quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Quase 3 mil UPPs serão construídas nos próximos quatro anos

17 DE NOVEMBRO DE 2010

Nos próximos quatro anos, serão investidos R$ 1,6 bilhão para a construção de 2.883 unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em todo país. De acordo com o secretário executivo do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), Ronaldo Teixeira, já há recursos previstos para o início das obras no orçamento de 2011.

Durante a campanha eleitoral, a presidenta eleita, Dilma Rousseff, garantiu que o modelo das UPPs cariocas será expandido para todo o país. O assunto está sendo tratado pela equipe de transição do Ministério da Justiça. “A presidenta vem colocando como prioridades do seu governo a questão da saúde e da segurança”, garantiu Teixeira.

De acordo com ele, as obras das UPPs estão previstas também no segundo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2). “A UPP é um nome específico do Rio de Janeiro. Chamamos de Posto Policial Comunitário, que é um genérico. Já temos orçamento para o ano que vem para construção de 40% do total previsto para os próximos quatro anos”, disse Teixeira à Agência Brasil.

Cada posto de policiamento será equipado com duas viaturas, duas motocicletas e uma central de inteligência e videomonitoramento para que os policiais possam atuar na região com melhores condições de tecnologia. “É uma atuação que vai reverter o quadro de segurança pública no país. A presença do efetivo policial e dessas estruturas por si só já transformam”, disse.

O secretário executivo do Pronasci, que também faz parte do grupo de transição do Ministério da Justiça, afirmou que o processo transitório entre os governos será tranquilo. “A transição no Ministério da Justiça não começou formalmente. Estamos esperando a sinalização da coordenação de transição, mas é claro que existe toda uma proximidade entre os dois governos.”

Além dos postos policiais, também serão construídos 800 centros de Referência da Juventude, que vão agregar ações de segurança, cultura e esporte para crianças e adolescentes de áreas de risco. “Temos a previsão de outros R$ 1,6 bilhão para a estruturação dos centros, que serão instalados prioritariamente nas áreas de maior conflito”.

Segundo Teixeira, Dilma colocou o Pronasci na pauta de ações para os próximos quatro anos. “O que irá consolidar aquela mudança que as UPPs proporcionam serão os projetos sociais de caráter preventivo, que trazem o jovem à cultura, à educação e ao esporte. Se ficarmos somente com o policiamento, nós teremos vida breve e não vida longa na grande mudança de paradigma que isso proporciona nas áreas de maior conflito.”

Fonte: Agência Brasil
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Fonte:http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=141754&id_secao=1

"Blocão" é bombardeado antes mesmo de se concretizar

17 DE NOVEMBRO DE 2010

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou nesta quarta-feira (17), após 2ª Conferência Nacional de Economia Familiar, no Planalto, a formação de um "blocão" pelo PMDB e outros partidos na Câmara dos Deputados. Segundo Lula, não se deve "mexer na política" de forma "conturbada".

"Tenho uma definição de política que é a seguinte: a política é como um leito de um rio. Se a gente não for um 'desmancha-ambiente' e a gente deixa a água correr tranquilamente, tudo vai se colocando da forma como é mais importante. Se as pessoas tentam de forma conturbada mexer na política, pode não ser muito bom”, disse.

Nessa terça-feira (16), foi anunciada a formação de um bloco comandado pelo PMDB que uniria 200 deputados. Além do PMDB, estariam no bloco PP, PR, PTB e PSC. A assessoria do PP, entretanto, afirma que não houve qualquer conversa do PMDB com o partido nesse sentido.

Segundo Lula, a proposta de criar um bloco de aliados, sem a participação do PT, não foi concretizada. "Primeiro, que não aconteceu. Parecia que ia acontecer, mas não aconteceu", disse.

O grupo reuniria 55 deputdaos a menos do que o número necessário (257) para obter a maioria da Câmara. Com isso, o PT, que elegeu a maior bancada (88 deputados), passaria a ser a segunda força parlamentar. De acordo com a tradição da Casa, a maior bancada ou bloco partidário fica com a presidência da Câmara.

Hoje (17), o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), descartou que haja articulação do partido no Senado, para formar um bloco com partidos menores e consolidar a maioria na Casa. Leia mais aqui

Temer: panos quentes

Até mesmo o presidente nacional do PMDB, Michel Temer, minimizou a formação do bloco. Temer, que também preside a Câmara dos Deputados e foi eleito vice-presidente da República, disse que "O PMDB e o PT estarão juntos em todas as hipóteses, seja na Câmara, seja no governo. Não há divergência nenhuma. O bloco é apenas uma intenção, que só será formalizado no início da nova legislatura [em fevereiro]".

A pedido da presidente eleita Dilma Rousseff, Temer convocou o líder do partido Henrique Eduardo Alves (RN) e o líder do governo, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) para uma reunião conjunta. No encontro na manhã desta quarta-feira, o vice eleito pediu para que os dois dessem um jeito de acabar com "o tiroteio entre as legendas".

Temer negou que tenha conversado sobre o assunto durante o café com Dilma na manhã de hoje. "Ela não manifestou preocupação sobre isso. A questão do bloco não tem tanta relevância", disse.

Padilha: “Não sei se existe"

Por seu turno, o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, demonstrou indiferença com a formação do "blocão", orquestrado pelo PMDB. Padilha disse não ter certeza se o bloco realmente irá existir e que ele não representa uma "ameaça" para o governo Dilma.

”Não sei se existe blocão, qual o tamanho do blocão e que blocão é esse. [...] São todos os partidos da coalizão que vão dar garantia de governabilidade para a presidente Dilma”, disse Padilha.

O ministro afirmou que a ocupação dos postos de comando na Câmara e no Senado serão acordados entre todos os partidos da coalizão de Dilma. “Se alguém pensa que com ameaça vai conseguir conquistar seus interesses, mesmo que eles sejam legítimos, vai perder a possibilidade de conquistá-los”.

A iniciativa de criação do bloco foi interpretada pelos petistas como um recado de que o PMDB não abre mão do comando da Casa no primeiro biênio (2011-2012) e quer voz ativa na composição do novo governo.


Da redação, com agências
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Fonte:http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=141739&id_secao=1

Cinquenta milhões de estadunidenses passaram fome em 2009

17 DE NOVEMBRO DE 2010 - 15H42

Informação oficial divulgada nesta semana revela que cerca de 15% dos lares dos Estados Unidos experimentaram uma escassez de alimentos em algum momento, devido à pobreza e à falta de recursos financeiros.

Isso é equivalente a cerca de 17 milhões de residências, ou aproximadamente 50 milhões de pessoas, indica um relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA na sigla em inglês) na segunda-feira (15).

A cifra recorde inclui cerca de 17 milhões de crianças.

Os resultados também revelaram que cerca de um quinto da população estadunidense participou de pelo menos um programa federal de assistência alimentar em 2009.

A assombrosa cifra de 34 milhões de pessoas que foram classificadas como portadoras de "insegurança alimentar" conseguiu obter os benefícios do Programa de Assistência de Nutrição Suplementar (SNAP), conhecido antes como cupom de alimentos (Stamp food) na média mensal do ano passado.

Cerca de seis milhões de lares também relataram ter recebido alimentos de emergência de um serviço de armazenagem de alimentos gratuitos. A cifra duplicou desde 2007.

Segundo o USDA, os mais afetados pela fome são os negros e os latinos.

A segurança alimentar diminuiu de maneira constante nos Estados Unidos desde que a recessão econômica começou oficialmente em fins de 2008

Fonte: Cubadebate
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Fonte:http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=141724&id_secao=9

Quem serve a quem na direita?

18.11.2010
Você já se perguntou se é a mídia que serve à oposição de direita ou se é esta que serve àquela? Durante os últimos anos, como a mídia se dedicou a produzir factóides que servissem ao discurso oposicionista, prevaleceu a sensação de que Serra e sua turma a tinham nas mãos. Mas e se a for a mídia que usa os Serras, Alckmins e FHCs da vida?

Pensemos juntos. Por que a mídia bilionária serviria a um grupo político que dela depende para sobreviver? Todos viram o estrago que algumas míseras denúncias que saíram na mídia durante o processo eleitoral – quando esta deu a fatura por liquidada em favor de Dilma – fizeram na candidatura tucana à Presidência.

Ao contrário do grupo político lulo-petista, o grupo demo-tucano demonstrou não ter a menor resistência à investigação e ao questionamento de uma só das dezenas de denúncias não divulgadas que pesam contra os partidos de direita. Sem o apoio da mídia, PSDB, DEM e PPS talvez nem sobrevivessem a estas eleições.

A mídia parece ter um poder de barganha com os partidos de direita que os deixa muito distantes de poderem se servir dela. É mais provável, por esta linha de pensamento, que as famílias midiáticas é que escolham políticos que julguem com “potencial” para lograrem vitórias políticas, as quais serão usadas para atenderem a demandas de classe social.

Ou seja, a mídia tampouco é general de nada. No máximo, é tenente a serviço de um setor muito pequeno da sociedade que, através de empresários de comunicação, vinha conseguindo fazer com que os seus interesses nada representativos parecessem os interesses de todos.

Tal poder, porém, começou a minguar. Da virada do milênio para cá, essa mídia passou a perder doses maciças desse poder de eleger e/ou de derrubar políticos.

Note-se que a ida da eleição presidencial para o segundo turno mais uma vez – depois de ter sido logrado o mesmo em 2006 – evitou que os meios de comunicação se tornassem atores irrelevantes ou de somenos importância em processos eleitorais futuros.

Todavia, não se pode esquecer de que a direita brasileira perdeu a terceira eleição presidencial consecutiva apesar de todo o aparato de comunicação de que dispõe. É importantíssimo notar que uma consistente maioria do eleitorado brasileiro disse um enorme não aos factóides tucano-midiáticos, aos seus propagadores e ao candidato deles.

Não vamos nos esquecer de que quem ficou ao lado de Dilma e de Lula mesmo com a avalanche de denúncias que se viu, certamente acredita que os adversários deles – tanto na mídia quanto na classe política – mentiram.

O fato é que se esta linha de pensamento estiver certa, a cadeia de comando correta é elite branca, mídia e, por último, os partidos que se dispõem a representar os interesses de um estrato social extremamente rico e diminuto que põe à disposição dos seus soldados políticos um aparato de propaganda bilionário.
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Fonte:http://www.blogcidadania.com.br/2010/11/quem-serve-a-quem-na-direita/

PF envia à Justiça inquérito do caso Erenice Guerra

17/11/2010
Por VANNILDO MENDES, estadao.com.br

Com pedido de mais prazo para concluir o trabalho, a Polícia Federal (PF) enviou hoje à Justiça Federal os autos do inquérito que investiga um suposto esquema de tráfico de influência no governo atribuído a familiares da ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra, que foi braço direito da presidente eleita, Dilma Rousseff.

Na segunda fase, que começa quando o inquérito retornar, a PF deverá fazer os indiciamentos, a começar por Israel e Saulo Guerra, filhos da ex-ministra, acusados de usar empresas de fachada para cobrar propina de empresários que tinham contratos com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), os Correios e outras empresas públicas.

Mas os indiciamentos só serão definidos depois que for concluída a análise dos documentos apreendidos na primeira fase e dos computadores usados por Erenice e assessores da Casa Civil acusados de envolvimento no esquema. Entre eles estão o sócio de Saulo e Israel nos negócios, Vinicius Castro e Stevan Knezevic, além de Gabriel Laender, indicado pelo marido de Erenice para trabalhar na Casa Civil. Os três também deixaram o órgão após a divulgação das denúncias.

Ontem, portaria da Presidência da República publicada no Diário Oficial da União adiou por 20 dias a conclusão dos trabalhos da comissão instaurada pelo governo para investigar o suposto envolvimento da ex-ministra no esquema. Erenice pediu demissão do cargo em 16 de setembro. O escândalo é apontado como o principal fator que impediu a vitória de Dilma no primeiro turno. Na primeira fase foram ouvidas 20 pessoas, entre elas Erenice, os filhos e os assessores, além de dirigentes das estatais citadas.
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Fonte:http://estadao.br.msn.com/ultimas-noticias/artigo.aspx?cp-documentid=26390046

Pequenos articulam “superbloquinho" para 2011

17/11/2010

Grupo que tem PSB, PRB e PC do B pode contar com PDT, PV e PMN no próximo ano

Após o anúncio, ontem (16.nov.2010), de um “blocão” liderado pelo PMDB, partidos do chamado “bloquinho” (PSB, PC do B e PRB) dão os primeiros passos para também crescer em 2011.

Segundo o líder do PRB na Câmara, deputado Cléber Verde (MA), há conversas para que PV, PDT e PMN se juntem ao grupo. Uma primeira reunião entre representantes dos partidos foi feita na manhã de hoje (17.nov.2010). Apenas PMN não foi representado no encontro.

Em 5.nov.2010, o líder do PSB, Márcio França (SP), já havia declarado ao Blog ter esperanças de se aproximar de PV e PDT. “Com o [José Luiz] Penna [presidente do PV] na Câmara, tenho esperanças de abrir conversa com o PV. O Penna está mais pro nosso lado”, disse França.

Caso haja acordo, o novo bloquinho, com 6 partidos, terá 104 deputados, contabilizou o líder do PRB, Cléber Verde. O atual bloquinho, de 3 partidos, possui 46 deputados. “Não está oficializado, foi uma conversa dos líderes. Agora cada um vai levar [a proposta do bloco] para os partidos [discutirem]”, afirmou o líder.

Verde também disse que a articulação não é reação à iniciativa do blocão liderado pelo PMDB. Segundo ele, independentemente dos propósitos do PMDB, o novo bloquinho já era discutido há algumas semanas com propósito de fortalecer seus partidos na recomposição da mesa e das comissões da Câmara em 2011.

“Mas muitos deputados eleitos não estão aqui. Formalização do bloco só no ano que vem”, relativizou Cléber Verde.

O tamanho de uma bancada dá a um partido ou bloco partidário o direito de escolher os melhores cargos na estrutura da Câmara: as presidências da principais comissões de trabalho.

Esses cargos são distribuídos de acordo com o tamanho da bancada. Quem tem mais deputados, escolhe primeiro. Em geral, o posto mais cobiçado é o da Comissão de Constituição e Justiça --que é por onde começam a tramitar os projetos de lei e é onde deputados são julgados em eventuais processos de cassação. Se não for feito nenhum bloco na Câmara, o PT terá a maior bancada e ficará com a CCJ".
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Fonte:http://uolpolitica.blog.uol.com.br/arch2010-11-14_2010-11-20.html#2010_11-17_18_18_23-9961110-0

Novo padrão de mudança social

Publicado em 17/11/2010

Por Marcio Pochmann

Do final do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek (1956-61) ao segundo governo Lula (2006-10), o Brasil conviveu com três distintos padrões de mudanças sociais, identificados por um conjunto amplo e profundo de transformações econômicas (estruturas produtiva, ocupacional e distributiva) e de reorientação nas políticas públicas (Estado de bem-estar social).

Ao se considerar a evolução de indicadores-sínteses da realidade brasileira, como os da renda per capita nacional e da desigualdade na repartição da renda pessoal, nota-se o ineditismo do momento atual, de conteúdo não esboçado plenamente no primeiro e no segundo padrões de mudanças sociais.

Entre as décadas de 1960 e 1970, o Brasil apresentou o primeiro padrão de mudança social, caracterizado pela forte expansão nacional da renda per capita, acompanhada de significativo aumento no grau de desigualdade na repartição da renda pessoal, responsável por brutal diferenciação no movimento de mobilidade social.

Na toada do projeto de industrialização nacional, sem planejamento e sem reforma agrária, houve excessiva transição populacional do campo para a cidade. Além do excedente de mão de obra gerado nos grandes centros urbanos, o valor real do salário mínimo registrou queda média anual de 1,6%, diante da elevação média de 4,6% ao ano do PIB per capita, entre 1960 e 1980.

Mesmo com a presença da informalidade, a cada ano a ocupação total aumentou 3,1% e a taxa nacional de pobreza decaiu 1,3%, enquanto a escolaridade dos brasileiros passou de 2,1 para 3,9 anos (3,1% de aumento anual) e o grau de desigualdade na renda pessoal cresceu 1%.

Em síntese, um contraste visível entre a rápida elevação da renda nacional por habitante e o forte aumento das iniquidades, especialmente na divisão dos frutos do crescimento econômico.

O segundo padrão de mudança social, ocorrido entre os anos de 1981 e 2003, foi demarcado pela estagnação na evolução da renda per capita e no grau de desigualdade na repartição da renda pessoal.

A vigência do regime de superinflação (até 1994) e de crises econômicas seguidas fez regredir a renda nacional em vários períodos (1981-83, 1990-92, 1998-99 e em 2002-03).

Sem a sustentação do crescimento da renda nacional per capita (variação de 0,2% ao ano), o grau de desigualdade praticamente não mudou (variação negativa de 0,1% ao ano), enquanto o desemprego cresceu fortemente (5,6% ao ano) e o valor real do salário mínimo foi reduzido 1,8% ao ano, em média.

Além disso, a cada ano a taxa de pobreza caiu apenas 0,8%, e a escolaridade foi ampliada somente em 2,1% (de 3,9 para 6,3 anos). Resumidamente, a interrupção da mobilidade social e das oportunidades econômicas.

Desde meados da década de 2000, percebem-se sinais de novo padrão de mudança social no país.

Esse terceiro padrão possui como características principais a combinação da expansão média anual da renda nacional per capita (de 2,9%) com a queda na desigualdade pessoal da renda (de 1,5%) desde 2004.

Simultaneamente, registra-se a redução média anual nas taxas nacionais de desemprego (5,2%) e de pobreza (4,8%), com forte elevação do salário mínimo (7,1%), da ocupação total (3,2%), sobretudo formal, e dos anos de escolaridade (aumento de 3,8%).

Em especial, o novo padrão de mudança social relaciona-se à opção atual pelo desenvolvimento da produção de bens e serviços em detrimento da financeirização da riqueza - como observado nos anos de vigência do segundo padrão de mudança social - e pela defesa do Estado de bem-estar social, ausente durante o primeiro padrão de mudança social.

*Marcio Pochmann, economista, é presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp. Foi secretário do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de São Paulo (gestão Marta Suplicy).

Liberdade de expressão: uma armadilha para pegar quem?

Segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Elaine Tavares

O velho Marx já ensinou a muitos anos sobre o que é a ideologia. É o encobrimento da verdade. Assim, tudo aquilo que esconde, vela, obscurece, tapa, encobre, engana, é ideologia. É dentro deste espectro que podemos colocar o debate que se faz hoje no Brasil, na Venezuela, no Equador e na Bolívia sobre o binômio “liberdade de expressão X censura”. Para discutir esse tema é preciso antes de mais nada observar de onde partem os gritos de “censura, censura”, porque na sociedade capitalista toda e qualquer questão precisa ser analisada sob o aspecto de classe. A tal da “democracia”, tão bendita por toda a gente, precisa ela mesma de um adjetivo, como bem já ensinou Lênin. “Democracia para quem? Para que classe?”.

Na Venezuela a questão da liberdade de expressão entrou com mais força no imaginário das gentes quando o governo decidiu cassar a outorga de uma emissora de televisão, a RCTV, por esta se negar terminantemente a cumprir a lei, discutida e votada democraticamente pela população e pela Assembléia Nacional. “Censura, cerceamento da liberdade de expressão” foram os conceitos usados pelos donos da emissora para “denunciar” a ação governamental. Os empresários eram entrevistados pela CNN e suas emissoras amigas, de toda América Latina, iam reproduzindo a fala dos poderosos donos da RCTV. Transformados em vítimas da censura, eles foram inclusive convidados para palestras e outros quetais aqui nas terras tupiniquins.

Lá na Venezuela os organismos de classe dos jornalistas, totalmente submetidos à razão empresarial, também gritavam “censura, censura” e faziam coro com as entidades de donos de empresas de comunicação internacionais sobre o “absurdo” de haver um governo que fazia cumprir a lei. Claro que pouquíssimos jornais e jornalistas conseguiram passar a informação correta sobre o caso, explicando a lei, e mostrando que os que se faziam de vítima, na verdade eram os que burlavam as regras e não respeitavam a vontade popular e política. Ou seja, os arautos da “democracia liberal” não queriam respeitar as instituições da sua democracia. O que significa que quando a democracia que eles desenham se volta contra eles, já não é mais democracia. Aí é ditadura e cerceamento da liberdade de expressão.

No Brasil, a questão da censura voltou à baila agora com o debate sobre os Conselhos de Comunicação. Mesma coisa. A “democracia liberal” consente que existam conselhos de saúde, de educação, de segurança, etc... Mas, de comunicação não pode. Por quê? Porque cerceia a liberdade de expressão. Cabe perguntar. De quem? Os grandes meios de comunicação comercial no Brasil praticam a censura, todos os dias, sistematicamente. Eles escondem os fatos relacionados a movimentos sociais, lutas populares, povos indígenas, enfim, as maiorias exploradas.

Estas só aparecem nas páginas dos jornais ou na TV na seção de polícia ou quando são vítimas de alguma tragédia. No demais são esquecidas, escondidas, impedidas de dizerem a sua palavra criadora. E quando a sociedade organizada quer discutir sobre o que sai na TV, que é uma concessão pública, aí essa atitude “absurda” vira um grande risco de censura e de acabar com a liberdade de expressão. Bueno, ao povo que não consegue se informar pelos meios, porque estes censuram as visões diferentes das suas, basta observar quem está falando, quem é contra os conselhos. De que classe eles são. Do grupo dos dominantes, ou dos dominados?

Agora, na Bolívia, ocorre a mesma coisa com relação à recém aprovada lei anti-racista. Basta uma olhada rápida nos grandes jornais de La Paz e lá está a elite branca a gritar: “censura, censura”. A Sociedade Interamericana de Imprensa, que representa os empresários, fala em cerceamento da liberdade de expressão. Os grêmios de jornalistas, também alinhados com os patrões falam a mesma coisa, assim como as entidades que representam o poder branco, colonial e racista.

Estes mesmos atores sociais que ao longo de 500 anos censuraram a voz e a realidade indígena e negra nos seus veículos de comunicação, agora vem falar de censura. E clamam contra suas próprias instituições. A lei anti-racista prevê que os meios de comunicação que incentivarem pensamentos e ações racistas poderão ser multados ou fechados. Onde está o “absurdo” aí? Qual é o cerceamento da liberdade de expressão se a própria idéia de liberdade, tão cara aos liberais, se remete à máxima: “a minha liberdade vai até onde começa a do outro”? Então, como podem achar que é cerceamento da liberdade de expressão usar do famoso “contrato social” que garante respeito às diferenças?

Ora, toda essa gritaria dos grandes empresários da comunicação e seus capachos nada mais é do que o profundo medo que todos têm da opinião pública esclarecida. Eles querem o direito de continuar a vomitar ideologia nos seus veículos, escondendo a voz das maiorias, obscurecendo a realidade, tapando a verdade. Eles querem ter o exclusivo direito de decidir quem aparece na televisão e qual o discurso é válido. Eles querem manter intacto seu poder escravista, racista e colonial que continua se expressando como se não tivessem passado 500 anos e a democracia avançado nas suas adjetivações. Hoje, na América Latina, já não há apenas a democracia liberal, há a democracia participativa, protagônica, o nacionalismo popular. As coisas estão mudando e as elites necrosadas se recusam a ver.

O racismo é construção de quem domina

Discursos como esses, das elites latino-americanas e seus capachos, podem muito bem ser explicados pela história. Os componentes de racismo, discriminação e medo da opinião pública esclarecida têm suas raízes na dominação de classe. Para pensar essa nossa América Latina um bom trabalho é o do escritor Eric Williams, nascido e criado na ilha caribenha de Trinidad Tobago, epicentro da escravidão desde a invasão destas terras orientais pelos europeus. No seu livro Capitalismo e Escravidão, ele mostra claramente que o processo de escravidão não esteve restrito apenas ao negro. Tão logo os europeus chegaram ao que chamaram de Índias Orientais, os primeiros braços que trataram de escravizar foram os dos índios.

Os europeus buscavam as Índias e encontraram uma terra nova. Não entendiam a língua, não queriam saber de colonização. Tudo o que buscavam era o ouro. Foi fácil então usar da legitimação filosófica do velho conceito grego que ensinava ser apenas “o igual”, “o mesmo”, aquele que devia ser respeitado. Se a gente originária não era igual à européia, logo, não tinha alma, era uma coisa, e podia ser usada como mão de obra escrava para encontrar as riquezas com as quais sonhavam.

Simples assim. Essa foi a ideologia que comandou a invasão e seguiu se sustentando ao longo destes 500 anos. Por isso é tão difícil ao branco boliviano aceitar que os povos originários possam ter direitos. Daí essa perplexidade diante do fato de que, agora, por conta de uma lei, eles não poderão mais expressar sua ideologia racista, que nada mais fez e ainda faz, que sustentar um sistema de produção baseado na exploração daquele que não é igual.

Eric Williams vai contar ainda como a Inglaterra construiu sua riqueza a partir do tráfico de gente branca e negra, para as novas terras, a serem usadas como braço forte na produção do açúcar, do tabaco, do algodão e do café. Como o índio não se prestou ao jogo da escravidão, lutando, fugindo, morrendo por conta das doenças e até se matando, o sistema capitalista emergente precisava inventar uma saída para a exploração da vastidão que havia encontrado.

A escravidão foi uma instituição econômica criada para produzir a riqueza da Inglaterra e, de quebra, dos demais países coloniais. Só ela seria capaz de dar conta da produção em grande escala, em grandes extensões de terra. Não estava em questão se o negro era inferior ou superior. Eram braços, e não eram iguais, logo, passíveis de dominação. Eles foram roubados da África para trabalhar a terra roubada dos originários de Abya Yala.

Também os brancos pobres dos países europeus vieram para as Américas como servos sob contrato, o que era, na prática, escravidão. Segundo Williams, de 1654 a 1685, mais de 10 mil pessoas nestas condições partiram somente da cidade de Bristol, na Inglaterra, para servir a algum senhor no Caribe. Conta ainda que na civilizada terra dos lordes também eram comuns os raptos de mulheres, crianças e jovens, depois vendidos como servos. Uma fonte segura de dinheiro.

De qualquer forma, estas ações não davam conta do trabalho gigantesco que estava por ser feito no novo mundo, e é aí que entra a África. Para os negociantes de gente, a África era terra sem lei e lá haveria de ter milhões de braços para serem roubados sem que alguém se importasse. E assim foi. Milhões vieram para a América Latina e foram esses, juntamente com os índios e os brancos pobres, que ergueram o modo de produção capitalista, garantiram a acumulação do capital e produziram a riqueza dos que hoje são chamados de “países ricos”.

E justamente porque essa gente foi a responsável pela acumulação de riqueza de alguns que era preciso consolidar uma ideologia de discriminação, para que se mantivesse sob controle a dominação. Daí o discurso – sistematicamente repetido na escola, na família, nos meios de comunicação – de que o índio é preguiçoso, o negro é inferior e o pobre é incapaz. Assim, se isso começa a mudar, a elite opressora sabe que o seu mundo pode ruir.

Liberdade de expressão

É por conta da necessidade de manter forte a ideologia que garante a dominação que as elites latino-americanas tremem de medo quando a “liberdade de expressão” se volta contra elas. Esse conceito liberal só tem valor se for exercido pelos que mandam e aí voltamos àquilo que já escrevi lá em cima. Quando aqueles que os dominadores consideram “não-seres” - os pobres, os negros, os índios – começam a se unir e a construir outro conceito de direito, de modo de organizar a vida, de comunicação, então se pode ouvir os gritos de “censura, censura, censura” e a ladainha do risco de se extinguir a liberdade de expressão.

O que precisa ficar bem claro a todas as gentes é de que está em andamento na América Latina uma transformação. Por aqui, os povos originários, os movimentos populares organizados, estão constituindo outras formas de viver, para além dos velhos conceitos europeus que dominaram as mentes até então. Depois de 500 anos amordaçados pela “censura” dos dominadores, os oprimidos começam a conhecer sua própria história, descobrir seus heróis, destapar sua caminhada de valentia e resistência. Nomes como Tupac Amaru, Juana Azurduy, Zumbi dos Palmares, Guaicapuru, Bartolina Sisa, Tupac Catari, Sepé Tiaraju, Dandara, Artigas, Chica Pelega, assomam, ocupam seu espaço no imaginário popular e provocam a mudança necessária.

Conceitos como Sumak kawsay, dos Quíchua equatorianos, ou o Teko Porã, dos Guarani, traduzem um jeito de viver que é bem diferente do modo de produção capitalista baseado na exploração, na competição, no individualismo. O chamado “bem viver” pressupõe uma relação verdadeiramente harmônica e equilibrada com a natureza, está sustentado na cooperação e na proposta coletiva de organização da vida. Estes são conceitos poderosos e “perigosos”. Por isso, os meios de comunicação não podem ficar à mercê dos desejos populares.

Essas idéias “perigosas” poderiam começar a aparecer num espaço onde elas estão terminantemente proibidas. É esse modo de pensar que tem sido sistematicamente censurado pelos meios de comunicação. Porque as elites sabem que destruída e ideologia da discriminação contra o diferente e esclarecida a opinião pública, o mundo que construíram pode começar a ruir. A verdadeira liberdade de expressão é coisa que precisa ficar bem escondida, por isso são tão altos os gritos que dizem que ela pode se acabar se as gentes começarem a “meter o bedelho” neste negócio que prospera há 500 anos.

Basta de bobagens

É neste contexto histórico, econômico e político que deveriam ser analisados os fatos que ocorrem hoje na Venezuela, no Equador, na Bolívia e na Argentina. O Brasil deveria, não copiar o que lá as gentes construíram na sua caminhada histórica, mas compreender e perceber que é possível estabelecer aqui também um processo de mudança.

Neste mês de novembro o Ministério das Comunicações chamou um seminário para discutir uma possível lei de regulamentação da mídia brasileira. Não foi sem razão que os convidados eram de Portugal, Espanha e Estados Unidos. Exemplos de um mundo distante, envelhecido, necrosado, representantes de um capitalismo moribundo.

As revolucionárias, criativas e inovadoras contribuições dos países vizinhos não foram mencionadas. A Venezuela tem uma das leis mais interessantes de regulamentação da rádio e TV, a Argentina deu um passo adiante com a contribuição do movimento popular, a Bolívia avança contra o racismo, o Equador inova na sua Constituição, e por aqui tudo é silêncio. Censura?

Os governantes insistem em buscar luz onde reina a obscuridade. E, ainda assim pode-se ouvir o grito dos empresários a dizer: censura, censura, censura. O atraso brasileiro é tão grande que mesmo as liberais regulamentações européias são avançadas demais. Enquanto isso Abya Yala caminha, rasgando os véus...
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Fonte:http://turcoluis.blogspot.com/2010/11/liberdade-de-expressao-uma-armadilha.html

Filme mostra como o Opus Dei dilui fronteiras entre o fanatismo e a psicopatia

Quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Por Marco Weissheimer

“É um filme contra o obscurantismo, a dor e os fundamentalismos neste país”. Foi assim que o cineasta espanhol Javier Fesser recebeu, em fevereiro de 2009, seis estatuetas do Goya (prêmio máximo do cinema espanhol) pelo filme “Camino” (“Um caminho de luz”, em português): melhor filme, melhor realizador (Javier Fesser), melhor atriz (Carmen Elías), melhor atriz revelação (Nerea Camacho), melhor ator coadjuvante (Jordi Dauder) e melhor roteiro.

O obscurantismo e o fundamentalismo ficam por conta da Opus Dei, organização ultra-conservadora da Igreja Católica que desafia as fronteiras entre o fanatismo, a psicopatia e a sem-vergonhice. “Camino” é uma homenagem pessoal de Fesser a uma menina de 13 anos chamada Alexia González-Barros e mostra a maneira como a Opus Dei manipula a sua doença e a transforma num sacrifício que se deve oferecer a Deus. Na tela, é retratada pelo nome de Camino, em referência ao livro homônimo de Josemaría Escrivá de Balaguer, fundador da ordem.

O fanatismo católico está presente dentro da casa da menina, encarnado no corpo da mãe, uma carola fundamentalista que vai se confessar para pedir perdão por desejar um milagre que salvasse a vida da própria filha. Em retribuição a esse infinito amor maternal, a filha, Camino, vê a mãe como uma espécie de demônio em seus sonhos.

“Camino” (disponível nas locadoras) é um filme extraordinário que trata de um tema extremamente duro, mesclando uma corrosiva crítica ao fanatismo religioso e um olhar doce e cheio de imaginação da menina que sofre a terrível coincidência de encontrar seu primeiro amor, um menino chamado Jesus, e descobrir que tem um agressivo câncer. Submetida a diversas e dolorosas cirurgias, ela fala em Jesus o tempo todo, o menino, não o Messias, como entendem sua mãe e os psicopatas da Opus Dei. Daí para virar candidata à santa é um pulinho, com direito a uma pornográfica conversa entre um padre e a mãe. O obrador de Deus tenta convencer a dita cuja que é melhor Camino morrer logo para iniciar o processo de canonização.

O filme, disse ainda o diretor, acabou se tornando, durante sua realização, uma procura da verdade com “dezenas de testemunhas de gente maravilhosa presa injustamente numa instituição chamada Opus Dei”. “Camino” causou forte polêmica na Espanha, berço da prelazia apoiada por parte da elite empresarial e famílias tradicionais e com forte influência na cúpula da Igreja Católica, tanto na Espanha como em Roma. Por aqui também a Opus Dei anda colocando suas manguinhas de fora.

Recentemente, um jovem padre da Catedral Metropolitana de Porto Alegre, ligado à organização, foi capa do caderno Donna, da Zero Hora, apresentado como um “padre pop”. Alguns gabinetes da Faculdade de Direito da UFRGS também respiram esse odor fundamentalista católico. Para quem se interessa pelo tema, “Camino” é um filme obrigatório. Mostra alguns detalhes da vida interna dessa organização e de seus códigos de conduta, para não falar de diversas patologias travestidas de fervor religioso. Deus nos livre dessa gente!

Dica do turquinho: Faça download do filme aqui
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Fonte:http://turcoluis.blogspot.com/2010/11/filme-mostra-como-o-opus-dei-dilui.html

O combate à discriminação e a educação antirracista

Quarta-feira, 17 de novembro de 2010
VERA ROSANE RODRIGUES DE OLIVEIRA no sitio do CPERS

Este artigo tem como preocupação a relevância do combate à discriminação racial através das lutas impelidas pelo Movimento Social Negro Organizado, o qual nos últimos 90 anos privilegia como eixo central de suas reivindicações a educação, enquanto elemento capaz de possibilitar as mudanças de “ideias”, a fim de combater o racismo. Há muito as organizações negras lutam contra a discriminação racial intuitivamente ou não tendo na educação um de seus pilares para sua inclusão no mundo do trabalho. No entanto, é necessário vermos esta questão na perspectiva da sociedade de classes, que utiliza das diferenças sejam elas quais forem, em especial das diferenças raciais, para melhor explorar o conjunto da classe oprimida.

Assim, com a conotação de que o racismo se constituiu ideologicamente e se pauta na discriminação racial para criar as desigualdades de oportunidade e de acesso que dão origem as mais variadas formas de exploração social, que são percebidas nos campos econômico/político-jurídico e cultural e que constituem as bases da dominação e da exclusão social. Neste prisma, deve-se analisar a educação como parte de um processo ideológico de manutenção da hegemonia da elite racialmente dominante.

Pois, como salienta Lia Faria em seu artigo intitulado O papel da Escola no Processo de reversão (ou eliminação) da exclusão social (1996, p. 9-10): Longe de ser uma prática desinteressada e neutra, a educação é um importante instrumento de reprodução social, impondo ao educando o modo de pensar considerado correto, a maneira ״cientifica˝, ״racional˝, ״verdadeira˝ de se entender e explicar a sociedade, a família, o trabalho, o poder, bem como os modelos sociais de comportamento, as formas tidas como corretas de se comportar na família e no trabalho, de se relacionar com Deus, a autoridade, o sexo oposto, os ״subalternos˝.

Esta característica de reprodução de comportamentos trazida por Faria é significativa, principalmente em uma conjuntura onde as demandas por políticas de combate ao racismo, pautadas pelo Movimento Social Negro, começam a ver seus limites estruturais. Não importando se sejam elas políticas educacionais de inclusão como as Cotas e a Lei 10.639 com um caráter mais pedagógico ou mesmo as que tangem aspectos mais globais como o Estatuto da Igualdade Racial, aprovado em agosto deste ano de 2010 e que desconstitui ações voltadas para saúde da população negra e dos Territórios de Quilombos.

A educação e todo o processo educacional devem ser entendidos enquanto partícipe em uma análise aprofundada e seu aspecto de manutenção da ordem discriminatória. Porém, existe uma determinada postura de mudança que também necessita ser observada, pois o movimento social negro ao optar como forma de reorganização da luta a educação, aposta na mesma como instrumento possível à mudança de mentalidade. Segundo Giroux (1988, p. 32), “a escola é uma das esferas públicas, juntamente com as associações de classe, sindicatos e partidos, isto é, espaços onde a sociedade discute e procura soluções para os seus problemas coletivos”.

As organizações negras há muito já entenderam isso. Mesmo antes do final da escravidão, o Estado Brasileiro enquanto Instituição já tinha a preocupação de determinar os critérios de acesso ou possibilidades aos negros na escola.
O Decreto nº 1.331 de 17 de fevereiro 1854 proíbe nas escolas públicas do país a admissão de escravos e prevê a instrução de adultos negros dependendo da disponibilidade do Professor. Ainda, o Decreto nº 7.031-A, de 06 de setembro de 1878, estabelece que os negros pudessem estudar no horário noturno. Teve-se ainda neste período a Lei Eusébio de Queirós, que aboliu o tráfico negreiro no Brasil, e ao mesmo tempo a Lei que regulamenta a posse e venda de terras.

Observa-se, assim, que a desigualdade entre brancos e negros não se deu de forma particularizada e individualizada, pelas potencialidades dos sujeitos. Mas se consubstancia por vias institucionais da Coroa Real.

Segundo Gohn (1995, p. 42), “as revoltas eram constantes, sendo a da Bahia uma das mais significativas. O apoio à causa da abolição começava a aparecer, vindo a ser transformado nas décadas seguintes na principal questão do país”. A história oficial nos induz a crer que as lutas negras nunca se deram de forma organizada. No entanto, pode-se citar apenas um dos vários exemplos que retratam o quanto é necessário se re-estudar a história: em 1857, trinta anos antes da abolição da escravatura, houve no Rio de Janeiro a primeira Greve de Escravos-operários do Brasil, Gohn (ibid).

Este fato é significante, uma vez que a maioria dos acadêmicos, bem como os militantes sindicais no país, reconhece as lutas organizadas apenas a partir do anarco-sindicalismo, ou seja, do ingresso da imigração Italiana.

Problematizar estes elementos dá sentido às indagações levantas pelo Professor Cunha Junior, de que a produção acadêmica, conta apenas a história dos eurodescendentes, seja pelos setores mais reacionários ou progressivos da intelectualidade. Ou como ainda expresso pelo militante trotskista, James Cânon (2000, p. 03):O movimento socialista anterior [...] jamais reconheceu a necessidade de um programa especial para a questão do negro. Esta era considerada pura e simplesmente um problema econômico, uma parte da luta entre os operários e os capitalistas, a ideia era que não se podia fazer nada sobre os problemas especiais da discriminação e desigualdades antes da chegada do socialismo.

Trilhar o caminho constituído pelo movimento negro até a formulação de que o Estado tem papel emblemático, através das políticas públicas e ações afirmativas como forma de reparações aos crimes da escravidão é fundamental. Em 2001 na III Conferência Internacional Contra o Racismo, a Discriminação, a Homofobia e todas as formas de Intolerância, Correlatas, em Durban, na África do Sul, o racismo foi reconhecido como Crime que Lesa a Humanidade. É preponderante para se perceber a possibilidade da mudança estrutural das condições de desigualdade vividas pelos negros.

A política de cotas em sua formulação atual é um anseio da história contemporânea. No entanto, tem suas raízes desde as associações de ajuda mútua do início do século XIX, passando pela Frente Negra Brasileira e o Teatro Experimental do Negro, a fundação do Movimento Negro Unificado, em 1978 até a configuração da Lei de Cotas em 2001.

Entender o papel educativo da luta negra inferindo no papel social da educação é contribuir no processo de desalienação em que o capitalismo submete a todos de uma forma indistinta, criando a divisão dos próprios trabalhadores, seja, pelas questões de exploração de classe através de salários e condições de trabalho diferenciadas, entre negros e brancos, homens e mulheres, seja pelas possibilidades de acesso aos recursos institucionais, como escolas, universidades, trabalho e outros.

Pois, tanto as relações sociais de produção, e reprodução, como a escola educam o trabalhador para divisão, e essa divisão gerada é que permite que o conhecimento científico e o saber prático sejam distribuídos desigualmente. Assim, também não nos permite entender o processo de construção das relações sociais e do mundo do trabalho.
Estes elementos emblemáticos necessitam ser analisados e incorporados ao espaço da sala de aula, visto ser premente políticas públicas e ações afirmativas como cotas nas universidades, nos serviços públicos, salário igual para trabalho igual, a real implementação da Lei 10.639 ou mesmo a re-discussão de um Estatuto da Igualdade Racial que leve em consideração não apenas os termos raça, racial, escravidão e discriminação que foram abolidos, mas que reveja recursos para implementação de todas as ações necessárias principalmente na educação.

VERA ROSANE RODRIGUES DE OLIVEIRA é doutaranda em Educação/UFRGS
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Fonte:http://turcoluis.blogspot.com/2010/11/o-combate-discriminacao-e-educacao.html

Escola do MST recebe melhor nota do Enem

QUARTA-FEIRA, 17 DE NOVEMBRO DE 2010
Por Altamiro Borges

Nos últimos dias, a mídia demotucana tem feito um grande alarde contra o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Devido a falhas lamentáveis em algumas provas, ela decidiu transformar o assunto na sua primeira bandeira de oposição ao futuro governo Dilma Rousseff. De quebra, ainda presta um serviço à poderosa indústria do vestibular e às faculdades privadas. O Grupo Folha, dono da gráfica que imprimiu as provas irregulares, é um dos que mais fustiga o Enem.

Com sua cobertura enviesada e manipuladora, a mídia omite fatos curiosos do Enem. Um deles, que ela nunca divulgaria, é que a Escola Semente da Conquista, localizada no assentamento 25 de Maio, em Santa Catarina, foi o destaque do Exame Nacional em 2009, conforme noticiado na página oficial do Enem. Ela ocupou a primeira posição no município, com nota de 505,69.

Semente da Conquista

Nesta escola estudam 112 filhos de assentados, de 14 a 21 anos. Ela é dirigida por militantes do MST e os professores foram indicados pelos próprios assentados do município de Abelardo Luz, cidade com o maior número de famílias assentadas no estado. São 1.418 famílias, morando em 23 assentamentos. A primeira colocação no Enem foi comemorada pelas famílias de sem-terra.

A mídia, porém, nada falou sobre esta vitória. Segundo o sítio do MST, “essa conquista, histórica para uma instituição de ensino do campo, ficou fora da atenção da mídia, como também é pouco reconhecida pelas autoridades políticas de nosso estado. A engrenagem ideológica sustentada pela mídia e pelas elites rejeita todas as formas de protagonismo popular, especialmente quando esses sujeitos demonstram, na prática, que é possível outro modelo de educação”.

“A Escola Semente da Conquista é sinal de luta contra o sistema que nada faz contra os índices de analfabetismo e êxodo rural. Vale destacar que vivemos numa sociedade em que as melhores bibliotecas, cinemas, teatros são para uma pequena elite... Mesmo com todas as dificuldades, a escola foi destaque entre as escolas do município. Este fato não é apenas mérito dos educandos, mas sim da proposta pedagógica do MST, que tem na sua essência a formação de novos homens e mulheres, sujeitos do seu processo histórico em construção e em constante aprendizado”.
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Fonte:http://altamiroborges.blogspot.com/2010/11/escola-do-mst-recebe-melhor-nota-do.html

A Irlanda faliu. Quem será o próximo?

17 de novembro de 2010
Por Luiz Carlos Azenha

Depois da Grécia, a Irlanda. Tudo indica que Dilma Rousseff assumirá o poder em meio ao aprofundamento da crise econômica na Europa e à guerra cambial entre Estados Unidos e China, que pode vir a enfraquecer as exportações do motor da economia europeia, a Alemanha.

Resumos importantes (clique nos links para ler íntegra em inglês):

Ghost estates and broken lives: the human cost of the Irish crash (do britânico Independent)

By Michael Savage in Dublin and Donald Mahoney in Manorhamilton

Wednesday, 17 November 2010

Elas estão vazias por toda a Irlanda: 300 mil casas desocupadas, uma reprimenda silenciosa naqueles que as construiram achando que o boom econômico do país nunca acabaria. Enquanto ministros das finanças europeus trabalhavam em vão para chegar a um acordo sobre como aliviar a miséria econômica da Irlanda na noite de ontem, os assim-chamados imóveis fantasmas eram uma triste lembrança de que a “crise da sobrevivência” sobre a qual os políticos alertavam está em andamento e já atingiu as pessoas comuns.

[...]

Como muitos outros, o sr. O’Hara [um empresário falido do ramo da construção] dirige sua raiva para os bancos, que já foram salvos e parecem destinados a forçar o governo a conseguir mais ajuda dos parceiros europeus da Irlanda. “Todos são responsáveis pelas suas próprias ações, mas o peso está sendo jogado nas pessoas que estão no fim da fila. Na Irlanda neste momento é melhor dever 50 milhões que 50 mil. As pessoas que mais pecaram são as que estão sofrendo menos… [...] Eu perdi a crença e a confiança em nosso sistema”.

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Ireland crisis could cause EU collapse, warns president (do britânico Guardian)

O presidente da União Europeia alertou que a EU poderá desabar a não ser que a crise da dívida enfrentada pela região seja resolvida.

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Com a Irlanda e Portugal ambos à beira de pedir resgate, [Herman] Van Rompuy alertou que há sério risco do contágio se espalhar pelo continente.

“Estamos em uma crise pela sobrevivência”, Van Rompuy disse em um discurso em Bruxelas. “Todos temos de trabalhar juntos para que a zona do euro sobreviva, porque se não sobreviver a União Europeia não sobreviverá”.

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The Real Euro Danger (do Wall Street Journal)

Os ministros das finanças da Europa estão reunidos em Bruxelas tentando convencer a Irlanda a aceitar o resgate de um fundo de estabilização criado depois da crise na Grécia na primavera passada. O discurso convencional, repetido em todo lugar na Europa esta semana, é de que é necessário “estabilizar os mercados” e evitar “contágio”.

Mas o principal problema da zona do euro não é “contágio”. É solvência. Salvar a Irlanda não torna mais provável que Portugal ou a Espanha ou mesmo a França sejam mais capazes de pagar suas dívidas no futuro.

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David McWilliams: ECB bailout is the only card we have left to play (do Independent irlandês, recomendo para quem quiser se aprofundar)

By David McWilliams

Wednesday November 17 2010

[...]

Só ajuda maciça do Banco Central Europeu vai acabar de vez com a perspectiva de uma corrida aos bancos na Irlanda. Somente uma grande transferência de dinheiro do banco central — o equivalente econômico de uma transfusão de sangue — pode estabilizar o paciente.

É altamente frustrante ver o governo fazendo política com algo tão fundamental quanto a poupança das pessoas.

[...]

Por que o Banco Central Europeu nos salvaria? Certamente, se fosse racional deveria se afastar da confusão financeira na Irlanda? Mas não pode. O Banco Central Europeu é parte do problema. Presidiu sobre os gigantescos empréstimos de bancos alemães e franceses a bancos irlandeses, portugueses, espanhóis e gregos.

[...]

Se olharmos mais profundamente [nos números] veremos que o Banco Central Europeu emprestou um total de 516 bilhões de euros a bancos comerciais de toda a zona do euro. O banco central da Irlanda emprestou 165 bilhões a bancos baseados aqui. (Nosso PIB para 2010 é estimado em 155 bilhões de euros). Assim, de todo o dinheiro emprestado a bancos na zona do euro, 31% foi para bancos baseados na Irlanda.

O que isso nos diz?

Que o sistema bancário da Irlanda está quebrado. Mas, mais importante, que a quantidade de dinheiro que está passando pelos livros de nosso banco central é completamente insustentável para um país de nosso tamanho.

PS do Viomundo: A relutância dos irlandeses em aceitar a ajuda deriva do fato de que haverá “condicionalidades”. Tudo indica que o país será amigavelmente forçado a aumentar os impostos sobre as corporações, que é o mais baixo da Europa, reduzindo assim a entrada de capital estrangeiro na Irlanda e aprofundando a recessão.
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Fonte:http://www.viomundo.com.br/opiniao-do-blog/a-irlanda-faliu-quem-sera-o-proximo.html

A perseguição a Protógenes é a absolvição de Dantas

17.11.2010


Protógenes prendeu Dantas duas vezes e Gilmar soltou Dantas duas vezes

O Conversa Afiada tem o prazer de republicar o artigo do Antero, Vermelho:

Luiz Carlos Antero: A incômoda biografia de Protógenes

Desde as duas prisões e condenação do banqueiro Daniel Valente Dantas, em julho de 2008, comemoradas em todo o País, uma surreal perseguição foi iniciada contra Protógenes Queiroz, o homem que logrou atingir uma forte simbologia das elites rentistas do País após extensas e profundas investigações.

Por Luiz Carlos Antero*

O momento culminante e mais recente dessa invertida e grotesca caçada foi a anunciada condenação em primeira instância (“por fraude processual e violação de sigilo funcional a três anos e quatro meses de prisão – pena substituída pela prestação de serviços comunitários”) do deputado eleito pelo PCdoB, justamente pelas alegadas circunstâncias em que logrou produzir as provas contra o banqueiro, duas vezes devidamente algemado.

Mas, agora, o fato mais curioso e revelador foi o encadeamento orquestrado de diversas ações simultâneas que buscam atenuar a vida do banqueiro e cristianizar Protógenes por “erros” cometidos nas investigações.

Nassif e a “coincidência”


O primeiro a atentar para o fato foi o jornalista Luiz Nassif, que, em seu blog, indicou a sequência de acontecimentos que poderiam ser “coincidência”: “Agora se tem, simultaneamente, a) o livro do Raimundo Pereira (NR: “O Escâ ndalo Daniel Dantas: duas investigações”, apresentado como uma crítica a Protógenes); b) a ofensiva midiática de jornalistas ligados a Dantas, procurando repercutir o máximo possível o livro; c) a suspensão do julgamento de Ricardo Sérgio pelo STF, em cima de operações envolvendo Daniel Dantas; d) a sentença de Ali Mazloum”.

Longe de alimentar uma “folha corrida” para Protógenes, os que o perseguem por ter algemado Dantas, conseguiram produzir mais uma contribuição para sua biografia efetivamente política, turbinada por suas bem sucedidas investigações da bilionária evasão fiscal e da fraudulenta progressão da dívida externa no governo FHC.

Biografia incubada

Quando o Vermelho publicou o artigo “Um Dantas por cem Valérios” no dia 12/05/2006, não se imaginava qu e essa biografia já estivesse incubada e em plena fermentação.

Para se converter numa evidência nacional, Protógenes penetrou cirurgicamente o fétido ambiente do capital em sua feição mais moderna, dissociada da sociedade e de suas instâncias produtivas, atingindo o cerne do protegido segredo tucano e das corrosivas elites brasileiras.

Com isso, cumpriu um prodigioso serviço ao povo brasileiro, que consistiu em tocar fundo nas sequelas ocasionadas pela era neoliberal. E, nesse propósito, simbolicamente algemou em duas ocasiões o sistema que confrontou nas ousadas investigações sobre as estripulias em andamento no sistema financeiro.

Até ali, contribuíra para fundar um grêmio estudantil, em pichações no tempo do regime militar (“Terrorismo é ditadura que mata e tortura”), defender eleições diretas, o poder civil, o ensino público de qualidade, um jornal de resistência; foi delegado a um Congresso da UNE, em 1980; op tou por cursar Direito, estagiou em defensoria pública, estabeleceu contato com os movimentos sociais, Contag, Via Campesina, conviveu com velhos comunistas; processou a construtora Queiroz Galvão por corrupção; largou uma rentável banca de advocacia para se tornar delegado da polícia federal (antes “uma guarda pretoriana do regime militar”); lutou para fechar contas CC5, encontrou o caminho do confronto com empreiteiras e banqueiros, com o capital financeiro, esbarrou no “sistema”, recusou propina milionária, passou a ser ameaçado de execução, sofreu atentados e não se rendeu.

A CIA com a Kroll no caminho

Protógenes deu de cara com figuras notórias — a exemplo de Fernando Henrique Cardoso, Jorge Bornhausen, Armínio Fraga, Reinhold Stephanes —, nas descobertas das fronteiras e limites de sua ação institucional contra o “sangramento” de divisas do país.

Na PF, prendeu diversos meliantes de col arinho branco, entre os quais o contrabandista Law Kim Chong, o ex-governador Maluf, o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta, e, mais recentemente, o empresário Naji Nahas e o banqueiro Daniel Dantas, dono do grupo Opportunity, durante a mais importante das operações contra corrupção já ocorrida no Brasil.

No percurso, descobriu na “Kroll” uma empresa americana de espionagem, uma estação privada da CIA no Brasil. E, nesse braço da espionagem, serviços ao grupo Opportunity, à BrasilTelecom, ao banqueiro que depois algemou. E, ainda, esteve no ambiente de uma empreitada para investigar a Kroll, a Operação Chacal.

“Mensalão”: penetras no banquete

Nesta Operação, quando ficou evidente que Daniel Dantas usava a Kroll (e, portanto, a CIA) para espionar adversários, surgiram todas as iniciativas para lacrar um HD apreendido do Opportunity, no STF (Supremo Tribunal Federal), com o respaldo da ministra Ellen Gracie. A decisão conteria por cerca de dois anos a investigação.

Foi quando surgiu o chamado “mensalão”, que permitiu aos tucanos e a aliados do então PFL, jogar sobre os ombros de outros protagonistas mais recentes, que também se vincularam ao banqueiro, responsabilidades sobre as quais tiveram historicamente total exclusividade.

O fato foi descrito nos moldes daquele banquete no qual os novos “penetras”, pilhados em confraria, foram incriminados e publicamente expostos e ridicularizados numa CPI que manteve incólumes Dantas e seus patrocinadores nas privatizações da era FHC.

Venda do país in natura

Protógenes penetrou, desse modo, na complexa capilaridade formada em torno do banqueiro ao longo de 20 anos, com o especial protagonismo de Fernando Henrique Cardoso. Debruçou-se sobre numerosas descobertas, a exemplo de uma empresa de exploração de mineração (de Dantas), a MG4, que reunia inà ºmeras concessões de exploração de solo urbano.

E declarou numa entrevista à revista Caros Amigos: “É necessário você ter uma força muito grande dentro do governo. Eles já estavam ofertando a empresa lá fora, no Oriente Médio. O intermediário era o Naji Nahas. Isso significa vender nosso país in natura”.

Quando a Operação Satiagraha já estava na pauta dos noticiários, o jornalista Paulo Henrique Amorim, em seu blog Conversa Afiada, anunciou que Dantas não estava interessado em fazendas, mas em seu subsolo.

Com base em revelações do MST, PHA afirmou: “Aos que não entendem o interesse de Daniel Dantas em fazendas do Pará, cabe explicar que o objetivo dele não é criar gado. Por trás da fachada agropecuária, Dantas e a Vale do Rio Doce estão em processo de reconcentração fundiária, com o objetivo de investir em mineração (…). O MST chama a atenção para o fato de o Sul e o Sudeste do Pará constituírem uma grande região mineradora. Nos últimos cinco anos, Daniel Dantas comprou 52 fazendas em oito municípios, num total de 800.000 hectares. Entre elas, encontram-se as fazendas Maria Bonita, Espírito Santo e Cedro, ocupadas pelos sem-terra, que são áreas públicas, compradas de forma ilegal. Há poucos dias, um conflito entre seguranças e milicianos armados a serviço de Dantas na fazenda Santa Bárbara foi testemunhado por um cinegrafista da Globo, que viajou em avião de Dantas”.

Dívida artificial e fraudulenta

Mas a pirataria no subsolo foi apenas um aperitivo revelado num panorama maior. “Tem a dívida externa, que é a coisa mais nojenta que já vi”, afirmou Protógenes. E aí chegou novamente ao ambiente consolidado no governo Fernando Henrique Cardoso, onde se sustentou a cumplicidade e comando fundamental para a consagração, no período pós-ditadura, de uma dívida artificial, inflada e fruto da especulação com títulos da dívida pública brasileira, vendidos a 15% (e menos) de seu valor de face, e à base das manipulações em dólar.

Daí resultou a sangria formada por uma dívida substancialmente arranjada e pela evasão de divisas, com a permissividade do Banco Central brasileiro. E, a exemplo do caso Paribas (Alberto participações), com a conversão de títulos da dívida na gestão Armínio Fraga — um episódio no qual FHC esteve envolvido pessoalmente.

“Nossa dívida externa é artificial e eu provei isso na investigação. Houve repulsa minha porque quando era estudante empunhei muita bandeira ‘Fora FMI’, ‘Nós não devemos isso’, ‘A dívida já está paga’. E foi muito jato d’água, muita cacetad a, muito gás lacrimogêneo: ‘bando de doido, tem que tomar porrada’. Você cresce achando que era um idiota, não é? Chega um momento que pensa: ‘a dívida foi criada no regime militar, mas a gente precisa pagar’”.

Evasão tresloucada de divisas

O delegado que comandou a operação Satiagraha, Protógenes Queiroz, revelou, na investigação sobre Dantas, indícios de desvios de cerca de US$ 16 bilhões do Brasil para paraísos fiscais no exterior. Em janeiro de 2009, foram bloqueados US$ 2 bilhões que haviam sido enviados ao exterior pelo grupo Opportunity “na maior paralisação da movimentação dos ativos suspeitos da história do Brasil”.

As investigações contra o grupo Opportunity passaram a existir em quatro países. Em ordem cronológica, os bloqueios se deram no Brasil, a partir de setembro, por decisão do juiz Fausto De Sanctis, num volume de quase meio bilhão de dólares; na Inglaterra (US$45 milh ões), Suíça e Estados Unidos, totalizando quase US$ 3 bilhões. Durante as investigações, evidenciou-se que o dinheiro desviado era dos cofres públicos e da corrupção, desde as privatizações.

Orquestração para o desmonte

Com revelações assim, sórdidas e de tal monta, o processo investigativo sofreu novas ameaças de estagnação. Sucessivas defecções retiraram suporte de Protógenes para contê-lo na investida contra Dantas — que, na segunda prisão, ameaçou “falar”. Ficou evidente a orquestração. E alguém lhe disse: “Protógenes, se o Daniel Dantas falar, eu prefiro que ele fique preso”.

Protógenes considerava que no STJ (Superior Tribunal de Justiça) “estava tranquilo”, mas após estruturar a segunda prisão, não pensava que o STF (Supremo Tribunal Federal) “iria contrariar toda a opinião pública, todas as regras jurídicas, todas as normas processuais”, soltando rapidamente o banquei ro contraventor por decisão inspirada pelo ministro Gilmar Mendes. E não imaginava encontrar diante de si “um poder sem precedentes”.

Concluiu: “Foram sucessivos atos que dão conta de que ele é uma pessoa muito poderosa e que esse poder viria com uma velocidade e uma força que se moveria contra quem quer que se opusesse a esse grupo, um grupo de interesses determinado, um segmento bem solidificado durante a redemocratização, que construiu um poder criminoso; um PC Farias que deu certo”.

Entretanto, a coragem registrou-se numa das inúmeras narrativas da proeza final – na matéria publicada pelo Terra Magazine: “O senhor está preso”, diz delegado a Dantas – que descreve a segunda prisão de Daniel Dantas diante de uma dezena de advogados e desembargadores aposentados.

Em cena, o livro sobre Dantas contra Protóge nes

Com tal biografia e tantas evidências que favorecem a defesa dos interesses do País e do povo brasileiro, quem arremeteria contra Protógenes sob o pretexto de que teria cometido erros na investigação?

Uma das respostas veio no próprio do sítio da Federação Nacional dos Policiais Federais (Funapef), onde um texto informou: “Um artigo do respeitado jornalista Raimundo Pereira na revista Piauí, intitulado ‘Protógenes e eu’, fustiga o conhecido delegado e candidato a deputado federal pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) no Estado de São Paulo. Denso, o texto pergunta: ‘Quem é Daniel Dantas, que interesses ele representa?’”

O sítio diz que “Raimundo Pereira não entra nos méritos dessas respostas, no artigo”, mas, sobre a publicação, destaca um trecho da sua Introdução: “Este livro é uma crítica ao trabalho do delegado Protógenes Queiroz na condução da famosa Operação Satiagraha, que levou à prisão Daniel Dantas, desde então, a mais famosa figura dos meios financeiros do país”.

Um outro comentário, assinado por Thiago Domenici, comenta: “Este livro tem uma conclusão política. Ela surge a partir de uma investigação jornalística feita para entender a razão dos erros gritantes de uma investigação policial”.

O sítio Conjur, afirma, entre outras pérolas, em artigo assinado por Mauricio Cardoso: “Para Raimundo Pereira, a transformação de Daniel Dantas no bode expiatório de todos os males do Brasil foi uma decisão política do presidente Lula. (…) O livro funciona mais ou menos como um Habeas Corpus da informação. Ele não prova a inocência de Daniel Dantas, mas tenta mostrar que o maior escândalo financeiro do país foi, na verdade, a maior campanha política, policial, judicial e midiática feita no país contra um cidadão”.

Mas nem aí houve consenso: uma diretora do Opportunity, Maria Amalia Coutrim, não concordou com a interpretação e se manifestou indignada com a resenha, afirmando que o autor não respeitou as conclusões de Raimundo e foi “contaminado” pelo pensamento de Protógenes.

Forte inspiração tucana

Na verdade, todos os pressupostos levantados apontam para o mesmo falso dilema típico das armações das campanhas tucanas — a exemplo desta que todo o Brasil presenciou nas eleições de 2010: busca-se converter a verdade em mentira e seu autor em réu, ou a mentira em verdade mediante artifícios que consagram o meliante em vítima ou heroi.

A condenação de Protógenes Queiroz deve ser assim qualificada e compreendida em sua real dimensão. Não somente para produzir efeitos de solidariedade, mas para que se compreenda que sua ação esteve à altura de um brasileiro que atua em defesa do País e honra o seu povo, mostrando coragem, ousadia, destemor naquele perfil que destaca “os melhores filhos do povo”.

E não encontra paralelo na chamada “oposição”, que não conhece limites: “Senti vontade de prendê-lo a terceira vez. Quase que o prendi. Tinha um fato para poder prendê-lo, mas iria criar uma crise. Já tinha manifestação em frente ao Supremo Tribunal Federal, membros dos três poderes uns acusando os outros, determinado grupo político querendo criar uma nova situação, um passo atrás”.

Protógenes, ao que tudo indica, optou por dar um passo adiante.

* Luiz Carlos Antero é jornalista, escritor, colunista e membro da Equipe de Pautas Especiais do Vermelho
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Fonte:http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/11/17/a-perseguicao-a-protogenes-e-a-absolvicao-de-dantas/

A necessária politização do debate

17/11/2010

Enviado por luisnassif
Por Osvaldo Ferreira


Como é salutar, delicioso, bom mesmo discutir sobre tudo. Divergir, retrucar, protestar e ser lido em nosso sagrado direito em não convergir necessariamente sobre o que pensamos. Esta é a verdadeira liberdade de expressão que algumas mídias nos proporcionam e outras nos negam.

A pauleira desencadeada pós eleições e absolutamente necessária, salutar, democrática (sim!!!) sobre e contra os monstros libertos da caixa de pandora vai continuar. E vai continuar, pois isso tem se demonstrado absolutamente necessário. Nada dessa historinha tola de depor as armas após as eleições. Não se trata disso. Como dizia sociólogo e pensador do Brasil de imenso quilate, trata-se de pensar e contestar o Brasil cordial. Trata-se de dizer não à cordialidade farsesca que encobria preconceitos, à tolerância frente a intromissão absurda de clérigos em assuntos republicanos e por isso civis, trata-se de um sonoro não aos monopólios midiáticos que se tornaram agora mais que evidentes a reproduzir vilanias, xenofobias e preconceitos rasos, irracionais e que merecem repúdio de toda a cidadania.

Tenho sinceramente a impressão que a abertura da caixa de pandora nos tornará melhores, pois qualquer país que se preze precisa algum dia ser passado a limpo. Como marchamos inexoravelmente para ser um país que se preza, que tal aproveitar o atual momento para lavar a roupa suja acumulada por séculos?

Neste sentido é por demais relevante este momento. E assim sendo, dado o espaço democrático que dispomos nos blogs (e este é um espaço social para isso), qual a razão do incômodo? Sou paulista, paulistano, sempre vivi em São Paulo, sempre trabalhei aqui e progredi aqui e sei por experiências pessoais, que havia sim um terreno intocável, subsolo acobertado pela cordialidade que agora está esgarçado e exposto ao Sol. E que mal há nisso? Não me sinto nem um tiquinho só que seja violentado, agredido, vilipendiado, menosprezado como paulista e paulistano que sou pela focalização de eventos costumeiros por aqui, que agora recebem atenção midiática, blogosférica e partidarizada ou politizada (prefiro). Transparência, que significa discussões abertas, sem freios no sentido da busca das causas dos fatos é algo salutar...Ou será que temos medo dos nossos monstros interiores construidos socialmente e preferimos usar o argumento escapista de que agora é hora de desarmar os palanques?

Problematizar a questão dos jovens agressores que agiram como um bando fascista e criminoso a açoitar valores como a diversidade, a tolerância, a civilidade, a democracia, o reconhecimento do outro como igual em direitos, desconhecendo a solidariedade, a coexistência e a dignidade na diferença é algo fundamental.

Não devemos nos esquivar de fazer isso jamais e isso não significa partidarizar a questão. Partidarizar é absolutamente diferente de politizar. Devemos politizar tudo, pois a política é uma das mais nobres atividades humanas. Nela é que podemos encontrar caminhos sem violência, espaço para a livre manifestação das idéias, a despeito delas doerem na perspectiva pessoal ( que deve se subjugar à pública), pois só assim construiremos uma democracia real e não ficcional como alguns desejam nos impor.

Continuemos que assim está muito bom e só assim construiremos o país que realmente desejamos: livre, democrático, plural, com negros, gays, heterossexuais, brancos, mestiços, bissexuais, índios, mulheres, idosos, crianças, com seres humanos vivendo fora de padrões impostos artificialmente( e com caráter de naturalidade), plenos em direitos e independentemente do Estado, Cidade ou País em que tenham nascido sendo considerados iguais. É assim que se constrói um país pensando no futuro.
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Fonte:http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-necessaria-politizacao-do-debate#more

O PT tem muito pouco paralelo com o PRI mexicano

17.11.2010

H. C. Paes*

Para começar, o PRI foi fundado em 1929 e, já em 1934 se assenhoreara do poder, como se vê pela composição do Senado da trigésima-sexta legislatura:http://es.wikipedia.org/wiki/XXXVI_Legislatura_del_Congreso_de_la_Uni%C3...

O PT existe há trinta anos e não é sequer o maior partido do Senado, além de jamais ter flertado com o autoritarismo de Calle, fundador do PRI. Priização do PT, com o PMDB ainda forte no Senado e o bloco fisiológico (PRB-PSC-PP) mais forte do que nunca na Câmara? Só rindo, desculpe-me.

Além do mais, esqueces-te de que, no México, o voto é misto de distrital com proporcional, com algumas sobras indo para cadeiras partidárias. Isso favorece partidos grandes e esmaga os pequenos, daí o fato de o México não ter a geléia geral partidária que temos aqui (só os três partidões e um punhado de nanicos).

Outra coisa: em termos de mobilidade partidária, o PT tem uma peculiaridade que pouca gente menciona: devido à sua disciplina interna e modelo de correntes intrapartidárias, não é tão fácil assim se mudar de outro partido para ele. Tanto que, após a vitória de Lula em 2002, quando houve aquela debandada de pefelês e outros menos cotados que não agüentavam ficar longe do poder, o PT quase não absorveu parlamentares: quem queria se aproximar do governo foi para o PMDB ou para os demais fisiológicos, que nunca foram muito exigentes quanto a quem recebem.

Aliás, o PT é uma das legendas que menos muda em sua composição numérica parlamentar no período entre eleições, ainda mais agora com a ridícula interpretação constitucional da fidelidade partidária. Para crescer como o PRI, o PT teria de absorver políticos egressos de outras legendas, o que quase nunca acontece. E quando acontece, geralmente é com gente oriunda de partidos mais à esquerda, como o Agnelo, que saiu do PC do B.

Um caso raro de migração da direita é o Flávio Arns, que não durou mais do que uns dois anos e voltou a ser tucano. É muito mais comum pessoas saírem do PT para outros partidos, como as dissidências de PSoL, PCO e PSTU, e o caso do Francisco Weffort, para ficar nos mais famosos.

De mais a mais, a fraude eleitoral foi um dos grandes trunfos do PRI (Cuahetemoc Cárdenas que o diga, coitado), coisa que é muito menos provável no Brasil de ocorrer com a escala daquele país, até porque temos um Judiciário Eleitoral separado e os tempos são outros.

O que pode acontecer é um processo de longo esgotamento da coalizão, como a Concertación chilena, e sobre isso o Gunter já falou aqui.

Aliás, o presidencialismo de coalizão do Brasil é único no mundo, não é muito simples aplicar qualquer modelo histórico de política partidária para tentar prever como as legendas evoluirão. As mudanças são lentas demais: o PT ainda não tem nem quinze senadores, e não há o que faça o centro fisiológico encolher. Priização é leitura rasteira, perdoa-me.

Nota do Blog:

Resposta à acusação de um internauta de que PT é igual ao PRI mexicano. Postado no Blog de Luís Nassif.
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Fonte:http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-culpa-da-executiva-do-psdb

A culpa da Executiva do PSDB

15/11/2010
Enviado por luisnassif
Do Valor


Por Antonio Carlos Almeida

A derrota precisa ter consequências. É inacreditável a discussão corrente sobre quem é responsável pela terceira derrota consecutiva do PSDB para presidente e a segunda derrota de José Serra. Uns dizem que o responsável é Aécio Neves, outros dizem que não. Só não vê quem não quer: os responsáveis pela derrota são os dirigentes nacionais do PSDB, a executiva nacional do partido. Nada é mais simples do que essa constatação. Foi a direção nacional do partido que decidiu escolher Serra candidato a presidente, foi a mesma direção que decidiu dar carta branca para Serra e seu exército de Brancaleone fazer a campanha como melhor lhe conviessem. O tempo de TV é do partido, mas Serra o utilizou da forma que quis. O responsável por isso foi o partido.

O desempenho eleitoral de Serra foi pífio: ele teve somente 44% dos votos válidos, isto é, apenas 2,4% a mais de votos do que Geraldo Alckmin teve no primeiro turno de 2006 (41,6%). Alckmin disputou a eleição contra Lula, que disputava uma reeleição. No linguajar político tradicional, Serra perdeu para um poste, o poste que Lula resolveu apoiar. Em 2009 foram inúmeras as vezes que Aécio afirmou que estava à disposição do partido para ser candidato. O partido se dobrou a Serra e deixou o ex-governador de São Paulo anunciar a sua candidatura quando considerasse mais adequado.

O desempenho do PSDB em eleição nacional não foi fracassado apenas para presidente. Desde 2002, o partido só perde deputados federais. Em 1998, o PSDB elegeu 99 deputados; em 2002, esse número caiu para 71, continuou caindo nos anos seguintes, foi para 66 deputados federais em 2006 e somente 53 em 2010. Suponho que não seja possível colocar a responsabilidade de mais essa derrota nas costas de Aécio. Porém, o resultado negativo também se aplica ao Senado. A bancada do PSDB em 1998 era de 16 senadores, foi para 14 em 2002, aumentou um pouco em 2006 indo para 15 senadores e agora o PSDB sofreu um revés histórico: tem apenas 10 senadores. Aliás, destes 10, 2 foram eleitos por Minas, ao passo que em São Paulo foi eleito só um senador. Suponho, mais uma vez, que Aécio não possa ser responsabilizado por isso.

O meu sonho, que, lamento de antemão, não será realizado, é ver publicada na próxima semana uma breve carta dos dirigentes nacionais do PSDB assim redigida: "Nós que defendemos a candidatura de Serra em 2010, nós que aprovamos a estratégia eleitoral do PSDB na última eleição estamos vindo a público para reconhecer que fomos derrotados. O desempenho de nosso partido ficou muito aquém do esperado. Diante desse fato, apresentamos aqui a renúncia de nossos cargos de direção partidária. Com isso esperamos que o partido se renove. Desejamos também que outros políticos possam ocupar os nossos lugares e levar o partido a voltar a crescer nas eleições de 2014. Reconhecemos que foi um erro não realizar prévias, assim como também foi um erro dar a legenda novamente para a candidatura Serra. Mais uma vez o partido perdeu a eleição presidencial e viu suas bancadas no Senado e na Câmara ser reduzidas. Desejamos aos futuros dirigentes de nosso partido boa sorte".

Não adianta tapar o sol com a peneira. É assim que acontece em todo lugar: a derrota eleitoral tem consequências. É assim na Alemanha, na França, nos Estados Unidos e em muitos outros países. Existem responsáveis pela derrota. Se aqueles na direção nacional do PSDB que apoiaram a escolha de Serra não fizerem isso, eles deveriam aproveitar o ensejo e mudar o nome do órgão máximo do comando do partido de executiva nacional para oligarquia nacional. Somente a oligarquização de um partido pode explicar a falta de renovação diante de três derrotas nacionais consecutivas.

É preciso mudar de rumo. Para que isso seja feito, é preciso mudar os dirigentes, em particular os dirigentes serristas. Aliás, a derrota e o fracasso no Brasil têm consequências sempre que se trata da iniciativa privada, sempre que se trata das empresas. É justamente por isso que elas sobrevivem. Se o PSDB não se renovar profundamente agora, corre o sério risco de continuar perdendo terreno eleitoral em 2014.

Fico estarrecido quando vejo logo após a eleição vários deputados serristas de carteirinha falando na mídia com enorme desenvoltura, dizendo o que o partido deveria fazer ou deixar de fazer no futuro, como se eles não tivessem nada a ver com a terceira derrota consecutiva. Eles deveriam ter a mesma dignidade que teve Barack Obama no dia seguinte às eleições legislativas dos EUA e irem para a mídia dizer que fracassaram, se equivocaram, tomaram a decisão errada ao escolher Serra e dar a ele carta branca para fazer a campanha eleitoral que fez. Obama é presidente em meio de mandato, eles não são. Assim, deveriam abrir mão de seus cargos de dirigentes partidários e dar a vez para os mais jovens.

Aqueles que quiserem objetar os argumentos acima com o fato de Lula ter disputado e perdido três vezes a eleição presidencial eu contra-argumento afirmando que o PT não tinha outra opção naquelas eleições que não fosse Lula. Agora em 2010 o PSDB pode escolher entre Serra e Aécio. Além disso, nas três eleições em que Lula foi derrotado o PT cresceu na Câmara e no Senado.

Há ainda a objeção de que o PSDB tem agora mais governadores do que tinha há quatro anos. Mais uma vez se trata de uma objeção falaciosa: a direção nacional do partido não tem influência sobre as disputas regionais. Serra e seus dirigentes preferiam que Álvaro Dias tivesse sido o candidato no Paraná, Beto Richa se impôs e venceu (cabe aqui a observação que mesmo depois de o PSDB do Paraná não ter dado a candidatura a governo para Álvaro Dias, mesmo assim Serra o quis como seu candidato a vice). Geraldo Alckmin nunca foi do mesmo grupo político de Serra. Serra preferia ganhar com Kassab, como fez na eleição para prefeito de 2008. Alckmin se impôs e venceu. Em Minas nem se fala: a direção nacional do partido não teve nenhuma influência na estratégia de sucesso de Aécio, que foi coroada com a eleição de Antônio Anastasia com 28 pontos percentuais de vantagem sobre Hélio Costa, sem falar dos dois senadores.

Mudando de partido, duvido que alguém considere que o bom desempenho eleitoral do PSB ao eleger um número recorde de governadores possa ser atribuído à direção nacional do partido. Foi a lógica regional que regeu o sucesso dos governadores do PSB. A lógica partidária no Brasil respeita a lógica da federação, com exceção do PT. A estratégia nacional do PT foi abrir mão de candidaturas aos governos estaduais em troca de eleger senadores. Ao que tudo indica, funcionou. Os senadores eleitos agora serão candidatos ao governo de seu Estado daqui a quatro anos. Não há o que corrigir quando se vence, mas é preciso mudar a rota quando se perde.

Façamos uma caricatura e proponhamos que a direção nacional do PSDB seja a mesma que é hoje em 2014. Além disso, sugiro que Serra seja novamente candidato com o mesmo marqueteiro. Pode ser que assim o PSDB venha a vencer Dilma, Lula e um PT mais forte. Alguns dirão "nem tanto ao mar nem tanto à terra". Ora, mas não vem sendo justamente essa, do nem tanto ao mar nem tanto à terra, a estratégia do PSDB nos últimos anos? Não me consta que ela tenha funcionado. A direção do PSDB não tem se renovado ou tem se renovado de maneira insuficiente. Passadas duas eleições, por exemplo, esta mesma direção que não se renova de forma adequada não se preparou para lidar com o tema das privatizações.

Pode ser que para a executiva nacional do PSDB tenha sido uma surpresa o fato de o PT ter utilizado o tema das privatizações na eleição de 2010. A propósito, vale aqui um aviso baseado no mais tosco senso comum: em 2014 o PT utilizará novamente o tema das privatizações na eleição presidencial. O PT fez isso uma vez no segundo turno de 2002, fez isso a segunda vez no segundo turno de 2006 e agora repetiu a fórmula de sucesso. Onde estavam os dirigentes nacionais do partido que não o prepararam para esse embate? Eles vão dizer que estavam dirigindo o partido. Hei de concordar: dirigindo o partido rumo a mais uma derrota eleitoral.

Lutar é preciso, diriam os militantes de esquerda. Navegar é preciso, diria Ulisses Guimarães. A necessidade depende das circunstâncias. Neste momento, renovar é preciso. É preciso coragem com C maiúsculo ao PSDB. A direção partidária não é patrimônio, em que pese nossa tradição patrimonialista, deste ou daquele dirigente. Aliás, quanto a isso, valeria a pena ver que dirigentes nunca perderam assento nos cargos de direção nos últimos oito anos de derrotas consecutivas. O PSDB precisa mostrar para a sociedade, precisa mostrar para aqueles que se preocupam com o seu destino, que ele não é dominado por uma oligarquia partidária. Precisa mostrar de fato e não ficar simplesmente falando que não é.

Vão se os nomes, ficam as instituições. Vão se os derrotados, ficam os vencedores. Em algum momento o PSDB derrotará o PT. Para tornar isso mais tangível, para antecipar no tempo esse desfecho, seria fundamental que o PSDB fizesse a mais profunda possível renovação em sua direção partidária, uma renovação que eliminasse todos os serristas e desse a direção do partido a políticos jovens alinhados com Aécio Neves e Beto Richa. Não custa repetir, Aécio não é o responsável pela derrota para presidente, para deputados e senadores. O grande responsável pela derrota é a direção nacional do PSDB, que deu a legenda a Serra e não utilizou uma estratégia adequada para enfrentar Lula, Dilma e o PT.

Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de "A Cabeça do Brasileiro" e "O Dedo na Ferida: menos Imposto, mais Consumo".
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Fonte:http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-culpa-da-executiva-do-psdb

"O comportamento do jovem urbano e suas relações sociais"

Médico, Mestre em Saúde Coletiva e Doutor em Filosofia, Joel Birman conjuga diversas áreas do saber para desenvolver seus estudos em Psicanálise. Professor e pesquisador do Programa de Mestrado e Doutorado em Teoria Psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e professor adjunto do Mestrado e Doutorado em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Birman tem se dedicado a estudar o comportamento do jovem urbano e suas relações sociais. Em entrevista exclusiva ao Acesso, ele explica como as conjunturas econômica, social e cultural tendem a estimular e a desenvolver jovens violentos e excluídos.

Acesso – Em seus estudos e palestras, o senhor costuma dissociar juventude e adolescência. Eles não seriam sinônimos?

Joel Birman – Muitas pessoas se espantam com isso. Mas tendemos a acreditar que existe uma justaposição entre ser jovem e ser adolescente. Tendemos a tratar de um e do outro como se fossem sinônimos, parte de um mesmo conceito. No entanto, essa articulação entre juventude e condição adolescente é uma construção histórica, desenvolvida no século 19, que perdurou até os anos 1970, em torno de uma cultura que podemos denominar de cultura das idades da vida. Michel Foucault [filósofo francês do século 20 ] diria que essa concepção trata-se de uma construção biopolítica, na medida em que se baseia em um processo linear, biológico, dividido em quatro etapas – infância, adolescência, idade adulta e velhice. A questão central aqui seria a reprodução – a ausência do potencial reprodutivo na infância; sua emergência na adolescência; plenitude na idade adulta; e desaparecimento na velhice. Esse modelo foi, evidentemente, construído em torno de uma ideologia muito poderosa no século 19: o progresso.

Acesso – E o que fez esse modelo ruir no século passado?

J.B. – Foram feitas várias críticas ao modelo. E pelos menos três delas nos importam: a psicanalítica, a histórica e a genealógica. A primeira surge com a psicanálise, quando Freud mostra que é preciso desarticular sexualidade e reprodução. A segunda é desenvolvida pelo historiador francês Philippe Ariès, que afirma que os conceitos de criança e de adolescente como os conhecemos são produções do século 19, advindas da família nuclear burguesa. Depois, Foucault diria que o modelo das idades da vida seria produzido a partir de uma certa concepção biológica.

Acesso – Na prática, o que mudou nos conceitos de adolescência e juventude?

J.B. – Segundo o modelo anterior, a adolescência seria o período de experimentação, um ensaio para o ser. Um símbolo forte desse projeto é oWerther, de Goethe, que mostra o lado trágico da experimentação, levando o personagem às últimas consequências, o suicídio. Com o fim do modelo das idades da vida, na década de 70, a cultura da experimentação ultrapassa o plano da adolescência, se estendendo a outras etapas. O que vemos, hoje, é um alongamento da adolescência, que começa bem mais cedo do que outrora e que se prolonga, também, por bastante tempo no campo que se denominava antigamente de idade adulta

Acesso – A associação entre violência e juventude está muito presente em estudos conduzidos pelo senhor na rede Juventude, Subjetivação e Violência/EPOS do Instituto de Medicina Social da UERJ. Como essas duas questões se conectam na atualidade?

J.B. – Com o trabalho no grupo de pesquisa EPOS – Genealogias, subjetivações e violências, no Instituto de Medicina Social da UERJ, percebemos que a questão da violência na juventude brasileira estava presente em diferentes classes sociais. Historicamente ligada à juventude de baixa renda no Brasil, a violência passou a se manifestar no seio da classe média, há cerca de 15 anos, com casos como o dos três jovens que incendiaram um índio em praça pública.

Acesso – Este foi um dos primeiros casos de violência envolvendo jovens de classe média…

J.B. – Sim. E eram jovens com um alto padrão econômico, educados… Há também os exemplos dos jovens cariocas que atacavam mulheres, alegando que eram prostitutas; e dos constantes ataques a homossexuais. Tem ainda um caso emblemático, o da Suzane von Richthofen, que matou os pais. Vivemos um momento bastante ostensivo, com os jovens se envolvendo cada vez mais em situações de acidentes de carros e de brigas em bares. Há, ainda, o surgimento de uma cultura corporal, uma cultura de academia, voltada à exibição da força; uma espécie de simulacro do poder pela força.

Acesso – O afunilamento do mercado de trabalho, com oportunidades ínfimas para os jovens, agrava a situação?

J.B. – Na América Latina, o jovem entra cada vez mais tarde no mercado de trabalho. Assim, na medida em que não está no mercado, não ganha reconhecimento social, se sente afastado da sociedade e passa a reproduzir o comportamento de jovens das classes mais baixas, a cultuar a força como recompensa.

Acesso – Esse quadro é visto, também, no plano internacional?

J.B. – São os mesmos sintomas de experiências violentas. Há um mal-estar social generalizado, com adultos que não encontram seu lugar na sociedade e com a disseminação de problemas como o buling e a gravidez precoce. Nas classes mais baixas, as meninas engravidam para ganhar o status de mães, teoricamente, pessoas com maior responsabilidade e inserção social. Nos Estados Unidos, hoje, 1 de cada 3 jovens tem problemas criminais. Há dez anos, essa proporção era de 1 a cada 4 jovens.

Acesso – Pode-se dizer que não há lugar para o jovem na sociedade atual?

J.B. – Sim. Do ponto de vista simbólico, eles estão fora da sociedade. A relação social é muito frágil e, por isso, a violência se manifesta.

Acesso – E na relação de apropriação do espaço urbano, a violência também funcionaria como uma forma do jovem sentir-se integrado?

J.B. – Não necessariamente. Existe também a formação de grupos, a tribalização. Essa seria uma outra forma de reconhecimento, que passa por uma cultura mais criativa e organizada.

Acesso – Em sua opinião, seria possível promover a inclusão social e diminuir os índices de violência entre os jovens com um processo de democratização cultural?

J.B. – Sim, mas somente se as políticas públicas voltadas aos jovens de todas as classes sociais levassem em conta os processos de democratização cultural, social e econômica. Para ganhar o reconhecimento social, o jovem precisa ter condições de sair da casa de seus pais em busca de uma vida própria.

Luíza Costa / blog Acesso

Fonte:http://www.cpflcultura.com.br/site/2009/12/01/integra-juventude-hoje-joel-birman/

Piauí teve o maior crescimento econômico do país em 2008

17/11/2010
Por: Vitor Abdala, da Agência Brasil

Rio de Janeiro - O Piauí é o estado que teve o maior crescimento econômico em 2008. Segundo dados divulgados nesta quarta-feira (17) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto (PIB) do estado nordestino teve crescimento de 8,8% de 2007 para 2008. A expansão se deve principalmente a resultados positivos na agricultura, com destaque para a cultura de soja.

Apesar disso, o Piauí continua sendo a quinta menor economia do país e tendo o menor o PIB per capita (dividido pela população) do país: R$ 5.372,56.

Além do Piauí, os estados com maior crescimento econômico foram o Ceará (8,5%), Goiás (8,0%), Mato Grosso (7,9%), Espírito Santo (7,8%) e Roraima (7,6%). Já os estados com menor aumento do PIB foram Sergipe (2,6%), o Rio Grande do Sul (2,7%), Amapá (2,9%), Santa Catarina (3,0%) e Rondônia (3,2%).

As dez maiores economias do Brasil continuam sendo os estados de São Paulo, com 33,1% de participação no total do PIB, do Rio de Janeiro (11,3%), Minas Gerais (9,3%), do Rio Grande do Sul (6,6%), Paraná (5,9%), de Santa Catarina (4,1%), da Bahia (4,0%), do Distrito Federal (3,9%), de Goiás (2,5%) e Pernambuco (2,3%).

Na lista das dez maiores economias, a única novidade foi a troca de posições entre a Bahia e Santa Catarina. O estado do Sul, que era a sétima economia brasileira em 2007, passou a ser sexta no ano seguinte. O estado nordestino caiu uma posição.
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Fonte:http://www.redebrasilatual.com.br/temas/economia/piaui-teve-o-maior-crescimento-economico-do-pais-em-2008

Sarney descarta formação de bloco no Senado

17/11/2010,
Por: Marcos Chagas, da Agência Brasil
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Brasília - O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), descartou neste momento qualquer articulação do partido, no Senado, para formar um "blocão" com partidos menores e consolidar a maioria na Casa. Nesta terça-feira (16), a bancada peemedebista na Câmara anunciou a criação de um bloco com PMDB, PP, PR, PSC e PTB para a próxima legislatura. O grupo reuniria 202 deputados. A assessoria do PP, entretanto, afirma que não houve qualquer conversa do PMDB com o partido nesse sentido.

"Acho que aqui não temos em vista, pelo menos até agora, ninguém tratar desse assunto de fazer bloco nenhum", disse o presidente do Senado.

Sarney também comentou notícias veiculadas na imprensa de que a presidenta eleita, Dilma Rousseff tenha pedido ao vice-presidente eleito e presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), que atue apenas como vice e não assuma o papel de interlocutor do PMDB. Segundo ele, Temer "está imbuído" de agir como participante do governo e não como presidente do partido.

José Sarney ressaltou, entretanto, que por acumular os dois cargos "algumas vezes eles interferem um no outro" ao mesmo tempo em que garante que não é desejo de Michel Temer ser um interlocutor dos interesses do partido na formação do próximo governo. "Não acredito que a ministra Dilma tenha dado qualquer declaração nesse sentido", afirmou o peemedebista.

O presidente do Senado disse também que não acompanhou as articulações da bancada de seu partido na Câmara e desconhece as motivações que levaram os deputados a formar o suposto bloco.

No entanto, o vice-presidente do PMDB, Valdir Raupp (RO), afirmou que as conversas no Senado para formar um bloco com os partidos pequenos para a próxima legislatura estão até “mais adiantadas que na Câmara”. Esse bloco de senadores reuniria, na Casa, o PMDB, PP, PSC e PMN, o que somaria 28 parlamentares.

No caso do PP, Raupp disse que é natural manter o bloco com o senador Francisco Dornelles (RJ), único representante do partido nesta legislatura. A partir de fevereiro de 2011, o PP terá cinco senadores.

"Um senador só não participa das comissões se não tiver integrado em um bloco partidário", lembrou o vice-presidente do PMDB. Ele considera natural essas operações políticas para permitir mais espaço nas comissões dos partidos nanicos. Segundo ele, todas as conversas estão sob a condução do líder do partido na Casa, Renan Calheiros (AL).

Sobre a atuação de Michel Temer no governo como intermediário do partido na formação do governo, Raupp ressaltou que "ele foi colocado como interlocutor do PMDB a convite de Dilma para isso". Valdir Raupp disse que até a posse da presidenta e de sua equipe de governo, em 1º de janeiro, "acontecerão muitas intrigas e os partidos da base não podem cair nessas intrigas".
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Fonte:http://www.redebrasilatual.com.br/temas/politica/sarney-descarta-formacao-de-bloco-no-senado