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quarta-feira, 21 de março de 2012

Respeito que negam a Lula sobra entre o povo e ficará na história

21.03.2012
Do BLOG DA CIDADANIA, 19.03.12
Por EDUARDO GUIMARÃES

Ah, injustiça, velha decrépita, cínica, de boca desdentada, língua afiada e olhar míope. Acredita-se exuberante, esguia, vigorosa, sábia e imortal, mas é disforme, obesa, frágil como um castelo de areia, incapaz de se entender e fugaz como a vida de seus profetas.
Coleciona certos inimigos poderosos, outros nem tanto, mas todos eternos e infatigáveis. O tempo e a espada da verdade estarão eternamente sobre a sua cabeça, assim como aqueles que não a toleram jamais lhe deixarão os calcanhares.
Jamais se move por moto próprio, tendo que ser empurrada, mesmo sendo por um preposto do autor. E quantos se acotovelam a querer a preposição do injusto…
Leio um entre essa chuva de textos que inundam a comunicação todos os dias para tentar, como por mágica, desfazer a realidade. Não há dia em que um escriba não trate com abissal desrespeito aquele que, por mérito intransferível, ganhou o coração do povo e o panteão da história.
Esses escribas tratam-no como a um criminoso. Não fazem nenhuma concessão à sua exitosa passagem pelo governo da República, não lhe admitem um só mérito, negam-lhe o mínimo respeito.
O pobre diabo que escreveu o texto revoltante por certo será esquecido dez minutos após o passamento, à exceção de amigos e parentes. Mas se refere àquele que se tornou a uma lenda como se não lhe chegasse aos pés. Talvez por acreditar que um homem seja menos do que outro.
Eis que a indignação arrefece. Lembrar aos profetas da injustiça que nada furtam além da própria oportunidade de terminar os dias ombreados à justiça e à verdade é um bálsamo para a alma. Escrevi estas linhas em causa própria. Refeito, agradeço a atenção.

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A extrema direita e os atentados na França

21.03.2012
Do blog ESQUERDOPATA, 
Por Mauro Santayana, JB online


Os novos nazistas são os velhos nazistas e já não se inibem em manifestar-se.



A polícia francesa se encontrava, na noite de ontem, mobilizada a fim de identificar o homem que matou quatro pessoas, entre elas três crianças, e feriu outras, em uma escola judaica de Toulouse. Houve, tanto em França, como em Israel, preocupação em culpar os demônios do momento, ou seja, os “terroristas muçulmanos”. Antes de qualquer manifestação das testemunhas, os meios de comunicação e os porta-vozes oficiais quiseram inculpar os islamitas. Coube aos próprios policiais relacionar o atentado contra a escola judaica de Toulouse à morte de dois paraquedistas franceses, e graves ferimentos em dois outros, na mesma região, nestes mesmos dias, e de forma semelhante.

O detalhe que Tel Avive esqueceu: os dois paraquedistas mortos em Montauban, a 40 quilômetros ao norte de Toulouse, quinta-feira passada, eram muçulmanos, do norte da África: Abel Chenouf e Mohamed Legouard. Um terceiro muçulmano, Imad Ibn Ziaten também militar e igualmente paraquedista, fora alvejado na mesma cidade de Toulouse, no domingo anterior. Em todos os atentados, o assassino usava uma motocicleta. A arma que matou os soldados franceses é do mesmo calibre da que foi usada na escola judaica, ontem pela manhã. Apesar disso, há ainda quem tente atribuir os dois atentados aos muçulmanos. Quando examinamos os fatos com ódio, ou com leniência, é difícil ver as coisas em sua clareza. E há quem atribua os crimes aos muçulmanos em razão de seu próprio e calculado interesse.

Tudo é possível, em atos semelhantes, mas os primeiros indícios relacionam a brutalidade do matador de crianças judaicas à rearticulação da extrema direita racista na Europa de hoje. O atentado de Toulouse lembra – ainda que o número de vítimas tenha sido menor – a chacina da Noruega, plenamente assumida por um neonazista. As elites européias repetem os mesmos movimentos econômicos, políticos e culturais que promoveram, nos anos 20 e 30, o nazifascismo no continente, com os resultados conhecidos. Quando perceberam que Hitler tinha seu próprio projeto de ditadura universal, era quase tarde. Só a resistência desesperada dos russos, na defesa de sua pátria, pôde conte-los e empurra-los de volta a Berlim, onde foram vencidos. É de se ressaltar, também, o heróico sacrifício dos ingleses, durante os ataques aéreos sistemáticos a Londres e a outras cidades.

Os novos nazistas são os velhos nazistas e já não se inibem em manifestar-se. Um membro do SPD, Thilo Sarrazin, nascido no mesmo ano da derrota alemã, 1945, publicou violenta proclamação racista contra os muçulmanos – por ironia, seu sobrenome, vindo do francês, significa Sarraceno. Não poupou, como bom nazista, os judeus, insistindo na tese de que eles têm um gene particular e único. Seu livro “Deutschland Schafft Sich Ab” (A Alemanha se destrói) está sendo dos mais vendidos nos país. Apesar do caráter nazista do livro, o SPD ainda não o expulsou de seus quadros. Depois da morte de Willy Brandt, muitos socialistas alemães em nada diferem de seus adversários da CDU.

O caso mais grave, neste momento, é o da Hungria, onde o primeiro ministro Viktor Orban retorna aos anos terríveis da ditadura de Horthy, com a censura à imprensa e o racismo ensandecido. As milícias de seu partido, o “Jokkib”, semelhantes às S.A. dos nazistas, estão caçando ciganos a porretadas e aterrorizando as aldeias do país. Na Itália, os neofascistas atuam com toda ousadia, desde que Berlusconi, à frente de seu partido de extrema direita, assumiu o poder.

Para eles, judeus e muçulmanos pertencem a um só grupo de “inferiores” que devem ser eliminados, em nome da pureza dos soi-disant arianos. Em nosso país há também os que defendem a pureza racial européia e o seu direito a nos dominar. É hora de contê-los, antes que se faça tarde. Não podemos tolerar nenhuma violência racista, seja contra judeus ou muçulmanos, negros ou nordestinos. Se outra razão não houvesse, a imensa maioria de brasileiros é constituída de mestiços, e temos nos dado muito bem com essa mescla de sangues e de culturas diferentes

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TV Cultura: nova privataria em curso


21.03.2012
Do BLOG DO MIRO, 00.03.12
Por Joaquim Ernesto Palhares, no sítio   Carta Maior: 

 

A ninguém mais é dado o direito de supor que o colapso da ordem neoliberal conduzirá, mecanicamente, à redenção da esfera pública na vida da sociedade. O que se verifica em muitos países, sobretudo na Europa, é que o pior pode acontecer. A imensa reconstrução a ser enfrentada ainda espera por seus protagonistas históricos. Em muitos casos, sequer existe o que recuperar. 

A crise realçou carências antigas; respostas nunca antes contempladas de fato, aguardam uma equação inovadora.

Esse é o caso, por exemplo da democratização da mídia. Em São Paulo, nesse momento, o esfarelamento da TV Cultura, uma emissora pública que nunca assumiu integralmente a sua vocação, é uma referência dos desafios a superar.

A exceção de um pequeno hiato nos anos 80, quando, inclusive, alcançou índices de audiência de até 14 pontos, a televisão pública paulista teve seus objetivos desvirtuados pela asfixia, ora financeira, ora política. Ou, como acontece agora, espremidos pelo duplo torniquete de constrangimentos institucionais e econômicos.

Dela pode-se dizer que até hoje não superou uma crise de identidade que conduz a permanente oscilação entre ser um canal estatal, um veículo público ou um arremedo amesquinhado de emissora comercial.

A longa agonia da TV Cultura de São Paulo está longe de ser um problema apenas financeiro, como se alardeia, e menos ainda de natureza técnica. Nichos de qualidade indiscutível comprovaram a capacidade dos profissionais que ali passaram de gerar uma programação diferenciada, irretocável competência. Suas raízes são políticas, agravadas pelo peso de uma agenda histórica que hoje definha. Aqueles que decretaram a irrelevância da esfera pública na construção da sociedade brasileira e de seu desenvolvimento não poderiam jamais ter um projeto coerente de emissora de televisão, voltada para os interesses gerais da cidadania.

Esse é o cerne da montanha-russa vivida pela TV pública paulista nas últimas décadas. Ele explica por que, no Estado mais rico da federação, uma emissora criada há 45 anos, ainda não sabe a que veio; não tem laços orgânicos com a cidadania; não dispõe de estrutura estável de financiamento e, sobretudo, continua a mercê do arbítrio de governantes de plantão que nomeiam e cortam cabeças ao sabor de suas conveniências fiscais e, pior que isso, eleitorais. 

A crise da TV Cultura, é forçoso repetir, alinha-se a um processo corrosivo que, por quase três décadas, hostilizou, desdenhou, induziu ao sucateamento e estigmatizou aos olhos da opinião pública tudo o que não fosse mercado; tudo o que não fosse interesse privado, que não refletisse uma eficiência medida em cifras e valores negociados em bolsa, foi desqualificado e loteado.

Nesse funeral da coisa pública, seria um milagre se a emissora de TV do Estado que se notabilizou como a trincheira ideológica desse credo, tivesse outro destino que não o recorrente arrastar de demissões, o liquidacionismo de acervos, programações e talentos. Tudo a desembocar num eterno e desairoso recomeço rumo a lugar nenhum.

A essa montanha desordenada de impulsos irrefletidos agrega-se agora um novo golpe: o loteamento da grade de programação pública aos veículos de mídia privada, alinhados à doutrina e aos interesses dos ocupantes do Palácio dos Bandeirantes. 

Reconheça-se a pertinência de um espaço ecumênico de debate jornalístico numa televisão pública, como contraponto à insuficiência - para dizer o mínimo - do noticioso oferecido pela maioria das emissoras comerciais. 

Não é disso, porém, que se trata. Quando se concede, unilateralmente, a uma corporação midiática, caso da Folha de São Paulo, 30 minutos semanais, em horário nobre, o que se sugere é uma apropriação do sinal público pela endogamia de interesses que não são os da sociedade. 

A construção de uma verdadeira emissora pública de televisão em São Paulo - e no Brasil - não é um capricho ideológico, mas uma necessidade da democracia brasileira. Trata-se de um serviço que a lógica privada do lucro não se dispõe, nem tem condições de atender. 

Não é fazendo da TV Cultura um anexo do 'jornalismo amigo' produzido na Barão de Limeira que esse objetivo será alcançado.

O desmonte da TV Cultura tem que ser interrompido. Mais que isso, hoje ele tem condições de ser contrastado. O colapso da hegemonia neoliberal reforçou o discernimento da sociedade para a urgente necessidade de se construir exatamente o inverso do que se arquiteta sob as asas da Fundação Padre Anchieta. Ou seja, substituir a dominância dos interesses privados pela regulação democrática das demandas e aspirações da sociedade.

Em São Paulo, o primeiro passo nessa direção tem que ser dado agora. É preciso impedir que uma privatização anômala do sinal público seja consumada na TV Cultura.
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SAUDOSOS DA DITADURA: Reitoria da USP rejeita Manifesto, mas não pode calar dissidentes com carteirada

21.03.2012
Do blog de Luiz Carlos Azenha
Por Conceição Lemes

Ivan Seixas: Não se pode calar as vozes dissidentes na USP com carteiradas
Em 3 de outubro de 2011, nós denunciamos aqui: USP homenageia vítimas da “Revolução de 1964″?
Como num verdadeiro abracadabra, essa placa apareceu na Cidade Universitária no final do ano passado. Mais precisamente na Praça do Relógio, em frente ao anfiteatro, ao lado do bloco A do CRUSP. Ela anunciava que ali estava começava a ser feito um Monumento em Homenagem a Mortos e Cassados na Revolução de 1964.
Alunos, professores e funcionários administrativos da USP ficaram sem entender. Nem mesmo professores que trabalham com direitos humanos tinham ciência do que realmente se tratava.  Não se tem ideia do que simbolizará nem como será o seu desenho.
“Se o monumento é para as vítimas da ‘revolução’, então ele não é da esquerda, e sim de eventuais torturadores que morreram, como o Fleury [delegado Sérgio Paranhos Fleury]”, questionou na época, aoViomundo, o professor Lincoln Secco, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
A cientista social Maria Fernanda Pinto observou: “Como instituições de Direitos Humanos propõem um monumento aos que foram mortos pela ditadura com esse nome de ‘Revolução de 64’? Revolução de 64 é a pauta da direita. Para nós, foi um golpe militar-civil. E por que pontuar 1964? É como se os 20 anos da ditadura não tivessem existido. Só que existiram e muitos tombaram”.
“O que todos nós esperamos é que haja um monumento em memória das vítimas do Golpe de 64 nanossa universidade”, salientou então o professor Lincoln Secco. “Proporcionalmente, a USP foi uma das instituições que mais perderam alunos e professores assassinados.”
A  reportagem do Viomundo foi postada no dia 3 de outubro  às 16h40. Nas horas seguintes a placa foi pichada.
“Quando eu passei por lá à noite, já estava escrito golpe”, contou Alana Marquesini, 23 anos, estudante de Ciências Políticas da USP. “Aí, escrevi ‘ditadura!’. Voltei hoje  e acrescentei ‘massacre’.”
“Escrevi ditadura e massacre, porque  me agrediu muito como cidadã, brasileira, estudante de Ciências Políticas”, prossegue Alana, que viu a placa pela primeira vez na terça-feira da semana passada. “Fiquei indignada e fui levando outras amigas. Só quando as pessoas viam é que se davam conta do absurdo. Um erro crasso. ”
A ministra Maria do Rosário, Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, indignada, detonou:  Essa placa na USP é um absurdo.
Em seguida, a sua assessoria de imprensa nos enviou por e-mail a sua posição: Farei contato com o reitor para mudar imediatamente a inscrição na placa”.
A Petrobras, também por e-mail, informou que o nome do projeto que patrocina era outro.
No dia 4 de outubro à tarde, a Reitoria da USP, por meio da sua assessoria de imprensa, nos enviou por e-mail, o seguinte esclarecimento:
“Houve um erro na inscrição da placa. O nome correto é: Monumento em Homenagem aos Mortos e Cassados no Regime Militar. Trata-se de um projeto do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP. A correção da placa será feita o mais breve possível.
Por favor, peço a gentileza de que inclua este esclarecimento em sua matéria, pois o NEV é um grupo de pesquisa reconhecimento nacional e internacionalmente e não pode ser exposto dessa forma por um erro na placa da obra”.
Criado em 1987, o Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEVUSP) tem como um dos seus coordenadores o professor Sérgio Adorno. O professor Paulo Sérgio Pinheiro, especialista em direitos humanos, também integra o núcleo, onde atua como pesquisador associado.
Foi ele quem nos endereçou em 6 de outubro, através da assessoria de imprensa do NEV, uma nota de esclarecimento intitulada Memorial aos Membros da Comunidade USP – Vítimas do Regime da Ditadura Militar – 1964/1985 da qual destacamos dois trechos abaixo ( íntegra pode ser lida aqui):
Em 2010, o Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV/USP) teve a iniciativa de propor à Reitoria da Universidade de São Paulo a construção de um Memorial em homenagem aos membros da comunidade USP que foram perseguidos durante o regime autoritário que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985. A Reitoria manifestou apoio ao projeto, inclusive comprometendo-se a ceder a área em terreno da Universidade.
……
Para viabilizar esta homenagem o NEV/USP, com apoio da Reitoria, associou-se à Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, à FUSP e à Petrobrás. Esse consórcio forneceu os fundos necessários à obra física do Memorial (sic).
……
Como a nota de esclarecimento era insuficiente para colocar certos pingos nos is, solicitamos mais esclarecimentos ao professor Paulo Sérgio Pinheiro e ao NEV. Apesar de vários e-mails (a ambos) e telefonemas (à assessoria de imprensa do Núcleo), eles não responderam as nossas perguntas.
Aliás, num e-mail que o professor Paulo Sérgio enviou disse:
Conceição,
espeto que vs ajudem a salvrbo mmorial depois da controversia  se conta que nunca na Usp e a primeira vez que um reitor faz um homenagem aos cassados,mortos e presos professores,alunos e funcipnaros da Usp 21 anos depois do fim d ditadura…” (sic)
Eu repliquei: “Como ajudar a salvar o memorial, se a Reitoria, o NEV e o senhor me sonegam as informações necessárias para esclarecer definitivamente essa história?”
Quase cinco meses depois, o Memorial às Vítimas da ditadura na USP está de volta ao debate. É um dos pontos abordados no Manifesto pela Democratização da USP:
Nós, perseguidos pelo regime militar, parentes dos companheiros assassinados durante esses anos sombrios e defensores dos princípios por eles almejados assinamos este manifesto como forma de recusa ao monumento que está sendo construído em homenagem às chamadas “vítimas de 64” na Praça do Relógio, Cidade Universitária, São Paulo.
Um monumento na USP já deveria há muito estar erguido. É justo, necessário, e precisa ser feito. Porém, não aceitamos receber essa homenagem de uma reitoria que reatualiza o caráter autoritário e antidemocrático das estruturas de poder da USP, reiterando dispositivos e práticas forjadas durante a ditadura militar, tais como perseguições políticas, intimidações pessoais e recurso ao aparato militar como mediador de conflitos sociais. Ao fazer isso, essa reitoria despreza a memória dos que foram perseguidos e punidos pelo Estado brasileiro e pela Universidade de São Paulo por defenderem a democratização radical de ambos.
Monumento e manifesto constam também do USP Destaques 56. Na matéria  “A Democracia na USP”, o boletim da Assessoria de Imprensa da Reitoria, chama os signatários de autointitulados “perseguidos pelo regime militar, parentes de companheiros assassinados… e defensores os princípios por eles almejados”.
Entre os chamados autointitulados “perseguidos pelo regime militar, parentes de companheiros assassinados…”, estão várias vítimas uspianas e não uspianas da ditadura, como  Criméia Alice Schmidt de Almeida, Edson Teles, Janaína Teles, Maria Amélia de Almeida Teles, Takao Amano, Ivan Seixas, Leonel Itaussu, Benjamin Abdala Junior, Emília Viotti da Costa, José Damião de Lima Trindade, Maurice Politi, Wolfgang Leo Maar.
Há familiares que assinaram em nome de pessoas assassinadas pela ditadura: André Grabois, Bento Prado Jr, Caio Prado Jr, Helenira Resende de Souza Nazareth, Heleny T. F. Guariba, Luiz Eduardo Merlino, Zuzu Angel.
Há vários professores da USP, como Marilena Chauí, João Adolfo Hansen, Fábio Konder Comparato, Luiz Costa Lima, Ismail Xavier, Paulo Eduardo Arantes, Nabil Bonduki.
Ivan Seixas, presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – São Paulo (Condepe-SP) e uma das vítimas da ditadura, também assina.  Embora o Manifesto pela Democratização da USP lide com questões específicas da universidade e Ivan não tenha ligação com elas, ele foi um dos primeiros signatários. Daí a nossa entrevista:
Viomundo – Por que você assinou o Manifesto?
Ivan Seixas – Assinei, porque acho justa e legítima a preocupação da comunidade uspiana com a transparência e o resgate histórico. Não acho correto o uso da expressão “autointitulados perseguidos…” que está na nota da administração da USP. Creio que devem ter a palavra não apenas os autointitulados democratas, mas todos os preocupados com temas relevantes para a vida do país. Afinal, a vida acadêmica é muito relevante para o Brasil.
A ideia da existência de autointitulados democratas leva à autoritária e arrogante premissa de que os adversários não têm o direito de falar. Nunca é demais lembrar que autointitulados democratas se calaram (ou aplaudiram, mesmo!), em 1964, quando houve o assalto ao poder e foi implantada a ditadura que infelicitou o país por 21 anos longos anos. Nesses anos terríveis, as universidades perderam sua autonomia, a PM e as outras polícias da ditadura invadiram a USP e outras universidades, foram implantadas as DSIs (Divisão de Segurança e Informação), estudantes foram perseguidos e proibidos de estudar, professores foram demitidos e proibidos de trabalhar.
Autointitulados democratas venderam a Anistia Ampla, Geral e Irrestrita, as Diretas Já! e a exigência por punição aos torturadores.
Neste momento delicado da vida nacional, não podemos dar a ninguém o direito de tentar calar as vozes dissidentes com carteiradas, poderes burocráticos ou autoproclamações autoritárias.
Assinei, portanto, manifesto não apenas por causa da construção do monumento às vítimas da ditadura na USP.
Viomundo — O que acha de o boletim da Reitoria da USP ter desqualificado os que assinaram o manifesto?
Ivan Seixas – Aos 16 anos de idade, fui capturado com meu pai, o operário mecânico Joaquim Alencar de Seixas. Fomos torturados juntos, e ele foi assassinado sob torturas no DOI/CODI- II Exército. Fiquei em poder dos torturadores por quase seis anos seguidos.
Minha mãe e duas irmãs também foram capturadas e permaneceram em poder da ditadura, autointitulada democrática, por um ano e meio, sem qualquer acusação. Uma de minhas irmãs sofreu violências sexuais. Minha casa foi saqueada pelo militares.
Há, portanto, entre os que assinam o manifesto gente que foi perseguida pela ditadura e é parente de assassinados pela ditadura. Desqualificar os signatários é tentar calar a voz de adversário não é coisa de verdadeiros democratas.
Viomundo – Considerando o clima de perseguição existente na USP nos últimos tempos, você acha que os uspianos vítimas da ditadura gostariam de ter seus nomes ligados à atual administração?
Ivan Seixas – Assim como a história não pertence a quem quer que seja, os memoriais em homenagem às vítimas da ditadura também não pertencem às administrações. Esse memorial é da comunidade uspiana e assim deve ser encarado. O alunado, o professorado e os funcionários devem se apropriar dele como pertencente à comunidade uspiana.
Viomundo — Por sugestão do professor Fábio Konder Comparato, os organizadores do Manifesto junto a outras entidades e grupos irão propor a instalação de uma Comissão da Verdade na USP. Ela terá o papel de apurar os excessos, delações e perseguições ocorridos durante o regime militar, com a conivência ou participação direta de membros da comunidade universitária da época.  O que acha de uma Comissão da Verdade para a USP, já que foi uma das universidades mais atingidas pela ditadura?
Ivan Seixas – A rigor, todas as universidades devem instalar Comissões da Verdade, pois as arbitrariedades cometidas dentro delas nunca foram apuradas. Do mesmo modo, sindicatos e associações de classe também devem fazê-lo, pois os olhos e braços da ditadura estiveram presentes em todos os lugares e seus reflexos e herdeiros ainda estão entre nós.
A USP teve um grande número de pessoas atingidas pelo decreto 477, muita gente foi presa dentro do campus e os registros de mortes de uspianos, alunos (as) e professores (as) nos obriga a exigir a instalação de uma Comissão da Verdade.
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