segunda-feira, 3 de outubro de 2011

USP homenageia vítimas da “Revolução de 1964″?

03.10.2011
Do blog de Luiz Carlos Azenha, 
Por Conceição Lemes

Alunos, professores e funcionários administrativos da USP estão sem entender. Como num verdadeiro abracadabra, um “Monumento em Homenagem e Cassados na Revolução de 1964” começou a ser feito na Cidade Universitária. É na Praça do Relógio, em frente ao anfiteatro, ao lado do bloco A do CRUSP.
Ninguém sabe de onde veio a ordem para fazê-lo. Ninguém debateu. Ninguém opinou sobre a sua construção. Nem mesmo professores que trabalham com direitos humanos têm ciência do que realmente se trata.  Não se tem ideia do que simbolizará nem como será o seu desenho.
Seria uma obra de “geração espontânea”? Como se aprova um “monumento” desse na Cidade Universitária e a comunidade uspiana não é ouvida?
Serão gastos 89 mil reais e a obra está a cargo da Scopus  Construtora e Incorporadora, como se lê na placa.Atua no ramo da construção civil:
A Scopus é uma velha conhecida do governo do estado e da prefeitura de São Paulo.
Como não se conhece o projeto do “monumento”,  não dá para aferir se a Scopus tem expertise na área.  A propósito, quem está pagando a Scopus?  Houve licitação?
Pela placa seria um projeto da Secretaria Especial de Direitos Humanos, ligada à Presidência da República. Será que a ministra Mário do Rosário sabe disso? Aprova os dizeres?
E Sérgio Gabrielli, presidente da  Petrobras, que teoricamente patrocinaria o projeto, concorda com esses termos? Os petroleiros foram massacrados pela ditadura.
Curiosamente não há na placa logotipo do governo federal.
“A placa foi feita casualmente por um burocrata ou os termos que nela constam serão os do próprio monumento?”, questiona o professor Lincoln Secco, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. “Se o monumento  é para  as vitimas da  ‘revolução’,  então  ele  não é da esquerda, e  sim de eventuais torturadores que morreram,  como o  Fleury [delegado Sérgio Paranhos Fleury].”
“É tudo muito estranho, especialmente num momento delicado como este, em que se discute a Comissão da Verdade”, observa a cientista social Maria Fernanda Pinto. “Como instituições de Direitos Humanos propõem um monumento aos que foram mortos pela ditadura com esse nome de ‘Revolução de 64’? Revolução de 64 é a pauta da direita. Para nós, foi um golpe militar-civil. E por que pontuar 1964? É como se os  20 anos da ditadura não tivessem existido. Só que existiram e muitos tombaram.”
“O que todos nós esperamos é que haja um monumento em memória das vítimas do Golpe de 64 na nossa universidade”, observa o professor Lincoln Secco. “Proporcionalmente, a  USP foi uma das  instituições que mais perderam alunos e  professores  assassinados.”
“O Crusp foi um dos últimos bastiões do movimento estudantil”, defende Maria Fernanda. “Nós queremos também renomear os blocos do Crusp. Hoje, são A, B, C… Nós queremos que tenham o nome dos alunos e professores da USP que tombaram na ditadura.”
Com a palavra a ministra Maria do Rosário, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, o  reitor da USP, João Grandino Rodas, e Sérgio Gabrielli, da Petrobras.
Recentemente Rodas foi declarado persona non grata no Largo São Francisco pela Congregação da Faculdade de Direito da USP, da qual foi diretor. A Congregação é a instância máxima de uma faculdade, nela votam representantes de alunos, funcionários e professores (são a maioria). Essa declaração foi aprovada por unanimidade.
Leia também:
 

Fonte:http://www.viomundo.com.br/denuncias/usp-homenageia-vitimas-da-revolucao-de-1964.html

MANIPULAÇÃO DA MÍDIA: Pimenta no dos outros é refresco

03.10.2011
Do BLOG DO AMORALNATO
Por Herivelto Quaresma via DoLaDoDeLa
Postado por René Amaral


No dia 30 de julho de 2011, houve um ato político de propaganda e lançamento dos grupos eliminatórios da Copa do Mundo, no salão de festas da Marina da Glória, no Rio de Janeiro.




O ato durou aproximadamente três horas, teve ampla cobertura do Jornal Nacional e da grande mídia brasileira. Participaram dele a Presidenta 

Dilma Rousseff, o presidente da FIFA, o governador do Rio de Janeiro Sergio Cabral, o prefeito Eduardo Paes, o Ministro dos Esportes, o todo poderoso presidente da CBF Ricardo Teixeira e artistas globais que se revesavam entre chefes de cerimônia e apresentadores culturais.

Tudo isso para anunciar os grupos da Copa. Apenas isso.

Custo do evento: 30 milhões de reais. Quem pagou? 15 milhões foram pagos pela Prefeitura do Rio de Janeiro e 15 milhões de reais pelo Governo do Estado do Rio de janeiro. Ou seja, tudo pago com dinheiro do contribuinte.

Vejam alguns gastos que foram feitos com esses recursos, em tão pouco tempo:

  • Aluguel do espaço na Marina da Glória, por um dia: 3,7 milhões de reais.
  • Aluguel de 70 cadeiras com braço, que não havia no local: 204 reais por cadeira, pelo tempo de meio dia.
  • A diretora que coordenou e planejou o evento recebeu 54 mil reais.
  • Os artistas e convidados cobraram para ir 416 mil reais.
  • O assistente geral da coordenadora recebeu 6 mil reais.
  • Uma arquiteta júnior (não se sabe para que grande obra) recebeu 22,5 mil reais.
  • O “supervisor de chegadas e partidas” levou 4 mil reais.
  • O diretor de TV, imprensa e assessoria jurídica cobrou 162 mil reais.
  • Cenografia do local: 2,24 milhões.
  • Transportes dos artistas, de suas casas e hotéis até o local: 112 mil reais.
  • Custo da produção do evento (?): 1,716 milhões.
  • O motorista, coitado, recebeu apenas 3,5 mil por um dia de trabalho.
Tudo isso pago com dinheiro público e sem nenhuma licitação, pois o evento era sui generis, excepcional e poucas pessoas teriam capacidade no Brasil para organizá-lo… A justificativa: seria transmitido para todo mundo.

Mas isso não é a parte mais “interessante”. Qual foi a empresa prestadora de serviços que recebeu os trinta milhões de reais, de dinheiro público, e aplicou desta maneira? A GEO EVENTOS. Proprietários da empresa: Organizações Globo e Grupo RBS (associado da Globo no Rio Grande do Sul).

Por meio de nota, a empresa GEO EVENTOS explicou ao jornalista: “(…) os valores do serviço foram estabelecidos na proposta, que previu uma remuneração padrão, dentro de preços de mercado, e foram correspondentes ao prazo e complexidade das operações de produção. A apresentação de documentação e prestação de contas ocorreu dentro do modelo dos eventos patrocinados pela Prefeitura e Governo do Estado do Rio de Janeiro”.

Ou seja: foi uma roubalheira generalizada, mas com o crivo do Estado e, portanto, oficial.

Por tudo isso, a Rede Globo se cala diante dos descalabros do Ricardo Teixeira, que será investigado pela Polícia Federal por remessa de dinheiro ilegalmente para o Brasil e lavagem de dinheiro.

O dinheiro supostamente enviado para o Brasil teria sido recebido por Teixeira como suborno por parte da empresa de marketing ISL, para garantir que ela tivesse o direito de transmissão de TV de algumas copas. 

Quem fez a denúncia foi o jornalista Andrew Jennings, da BBC de Londres. Ainda segundo o jornalista, o suborno pago a dirigentes da FIFA chega a US$ 200 milhões, que foram pagos através de empresas fantasmas sediadas no paraíso fiscal de Liechtenstein. A determinação para investigar Teixeira também atinge João Havelange, ex-presidente da FIFA, e partiu do Ministério Público, após as denúncias da mídia.

Qual a moral da Globo para ficar exigindo rigor no uso dinheiro público? E ficar cobrindo passeatas da classe média com vassouras que nunca usaram, clamando contra a corrupção? Corrupção de quem?

A saber: o custo de alfabetização de um adulto, segundo o MEC, é de 500 reais. Ou seja, com esses 30 milhões o Estado do Rio de janeiro poderia ter alfabetizado 60 mil trabalhadores adultos.

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Fonte:http://amoralnato.blogspot.com/2011/10/pimenta-no-dos-outros-e-refresco.html

Assentamentos de Pernambuco mostram potencial do manejo na Caatinga

03.10.2011
Do  site do Ministério do Meio Ambiente, 26/09/2011
Por Fabiana Vasconcelos/Serviço Florestal



Renda bruta por hectare
Foto Assentamentos de Pernambuco mostram potencial do manejo na Caatinga
O manejo florestal pode ser um instrumento para reduzir a pobreza entre os assentados da reforma agrária na Caatinga. A renda bruta que um agricultor familiar obtém com o manejo por ano é de R$ 127,00 por hectares, mais de três vezes o que se obtém com a pecuária, que é R$ 39,00, ou com a agricultura, que é R$ 45,00.

Os dados foram apresentados pela Associação Plantas do Nordeste (APNE), que presta assistência técnica a assentamentos em Pernambuco por meio de contrato assinado com o Serviço Florestal Brasileiro, durante seminário realizado em Brasília na quinta-feira (22/9).

Ao apresentar os números, o engenheiro florestal da APNE Frans Pareyn, disse que a idéia é mostrar que o manejo pode ser uma fonte de renda tão ou mais importante que outras atividades produtivas tradicionais do sertão. "O potencial do manejo está aí e pode ser uma fonte de renda muito interessante, principalmente para quem está perto de onde há uma grande demanda."

Segundo Pareyn, o manejo florestal na Caatinga traz a vantagem de ser uma atividade de baixo custo, pois não requer maquinário especial para a extração e transporte, e de conservar a Caatinga, pois o manejo mantém a biodiversidade do bioma, um dos mais ameaçados no País.

Nos 25 assentamentos atendidos pela APNE, a média de área conservada é de 56%, soma da área de manejo, mais reserva legal e áreas de preservação permanente. Nesses assentamentos, o pequeno produtor que dedica, por ano, 25 dias ao manejo na estação de seca consegue uma renda de R$ 1.287,00 por família.

O agricultor familiar Anízio da Silva, do assentamento Brejinho, realiza a extração sustentável de lenha há três anos e encontrou no manejo uma forma de continuar no campo durante o período da seca. "Nessa época, em lugar de sair para cortar cana lá fora, estamos trabalhando na terra da gente e não precisamos largar a família", afirma. O dinheiro é usado principalmente na alimentação.

Escala

Os debates sobre o potencial social e econômico do manejo chamaram a atenção para a possibilidade de incluir os assentamentos na cadeia da energia florestal. Em todo o Nordeste, existem pelo menos 3.150 assentamentos, com 240 mil famílias, cuja área atinge cerca de 8 milhões de hectares, ou 10% do bioma.

Ao mesmo tempo, a lenha e o carvão respondem por cerca de 30% da matriz energética do Nordeste, com um consumo estimado de 7 a 8 milhões de metros cúbicos por ano (ou 25 milhões de metros estéreos) para atender somente a demanda industrial/comercial da região, e os agricultores familiares teriam a oportunidade de atender parte desse mercado.

Mas para que o manejo avance, os participantes do Seminário - que incluiu representantes do órgão ambiental de Pernambuco, do setor gesseiro, do Incra, Ministério de Minas e Energia (MME) e do Ministério do Meio Ambiente (MMA) - apontaram a necessidade de superar desafios em várias áreas.

Um deles é fornecer assistência técnica florestal de longo prazo para os assentados que garanta a eles apoio nas atividades de manejo. Outro gargalo está na burocratização do licenciamento para a atividade florestal, que chega a levar mais de seis meses para aprovação.

A ilegalidade na produção de lenha, ainda alta, é outro entrave. "O combate à ilegalidade é um dos principais problemas a serem resolvidos", afirma a engenheira florestal da Unidade Regional Nordeste do Serviço Florestal, Maria Auxiliadora Gariglio.

O presidente da Assogesso, Charles Barros, diz que todas as 16 empresas gesseiras da entidade usam lenha legalizada e que foi aprovada em assembléia a exclusão do associado que for autuado por órgão fiscalizador ambiental.

O setor gesseiro, o de cerâmica vermelha e o de siderurgia estão entre os maiores consumidores de produtos florestais. Para Barros, o consumo de lenha ilegal ocorre pelo empresário "que ainda não tem a consciência ambiental" e ainda se guia pela cultura de pagar R$ 3,00 ou R$ 5,00 mais barato pelo metro cúbico da lenha ilegal.

A substituição da lenha ilegal por aquela de origem manejada é uma enorme oportunidade de conservação do bioma e de geração de emprego e renda para o produtor do semiárido e, portanto, deve ser incluída e valorizada nas políticas de desenvolvimento rural do Nordeste, diz a diretora de Fomento e Inclusão do Serviço Florestal, Claudia Azevedo Ramos. "Considerar essas florestas energéticas na matriz de energias renováveis do país é incluir também a questão social e de alívio da pobreza", afirma.

Entre as sugestões apresentadas no seminário estão a criação de um selo para atestar a produção legal, a criação de incentivos por meio da compra da produção dos assentados pelo governo, como ocorre com outros produtos, e a construção de planos estaduais de apoio ao manejo comunitário e familiar, a exemplo do que já é realizado pelo governo federal por meio do MMA.

"Fortalecer o manejo florestal, sem dúvida, dependerá de ações estruturadas que, segundo os participantes, passam por diversos segmentos envolvidos no manejo. É preciso discutir, por exemplo, um pacto entre governo, produtores e consumidores que venha a coibir a lenha ilegal", afirma a diretora.

Manejo na Caatinga  

O manejo florestal é um conjunto de técnicas para o uso sustentável e planejado dos recursos florestais. Na Caatinga, o manejo consiste em dividir a área total disponível para a atividade florestal em 15 lotes, chamados de talhões. A cada ano, o agricultor corta a vegetação de apenas um talhão. No ano seguinte, será trabalhado apenas outro talhão, enquanto o do ano anterior fica em descanso para a vegetação se regenerar. A lenha e o carvão são os principais produtos obtidos da extração florestal.

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Fonte:http://www.mma.gov.br/sitio/index.php?ido=ascom.noticiaMMA&codigo=7002

UEM SÃO OS CALOTEIROS NO BRASIL?

03.10.2011
Do blog DEMOCRACIA E POLÍTICA
Por Paulo Daniel*

 Paulo Daniel*
“Nos últimos oito anos, o montante de crédito concedido às pessoas físicas, com recursos livres, cresceu de forma expressiva, passando do equivalente a 5% do Produto Interno Bruto (PIB) em janeiro de 2003 para 15,5% do PIB em julho de 2011.

Nesse sentido, o Banco Central do Brasil (BC) realizou análise das características dos tomadores de empréstimos de quatro grandes bancos que, juntos, detinham 74% do mercado em julho de 2011. Entre as informações analisadas nos dados cadastrais, estão gênero, idade, estado de residência, tipo de ocupação e inadimplência.

Segundo o levantamento, em todas as regiões do Brasil clientes com a ocupação “profissional liberal” ocupam o desconfortável primeiro lugar na lista de inadimplentes. Na região Centro-Oeste, é onde há o pior indicador: 5,2% dos profissionais liberais estão com pagamentos de dívidas com atraso superior a 90 dias. Em seguida, estão as regiões Sudeste (5,1%), Sul (4,6%), Nordeste (4,5%) e, por último, os Estados do Norte (4,4%).

segunda categoria com mais calotes é a dos empresários, cujas taxas de inadimplência oscilam entre a máxima de 4,3% no Centro-Oeste e a mínima de 3,7% no Sudeste. No restante do Brasil, a taxa de atrasos entre os empresários é de 4% no Nordeste e Norte e de 3,8% no Sul do Brasil.

Conforme a análise do BC, os empregados do setor privado são, proporcionalmente, mais caloteiros do que funcionários públicos. Em quatro das cinco regiões brasileiras, clientes que trabalham na iniciativa privada têm taxas de inadimplência maiores que os que estão no setor público. A única exceção é o Sul do Brasil, onde o quadro se inverte.

Na região Sudeste, enquanto a taxa de calote entre os devedores que trabalham no setor privado é de 3,3%, o porcentual entre os trabalhadores do serviço público é de 2,1%. No Nordeste, estão os servidores públicos que melhor pagam as dívidas no Brasil, com inadimplência de apenas 0,6%. Nessa mesma região, o indicador dos empregados privados está em 2,1%.

Entre os brasileiros que deixaram de trabalhar, os nordestinos são os melhores pagadores, com taxa de inadimplência de 0,8%. Os aposentados que estão no Centro-Oeste brasileiro, possuem uma taxa de 1,9% de inadimplência, e do Sudeste e Sul, ambos com índice de inadimplência de 2,3%.

Portanto, o BC desmistificou que pobre, aposentado, trabalhadores do serviço público e até mesmo sem emprego não pagam suas dívidas –e deu mais um argumento de que não vivemos uma bolha de crédito com riscos de inadimplência.”

* Paulo Daniel, é Mestre em economia política pela PUC-SP, professor de economia e editor do Blog “Além de economia”. Artigo publicado originalmente na revista “CartaCapital” e transcrito no blog “Projeto Nacional”  (http://blogprojetonacional.com.br/quem-sao-os-caloteiros/) [imagem do google acrescentada por este blog 'democracia&política'].

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Fonte:http://democraciapolitica.blogspot.com/2011/10/quem-sao-os-caloteiros-no-brasil.html

A assombrosa história de Olderico Barreto, homem que encarou o carrasco Fleury

03.10.10.2011
Do blog PRAGMATISMO POLÍTICO



"Isso é um bicho", exclamou, espantado, um dos repressores quando costuravam a mão de Olderico Campos Barreto, sem anestesia, e ele não dava um gemido sequer... 
Olderico (esq.) no local onde Lamarca e Zequinha foram mortos
Um pouco antes, um grupo de agentes da ditadura do Rio de Janeiro tinha assumido o interrogatório, tachando o pessoal de São Paulo de “bunda-mole” porque não conseguiam arrancar de Olderico ainformação sobre onde Lamarca estava escondido. “Vamos ver se ele não fala”, disse um e meteu a boca da pistola no ouvido de Olderico. “Aperta o dedo”, desafiou – ou foi “aperta o gatilho?”, ele se pergunta ao contar o episódio 40 anos depois -, para o espanto dos torturadores, assombrados com tamanho destemor. E um deles soltou o “elogio”: “Isso é um bicho!” 

Leia mais:

Era o dia 28 de agosto de 1971. Olderico, então com 23 anos, tinha sido ferido no ataque do grupo comandado pelo temido delegado Sérgio Paranhos Fleury – chefe de torturadores e de grupo de extermínio da polícia paulista – à casa do seu pai, o velho José Barreto, em Buriti Cristalino, povoado do município de Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina, a cerca de 600 quilômetros de Salvador. Fleury estava à procura do capitão do Exército que virou guerrilheiro, Carlos Lamarca, que estava escondido no mato, a pouca distância do povoado, em companhia do seu irmão mais velho Zequinha (José Campos Barreto), então companheiro de militância no MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro, antes eles militaram na VPR – Vanguarda Popular Revolucionária) e que se tornara também inimigo da ditadura ao liderar, em 1968, a famosa greve dos metalúrgicos de Osasco, em São Paulo.

Lamarca e Zequinha ouviram a fuzilaria no povoado, na casa do velho José Barreto, e fugiram tentando escapar do cerco. Pelo mato, a pé, fragilizados pela desnutrição, isolados dos moradores levados a vê-los como terroristas, foram mortos poucos dias depois, no dia 17 de setembro, após uma marcha heróica por aquela inóspita região do semi-árido. Já sem condições de oferecer resistência, foram metralhados por um comando do Exército, sob a chefia do então major Nilton Cerqueira, nas proximidades de Pintada, povoado do município de Ipupiara, pertinho do limite com Brotas de Macaúbas. Estes episódios estão no livro “Lamarca, o capitão da guerrilha”, de Emiliano José e Oldack Miranda, que virou filme dirigido por Sérgio Rezende, e no documentário “Do Buriti à Pintada – Lamarca e Zequinha na Bahia”, de Reizinho Pereira dos Santos.

Relatou repetidas vezes, com paciência de missionário, estes assombrosos acontecimentos

Olderico, agora com 63 anos, é a principal testemunha da tenebrosa violência que se abateu sobre a família do patriarca José Barreto, então com 65 anos, que sobreviveu a terríveis torturas. Veio a morrer em 1995. Durante o ataque à sua casa morreram outro dos seus filhos, Otoniel (esboçou uma temerária reação, seguida da tentativa desesperada de fuga, ao ouvir os gritos do pai sob tortura), e o militante Luiz Antônio Santa Bárbara, companheiro de Lamarca e Zequinha, que estava morando em sua casa.

Ao amanhecer do dia 28 de agosto de 1971, Olderico estava no centro do furacão. Por um momento no desigual tiroteio, se viu frente a frente com Fleury, mas teve a sorte de, ferido na mão e no rosto, tombar para dentro de um dos cômodos da casa e sair da linha de fogo. Ele conta tentando entender aqueles momentos de extrema aflição: os truculentos agentes de Fleury chutavam e pisavam na sua mão direita, ferida à bala, e até hoje deformada.

Nos atos públicos e celebrações dos últimos dias 17 e 18, realizados em Brotas de Macaúbas, Buriti e Pintada, para marcar os 40 anos do assassinato de Lamarca e Zequinha, Olderico relatou repetidas vezes às dezenas de visitantes, aos repórteres, fotógrafos e documentaristas, com paciência de missionário, estes assombrosos acontecimentos, já bem conhecidos nos contornos gerais, mas mesmo assim com lances emocionantes, especialmente quando relatados por um tal protagonista. (Depois da prisão e uma temporada em São Paulo, ele decidiu retornar à sua terra pensando em fazer alguma coisa em benefício dos seus conterrâneos. Atualmente é gerente da Cooperativa Agro-mineral Sem Fronteiras Ltda (CASEF) – Brotas se destaca na produção de cristais de quartzo – e um cidadão participante da vida social e política da região, como se pode ver no decorrer deste relato).

Guiados por suas indicações, sua memória e seu entendimento, e entretidos pela atração dos detalhes, vimos o local onde os dois patriotas tombaram, perto de Pintada – o destemido Zequinha ainda com forças para correr e gritar “viva a revolução” e o capitão guerrilheiro já, de fato, tombado, deitado no chão, as forças já quase completamente exauridas. Vimos onde os dois corpos foram quebrados para serem conduzidos pendurados em paus, como carne e ossos de animais, nos ombros dos repressores, e onde foram estendidos em forma “de valete” – cabeça de um com pés do outro – e expostos à execração pública.

Visitamos a então casa da família Barreto em Buriti – o imóvel está em reforma, foi doado ao Instituto Zequinha Barreto para virar um centro de memória. Vimos o quarto onde foi colocado, ferido, junto aos corpos do irmão Otoniel e de Santa Bárbara, Olderico fala do sangue dos três escorrendo; vimos a porta de outro quarto, já nos fundos, por onde ele caiu depois de atingido pelas balas, ficando fora da linha de fogo; o quintal de onde partia a cerrada fuzilaria; a marca de uma bala no batente de uma janela. Fala horrores dos agentes da ditadura comandados por Fleury, mas, ao mesmo tempo, menciona com reverência o Exército brasileiro, assinalando que Zequinha serviu nas Forças Armadas.

“Não é possível que esses homens não tenham direito à terra e ao trabalho”

Ele nos mostrou a rota da tentativa de fuga do irmão Otoniel e o ponto onde finalmente tombou, a uma centena de metros do quintal da casa. Reproduzo de memória o sentido de suas palavras: “Aqui, junto desta cerca de arame, ficou o corpo de Otoniel, desde cedinho quando ocorreu o ataque. Já eram umas 10 horas e as aves de rapina começaram a bicar o corpo. Zé de Virgílio (José Pereira de Oliveira, muito amigo de seu pai) viu que estavam comendo o olho de meu irmão e não aguentou ver aquilo. Cobriu o corpo com um couro de boi e foi pedir aos homens da repressão para evitar tamanha desumanidade”. Lembra sempre da necessidade de resgatar a memória e a verdade do difícil período da ditadura, enfatizando essa coisa terrível de serem tachados de terroristas os que lutavam contra o regime militar, o terrorismo de Estado. Contou até uma passagem engraçada: uma vez ele foi convidado por um amigo para um almoço em sua casa e, ao chegar, o amigo o apresentou à esposa, anunciando se tratar do “maior terrorista do Brasil” (o amigo desconhecia o sentido pejorativo do termo, parecendo achar que “terrorista” era uma espécie de elogio). Deu seu testemunho durante a missa celebrada em louvor aos mártires, no coreto de Buriti, convidado pelo principal celebrante, Dom Frei Luiz Cappio, bispo da Diocese de Barra. Ressaltou mais uma vez a luta do irmão Zequinha e a bela pessoa humana que era o capitão Lamarca e aproveitou para pedir, como sempre faz nas mais variadas oportunidades – dirigindo-se desta vez diretamente ao prefeito de Brotas, Litercílio Júnior, do PT, que estava presente –, melhorias para seu querido povo de Buriti Cristalino. 

Leia também:

No  ato público do dia 17, manhã de sábado, na praça central de Brotas de Macaúbas, Olderico foi chamado a discursar entre as diversas autoridades e políticos que participaram dos eventos em defesa da memória e da verdade. Falou novamente da importância de se resgatar a verdadeira história, lembrou as privações de Lamarca no seu precário esconderijo no mato, a sua vontade impossível de manter contato com os camponeses, da vontade impossível de trabalhar fazendo farinha com os moradores da região, falou da seca, da fome, do rádio através do qual o capitão escutava as notícias dos lutadores brasileiros nas emissoras da China, da União Soviética e da Albânia. E, mais uma vez, deu seu recado em favor dos conterrâneos “para os companheiros do governo que estão aqui”. Pediu a construção de estrada e outros melhoramentos para os mineiros. Bradou no seu jeito humanitário: “Não é possível que esses homens não tenham direito à terra e ao trabalho”. 

“…jamais voltarão esses grupos que assassinam pessoas, que assassinam seus adversários”

Transcrevo agora o breve discurso de Olderico, também na praça principal de Brotas, na noite de 29 de julho deste ano, logo depois de assistir ao lançamento nacional do documentário “Do Buriti à Pintada”, contendo depoimentos de militantes políticos daquela época, moradores e familiares seus, incluindo o pai José Barreto

Em nome da família Barreto, em nome da minha família, eu queria agradecer a Reizinho e toda a equipe do filme na pessoa de Reizinho, pelos momentos que nos propiciou e agradecer também por ter escolhido a praça de Brotas de Macaúbas para lançar o filme. Normalmente as coisas ocorrem no eixo Rio/São Paulo e a gente só fica sabendo depois. Então, queremos agradecer este privilégio e agradecer a todos que contribuíram com o filme e a todos que estão aqui. Queria dizer a vocês sobre o impacto que vi agora, me ocorreram as mais diferentes sensações… o choro, arrepio, tudo… a emoção de ver e rever pessoas como o meu pai, o resgate que foi um trabalho perfeito. Agradecemos a (Litercílio) Júnior, o prefeito, que facilitou como administrador do município todos os dados para esta comissão, esta equipe que produziu esse trabalho. Isso é democracia, e nós acreditamos nela e acreditamos que o mundo será um dia sempre melhor e jamais voltarão esses grupos que assassinam pessoas, que assassinam seus adversários. Vamos trabalhar por um mundo melhor. Obrigado”. Como comentou um amigo que conheci na viagem a Brotas de Macaúbas, Antônio dos Santos Pinho, professor de História em Salvador, “Olderico fala com alma”.

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Fonte:http://www.pragmatismopolitico.com.br/2011/10/assombrosa-historia-de-olderico-barreto.html