segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Os assassinos do projeto social democrata europeu

27.02.2012
Do site da Agência Maior, 26/02/2012
Por J. Carlos de Assis (*)
Internacional
A direita dos dois lados do Atlântico jamais aceitou o projeto social democrata, de um lado, ou politicamente liberal, de outro. Na realidade, também nunca teve, antes, poder político absoluto para impedi-lo ou revertê-lo. Agora, o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, na mais clara demonstração de que seu mandato é político, e não técnico, ousa decretar a necessidade da morte do projeto social democrata para salvar a produtividade europeia. O artigo é de J. Carlos de Assis.
O projeto social democrata europeu foi o grande responsável pelo equilíbrio social e político da Europa ao longo dos anos de reconstrução do pós-guerra e de mais de quatro décadas de guerra fria. Hoje, sob o pretexto da crise fiscal, está sendo intencionalmente destruído pela direita política do continente que conseguiu fazer encastelar nos postos-chave da União Europeia e nos organismos multilaterais de regulação financeira verdadeiros assassinos da ordem social progressista que, mais do que várias divisões de tanques, havia sido a força de contenção do comunismo na Europa enquanto houve ameaça soviética.

Lembro-me do tempo em que Berlim Ocidental era a vitrina contra a qual a propaganda capitalista expunha as fantásticas vantagens de ordem social e econômica do Ocidente comparada com a vizinha relativamente atrasada do Leste. A despeito do fantástico progresso material norte-americano, não eram os Estados Unidos, mas os Estados sociais democratas, trabalhistas ou socialistas europeus que se apresentavam como modelos de sociedade em face do regime soviético. A agressividade intrínseca da sociedade americana, com seu ritmo exacerbado de competição, não era algo a ser emulado. A Suécia generosa, sim.

É todo esse edifício social democrata que vemos agora ser demolido pela direita que assumiu e detém o poder nos Estados principais da Comunidade Europeia. Politicamente, jamais se viu algo parecido antes. As sociedades europeias, simultaneamente, entregaram o poder à direita na Alemanha, na França, na Inglaterra e na Itália, sem falar nos países menores. Varreram do mapa, literalmente, os progressistas. Claro, o que me espanta, junto com essa convergência, é a extraordinária incompetência das esquerdas e dos progressistas em apresentarem às sociedades uma alternativa política ao desastre que se aprofunda.

Os assassinos da ordem social democrata juntaram políticos e tecnocratas para eliminar as poucas dessas características que o Estado norte-americano, a mais atrasada entre as democracias sociais, tentou construir ao longo do tempo - aí incluída a lei de proteção à saúde em favor dos mais pobres que Barak Obama, com extrema dificuldade, fez aprovar no início do seu mandato. A aprovação dessa lei suscitou ódio dos ricos, e muitos republicanos mantêm na agenda o propósito de eliminá-la. Curiosamente, se observarmos o noticiário e os comentários da grande mídia brasileira, essa questão sequer existe. Não é um fato jornalístico.

Obama também foi bloqueado numa segunda tentativa de levantar a economia por estímulos fiscais de estilo keynesiano, o que teria sido um benefício para os mais fracos da sociedade (desempregados) e um reforço para a recuperação econômica. Nossa mídia não vê isso como uma questão social ou econômica, mas estritamente política. Registra que os republicanos não querem estímulos fiscais, mas não analisa por que os republicanos não os querem. O propósito aqui, assim como na Europa, é claro: destruir o Estado politicamente liberal (não confundir com economia liberal) herdado do New Deal de Roosevelt.

A direita dos dois lados do Atlântico jamais aceitou o projeto social democrata, de um lado, ou politicamente liberal, de outro. Na realidade, também nunca teve, antes, poder político absoluto para impedi-lo ou revertê-lo. Na época de Reagan e Thatcher, por exemplo, a direita democrata cristã assumiu o poder na Alemanha mas os sociais democratas e socialistas estavam no poder na França e na Itália. Seus líderes converteram-se ao neoliberalismo, mas enquanto havia União Soviética a direita social não se atrevia a desmontar o Estado do bem-estar social, exceto na margem, como a Inglaterra.

Agora, o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, na mais clara demonstração de que seu mandato é político, e não técnico, ousa decretar a necessidade da morte do projeto social democrata para salvar a produtividade europeia. Só o conforto de se ver apoiado pela direita política que domina inteiramente a Europa poderia justificar essa arrogância. É claro, porém, que isso não é o fim da história. Por muito menos a Europa se incendiou em 68. O que talvez retarde a extensão do incêndio a partir da Grécia seja a falta de alternativa apresentada pelas esquerdas tradicionais.

Entretanto, mais que as contradições no plano estritamente político, as contradições ao nível das forças produtivas acabarão por arrastar a Europa para uma solução de sua crise seguindo o curso de leis dialéticas tão bem descritas por Marx. É que não existe, em face da atual crise, uma nação hegemônica (como foram os EUA no pós-guerra) com força para por ordem na Europa e no mundo segundo seus próprios ditames. Qualquer solução, por mais que tarde, terá de vir pela via da cooperação interna e internacional, talvez no G-20. Do contrário, haverá instabilidade permanente, e isso é prejudicial também para os ricos e poderosos. (Note-se que o poderoso presidente da Federação Industrial da Alemanha está propondo um Plano Marshall para a Grécia. Sintomaticamente, nossa mídia também não fala nisso.)

O projeto social democrata, sob a égide do Mercado Comum Europeu, foi bom para pobres e para ricos. Mas jamais foi aceito pela direita. Surgiu basicamente de uma coalisão do centro (Democracia Cristã na Alemanha e na Itália) com socialistas (França), ficando de fora a esquerda revolucionária (comunistas). Agora, sob a égide da regressiva União Europeia, o centro europeu (Democracia Cristã) vergou em direção à direita (liberais e neoliberais) em toda a Europa, formando o consenso perverso que objetivamente não é bom nem para os pobres (por óbvio) nem mesmo para os ricos, por causa da instabilidade. (No Brasil, o projeto social democrata nunca vingou: o antigo PSD era dominado por oligarquias e o PSDB de Fernando Henrique jamais passou de uma grosseira mistificação neoliberal.)
As próximas eleições americanas são cruciais. Se Obama reeleger-se e eleger junto um Congresso majoritariamente democrata, talvez o projeto social democrata na Europa se salve por pressão americana. Se reeleger-se sem maioria, nada poderá fazer. Se perder, é possível que o processo dialético seja acelerado, e a sociedade, num momento seguinte, reaja finalmente ao neoliberalismo e ponha para fora, nos EUA e na Europa, seus representantes políticos a fim de que se inaugure uma nova ordem. No intervalo disso, teremos o caos. E, no caos, pode ser que aconteçam coisas tão estúpidas como um bombardeiro de Israel ao Irã!

(*) Economista, professor da UEPB, presidente do Intersul, e coautor, junto com o matemático Francisco Antonio Doria, de “O Universo neoliberal em desencanto”, recém-lançado pela Civilização Brasileira. Esta coluna sai simultaneamente no site Rumos do Brasil e no jornal Monitor Mercantil.
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Fonte:http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19662

Candidatura Serra revela desdém pela inteligência do paulistano

27.02.2012
Do BLOG DA CIDADANIA
Por Eduardo Guimarães

A recém-anunciada decisão do ex-governador tucano José Serra de disputar mais uma vez a prefeitura de São Paulo revela seu mais completo desprezo pela inteligência da maioria do povo paulistano.

Serra tem lá suas razões para acreditar que a maioria dessa população é incapaz de assoviar e amarrar os sapatos ao mesmo tempo. Até hoje, há muita gente aqui que recita com orgulho o bordão de que “Maluf rouba, mas faz”, apesar de ser um ladrão que não pode nem sair do Brasil por ser procurado pela Interpol.

São Paulo, quase sempre, vota no pior. Em 1985, elegeu Jânio Quadros contra o então progressista Fernando Henrique Cardoso. A prefeitura de Jânio fundou máfias como a dos fiscais e fez a qualidade de vida despencar na cidade.

A devastação nas finanças paulistanas e a paralisação dos serviços públicos foi de tal ordem que, em 1988, ocorreu um fenômeno raro na capital paulista: para consertar o desastre janista, o paulistano elegeu a primeira de duas mulheres petistas, Luiza Erundina.

Por motivos ideológicos, a imprensa paulista fustigou o governo Erundina, que saneara as finanças e implantara programas sociais revolucionários, e trabalhou intensamente pela primeira vitória eleitoral legítima de Paulo Maluf a um cargo no Poder Executivo.
Com a ajuda sobretudo do jornal O Estado de São Paulo, Maluf se elege prefeito em 1992 e consegue eleger o sucessor, Celso Pitta, em 1996. Os dois governos produzem um desastre tão completo que, em 2000, uma cidade novamente falida coloca uma petista de novo no poder para consertar o que direita fizera.
Marta Suplicy saneia novamente as contas da prefeitura, implanta programas sociais revolucionários como Erundina e, apesar de terminar seu mandato bem-avaliada pela maioria dos paulistanos, estes elegem novamente um governo conservador.
Em 2004, o tucano José Serra se elege prometendo que não faria do cargo de prefeito um trampolim para voos políticos mais altos, descumpre a promessa abandonando a prefeitura nas mãos do vice, Gilberto Kassab, e, apesar disso, este se elege prefeito em 2008.

Os paulistanos justificaram o voto no indicado de Serra, apesar de ele ter mentido por escrito ao prometer não deixar o cargo de prefeito caso fosse eleito, com a premissa de que queriam colocar o “competente” tucano em uma posição ainda melhor.

É neste ponto que surge novo teste para a inteligência do povo de São Paulo. Segundo a última pesquisa Datafolha sobre a aprovação do prefeito que Serra vendeu aos paulistanos, sua administração, como a de outros prefeitos conservadores, tem sido um desastre.

A popularidade de Gilberto Kassab chegou ao fundo do poço. A pesquisa foi realizada nos dias 26 e 27 de janeiro último e detectou que só 22% dos eleitores aprovam a atual gestão, enquanto que 37% consideram-na péssima ou ruim.

Para entender por que Kassab é tão mal avaliado, há que olhar para o Índice de Desenvolvimento Humano da capital paulista em comparação com outras capitais do Sul e do Sudeste, com as quais cabe comparação.

 Como se vê, a cidade mais rica da América Latina chegou à penúltima colocação entre as capitais do Sul e do Sudeste, acima apenas de Belo Horizonte. A qualidade de vida em São Paulo vem caindo ano a ano devido às loucuras eleitorais que a população praticou com Janio, Maluf, Pitta, Serra e Kassab.

Para todos esses, a prefeitura da capital paulista representou apenas um trampolim político. Atualmente, Kassab cuida muito mais do partido que criou (PSD) do que da administração da cidade.

Ora, pela lógica, se Serra indicou Kassab – assim como Maluf indicou Pitta – e a indicação se revelou desastrosa, a população paulistana deveria fazer com o tucano o que fez com Maluf em 2000, quando lhe negou a eleição por ter indicado um prefeito que fez um mau governo.

Vale lembrar que, naquele ano, a imprensa negou apoio ao candidato da direita. Estadão, Folha e Veja apoiaram Marta em 2000, pois São Paulo estava em verdadeiro estado de calamidade.

Este ano, porém, mais uma vez Estadão, Folha de São Paulo e revista Veja devem trabalhar intensamente pela eleição do candidato da direita, assim como trabalharam pela eleição de Jânio, de Maluf, de Pitta, de Serra e de Kassab.

Por outro lado, a queda progressiva da qualidade de vida pode ocasionar o que ocorreu quando a cidade elegeu Erundina e Marta. Após dois governos desastrosos como o de Maluf e o de Pitta, a população, em tese, poderia optar por eleger um petista de novo para arrumar a casa, ainda que seja para entregá-la de novo à direita na eleição seguinte.

Todavia, há um fenômeno na eleição deste ano que inexistiu quando as duas mulheres petistas se elegeram prefeitas.

O engajamento da imprensa na candidatura tucana deve ser muito maior do que foi na de Maluf em 1992 e na de Pitta em 1996. Será como na de Serra, em 2004, e na de Kassab em 2008.

O ponto fora da curva, porém, é a rejeição a Serra, que explodiu nos últimos anos concomitantemente à degradação da qualidade de vida gerada pela eleição de um prefeito como Kassab, que governa nas horas vagas, entre uma articulação política e outra.
E ainda restam as implicações do livro da Privataria tucana no processo eleitoral paulistano, mas esse assunto merece um post só para si…
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Fonte:http://www.blogcidadania.com.br/2012/02/candidatura-serra-revela-desdem-pela-inteligencia-do-paulistano/

DOM ROBINSON CAVALCANTI, O CRISTÃO E A POLÍTICA

27.02.2012
Do Youtube,com, 23.04.2010
Por Dom Robinson Cavalcanti
Fonte:http://www.youtube.com/watch?v=X05y48xSrMU

O QUE É O PARTIDO DA IMPRENSA GOLPISTA?

27.02.2012
Postado por Irineu Messias

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Fonte: Bessinha

Visita de Dilma ao CE ocorre sob clima tenso

27.02.2012
Do BLOG DA FOLHA
Publicado por José Accioly


(Foto: Ricardo Stuckert Filho/PR)

AE – A visita da presidente Dilma Rousseff ao Ceará nesta segunda-feira (27) começou sob um clima político ruim. Ao chegar a Maracanaú, na região metropolitana da capital cearense, para anunciar investimentos na implantação da linha leste do metrô, a presidente chegou a ser recebida sob aplausos. Mas o mesmo tratamento não foi dispensado à prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins (PT); e ao governador do Ceará, Cid Gomes (PSB), que foram recebidos sob clima de tensão. Maracanaú é governada pelo PR, de oposição à aliança PT-PSB.

 
Luizianne não tinha presença confirmada no evento. Quando chegou recebeu vaias e até tentou discursar, mas o público não abriu espaço para que ela falasse. Sob forte chuva, a tensão foi maior em relação ao governador Cid Gomes (PSB), que foi recebido por uma plateia que gritava: “ditador, ditador”. Além de estarem em “território inimigo” de uma prefeitura que não os apoia, Luizianne e Cid Gomes estão brigados. Há, inclusive, dúvidas sobre a possibilidade de manter a aliança PT-PSB na região para as eleições de outubro.

Dilma cumpre agenda na Ceará hoje. Além do anúncio de investimentos para o metrô e Fortaleza, a presidente deverá visitar as obras do trecho 5 do eixo de integração Castanhão-Pécem (CE), na área de saneamento. A presidente também deve visitar o projeto Vila do Mar, em Fortaleza, com ações de urbanização da orla da capital cearense. No início da noite, Dilma deve viajar para Recife.
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TRAGÉDIA: BISPO ROBINSON CAVALCANTI É ASSASSINADO PELO PRÓPRIO FILHO

27.02.2012
Do jornal FOLHA DE PERNAMBUCO
Com informações de ADÚLCCIO LUCENA
Da editoria de Grande Recife

Bispo e esposa são mortos a facadas por filho adotivo

Rapaz ainda tomou veneno e esfaqueou o próprio corpo na tentativa de suicídio

Um cenário de violência aterrorizou moradores do bairro dos Bultrins, em Olinda. Eduardo Olimpio Cotias Cavalcanti, de 29 anos, matou a facadas seus pais adotivos, o Bispo da Igreja Anglicana, cientista político, ex-coordenador de graduação Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e ex-diretor do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE (CFCH), Edward Robinson de Barros Cavalcanti, de 64 anos, e a professora aposentada Mirian Nunes Machado, 64. Tudo aconteceu na noite deste último domingo (26), na casa onde a família morava, localizada na rua Barão de São Borjas, 305, nos Bultrins.


Mirian recebeu um golpe e chegou a ser socorrida, mas não resistiu ao ferimento e morreu antes de dar entrada no Hospital Tri Centenário, em Olinda. Já o Pastor, que levou três facadas, morreu no local. Após o crime o jovem tomou veneno e esfaqueou o próprio corpo na tentativa de suicídio.Segundo a polícia, Eduardo primeiro esfaqueou o pai, que caiu a poucos metros. Em seguida foi a mãe. Ainda segundo os agentes, um pó branco foi encontrado no quarto do suspeito, que pode ser cocaína.
 
Uma jovem de 18 anos, que preferiu não ser identificada, também é filha adotiva do casal e presenciou o suspeito amolando a faca na calçada de casa. O instrumento foi utilizado para cometer o crime. De acordo com informações de parentes, o jovem havia chegado dos Estados Unidos há três dias, onde morava desde os 16 anos. Edward foi deportado do país porque havia sido preso mais de 10 vezes.


Policiais do 1º Batalhão de Polícia Militar (BPM) atenderam a ocorrência e isolaram a área. Uma equipe da Força Tarefa Norte do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) esteve no local. O suspeito foi socorrido no Hospital da Restauração (HR), onde permanece. De lá será encaminhado ao Centro de Observação e Triagem Professor Everardo Luna (Cotel), em Abreu e Lima. Os corpos do Bispo Edward Robinson e de sua esposa, Mirian Nunes, foram levados ao Instituto Médico Legal (IML), no bairro de Santo Amaro, área Central do Recife, e já passaram pelos devidos procedimentos, mas ainda não foram liberados. O enterro será no Cemitério Morada da Paz, em Paulista, e deve acontecer nesta terça ou quarta-feira.
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Fonte:http://www.folhape.com.br/cms/opencms/folhape/pt/cotidiano/policia/arquivos/2011/outubro/0235.html

Marcos Rezende e o negro da Casa Grande

27.02.2012
Do blog CONVERSA AFIADA, 26.02.12
Por Paul Henrique Amorim 


Rezende (C) e Jean Wyllys (D) (*): ué, mas nós não somos racistas ?


Conversa Afiada publica artigo de Marcos Rezende extraído do site AfroPress:

Paulo Henrique Amorim e o Negro da Casa Grande,

de Marcos Rezende


“É necessário saber que, historicamente, havia duas espécies de escravos: o negro da casa e o negro do campo. O negro da casa vivia junto do senhor, na senzala ou no sótão da casa grande. Vestia-se, comia bem e amava o senhor. Amava mais o senhor do que o senhor amava a ele. Se o senhor dizia: — Temos uma bela casa. Ele respondia: — Pois temos. Se a casa pegasse fogo, o negro da casa corria para apagar o fogo. Se o senhor adoecesse dizia: — estamos doentes. Se um escravo do campo lhe dissesse ‘vamos fugir desse senhor’, ele respondia: — Existe uma coisa melhor do que o que temos aqui? Não saio daqui. O chamávamos de negro da casa. É o que lhe chamamos agora, porque ainda há muitos negros de casa.”

Malcolm X


Em um dos seus discursos, cujo trecho reproduzi acima, Malcolm X, um dos maiores ativistas negros pelos direitos civis posicionava-se frente a muitos negros que agem a serviço dos brancos. Negros que não honram a sua negritude e assim prestam um desserviço a comunidade negra, pois aos olhos menos atentos parece que ele ascendeu, mas, na verdade, ele é uma fração que age como serviçal e se coloca sempre ao lado do não negro por algum benefício, seja salarial, seja “meritocrático”, ou por algum tipo de honraria que recebe como forma de gratidão a “serviços prestados”.


O nigeriano Wole Sowinka, primeiro negro a receber o prêmio Nobel de Literatura pronunciou  a célebre frase: “O tigre não precisa proclamar a sua tigritude. Ele salta sobre a presa e a mata”.  Na verdade a postura de alguns jornalistas como Heraldo Pereira demonstra como a frase de Sowinka é tão atual.


Ora, é este o mesmo jornalista que se apresenta como um funcionário ou um negro da Casa Grande da Rede Globo e nunca fez um comentário sequer quando a emissora se posiciona contra as cotas, contra as comunidades quilombolas e sobre qualquer tipo de avanço da comunidade negra. Este mesmo jornalista não fez ou faz um único comentário ou reflexão acerca do livro “Não somos racistas” escrito pelo seu chefe, o diretor de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel. Este mesmo repórter se curva frente ao ministro Gilmar Mendes,  atitude diametralmente oposta à postura digna, honrada e altiva do Excelentíssimo Ministro Joaquim Barbosa que o enfrenta e diz a verdade acerca da  postura de um ministro que representa a elite branca, burguesa, aristocrática, ruralista, machista e homofóbica deste país.


Eis que, de repente, o repórter Heraldo Pereira, sempre silencioso frente às maiores questões raciais deste país, sente a sua negritude desrespeitada pelo Jornalista Paulo Henrique Amorim. Sem dúvida a postura é a mesma que Malcolm X dizia em seu discurso. Um verdadeiro negro da Casa Grande.


O histórico de Heraldo Pereira o coloca como um indivíduo subserviente a serviço da elite. E toma para si a dor do seu chefe, tentando desqualificar um jornalista com posição de vanguarda e anti-racista como Paulo Henrique Amorim (para quem não conhece basta visitar o site: www.conversaafiada.com.br) e assim colocá-lo na posição de racista. Logo Paulo Henrique Amorim, um dos poucos jornalistas da grande mídia deste país que enfrenta verdadeiramente os representantes da elite e que é curiosamente processado por todos eles. Só para exemplificar Ali Kamel, o famoso “não somos racistas”,   foi testemunha de acusação neste processo juntamente com o próprio Gilmar Mendes.


Daí cabe um desagravo à figura de Paulo Henrique Amorim que, ao utilizar o termo negro de alma branca, nada mais fez do que trazer à tona um debate antigo, mas de forma antagônica à maneira tradicionalmente utilizada.


Outrora o termo negro de alma branca era utilizado em casos de negros “educados”, “civilizados” e que agiam como brancos, com toda a civilidade do outro. A expressão era utilizada com a idéia de um sujeito dotado de polidez, um ser letrado, que avançou, apesar das adversidades a que os de sua raça estavam expostos.


O que Paulo Henrique Amorim fez foi descortinar a expressão e colocá-la como de fato deveria ser. O termo “negro de alma branca” deste modo caracteriza-se como um negro a serviço de um determinado setor, uma pessoa que não dignifica a sua ancestralidade e origem, ao se dispor a fazer determinado papel, e     quando não assume responsabilidade para com os seus. É como imaginar um judeu nazista de pensamento ariano, para mim algo impensável.


Evoco então Milton Santos que pontuou: “É por isto que no Brasil quase não há cidadãos. Há os que não querem ser cidadãos que são as classes médias, e há os que não podem ser cidadãos que são todos os demais, a começar pelos negros que não são cidadãos. Digo-o por ciência própria. Não importa a festa que me façam aqui e ali, o cotidiano me indica que não sou cidadão neste país… (sic) o meu caso é o de todos os negros deste país, exceto quando apontado como exceção. E ser apontado como exceção além se ser constrangedor para aquele que o é, constitui algo de momentâneo, de impermanente, resultado de uma integração casual”.


Enfim, o que envergonhava Milton Santos serve de júbilo para Heraldo Pereira. Uma lástima para nós, verdadeiramente negros de alma negra.


Marcos Rezende


Membro do Fórum de Entidades Nacionais de Direitos Humanos e bacharel em História, Marcos Rezende lecionou em escolas públicas e particulares buscando aproximação dos alunos com a história da cidade, enfatizando a questão da desigualdade social e racial.


Além de ser principal voz de resistência contra o episódio da derrubada do terreiro Oyá Onipó Neto, no Imbuí, presta auxílio a pequenas entidades e afoxés que participam do Carnaval e atua com destaque no Coletivo de Entidades Negras (CEN), organização não-governamental, sem fins lucrativos e sem vínculos político-partidários, que tem o objetivo de estabelecer o diálogo e diminuir a intolerância entre diferentes segmentos raciais e sociais. Também é Conselheiro Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça, recebeu a Medalha Zumbi dos Palmares da Câmara Municipal de Salvador por serviços prestados a comunidade negra. É Religioso do Candomblé.



(*) Rezende testemunhou a favor de Paulo Henrique Amorim no processo no Crime. Jean Wyllys concordou também em ser testemunha no processo Cível. E só não testemunhou porque PHA aceitou fazer um acordo com Heraldo Pereira de Carvalho, para encerrar a ação. Já que Heraldo assinou o documento em que diz que PHA não usou a expressão “negro de alma branca” “com “conotação racista”.Clique aqui para ler “Heraldo diz que PHA não é racista”. Também o ex-Ministro da Igualdade Racial e Deputado Federal Edson Santos teria sido testemunha de PHA no Cível, não se tivesse encerrado a ação com o reconhecimento de Heraldo Pereira de Carvalho.

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Defensor Jairo Salvador: “Terrorismo patrocinado pela Prefeitura”

27.02.2012
Do  blog de Luiz Carlos Azenha, 26.02.12
Por Conceição Lemes

No abrigo Vale do Sol, ex-moradores do Pinheirinho reuniram-se nesse sábado, 25, para conversar com o defensor público Jairo Salvador. Agentes provocadores impediram. Algumas das poucas fotos feitas pelo repórter fotográfico Lucas Lacaz Ruiz, que foi ameaçado e intimado a parar de trabalhar no local
22 de janeiro. Por ordem da juíza Márcia Loureiro, do governador Geraldo Alckmin e do prefeito Eduardo Cury (ambos do PSDB), as cerca de 1.600 famílias (em torno de 9 mil pessoas) que moravam em Pinheirinho foram expulsas violentamente de suas casas.
26 de fevereiro. Dos quatro abrigos da Prefeitura de São José dos Campos para os ex-moradores do Pinheirinho, só resta o do Centro Comunitário Morumbi. Primeiro, fechou o CAIC Dom Pedro. Depois, o Ginásio Ubiratan. Ontem, sábado, 25, o Ginásio Vale do Sol.
“Na sexta-feira, fomos avisados de que teríamos de sair no sábado do Vale do Sol e ir para o Morumbi ou para o Albergue Municipal Monte Castelo. O pessoal está com tanto medo da polícia que teve família, com criança de colo, que foi para o Morumbi quase meia noite de sexta-feira”, conta-nos um ex-morador, pai de várias crianças. “Nós não éramos moradores de rua, nós tínhamos a nossa casa, que fui destruída com tudo dentro. Pedimos então para discutir o assunto na manhã desse sábado. A dona Quitéria [assistente social ligada à Prefeitura] concordou, mas foi da boca pra fora.”
“Ontem, logo cedo alguns homens ligados à Prefeitura começaram a aterrorizar as famílias, a nos agredir, um deles chegou a dizer que a minha cabeça estava a prêmio”, denuncia o ex-morador. “A polícia assistiu a tudo, rindo junto com funcionários da Prefeitura.”
“Nós tínhamos combinado conversar com o defensor público, que chegou lá cedinho, mas eles não deixaram, tamanha arruaça que  aprontaram. A polícia assistiu a tudo e não fez !”, indigna-se. ” Nem mesmo para garantir a segurança do defensor público! Acabamos todos expulsos do Morumbi; entre nós, tinha gente que já havia sido expulsa de dois abrigos.”
INTIMIDAÇÃO, A “SOLUÇÃO”  PARA RESOLVER O “PROBLEMA” DE MORADIA
Na verdade, diferentemente do que é divulgado pela Prefeitura de São José dos Campos,  o “esvaziamento” crescente dos abrigos não é porque esses ex-moradores do Pinheirinho estão alugando uma casa para morar.
“Além das péssimas condições dos abrigos, o clima de terror implantado neles pela Prefeitura foi tamanho que teve gente que preferiu ir morar até na rua”, revela a vereadora Amélia Naomi, do PT de São José dos Campos. “Policiais entram e saem dos abrigos, fazendo questão de exibir as suas armas. As crianças vivem assustadas, com medo.”
No caso do Vale do Sol, nem os pouquíssimos jornalistas que continuam acompanhando a situação foram poupados.
A jornalista Alessandra Jorge, de São José dos Campos, pensou que já tivesse visto todos os horrores do caso Pinheirinho. Mas ontem percebeu que o pesadelo pode ser ainda maior: “É uma política de terra arrasada, de extermínio, mesmo. Os jornalistas  já eram proibidos de conversar com os moradores desabrigados sem que  gente da Prefeitura acompanhasse. Agora, policiais e pessoas ligadas à Prefeitura estão fazendo pressão psicológica em cima das famílias, para que não contem o que está acontecendo nos abrigos, sob a ameaça de que a situação pra eles [ex-moradores do Pinheirinho] pode piorar”.
FOTÓGRAFO IMPEDIDO DE TRABALHAR; EQUIPAMENTO E  VIDA AMEAÇADAS
Lucas Lacaz Ruiz é repórter fotográfico free-lance, trabalha portanto como autônomo, e acompanha há um bom tempo o Pinheirinho e outros casos de desigualdade social.
Ontem, ele sabia que o doutor Jairo Salvador, defensor público do Estado de São Paulo, iria ao Ginásio Vale do Sol conversar com os desabrigados e passar alguns informes. Foi para lá então registrar o encontro e fazer uma reportagem sobre as condições de vida dentro do abrigo. Era o único repórter fotográfico. Acabou impedido de trabalhar e ameaçado:
– Quase não fotografei. Logo, de cara, um homem muito exaltado, gritando, falou que não deveríamos filmar nem fazer fotos dentro do Ginásio Vale do Sol. Eu obedeci, mas permaneci no local.
– A tensão, que já era grande dentro do Vale do Sol, aumentou.  Mais dois homens começaram a intimidar todas as pessoas, dizendo a PM iria ao local expulsar todos com balas de borracha, spray pimenta,  gás lacrimogêneo… Foi quando uma colega que segurava um bebê no colo pediu para que eu a fotografasse. Novamente, fui intimado a sair do local, senão o meu equipamento seria danificado e a minha integridade física ameaçada.
– Estava me encaminhando à portaria do ginásio, quando perguntei a um guarda CGM (policial da Guarda Civil Metropolitana) se ele não faria nada para impedir a ação daqueles homens que estavam atemorizando todas as pessoas. Ele simplesmente me disse que estava ali para manter a ordem e a segurança das pessoas. Eu questionei: “Estou  sendo ameaçado e o senhor não vai ou não pode fazer nada?”  O GCM, novamente, me respondeu: “É melhor o senhor obedecer, pois são eles que mandam aqui!”
– Mais uma vez fui cercado e intimado com gritos e ameaças ao meu equipamento e à minha vida. Eles não estavam brincando, falavam sério.
– Já quase na parte externa do abrigo, onde o doutor Jairo Salvador faria uma explanação sobre os direitos dos desabrigados,  chegou, de novo, um grupo de três ou quatro homens, gritando que todos deveriam sair dali e ir para o Morumbi. Soube depois que a vereadora Amélia e o doutor Jairo Salvador também foram expulsos. O doutor Jairo nem conseguiu falar.
“Ontem, chegaram ao absurdo de ameaçar voluntários, que são justamente as pessoas que estão levando ajuda humanitária aos desabrigados”, volta à carga a vereadora Amélia Naomi. “O pior que tudo isso foi articulado com a Prefeitura. O negócio era esvaziar o abrigo, nem que as famílias ficassem ao deus-dará.”
“O que aconteceu foi banditismo, mesmo. Além de ameaçar e agredir ex-moradores do Pinheirinho, agentes provocadores impediram que a Defensoria Pública prestasse atendimento às famílias”, acusa  Jairo Salvador. “Lamentavelmente, terrorismo patrocinado pela própria Prefeitura de São José dos Campos.
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