quinta-feira, 12 de maio de 2011

Rodrigo Vianna: O churrasquinho tem lá o seu valor

12.05.2011
Do blog de Luiz Carlos Azenha

Los Angeles, o churrasquinho de Higienópolis e a civilização imperfeita!

Enquanto transitava feito alma penada pelas “freeways” de Los Angeles – essas avenidas assépticas, artérias de uma cidade estranha e dominada pelo automóvel -, recebi com alegria a notícia de que em São Paulo prepara-se um histórico churrasquinho em frente ao shopping Higienópolis.

O que uma coisa tem a ver com a outra? Vou tentar explicar…

A gente tem mania de dizer que o brasileiro, e o paulistano em particular, é elitista, preconceituoso, excludente. Tudo isso tem uma ponta de verdade. Tudo isso encontra amparo na nossa história secular de desigualdade. Mas ao olhar para Los Angeles – para a tristeza e a pasmaceira dessa gente nas ruas limpas e vazias – senti uma ponta de orgulho de ser brasileiro.

Sim. Vamos lembrar…

Em Nova York e Washington, jovens foram às ruas duas semanas atrás para “comemorar” o assassinato de Bin Laden. Foi um espetáculo triste. E não vi outros jovens – nas universidades, nas escolas, nas associações ou Igrejas desse imenso país da América do Norte – terem a coragem de ir pra rua e dizer: “alto lá; Bin Laden é (ou era) um assassino; mas até os criminosos têm direito a um processo legal, essa é a base da democracia”.

Não. Os Estados Unidos abriram mão disso. Trocaram Justiça por Vingança. E quem ousou protestar ficou isolado. Os Estados Unidos são um gigante combalido. E um gigante combalido é perigoso.

O Império do Norte foi duramente golpeado em 2001, pelo ataque covarde às torres gêmeas. Depois, teve sua economia golpeada com a crise de 2008 (fruto de desregulação alucinada dos “mercados”, que tomaram de assalto o Estado fundado por George Washington). A eleição de Obama parecia redenção, enganou muita gente. Mas Obama já jogou no lixo o discurso (e a pose de) modernizador, e contentou-se com o papel de cowboy.

Vocês viram a cena insólita de Obama caminhando pela Casa Branca depois de anunciar que a “justiça foi feita”, logo após o ataque no Paquistão? Patético. Obama virou Bush. Um simulacro de Bush.

Comparemos com o Brasil. Nesse mesmo período, de 2002 pra cá, nosso país elegeu um operário. Depois, reelegeu o operário. Enterrou assim o complexo de vira-lata. Muita gente temia (e havia os que torciam descaradamente para que isso acontecesse) que um homem do povo não desse conta do recado. Lula deu conta. Mais que isso: tirou 20 milhões de brasileiros da miséria, fortaleceu o mercado interno, freou o processo de desmonte do Estado, pôs o Brasil no centro das decisões internacionais, devolveu auto-estima ao povo brasileiro.

Lula cometeu muitos erros. Sem dúvida. Mas ajudou a fundar um novo Brasil. E nosso ex-presidente é um líder conhecido e admirado no mundo inteiro. Ando por Los Angeles, e quando digo que sou do Brasil costumo ouvir: “Uau, it´s cool”. Algo como: “Uau, que bacana”.

Os Estados Unidos são uma potência. Ninguém duvida. Mas são uma potência triste.

O atual presidente deles é um negro que chegou ao poder carregando esperança de renovação. Afundou-se no conservadorismo dos cowboys. A nossa atual presidente é uma mulher, ex-guerrilheira – que segue os passos de Lula.

O último ex-presidente deles é Bush Jr. O nosso, é Lula.

E o churrasquinho? Ah, isso tem tudo a ver com Lula…

O churrasquinho, como se sabe, é a reação bem-humorada a esse bando de infelizes que fez lobby para não ter Metrô perto de casa, em São Paulo. Tudo aconteceu em Higienópolis, condado habitado (santa coincidência) por FHC. Uma senhora, moradora do condado de Higienópolis, chegou a explicar porque não queria o Metrô: é que isso traz gente “diferenciada” pro bairro.

Seguiram-se reações indignadas. Ótimo! O brasileiro indigna-se. Não aceitamos mais a boçalidade elitista.Vejam que o Prates (aquele comentarista tosco da RBS) perdeu o emprego ao dizer que qualquer “analfabeto” podia ter carro. Agora, a turma de Higienópolis apanha por ter feito a opção demofóbica. Isso é muito bom.

E digo mais. Ótimo que – em vez de agressões, pancadas ou cascudos – a turma elitista receba como contragolpe um churasquinho! Essa é uma lição para o mundo. É uma saída genial. Diante do preconceito, reagimos com escárnio, não com violência.

Nos Estados Unidos, isso seria impensável. Olho pras ruas tristes de Los Angeles, para os condomínios sem alma da cidade, para as calçadas limpíssimas de Santa Mônica (o balneário aqui bem próximo da capital do Cinema), e me orgulho do Brasil.

Podemos dar ao mundo o exemplo de uma civilização imperfeita, que não pretende (e nem consegue) ser limpa, higiênica, asséptica. Somos um país forte, que pode ser rico, mas seguirá cheio de defeitos.

Aceitá-los, como se aceita camelôs e gente “diferenciada” na porta de casa, é um exercício saudável para evitar nazismos, fascismos e bushismos.

Tantaz vezes confrontado pela elite brasileira que não aceitava ser governada por um “diferenciado”, Lula não partiu pro confronto, nem tentou derrubar a bastilha. Lula reagia sempre com o churrasquinho.

O churrasquinho é como se o povo, como fez Lula durante 8 anos, dissesse pra essa elite tosca: “não queremos ser iguais a vocês… Vocês é que deviam ser iguais a nós. Venham, sejam brasileiros! Venham pro nosso churrasquinho, aproximem-se! No Brasil, há espaço até para elitistas boçais.”

Somos uma civilização imperfeita. É o melhor que podemos oferecer ao mundo.

Somos um país que responde ao preconceito com churrasquinho! Viva o Brasil.

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O Brasil por descobrir

12.05.2011
Do site de CartaCapital
Por Orlando Margarido


Na memória histórica da passagem dos artistas viajantes pelo Brasil do século XIX, interesses e temas são coincidentes, mas poucos os relatos de uma convivência entre os personagens. A partir desta semana, é possível refletir mais sobre a proximidade e diferença entre as obras de dois dos maiores representantes do gênero. O francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) está representado desde o último dia 4 por aquarelas e desenhos na exposição Debret – Viagem ao Sul do Brasil, em cartaz no endereço da Avenida Paulista da Caixa Cultural. A partir de 11 de maio é a vez de a obra similar do inglês Charles Landseer (1799-1879) ocupar o Instituto Moreira Salles, também em São Paulo. A marcar esse acaso há mais que um mero olhar sobre uma nação exótica em busca de se civilizar. No valioso Álbum Highcliffe, hoje em posse do IMS e de onde provêm os 90 trabalhos de Landseer para a mostra, havia também peças de Debret, uma inclusão que se mantém misteriosa para historiadores.

Quem atenta para a questão é o estudioso Leslie Bethell, professor emérito de História Latino-Americana da Universidade de Londres, em texto para o livro Charles Landseer – Desenhos e aquarelas de Portugal e do Brasil, 1825-1826. Lançado pelo IMS (236 págs., R$ 140), acrescenta cerca de cem imagens ao exposto. Nele, pode-se acompanhar a trajetória do desenhista tanto pela evolução de sua formação a partir da Academia Real de Belas-Artes londrina como seu progresso nos traços, que começam modestos no lápis para ganhar vivacidade nas aquarelas.

Não é a qualidade artística, no entanto, a mais evidenciada no seu caso, e sim o foco de seu tema. Menos talentoso que seus irmãos também artistas, especialmente o pintor e escultor Edwin Landseer, Charles dedicou-se ao cotidiano dos escravos e à paisagem do Rio de Janeiro, uma das cidades por ele visitadas. Essa equação lembrada por Bethell o aproxima em parte de Debret, também interessado nos tipos locais da então capital do império. A diferença parece estar no fato de que, enquanto o inglês trata o universo com mais realismo, o seu colega francês tende a colorir a realidade de modo mais idealizado.

A justificativa estaria na educação pessoal e no princípio de suas viagens. Embora ambos, assim como os demais artistas-viajantes, aqui tivessem chegado integrando missões europeias, Landseer cumpriu um caminho peculiar. Seu pai, o gravador John Landseer, queria que o jovem aprimorasse sua arte “à luz e na paisagem dos trópicos” e conseguiu colocá-lo em uma missão diplomática liderada por Charles Stuart, que o teria como influência e parceria constante na empreitada.

Stuart era o negociador para o reconhecimento da recente independência do Brasil perante Portugal e Inglaterra. Em 1825, a intenção propiciou a Landseer passar períodos relativamente longos em Lisboa e no Brasil, onde se instalou por dez meses, a maior parte deles no Rio, mas também com visitas a Pernambuco, Bahia, Santa Catarina, Santos, São Paulo e Espírito Santo. Desse projeto resultaram 306 desenhos a lápis, bico de pena e carvão, além de aquarelas originais. Trabalhos então reunidos num caderno, mais tarde batizado de Álbum Highcliffe.

O nome provém de um percurso tão surpreendente como eram as navegações de outrora e inclui o nome de Stuart e do historiador brasileiro Alberto do Rêgo Rangel até o retorno do conjunto ao Brasil um século depois. Em 1835, Stuart já detinha o legado de Landseer e o guardava em sua biblioteca do castelo de Highcliffe, na costa inglesa de Dorset. Quando Rangel, um especialista no primeiro reinado, bateu à porta da propriedade, em 1924, ela havia sido herdada por um primo distante de Stuart. O volume encontrado pelo historiador ainda mantinha seu nome original, Viagem aos Brasis 1825-6, e incluía 13 aquarelas atribuídas a Debret, além de trabalhos do pintor e botânico inglês William John Burchell e do artista Henry Chamberlain. Só a partir daí o caderno passa a ter seu nome atual. Dois anos depois é comprado pelo colecionador carioca Guilherme Guinle, que o guarda por três décadas até dar de presente ao sobrinho Cândido Guinle de Paula Machado. Em 1999, foi arrematado pelo IMS num leilão da Christie’s, o que atesta o valor que o conjunto adquiriu com o tempo.

A origem do legado de Debret agora exposto não é tão tortuosa, mas inclui uma curiosa relação com outro colecionador, Raimundo Ottoni de Castro Maya. Nos anos 1960, ele, em parceria com Fernando Portella e Paula Machado, viabilizou em Paris uma edição comemorativa com reproduções de Landseer. Castro Maya adquiriu nos anos 30 os originais que serviram de base para o famoso livro de Debret, Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. Hoje a coleção pertence ao museu que leva o nome do mecenas, no Rio. A instituição figura como a detentora do maior acervo de Debret no País, de onde sai o lote de 60 peças exibido na Caixa Cultural. Nele, se distinguem de imediato duas outras características que enriquecem o contraponto em relação ao artista-viajante inglês.

Debret permaneceu 15 anos no Brasil, bem mais que seu colega, e teria incluí-do em sua jornada o Sul do País, partindo do estado de São Paulo para o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Essa fase, registrada em aquarelas e desenhos, somada à passagem pelo Rio de Janeiro, formam os dois módulos da exposição. Na fase do Rio, é mais rica sua composição da vida urbana, por meio de tipos dos habitantes, vestimentas, costumes e festas populares. Aproxima-se de Landseer, porém, na visão das paisagens da Mata Atlântica e nas marinas do contorno carioca. Em contraposição, como salienta a curadora Anna Paola Baptista, os trabalhos do Sul se distanciam da intimidade e o predomínio é o de vistas ao longe. Ela também lança um mistério que, como as pranchas de Debret no álbum de Landseer, ainda não pode ser esclarecido. O francês talvez não tenha se deslocado ao Sul, apenas trabalhado em cima de relatos e desenhos de outros viajantes.

O fato, contudo, é que Debret contava com mais prática do que Landseer em seu ofício quando integrou a Missão Francesa e se tornou o nome mais prestigiado do grupo. Seu reconhecimento lhe permitiu fundar no Rio uma escola de artes e ofícios, mais tarde tornada a Academia Imperial de Belas Artes. Antes de comparar os viajantes, num período em que a curiosidade pelo País trouxe ainda Rugendas e Thomas Ender, entre outros, as mostras em questão propõem ocasião rara para apreciá-los como talentos complementares.
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Fonte:http://www.cartacapital.com.br/cultura/o-brasil-por-descobrir

Inflação e salário, corda e enforcado

12.05.2011
Do blog de Altamiro Borges
Por Rosane Bertotti, no sítio da CUT:


Respondendo a uma pergunta da Carta Maior sobre como ficariam as negociações salariais nos próximos meses, o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, por uma dessas infelicidades da vida, somou sua voz ao coro dos recém convertidos à surrada tese de que o salário é inflacionário.

Ainda pior do que a ameaça “olhem o que vêm pela frente em termos de inflação”, feita aos sindicatos de trabalhadores pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, a declaração do ministro endossa o esburacado descaminho da equipe econômica que tenta transformar a aparência em evidência e esta em prova para tanger os salários ao matadouro.

Segundo Carvalho, haverá campanhas salariais no fim do ano, “quando a inflação já estará caindo, mas no acumulado ainda estará alta”. Então, defende o ministro, “vai ter que ter maturidade do movimento sindical, do governo e do funcionalismo público, para que, num ano específico como este, as pessoas não queiram,egoisticamente, (grifos nossos) o seu próprio bem e ponham em risco o andamento da carruagem em geral”.

Infelizmente, a declaração explicita concepções que uma vez vitoriosas no seio do governo o empurrariam para uma inevitável rota de colisão com a sociedade, que já manifestou ser absolutamente contrária à reencarnação do projeto neoliberal tucano. Não por outra razão jaz sepultado pelas urnas - e antes delas pelas ruas.

A relação entre inflação e salário reproduz em boa medida a da corda com o pescoço do enforcado. Ao corroer o poder de compra, a inflação asfixia o trabalhador, enquanto o salário, reajustado após longos doze meses, o recompõe. Com aumentos reais mais expressivos, como os obtidos durante o governo Lula, se diminuiu, ainda que modestamente, o abismo existente entre o trabalho e o capital.

Em reunião com a Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS), em Brasília, foi explicitado, como primeiro ponto de pauta das entidades, a reivindicação unânime de que é necessária a mudança da política econômica. Foi dito e repetido que era inadmissível a manutenção das mais altas taxas de juros do mundo, pois atraem capital especulativo, volátil, que provoca a inundação do país com dólares que valorizam artificialmente a moeda nacional, facilitando a importação e dificultando a exportação, com gravíssimas conseqüências para o salário e o emprego.

Consequentemente, tal desorientação compromete o desenvolvimento, penalizando o conjunto da sociedade. Assim, enquanto nos EUA e na Europa os juros são negativos, em nosso país, somente no ano passado, a drenagem de recursos aos especuladores internacionais alcançou a escandalosa cifra de R$ 195 bilhões, quantia 15 vezes superior à destinada ao Bolsa-Família.

No encontro com Gilberto Carvalho, foi dado o alerta de que uma vez fragilizado o mercado interno - baluarte fundamental no combate aos impactos da crise internacional durante o governo Lula -, o Brasil ficaria à mercê da lógica rentista que segue o figurino recessivo imposto durante décadas pelo Fundo Monetário Internacional, pelo Banco Mundial e outras máfias.

Como se as lideranças populares falassem outra língua, como se as palavras ditas em bom e claro português estivessem criptografadas, o secretário geral da Presidência não entendeu o recado e manifestou concordância com os erros de Mantega. Desta forma, na prática, avalizou o corte dos R$ 50 bilhões no custeio, o aumento pífio dado pelo governo ao salário mínimo e a suspensão dos concursos públicos, como se em vez de agravar a doença, deixando o país mais incapaz e vulnerável, tais medidas fossem algum remédio miraculoso.

Na semana em que comemoramos 120 anos da Inspeção do Trabalho no Brasil em Defesa do Trabalho e dos Direitos Humanos, temos apenas e tão somente 2.800 auditores fiscais do trabalho em atividade para fiscalizar todas as empresas e averiguar as denúncias no território inteiro. Conforme denuncia o sindicato da categoria, a cada dia, esse número diminui por conta das aposentadorias e da falta de concursos públicos, enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) avalia que seriam necessários pelo menos o dobro destes profissionais para atender à demanda.

Graças à equipe econômica, há 220 aprovados no último concurso que ainda não foram chamados, e também não há qualquer previsão. Enquanto isso, multiplicam-se as lesões, mutilações e mortes em obras públicas, financiadas com recursos dos trabalhadores, sejam no Programa de Aceleração e Crescimento (PAC), sejam no Minha Casa, Minha Vida, denuncia a Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e da Madeira (Conticom). O descalabro em Jirau e Santo Antônio pode ser apenas a ponta do iceberg.

Como também alertou a Coordenação dos Movimentos Sociais, não é interpretação, mas fato, que a inflação de 6,5% medida pelo IPCA para os últimos 12 meses foi alavancada pelo vertiginoso aumento de commodities - como açúcar e petróleo - provocada pelos especuladores internacionais e que acabam contaminando os preços internos. Também é fato que estes mesmos parasitas estão catapultando a remessa de lucros para fora do país, beneficiados pela crescente desnacionalização do parque industrial e a estrangeirização das terras. Assim, se o preço do açúcar sobe, a cana deixa de virar etanol para atender o mercado externo e maximizar lucros, com os preços logo depois novamente lançados às alturas quando falta o combustível e a “lei” da oferta e da procura é acionada pelos cartéis.

Outro ponto a ser considerado pelo governo – do qual fazem parte os ministérios – são os lucros estratosféricos obtidos pelo setor financeiro. Como apontou a presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Juvandia Moreira, o resultado dos seis maiores bancos em 2010 somou R$ 43 bilhões, com crescimento de 30% em relação a 2009. E para este ano, acrescenta, os balanços já divulgados por Bradesco, Santander e Itaú mostram novas e robustas altas.

Diante de números tão esclarecedores, como pedir para a classe trabalhadora baixar a bola? Quem é o egoísta? Se a produtividade tem aumentado, nada mais justo de que os avanços sejam revertidos em ganhos reais aos trabalhadores, ainda mais quando a própria presidenta Dilma Rousseff anunciou o combate à miséria como eixo central de seu governo.

“Governo é datado, tem dia para acabar e atua no limite da correlação de forças. Nosso papel é fazer a realidade no limite do possível”, nos disse Gilberto Carvalho durante a audiência. Diante do exposto, tomo a liberdade de lembrar ao ministro, assim como fizeram as lideranças populares durante aquela reunião no Palácio do Planalto, que a mídia venal e a direita reacionária de tudo fizeram para abreviar o mandato do presidente Lula já em 2005, o que só não conseguiram devido à mobilização popular.

Gente que se uniu e atuou decisivamente sobre a correlação de forças até então, teoricamente, desfavorável. Que a mesma “correlação” expressa pelas urnas queimou o espantalho neoliberal, apontando para o aprofundamento das mudanças iniciadas no governo anterior, para o fortalecimento do papel do Estado, para a valorização do salário mínimo, para a ampliação de direitos e conquistas, para a integração latino-americana, para a independência política, econômica, ideológica e cultural dos ditames de Washington.

Para chegarmos até aqui fomos protagonistas numa batalha árdua, coletiva, de mobilização e acúmulo de consciências, onde Lula apontou para o avanço enquanto a mídia pedia cautela, fez o seu governo colocar o pé no acelerador enquanto a direita colocava freios. Não ouçamos agora o traiçoeiro canto de sereia que nos leva ao rochedo do retrocesso. Mais do que nunca, ouçamos o canto do poeta: fé na vida, fé no homem, fé no que virá...

* Rosane Bertotti é secretária de comunicação da CUT e da operativa da Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS).
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CNBB diz em nota que não reconhece decisão do STF sobre união homoafetiva

12.05.2011
Do Blog de Jamildo
Por José Maria Mayrink, no estadao.com.br


A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) aprovou pela manhã, durante sua 49ª Assembleia Geral, reunida em Aparecida, uma nota na qual estranha que o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha se pronunciado sobre a união homoafetiva, de parceiros homossexuais, porque, em sua avaliação, o exame da matéria caberia ao Legislativo e ao Executivo.

Os bispos brasileiros reafirmam que, conforme a doutrina da Igreja Católica, o casamento entre homem e mulher devem ser a base da família, instituição que precisa ser reconhecida e valorizada. A nota da CNBB afirma que as pessoas que manifestam preferência pelo mesmo sexo não podem ser discriminadas, mas insiste que a união entre homossexuais não equivale à família.

Decisão do STF

De acordo com o STF, os casais homossexuais têm os mesmos direitos e deveres que a legislação brasileira estabelece para os casais heterossexuais. A decisão, que foi aprovada unanimemente na última quinta-feira, 5, abre caminho para que o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo seja permitido e as uniões homoafetivas passem a ser tratadas como um novo tipo de família.


O julgamento do STF torna praticamente automáticos os direitos que hoje são obtidos com dificuldades na Justiça e põe fim à discriminação legal dos homossexuais. Considerada histórica, a decisão do STF é contestada tanto pela Igreja Católica quanto por juristas.

Leia nota da CNBB na íntegra:

Nós, Bispos do Brasil em Assembleia Geral, nos dias 4 a 13 de maio, reunidos na casa da nossa Mãe, Nossa Senhora Aparecida, dirigimo-nos a todos os fiéis e pessoas de boa vontade para reafirmar o princípio da instituição familiar e esclarecer a respeito da união estável entre pessoas do mesmo sexo. Saudamos todas as famílias do nosso País e as encorajamos a viver fiel e alegremente a sua missão. Tão grande é a importância da família, que toda a sociedade tem nela a sua base vital. Por isso é possível fazer do mundo uma grande família.

A diferença sexual é originária e não mero produto de uma opção cultural. O matrimônio natural entre o homem e a mulher bem como a família monogâmica constituem um princípio fundamental do Direito Natural. As Sagradas Escrituras, por sua vez, revelam que Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança e os destinou a ser uma só carne (cf. Gn 1,27; 2,24). Assim, a família é o âmbito adequado para a plena realização humana, o desenvolvimento das diversas gerações e constitui o maior bem das pessoas.

As pessoas que sentem atração sexual exclusiva ou predominante pelo mesmo sexo são merecedoras de respeito e consideração. Repudiamos todo tipo de discriminação e violência que fere sua dignidade de pessoa humana (cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 2357-2358).

As uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo recebem agora em nosso País reconhecimento do Estado. Tais uniões não podem ser equiparadas à família, que se fundamenta no consentimento matrimonial, na complementaridade e na reciprocidade entre um homem e uma mulher, abertos à procriação e educação dos filhos. Equiparar as uniões entre pessoas do mesmo sexo à família descaracteriza a sua identidade e ameaça a estabilidade da mesma. É um fato real que a família é um recurso humano e social incomparável, além de ser também uma grande benfeitora da humanidade. Ela favorece a integração de todas as gerações, dá amparo aos doentes e idosos, socorre os desempregados e pessoas portadoras de deficiência. Portanto têm o direito de ser valorizada e protegida pelo Estado.

É atribuição do Congresso Nacional propor e votar leis, cabendo ao governo garanti-las. Preocupa-nos ver os poderes constituídos ultrapassarem os limites de sua competência, como aconteceu com a recente decisão do Supremo Tribunal Federal. Não é a primeira vez que no Brasil acontecem conflitos dessa natureza que comprometem a ética na política.

A instituição familiar corresponde ao desígnio de Deus e é tão fundamental para a pessoa que o Senhor elevou o Matrimônio à dignidade de Sacramento. Assim, motivados pelo Documento de Aparecida, propomo-nos a renovar o nosso empenho por uma Pastoral Familiar intensa e vigorosa.

Jesus Cristo Ressuscitado, fonte de Vida e Senhor da história, que nasceu, cresceu e viveu na Sagrada Família de Nazaré, pela intercessão da Virgem Maria e de São José, seu esposo, ilumine o povo brasileiro e seus governantes no compromisso pela promoção e defesa da família.

Aparecida (SP), 11 de maio de 2011

Dom Geraldo Lyrio Rocha
Presidente da CNBB
Arcebispo de Mariana - MG
Dom Luiz Soares Vieira
Vice Presidente da CNBB
Arcebispo de Manaus - AM
Dom Dimas Lara Barbosa
Secretário Geral da CNBB
Arcebispo nomeado para Campo Grande - MS

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Fonte:http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/noticias/2011/05/11/cnbb_diz_em_nota_que_nao_reconhece_decisao_do_stf_sobre_uniao_homoafetiva_100442.php