terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Estudante espancada por PM na USP pediu ajuda a repórter da Globo e foi desprezada

06.12.2011
Do blog PRAGMATISMO POLÍTICO, 03.12.11



Sou asmática e quase desmaiei. Eles são sarcásticos, riam de mim, falavam que eu não ia sair dali. Eu gritava e batia as mãos no chão, e eles falavam "você está pedindo arrego?", diz estudante agredida

Uma estudante da USP denuncia, em depoimento, que foi agredida e ameaçada por PMs na ação de reintegração de posse da reitoria. Ela tentou registrar as agressões na polícia, mas não conseguiu. "Um deles pegou na minha nuca, bateu minha cabeça no chão várias vezes, na parte do couro cabeludo, para não deixar hematoma. Nisso passou um repórter da Globo, o primeiro a chegar no local. Quando eu o vi achei que era minha salvação:comecei a gritar e falar o que estava acontecendo. O repórter olhou com o maior desprezo e passou direto".

Nadya Krupskaya (nome fictício), 25, é professora de filosofia na rede estadual e estudante da USP. Ela foi uma das detidas após a reintegração de posse da reitoria da universidade. Na operação, conduzida no dia 8 de novembro, participaram cerca de 400 policiais, com carros, cavalos e helicópteros. Para desarmar os possíveis protestos de alunos, PMs impediram a saída de moradores do Crusp (conjunto habitacional da USP) durante a ação, usando inclusive bombas de gás para tal fim.

Leia também:

Nadya afirma que não estava na reitoria durante a operação e que foi presa e levada para dentro do prédio por PMs, após tirar fotos da operação. Ela está sendo indiciada, junto a mais de 70 pessoas, por desobediência à ordem judicial e dano ao patrimônio público.

Dentro da reitoria, ela alega ter ficado sozinha por 30 minutos com policiais homens, que a teriam agredido e ameaçado. Na delegacia, diz que tentou registrar as agressões, mas segundo a delegada que ouviu os detidos, não era possível registrar tal depoimento.

Segundo advogados que representam os estudantes detidos, o relato dela será a base de uma denúncia que deve ser feita ao Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), após o resultado dos exames de corpo de delito, ainda não finalizado.

Depoimento dado a Raphael Sassaki:

Eu ocupei a reitoria, participei do movimento, mas na noite da reintegração de posse, eu não dormia lá. Eu estava no meu apartamento no Crusp, quando acordei assustada com os barulhos dos helicópteros iluminando meu quarto. Em seguida, desci pra ver o que acontecia, muitos amigos estavam na reitoria.

Lá embaixo, PMs impediam as pessoas de sair, inclusive as que tinham que ir trabalhar ou pessoas que tem que acordar de madrugada para tocar pesquisas nos instituto, e também, claro, quem queria ir para a reitoria ver o que acontecia. Ainda estava bem escuro.

Eu desci junto com essas pessoas e, passado alguns minutos vendo aquela situação, começamos a sair por uma lateral do prédio.

Chegando próximo à reitoria, eu comecei a tirar fotos em frente ao cordão de isolamento da polícia, para registrar o que acontecia. Nisso apareceu um policial por trás de mim, apontando uma arma de grosso calibre. Eu fiquei paralisada; na minha frente o cordão de isolamento e atrás um cara armado.

Ele me pegou , me disse que eu estava detida e me mandou deitar no chão. Chegaram mais dois PMs, que já me jogaram no chão para me imobilizar; eu comecei a gritar, já que eu não estava lá dentro e eles não tinham justificativa legal para me deter, eu só estava filmando.

Foi quando um deles falou: "É melhor levar ela pra dentro". Na delegacia falaram que eu tentei entrar na reitoria. Como eu vou entrar em um lugar cheio de polícia, passando pelo cordão de isolamento?

Eles me levaram arrastada pra frente da reitoria, quebraram o vidro e entraram. Era uma sala escura, não havia nenhum aluno, só policiais homens.

Lá, me colocaram de pé e mandaram deitar no chão. Como eu não fiz imediatamente o que me pediram, eles chutaram minha perna, que ficou roxa. Acredito que isso conste no exame de corpo de delito.

Quando me jogaram no chão, um homem sentou nas minhas pernas, próximo ao meu bumbum, e dois no meu tronco, pressionando com o joelho meu corpo no chão. Havia vários em volta fazendo uma roda, porque como estavam ao lado do vidro, se alguém estivesse passando poderia ver.

A única visão que eu tinha era das botas. A sala estava toda escura. Devia ter uns 12 homens ali, algo descomunal para imobilizar uma mulher. O que me chocou e o que os advogados querem caracterizar como crime de tortura foi que nesse momento os policiais apertaram meu pescoço e taparam minha boca e meu nariz.

Eu sou asmática e quase desmaiei. Eles são sarcásticos, riam de mim, falavam que eu não ia sair dali. Eu gritava e batia as mãos no chão, e eles falavam "você está pedindo arrego?"

Um deles pegou na minha nuca, bateu minha cabeça no chão várias vezes, na parte do couro cabeludo, para não deixar hematoma. Eu tentei reagir e mordi a mão do PM que segurava minha boca. Quando fiz isso, eles me falaram: "Você conhece o porco?".

O porco é uma bolacha de plástico que enfiaram na minha boca e me impedia de falar e dificultava minha respiração, pois sou asmática. Eu fiquei com isso na boca enquanto eles falavam: "é melhor ficar quieta senão vai ser pior".

Eu pensei que não havia mais ninguém lá dentro, que todo mundo já havia sido retirado e que iam fazer o que quisessem comigo. Depois eu soube que tinha uma sala ao lado, onde as meninas ouviram tudo o que aconteceu ali, elas são minhas testemunhas. Onde eu estava, não tinha uma mulher, ninguém.

Depois de vários minutos dessa situação, me prenderam com um lacre, com as mãos pra trás. Apertaram isso muito forte e me levantaram pelos cabelos do chão; tiraram o 'porco' da minha boca e me levaram pra outro lugar, mais iluminado.

Eu reclamava do meu braço, que ficou roxo; isso não saiu tanto no corpo de delito, já que ele foi feito às 2h da quarta-feira, e a reintegração foi às 5h do dia anterior.

Eu reclamava que meu braço doía muito quando passou um repórter da Globo, o primeiro a chegar no local, o que fez toda a cobertura da desocupação. Quando eu o vi achei que era minha salvação: comecei a gritar e falar o que estava acontecendo. O repórter olhou com o maior desprezo e passou direto.

Mas os câmeras filmaram um pouco, tanto que as imagens estão no Jornal Nacional, onde eu reclamo da minha mão. Eu falando o que tinha acontecido eles não colocaram. Um cara [PM] ainda me falou "viu, não adianta nada você reclamar".

Eu não conseguia ficar de pé, mas eles me forçavam; um PM pegou o cassetete e apertou contra a minha garganta pra eu ficar em pé, junto à parede.

Eu estava assim, quando chegou uma policial mulher, uma loira, que imagino que eu possa identificar no processo --foram 25 mulheres presas e apenas 3 policiais mulheres, que contamos, essa era a única loira.

Eu achei que ela fosse ter o mínimo de sensibilidade. Eu falei [para o PM] 'você vai me bater de novo?". Nisso a policial mulher chegou, tirou ele de lá e falou: "Ele não pode te bater, mas eu sou mulher e posso" e pegou na minha blusa e me jogou duas vezes contra a parede. Eu reagi e dei uma cotovelada; ela saiu.

Eles continuaram em volta de mim. Essa loira reapareceu com minha máquina dentro da caixinha; achei delicado terem guardado, somente para ver depois que a máquina estava quebrada e sem o cartão de memória.

A policial [mulher] ainda me falou: "Se você colaborar eu vou te levar junto das meninas, senão, você vai ficar aqui com os meninos [os PMs] viu?".

Me levaram para a sala, onde todas as mulheres estavam sentadas no chão com vários policiais, que tampavam o vidro com escudos para que não pudessem vê-las.

Tinha mais polícia do que meninas, como se fossem oferecer grande risco. Elas disseram que eles falaram: "Não se preocupem com os gritos, é procedimento normal". Ainda disseram, 'não é nada, é só uma louca que entrou gritando'. Depois, soube que foram 30 minutos aproximadamente que eu fiquei sozinha com os PMs.

Ficamos um bom tempo nessa sala e começaram a me ligar. Eu atendi e disse que estava lá dentro; ninguém entendeu o que eu tava fazendo lá. Eu disse que passava mal, que precisava da minha bombinha. Aí sim os policiais acreditaram que eu tinha asma e 20 minutos depois me trouxeram minha bombinha, que meu namorado levou.

Depois mandaram eu desligar o celular e ficamos incomunicáveis. Havia vários policias sem farda, à paisana, filmando nossos rostos. Todos os PMs estavam sem identificação, dentro e fora. Reclamamos disso e a PM que me agrediu disse: "O que você entende de Polícia Militar pra saber o que PM pode ou não?".

Fomos levados para a sala principal, onde ficam os quadros dos reitores. Colocaram a gente na parece e nos obrigaram a sermos fotografadas, armados e ameaçando, vestidos com roupa normal e sem identificação. Sem identificação por quê? Porque se acontecesse algo muito sério ninguém poderia ser punido?

Eles sabem onde eu moro, sabem meu nome, por isso não me identifico. Eu estou visada por que eles sabem que o que fizeram foi irregular. Eles têm imagens nossas, de perfil, de lado, fizeram um 'book' da gente. Estávamos todos assustados, porque não sabíamos o que ia acontecer.

Nos levaram para a delegacia, onde ficamos mais de 20 horas. Durante o interrogatório, nos perguntaram nosso número USP. Por que isso importa? Pra reitoria nos perseguir?

Eles disseram que íamos somente assinar um termo circunstancial e ser liberados, mas depois de um ligação recebida, mudaram e decidiram nos imputar os crimes, inclusive formação de quadrilha e crime ambiental, que depois foram desconsiderados.

Fui atentidada pela delegada [Maria Letícia Camargo], tentei falar para ela sobre a violência que praticaram comigo; ela me disse que o questinário partia do pressuposto que eu estava lá dentro, e que não havia uma lacuna onde ela pudesse relatar o que que queria falar.

Então resolvi declarar em juízo. Quando eu saí, tinha um policial gordinho de olhos azuis, que quis botar as meninas que estavam fumando para dentro do ônibus. Como questionamos isso ele me disse: "É pra você acatar, que você já conhece minha força"; Eu disse 'então você estava lá, seu filha da puta, você me agrediu'. Depois disso ele desapareceu e eu não o vi mais.

Eu tentei fazer o boletim de ocorrência, mas a delegada se negou a registrar.

E é por isso que eu estou dando esta entrevista, porque ela teve a pachorra de dizer depois, em entrevista, que nenhum estudante alegou ter sido agredido.

O Movimento

Havia uma comissão para fazer material, outra para falar com a imprensa. Tinha a comissão de segurança, para garantir que não entrassem PMs nem imprensa, e que não fotografassem as pessoas. Tinha comissão de cultura, música, dança. É um absurdo falar que era um movimento de traficantes. Acha que tantas pessoas se organizaram dessa forma pra defender somente o direito de fumar maconha?

Ninguém ali está lutando pelo direito individual, polícia tem em todo lugar. Defendemos o direito de ter uma universidade de fato pública e aberta, para que as pessoas não tenham suas bolsas revistas e sejam punidas por crimes que não cometeram.

Agora os policiais estão ali, sabem onde eu moro, e podem me intimidar para eu não denunciar. Você pode achar um exagero, mas na USP há um programa de vigilância, com câmeras escondidas e funcionários do Coseas registrando as pessoas, inclusive relatórios da vida íntima e política das pessoas.

É estranho a mídia nos tachar de burguesinhos, porque se de fato fôssemos, o que íamos querer era justamente polícia pra nos proteger 'dos favelados'.

Eu já fui babá, monitora escolar, bóia fria, frentista de posto de gasolina, trabalhei em fábricas, em telemarketing, no comércio.

Hoje sou professora na rede pública estadual, dou aulas de filosofia para crianças. Quando eu voltei para a escola os alunos falaram: "Êba, a professora foi solta!". Eles já sabem que as coisas não são como mostram.

Eu nasci no sul do país, meu pai era militante e coordenador do MST, já morei em acampamento e isso sempre foi natural. Eu vim para a USP porque aqui me parecia um lugar livre, onde tinha moradia estudantil e jovens podiam pensar livremente; tudo engano.

Desde criança sempre tive um veia crítica sobre as coisas; eu não sou direita, mas também não sou xiita ou radical, como falam.

Sou só uma estudante que se indigna, que quer uma universidade que não seja só para ela; a USP pra mim foi um sonho, e eu queria que outras pessoas pudessem compartilhar isso.

Leia mais:

Não queremos universidade para a elite, mas para os trabalhadores e filhos de trabalhadores, algo que o reitor tenta impedir, bancado pelo governo.

Sou apenas uma indignada, que gosta de estudar, fazer política e morar no Crusp. Espero que eu não seja jubilada e possa prestar concurso para dar aula como professora efetiva, sem sofrer nenhuma represália, principalmente da própria universidade.

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Fonte:http://www.pragmatismopolitico.com.br/2011/12/estudante-espancada-por-pm-na-usp-pediu.html

ENTREVISTA COM SUSANA VELLEGGIA:A Ley de Medios argentina

06.12.2011
Do site do OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, 29.11.11
Por Marcus Tavares 

Há exatos dois anos, a Argentina aprovou a Ley de Medios, que tem o objetivo de investir contra a concentração dos meios de comunicação. O documento trouxe mudanças no dia a dia da sociedade, pelo menos oficializadas e defendidas no papel, o que para muitos especialistas já é um grande avanço. A lei dividiu de forma tripartite as faixas de frequência destinadas à radiodifusão entre veículos estatais, comunitários e privados e criou órgãos de fiscalização e controle social da mídia. A lei geral ainda definiu limites para a publicidade, institui a classificação indicativa de programas e proibiu o uso de concessões de radiodifusão por políticos em cargos públicos.
De acordo com o portal oficial do governo argentino, “a nova lei substitui a lei 22.284 da ditadura militar e busca garantir a democracia, os direitos humanos, o pluralismo, a promoção de emprego e os conteúdos nacionais”. Ainda reforça a ideia de disponibilizar 33% das emissões para o setor comunitário. Boa parte do conteúdo da nova lei foi baseado em propostas organizadas pelos movimentos sociais ligados ao tema das comunicações.
E o que dizer do público infanto-juvenil? Para a socióloga e cineasta argentina Susana Velleggia, especialista em televisão educativa e cultural, há também o que se comemorar. À frente da Asociación Civil Nueva Mirada, responsável há dez anos pelo Festival Internacional de Cinema para a Infância e Juventude, Susana destaca a criação do Conselho Assessor de Comunicação Audiovisual e Infância que tem muito mais do que uma simbologia: tem a chance de intervir na produção de uma TV de qualidade para crianças e adolescentes.
revistapontocom conversou com Susana Velleggia sobre este e outros temas. Acompanhe.
“Papel da mídia é cada vez mais importante nas eleições”
Em que contexto a Ley de Medios surgiu?
Susana Velleggia – A lei surgiu de uma conjugação de fatores, com a firme decisão política da presidente Cristina Kirchner e a obsolescência do decreto-lei anterior, promulgado pela ditadura militar em 1980. O texto recebeu mais de 170 retoques e remendos, implementados por outros decretos do próprio poder executivo nacional durante a década de 90, no apogeu da doutrina econômica neoliberal. Tudo isso teve o objetivo de facilitar os processos de concentração do poder de comunicação nas mãos de poucos grandes grupos. Empresários privados formaram um oligopólio cartelizado, com capacidade de impor uma agenda à sociedade, controlando preços e práticas do mercado da comunicação e impedindo o surgimento de outras vozes e opiniões.
Outro fator que colaborou para esta mudança foi a luta dos setores acadêmicos das diversas áreas de comunicação, dos sindicatos e dos profissionais progressistas que, há 20 anos, vêm demandando uma nova lei de radiodifusão por meio de suas organizações e de uma formação de uma espécie de movimento cívico em torno de um documento intitulado “20 pontos para uma radiodifusão democrática”. Este documento foi a base da elaboração da atual lei, embora não tenha considerado vários temas. Sem dúvida, ele foi muito mais além das demandas explícitas da sociedade que passou por processos históricos extremamente frustrantes, como a censura, o terror, a repressão, a ditadura, a impotência do regime democrático e o império absoluto das leis do mercado.
Cabe apontar também que aproximadamente 75 projetos de lei de radiodifusão estiveram em tramitação no parlamento desde a recuperação da democracia, em 1983. Porém nenhum deles pode ser sancionado devido a intensa pressão do lobby das empresas privadas de comunicação, de modo que os deputados e os políticos em geral foram reféns de si mesmos. Na Argentina, há eleições gerais a cada quatro anos e eleições de renovação parcial da Câmara dos Deputados e dos senadores a cada dois. Isso quer dizer que temos campanhas eleitorais a cada dois anos em que o papel da mídia é cada vez mais importante. Suas “operações” midiáticas podem “fabricar” um candidato ou destruir a credibilidade de outro.
Os decretos “desreguladores”
É fato que todo o processo de elaboração que resultou na sanção desta atual lei foi acompanhado por uma participação inédita da sociedade. O rascunho do projeto foi apresentado pela presidenta Cristina Kirchner em um ato público. A partir daí, a análise foi submetida em fóruns públicos em todas as províncias do país. Durante esse processo, foram recebidas, incluídas e corrigidas muitas propostas, com referência de quem efetivamente propôs cada modificação. Isso exigiu um processo de depuração e nova redação do documento, o que foi feito por um grupo extremamente especializado e capacitado. Esse processo levou cerca de um ano e foi acompanhado por atos, manifestações e movimentos massivos em todo o país, que obviamente as empresas de comunicação hegemônicas omitiram e dissimularam.
Na prática, o que representa a aprovação da nova lei?
S.V. – A lei 26.522 implica numa mudança revolucionária no sentido de democratizar as relações e o cenário da comunicação audiovisual na Argentina. Sua sanção e aplicação têm sido acompanhadas pela instrumentalização da TV Digital. Assim ela abrange os canais e rádios em funcionamento quanto aqueles que poderão vir a surgir com a possibilidade que traz consigo a digitalização da televisão, bem como, é lógico, a participação de outros atores da cadeia produtiva.
Frente ao monopólio do discurso audiovisual (rádio e TV) de um ou mais grupos de mídia, a lei abre espaço para que cooperativas, ONGs, municípios, universidades, escolas, grêmios etc possam obter licenças para operar canais na TV aberta. A lei abre espaço para a maior parte das forças representativas de todos os setores da sociedade que antes, sob a vigência do decreto-lei 22.285, com seus decretos reguladores a favor dos poderosos, chamados de decretos “desreguladores”, não tinham espaço. Nesta época, tanto os governos da ditadura como os do projeto neoliberal preferiram se entende e negociar com poucos grupos de mídia, com os conglomerados. Era uma questão de ter em seu controle tanto a ideologia quanto os negócios.
“O dilema é definir as regras do jogo”
Quais são os pontos positivos e negativos da lei?
S.V. – Entre os aspectos estruturais que já mencionei está a transformação nas relações de poder cultural, econômico e comunicacional em favor da sociedade e dos atores independentes ou minoritários. Há que ressaltar também o impacto sobre a produção audiovisual nas economias regionais e sobretudo na empregabilidade. As emissoras das províncias [estados] da Argentina, dependentes dos grupos de mídia, atuam como meras difusoras da programação produzida no âmbito central – cidade de Buenos Aires e Zona Metropolitana. A lei traz a descentralização, o que significa um intenso processo de movimentação e dinamização dos recursos locais, tanto humanos quanto econômicos e culturais. Esta lei, como todas as outras, pode melhorar a partir do fato de valorar seu funcionamento na realidade, sobretudo na realidade de um campo cujo dinamismo é enorme.
Porém, considero um erro a não inclusão, como estava no projeto original, das telecomunicações, que oferecem tanto a telefonia fixa como a móvel e acesso à internet. Hoje, na Argentina, a telefonia fixa e móvel estão concentradas em três grandes grupos/conglomerados multinacionais, destacando-se a Telefonica, da Espanha, a Telefônica da França e o Grupo Slim, do México. Trata-se de um setor que encontra-se hoje totalmente desregulamentado. Agora é mais difícil fazer uma lei das telecomunicações já que estes são os atores multinacionais de maior poder econômico e político que temos. Além disso, seus interesses estão fortemente atravessados pelo setor financeiro multinacional, que como estamos vendo na atual crise mundial é um poder praticamente intocável. A presidente Cristina Kirchner ordenou suprimir este capítulo do projeto original devido, particularmente, à pressão dos deputados do partido Proyecto Sur que se recusaram a votar caso fossem mantidos os artigos referentes às telecomunicações. Como os votos deste partido eram imprescindíveis para sancionar a lei, a presidente disse publicamente que suprimiria os artigos em questão. Deste modo, os opositores não tiveram como não aprovar a lei.
Lamento a profunda ignorância dos nossos deputados sobre este tema. Digo ignorância, neste caso, do partido da esquerda, porque todos os outros partidos de centro e centro direita trabalharam para os grupos de mídia e adotaram a estratégia política desenhada por eles para se opor à lei, inclusive mentindo descaradamente para manipular a opinião pública.
Trata-se de um grande embate. A Associação Argentina de TV a Cabo (ATVC), que é controlada pelo grupo de mídia mais importante, o Grupo Clarín, vem pressionado para que as empresas telefônicas não sejam habilitadas a transmitir conteúdos audiovisuais. O pano de fundo desta situação é um conflito de interesse entre as empresas de mídia, que têm participação acionária nas empresas de telefonia fixa, e as próprias empresas de telefonia que lutam por ingressar no mercado de conteúdos audiovisuais por si mesmas, o que já está começando a ser feito diante das possibilidades que a convergência e a digitalização oferecem. O dilema é definir as regras do jogo. Porque do contrário, corremos o risco de mudar a concentração dos meios de comunicação de uma mão para outra, de um grupo para outro.
“Deve-se aprender a escutar crianças e adolescentes”
Em que medida esta nova lei contribui para a produção de conteúdos voltados para a infância e adolescência?
S.V. – Com relação às crianças e aos adolescentes, a lei significa um gigantesco passo. Isto porque a lei estabelece uma articulação entre o cinema e a TV tradicional com o entorno audiovisual das múltiplas janelas – os games, a telefonia celular, a internet etc. Estamos diante de um cenário de múltiplas linguagens tecnologicamente moduladas. E é desta forma que as crianças, os adolescentes e jovens se comunicam e expressam. Essa mudança de paradigma se baseia em quatro eixos da política de comunicação que estão presentes na lei. São eles: 1) a desconcentração da atual estrutura de propriedade hiper concentrada nas mãos de poucos grandes conglomerados multimídias privados, que praticamente monopolizam a TV a cabo do país; 2) a descentralização territorial de uma estrutura de produção de rádio e televisão historicamente centralizada na cidade de Buenos Aires; 3) a abertura da diversidade cultural e informativa, mediante o estímulo e incentivo da participação da pluralidade de atores sociais na produção e emissão de discursos audiovisuais e acesso às frequências, restrito até então às empresas comerciais e ao Estado; e 4) o fomento para a produção nacional e local, realizada tanto por canais de TV quanto por produtores independentes, com a fixação de porcentagens mínimas na programação nacional.
A nova lei institui o direito de todos os cidadãos à cultura, com ênfase nas crianças, adolescentes e jovens. Publico para o qual se destinam medidas paradigmáticas expressadas no artigo 17 – que cria o Conselho Assessor para Comunicação Audiovisual e Infância e enumera suas funções – e em alguns incisos dos artigos 68, 70, 71, 81, 107, 121 e 124. Além do artigo 153 que, ao criar um fundo de fomento para a produção de programas de televisão de qualidade para crianças, traz uma atribuição maior ao conselho. Neste momento, uma comissão do Conselho está trabalhando na regulamentação do Fundo de Fomento Competitivo para a Produção de Programas de TV de Qualidade para as Crianças.
Isso outorga ao Conselho atribuições que vão muito além de ser apenas um órgão de assessoramento que produz recomendações e propostas. Pelo contrário, o artigo lhe confere uma atribuição de intervir na produção e no incremento de uma televisão de qualidade. Sabe-se que nenhuma lei em si muda de maneira automática problemas complexos de larga data. É a partir de um marco jurídico transformador que poderão ser revertidos os processos de expropriação de identidade e violência simbólica que orientaram as relações dos meios audiovisuais guiados por objetivos mercadológicos com a infância. A voz e a presença de crianças, adolescentes e jovens, de identidades diversas na televisão argentina, poderão ter lugar somente em condições promovidas por uma autêntica democratização das relações culturais e comunicacionais que reúnam os donos dos meios, os programadores e os adultos em geral. Todos esses atores devem aprender a escutar e a compreender crianças e adolescentes, antes de pretender “informá-los”, “educá-los” ou “entretê-los”. Esse Conselho Assessor para a Comunicação Audiovisual e Infância não deve ser visto somente como uma instância de monitoramento e assessoramento, já que constitui um passo decisório para a transformação ao articular-se com o fundo de fomento para a produção de programas de qualidade para a infância. Os canais de televisão estão começando a dar conta disto. Em alguns casos, com lentidão. Mas a presença e a voz do conselho estão fazendo com que aquela programação agressiva aos direitos de crianças tenha começando a se auto regular.
Mudanças na estrutura do poder da comunicação
A lei está em pleno vigor?
S.V. – A lei está em vigor, exceto o artigo 161, denominado de “desmonopolização” ou “desconcentração” da propriedade dos meios audiovisuais. Isto porque os grandes grupos que controlam a maior parte do mercado entraram com um recurso na Justiça contra sua aplicação. Estamos diante de um estigma para a Justiça Argentina. A causa está nas mãos de um juiz que, no passado, foi extremamente compreensivo com a ditadura e hoje está visivelmente ligado aos interesses dos grupos de mídia. O prazo para a desconcentração dos meios de comunicação, previsto pelo artigo, é de um ano a partir da sanção da lei, porém o processo está emperrado há mais de um ano por conta deste recurso. Evidentemente este embate é compreensível porque a aplicação do artigo supõe que os maiores grupos de mídia do país teriam que se desfazer de várias frequências/concessões de rádio e de TV. O grupo Clarín, por exemplo, teria que optar por quatro canais de TV a cabo entre os mais de 200 que possui.
Quais são as perspectivas?
S.V. – Mais participação social e maior democratização da comunicação no país. Mais canais, atores. Mais produção circulando, maior participação da cultura. Pela primeira vez, o sul do país vai conhecer a produção cultural e audiovisual do norte e vice-versa, o que parece mentira, mas de fato é a realidade. Também esperamos que as grandes mudanças na estrutura do poder político econômico e cultural da comunicação comecem a ser visualizadas nas televisões, não somente em relação a uma maior diversidade cultural de perspectivas, informações e opiniões, mas também em relação a uma maior qualidade de programação, e, consequentemente, de um maior desenvolvimento cultural da sociedade.
Acesse a página da Autoridad Federal de Servicios de Comunicación Audiovisual e leia a íntegra da Ley de Medios.
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DEM fará convenção sem festas

06.12.2011
Do blog OS AMIGOS DO PRESIDENTE LULA, 03.12.11



Sem chamar atenção, o DEM realizará na terça-feira sua convenção nacional. Em uma eleição feita com uma chapa única, a cúpula do Democratas fechou acordo para praticamente manter a atual executiva e reconduzir seu presidente, o senador José Agripino Maia (RN). O objetivo da legenda, que tenta recuperar-se do baque causado pela criação do PSD, é evitar novas divisões internas e preparar o partido para acelerar os preparativos relativos às eleições municipais no início de 2012.

Embora integrantes do DEM ainda tentem marcar a data com um evento de maiores proporções, a cerimônia deve ser discreta. Até ontem, estava prevista para ocorrer em uma sala no 26º andar de uma das duas torres do Congresso Nacional, onde está instalada a sede do DEM.....

"É uma convenção de procedimento, não tem festividade", explicou o presidente do DEM. "É mais interna, uma questão administrativa normal." A principal novidade que sairá da convenção nacional deve ser a eleição do novo secretário-geral do DEM. A vaga era ocupada pelo deputado Marcos Montes (MG), que deixou o Democratas para filiar-se ao PSD. O mais cotado para assumir a função, uma das mais importantes na estrutura partidária, é o deputado Onyx Lorenzoni (RS).

Além de Agripino Maia e Lorenzoni, devem participar da futura Executiva Nacional do DEM, por exemplo, Rodrigo Garcia (SP), atual secretário de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo, e os deputados Ronaldo Caiado (GO), Antonio Carlos Magalhães Neto (BA), Pauderney Avelino (AM), Felipe Maia (RN) e o senador Demóstenes Torres, líder da legenda no Senado.

"Vamos fazer uma convenção na sede do partido mesmo. Será um rito partidário", comentou o deputado Ronaldo Caiado, acrescentando que o partido deixará para 2012 seus principais eventos nacionais e caminhadas pelos Estados.

O DEM aproveita também as negociações sobre a formação da sua nova executiva nacional para tentar já iniciar as conversas acerca da eleição de seus próximos líderes no Congresso. Na Câmara, o deputado Pauderney Avelino trabalha para ser indicado ao cargo atualmente ocupado por Antonio Carlos Magalhães Neto. Mas uma ala da bancada trabalha com um cenário em que ACM Neto permanecerá na liderança do partido em 2012. No Senado, acredita-se que Demóstenes Torres será reeleito.

Em 2010, o DEM elegeu 43 deputados. Após a criação do PSD, movimento capitaneado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, o DEM ficou com uma bancada de 27 deputados federais. Já o PSD, que atraiu também parlamentares de outras legendas, tem 48 deputados.

O DEM conta ainda com cinco cadeiras no Senado, onde Kátia Abreu (TO) deixou o partido para ajudar a fundar o PSD. O Democratas também sofreu baixas nos Estados, perdendo prefeitos, vereadores e até o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo.

Em relação aos preparativos para as eleições municipais, o senador José Agripino Maia já iniciou um giro pelos Estados para tratar do assunto. O roteiro será retomado no início de 2012 com viagens a São Paulo e Minas Gerais. Do Valor

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Fonte:http://osamigosdopresidentelula.blogspot.com/2011/12/dem-fara-convencao-sem-festas.html#more

Ladrão tenta roubar lutador de MMA e toma uma surra antes de ser preso

06.12.2011
Do Do UOL Tabloide
Miranda perdeu por nocaute no primeiro assalto

Miranda perdeu por nocaute no primeiro assalto
Miranda perdeu por nocaute no primeiro assalto

Qualquer ladrão por menor que seja fica todo machão com uma arma na mão. Achando que podia fazer tudo, Anthony Miranda, de 24 anos, resolveu assaltar um carro dirigido por um fortão, em Chicago (EUA).

O assaltante se aproximou do veículo e pediu um isqueiro para a vítima. Quando o motorista disse que não tinha fogo, Miranda mostrou o revólver e anunciou o assalto.

Não tenho dó de ladrão, mas... pobre Miranda. Mal sabia que estava tentando roubar um lutador de MMA que compete no maior torneio da modalidade, o UFC (Ultimate Fighting Championships).

O lutador, que não quis ser identificado, pegou a arma, tirou as balas e deu uma surra em Miranda. O ladrão apanhou tanto que ficou com o rosto cheio de marcas roxas.

Quando a polícia chegou, declarou nocaute, o lutador manteve seu cinturão, digo, seu carro, e Miranda foi levado para a cadeia. Quer dizer, antes de ser preso, o ladrão ainda teve de dar uma passadinha do hospital.

*Com informações do New York Daily News
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Em São Paulo

CORRUPÇÃO: DEBATE LÚCIDO

06.12.2011
Do blog OS ANAIS POLÍTICOS, 02.12.11


Eu sempre sou da seguinte opinião. Corrupção no Brasil existe há trilênios. Você é que não sabia dela, por motivos bem óbvios.

E quais são esses motivos? Interesses políticos e financeiros. Por que a mídia ou determinados políticos denunciariam a corrpução se eles mesmos se favoreciam dela em imensa quantidade?

Besteira. Nem pensar. Não ia acontecer.

Então, a impressão que passava era que tinhamos poucos casos de corrupção. Tudo ficava devidamente escondido e só quando era um caso gigantesco, ou que, mesmo não tão grande, vinha de um não alinhado político, ela aparecia. Os apadrinhados do poder sempre passavam ilesos.

Afinal, acha que é pouca corrupção vender uma empresa como a Vale do Rio Doce, a maior do planeta, por um centésimo do valor real dela? Qual o nome disso senão corrupção e favorecimento dos amigos?

Bastou mudar o governo central, que parece que a corrupção foi inventada. Só quem é muito ingênuo pra acreditar nisso.

Não que justifique. Claro que não justifica. Corrupção tem que acabar. Mas ser cego é ainda pior do que ser conivente.

A BBC Brasil fez um pequeno debate sobre corrupção no qual falam duas cabeças pensantes. 


Cada uma defendendo seu ponto de vista. Vale a pena dar uma lida em ambas opiniões pra tentarmos chegar a uma noção mais realista sobre tantos escândalos (leia aqui).

Mas acho que o importante é não perder de vista que além de corruptos, temos corruptores. Coisa que o imprensalão normalmente não mostra. E não mostra por um motivo bem simples. 


Os corruptores deste Governo são os mesmos dos governos apoiados pela mídia corrupta. Ou seja, querem que vão os anéis, mas querem que fiquem os dedos, pra continuarem roubando, impunemente, apenas com um governo mais ao agrado do esquemão.

Marcos Valério nos deixa mentir? Ele inventou o valerioduto no governo tucano de Eduardo Azeredo. Mas curiosamente só foi denunciado pelas propinas do governo Lula. E não adiantou nada dizerem exaustivamente que o esquemão vinha de antes. A mídia do imprensalão só divulgou o que interessou.

Clique aqui para ver a paixão tucana por aviões pagos pelo povo.
Clique aqui para ler sobre a privatização da saúde no Paraná.
Clique aqui para ler sobre a enganação das telefônicas.
Clique aqui para ver como o Governo do Paraná é chapa das pedageiras.

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UNE convoca protesto “Ocupe Brasília”

06.12.11.2011
Do blog de Altamiro Borges
Por Altamiro Borges

A partir desta terça-feira (6), cerca de 300 jovens de várias partes do Brasil iniciam o movimento “Ocupe Brasília”. Inspirados em várias experiências internacionais, eles ficarão acampados na Esplanada dos Ministérios para exigir mais verbas para a educação. O protesto é organizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES).


Segundo Daniel Iliescu, presidente da UNE, o principal exigência do “Ocupe Brasília” é incluir no Plano Nacional de Educação (PNE) a meta de investimento de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para os próximos dez anos. Atualmente, o Brasil aplica somente 5% do PIB em educação. O projeto de lei que tramita na Câmara dos Deputados prevê aumentar este patamar para 8%.


Investimento insuficiente na educação


“A gente reconhece o esforço do relator, deputado Ângelo Vanhoni, de pautar essa discussão no governo. Mas, para a gente, 8% do PIB são insuficientes. O Brasil ultrapassou a Itália e já é a sétima economia do mundo, nos próximos anos vai ser a quinta. Mas, nos rankings internacionais, como o da Unesco, ficamos em 88° na qualidade da educação”, explicou Iliescu à Agência Brasil.


Além do aumento dos investimentos em educação, o movimento defenderá a inclusão da meia-entrada para estudantes na Copa do Mundo de 2014 e 50% do Fundo Social do Pré-Sal para a educação. A UNE programa algumas atividades para a semana, entre elas sessões de cinema com filmes nacionais e um campeonato de futebol no gramado da Esplanada em defesa da meia-entrada.


Mobilizar por uma agenda positiva


Com essa iniciativa aguerrida e criativa, a UNE procura interferir nos rumos do país. “A nossa inspiração vem de movimentos como o dos estudantes chilenos, dos manifestantes da Praça Tahir [no Egito] e os Indignados da Espanha. Com a diferença que aqui nós não vivemos uma situação de desemprego ou perda de direitos. O esforço é mobilizar os estudantes por uma agenda positiva”.
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Fonte:http://altamiroborges.blogspot.com/2011/12/une-convoca-protesto-ocupe-brasilia.html

ELEIÇÕES 2012: As prévias no PSDB de São Paulo, e um dilema: José Aníbal vai peitar Serra?

06.12.2011
Do blog de Rodrigo Vianna, 00.12.11
Por Rodrigo Vianna, especial para o SPpressoSP

O PT costumava ser o partido “das bases”. E, por extensão, o partido das prévias. Em 88, Plinio de Arruda Sampaio (hoje no PSOL) tinha apoio das principais lideranças petistas, mas foi Erundina (com apoio das “bases”) quem ganhou a prévia pra saber quem seria o candidato do partido à Prefeitura de São Paulo. Ao longo das últimas décadas, disputas duras (feitas de forma aberta) no PT também aconteceram no Rio Grande do Sul, Minas, Rio de Janeiro…

O PSDB, ao contrário, tem a tradição dos acertos “por cima”. Quem não se lembra da cena em 2006: 3 ou 4 caciques tucanos reunidos em volta de uma garrafa de vinho, num restaurante de São Paulo, pra saber quem seria o candidato a presidente. 

Pois bem. Na eleição para a Prefeitura de São Paulo, que ocorre em 2012, os papéis se inverteram. O PT “matou” as prévias. Haddad é o candidato de Lula. Portanto, é também o candidato “natural” do PT. O PSDB, em crise e dividido, apela para as prévias: seria apenas jogo de cena dos tucanos?

Parece que não. Interessante acompanhar esse processo interno. Há quatro pré-candidatos: Ricardo Tripoli, Andrea Matarazzo, Bruno Covas e José Anibal. Nessa segunda-feira, acontece um debate entre eles – no Teatro da “Folha” (diário oficial tucano?). É a largada da disputa. No dia 4 de março, 22 mil filiados estão aptos a votar nas prévias. Estima-se que, ao menos, 15 mil compareçam. Não é muita gente. Mas é uma tentativa do PSDB de “voltar às bases”.

Detalhe: muita gente no PSDB acha que o melhor nome para enfrentar o PT seria o de Serra. Mas ele está em dúvida. Quer esticar a corda até março ou abril, para avaliar melhor o quadro. Uma derrota para a Prefeitura faria Serra encerrar a carreira. Uma vitória o deixaria preso ao cargo, sem chance de abandonar o mandato pela metade (como já fez em 2006),  para concorrer à Presidência em 2014.

Conversei com uma fonte que conhece bem os bastidores da disputa tucana. Ela definiu os 4 pré-candidatos assim: Ricardo Tripolli é o “outsider”, entrou na prévia pra “ganhar cacife” e negociar cargos mais adiante (quem sabe uma vaga no Tribunal de Contas); Andrea Matarazzo é o nome mais ligado a Serra, não tem grande apelo popular nem entre as bases tucanas (o jeito de “mauricinho” não ajuda), e  se ganhar a prévia cumpriria apenas o papel de “guardar a vaga” até o último momento para o amigo Serra; Bruno Covas é (ou era) o preferido de Alckmin, mas se queimou em recentes declarações sobre o “escândalo das emendas” na Assembléia Legislativa” paulista; José Aníbal é o mais experiente, e o que tem mais apoios costurados nos diretórios tucanos.

Aníbal e Bruno (que é neto de Mario Covas e traria a marca da “novidade” e da “juventude” – numa eleição em que os adversários seriam também os jovens Haddad e Chalita, pelo PMDB) seriam os favoritos na prévia, hoje. Se Alckmin entrar pra valer na disputa ao lado de Bruno, pode fazer do deputado estadual o candidato do PSDB. Do contrário, é mais provável que José Anibal seja o escolhido (com um currículo alentado, e histórico de militância na esquerda, Aníbal foi exilado durante a ditadura; na volta ao Brasil, ajudou a fundar o PT antes de seguir para o PMDB e depois PSDB; cinco vezes deputado federal, foi líder tucano  na Câmara; é secretário estadual de Energia e conhece bem a máquina de governo).

Importante: Aníbal não se dá bem com Serra. Quando se candidatou à liderança do PSDB na Câmara, Serra apoiou Jutahy (deputado federal pela Bahia). Aníbal teve apoio de Aécio e ficou com a vaga. Ele e Serra estão longe de ser amigos.

(Para continuar lendo esse texto, vá ao SPressoSP, o novo site sobre São Paulo)
Concluída a prévia em março, o PSDB terá um mês pra fazer a “Convenção” que oficializará a candidatura. Nesse intervalo, entre a prévia e a Convenção, Serra poderia se decidir pela candidatura. Aí, os tucanos teriam a dura tarefa de “convencer” o vencedor da prévia a retirar a candidatura em prol de Serra. Nesse caso, o PSDB voltaria a ser o mesmo de sempre: acertos sempre “por cima”…

Acontece que José Anibal já mandou avisar: se ganhar no voto dos filiados, ninguém vai tirar dele a candidatura. Serra ficaria numa situação complicada. Haveria uma conflagração (outra) no partido se Serra tentasse se impor candidato depois da escolha de Aníbal (ou mesmo de Bruno Covas). No caso de Andrea Matarazzo ganhar a prévia (o que é hoje pouco provável), aí tudo ficaria tranquilo para Serra. Esse é o quadro entre os tucanos.

E o PSD de Kassab? Ficou bem enfraquecido com as denúncias contra a “Controlar”. 

Terá sido coincidência a denúncia surgir no momento em que se armam os palanque pra 2012? Para Alckmin, foi ótimo o enfraquecimento de Kassab… No quadro atual,  o PSD parece não ter muita escolha: indicaria o vice para um candidato tucano (Anibal, Bruno Covas; ou Serra).

O jogo do lado do PT é mais simples: Haddad é o candidato. E ponto. Terá ele o apoio entusiasmado das bases petistas? O cancelamento das prévias no PT não poderia provocar desmobilização? A indicação de que ele é o candidato ungido por Lula e Dilma talvez baste para levá-lo ao segundo turno. Mas, aí, a vitória dependerá  da performance individual do atual ministro. 

Chalita (PMDB), se não for ao segundo turno, pode ser decisivo na disputa final. E tenderia a apoiar o PT – até porque Michel Temer (vice de Dilma) é o padrinho da candidatura dele.
Haddad terá apoio dos tradicionais aliados petistas das legendas de esquerda? PCdoB e PDT estão um pouco arredios (ainda mais depois da fritura de seus ministros…) Fala-se até que o PDT de Paulinho da Força poderia fechar com os tucanos já no primeiro turno, se o candidato do PSDB for Jose Anibal.

O quadro é nebuloso. E o jogo será cheio de nuances, especialmente entre os tucanos. Por isso, vale a pena acompanhar de perto o desenrolar das prévias no PSDB.

Leia outros textos de Plenos Poderes

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Fonte:http://www.rodrigovianna.com.br/plenos-poderes/as-previas-no-psdb-de-sao-paulo-e-um-dilema-jose-anibal-vai-peitar-serra.html#more-10768

SÓCRATES: Viva, Doutor, viva

06.12.2011
Do blog TIJOLAÇO, 03.12.11
POR FERNANDO BRITO
Desculpem se, de novo, externo emoções pessoais e coloco um título que deve estar sendo usado aos montes por aí.
É que preciso falar, não sei se em nome de uma geração, mas certamente em nome de uns tantos guris que se politizaram  em meados dos anos setenta , a quem alguns de nossos “gurus” diziam aquelas baboseiras do tipo “futebol é o ópio do povo”.
Que diabo, a gente adorava futebol, principalmente os que, como eu, jogavam muito mal.
Mas é que o Sócrates, o Doutor Sócrates, acabou com o mito de que não só o futebol era alienante como o de que o jogador de futebol era um alienado.
Aliás, o “Magrão” era o anti-jogador de futebol por essência. Nem grande e parrudo, nem veloz e arisco.
Que diabos, se ele, desengonçado como era, podia ser gracioso com a bola, se podia levá-la à frente tocando-a para trás, com seus passes de calcanhar, se podia reabilitar a barba nos gramados – falhada, é verdade, não a cerrada que proibiram ao Afonsinho, anos antes -  se podia fundar a “democracia corintiana” em plena ditadura, porque é que nós, jovens esquerdistas, tpinhamos de nos privar de nosso delicioso ópio esportivo em nome da ideologia?
Nunca mais tive vergonha de saber de cor a escalação do Fluminense de 1970, no velho e bom 4-2-4: Félix, Oliveira, Galhardo, Assis e Marco Antonio, Denílson e Didi, Wilton, Flávio, Samarone e Lula.
O Doutor nos redimiu das culpas.
Com ele, o destino não foi bom nem justo. O Paolo Rossi só pode ter feito um pacto com o diabo naquele 3 a 2 de 1982. E o pênalti  de 1986 foi de uma maldade que clama aos céus.
Mas não foi isso, tenho certeza, o que tornou amargo o grande Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, não foi.
Foi perder o entrosamento, como é tão fácil perder, quando a gente não tem mais a energia dos jovens, nem aprendeu ainda a ser sábio como os velhos.
Quando não descobrimos ainda como jogar de fora das quatro linhas.
Quando não descobrimos que é possível ensinar a tocar de calcanhar, mostrando que o que vai para trás pode ser o que nos leva à frente.
Que aquilo que se passou se projeta, em outros corpos, outros pés, outras cabeças, em busca de outros gols.
Viva, Doutor, viva, por favor. Se não por você, por nós, que estamos na torcida.
Precisamos de craques como você.
PS. Escrevi no final da noite de sábado. O dia começa com a notícia da morte de Sócrates, o domingo em que o Corínthians em que ele brilhou é o favorito para ser campeão, embora o valoroso e incrivelmente inesgotável Vasco ainda esteja na briga. Ganhe quem ganhar, hoje é um dia em que nenhum brasileiro que ame o futebol  – e não as correrias e trombadas que nos tentam fazer crer que ele é -  estará plenamente feliz.
PS2: O ex-presidente Lula, sua mulher, Marisa Letícia, e família acabam de experdir a seguinte nota de pesar:“O Doutor Sócrates foi um craque no campo e um grande amigo. Foi um exemplo de cidadania, inteligência e consciência política, além de seu imenso talento como profissional do futebol. A contribuição generosa de Sócrates para o Corinthians, para o futebol e para a sociedade brasileira jamais será esquecida. Neste momento de tristeza, prestamos solidariedade a esposa, familiares e amigos do Doutor”.
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Fonte:http://www.tijolaco.com/viva-doutor-viva/