajados em sua sensibilidade humana. Bobagem. Tamanha diligência não se viu em relação à série de assaltos à nação empreendida no governo do presidente sociólogo. A verdade é que o “mensalão” surge como a oportunidade histórica para que se faça o que a oposição – que nas palavras de um dos colunistas da Veja “se recusa a fazer o seu papel” – não conseguiu até aqui: destruir a biografia do presidente metalúrgico, inviabilizar o governo da presidenta Dilma Rousseff e reconduzir o projeto da elite “sudestina” ao Palácio do Planalto.
Minha esperança ingênua e utópica é que o Partido dos Trabalhadores aprenda a lição e leve adiante as propostas de refundação do país abandonadas como acordo tácito para uma trégua da mídia. Não haverá trégua, ainda que a nova ministra da Cultura se sinta tentada a corroborar com o lobby da Folha de S.Paulo pela lei dos direitos autorais, ou que o governo Dilma continue derramando milhões de reais nos cofres das organizações Globo e Abril via publicidade oficial. Não é o PT, o Congresso Nacional ou o governo federal que estão nas mãos da mídia. Somos todos reféns da meia dúzia de jornais que definem o que é notícia, as práticas de corrupção que merecem ser condenadas e, incrivelmente, quais e como devem ser julgadas pela mais alta corte de Justiça do país. Na última sessão do julgamento da Ação Penal 470, por exemplo, um furioso ministro-relator exigia a distribuição antecipada do voto do ministro-revisor para agilizar o trabalho da imprensa (!). O STF se transformou na nova arena midiática onde o enredo jornalístico do espetáculo da punição exemplar vai sendo sancionado.
Coragem de enfrentar o monstro
Depois de cinco anos morando fora do país, estou menos convencido por que diabos tenho um diploma de jornalismo em minhas mãos. Por outro lado, estou mais convencido de que estou melhor informado sobre o Brasil assistindo à imprensa internacional. Foi pelas agências de notícias internacionais que informei aos meus amigos no Brasil de que a política externa do ex-presidente metalúrgico se transformou em tema padrão na cobertura jornalística por aqui. Informei-os que o protagonismo político do Brasil na mediação de um acordo nuclear entre Irã e Turquia recebeu atenção muito mais generosa da mídia estadunidense, ainda que boicotado na mídia nacional. Informei-os que acompanhei daqui o presidente analfabeto receber o título de doutor honoris causa em instituições europeias e avisei-os que por causa da política soberana do governo do presidente metalúrgico, ser brasileiro no exterior passou a ter uma outra conotação. O Brasil finalmente recebeu um status de respeitabilidade e o presidente nordestino projetou para o mundo nossa estratégia de uma América Latina soberana.
Meus amigos no Brasil são privados do direito à informação e continuarão a ser porque nem o governo federal nem o Congresso Nacional estão dispostos a pagar o preço por uma “reforma” em área tão estratégica e tão fundamental para o exercício da cidadania. Com 70% de aprovação popular e com os movimentos sociais nas ruas, Lula da Silva não teve coragem de enfrentar o monstro e agora paga caro por sua covardia. Terá Dilma coragem com aprovação semelhante, ou nossa meia dúzia de Murdochs seguirão intocáveis sob o manto da liberdade de e(i)mpre(n)sa?
(*) Jaime Amparo Alves é jornalista e doutor em Antropologia Social, Universidade do Texas, Austin. Matéria reproduzida do Observatório da Imprensa.

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Previsão de Gramsci: Com a direita em crise, mídia vira partido político

29.10.2012
Do blog de Rodrigo Vianna, 25.10.12
Por Fernando Arellano Ortíz
Tradução: Adital


Monopólios midiáticos na América Latina


“Não há erro: os meios de comunicação simplesmente são grandes conglomerados empresariais que têm interesses econômicos e políticos. Na América Latina, os monopólios midiáticos têm um poder fenomenal que vêm cumprindo na função de substituir os partidos políticos de direita que caíram em descrédito e que não têm capacidade de chamar a atenção nem a vontade dos setores conservadores da sociedade. Assim o politólogo e cientista social argentino Atilio Boron caracteriza a denominada canalha midiática.

Nesse sentido, explica, “cumpre-se o que muito bem profetizou Gramsci há quase um século, quando disse que diante da ausência de organizações da direita política, os meios de comunicação, os grandes diários, assumem a representação de seus interesses; e isso está acontecendo na América Latina. Em praticamente todos os países da região, os conglomerados midiáticos converteram-se em “operadores políticos.

A Crise do Capitalismo e o triunfo de Chávez

Boron, que dispensa apresentação por ser um importante referente da teoria política e das ciências sociais em Iberoamérica, foi um dos expositores principais do VI Encontro Internacional de Economia Política e Direitos Humanos, organizado pela Universidad Popular Madres de la Plaza de Mayo, que aconteceu em Buenos Aires, entre os dias 4 e 6 de outubro.



Tópicos como a crise estrutural do capitalismo, o fenômeno da manipulação dos monopólios midiáticos e o que significa para a América Latina o triunfo de Hugo Chávez foram tratados com profundidade por esse destacado politólogo, sociólogo e investigador social, doutorado em Ciências políticas pela Universidade de Harvard e, atualmente, diretor do Programa Latino-americano de Educação a Distância em Ciências Sociais do Centro Cultural da Cooperação Floreal Gorini, na capital argentina.

Para aprofundar sobre alguns desses temas, o Observatorio Sociopolítico Latinoamericano teve a oportunidade de entrevistá-lo no final de sua participação em dito fórum acadêmico internacional.


Rumo a um projeto pós-capitalista

No desenvolvimento de sua exposição no encontro da Universidad Popular de Madres de la Plaza de Mayo, Boron analisou o contexto da crise capitalista.


“Hoje em dia é impossível referir-se à crise e à saída da mesma sem falar do petróleo, da água e das questões meio ambientais. Essa é uma crise estrutural e não produto de uma má administração dos bancos das hipotecas subprime.

Recordou que, recentemente, foram apresentadas propostas por parte dos Prêmios Nobel de Economia para tornar mais suave a débâcle capitalista. Uma, a esboçada por Paul Krugman, que propõe revitalizar o gasto público. O problema é que os Estados Unidos estão quebrados e o nível de endividamento das famílias nos Estados Unidos equivale a 150% dos ingressos anuais. “Krugman propõe dar crédito ao Estado para que estimule a economia. Porém, os Estados Unidos não têm dinheiro porque decidiram salvar os bancos.

A outra proposta é de Amartya Sem, que analisa a situação do capitalismo como uma crise de confiança e é muito difícil restabelecê-la entre os poupadores e os banqueiros devido aos antecedentes desses últimos. Por isso, essas não deixam de ser “pseudo explicações que não levam à questão de fundo. Não explicam porque caem os índices do PIB e sobem as bolsas. Ambos índices estariam desvinculados e as bolsas crescem porque os governos injetaram moeda ao sistema financeiro.

A crise capitalista serviu para acumular riqueza em poucas mãos, uma vez que “o que os democratas capitalistas fizeram no mundo desenvolvido foi salvar os banqueiros, não os endividados, ou seja, as vítimas.

Exemplificou com as seguintes cifras: enquanto o ingresso médio de uma família nos Estados Unidos é de 50.000 dólares ao ano, o daqueles de origem latina é de 37.000 e o de uma família negra é de 32.000, o diretor executivo do Bank of America, resgatado, cobrou um salário de 29 milhões de dólares.

Então, é evidente que cada vez mais há uma tendência mais regressiva de acumular riqueza em poucas mãos. Em trinta anos, o ingresso dos assalariados foi incrementado em 18% e o dos mais ricos cresceu 238%.

“No capitalismo desenvolvido houve uma mutação e os governos democráticos transformaram-se em plutocracias, governos ricos. Porém, além disso, “o capitalismo se baseia na apropriação seletiva dos recursos.

Por isso, citando o economista egípcio Samir Amin, Boron afirma sem medo que “não há saída dentro do capitalismo.

Como alternativa, Boron sustenta que “hoje, pode-se pensar em um salto para o modelo pós-capitalista. Há algo que pode ser feito até que apareçam os sujeitos sociais que darão o tiro de misericórdia no capitalismo. O que se pode fazer é desmercantilizar tudo o que o capitalismo mercantilizou: a saúde, a economia, a educação. Assim, estaremos em condições de ver o amanhecer de um mundo mais justo e mais humano.

A reeleição na Venezuela

Sobre a matriz de opinião que os monopólios midiáticos da direita têm tentado impor no sentido de que a reeleição do presidente Chávez é um sintoma de que ele quer se perpetuar no poder, a análise de Boron foi contundente:


“Há um grau de hipocrisia enorme nesse tema, porque os mesmos que se preocupam com o fato de Chávez estar por 20 anos no governo, aplaudiam fervorosamente a Helmut Kohl, que permaneceu no poder por 18 anos, na Alemanha; ou Felipe González, por 14 anos, na Espanha; ou Margaret Thatcher, por 12 anos, na Inglaterra.

“Há um argumento racista que diz que somos uma raça de corruptos e imbecis; que não podemos deixar que as pessoas mantenham-se muito tempo no poder; ou há uma conveniência política, que é o que acontece ao tentarem limar as perspectivas de poder de líderes políticos que não são de seu agrado. Agora, se Chávez instaurasse uma dinastia onde seu filho e seu neto herdassem o poder, eu estaria em desacordo. Porém, o que Chávez faz é dizer ao povo que eleja; e, em âmbito nacional, por um período de 13 anos, convocou o povo venezuelano para 15 eleições, das quais ganhou 14 e perdeu uma por menos de um ponto; e, rapidamente, reconheceu sua derrota. Então, não está dito em nenhum lugar serio da teoria democrática que tem que haver alternância de lideranças, na medida que essa liderança seja ratificada em eleições limpas e pela soberania popular.

Confira a entrevista
:
Hoje, no debate da teoria política, fala-se de “pósdemocracia, para significar o esgotamento dos partidos políticos, a irrupção dos movimentos sociais e a incidência dos meios de comunicação na opinião pública. Que alcance você dá a esse novo conceito?

Eu analiso como uma expressão da capitulação do pensamento burguês que, em uma determinada fase do desenvolvimento histórico do capitalismo, fundamentalmente a partir do final da I Guerra Mundial, apropriou-se de uma bandeira -que era a da democracia- e a assumiu. De alguma maneira, alguns setores da esquerda consentiram nisso. Por quê? Bom, porque estávamos um pouco na defensiva e, além disso, o capitalismo havia feito uma série de mudanças muito importantes. Por isso, a ideia de democracia ficou como se fosse uma ideia própria da tradição liberal burguesa, apesar de que nunca houve um pensador dessa corrente política que fizesse uma apologia do regime democrático. Estudavam sobre isso, possivelmente, a partir de Thorbecke ou de John Stuart Mill; porém, nunca propunham um regime democrático; isso vem da tradição socialista e marxista. No entanto, apropriaram-se dessa ideia; passaram todo o século XX atualizando-a. Agora, dadas as novas contradições do capitalismo e ao fato de que as grandes empresas assumiram a concepção democrática, a corromperam e a desvirtuaram até o ponto de torná-la irreconhecível, perceberam que não tem sentido continuar falando de democracia. Então, utilizam o discurso resignado que diz que o melhor da vida democrática já passou; um pouco a análise de Colin Crouch: o que resta agora é o aborrecimento, a resignação, o domínio a cargo das grandes transnacionais; os mercados sequestraram a democracia e, portanto, temos que nos acostumar a viver em um mundo pós-democrático. Nós, como socialistas, e, mais, como marxistas jamais podemos aceitar essa ideia. Creio que a democracia é a culminação de um projeto socialista, da socialização da riqueza, da cultura e do poder. Porém, para o pensamento burguês, a democracia é uma conveniência ocasional que durou uns 80 ou 90 anos; depois, decidiram livrar-se dela.


Mesmo em uma situação anômala mundial e levando-se em conta que a propriedade dos grandes meios de comunicação está concentrada em uns poucos monopólios do grande capital, como você analisa o fenômeno da canalha midiática na América Latina? Parece que, paulatinamente, vão perdendo a credibilidade…?

O que bem qualificas como canalha midiática tem um poder fenomenal, que vem substituindo os partidos políticos da direita que caíram no descrédito e que não têm capacidade de prender a atenção nem a vontade dos setores conservadores da sociedade. Nesse sentido, cumpre-se o que, Gramsci muito bem profetizou há quase um século, quando disse que diante da ausência de organizações da direita política, os meios de comunicação, os grandes diários, assumem a representação de seus interesses e isso está acontecendo na América Latina. Em alguns países, a direita conserva certa capacidade de expressão orgânica, creio que é o caso da Colômbia; porém, na Argentina, não, porque nesse país não existem dois partidos, como o Liberal e o Conservador colombianos; e o mesmo acontece no Uruguai e no Brasil. O caso colombiano revela a sobrevivência de organizações clássicas do século XIX da direita que se mantiveram incólumes ao longo de 150 anos. É parte do anacronismo da vida política colombiana que se expressa através de duas formações políticas decimonônicas [do século XIX], quando a sociedade colombiana está muito mais evoluída. É uma sociedade que tem uma capacidade de expressão através de diferentes organizações, mobilizações e iniciativas populares que não encontram eco no caráter absolutamente arcaico do sistema de partidos legais na Colômbia.


Com essa descrição que encaixa perfeitamente na realidade política colombiana, o que poderíamos falar, então de seus meios de comunicação…

Os meios de comunicação naqueles países em que os partidos desapareceram ou debilitaram-se são o substituto funcional dos setores de direita.


O que significa para a América Latina o triunfo do presidente venezuelano Hugo Chávez?

Significa continuar em uma senda que se iniciou há 13 anos, um caminho que, progressivamente, ocasionado algumas derrotas muito significativas ao imperialismo norte-americano na região, entre elas, a mais importante, a derrota do projeto da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), que era a atualização da Doutrina Monroe para o século XXI e isso foi varrido basicamente pela enorme capacidade de Chávez de formar uma coalizão com presidentes que, não sendo propriamente de esquerda, eram sensíveis a um projeto progressista, como poderia ser o caso de Lula, no Brasil e de Néstor Kirchner, na Argentina. Ou seja, de alguma maneira, Chávez foi o marechal de campo na batalha contra o imperialismo; é um homem que tem a visão geopolítica estratégica continental que ninguém mais tem na América do Sul. O outro que tem essa mesma visão é Fidel Castro; porém, ele já não é chefe de Estado, apesar de que eu sempre digo que o líder cubano é o grande estrategista da luta pela segunda e definitiva independência, enquanto que Hugo Chávez é o que leva as grandes ideias aos campos de batalha, e, com isso, avançamos muito. Inclusive, agora, com a entrada da Venezuela ao Mercosul, conseguiu-se criar uma espécie de blindagem contra tentativas de golpe de Estado. Caso a Venezuela permanecesse isolada, considerado um Estado paria, teria sido presa muito mais fácil da direita desse país e do império norte-americano. Agora, não será tão fácil.


Você vê algumas nuvens cinzentas no horizonte do processo revolucionário da Venezuela?

Creio que sim, porque a direita é muito poderosa na América Latina e tem capacidade de enganar as pessoas. E os grandes meios de comunicação têm a capacidade de manipular, enganar, deformar a opinião pública; vemos isso muito claramente na Colômbia. Boa parte dos colombianos compraram o bilhete da Segurança Democrática com uma ingenuidade, como aqui na Argentina compramos o bilhete de ganhar a Guerra das Malvinas. Portanto, temos que levar em consideração que, sim, existem nuvens no horizonte porque o imperialismo não ficará de braços cruzados e tentará fazer algo como, por exemplo, impulsionar uma tentativa de sublevação popular, tentar desestabilizar o governo de Chávez e derrubá-lo.

Buenos Aires, octubre de 2012.


Leia outros textos de Outras Palavras

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Arthur Virgílio vai sair do PSDB?

29.10.2012
Do BLOG DO MIRO, 28.10.12
Por Altamiro Borges


Ex-líder de FHC no Senado, Arthur Virgílio mostrou que tem força em Manaus. Após dizer que daria “uma surra” no ex- presidente Lula e adotar um oposicionismo raivoso, ele se desgastou e perdeu a disputa ao Senado em 2010 para Vanessa Grazziotin (PCdoB). Agora, ele vence as eleições com 65,9% dos votos, derrotando a mesma jovem comunista. O tucano retorna ao cargo que já ocupou com muitas promessas. Ele tem influência nas estruturas de poder e na mídia local. Mas terá muita dor de cabeça na sua gestão.

De cara, Arthur Virgílio terá que enfrentar uma pendenga em seu próprio partido. Dias antes do primeiro turno, ele ameaçou deixar o PSDB porque o governador tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin, ingressou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) contra os incentivos fiscais à Zona Franca de Manaus. Aparentemente “revoltado” – ou era jogo de cena marqueteiro? –, ele afirmou: “Esse partido não tem apetite para disputar o poder... Estou farto. Ganhando ou perdendo, eu vou avaliar se fico no PSDB”.

Na ocasião, O Globo – que acionou seu “calunista” de plantão, Ricardo Noblat, para fazer a campanha do tucano – noticiou que a Adin protocolada no Supremo Tribunal Federal “abriu uma crise nacional no PSDB ao jogar contra uma das poucas candidaturas do partido em vantagem nas eleições municipais... A medida virou mote de campanha dos adversários de Arthur Virgílio”. O jornalão também confirmou que Arthur Virgílio ameaçou “deixar o partido após as eleições, seja qual for o resultado do pleito”.

A Adin continua no STF. Alckmin já disse que não vai retirá-la. O que fará Arthur Virgílio, o novo prefeito de Manaus? Vai manter sua palavra ou era mais um jogo de cena da campanha? Os eleitores de Manaus deveriam cobrá-lo!

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Descubra Jesus

30.10.2012
Do blog GOD RESOURCES


Quem é Jesus? Você pode confiar em suas afirmações? Você entende a verdade sobre Jesus Cristo e como ele é relevante para você?

Jesus pode trazer significado para a vida?

Jesus pode responder às grandes questões da vida: “Quem sou eu?” “Por que estou aqui?” e “Para onde estou indo?” Jesus fez afirmações sobre a vida e o nosso propósito aqui na Terra que precisam ser analisadas antes de o ignorarmos como indiferente ou impotente. Este artigo, “Por que Jesus”, analisa o mistério de por que Jesus veio à Terra e o que isso significa para nós.

Quem é Jesus Cristo?

Diferentemente da pergunta “Deus existe?”, bem poucas pessoas questionam se Jesus Cristo existiu ou não. Geralmente se aceita que Jesus foi de fato um homem que andou na Terra, em Israel, há quase 2.000 anos. O debate começa quando se analisa o assunto da completa identidade de Jesus. Quase todas as grandes religiões ensinam que Jesus foi um profeta, um bom mestre ou um homem piedoso. O problema é que a Bíblia nos diz que Jesus foi infinitamente mais do que um profeta, bom mestre ou homem piedoso.     (leia mais)

Quem é Jesus?

Visite hoje qualquer parte do mundo. Converse com pessoas de qualquer religião. Não importa quão compromissados estejam com sua religião em particular, se souberem alguma coisa de história, terão de admitir que nunca houve um homem como Jesus de Nazaré. Ele é a personalidade mais notável de todos os tempos.

O filme Jesus

Assista ao filme que explica a autêntica vida de Jesus.
Clique no link abaixo e, em seguida, role para baixo para selecionar o filme no seu idioma.
(Clique para assistir ao filme)
**Há uma versão em Português, mas não é uma página de destino Português, você deve rolar para baixo a linguagem. Você pode embutir vídeo em seu próprio site com permissão

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