segunda-feira, 17 de setembro de 2012

DESESPERO DO JORNALISMO DE ESGOTO DA REVISTA VEJA: A guerra da Veja contra o retorno de Lula

17.09.2012
Do portal da REVISTA CARTA MAIOR
Por Marco Aurélio Weissheimer

Do ponto de vista político, a pauta da Veja, já devidamente abraçada pela oposição ao governo federal, parece ter um objetivo claramente definido. No momento em que Lula começa a voltar aos palanques, nas campanhas das eleições municipais, e em que o STF começará a julgar os réus do chamado “núcleo político do mensalão”, a tentativa é de colar uma coisa na outra. Colunistas políticos repercutiram amplamente supostas declarações de Marcos Valério. "Nada impede que uma denúncia seja feita contra Lula mais adiante", sugeriu Merval Pereira, de O Globo.

A revista Veja publicou neste final de semana mais uma de suas bombásticas “denúncias” contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva: “Marcos Valério envolve Lula no mensalão”, diz a publicação. Quase que imediatamente, os colunistas políticos de sempre passaram a reproduzir a “informação” da revista. Cristiana Lôbo tuitou sábado à tarde: “Está instalada a polêmica sobre entrevista de Marcos Valério à Veja. Diz que Lula sabia e que PT deu garantias de punição branda por silêncio”. Detalhe: não havia nenhuma “entrevista de Marcos Valério” na revista. E a própria Veja dizia isso: a reportagem foi “feita com base em revelações de parentes, amigos e associados”. 


O jornalista Ricardo Noblat foi outro que passou a tarde de sábado repercutindo a “denúncia” da revista. Ainda no sábado veio o desmentido do advogado de Valério: “O Marcos Valério não dá entrevistas desde 2005 e confirmou para mim hoje que não deu entrevista para a Veja e também não confirma o conteúdo da matéria”, disse Marcelo Leonardo. Noblat não seu deu por vencido e, pelo twitter, reclamou dos termos do desmentido: “O advogado de Valério diz que seu cliente não confirma as informações publicadas pela Veja. Por que não disse que Valério as desmente?”. Entusiasmado, o imortal Merval Pereira (O Globo) afirmou em um artigo intitulado “Valério acusa Lula”: “os estragos políticos são devastadores, e nada impede que uma denúncia seja feita contra Lula mais adiante”. Merval não mencionou o desmentido oficial do advogado de Valério. 

A tese do “domínio final do fato”

A Folha de S.Paulo correu para dar voz a José Serra que classificou as “denúncias” como graves e defendeu a abertura de investigações. Merval Pereira, fazendo às vezes de jurista, manifestou esperança na tese do “domínio final do fato”, que levou o Procurador- geral Roberto Gurgel a acusar José Dirceu como “o chefe da quadrilha do mensalão”. O jornalista de O Globo escreveu: “Alguns ministros do Supremo deixaram escapar, no início do julgamento, que pela tese do domínio final do fato, se a cadeia de comando não terminasse no ex-ministro José Dirceu, teria forçosamente que subir um patamar e atingir o ex-presidente Lula”.


Já o colunista político Fernando Rodrigues, da Folha de S.Paulo preferiu explorar as possíveis consequências políticas da matéria nas eleições municipais deste ano. Ele escreveu sábado em seu blog: “Do ponto de vista jurídico, o efeito pode ser nulo. O processo do mensalão está em fase de julgamento e não serão mais acrescentadas provas. Do ponto de vista político, a reportagem da revista Veja desta semana pode ter grande impacto na reta final das eleições municipais, sobretudo nas grandes cidades nas quais o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem interesse direto, junto com o PT, em garantir vitórias para alavancar a sigla em 2014”. 

Merval: “nada impede uma nova denúncia”

Mais uma vez, o circuito da “informação” funcionou e o assunto ganhou ampla repercussão pelos “formadores de opinião” de plantão. O funcionamento desse circuito é um tanto peculiar. Denúncias com base factual muito forte, como aquelas relacionadas às ligações do bicheiro Carlinhos Cachoeira com a revista Veja, são solenemente ignoradas. Qualquer denúncia publicada pela revista Carta Capital recebe o mesmo tratamento silencioso. Mas qualquer denúncia da Veja é rapidamente repercutida. Os jornalistas citados acima sequer se dão ao trabalho de dar alguma justificativa para esse comportamento seletivo. Ele parece estar inserido, para usar a tese cara a Merval Pereira no “domínio final dos fatos”. Mas essas observações, é claro, são carregadas de uma certa ingenuidade. Não há razões para supresas nem espantos quanto ao funcionamento desse mecanismo de repercussões.


O artigo de Merval Pereira não deixa nenhuma dúvida sobre o que seria esse “domínio final dos fatos”, ou melhor, quem seria: Luiz Inácio Lula da Silva. O site Brasil 247 afirmou, na tarde de domingo, em texto intitulado “Globo antecipa próxima etapa do golpe contra Lula”: “No seu artigo deste domingo, Merval Pereira toma como verdade a “entrevista” de Veja com Marcos Valério, já negada pelo publicitário, e avisa: ‘Nada impede que uma nova denúncia seja feita mais adiante’. Ou seja: com alguns companheiros condenados e outros presos, Lula terá uma espada no pescoço”. Em outra matéria (“Civita deflagra operação para colocar Lula na cadeia”), o Brasil 247 sustentou que o objetivo da Veja é transformar Lula em réu no STF e impedir que ele volte à concorrer à Presidência da República.

Cristiana Lôbo pede explicações a Noblat

No início da noite de domingo, Cristiana Lôbo pediu a Ricardo Noblat, mais uma vez pelo twitter, para que ele explicasse em que pé estava o assunto: “Passei o fim de semana em Goiânia e não entendo mais a polêmica sobre a não entrevista de M. Valério. Você pode me explicar @BlogdoNoblat ?” E Noblat explicou do seguinte modo (em três tuitadas sucessivas), introduzindo uma novidade, a existência de uma suposta gravação com Marcos Valério: “Veja entrevistou Valério. O advogado dele foi contra. Combinou-se de apresentar a entrevista como conversas de Valério com outras pessoas. E assim saiu a matéria. Ocorre que o advogado de Valério desmentiu que ele tivesse dito o que a Veja publicou. Aí ficou parecendo que a Veja teria inventado coisas e atribuído a Valério. Por isso a direção da revista decide se divulga a fita”.


Do ponto de vista político, a pauta da Veja, já devidamente abraçada pela oposição ao governo Dilma, parece ter um objetivo muito claramente definido. No momento em que Lula começa a voltar aos palanques, nas campanhas das eleições municipais, e em que o STF começará a julgar os réus do chamado “núcleo político do mensalão”, a tentativa é de colar uma coisa na outra. No final da noite de domingo, o Brasil 247 publicou a seguinte síntese sobre o caso, deixando um conselho para o ex-presidente Lula: “No momento em que retorna aos palanques, Lula é alvo de uma tentativa de golpe preventivo. O recado que os opositores transmitem é: “se voltar levará chumbo”. Diante do ataque organizado, o ex-presidente só tem uma alternativa, que é lutar para não ser devorado pelos adversários”. 



Fotos: Instituto Lula 

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BLOG DA CIDADANIA: Uma tempestade no horizonte

17.09.2012
Do BLOG DA CIDADANIA
Por Eduardo Guimarães

Se os republicanos voltarem ao poder nos EUA, a América Latina será varrida por uma onda de tentativas de golpes (“constitucionais” ou não) de Estado que buscará eliminar a independência política e econômica que, ao fim do século XX,  fechou aos norte-americanos  a porta do “quintal” onde colhiam boa parte dos lucros astronômicos que aprofundaram a desigualdade entre aquela nação e o resto do mundo.
Com Obama no poder, há hoje certo recato dos EUA em promover derrubada de governos em democracias mais estáveis como a brasileira, a venezuelana ou a argentina, ainda que democracias em estágio menos adiantado, como a paraguaia ou a hondurenha, já tenham tombado por ação ou omissão dos setores ultraconservadores que os democratas norte-americanos mantém na inteligência e nas forças armadas, entre outros setores.
Ao golpismo brasileiro ainda falta o apoio decidido e garantido do grande irmão nortista. Agora, porém, imagine, leitor, se os setores que estão tentando criminalizar centenas de milhares de adversários políticos com o julgamento do mensalão pudessem contar com o incentivo e o apoio propagandístico e diplomático dos Estados Unidos…
O último fim de semana marcou uma nova etapa do processo desencadeado a partir da subida do julgamento do mensalão à agenda política do país. A acusação da revista Veja a Lula através de uma matéria obscura, cheia de furos e desmentidos – e, ainda assim, comprada acriticamente, até aqui, pelos maiores jornais do país e pela oposição demo-tucana – mostra que uma tempestade político-institucional se avizinha.
Os setores politizados da cidadania que simpatizam com o projeto político-administrativo que venceu eleições em 2002 e não parou mais – e que, hoje, conta com o apoio decidido da esmagadora maioria dos brasileiros, conforme as pesquisas de opinião – estão sendo literalmente acusados por um dos muitos casos de corrupção que envolvem a qualquer grupo político.
Este blogueiro, bem como milhares de leitores desta página, em algum momento certamente já foram acusados pelo que pesa contra algumas dezenas de réus do julgamento do mensalão. Um dos pistoleiros recrutados pelos impérios de comunicação alinhados ao projeto conservador escreve, sem parar, livros que disseminam a tese da corrupção coletiva dos seus adversários políticos.
O maior líder político brasileiro, agora mesmo, é acusado de crimes gravíssimos por grandes meios de comunicação sem que nenhuma prova seja apresentada além da palavra dos acusadores, e um julgamento complexo na Suprema Corte, até aqui maculado por decisões inéditas em termos de severidade e de critérios, é vendido como julgamento de mais de um milhão de militantes políticos.
O julgamento do mensalão está muito longe de ser apenas um processo judicial. É um processo absolutamente político que, para inquietação da democracia brasileira, conta com a conivência da mais alta magistratura nacional, pois seu uso político, inclusive no processo eleitoral, vem crescendo junto a um noticiário formatado para estender a candidatos que nada têm que ver com o julgamento a responsabilidade que pesa sobre os réus oficiais.
Só para não ficar sem exemplo: o candidato a prefeito de São Paulo José Serra está acusando formalmente seu principal adversário hoje, Fernando Haddad, pelo que pesa contra o mal-chamado “núcleo político” do processo do mensalão. Ou seja: com o apoio de grandes meios de comunicação, entre os quais concessões públicas de rádio e televisão, Haddad se torna o 39º réu daquele processo.
Haddad, pois, é apenas um exemplo de todos os outros candidatos do PT que estão sendo  relacionados pela mídia e pelos partidos de direita a um escândalo com o qual não têm relação alguma.
Em uma democracia que funcionasse normalmente, a peça de Serra envolvendo o adversário político em um processo com o qual nada tem que ver seria motivo, ao menos, de suspensão e de concessão de direito de resposta do atingido no horário eleitoral do agressor. Em vez disso, a Justiça Eleitoral pune a campanha de Haddad por contar a verdade, que o tucano descumpriu promessa de não deixar o cargo de prefeito para o qual se elegeu em 2004.
Ainda que, de uns tempos para cá, militares de alta patente não tenham mais dado declarações de viés golpista – que, até há pouco, davam sem parar – ameaçando derrubar o governo, um eventual “sinal verde” da máquina de guerra norte-americana, nos moldes do sinal que foi dado em 1964, bastaria para desencadear um golpe a partir de alguma chicana jurídica como a do mensalão.
A permeabilidade da Justiça brasileira à pressão dos meios de comunicação, por sua vez, permite acreditar que qualquer iniciativa que vise derrubar o governo a partir de alguma denúncia sem provas pode prosperar naquele Poder. Não se pode esquecer que é da Procuradoria-Geral da República a atribuição de processar o presidente – ou a presidenta – da República no Supremo Tribunal Federal…
As forças políticas que se opõem a rupturas institucionais, por sua vez, estão divididas, como sói acontecer com a esquerda desde sempre. Os setores mais ideológicos, como PSOL ou PSTU, formaram um núcleo que não faz distinção entre a centro-esquerda e a direita, atuando, muitas vezes, como linha auxiliar desta. Os sindicatos, há pouco, quase chegaram às vias de fato com o governo petista.
O principal aliado do PT no Congresso, o PMDB, comporta-se, muitas vezes, como adversário. Na CPI do Cachoeira, o partido do vice-presidente Michel Temer serviu de blindagem do esquema Veja-Cachoeira, cujas evidências já chegam a gravações de propostas criminosas de jornalista daquela publicação ao chefe criminoso goiano.
O conluio que vai se formando contra o Partido dos Trabalhadores e o governo Dilma Rousseff, pois, é composto pelo que há de mais experimentado em termos de violação da democracia. Os meios de comunicação que se aliaram à direita têm longa trajetória de atentados contra a vontade popular expressa por eleições, e se mostram dispostos a usar know-how que o país bem conheceu nos idos de 1964.

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