terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

CASO PINHEIRINHO Primeiro Jornal, apologia à violência policial

07.02.2012
Do OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, 31/01/12 
Por Francisco Fernandes Ladeira em na edição 679

Criminalizar a pobreza é uma prática corriqueira das grandes emissoras de televisão do Brasil. Entretanto, nos últimos anos, apoiar a violência policial contra as classes menos abastadas parece ter se tornado uma obsessão para a Rede Bandeirantes. Entre os noticiários da emissora, o Primeiro Jornal, telejornal matutino apresentado por Luciano Ribeiro Faccioli, tem se destacado pelo seu caráter ultraconservador. Na segunda-feira (23/1), ao cobrir uma ação de reintegração de posse da Polícia Militar na comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP),Faccioli,mais uma vez, deixou transparecer suas ideias reacionárias.
O terreno onde se localiza a comunidade do Pinheirinho pertence à massa falida da empresa Selecta, do especulador Naji Nahas(que chegou a ser preso, em 2008, por suspeita de corrupção). Em fevereiro de 2004, a área foi ocupada por um grupo de pessoas que foram expulsas violentamente de um terreno em um bairro vizinho. Nesse mesmo ano, Naji Nahas recorreu à justiça para a retirada das famílias que habitavam a sua propriedade. “A gente está lutando por uma moradia, a gente só está aqui porque a genteprecisa, se não precisasse, ninguém estava aqui”, afirmou uma moradora do Pinheirinho à TV Vanguarda (afiliada da Rede Globo na região do Vale do Paraíba).
No domingo (22/11), por volta das seis horas da manhã, contrariando a orientação do Tribunal Regional Federal (que havia suspendido a ação de reintegração de posse pleiteada por Nahas), a PM, cumprindo ordens da justiça paulista, invadiu o Pinheirinho e expulsou brutalmente as cerca de 1.600 famílias que habitavam a comunidade (cerca de 5.000 pessoas).
O apoio da emissora
Apesar de a ação policial ter sido condenada por vários setores da sociedade civil, Faccioli, como era de se esperar, apoiou incondicionalmente a violência promovida pela PM na comunidade paulista. A cobertura de seu telejornal foi absolutamente tendenciosa: ressaltou os danos a propriedades realizados (supostamente) pelos moradores do Pinheirinho e escamoteou a truculência da polícia militar. “Infelizmente a situação aqui no Pinheirinho não é nada agradável. A madrugada foi tensa. [...] Desde o início da ocupação, trinta pessoas já foram presas. A casa do prefeito de São José dos Campos, Eduardo Cury, foi apedrejada. Uma casa lotérica e duas padarias foram roubadas. Dez carros foram incendiados em bairros no entorno [da região do Pinheirinho]”, fez questão de frisar a repórter Brisa Albuquerque.
Ao constatar que um carro de reportagem da TV Bandeirantes havia sido apedrejado, Faccioli foi irônico: “Fomos nós quem expulsamos os moradores, por isso nos atacam.” Evidentemente, não foi a TV Bandeirantes quem retirou os moradores, porém a conivência e o apoio da emissora a certas ações da polícia têm contribuído significativamente para corroborar a barbárie estatal contra a população pobre.
Resquícios da ditadura
Em última instância, segundo o apresentador, o direito de propriedade deve ser incondicionalmente preservado, independente do fato de milhares de pessoas ficarem sem ter onde morar. “O que ele [o proprietário] vai fazer com o terreno é problema dele, o importante é a desocupação”, afirmou. Curiosamente, em nenhum momento do programa foi mencionado o nome do proprietário do terreno e tampouco foram apresentadas informações sobre as atividades ilícitas de Naji Nahas.
Não foi a primeira vez (e provavelmente não será a última) que Luciano Faccioli demonstra todo o seu ódio às pessoas que não concordam com as ações policiais. Em outra ocasião, o apresentador chegou a chamar os estudantes que protestavam contra a presença da PM na USP de “vagabundos”, “vagabundas”, “dementes”, “bandidos”, “doentes” e “cafajestes”.
Infelizmente, pessoas reacionárias como Faccioli fazem com que alguns resquícios da ditadura militar ainda atormentem a sociedade brasileira.
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[Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas, Brasil: Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de História e Geografia em Barbacena, MG]

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CASO PINHEIRINHO: As nossas melhores armas

07.06.2012
Do OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, 31.01.12
Por  Celso Lungaretti*, na edição 679


Convidado pela Folha de S.Paulo a expressar posição contrária à blietzkrieg sobre Pinheirinho, como contraponto à defesa do cumprimento cego de decisões errôneas e desumanas da Justiça feita por um tal de João Antonio Wiegerinck, o grande Plínio de Arruda Sampaio produziu uma análise corretíssima da doença, mas receitou um remédio letal para o paciente que pretende curar e para muitos mais: a defesa das ocupações pela via armada (ver íntegra aqui). Eis sua argumentação:
“Pacífica, despolitizada e sem organização, essa população tem aceitado a situação intolerável sem recorrer à violência. Até quando? Isso vai continuar acontecendo enquanto os partidos de esquerda deixarem de cumprir seu papel de conscientizar e organizar essa massa, para que ela resista a esses ataques de armas na mão. Na hora em que isto for uma realidade, não haverá violência porque a consciência dessa realidade será suficiente para manter os cassetetes na cintura.”
A revolta de Plínio é pra lá de justificada e compreensível. Seu impecável relato dos acontecimentos mostra mesmo uma situação inaceitável numa democracia. Mas, se a esquerda conscientizar e organizar a massa das ocupações, para que resista aos jagunços fardados com armas na mão, vai se tornar ela própria parte do confronto.
A correlação de forças
Aí, as hipóteses serão apenas duas:
1. Organizando tão somente os ocupantes, não os explorados e excluídos em geral, as lições do passado apontam para um quadro bem diferente daquele sonhado por Plínio, com os cassetetes permanecendo, sim, na cintura, mas porque substituídos por fuzis e lança-chamas – ou seja, a esquerda e os ocupantes acabariam esmagados pelos efetivos a serviço da propriedade, cujo poder de fogo, claro, é infinitamente superior;
2. Se a esquerda partir para a organização dos trabalhadores e excluídos em geral, no sentido de respaldarem a resistência de armas na mão aos crimes consentidos pelo Executivo e avalizados pelo Judiciário (como foi o caso do Pinheirinho), a radicalização de parte a parte inevitavelmente desembocará numa luta armada como a que foi travada contra a ditadura de 1964/85.
Nada indica que o desfecho seria diferente hoje.
Daquela vez, estavam bloqueados todos os caminhos democráticos para a contestação do regime implantado mediante golpe e sustentado por meio do terrorismo de Estado. Entre resignarmo-nos à lei do mais forte ou lutarmos contra o arbítrio, alguns milhares fizemos a opção mais digna, pegando em armas a despeito de estarmos plenamente conscientes do quanto a correlação de forças nos era desfavorável.
Fomos heróis. Fomos mártires. Fomos massacrados.
A resposta policial
Atualmente, embora a democracia formal sirva como biombo para a ditadura do capital, ela pelo menos nos garante a possibilidade de tocarmos os corações e esclarecermos as mentes. Graças, principalmente, à quebra do monopólio da formação de opinião que a internet nos possibilitou, estamos, pouco a pouco, com trabalho de formiguinha, estimulando em novos contingentes o desenvolvimento de uma consciência crítica e antagônica ao capitalismo. Ampliamos e rejuvenescemos nossos efetivos a olhos vistos. Já predominamos na web e isto nos deu fôlego suficiente para vitórias antes improváveis, como a que obtivemos no caso Battisti e ao rechaçarmos o atentado à liberdade de expressão perpetrado em São Paulo, quando a Marcha da Maconha foi reprimida.
Mas a mídia a serviço das más causas ainda consegue fazer com que 82% dos paulistanos aprovem uma resposta policial para um problema social, como foi o caso na cracolândia. E isto apesar das evidências gritantes de que, além de desumana, a operação fracassou rotundamente, a ponto de a própria Polícia Militar admitir que os usuários de drogas foram apenas esparramados por, pelo menos, 27 outros pontos da cidade (ver aqui).
Cidadãos no lugar certo
Então, com todo o respeito que Plínio de Arruda Sampaio, com sua exemplar trajetória de lutas, merece dos que travamos o bom combate, desta vez ele foi traído pela emoção. A análise serena nos recomenda que:
>> continuemos levando sempre em conta a correlação de forças – ou seja, que não radicalizemos as lutas além de nossa capacidade real;
>> não forneçamos trunfos e pretextos para a direita golpista que mostrou suas garras na USP, na cracolândia e no Pinheirinho;
>> prossigamos, ao invés disso, disseminado nossas ideias em escala cada vez mais ampla e resistindo às investidas autoritárias com as armas do espírito de justiça e da superioridade moral, não com armas de fogo.
O que faltou em Pinheirinho não foram necessariamente armamentos. Se, posicionados ao lado dos coitadezas da ocupação, lá estivessem, digamos, 50 mil cidadãos pacíficos e determinados, provavelmente isto teria sido “suficiente para manter os cassetetes na cintura”.
Vamos é trabalhar para termos 50 mil bons cidadãos no lugar certo e na hora certa, da próxima vez.
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*Celso Lungaretti, jornalista e escritor, é veterano da resistência à ditadura militar

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Mais um triste capítulo da mídia

07.02.2012
Do BLOG DO MIRO,06.02.12
Por José Dirceu, em seu blog:



A mesquinhez e pequenez de nossa mídia não tem limites. Faz e diz qualquer coisa a ponto de cair no ridículo. Tudo porque não tem concorrência e o contraditório. Se bem que, agora, as redes sociais e a internet já começam a fazê-lo.

Daí a necessidade de denunciar todas as vezes que jornais, como o Estadão, fazem em suas entrevistas perguntas dirigidas. O jornal dos Mesquitas publica uma reportagem com o ex-ministro da Educação e candidato à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad. Em resumo, basicamente a entrevista resumiu-se a uma pergunta: se haveria relação entre a cessão do terreno para o Instituto de Lula (na região da cracolândia – tema aliás, que “bombou” nas redes sociais nos dois últimos dias) e um acordo de apoio do PSD de Gilberto Kassab à sua candidatura à prefeitura de São Paulo.

Claro. Haddad garantiu: "Não tem nada a ver uma coisa com outra". Fez questão de ressaltar o direito de ex-presidentes de exporem à população o seu acervo da época de governo. E lembrou que, em países desenvolvidos, há uma tradição de se expor documentos e objetos de ex-mandatários da Presidência da República em universidades.


Campanha

A matéria não surpreende ninguém. Só a escolha do tema e o espaço dado à matéria comprovam o quanto o Estadão já está em campanha. A pauta é descabida. É como se as fundações de outros ex-presidentes não recebessem recursos e doações do poder público - aqui e em todo mundo - já que vão preservar a memória do país e da nossa história.

O respeito, o espaço nos jornais, rádios e tevês, que generosamente concedem aos outros ex-presidentes são inversamente proporcionais às campanhas odiosas que, de tempos em tempos, promovem contra Lula e o PT, nossos governos e nossa história.

Induzir o leitor à conclusão de que a cessão pública de um terreno em São Paulo ao instituto do ex-presidente Lula tenha relação com a possível aliança entre o PSD e o PT na disputa à capital paulista é mais um capítulo dessa longa e triste história de nossa mídia.

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Fonte:http://altamiroborges.blogspot.com/2012/02/mais-um-triste-capitulo-da-midia.html

REGIME QUE PRODUZ DEZENAS DE "SUICIDADOS" É DITABRANDA?!

07.02.2012
Do blog NÁUFRAGO DA UTOPIA, 05.02.12
Postado por 


A Folha de S. Paulo deste domingo (5) traz longa reportagem sobre a encenação de suicídio do jornalista Vladimir Herzog, tendo como  gancho  o fotógrafo que a ditadura militar utilizou para fazer a imagem famosa (ver íntegra aqui).

A rigor, não conta nada de novo para quem acompanhou os acontecimentos ou interessou-se pelo que vem sendo noticiado desde 1975 (vide aqui, p. ex., meu resumo e análise do Caso Herzog).

Mas, é uma matéria que vale a pena mostrarmos às novas gerações, dando-lhes uma noção de como a vida de um homem vale pouco, quase nada, num regime totalitário.

E, claro, de como a ditadura militar era tudo, menos a  ditabranda  que o próprio jornal apregoou, num dos editoriais mais infelizes de sua história. Como se pode considerar branda uma ditadura da qual Herzog foi, cronologicamente, o 39º  suicidado?!

Só naquele ano de 1975 ocorreram outros 13 assassinatos maquilados em suicídios, afora as igualmente forjadas mortes  ao resistir à prisão (que até hoje são fartamente utilizadas pelas polícias militarizados do País inteiro como justificativa para o extermínio de marginais).

Curioso é que, mesmo sem ter aberto o bico sobre esta e muitas outras farsas nas quais esteve envolvido como coadjuvante, o tal Silvado Leung Vieira apanhou a sobra. 
"Sentindo-se ameaçado e perseguido pelo regime a que serviu, ele afirma não ter tido alternativa a não ser abandonar o emprego no serviço público e também o país".
Missa para Herzog na catedral da Sé
foi o princípio do fim da ditadura militar
Uma ameaça concreta por ele recebida, diz, foi feita por um jovem oficial do Exército, quando caiu na besteira de dizer que ali aconteciam "coisas estranhas": 
"É melhor ficar calado e não comentar nada. Se você não calar, a gente te cala".
E o repórter Lucas Ferraz deu as previsíveis derrapadas de quem escreve sobre o que não domina. Exemplo:
"...[Herzog] militava no partido, mas, segundo amigos, não exercia atividades clandestinas, nem poderia ser apontado como um quadro fixo do partido, que àquela altura já considerava a luta armada um grande erro".
O Partido Comunista Brasileiro não se direcionava para as atividades clandestinas; praticamente só se tornavam clandestinos os dirigentes, por motivos óbvios.

E, DESDE O PRIMEIRO MOMENTO, considerou a luta armada um grande erro, chegando a caluniar seus expoentes. Para evitar que os militantes prestassem ajuda solidária a combatentes da VPR, chegou ao cúmulo de afirmar em seu jornal que o comandante Carlos Lamarca seria um provocador a serviço do imperialismo, incumbido de fornecer pretextos para o fechamento do regime.
A REPRESSÃO HABITUAL E A FORA DE CONTROLE

Uma afirmação que já virou lugar comum: a de que éramos "barbaramente torturados". Sem dúvida, o éramos. Mas, com objetivos definidos e não por mero sadismo dos militares (que, claro, também existia...).

No caso dos militantes da luta armada, as torturas tinham intensidade extrema nos primeiros dias, pois a repressão queria arrancar de nós informações que lhe permitisse alcançar os companheiros lá fora, antes que, advertidos, estes abandonassem os  aparelhos  tornados inseguros e deixassem de cobrir os pontos agendados conosco.

Não havia tal premência no caso de Herzog, daí ser mais plausível a hipótese de  acidente de trabalho. Ou seja, a de que não pretendiam propriamente massacrá-lo, mas fazer com que se incriminasse, e incriminasse a outros.

Ocorre que o choque elétrico --a modalidade de tortura que eles mais utilizavam quando não queriam deixar marcas-- é imprevisível. Se curto, não desconcerta tanto. Se longo, pode causar enfarte (até porque não se consegue respirar enquanto ele dura). Eu diria que erraram a mão com os choques elétricos e se viram às voltas com um defunto indesejado, tanto que tudo fizeram para camuflar o sucedido.

Também é interessante este testemunho do então governador Paulo Egydio Martins, hoje com 84 anos:
Onde morreu Herzog: o DOI-Codi funcionava
nos fundos desta delegacia paulista
"Havia um comando paralelo no Exército, e é bem provável que houvesse também um comando anarquista na Secretaria de Segurança Pública. Esse era um problema absolutamente crítico, que infelizmente saiu do controle".
Foi exatamente a tese que defendi: a de que a corja do DOI-Codi,  na contramão da abertura lenta, gradual e progressiva do ditador Geisel, prendeu o coitado para retaliar o governador Paulo Egydio (amigo do jornalista) e para tentar mostrar que seus  préstimos  ainda eram necessários, seja fazendo alarmismo acerca da exageradíssima infiltração comunista na TV Cultura, seja acalentando a possibilidade de que os alunos de Herzog na USP botassem o movimento estudantil na rua.

De resto, o termo anarquista é inadequado neste contexto. Melhor caberia ultradireitistaou fascista

E quem observou a atuação da SSP nos episódios da USP, da cracolândia e do Pinheirinho tem razões de sobra para concluir que o problema continua até hoje fora do controle.

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Pinheirinho, as lágrimas ainda correm sobre um cenário de Guerra Postado por Márcia Brasileira

07.02.2012
Do blog "BRASIL QUE EU QUERO", 02.02.12
Postado por Márcia Brasileira 

Moradores revelam as péssimas condições nos alojamentos após despejo. Defensor alerta que tudo o que ocorreu na Justiça em relação à ocupação foi forjado
O que sobrou do Pinheirinho - Foto: Aline Scarso
 Marcio Zonta e Aline Scarso - de São José dos Campos (SP) - Brasil de Fato - 03.02.12
O cenário é desolador, lembra localidades que foram destruídas por um período de guerra. Difícil não vir à mente de quem observa a ex-ocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), um país como o Iraque, quando atacado pelos Estados Unidos em 2003.

No chão, assim como em países onde vilarejos foram aniquilados, está a história de vida de pessoas e famílias, que tiveram que sair às pressas desses locais sem ter podido carregar nada.
Podemos registrar a alegria da menina que se maravilha ao encontrar a boneca no meio dos escombros da alvenaria destruída – não por um tanque em missão de guerra – mas pelas máquinas da Prefeitura de São José dos Campos. “Achei que nunca mais ia ver ela, tio”, comenta feliz a menina Talita de 9 anos para um rapaz emocionado que a acompanha.
Pinheirinho destruído - Foto: Aline Scarso
“Aqui era a igreja Madre de Calcutá, aqui era a Praça Zumbi dos Palmares, aqui era onde fazíamos as assembléias”, explica um morador para um grupo de estudantes atônitos, que visitam o local na tarde de 2 de fevereiro, após o ato de protesto que levou a São José 4 mil pessoas em solidariedade às famílias. 
No Pinheirinho, o resquício de vida teima em sobreviver no local. São bonecas, ursos de pelúcia, móveis e eletrodomésticos dos mais diversos tipos, de sofá ao guarda roupa, de geladeira a televisão, além de enciclopédias, livros e até porta retratos de famílias sorridentes em seus lares.
E, em meio a um pomar que resistiu a selvageria dos homens da Polícia Militar de São Paulo está Antonia Almeida sentada, quase murmurando sozinha, ainda se perguntando e sem resposta. “Não entendo porque fizeram isso com a gente”.

Entulho Humano
Retiradas de suas casas no dia 22 de janeiro, além de seus pertences materiais, muitas das famílias perderam a sociabilidade entre vizinhos, costumes, culturas e a história de vida feita no bairro Pinheirinho.
Famílias alojadas no bairro Morumbi, em São José dos Campos
- Foto: Aline Scarso
“Os policiais me chamaram de porca e puta. No dia fiquei com muita raiva, hoje já nem ligo mais. Mas agora o que sinto é a falta de minhas amigas e meus irmãos que foram para abrigos diferentes” diz comovida uma menina de 15 anos.
Sua mãe intervém: “O pior, moço, é que tenho seis filhos e no dia todos eles dispersaram, correram e se defenderam como puderam. Eu só fui achar dois de meus meninos no dia 24 em outros abrigos e não posso trazer eles para cá”, reclama Eliete Costa.
Perderam também a dignidade. Hoje, as famílias do Pinheirinho não conseguem matricular os filhos em creches e escolas por falta de endereço fixo e nem alugar casas por conta do preconceito. “Eu não consigo alugar uma casa, aliás, ninguém consegue, pois se você diz que é do Pinheirinho eles não alugam” chora a aposentada Marluce Ferreira que ainda viu dois filhos serem mandado embora dos empregos por serem do Pinheirinho.
Vida desestruturada após reintegração - Foto: Aline Scarso
“É um absurdo, fui matricular meu filho mais novo na creche e o mais velho na escola e eles me impediram, pois disseram que eu não tenho endereço. Poxa eles tiraram meu endereço” revela a atordoada Michele Aparecida Fernandes dos Santos. 
Sobre a decisão da prefeitura, quem quiser pode obter o aluguel social no valor de R$ 500 por um período de seis meses. “Queremos a casa pois nós tínhamos casa. Se eu quisesse pagar aluguel eu pagava porque sou trabalhador, tenho condições, mas tenho direito à moradia também”, cobra o marido de Michele, o auxiliar de pedreiro Cleiton Lucio Fernandes.
As famílias foram divididas em quatro alojamentos, localizados nos bairros Dom Pedro, Morumbi, Vale do Sol e Centro. Elas reclamam da situação crítica pelo qual passam e denunciam ainda intoxicação por comida oferecida pela Prefeitura, alergia de cobertores e a contração de doenças.
No caso do alojamento do Morumbi, no qual ficam Cleiton e Michele, um senhor teve que ser socorrido às pressas por ter contraído pneumonia. Lá, há apenas um banheiro com três chuveiros. As divisórias foram feitas com plásticos pelos próprios moradores, com o objetivo de resguardar um mínimo de privacidade. Segundo Michele, a situação do seu alojamento é a menos precária de todos.
Improvisado numa quadra escolar, nele vivem cerca de 1500 pessoas, acomodados no chão em colchões, onde homens, mulheres, crianças, jovens, idosos transitam a todo instante incomodados, parecendo procurar algo que lhes foram tirado.
O local parece mais um campo de concentração ou, como muitos dos ocupantes preferem chamar, entulho humano. “Entulho humano, é isso o que é aqui” diz a mãe Josinete, com dois filhos no colo. Para ela, “nada melhor do que a casa da gente”.

A maior ocupação da América Latina
O que muita gente de dentro e fora do Pinheirinho se pergunta é qual seria o verdadeiro motivo da desocupação. Em um depoimento dado no dia 1o de fevereiro, em uma audiência pública na Assembleia Legislativa de São Paulo, o Defensor Público de São José dos Campos, Jairo Salvador de Souza, diz que São José tem um “orçamento anual de um bilhão e setecentos milhões de reais com uma sobra de caixa em 2011 de quatrocentos milhões de reais” que, de acordo com ele, daria para “regularizar uns quatro Pinheirinho”.
Salvador alerta que tudo o que ocorreu na Justiça em relação à ocupação foi forjado. “Olha, primeiro era uma liminar de reintegração de posse e não algo irreversível, que não cabia mais recursos na Justiça. Isso é mentira, como muito do que se afirmou por aí”.
Segundo ele, o Tribunal de Justiça de São Paulo não queria julgar dois recursos sobre o Pinheirinho que há anos estão parados, pois inauguraria uma nova instância e o caso seguiria para o Supremo Tribunal Federal, “algo que tiraria o controle do Tribunal de Justiça de São Paulo sobre o caso”.
O mais grave, em sua opinião, foi a Juíza Márcia Loureiro da 6ª Vara Cível de São José revigorar por conta própria a liminar de reintegração de posse indeferida em 2005 pela Justiça. “Somente um fato novo ou um pedido do autor recuperaria [o pedido de reintegração]. Ela fez [a liminar] sem pedido algum”, esclarece o Defensor.
No dia da desocupação, ele tentou entregar um mandado judicial da Justiça Federal para suspender a operação comandada pelo coronel Manoel Messias Melo. Na ocasião, o juiz de direito Rodrigo Capez, assessor da presidência do Tribunal de Justiça de São Paulo, informou que o comandante não obedeceria a ordem judicial da Justiça Federal.
Diante de todo o imbróglio jurídico, a maior ocupação urbana da América Latina em extensão de terras (um milhão e trezentos mil metros quadrados), muitos atores envolvidos diretamente no assunto acham que a ação truculenta do governo vai além da influencia do mega especulador financeiro, Naji Nahas, proprietário da massa falida Selecta, que ficava na área.
“É estratégico esse ataque ao Pinheirinho. Ali estava assegurada uma moradia e uma base de luta consolidada, só faltava a desapropriação em definitivo. É um ataque aos movimentos que lutam por moradia, isso é um dos recados que o governo quer passar com sua ação no Pinheirinho”, defende o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MSTS), Guilherme. Algo que Oscar Silva Borges, da Frente de Luta Por Moradia (FLM) enfatiza.

População dividida
Em São José dos Campos o clima entre a população é de revolta ou de dever cumprido. Por um lado, muitos acham que a Prefeitura e governo de São Paulo cumpriram seu papel de retirar os invasores da terra alheia, além de acabar com um lugar violento, que é o discurso empregado pela grande imprensa.
Por outro lado, há moradores da cidade que acham que o direito a moradia tem que prevalecer. “Eu apoio esse pessoal do Pinheirinho. Todo mundo tem que ter um teto”, diz o aposentado Raimundo Figueiras, observando o ato do dia 2 de fevereiro.
“Eu apoio os caras do Pinheirinho, mas tinha muito bandido lá também. Você não viu na TV os caras dizendo que tinham droga e tudo mais?”, fala o jovem Gustavo, empregado numa gráfica da cidade.
Já o motorista de ônibus Rosival da Silva esbraveja, “se a polícia tivesse tirado esses caras há 8 anos quando eles entraram na terra não precisava fazer nada disso. Agora fica essa palhaçada, esse povo protestando e parando o trânsito, o pior é que nem almocei ainda”.
Numa loja de roupas do centro da cidade duas vendedoras param para ver os manifestantes passarem. “Acho injusto o despejo como foi”, salienta Geovana Ribeiro. Já sua amiga Rebeca de Oliveira Euclides, diz ser contra “despejar [as famílias] sem ao menos se preocupar com outra opção para elas morarem”.

Dívida perdoada
O juiz José Henrique Fores Júnior, da 15ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo, liberou a empresa Selecta Comércio e Indústria S/A, proprietária do terreno que abrigava a comunidade do Pinheirinho, de pagar R$ 1,6 milhão da dívida de IPTU (Imposto Predial Territorial Urbano) mantida junto a Prefeitura. A Prefeitura de São José diz que vai recorrer da decisão.
O valor é referente ao IPTU de 2004 e 2005. Os advogados da Selecta pediram a revisão da alíquota desses dois anos. Segundo o advogado das famílias do Pinheirinho, Antonio Donizete, a empresa nunca pagou IPTU do terreno, adquirido em 1982. O total da dívida com a administração municipal chega a R$ 14,6 milhões.
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