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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Conselho de Transição da Líbia rejeita presença militar da ONU

31.08.2011
Do portal OPERA MUNDI
Por Agência Brasil | Brasília



Os líderes que comandam interinamente a Líbia rejeitaram a participação militar internacional no país, incluindo a presença de observadores desarmados, segundo o enviado especial da ONU (Organização das Nações Unidas), Ian Martin. "Está claro que os líbios querem evitar qualquer tipo de presença militar da ONU ou de outras organizações", disse ele.

O comando do CNT (Conselho Nacional de Transição) informou que o país não precisa de ajuda externa para manter a segurança, enquanto o vice-representante da Líbia nas Nações Unidas, Ibrahim Dabbashi, disse que a situação é única. "Não é uma guerra civil, não é um conflito entre dois lados, é o povo se defendendo de uma ditadura", explicou.

Segundo o enviado especial da ONU à Líbia, a expectativa é que o CNT peça ajuda para a criação de uma força policial e para a organização de eleições. A previsão é que as eleições ocorram 240 dias depois que for declarada a libertação do país.

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"É preciso lembrar que não há nenhuma memória de eleições [na Líbia], não há um maquinário eleitoral, não há comissão eleitoral, não há história de partidos políticos, não há sociedade civil independente, e a mídia independente só começou a surgir muito recentemente", disse Martin.

"Será um grande desafio organizacional e está claro que o CNT quer que a ONU tenha um papel importante no processo.” O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse que a crescente demanda por suprimentos na Líbia exige uma resposta urgente e pediu que o Conselho de Segurança reaja com rapidez a pedidos de financiamento da liderança interina.

Apesar de estoques de suprimentos médicos e alimentos escondidos pelo governo terem sido encontrados no fim de semana, ainda há falta de água no país. "Estima-se que 60% da população de Trípoli estejam sem água e saneamento", disse Ban Ki-moon.

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Autoridades da União Europeia informaram que as forças pró-Khadafi são responsáveis pelo corte de suprimentos. Ontem (30), os líderes rebeldes deram um ultimato às forças leais ao coronel Muamar Khadafi, ameaçando com uma ofensiva militar se não houver rendição até sábado (03/09).

A mulher e três filhos do líder líbio estão refugiados na Argélia desde anteontem (29/08), mas o paradeiro de Khadafi permanece desconhecido. Há boatos que ele pode estar em Sirte, sua cidade natal, em Bani Walid ou em Sabha. Segundo o vice-líder do CNT, Ali Tarhouni, há confiança que ele será capturado. 

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Fonte:http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticia/CONSELHO+DE+TRANSICAO+DA+LIBIA+REJEITA+PRESENCA+MILITAR+DA+ONU_14810.shtml

“CPMF” de rico vem aí. Metrô do Cerra vai fechar

31.08.2011
Do blog CONVERSA AFIADA
Por Paulo Henrique Amorim



Saiu no Valor, pág. A7:

“Financiamento da saúde opõe PT a PMDB”

Petistas são favoráveis à criação da Contribuição Social da Saúde (CSS) para financiar a Emenda 29que trata da Saúde e pemedebistas são contra.

O “imposto do cheque” só não foi aprovado ainda na Câmara por causa de um destaque do DEMO, que tira a base de financiamento do tributo.

Navalha
A CPMF caiu no Senado com um trabalho generoso do Farol de Alexandria (que a criou em seu Governo), do então líder dos tucanos Arthur Virgilio Cardoso (que disse que ia dar uma surra no Lula e perdeu a eleição para o Senado, no Amazonas) e o presidente da FIE P (*).
Foram esses três que tiraram o remédio da boca das crianças.
Foi a maior vitória dos DEMO-tucanos contra o Nunca Dantes no Congresso.
E não se vê um único DEMO ou tucano se vangloriar de tal feito.
O Padim Pade Cerra (des)governava São Paulo e realizou algumas obras inesquecíveis.
O Robanel dos Tunganos, com a ajuda providencial do Paulo Preto.
E o metrô, que o Ministério Público estadual quer mandar fechar (leia o Em tempo).
O Padim sabia que a CPMF era necessária ao seu próprio Governo.
E ficou em cima do muro.
Rico no Brasil não paga imposto, como demonstrou no Tijolaço o Fernando Brito.
Rico no Brasil paga menos imposto que nos Estados Unidos.
O mega-rico Warren Buffett escreveu no New York Times que era uma vergonha: que rico americano tinha que pagar mais imposto.
Aqui, vai pagar.
A Emenda 29 vai ser aprovada com uma “CPMF só para rico”.
Até para que a Receita Federal e a Polícia Federal possam localizar o “bahani”, como se diz em São Paulo, o “por fora”.
Com o fim da CPMF, por obra do Farol, do Virgilio (vou dar uma surra no Lula) e do presidente da FIE P, ficou mais fácil lavar o “bahani”.



Em tempo: segundo a Folha (**), na pág. C5, Ministério Público Estadual pediu o fim do contrato do metrô do Governo Cerra.

Existe um “vício de ilegalidade” na licitação da obra da linha 5-lilás.

Um dia antes da abertura da “licitação”, em 20 de abril de 2010, o repórter Ricardo Feltrin anunciou quem ia ganhar a “licitação”.

A Folha (**) mostrou que se conheciam os vencedores SEIS MESES antes de abrir os envelopes.

Esse  Padim …


Paulo Henrique Amorim


(*) Este Conversa Afiada chama a FIESP de FIE P. Sem o “s”. É uma tentativa de identificar o verdadeiro propósito da campanha da FIE P contra a CPMF. Apagar o “S” de “$”.

(**) Folha é um jornal que não se deve deixar a avó ler, porque publica palavrões. Além disso, Folha é aquele jornal que entrevista Daniel Dantas DEPOIS de condenado e pergunta o que ele achou da investigação; da “ditabranda”; da ficha falsa da Dilma; que veste FHC com o manto de “bom caráter”, porque, depois de 18 anos, reconheceu um filho; que matou o Tuma e depois o ressuscitou; e que é o que é,  porque o dono é o que é; nos anos militares, a  Folha emprestava carros de reportagem aos torturadores.

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Fonte:http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2011/08/31/%E2%80%9Ccpmf%E2%80%9D-de-rico-vem-ai-metro-do-cerra-vai-fechar/

Com amigos como Breivik, a Europa não precisa de inimigos

31.08.2011
Do portal OPERA MUNDI,25.08.11
Por Slavoj Žižek* | Londres



Há coisas que deveriam nos fazer pensar na autojustificação ideológica de Anders Behring, bem como nas reações ante seu ato homicida. O manifesto desse “caçador marxista” cristão que matou mais de setenta pessoas em Oslo não corresponde exatamente ao disparate de um lunático; ele é apenas uma consequente exposição da “crise da Europa”, que serve como o fundamento (mais ou menos) implícito do nascente populismo anti-imigração – suas próprias inconsistências são sintomas das contradições internas dessa visão. A primeira coisa que de fato salta aos olhos é como Breivik constrói seu inimigo: pela combinação de três elementos (marxismo, multiculturalismo, islamismo), cada um pertencente a um espaço político diferente: esquerda radical marxista, liberalismo multicultural, fundamentalismo religioso islâmico. O velho hábito fascista de atribuir ao inimigo características mutuamente excludentes (“Conspiração judaico-bolchevique plutocrática” – Esquerda radical bolchevique, capitalismo plutocrático, identidade étnico-religiosa) é retomado aqui sob um novo disfarce.

Ainda mais sugestiva é a maneira como a autodesignação de Breivik embaralha as cartas da ideologia radical de direita. Breivik defende o cristianismo, mas continua sendo um agnóstico: para ele, o cristianismo não passa de um constructo cultural em oposição ao islã; é antifeminista e pensa que as mulheres deveriam ser dissuadidas de buscar uma educação superior, mas defende uma sociedade “laica”, apoia o aborto e se declara pró-gay. Seu predecessor a esse respeito foi o político holandês Pim Fortuyn, o populista de direita assassinado no início de maio de 2002, duas semanas antes das eleições nas quais se esperava que tivesse um quinto dos votos. Fortuyn era uma figura sintomática paradoxal: um populista de direita cujas características pessoais, e até mesmo (a maioria de) suas opiniões, eram de uma perfeição quase “politicamente correta”: ele era gay, tinha boas relações pessoais com muitos imigrantes, exibia um senso inato de ironia etc. ­– em suma, era um bom liberal e tolerava tudo, exceto sua postura política básica. O que incorporava, portanto, era a interseção entre o populismo direitista e a correção política liberal – talvez tivesse de morrer por ser a prova viva de que a oposição entre o populismo de direita e a tolerância liberal era falsa, isto é, que estamos lidando com os dois lados da mesma moeda.

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Além disso, Breivik combina características nazistas (também nos detalhes – por exemplo, sua afinidade com o sueco Saga, o cantor folk pró-nazista) com a aversão a Hitler: um de seus heróis é Max Manus, líder da resistência antinazista da Noruega. Por fim, mas não menos importante, Breivik é abertamente racista, mas pró-semita e pró-Israel, posto que o Estado de Israel é a primeira linha de defesa contra a expansão muçulmana – ele até quer ver o Templo de Jerusalém reconstruído. Sua figura realiza o derradeiro paradoxo de um “nazirracista pró-semita” – como é possível?

Uma chave nos é dada pelas reações da direita europeia ao ataque de Breivik, cujo mantra foi que, ao condenar seu ato homicida, não deveríamos nos esquecer de que ele abordava “preocupações legítimas sobre problemas legítimos” – a política dominante não está conseguindo lidar com a corrosão da Europa por parte da islamização e do multiculturalismo, ou, citando o The Jerusalem Post, deveríamos usar a tragédia de Oslo “como uma oportunidade para reavaliar seriamente as políticas de integração de imigrantes na Noruega e em outros lugares” (Editorial sobre o Desafio da Noruega, 24/7/2011). (A propósito, seria interessante ouvir uma apreciação semelhante em relação aos atos terroristas palestinos, algo do tipo “esses atos terroristas deveriam servir como uma oportunidade para reavaliar a política israelense”.) Obviamente, há uma referência a Israel implícita nessa avaliação: um Israel “multicultural” não tem chance de sobreviver, o apartheid é a única opção realista. O preço para esse pacto sionista-direitista é que, para justificar a reivindicação à Palestina, é preciso reconhecer retroativamente a linha de argumentação que foi usada previamente, no início da história europeia, contra os judeus: o acordo implícito é que “estaremos prontos para reconhecer sua intolerância para com outras culturas em seu meio uma vez que reconheça nosso direito de não tolerar palestinos em nosso meio”. A trágica ironia desse acordo implícito é que, na história europeia dos últimos séculos, os próprios judeus foram os primeiros “multiculturalistas”: o problema deles era como sobreviver com sua cultura intacta em lugares onde outra cultura fosse dominante. (A propósito, deve-se notar aqui que, na década de 1930, em resposta direta ao antissemitismo nazista, Ernest Jones, o principal agente da “gentrificação” da psicanálise, engajou-se em reflexões estranhas sobre a porcentagem da população estrangeira que um organismo nacional pode tolerar em seu meio sem colocar em perigo sua própria identidade, aceitando com isso a problemática nazista.)

Mas e se estivermos entrando numa nova era na qual irá se impor esse novo raciocínio? E se a Europa tivesse de aceitar o paradoxo de que sua abertura democrática é baseada na exclusão: “não há liberdade para os inimigos da liberdade”, como afirmou Robespierre num passado distante? A princípio, isso é verdade, é claro, mas é neste ponto que precisamos ser bem específicos. De certo modo, Breivik escolheu corretamente seu alvo: não atacou estrangeiros, mas sim pessoas da sua própria comunidade, tolerantes para com estrangeiros intrusos. O problema não é os estrangeiros, mas nossa própria identidade (europeia).

Embora a contínua crise da União Europeia se pareça com uma crise econômico-financeira, ela é, em sua dimensão fundamental, uma crise político-ideológica: o fracasso dos referendos sobre a constituição da UE há alguns anos foi um sinal claro de que os eleitores encaravam a UE como uma união econômica “tecnocrática”, carente de qualquer visão que pudesse mobilizar as pessoas – até os protestos recentes, a única ideologia capaz de mobilizá-las era a defesa anti-imigração da Europa.

Os ataques recentes de homofobia nos Estados pós-comunistas do Leste Europeu deveriam nos servir como um momento de reflexão. No início de 2011, houve uma parada gay em Istambul onde milhares de pessoas saíram em paz, sem nenhuma violência ou outros distúrbios; nas paradas gays que aconteceram na mesma época na Sérvia e na Croácia (Belgrado, Split), a polícia não foi capaz de proteger os participantes, que foram ferozmente atacados por milhares de violentos fundamentalistas cristãos. Esses fundamentalistas, não a Turquia, representam a verdadeira ameaça ao legado europeu; desse modo, quando a UE praticamente bloqueou a entrada da Turquia, deveríamos fazer a pergunta óbvia: que tal aplicar as mesmas regras ao Leste Europeu?  (Isso sem falar no fato estranho de que a principal força por trás do movimento antigay na Croácia é a Igreja Católica, bem famosa por diversos escândalos de pedofilia.)

É crucial colocar o antissemitismo dentro dessa série, como um dos elementos ao lado de outras formas de racismo, sexismo, homofobia etc. Para fundamentar sua política sionista, o Estado de Israel está cometendo um erro catastrófico: decidiu-se subestimar, se não ignorar completamente, o “antigo” antissemitismo (tradicional europeu), concentrando-se em seu lugar no “novo” e alegadamente “progressivo” antissemitismo mascarado como a crítica da política sionista do Estado de Israel. Nesse sentido, Bernard Henri-Levy em seu The Left in Dark Times [Esquerda em tempos sombrios], afirmou recentemente que o antissemitismo do século XXI será “progressivo”; do contrário, não haverá nenhum. Levada até o fim, essa tese nos obriga a modificar a velha interpretação marxista do antissemitismo como um anticapitalismo mistificado/deslocado (em vez de culpar o sistema capitalista, a fúria é voltada para um grupo étnico específico acusado de corromper o sistema): para Henri-Levy e seus partidários, o anticapitalismo de hoje é uma forma disfarçada de antissemitismo.

A proibição implícita, mas não menos eficiente, de atacar o “velho” antissemitismo está ocorrendo no momento exato em que o “velho” antissemitismo está retornando em toda a Europa, especialmente nos países pós-comunistas do Leste Europeu. Podemos observar uma estranha aliança semelhante nos Estados Unidos: como podem os fundamentalistas cristãos dos Estados Unidos que, por assim dizer, são antissemitas por natureza, agora apoiarem intensamente a política sionista do Estado de Israel? Há apenas uma solução para este enigma: não que os fundamentalistas dos Estados Unidos tenham mudado; o próprio sionismo, em sua aversão aos judeus que não se identificam plenamente com a política do Estado de Israel, paradoxalmente tornou-se antissemita, isto é, construiu a figura do judeu que duvida do projeto sionista ao longo de linhas antissemitas. Israel, nesse caso, está fazendo um jogo perigoso: a Fox News, principal voz da direita radical nos Estados Unidos e apoiadora convicta do expansionismo israelense, recentemente teve de rebaixar seu apresentador mais popular, Glenn Beck, cujos comentários estavam se tornando abertamente antissemitas.

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O argumento sionista padrão contra os críticos das políticas do Estado de Israel é que, obviamente, como qualquer outro Estado, o de Israel pode e deveria ser julgado e por fim criticado, mas as críticas de Israel fazem mau uso da política israelense de crítica justificada para fins antissemitas. Quando os fundamentalistas cristãos e defensores incondicionais da política israelense rejeitam as críticas esquerdistas das políticas israelenses, sua linha de argumentação implícita não é melhor representada por um maravilhoso cartum publicado em julho de 2008 no diário vienense Die Presse: ele mostra dois austríacos troncudos com pinta de nazistas; um deles segura um jornal e comenta com o amigo: “Veja só como o antissemitismo totalmente justificado está sendo mal usado para uma crítica barata de Israel!” Repetindo: como chegamos a esse ponto?

Há um século, Gilbert Keith Chesterton usou claramente o impasse fundamental das críticas religiosas: “Homens que começam a lutar contra a Igreja em benefício da liberdade e da humanidade acabam jogando fora a liberdade e a humanidade, só para com isso combater a Igreja. [...] Os laicos não destruíram coisas divinas, mas destruíram coisas laicas, se isso lhes serve de consolo”. O mesmo não se aplica aos próprios defensores da religião? Quantos defensores religiosos fanáticos começaram atacando ferozmente a cultura secular contemporânea e acabaram renunciando qualquer experiência religiosa significativa? De maneira semelhante, muitos guerreiros liberais são tão ansiosos para combater o fundamentalismo antidemocrático que acabam jogando fora a liberdade e a democracia, só para com isso combater o terror. Se os “terroristas” estão prontos para destruir o mundo por amor a outro mundo, nossos guerreiros contra o terror estão prontos para destruir seu próprio mundo democrático pelo ódio ao mundo muçulmano. Alguns prezam tanto a dignidade humana que estão prontos para legalizar a tortura – a suprema degradação da dignidade humana – para defendê-la… E o mesmo não se aplica também ao advento recente dos defensores da Europa contra a ameaça de imigração? No seu zelo de proteger o legado judaico-cristão, os novos zelotes estão dispostos a abandonar o verdadeiro cerne do legado cristão. A verdadeira ameaça ao legado europeu são as pessoas como Breivik, o autoproclamado defensor da Europa que matou “por amor” à Europa: com amigos como esse, a Europa não precisa de inimigos. Se Breivik levasse realmente a sério seu amor pela Europa, deveria ter seguido o conselho de seu pai e matado a si próprio.

O advento do ressentimento anti-imigração tem de ser visto contra o pano de fundo de um rearranjo a longo prazo do espaço político na Europa Oriental e Ocidental. Até pouco tempo, o espaço político dos países europeus era dominado por dois partidos principais voltados para todo o corpo eleitoral: um partido de centro-direita (cristão-democrata, liberal-conservador, popular) e um partido de centro-esquerda (socialista, social-democrata), com partidos menores voltados para um eleitorado mais restrito (ecologistas, comunistas etc.). Os últimos resultados eleitorais tanto na parte Ocidental quanto na Oriental indicam o surgimento gradual de uma polaridade diferente. Há um partido centrista predominante que representa o capitalismo global em si, geralmente com uma agenda cultural liberal (tolerância ao aborto, aos direitos dos homossexuais, às minorias étnicas e religiosas etc.). Em oposição a esse partido está um partido populista anti-imigração cada vez mais forte que, em suas margens, está acompanhado de grupos neofascistas claramente racistas. O caso mais exemplar está na Polônia: depois do desaparecimento dos ex-comunistas, as principais organizações políticas são o partido liberal, centrista e “anti-ideológico” do primeiro-ministro Donald Dusk e o partido cristão conservador dos irmãos Kaczynski. Tendências similares são visíveis na Holanda, Noruega, Suécia, Hungria… Pela terceira e última vez, como chegamos a esse ponto?

Depois da desintegração dos regimes comunistas em 1990, entramos numa nova era em que a forma predominante do exercício do poder estatal tornou-se uma despolitizada coordenação e administração especializada dos lucros. A única forma de introduzir paixão nesse campo, de mobilizar as pessoas ativamente, é pelo medo: medo de imigrantes, medo do crime, medo da ímpia depravação sexual, medo do Estado excessivo (com uma sobrecarga de altos impostos e controle), medo da catástrofe ecológica, mas também medo do assédio (o politicamente correto é a forma liberal exemplar da política do medo). Tal política sempre se baseia na manipulação de um ochlos paranoico – a correria assustadora de homens e mulheres assustados. Por essa razão, o grande acontecimento da primeira década do novo milênio se deu quando a política anti-imigração se tornou predominante e finalmente cortou o cordão umbilical que a ligava aos partidos marginais de extrema-direita. Da França à Alemanha, da Áustria à Holanda, no novo espírito do orgulho pela própria identidade cultural e histórica, os principais partidos agora consideram aceitável enfatizar que os imigrantes são convidados que se acomodam aos valores culturais que definem a sociedade anfitriã – “este é o nosso país, ame-o ou deixe-o”.

Os liberais progressivos, obviamente, estão apavorados com esse racismo populista. No entanto, um exame mais minucioso revela como sua tolerância multicultural e seu respeito às diferenças (étnicas, religiosas, sexuais) compartilham com os anti-imigração a necessidade de manter os outros a uma distância apropriada. “Tudo bem com os outros, eu os respeito, desde que não invadam demais meu próprio espaço, pois quando fazem isso, me incomodam – com seu cheiro, sua fala suja, seus modos vulgares, sua música, sua culinária… apoio totalmente ações que afirmem os negros, mas não estou disposto a ouvir rap no último volume.” No mercado atual, encontramos uma série ampla de produtos desprovidos de suas propriedades malignas: café sem cafeína, cremes sem gordura, cerveja sem álcool… e a lista continua: que tal sexo virtual enquanto sexo sem sexo, a doutrina de Colin Powell da guerra sem baixas (do nosso lado, é claro) enquanto guerra sem guerra, a redefinição contemporânea da política como arte da administração especializada enquanto política sem política, até chegar ao atual multiculturalismo liberal tolerante enquanto experiência do Outro destituído de sua Alteridade – o Outro descafeinado que executa danças fascinantes e tem uma abordagem holística ecologicamente sólida da realidade, ao passo que características como a violência contra esposas continuam longe de vista…

O mecanismo dessa neutralização foi mais bem formulado em 1938 pelo francês Robert Brasillach, intelectual fascista condenado e fuzilado em 1945, que se considerava um antissemita “moderado” e inventou a fórmula do “antissemitismo razoável”: “Concedemos-nos a permissão de aplaudir Charlie Chaplin, um meio-judeu, nos filmes; de admirar Proust, um meio-judeu; de aplaudir Yehudi Menuhin, um judeu; e a voz de Hitler é transferida por ondas de rádio cujo nome homenageia o judeu Hertz. [...] Não queremos matar ninguém, nem organizar nenhum pogrom. Mas também pensamos que a melhor forma de impedir as ações sempre imprevisíveis do antissemitismo instintivo é organizando um antissemitismo razoável”. Não seria esta a mesma atitude presente na forma de lidar dos nossos governantes com a “ameaça imigrante”? Depois de rejeitar, como se tivessem razão, o claro racismo populista como “irracional” e inaceitável para nossos padrões democráticos, eles endossam medidas de proteção “razoavelmente” racistas… ou, como nos dizem os Brasillachs atuais, alguns deles social-democratas: “Concedemos-nos a permissão de aplaudir atletas africanos e do Leste Europeu, médicos asiáticos, programadores de softwares indianos. Não queremos matar ninguém, nem organizar nenhum pogrom. Mas também pensamos que a melhor forma de impedir as violentas e sempre previsíveis medidas de defesa anti-imigração é organizando uma proteção anti-imigração razoável”. Essa visão de desintoxicação do vizinho apresenta uma passagem clara da barbárie descarada à barbárie com um rosto humano. Ela pratica o retrocesso de um amor cristão pelo vizinho ao pagão que privilegia sua tribo (gregos, romanos) em oposição ao Outro bárbaro. Ainda que mascarada sob a defesa dos valores cristãos, esta é, em si, a maior ameaça ao legado cristão.

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Obviamente, há mais um passo crítico a ser dado: a crítica do racismo anti-imigração deveria ser radicalizada na autocrítica, questionando a cumplicidade da forma predominante de multiculturalismo com aquela que ela critica. Em sua maioria, as críticas da onda anti-imigração limitam-se ao ritual incessante de confessar os próprios pecados da Europa, de aceitar humildemente as limitações do legado europeu e de celebrar a riqueza de outras culturas. Os famosos versos de “Second Coming” [A segunda vinda], de William Butler Yeats, portanto, parecem exprimir perfeitamente as circunstâncias atuais: “Aos melhores falta toda convicção, enquanto os piores estão cheios de uma apaixonada intensidade”. Trata-se de uma excelente descrição da ruptura atual dos liberais anêmicos e os fundamentalistas fervorosos, entre os muçulmanos e os nossos próprios cristãos. “Os melhores” já não são plenamente capazes de se engajar, enquanto “os piores” se engajam no fanatismo racista, religioso e sexista. Como romper com esse impasse?

Em vez de bancar a bela alma lamentando o surgimento recente da Europa racista que tais declarações anunciam, deveríamos direcionar nosso olhar crítico para nós mesmos, perguntando até que ponto nosso próprio multiculturalismo abstrato contribuiu para esse triste estado de coisas. Se todos os lados não compartilharem ou respeitarem a mesma civilidade, então o multiculturalismo transformar-se-á em ódio ou ignorância mútua legalmente regulamentada. O conflito sobre o multiculturalismo já é um conflito sobre a Leitkultur: não é um conflito entre culturas, mas um conflito entre visões diferentes de como culturas diferentes podem e devem coexistir, sobre as regras e práticas que essas culturas devem compartilhar se quiserem coexistir.

Deveríamos, portanto, evitar sermos apanhados no jogo liberal do “com quanta tolerância podemos arcar” – devemos tolerar quando não mandam seus filhos para as escolas públicas, quanto forçam suas mulheres a se vestirem e se comportarem de certa maneira, quando arranjam casamentos para os filhos, quando agridem gays entre seus grupos? Nesse nível, obviamente, nunca somos tolerantes o suficiente, ou somos sempre tolerantes demais, negligenciando os direitos das mulheres etc. A única maneira de romper com esse impasse é propor um projeto positivo universal compartilhado por todos os interessados, e lutar por ele. São muitas as lutas em que “não há homens nem mulheres, tampouco judeus ou gregos”, da ecologia à economia.

Nos seus últimos anos, Sigmund Freud expressou sua perplexidade diante da pergunta: o que quer uma mulher? Hoje, nossa questão é outra: o que quer a Europa? Na maioria das vezes, ela age como um regulador do desenvolvimento capitalista global; outras vezes, flerta com a defesa conservadora de sua tradição. Ambos os caminhos levam à anistia, à marginalização da Europa. A única saída desse impasse debilitante é que a Europa resuscite seu legado da emancipação radical e universal. A tarefa é ir além da mera tolerância aos outros, partir para uma Leitkultur positiva emancipatória que só pode sustentar a coexistência autêntica e a fusão de culturas diferentes, e se envolver na batalha porvir pela Leitkultur. Não basta respeitar os outros: ofereça uma luta comum, pois, hoje, nossos problemas são comuns.


* Slavoj Žižek é filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek, preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Artigo originalmente publicado no Blog da Boitempo

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Fonte:http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/COM+AMIGOS+COMO+BREIVIK+A+EUROPA+NAO+PRECISA+DE+INIMIGOS_1604.shtml

Ponto eletrônico passa a ser obrigatório nesta quinta

31.08.2011
Do site da Rede Brasil Atual
Por Luiz Braz, da Rede Brasil Atual


Empresas com mais de 10 funcionários só podem abrir mão do Registro Eletrônico de Ponto (REC) se convenção coletiva, negociada com trabalhadores, permitir. Sindicatos veem avanços

São Paulo - A partir desta quinta-feira (1º), empresas com mais de 10 funcionários são obrigadas a instalar o ponto eletrônico como forma de calcular as horas trabalhadas. A portaria original, de 2009, previa o início da vigência há um ano, mas o prazo atual para que as empresas se adaptassem havia sido redefinido em fevereiro.
De acordo com a portaria nº 373, do Ministério do Trabalho e Emprego, o Registro Eletrônico de Ponto (REC) deve reduzir demandas judiciais por horas extras não pagas. As empresas que descumprirem a regulamentação correm risco de ser multadas pelos fiscais do trabalho. Houve uma sucessão de adiamentos para adoção da medida, devidos a pressões de setores empresariais, que tiveram 24 meses para se preparar desde a primeira decisão nesse sentido (portaria 1.510 do MTE, de agosto de 2009).
Os sistemas eletrônicos no local de trabalho possibilitam a impressão fiel das marcações realizadas por meio de uma central de dados. Embora tenha variações, o sistema impede práticas de falsificação e adulteração de registros encontradas pela Justiça do Trabalho. Fica proibido  ao empregador restringir marcações, fazer marcação automática, exigir autorização prévia para marcação de jornada ou qualquer tipo de alteração ou eliminação de dados registrados pelo empregado.

O que muda para o trabalhador



Com instalação dos novos relógios de ponto, mais seguros, dia-dia no trabalho terá poucas alterações. Confira:


Dia-dia

O ponto eletrônico representa mudanças simples na rotina do trabalhador. Em pelo menos dois momentos do dia, será necessário passar pelo ponto eletrônico e retirar o comprovante. O procedimento precisa ocorrer no momento de entrada e saída da jornada. Também será necessário repetir a operação no início e no fim do horário de almoço (ou intervalo), conforme estipulado na jornada.
O comprovante é semelhante ao emitdo em compras com cartão de débito ou crédito em estabelecimentos comerciais. Pelo processo de impressão, os comprovantes têm vida-útil de cinco anos se bem acondicionados. Por isso, considera-se o mesmo prazo de validade judicial para a Justiça do Trabalho.

Fiscalização

Serão aplicadas multas para empresas que descumprirem a norma após três visitas dos fiscais. 
Os sindicatos podem fiscalizar a execução da medida, além de demandar que sejam apresentados documentos que comprovem que os equipamentos atendem os requisitos de confiabilidade e segurança exigidos.
Empresários reclamam do custo para adquirir os novos relógios, e afirmam que pode haver demora e fila por causa da impressão de comprovante para cada trabalhador. Em comunicado, o ministério sustenta que, em testes, o processo mostrou-se ágil, além de ter vantagens do ponto de vista do trabalhador.
Para Valeir Ertle, membro da executiva nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), os empresários tentam, a todo custo, evitar que a medida entre em vigor. "Os empresários tentam desconstruir a medida, alegam questões técnicas e insegurança no sistema de frequência, porque todos eles, sem exceção não querem a implementação do ponto eletrônico", critica.
O sindicalista afirma que a queixa do empresariado garantiu até uma margem de tempo grande para a adequação da empresa. Após a visita do auditor do trabalho, haverá um prazo antes da aplicação de multa. "Após a notificação do fiscal, as empresas tem até 90 dias para implementarem o sistema, então não tem por que reclamar de falta de tempo”, sustenta Valeir Ertle.
Outro avanço é a possibilidade, estabelecida a pedidos das centrais sindicais, de a empresa deixar de usar o ponto eletrônico caso convenções ou acordos coletivos prevejam a opção do registro manual ou mecânico. Essa é uma única possibilidade em que a mudança pode ser deixada de lado, mas a definição precisa ter sido estabelecida em mesa de negociações.
De acordo com a presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo Osasco e Região, Juvandia Moreira, a proteção do trabalhador é a prioridade. "O que estiver determinado pela portaria tem de ser respeitado, porque foi fruto de uma negociação entre as partes; só se houver negociação é dispensada a adesão ao sistema. A portaria foi um conjunto de exigências para garantir a proteção do funcionário”, afirmou.
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Fonte:http://www.redebrasilatual.com.br/temas/trabalho/2011/08/ponto-eletronico-passa-a-ser-obrigatorio-nesta-quinta

Guerra às drogas: México: retrato de um país desamparado

31.08.2011
Do blog de Rodrigo Vianna, Escrevinhador
Por Eric Nepomuceno, da Cidade do México, para Carta Maior

Monterrey está a uns 900 quilômetros ao norte da Cidade do México, e a 200 da fronteira com o Texas. É a capital do estado de Nuevo León, responsável por quase 8% do PIB mexicano. Uma cidade grande, orgulhosa de sua riqueza, de seus mecenas das artes, que sempre se prezou por ser segura, moderna, confiável. Abriu museus com acervos formidáveis, lançou sofisticados jornais de circulação nacional, convocou concursos generosos para patrocinar artistas, enfim, fez de tudo para mudar sua imagem de lugar frio e preocupado apenas com dinheiro e dinheiro. Assim era a cidade que queria ser e parecer mais próxima aos Estados Unidos que ao resto do país.

Assim era até cinco anos atrás. Esse tempo acabou: de lá para cá, Monterrey entrou na dura realidade vivida pelo México desde que o presidente Felipe Calderón decidiu declarar guerra aberta contra o narcotráfico.

Na quinta-feira passada, Monterrey foi cenário de um ato de brutalidade que chocou o país inteiro. Pouco antes das quatro da tarde uns dez homens desceram de um vistoso Mini-Cooper e de duas vans vulgares e entraram no Cassino Royale, um gigantesco centro de jogatina, onde havia umas trezentas pessoas. Começaram a disparar suas metralhadoras para o alto, enquanto gritavam a todos que saíssem. Em seguida jogaram a gasolina de vários galões sobre mesas de jogo e máquinas traga-níqueis, e puseram fogo. A ação durou menos de três minutos, e foi feita com total desfaçatez: todos sabiam que estavam sendo filmados. Resultado: 53 mortos, dos quais 42 eram mulheres. Sete dos mortos foram calcinados. Os outros morreram asfixiados ou pisoteados. As saídas de emergência estavam trancadas com cadeado.

Ninguém acredita que seja possível debelar o prejuízo causado por esse atentado no governo do presidente Felipe Calderón. Na verdade, o México não aguenta mais tanta violência. E, pior, não vê saída.

Como resposta ao que chamou de ato terrorista, Calderón decretou luto oficial e nacional de três dias. Em seguida, lançou uma dura acusação contra os Estados Unidos. Disse o que todo mundo sabe: o México trava uma luta inglória, e nesse teatro macabro o país entra com os mortos e o vizinho entra com os consumidores de drogas. Afirmou que enquanto as autoridades dos Estados Unidos não conseguirem controlar o consumo em seu território, nada do que o México fizer terá resultado.

Num tom surpreendente, Calderón disse, em sua mensagem dirigida ao governo e ao Congresso dos Estados Unidos, que “vocês também são responsáveis”. E foi além: “Se estão decididos e resignados a consumir drogas, procurem alternativas de mercado que acabem com os estratosféricos lucros dos criminosos, ou estabeleçam pontos de acesso diferentes da fronteira com o México, porque esta situação não pode continuar”.

É um beco sem saída, e Calderón sabe disso. Assim que assumiu a presidência depois de uma eleição polêmica – a diferença sobre o candidato de esquerda foi inferior a 2% dos votos apurados, e isso, num país que tem a fraude por tradição eleitoral, fez dele um presidente frágil de saída – Calderón tentou se legitimar lançando uma guerra total contra os cartéis das drogas que, com o desmantelamento dos grandes grupos colombianos na década de 90, passaram a ser os maiores fornecedores para o maior mercado do mundo, o dos Estados Unidos (85% da cocaína e da heroína consumidas no vizinho passa pelo México). Volta e meia, quando criticado pela violência desmedida, Calderón esgrime números sonoros da quantidade de armas e drogas apreendidas. Só não diz que o volume que entra em território norte-americano continua crescendo, na base de 5% ao ano.

Por onde quer que se olhe, o que se vê no México é um misto de indignação com a violência sem fim, e de frustração sem remédio com o governo. Calderón fez de tudo para se legitimar e, ao mesmo tempo, não desagradar os Estados Unidos. Em vão.

Foi o segundo presidente eleito pelo PAN – Partido de Ação Nacional – depois de mais de meio século de poder nas mãos do PRI, o Partido Revolucionário Institucional, transformado em modelo de corrupção, abuso e impunidade.

Em 2012 haverá eleições presidenciais no México. E todos apostam na volta do PRI. O fim do regime de partido único foi breve, foi frágil, foi decepcionante. E, com Calderón, deixa um rastro de pelo menos 40 mil mortos, numa espiral de violência sem fim. O que aconteceu em Monterrey foi muito mais do que um acerto de contas entre os cartéis do narcotráfico e os controladores de cassinos que se negam a se deixar extorquir. Foi um retrato cruel e sangrento do cotidiano vivido por um país desamparado.

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