quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A vitória da direita: a pós-política

21.12.2011
Do blog de Altamiro Borges
Por Roberto Amaral, na revista CartaCapital:



O grande projeto da direita, impressa ou partidária, ideológica ou simplesmente financeira, é a destruição das instituições democráticas, mediante a desmoralização da política. O segundo e último momento é o esvaziamento da soberania popular, como já ocorre na Europa. Daí o ataque aos políticos, uniformemente apontados, ora como incompetentes, ora, caso brasileiro, como corruptos. 

Todos sabemos como começa esse cantochão, e todos sabemos como termina, aqui e em todo o mundo: na Alemanha, construiu o nazismo; na Itália, o fascismo; a Grécia dos anos 60 terminou na ditadura dos coronéis (1967-1974). E paro por aqui, para que a listagem não fique enfadonha, com o exemplo brasileiro de 1964, lembrando a campanha da UDN contra a ‘corrupção’ do governo João Goulart, assoalhando o desfile militar. Aliás, sem qualquer originalidade, pois assim fôra construído o golpe de 24 de agosto de 1954, que culminou no suicídio de Vargas.

Como a História não se repete, a estratégia, agora, não é mais operar mediante ditaduras impopulares (a não ser no Oriente), mas exercer o mando direto, pela associação das grandes multinacionais, que já respondem por mais de 50% do PIB mundial, e o sistema financeiro. A banca, que já governa a economia em todo o mundo, resolveu agora ela mesma dirigir os países nos quais seus interesses (leia-se a hiperacumulação financeira especulativa) possam estar ameaçados. O experimento se inicia, de forma descarada, na Grécia e na Itália.

A Europa, diz-nos o insuspeitíssimo Mário Soares, um dos responsáveis pelo desfalecimento da saudosa Revolução dos Cravos, “está entregue aos especuladores”. E, nessa Europa, alguns países (como Alemanha e França) são mais europeus que outros, como Espanha e Portugal, realmente governados pela troika FMI-BCE-Comissão Europeia, da qual a dupla Merkel-Sarkozy é simples pombo-correio.

À Espanha e a Portugal ainda é permitido escolher seus dirigentes, dentre aqueles que se revelem mais competentes e mais dóceis para aplicar as ordens da dupla. Noutros países, os políticos são responsabilizados pelos crimes da banca financeira e para governá-los são chamados os tecnocratas que engendraram a crise: são chamados pela troika e por ela indicados. Sem o menor respeito à soberania popular, e desrespeitando mesmo suas classes dominantes, que sequer foram ouvidas.

As modificações nos governos da Grécia e da Itália — esqueçamos por um momento os personagens medíocres, principalmente o burlesco Berlusconi — configuram um assalto à democracia, à soberania e à política.

O ex-primeiro ministro Papandreou foi ameaçado de crucificação por haver pretendido consultar suas vítimas, o povo grego, sobre a adoção arrocho exigido pelos tecnocratas para a ‘ajuda’ à Grécia, a qual, por seu turno e pelo mesmo motivo, esteve à beira da expulsão da Comunidade Europeia. Assim ficamos sabendo que Papandreou foi penalizado não pelos erros de sua administração desastrada, mas por haver proposto a realização de um plebiscito, um dos mais festejados institutos da democracia.

Isso irritou os democratas Merkel e Sarkozy, com os olhos voltados para seus respectivos sistemas financeiros. Um dia após receber voto de confiança do parlamento grego, Papandreou renunciou para, ainda por exigência da banca internacional, ser substituído por um tecnocrata, Lucas Papademos, egresso do MIT (EUA), que assume com a missão de compor um gabinete ‘técnico’. Fora com os políticos! Na Grécia, na Itália e em todo o mundo, o mal da política é a política. 

A demissão do ridículo e corrupto Berlusconi — que deveria estar na cadeia, tantos são seus crimes — não se deu por decisão judicial, ou, como deve ser no parlamentarismo, por consequência de um voto de desconfiança. Mas sim pelas mãos do anônimo presidente da Itália cumprindo ordens, de novo, do casal Merkel-Sarkozy, locutores da vontade da banca. Assim foi nomeado o tecnocrata Mário Monti (egresso da Universidade de Chicago), nada mais nada menos do que ex-presidente do Goldman Sachs, o famoso gigante do mercado, com o compromisso de compor o gabinete com outros tecnocratas. 

Aliás, a intervenção, desta feita, não se fez ‘intra-muros’. Dias antes, o mesmo Goldman Sachs emitira uma ‘nota à imprensa’, na qual, se lia: “Um governo técnico [na Itália] teria maior credibilidade na comparação com outros executivos”. Assim, sem um voto, instala-se a ‘democracia de mercado’, que, em comum a todas as ditaduras, militares ou tecnocráticas, cultiva o sentimento de desapreço ao chamamento da cidadania.

É a pós-política, ou a democracia sem voto.

É o réquiem da União Europeia, e o fim da discurseira que falava nos valores da sociedade ocidental, dentre eles destacando-se a democracia, em nome da qual foram mortos milhões de europeus, argelinos, sírios, líbios, servos, croatas, paquistaneses, indianos, vietnamitas, africanos, afegãos…

Como todo gato escaldado deve temer água fria, seria aconselhável que nossos analistas começassem a dirigir seus olhares para a cena brasileira e fixar-se na campanha unânime que a grande imprensa, não podendo atacar os fundamentos da política econômica do governo de centro-esquerda da presidente Dilma, desenvolve contra a vida política brasileira, tentando fazer com que a cidadania brasileira se convença de que o mal de nosso país não é a desigualdade social da qual ela é servidora, mas a corrupção, da qual é beneficiária (isso não é dito) a classe dominante. 

Neste país estranho, os que não pagam impostos (os ricos) é que reclamam do apetite da Receita, enquanto os sindicatos silenciam quando deveriam estar nas ruas exigindo taxação progressiva; os jornalões se arvoram em defensores da liberdade de expressão quando foram associados e beneficiários da última ditadura.

A direita impressa quer fazer crer que todos os políticos brasileiros são iguais, isto é, corruptos, donde não haver saída pela política. Foi assim que a direita brasileira criou, em 1964, as condições subjetivas para o golpe militar, o qual, em seu primeiro momento, teve respaldo na sociedade brasileira, principalmente junto à classe-média que naquele então influía mais do que agora na formação do que se chama opinião pública. 

É construindo a ideia de que o processo representativo não resolve os problemas do país, que os políticos chegam ao poder apenas para realizar suas ‘revoluções’ pessoais, e de que o mal da democracia são os partidos, que a direita constrói o desalento coletivo, tentando fazer com que as grandes massas deixem de ver na democracia a grande alternativa, e na força do voto o poder de mudanças.

A corrupção em nosso país não é maior nem menor do que em qualquer outro país, e nunca foi combatida como está sendo, e não é nem uma deformação da democracia nem da política, porque ao lado do corrupto passivo há sempre um corruptor, que é sempre empresário.

Não é irrelevante (porque, aliás, é inédito) o fato de, em seus onze primeiros meses de governo, sete de seus ministros haverem sido demitidos pela imprensa, seis deles sob acusações de corrupção, ora não comprovadas, ora silenciadas quando o objetivo é alcançado. Os jornais que trazem o pedido de demissão do ministro do Trabalho já anunciam ‘suspeitas’ sobre outro auxiliar imediato da presidente, o honradíssimo ministro Fernando Pimentel.

No caso mais recente, a Comissão de Ética da Presidência, no meu entender exorbitando de sua competência, pede, publicamente, a demissão de um ministro, esvaziando a presidente da República do direito exclusivo de nomear e demitir seus auxiliares, um dos mandatos do sistema presidencialista que vivemos.

Para evitar novos transtornos, na tal reforma ministerial que a imprensa noticia diariamente como forma de exigência, terá antes a presidente de consultar as quatro famílias que monopolizam a informação no Brasil? Além disso, deverá consultar Febraban, Fiesp e CNI?

****

Prefeito diz que tem direito de pleitear reeleição

21.12.2011
Do BLOG DA FOLHA
Postado por José Accioly

Mesmo o PT outorgando a condução do processo eleitoral ao prefeito do Recife, João da Costa (PT), petistas estão divididos em fechar questão com o gestor. Se depender do diretório municipal, o chefe do Executivo é o nome do partido para 2012. Porém, lideranças do Partido dos Trabalhadores ainda ficam em cima do muro para chancelar o prefeito como candidato. Hoje, Costa reafirmou que tem o direito de pleitear a reeleição e não vai se abster de se colocar como alternativa para 2012.

“Acho desnecessário falar sobre isso agora (sucessão). É natural que o prefeito seja o condutor do processo. Agora, sou prefeito, tenho direito de ser reeleito e é natural que a gente faça um bom trabalho, como estamos fazendo. Vamos considerar todas as hipóteses. Agora, não vou me abster de colocar minha hipótese como alternativa”, contou João da Costa, durante agenda administrativa nesta manhã (21).
FBC

João da Costa afirmou aos jornalistas que ainda não teve oportunidade de conversar com o ministro da Integração, Fernando Bezerra Coelho – pré-candidato a prefeito do Recife pelo PSB. O problema, segundo o petista, é a incompatibilidade nas agendas. “Quando eu podia, ele não e vice-versa. A gente tem vontade política (de conversar), mas todos nós temos uma agenda muita intensa”, disse.

Veja também



*****

Opportunity apresenta defesa a parte das denúncias de Privataria tucana

21.12.2011
Do site do jornal CORREIO DO BRASIL, 20.12.11
Por Congresso em Foco

Daniel Dantas
Daniel Dantas foi citado em A Privataria tucana, livro de Amaury Ribeiro Jr.
Em carta enviada ao site brasileiro especializado em política Congresso em Foco, a assessoria do grupo Opportunity, que pertence ao empresário Daniel Dantas, respondeu a parte do conteúdo da entrevista realizada com o jornalista Amaury Ribeiro Jr., autor do livro A Privataria Tucana. O livro de Amaury reúne documentos – a maioria recolhidos pela CPI do Banestado – que tratam do processo de privatização de empresas estatais ocorrido no governo Fernando Henrique Cardoso e de operações em paraísos fiscais que Amaury relaciona a esse processo.
Na carta, o Opportunity nega que tenha sido beneficiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no leilão da Telebrás. De acordo com o grupo, essa denúncia seria resultado de “diálogos incompletos pinçados das fitas do BNDES”, numa referência ao caso das conversas gravadas em 1998 de pessoas ligadas ao banco e ao processo de privatização, que ficou conhecido como escândalo dos grampos do BNDES. Diz também que a carta de fiança obtida pelo Opportunity às vésperas da privatização não foi fundamental para a participação no leilão de privatização.
“Além do Banco do Brasil o Opportunity tinha cartas de fiança do Citibank, do Unibanco e do Banco Francês Brasileiro, mais que suficientes para pagar as aquisições que pretendia fazer. Ou seja, o Opportunity não precisava da carta de fiança do Banco do Brasil”, diz a carta.
A nota do Opportunity menciona também a sociedade entre a irmã de Daniel Dantas, Verônica Dantas Rodenburg, e a filha de José Serra, Verônica Serra. Segundo a nota, Verônica Dantas fora indicada para ser conselheiro da empresa, JVN Decidir. Não seria sócia.
Leia a íntegra da nota do Opportunity
Prezados senhores,

A entrevista “Amaury Ribeiro Jr.: assim caminhou a privataria” publicada, em 19 de dezembro, no site Congresso em Foco, cita Daniel Dantas e Verônica Dantas.
Por isso, é preciso esclarecer que:

Daniel Dantas criou, em 1994, o Opportunity – uma das primeiras empresas de gestão independente de recursos do país.   Em seu portfólio estão fundos de investimentos abertos (de liquidez diária) e fundos de private equity (fechados e de longo prazo). (*)

O Opportunity liderou consórcios que participaram do leilão de privatização da Telebrás em julho de 1998. Os consórcios liderados pelo Opportunity, capitalizados, adquiriram as empresas Brasil Telecom, Telemig Celular e Amazônia Celular. O Opportuntiy foi acusado de ter sido beneficiado pelo BNDES no leilão da Telebrás. O tempo e a Justiça provaram que não houve qualquer tipo de favorecimento.

Diálogos incompletos pinçados das fitas do BNDES suposta e indevidamente sugeriam que o Opportunity foi beneficiado pelos diretores do BNDES, falavam ainda sobre a concessão de uma carta de fiança do Banco do Brasil ao Opportunity. A solicitação dela ao patrocinador da Previ, aconteceu às vésperas do leilão e servia como garantia de que a fundação pagaria o combinado. Além do Banco do Brasil o Opportunity tinha cartas de fiança do Citibank, do Unibanco e do Banco Francês Brasileiro, mais que suficientes para pagar as aquisições que pretendia fazer. Ou seja, o Opportunity não precisava da carta de fiança do Banco do Brasil.

Em relação à Verônica Dantas esclarecemos que ela foi indicada pela JVN Decidir como conselheira da Decidir. Ou seja, a Verônica Dantas representava a JVN. Não era sócia da JVN. A JVN tinha uma participação pequena na Decidir e nunca foi um sócio/líder.

A Decidir foi lançada, em 1999, na Argentina e tinha como produto principal o serviço de avaliação de crédito de pessoas físicas e jurídicas. O Opportunity, por meio da empresa JVN Decidir, detinha uma participação de aproximadamente 3%. A participação da JVN Decidir atendia a um pedido do Citigroup, líder da rodada inicial de investimento.

O banco americano entendia que a JVN Decidir poderia ajudá-los a acompanhar a empresa no Brasil/Argentina. A Decidir, além da JVN Decidir, tinha como outros sócios: Latin American Investment Bank Bahamas Limited (Citicorp Venture Capital – Latin America) – 15%; SCP Partners – 12%; Latin Internet Ventures Inc. – 8%; GE Capital Equity Investments Ltd. – 7%; Investor International Cayman Limited (IRR) – 6% ; Cima Asset Management Inc. e Cima Consulting Ltd. – 5%; HSBC Tower Fund –  5%; Vas Latin America Corp. – 3%.

A participação da JVN Decidir foi vendida, em 2001, para os executivos da Decidir.com.

Atenciosamente,

Elisabel Benozatti

Assessoria de Comunicação do Opportunity

(*) O Opportunity figura entre as principais empresas independentes de gestão de recursos no mercado da América Latina.  A destacada rentabilidade dos fundos geridos pelo Opportunity é reconhecida e marcada pela conquista de prêmios. Os números são melhores que adjetivos. Suponhamos que, em 14/03/1986, o leitor tivesse investido no Opportunity Lógica II Fia o equivalente a US$ 10 mil. Ao término de junho de 2011, ele teria acumulado cerca de US$ 17 milhões. Já quem aplicou, durante este mesmo período, o mesmo valor em ações que compõem o Ibovespa, acumulou US$ 180 mil.

Em 1997, O Opportunity passa a dedicar-se também a gestão de fundos de private equity. Esses fundos de private equity  participaram das privatizações.

Prezados senhores,

A entrevista “Amaury Ribeiro Jr.: assim caminhou a privataria” publicada, em 19 de dezembro, no site Congresso em Foco, cita Daniel Dantas e Verônica Dantas.

Por isso, é preciso esclarecer que:
Daniel Dantas criou, em 1994, o Opportunity – uma das primeiras empresas de gestão independente de recursos do país.   Em seu portfólio estão fundos de investimentos abertos (de liquidez diária) e fundos de private equity (fechados e de longo prazo). (*)
O Opportunity liderou consórcios que participaram do leilão de privatização da Telebrás em julho de 1998. Os consórcios liderados pelo Opportunity, capitalizados, adquiriram as empresas Brasil Telecom, Telemig Celular e Amazônia Celular. O Opportuntiy foi acusado de ter sido beneficiado pelo BNDES no leilão da Telebrás. O tempo e a Justiça provaram que não houve qualquer tipo de favorecimento.
Diálogos incompletos pinçados das fitas do BNDES suposta e indevidamente sugeriam que o Opportunity foi beneficiado pelos diretores do BNDES, falavam ainda sobre a concessão de uma carta de fiança do Banco do Brasil ao Opportunity. A solicitação dela ao patrocinador da Previ, aconteceu às vésperas do leilão e servia como garantia de que a fundação pagaria o combinado. Além do Banco do Brasil o Opportunity tinha cartas de fiança do Citibank, do Unibanco e do Banco Francês Brasileiro, mais que suficientes para pagar as aquisições que pretendia fazer. Ou seja, o Opportunity não precisava da carta de fiança do Banco do Brasil.
Em relação à Verônica Dantas esclarecemos que ela foi indicada pela JVN Decidir como conselheira da Decidir. Ou seja, a Verônica Dantas representava a JVN. Não era sócia da JVN. A JVN tinha uma participação pequena na Decidir e nunca foi um sócio/líder.
A Decidir foi lançada, em 1999, na Argentina e tinha como produto principal o serviço de avaliação de crédito de pessoas físicas e jurídicas. O Opportunity, por meio da empresa JVN Decidir, detinha uma participação de aproximadamente 3%. A participação da JVN Decidir atendia a um pedido do Citigroup, líder da rodada inicial de investimento.
O banco americano entendia que a JVN Decidir poderia ajudá-los a acompanhar a empresa no Brasil/Argentina. A Decidir, além da JVN Decidir, tinha como outros sócios: Latin American Investment Bank Bahamas Limited (Citicorp Venture Capital – Latin America) – 15%; SCP Partners – 12%; Latin Internet Ventures Inc. – 8%; GE Capital Equity Investments Ltd. – 7%; Investor International Cayman Limited (IRR) – 6% ; Cima Asset Management Inc. e Cima Consulting Ltd. – 5%; HSBC Tower Fund –  5%; Vas Latin America Corp. – 3%.
A participação da JVN Decidir foi vendida, em 2001, para os executivos da Decidir.com.
Atenciosamente,
Elisabel BenozattiAssessoria de Comunicação do Opportunity
(*) O Opportunity figura entre as principais empresas independentes de gestão de recursos no mercado da América Latina.  A destacada rentabilidade dos fundos geridos pelo Opportunity é reconhecida e marcada pela conquista de prêmios. Os números são melhores que adjetivos. Suponhamos que, em 14/03/1986, o leitor tivesse investido no Opportunity Lógica II Fia o equivalente a US$ 10 mil. Ao término de junho de 2011, ele teria acumulado cerca de US$ 17 milhões. Já quem aplicou, durante este mesmo período, o mesmo valor em ações que compõem o Ibovespa, acumulou US$ 180 mil.Em 1997, O Opportunity passa a dedicar-se também a gestão de fundos de private equity. Esses fundos de private equity  participaram das privatizações.

*****

A ideologia e a privatização das teles

21.12.2011
Do blog de Rodrigo Vianna
Por Sergio Leo, do Amálgama

Já pensou se não tivessem privatizado a indústria automobilística? Ainda estaríamos usando aquelas carroças que o Collor xingou na década de 90, lembra?

O quê? A indústria automobilística já era privatizada? Hummm…

Mas e as companhias aéreas, hein? Lembra como era caro andar de avião? Só rico conseguia ir ao exterior. Depois da privatização, hoje qualquer um faz crediário e viaja a Buenos Aires, viu a matéria sobre a nova classe média viajando, na Globo?

O quê? As aéreas também já eram privadas?

Mas, então, o que aconteceu com as telecomunicações, hein? É consenso que graças à privatização, tudo mudou, e só a desestatização nos permite ter isso, hoje, esses telefones à disposição de todos, quando antes era coisa caríssima, declarada até no imposto de renda.

Não, comigo essa fábula não vinga.

Nos anos 90, em que os telefones se espalharam pelo país, houve uma revolução, um salto quântico na tecnologia de telecomunicações, e foi isso, não a venda da Telebras, as companhias financiadas pelo público BNDES, que barateou custos, simplificou o acesso, e popularizou o telefone. Boa parte do dinheiro investido veio do banco público, aliás. Os ganhos, claro, foram para os acionistas privados.

Só a fé cega em tabus ideológicos permite falar, sem piscar, que foi a privatição que fez isso tudo. Dê uma olhada na telefonia privada no México, da Telmex, e verá que o capital privado não garante eficiência.

Outro chavão é dizer que só a privatização garantiu recursos que o setor estatal não teria para investir. Ora, grande parte do dinheiro que financiou a compra das estatais e que financia os investimentos das privatizadas veio do setor público. Uma consulta ao site do BNDES mostra isso. Aliás, o setor público, com o BNDES e os fundos de pensão estatais, ainda detém boa parte do capital dessas empresas de controle privado.

Hoje, na TV — poderia ter sido em qualquer outro lugar — repórteres comentavam os dados da Pesquisa Nacional de Amostragem de Domicílios, e, comparando o mau desempenho do saneamento com a diseminação dos telefones, claro, saíram com esse chavão: ah, é claro, na telefonia privatizaram.

Pois bem, passou batido aos repórteres um pequeno dado: o grande crescimento na disponibilidade de telefone ocorreu na telefonia móvel, não na fixa, que tem caído em termos proporcionais: 49% das casas têm só o celular como telefone. Eram só 16% em 2004.

A quantidade de casas com telefone fixo (com ou sem celular) caiu, e chegou a 43,6% dos domicílios — eram 51,1% em 2001. E as casas só com fixo caíram proporcionalmente mais da metade, de mais de 14% para menos de 6%. Alguns noticiosos contaram essa história como “avanço do celular nas preferências do consumidor”. Prefiro pensar que é a consequência da tecnologia, que foi a principal responsável pela melhoria na distribuição de telefones no país.

A ligação de telefone fixo é mais barata que a de celular. Por que tão pouca gente (em geral, empresas e famílias de maior renda) opta pela telefonia fixa? Ora, porque ter um celular é bem mais fácil (e era impossível na Telebras estatal, porque não existiam celulares). Num mundo desses, claro que a tendência da telefonia seria tornar-se mais barata e acabar problemas como a compra da linha a preços caríssimos.

Agora, tenha a curiosidade de consultar os serviços de proteção ao consumidor. Quem está nas cabeças, como péssimo prestador de serviços à população? Ora, quem diria, as companhias de telefonia. Qualquer um que precisou trocar de linha, substituir o telefone, queixar-se de contas erradas sabe disso muito bem. Isso sem falar no próximo salto tecnológico, a banda larga, para o qual as empresas privadas, teoricamente, deveriam estar bem mais preparadas.

Se a telefonia fosse ainda estatal, esse problema estaria sendo jogado na conta do Estado. Como não é, é assunto tabu entre os profetas da privatização.


Meu amigo Vinod Thomas, insuspeito funcionário graduadíssimo do Fundo Monetário Internacional (e que provavelmente não concordaria com esse post), fez um belo estudo sobre o Brasil, recentemente, e, com sua experiência de funcionário de instituição financeira multilateral, comentava, em certo trecho: o que garante eficiência não é a propriedade ser estatal ou privada, é a existência de competição.


Por isso têm razão todos aqueles que dizem que eu exagero, que claramente houve melhoria após a privatização. Houve, e, em parte, devido a certas características do setor privado (encontráveis em boas estatais, como a Embrapa e a Petrobras, para dar dois exemplos). Mas não têm razão os que, ideologicamente, atribuem a mudança exclusivamente à privatização, como se ela fosse panaceia e o Estado, sempre um gerador de problemas.

Melhorou onde se impôs a competição (preocupação, registre-se, do tucano privatista Sérgio Motta, que Deus o tenha no confortável inferno dos ateus). E geraram-se fortunas até hoje envolvidas em escândalos que pipocam vez por outra, como se fossem indesejáveis chamadas de telemarketing.

Então, da próxima vez em que algum deslumbrado vier defendera privatização com esse exemplo falso aí da telefonia, concorde. E emende: “Sem falar no sucesso da privatização das montadoras de automóveis e das companhias aéreas, hein?”.

Leia outros textos de Outras Palavras
*****