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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Veja vs. IstoÉ: Erenice, Paulo Preto, duas caras e o aborto

26.10.10

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Fonte:http://www.viomundo.com.br/politica/veja-vs-istoe-erenice-paulo-preto-duas-caras-e-o-aborto.html

CARTA CAPITAL: Por que apoiamos Dilma?

02.07.10

Resposta simples: porque escolhemos a candidatura melhor

Guerrilheira, há quem diga, para definir Dilma Rousseff. Negativamente, está claro. A
verdade factual é outra, talvez a jovem Dilma tenha pensado em pegar em armas, mas nunca chegou a tanto. A questão também é outra: CartaCapital respeita, louva e admira quem se opôs à ditadura e, portanto, enfrentou riscos vertiginosos, desde a censura e a prisão sem mandado, quando não o sequestro por janízaros à paisana, até a tortura e a morte.

O cidadão e a cidadã que se precipitam naquela definição da candidata de Lula ou não perdem a oportunidade de exibir sua ignorância da história do País, ou têm saudades da ditadura. Quem sabe estivessem na Marcha da Família, com Deus e pela Liberdade há 46 anos, ou apreciem organizar manifestação similar nos dias de hoje.

De todo modo, não é apenas por causa deste destemido passado de Dilma Rousseff que CartaCapital declara aqui e agora apoio à sua candidatura. Vale acentuar que neste mesmo espaço previmos a escolha do presidente da República ainda antes da sua reeleição, quando José Dirceu saiu da chefia da Casa Civil e a então ministra de Minas e Energia o substituiu.

E aqui, em ocasiões diversas, esclareceuse o porquê da previsão: a competência, a seriedade, a personalidade e a lealdade a Lula daquela que viria a ser candidata. Essas inegáveis qualidades foram ainda mais evidentes na Casa Civil, onde os alcances do titular naturalmente se expandem.

E pesam sobre a decisão de CartaCapital. Em Dilma Rousseff enxergamos sem a necessidade de binóculo a continuidade de um governo vitorioso e do governante mais popular da história do Brasil. Com largos méritos, que em parte transcendem a nítida e decisiva identificação entre o presidente e seu povo. Ninguém como Lula soube valerse das potencialidades gigantescas do País e vulgarizá-las com a retórica mais adequada, sem esquecer um suave toque de senso de humor sempre que as circunstâncias o permitissem.

Sem ter ofendido e perseguido os privilegiados, a despeito dos vaticínios de alguns entre eles, e da mídia praticamente em peso, quanto às consequências de um governo que profetizaram milenarista, Lula deixa a Presidência com o País a atingir índices de crescimento quase chineses e a diminuição do abismo que separa minoria de maioria. Dono de uma política exterior de todo independente e de um prestígio internacional sem precedentes. Neste final de mandato, vinga o talento de um estrategista político finíssimo. E a eleição caminha para o plebiscito que a oposição se achava em condições de evitar.

Escolha certa, precisa, calculada, a de Lula ao ungir Dilma e ao propor o confronto com o governo tucano que o precedeu e do qual José Serra se torna, queira ou não, o herdeiro. Carregar o PSDB é arrastar uma bola de ferro amarrada ao tornozelo, coisa de presidiário. Aí estão os tucanos, novos intérpretes do pensamento udenista. Seria ofender a inteligência e as evidências sustentar que o ex-governador paulista partilha daquelas ideias. Não se livra, porém, da condição de tucano e como tal teria de atuar. Enredado na trama espessa da herança, e da imposição do plebiscito, vive um momento de confusão, instável entre formas díspares e até conflitantes ao conduzir a campanha, de sorte a cometer erros grosseiros e a comprometer sua fama de “preparado”, como insiste em
afirmar seu candidato a vice, Índio da Costa. E não é que sonhavam com Aécio...

Reconhecemos em Dilma Rousseff a candidatura mais qualificada e entendemos como injunção deste momento, em que oficialmente o confronto se abre, a clara definição da nossa preferência. Nada inventamos: é da praxe da mídia mais desenvolvida do mundo tomar partido na ocasião certa, sem implicar postura ideológica ou partidária. Nunca deixamos, dentro da nossa visão, de apontar as falhas do governo Lula. Na política ambiental. Na política econômica, no que diz respeito, entre outros aspectos, aos juros manobrados pelo Banco Central. Na política social, que poderia ter sido bem mais ousada.

E fomos muito críticos quando se fez passivamente a vontade do ministro Nelson Jobim e do então presidente do STF Gilmar Mendes, ao exonerar o diretor da Abin, Paulo Lacerda, demitido por ter ousado apoiar a Operação Satiagraha, ao que tudo indica já enterrada, a esta altura, a favor do banqueiro Daniel Dantas. E quando o mesmo Jobim se arvorou a portavoz dos derradeiros saudosistas da ditadura e ganhou o beneplácito para confirmar a validade de uma Lei da Anistia que desrespeita os Direitos Humanos.

E quando o então ministro da Justiça Tarso Genro aceitou a peroração de um grupelho de fanáticos do Apocalipse carentes de conhecimento histórico e deu início a um affair internacional desnecessário e amalucado, como o caso Battisti. Hoje apoiamos a candidatura de Dilma Rousseff com a mesma disposição com que o fizemos em 2002 e em 2006 a favor de Lula. Apesar das críticas ao governo que não hesitamos em formular desde então, não nos arrependemos por essas escolhas. Temos certeza de que não nos arrependeremos agora.
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Fonte:http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=8&i=7214

Comentário de um internauta à materia acima no mesmo site:

Valentin:

Parabéns Mino pela sinceridade e honestidade na atitute.

Seria interessante que outros veiculos, como Veja, Folha, Globo, tirassem sua mascara de IMPARCIALIDADE e assumissem que apoiam Serra. Infelizmente estão caindo em descrédito pelo jogo sórdido que fazem indisfarçadamente.Já fui assinante de Veja, Folha, Estadão, mas hoje estes veiculos não passam de um panfleto da oposição ao governo Lula.

Vida longa à Carta Capital!

Argumentos pró-Dilma, contra Serra

21 de outubro de 2010
Há um argumento constante que paira sobre e sob a argumentação demo-tucana: é o de que Serra estaria “melhor preparado” para exercer a presidência. Sem dúvida, ele é mais preparado para privatizar tudo o que encontrar pela frente e para, como lembrou Chico Buarque, falar grosso com a Bolívia e fino com os EUA.

Flávio Aguiar

Além das campanhas de medo e terror disseminadas pelo lado mais obscuro da campanha pró-Serra, há um argumento constante que paira sobre e sob a argumentação demo-tucana: é o de que Serra estaria “melhor preparado” para exercer a presidência. Há até quem diga que ele é um “mau candidato” (concordo com esse lado da argumentação), mas que seria um “bom presidente”.

Mas o “melhor preparado” exige uma complementação: melhor preparado para fazer o quê?

Ora, é fácil contextualizar que, sem dúvida, Serra é o melhor preparado para:

1) Privatizar tudo o que encontrar pela frente. Ele foi um dos capitães das privatizações no governo FHC. Os governos do PSDB privatizaram o que puderam em SP; e um dos últimos atos de Serra no governo do estado foi a tentativa de privatizar a Nossa Caixa – felizmente barrada pela ação do governo federal, através do Banco do Brasil (que deverá ser privatizado também, no caso de uma vitória serrista).

2) Como lembrou Chico Buarque no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro, Serra é o melhor preparado para falar grosso com a Bolívia, como o próprio candidato já deu prova, e fino com os Estados Unidos. Posso ajuntar: também com o FMI, de cuja tutela escapamos durante o governo Lula. Agora o FMI, em seus relatórios, recomenda que o Brasil diminua a atividade de seus bancos estatais – justamente aquela atividade que nos fez sair rápida e com poucas seqüelas da crise financeira mundial. Mas se Serra for eleito, podemos contar com a obediência firme, segura e nada gradual a essa diretriz da ortodoxia econômica. E a chave das relações internacionais brasileiras não é “falar grosso” ou “falar fino”, mas agir com serenidade e firmeza na defesa dos nossos interesses em todos os planos e com uma estratégia de multi-lateralismo e tratamento igualitário dos múltiplos atores presentes, o que tem sido a marca diferencial, em relação aos anteriores, do governo Lula e da diplomacia liderada também por Celso Amorim.

3) Mas falando em falar grosso e fino, Serra também é o melhor preparado para falar grosso com os movimentos sociais e fino com o “espinhaço do agro-business”, onde teve suas mais expressivas vitórias no primeiro turno. Ele será certamente o melhor preparado para voltar a acelerar o desmatamento da Amazônia, sem falar em jogar outras questões ambientais para debaixo do tapete. Nada mais estranho a questões ambientais do que o PSDB de Serra e o DEM de Índio da Costa.

4) Serra também é o melhor preparado para cercear o crescimento e a atividade da Petrobrás, para fatia-la, e para entregar as reservas do pré-sal e outras que houver às grandes multinacionais do setor, impedindo a sua exploração soberana pelo Brasil, mesmo que com acordos com capitais de outras proveniências. O pré-sal pode se tornar a origem de um grande fundo de investimento social, em educação, saúde, tecnologia, segurança – se for administrado soberanamente (o que não quer dizer isolamento) pelo Brasil, ao invés da política de inserção subordinada ao Ocidente que é a marca da visão de mundo demo-tucana.

5) Serra também já se mostrou o melhor preparado para substituir a política consistente de valorização do salário mínimo e do poder aquisitivo da maioria da população por propostas demagógicas, porque sem lastro, de promessas de aumentos bruscos no setor e nas aposentadorias. É também o melhor preparado para desconstruir políticas sociais de longo alcance e para devolver o que restar de pobres nesse país aos currais eleitorais do DEM, como era antes, ao tempo da hegemonia PSDB/PFL.

6) Serra, que considera “normal” a distribuição de panfletos apócrifos com calúnias à adversária, como os apreendidos em Guarulhos, na gráfica da irmã de um de seus coordenadores de campanha (outro fato "normal") já se mostrou também o melhor preparado para conceber a liberdade de imprensa e expressão dentro da ótica de “aos amigos tudo, aos inimigos o rigor da lei” – quando não do arbítrio. Afinal foi um dos jornais que apóiam expressamente sua campanha que demitiu uma jornalista reconhecida nacionalmente, por delito de opinião durante essa eleição, além de ter sido a campanha de Serra que pediu o cerceamento da circulação de revista que trazia Dilma na capa – e pediu ainda que isso ficasse oculto – “em segredo de justiça”.

7) Enfim, Serra já se mostrou o melhor preparado para tornar-se uma espécie de biruta de aeroporto em matéria de formulação de políticas, dizendo o que lhe vem à cabeça conforme a circunstância de seu público, sem se preocupar com uma defesa coerente de uma proposta organizada, que é exatamente o que Dilma vez fazendo, com serenidade e determinação, apesar de constantemente difamada e caluniada.

Pode haver muito mais. A idéia central (cujo autor inicial é um amigo meu) é a de sempre inserir entre os argumentos essa pergunta: melhor preparado para o quê?

Por outro lado, nas discussões que vão se seguir, é sempre necessário manter a calma nas argumentações. Haverá provocações, e de todos os tipos. O episódio do rolo de adesivo no Rio de Janeiro é eloqüente: haja o que houver, a responsabilidade por qualquer confronto será sempre atribuída “ao PT” pela mídia conservadora que apóia Serra.

Ademais, o lado mais obscuro que apóia Serra tentou jogar sangue e armas nas mãos de Dilma, falsificando fichas policiais, fotos, dossiês, devido a seu heróico passado de resistência à ditadura. Não conseguiram. Mas certamente alguém deve estar tramando então como jogar sangue nas mãos dela agora, na reta final da campanha. O melhor, para esse tipo de pensamento, seria um cadáver. Mas na falta disso, qualquer gota de sangue serve.

Assim, qualquer confronto deve ser evitado, assim como qualquer provocação deve ser recusada.

Também é bom lembrar o seguinte: a história da quebra de sigilo de tucanos, além de fazer parte das atividades de uma quadrilha de contraventores comuns, sem objetivo político, começou a adquirir tais contornos por seu envolvimento na disputa entre Serra e Aécio, pela candidatura do PSDB. Não houve qualquer envolvimento nem aproveitamento por parte da campanha de Dilma nisso. Erenice, por sua vez, está sendo investigada. Paulo Preto, ao contrário, está sendo protegido. E ainda não se esclareceu até agora que tipo de poder esse Paulo tem sobre Serra, a ponto de poder lhe dirigir uma ameaça através da Folha de S. Paulo. Perguntado sobre o assunto no Jornal Nacional, território
que, em tese, lhe seria propício, Serra fugiu da raia.

É o que costuma fazer quem não tem nada a dizer.

Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim
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Fonte:http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4845

Voz dos donos: o seletor de opiniões

Assíduo no twitter, o ex-governador José Serra bem que poderia ter teclado 140 caracteres para, ao tratar do ganhador do prêmio Nobel da Paz dizer algo como: "Se fosse brasileiro e escrevesse num jornal paulista, o professor Liu Xiaobo seria demitido".

Washington Araújo

Artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa(http://www.observatoriodaimprensa.com.br/)

Liberdade de expressão parece ser um seletor de opiniões grudado nas mãos dos donos de veículos de comunicação ou de seus prepostos (diretores de Redação, editores-chefes, editores em geral). A liberdade de expressão pode até ser exercida, mas seu alcance é limitado e não pode, em hipótese alguma, ultrapassar a cadeia hierárquica de comando. Que é louvável clamar por esta preciosa liberdade ninguém tem dúvidas, mas que é execrável concedê-la apenas aos que se alinham com a ideologia dos patrões, pouca gente se arrisca a duvidar.

Vejamos alguns casos bem recentes. Observo que ver apenas um caso nas cercanias da própria imprensa já reclamaria uma boa dose de atenção. Pois bem, até as paredes e os cenários da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, sabem o que teria sido o real motivo para a demissão do experiente jornalista e apresentador de tevê Heródoto Barbeiro: o exercício de sua liberdade para perguntar, da bancada do programa Roda Viva, ao ex-governador José Serra sobre os preços dos pedágios paulistas (ver aqui). No entanto, são estes mesmos que demitem, que mostram truculência e que desfraldam bandeiras pela liberdade de expressão; que altas horas da madrugada mostram-se receptivos a telefonemas exigindo a demissão desse ou daquele profissional que, na pior das hipótese, tenha cometido por pensamento ou por ação apenas um crime: o crime de pensar.

Não mais que passada uma semana e, em 8 de julho deste 2010, ainda na mesma emissora de cunho estatal, ficamos sabendo pela contumaz marolinha com que a imprensa repercute casos do gênero que o jornalista Gabriel Priolli deixara de ser diretor de jornalismo da TV Cultura. A decisão, tomada pelo jornalista Fernando Vieira de Mello, vice-presidente de conteúdo da emissora, alimentou boatos a respeito da ingerência política sobre o canal. O fato é que tanto nos corredores da emissora como na blogosfera, circulou – e ainda circula – a informação de que, por trás da demissão de Priolli, pendia em forma de guilhotina uma suculenta matéria sobre – adivinhem – o aumento nos pedágios paulistas.

Mais um pouco e ficaremos convencidos de que no jornalismo paulista expressões como "pedágios" e "liberdade de expressão" são como óleo e água e não podem conviver em uma mesma Redação. Um deles tem que cair, sumir, desaparecer, submergir, calar.

Indignação e espanto

Curioso é que o ato de pensar equivale em importância ao mesmo que cimento e tijolos representam para se tirar da prancheta de um arquiteto uma casa. Chama a atenção a este observador que nesses dois casos nem Barbeiro nem Priolli levaram os lábios ao trombone. No segundo caso é fácil de entender o motivo, uma vez que ele é funcionário da Cultura.

Mas tinha que ser assim? Estaremos diante de um imenso trololó midiático, essa coisa de defender em público seus próprios interesses e em privado fazer o que bem entender e do jeito que melhor lhes convier?

E, então, ficamos sabendo que o crime de pensar pode ser letal se não altamente contagioso: a psicanalista Maria Rita Kehl foi demitida do jornal O Estado de S. Paulodepois de ter escrito, no sábado (2/10), artigo sobre a "desqualificação" dos votos dos pobres. Sintomaticamente, recebeu como título duas palavras e reticências: "Dois pesos...". Mas foi sua possível continuação – ... duas medidas – que levantou ondas e ondas na internet. Todas elas mesclando indignação e espanto por ver como é comum que nas casas dos abastados ferreiros os espetos continuem teimando em ser de pau.

140 toques

A explicação oficial do jornal paulista é que a colunista vinha de há muito enveredando por outros assuntos em sua coluna, que não os da psicanálise. Ora essa, pergunto a minha camisa sem botões: de qual tipo de imprensa estamos falando, quando se enquadra de forma muito natural o campo de expressão de um colunista? Então, na condição de psicanalista, é-lhe vedado abordar política? Tratar de política é campo de algum especialista somente – aqueles que portam carteirinha partidária – ou não se configura o tipo de tema que diz respeito ao interesse de todos nós cidadãos?

Sigamos em frente, do contrário este artigo corre risco de ficar inconcluso. Pois bem, Maria Rita, em sua elegância habitual e refinamento intelectual, afixou em entrevista ao Portal Terra na quinta-feira (7/10), este punhado de palavras sobre sua derrubada do Estadão: "Fui demitida pelo jornal O Estado de S.Paulo pelo que consideraram um ‘delito’ de opinião." A partir disso minha admiração por ela só fez crescer e olha que já era bem grande.

Na semana que findou o mundo, aquele mundo amante da liberdade de expressão festejou o Premio Nobel da Paz concedido ao pensador chinês Lio Xiaobo, preso por escrever um manifesto pela liberdade de expressão na China. Alguns poucos se apressaram em homenagear Xiaobo. Um deles foi o ex-governador paulista José Serra que escreveu em seu twitter: "O ganhador do Nobel da Paz foi o professor chinês Liu Xiaobo, preso por ter publicado um manifesto em defesa da liberdade de expressão". Assíduo no twitter, bem que ele poderia ter teclado mais 140 caracteres para dizer algo como: "Mas se ele fosse brasileiro e escrevesse num jornal paulista, Xiaobo seria demitido".

Pelo que vejo existem legiões de pessoas decididas a cometer o crime de pensar.

Washington Araújo é jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela
UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil,
Argentina, Espanha, México. Tem o blog http://www.cidadaodomundo.org
Email - wlaraujo9@gmail.com

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Fonte:http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4830&alterarHomeAtual=1

Governo Lula/Dilma: Investimentos em infraestrutura mudam a cara do Brasil

21 de outubro de 2010

A incorporação da variável regional no planejamento do novo ciclo de desenvolvimento inaugurado por Lula resultou em um conjunto de obras de infraestrutura que estão enfrentando a exclusão e mudando a cara do Brasil: as novas siderúrgicas no Maranhão e no Ceará; as refinarias no Ceará e em Pernambuco, as ferrovias Norte-Sul, Oeste-Leste e a Transnordestina, as refinarias de biodiesel na Bahia, os estaleiros em Pernambuco, o gasoduto na Bahia, as hidrelétricas em Rondônia e no Pará, a transposição do Rio São Francisco, a ampliação de aeroportos, a recuperação de estradas, os investimentos no metrô em Salvador e Recife são alguns exemplos. O artigo é de Nilmário Miranda.

Nilmário Miranda, jornalista

Ao assumir o governo federal em 2002, Lula encontrou um país praticamente estagnado, após oito anos de governo FHC. Nos últimos oito anos, a marca registrada tem sido a retomada do desenvolvimento econômico a partir de iniciativas de âmbito nacional, regional e local. Essa nova fase do Brasil pode ser vista no campo e nas cidades.

Estão sendo criadas condições para o escoamento da produção, de minérios e outros produtos. Nas cidades, estão sendo urbanizadas favelas, modernizados e ampliados os projetos de metrô. Na área rural, regiões nas quais a população não tinha água para beber, receberam adutoras, cisternas e hoje contam com irrigação para suas produções. Territorialmente, as iniciativas implementadas reconhecem as particularidades de cada região e investem na moderna integração regional do país concebendo nossas regiões como imensos celeiros de oportunidades.

Todas essas iniciativas estão concentradas no Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, que é um conjunto de medidas e ações governamentais voltadas ao campo e à cidade, em parceria com a iniciativa privada, para promover o desenvolvimento econômico com inclusão social em todo o território nacional e diminuir as desigualdades regionais. Por um lado, o programa estimula a produção industrial/agrícola, com a construção de rodovias, ferrovias, hidrovias, portos, aeroportos e por outro, promove a inclusão social com os programas Minha casa, Minha vida e Luz para todos e a inclusão digital. Além das grandes obras, há uma complexa estrutura de execução e acompanhamento de todas as etapas destes projetos por um grupo interministerial centrado no Ministério da Casa Civil.

No plano federal, o governo Lula avançou na distribuição de recursos e criou novas fontes de financiamento por meio do BNDES e na Finep (Financiadora de Estudos e Projetos, empresa pública vinculada ao Ministério de Ciência e Tecnologia) e no fortalecimento dos bancos regionais. Com isso já é possível identificar, como ocorre no Nordeste, novos mercados e centros de produção locais que se tornam viáveis com o avanço da inclusão digital.

A incorporação da variável regional no planejamento do novo ciclo de desenvolvimento inaugurado por Lula resultou em um conjunto de obras de infraestrutura e programas de apoio ao desenvolvimento econômico e social que estão enfrentando a exclusão e mudando a cara do Brasil: as novas siderúrgicas no Maranhão e no Ceará; as refinarias no Ceará e em Pernambuco, as ferrovias Norte-Sul, Oeste-Leste e a Transnordestina, as refinarias de biodiesel na Bahia, aos estaleiros em Pernambuco, o gasoduto na Bahia, as hidrelétricas em Rondônia e no Pará, a transposição do Rio São Francisco, a ampliação de aeroportos, a recuperação de estradas, os investimentos no metrô em Salvador e Recife, entre outros.

Essa remodelação do modo de ver o Estado trouxe uma verdadeira revolução na distribuição de renda em todo o país. Uma ponta sensível é a valorização do salário mínimo - uma engrenagem do PAC que colocou milhares de pessoas no mercado consumidor interno. Setores mais problemáticos como o saneamento, a saúde, as grandes cidades estão contemplados por PACs específicos.

Enquanto isso, nos governos tucanos...

Enquanto no resto do país as obras de infraestrutura estão a toda, no Estado de São Paulo a situação é inversa e pode ser constatada nos baixos investimentos e na baixa execução orçamentária. O estado de São Paulo é um dos exemplos acabados de ineficiência das gestões tucanas, mesmo recebendo os empréstimos federais e internacionais, avalizados pelo governo federal, destinados à ampliação e melhoria do transporte metroviário e ferroviário na Região Metropolitana, à melhoria das estradas, das rodovias, às obras de saneamento básico, de recuperação ambiental e de combate a enchentes. O governo tucano omite que obras anunciadas de sua iniciativa foram realizadas com participação financeira significativa do governo federal.

Apesar desses empréstimos e da capacidade arrecadadora de um dos estados mais industrializados do país, São Paulo, que é governada pelo PSDB há 16 anos, convive com a baixa disponibilidade de água potável, a incapacidade de tratamento de todo o esgoto e efluentes, a destinação inadequada do lixo, a ocupação de áreas de proteção ambiental e de mananciais, a falta de planejamento, entre outros. São mais de 600 mil pessoas que vivem em áreas regularizadas ainda sem acesso à água potável de forma adequada (nas cidades da Região Metropolitana atendidas pela Sabesp, empresa de economia mista, cujo maior acionista é o governo do Estado). Nestes cálculos não está incluída a população que vive em áreas irregulares e que somam mais de 2,5 milhões de pessoas. Além disso, são 157 municípios e uma população de mais nove milhões de habitantes sem nenhum tratamento de esgotos.

São Paulo tem hoje quase 42 milhões de habitantes (22% da população brasileira) e densidade demográfica média de 168 habitantes por km². O déficit habitacional no estado é de 1,2 milhão de moradias, cerca de 20% do déficit nacional. São cinco milhões de pessoas desprovidas do direito à moradia digna, em especial as camadas mais pobres da população, 80% na faixa de até três salários mínimos de renda familiar. A Região Metropolitana de São Paulo é detentora de 50% de toda a demanda de moradia no Estado, concentrando 2.797 favelas, com 1,3 milhão de pessoas somente na capital. Segundo levantamento feito pela Secretaria Municipal de Habitação, são 1.636 favelas na cidade de São Paulo. Os moradores dessas favelas aguardam iniciativas de urbanização e regularização, com o atendimento de infraestrutura, provisão de moradias no próprio local, além de equipamentos e serviços sociais.

Pedágios - A concessão de exploração das estradas à iniciativa privada tem sido uma constante na política de investimentos dos governos tucanos. As concessionárias cobram pedágios altíssimos a título de "manter e melhorar" a malha viária em todo o Estado, mas nota-se mesmo o crescimento de praças de pedágio por toda a parte – 277 em funcionamento até abril deste ano.

O exterminador do futuro (II): o PSDB e o governo Collor

A não ser por Covas, o PSDB estava pronto a uma adesão total a Fernando Collor. Fernando Henrique, na posse, ofereceu sua imagem televisiva aos milhões de telespectadores brasileiros no lugar de honra junto ao empossado. Covas segurou a barra, praticamente sozinho. Não me consta, da época, uma única palavra de Serra contra o plano ou contra Collor. Falo do tempo em que Collor estava politicamente forte, não quando milhões se apresentaram nas ruas para depô-lo. Em razão disso, quando denuncia Dilma por receber o apoio passivo de Collor e Sarney, e se vangloria de ter o apoio de Fernando Henrique e Itamar, Serra apela para um simbolismo vulgar e se esquece da verdadeira política ativa que ele apoiou. O artigo é de J.Carlos de Assis

J. Carlos de Assis (*)

Fui o primeiro economista brasileiro a deixar registrado em artigos – tinha uma coluna diária de economia política em “O Globo” – a inevitabilidade do fracasso do Plano Collor. Como era também assessor da presidência da CNI, tentei convencer o presidente, Senador Albano Franco, a mobilizar a cúpula empresarial para consertar o que me parecia o lado mais estúpido do plano, a saber, o congelamento da moeda circulante junto com a poupança. Era difícil fazer isso sem desmontar o plano inteiro, mas era, a meu ver, a única alternativa para salvá-lo.

Albano não conseguiu convencer seus pares. Ao contrário, o então presidente da Fiesp, Mário Amato, intimidado pela demonstração de poder que Collor exalava por todos os poros, chefiou uma comitiva de empresários ao Planalto para um beija-mão vergonhoso ao recém-empossado. A propósito, como haviam dito que o plano era contra os ricos e a favor dos pobres, a caravana empresarial de Amato foi ao Planalto de ônibus, para não parecer que seus participantes eram ricos. Este é o Brasil real, um Brasil que apenas uns poucos conhecem!

Havia um outro caminho: convencer o PSDB a emendar o plano na direção que havia sugerido. Junto com Raphael de Almeida Magalhães e Carlos Lessa, procuramos os próceres do PSDB (então nosso partido) no Congresso, para tentar articular uma emenda. O único que ficou realmente impressionado com nossas ponderações foi Mário Covas. Fez um discurso dramático apontando as falhas do plano. Estava programada uma reunião da bancada do partido na Câmara, e Covas cuidou para que me dessem a palavra, embora, obviamente, eu não fosse parlamentar.

Fiz uma exposição exaltada, talvez mais do que devesse, para chamar a atenção sobre a fragilidade do plano. Paulo Renato falou em seguida, e defendeu a tese oposta: o plano, a seu ver, era muito bom, e o PSDB deveria aprová-lo como estava, sem emendas. José Serra não esteve nessa reunião, pelo menos durante o tempo em que permaneci nela. Mas Raphael foi procurá-lo pessoalmente, e sua posição foi exatamente a de Paulo Renato. Não havia muita saída, mas assim mesmo insisti: fui encontrar-me com Bresser Pereira, único economista integrante da Executiva.

Consegui tirar Bresser da reunião da Executiva para uma conversa rápida. Repetindo o que havia proposto em artigo, disse a Bresser que, já que era inevitável o congelamento do meio circulante junto com a poupança, que se fizesse a restauração da circulação monetária liberando depósitos segundo as folhas de pagamento das empresas. Isso não era nenhuma novidade. Em 1948, acontecera na Alemanha e no Japão. Bresser me respondeu que não podia, porque a folha salarial correspondia a 36% do PIB, e isso estouraria com o plano. Aliás, a ministra Zélia ou alguém de sua assessoria fizera a mesma alegação em face da minha sugestão.

“Bresser, argumentei, 36% do PIB é a acumulação anual de um fluxo mensal de, no máximo, 3%”. “Ah é, redargüiu Bresser. Então a gente propõe liberar 1,5%”. “Mas por que, Bresser, não os 3%”. “Porque é mais fácil para a equipe econômica aceitar”. Claro que não houve liberação de nada, nem de 3% nem de 1,5%, e em dois ou três meses o plano tinha ido para o espaço, determinando uma contração da economia no ano de mais de 4%, com imenso desconforto social por causa do congelamento – algo que, a meu ver, seria uma motivação decisiva no movimento do impeachment.

Essa longa história é para dizer que, a não ser por Covas, o PSDB estava pronto a uma adesão total a Fernando Collor. Fernando Henrique, na posse, ofereceu sua imagem televisiva aos milhões de telespectadores brasileiros no lugar de honra junto ao empossado. Covas segurou a barra, praticamente sozinho. Não me consta, da época, uma única palavra de Serra contra o plano ou contra Collor. Falo do tempo em que Collor estava politicamente forte, não quando milhões se apresentaram nas ruas para depô-lo. Em razão disso, quando denuncia Dilma por receber o apoio passivo de Collor e Sarney, e se vangloria de ter o apoio de Fernando Henrique e Itamar, Serra apela para um simbolismo vulgar e se esquece da verdadeira política ativa que ele apoiou.

É bom dizer que não tenho nada pessoalmente contra Serra. Ao contrário, acho que é um político honrado e limpo, e um administrador público eficiente. A razão porque temo sua eleição é estritamente política: em matéria de política econômica, ele tem certezas erradas. Além disso, se tem havido desvios éticos graves na “turma” do PT, houve desvios ainda piores no PSDB, inclusive em relação a um programa de privatização nefasto aos interesses nacionais e de favorecimento aberto aos amigos do rei, conduzido por pessoas controversas como Ricardo Sérgio de Oliveira, Luís Carlos Mendonça de Barros (demitidos) e – às vezes fora, às vezes dentro da máquina pública – André Lara Resende, todos eles do círculo íntimo de Serra.

Relativamente ao programa de privatização conduzido por Serra no governo FHC, devo dizer que nunca tive uma posição doutrinária ou ideológica contrária a ele. Critique sobretudo a forma, desde Collor. A privatização fatiada da siderurgia foi uma estupidez. A privatização da Telebrás era desnecessária: bastava liberar suas tarifas, como se fez para os privados que a compraram. A privatização de distribuidora elétricas, desde Itamar, sem prévia regulação do mercado, foi um acinte ao consumidor. A privatização da Vale privou o setor público de um agente estratégico do desenvolvimento (coisa que os chilenos não fizeram com seu cobre). Por tudo isso Serra, junto com FHC, pode ser associado a um exterminador do patrimônio público. É impossível tirar dele esse rótulo para a história. Mas que não seja um exterminador do futuro.

(*) Jornalista, economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPA, autor de mais de 20 livros sobre Economia Política brasileira e mundial, entre os quais “A Chave do Tesouro” e “Os Mandarins da República”, e, mais recentemente, “A Crise da Globalização”, sobre a crise mundial em curso.

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Fonte:http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17110&editoria_id=7

Memória de um Brasil privatizado

21 de outubro de 2010

Imagine que você trabalhou toda uma vida para adquirir um patrimônio. E que, em meio a dívidas, tenha decidido vendê-lo para colocar as contas em dia. Agora imagine que o comprador anda meio sem grana. E que você resolve emprestar para ele o dinheiro com o qual seu patrimônio será comprado. O comprador te pagaria de volta a perder de vista, assim que começasse a lucrar com o que acaba de adquirir. Detalhe: você teria vendido justamente os bens com os quais gerava parte de sua renda. E por um preço bastante abaixo do valor de mercado. Pois foi assim que se deu boa parte das privatizações realizadas no Brasil no governo de FHC. O artigo é de Tiago Soares.

Artigo publicado originalmente no blog El estupendo grouchomarxista

Este artigo é um apanhado do que foi o processo de privatização tocado por José Serra e FHC durante o governo tucano. A intenção é compilar, num relato ligeiro, informações que sirvam para esclarecer interessados e interessadas no debate.

Boa parte dos dados que compõem o texto foi retirada do clássico “O Brasil Privatizado”, de Aloysio Biondi. O resto das informações foi levantada em notícias antigas, sites de organizações, partidos e sindicatos e páginas oficiais.

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Imagine que você trabalhou toda uma vida para adquirir um patrimônio. E que, em meio a dívidas, tenha decidido vender uma ou outra coisa para colocar as contas em dia.

Agora imagine que o comprador, durante a negociação, tenha lhe confidenciado que anda meio sem grana. E que então você, ansioso/a para bater o martelo, resolva emprestar para o interessado o dinheiro com o qual seu patrimônio será comprado. O comprador te pagaria de volta a perder de vista, assim que começasse a lucrar com o que acaba de adquirir. Detalhe: você teria vendido justamente os bens com os quais gerava parte de sua renda. E por um preço bastante abaixo do valor de mercado.

Pois foi justamente assim que se deu boa parte das privatizações realizadas no Brasil no governo de Fernando Henrique Cardoso, de meados da década de 1990 até 2002. Empresas públicas produtivas, como a Vale do Rio Doce e a Light, vendidas a preços muito abaixo do que realmente valiam, com financiamento público a perder de vista.

Tendo como argumentos o abatimento da dívida, a atração de capital estrangeiro, o aumento da produtividade e a melhoria dos serviços aos cidadãos e cidadãs, o patrimônio brasileiro foi colocado à venda e oferecido a alguns poucos grupos econômicos internacionais, financiados por bancos estrangeiros e com ajuda do próprio governo brasileiro. O que se escondia, porém, é que na antesala da privatização a infraestrutura das empresas era sucateada, numa política de depreciação do patrimônio nacional, jogando no desemprego dezenas de milhares de profissionais qualificados.

E não foi só isso. Para tornar o negócio atraente, o governo abateu as dívidas das empresas com a União e realizou ajustes de tarifas, puxando para cima os preços dos serviços e garantindo enorme lucro futuro aos investidores. Para se ter uma ideia, o reajuste nas tarifas telefônicas chegou a 500%; no caso da energia elétrica, a coisa ficou na faixa de 150%. E ao contrário de outros países, nos quais os processos de privatização exigiam que as companhias baixassem gradualmente as taxas cobradas pelos seus serviços, o combinado pelo governo FHC foi que os novos donos das empresas estatais poderiam seguir ajustando os preços anualmente, segundo a taxa de inflação.

Para convencer a opinião pública, governo e meios de comunicação defendiam que a venda das estatais atrairia dinheiro do exterior, reduzindo as dívidas externa e interna do Brasil. E, na verdade, ocorreu o contrário: além de “engolir” as dívidas de todas as estatais vendidas (o que aumentou a dívida interna), parte razoável do dinheiro levantado pelos investidores vinha de bancos estrangeiros. O que significou que, no fim das contas, as companhias recém privatizadas, já comprometidas com dívidas junto a grupos financeiros internacionais, seriam obrigadas a enviar grande parte do dinheiro que fizessem para o exterior. Algo que não aliviou – na verdade, piorou – a dívida externa nacional.

Para complicar ainda mais a situação, o próprio governo financiou parte da compra, oferecendo empréstimos do BNDES e trocando crédito pela aquisição de títulos da dívida pública. Medidas que acabaram se tornando um contrasenso, já que, ao oferecer no Brasil parte do dinheiro a ser investido nos leilões, os potenciais compradores acabaram sem grande estímulo para trazer dólares de fora para o país. Dólares que, justamente, eram alardeados desde o início como um dos motivos para a privatização.

No fim das contas, foi o seguinte: o Brasil entregou boa parte de seu patrimônio a preço de banana para uns poucos grupos econômicos; a dívida pública aumentou assustadoramente (de cerca de 30% do PIB, em 1995, para quase 60% do PIB em 2002); e a política de investimentos do BNDES, que estimulava a remessa de dólares para o exterior, acabou provocando uma recessão que atingiu as famílias do país, numa quebradeira generalizada que levou a enormes índices de desemprego.

No geral, foram privatizadas, entre 1990 e 1999, 166 empresas, com 546 mil postos de trabalho extintos diretamente. O que, comparado ao número de privatizações ocorridas desde meados da década de 1980 (19 companhias, entre 1985 e 1990) apenas prova a sanha privatista do projeto do PSDB. Um negócio que, muito bom para alguns lobistas e umas poucas empresas estrangeiras, se mostrou, em pouquíssimo tempo, péssimo para o povo brasileiro.

Só pra se ter uma ideia, alguns casos:

BNDES
Um dos principais responsáveis pela rápida saída do Brasil da crise econômica mundial de 2008, o BNDES quase foi privatizado no governo do PSDB. O banco, que nos últimos anos vem garantindo o crédito e o investimento no país, foi listado em 2000, a pedido do ministério da Fazenda, numa avaliação de possíveis privatizações do setor bancário. A iniciativa teria sido uma imposição do FMI.

Quem diz é o site do Ministério da Fazenda:

“Com determinação o governo dará continuidade à sua política de modernização e redução do papel dos bancos públicos na economia. O Banco Meridional uma instituição federal foi privatizado em 1998 e em 1999 o sexto maior banco brasileiro o BANESPA agora sob administração federal será privatizado. Ademais o Governo solicitou à comissão de alto nível encarregada do exame dos demais bancos federais (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES, BNB e BASA) a apresentação até o final de outubro de 1999 de recomendações sobre o papel futuro dessas instituições tratando de questões como possíveis alienações de participações (grifo do autor) nessas instituições fusões vendas de componentes estratégicos ou transformação em agências de desenvolvimento ou bancos de segunda linha. Essas recomendações serão analisadas e decisões serão tomadas pelo Governo antes do final do ano sendo que as determinações serão implementadas no decorrer do ano 2000.”

Banespa
Privatizado em 2000, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, o Banco do Estado de São Paulo (Banespa) foi adquirido pelo espanhol Santander por R$ 7 bi. Para se ter uma ideia do mau negócio, entre meados e o fim da década de 1990 o Estado brasileiro havia injetado R$ 50 bi na instituição. R$ 15 bi destes, apenas nos esforços de saneamento prévios ao processo de privatização: o que, descontado o dinheiro conseguido nos leilões, acabou num prejuízo de, no mínimo, R$ 8 bi aos cofres públicos.

Mais que isso: para tornar o negócio atraente, o governo brasileiro liberava o novo (e privado) dono do banco de qualquer contrapartida social (como financiamentos para a agricultura familiar, por exemplo).

Ou como disse ao portal Terra o presidente do Banco Central na época, Armínio Fraga, sobre a privatização do banco paulista:

“Fraga explicou que o Banespa privatizado não terá de manter sua atuação em “políticas públicas”, como financiamento a pequenos agricultores, por exemplo. “A privatização deixa clara a separação entre o negócio privado e uma política pública”.”

Vale do Rio Doce
Considerada a segunda maior mineradora do mundo, a Vale do Rio Doce (hoje, Vale S. A.) foi privatizada pelo governo do PSDB em 1997, por R$ 3,3 bi. O valor, muito abaixo de mercado, equivale a menos que ela obtinha por ano em 1995 – e, hoje, a algo em torno do feito em apenas um trimestre.

Mais que isso, o processo de privatização esteve envolto em graves suspeitas de corrupção, com acusações de cobrança de propinas milionárias por Ricardo Sérgio, lobista encarregado da montagem do consórcio vencedor. Causou polêmica, ainda, a intervenção do presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, na composição dos grupos que concorriam pela companhia, numa ação vista como decisiva para o resultado final do leilão.

Petrobrás
Recentemente alçada ao posto de segunda maior petrolífera do mundo, a Petrobrás foi, ao longo de toda a era tucana, sondada quanto à sua possível privatização. Numa declaração recente, o atual presidente da empresa, José Sergio Gabrielli, chegou a afirmar que “Para o governo FHC, a Petrobras morreria por inanição. Os planos do governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso eram para desmontar a Petrobras e vendê-la”.

Com a descoberta do pré-sal, a Petrobrás oferece ao país a oportunidade de tornar-se uma das maiores potências globais na área de energia. Pelo projeto proposto pelo governo Lula, boa parte dos rendimentos futuros do governo com as novas jazidas, na casa dos trilhões de dólares, deverão ser investidos num fundo soberano para investimentos em educação e ciência e tecnologia.

Além disso, o processo de capitalização da Petrobrás, no qual foi dada ao público a possibilidade de adquirir participação na empresa pela aquisição de ações, foi aberto a toda a população brasileira – ao contrário do processo de privatização defendido pelos tucanos, restrito a alguns poucos grupos econômicos internacionais.

A respeito das intenções de um hipotético governo do PSDB para a gestão do pré-sal, especula-se a retomada de uma agenda fortemente privatista para o setor. Em declaração recente ao jornal Valor Econômico, o principal assessor de José Serra para a área de enrgia, David Zylberstajn, afirmou que “Não tem que existir estatal comprando ou vendendo petróleo”.

Vale lembrar que Zylberstajn foi, no governo FHC, presidente da Agência Nacional do Petróleo, e um dos principais entusiastas da privatização da Petrobrás. Para se ter uma ideia, numa sondagem de mercado hoje reduzida ao anedotário histórico, chegou-se a especular que, num esforço para torná-la mais palatável a possíveis compradores estrangeiros, a companhia fosse rebatizada como “Petrobrax”.

Privatizações no governo José Serra
Quando governador de São Paulo pelo PSDB, José Serra pediu avaliações referentes à possível privatização de pelo menos 18 empresas pertencentes ao estado. Entre as companhias oferecidas ao setor privado, estariam nomes tradicionais como a Nossa Caixa, a Sabesp, o Metrô, CPTM, a Dersa e a CDHU.

E o banco Nossa Caixa, na verdade, escapou por pouco – posta em leilão, a instituição financeira acabou arrematada pelo Banco do Brasil, num esforço do Governo Federal para impedir que a companhia caísse nas mãos de grupos privados.

Em seu meio (porque até a metade) mandato à frente do estado, José Serra foi, no fim das contas, apenas fiel ao que defendia quando ministro do planejamento do governo FHC. Quem o diz é o proprio ex-presidente, que ressaltou, em conversa recente com a revista Veja, o entusiasmado papel desempenhado por Serra nas privatizações da década passada.



Fotos: "O Brasil Privatizado", de Aloysio Biondi, Editora da Fundação Perseu Abramo (Divulgação)



Fonte:http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17097&editoria_id=7

Mais um aliado de Serra defende privatização do pré-sal

25 de outubro de 2010

Após o ex-presidente da Agência Nacional do Petróleo (ANP), David Zylberstajn, defender o modelo de exploração do governo Fernando Henrique Cardoso, agora o deputado federal Luiz Paulo Vellozo (PSDB-ES) vem a público classificar como "loucura" a proposta defendida pelo governo Lula para a exploração das riquezas do pré-sal. Parlamentar tucano defende maior presença de empresas estrangeiras no negócio. Para ele, regime de concessões para empresas internacionais seria melhor "em termos de antecipar a arrecadação de recursos".

Redação da Carta Maior

Depois de David Zylberstajn, ex-genro de Fernando Henrique Cardoso e assessor técnico para a área de energia da campanha de José Serra à presidência da República, mais um tucano vem a público defender a privatização do pré-sal. Trata-se do deputado federal Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB-ES) que, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, defendeu o modelo criado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para a exploração das riquezas do pré-sal. O deputado tucano classificou como “loucura” o governo querer explorar as riquezas do pré-sal sem permitir a entrada de empresas estrangeiras. “É uma sandice completa achar que a Petrobras e o Estado brasileiro terão dinheiro para tudo”, disse o parlamentar. Na entrevista, Luiz Paulo Vellozo repete basicamente os mesmos argumentos utilizados por Zylbertajn há alguns dias.

Segundo matéria publicada no jornal Valor Econômico, Zylberstajn aconselhou José Serra a retomar o modelo do governo Fernando Henrique Cardoso e desistir da proposta apresentada pelo governo Lula para modificar o modelo de concessão de campos de petróleo para o modelo de partilha, no caso dos blocos do pré-sal. Zylberstajn e Vellozo defendem que o regime de concessões para empresas internacionais seria melhor em termos de antecipar a arrecadação de recursos. O que não dizem é que essas empresas internacionais ficariam com a fatia gorda da exploração das reservas do pré-sal.

A crítica feita pelos tucanos ao modelo de exploração proposto pelo governo Lula mal consegue disfarçar a sua posição em defesa do que chamam de “enxugamento” da empresa. Ex-presidente da Agência Nacional do Petróleo (ANP), durante o governo FHC, e consultor de empresas internacionais na área de energia, Zylbestajn criticou o “tamanho” da participação da Petrobras na exploração das reservas brasileiras de gás e petróleo. Para ele, “não tem que existir estatal comprando ou vendendo petróleo”. Essa foi, aliás, a argumentação utilizada pelo governo FHC para propor a mudança de nome da Petrobras para Petrobrax. O “x”, na avaliação dos tucanos, ajudaria a “captar dinheiro no mercado internacional”. A lógica dessa mudança estava baseada, entre outras coisas, na idéia de que “não deve existir estatal comprando ou vendendo petróleo”, bandeira histórica daqueles que pretendem privatizar a Petrobras.

As insistentes negativas do candidato José Serra no horário eleitoral e em seus pronunciamentos públicos sobre o tema estão batendo de frente com as declarações e movimentos de seus aliados e assessores mais próximos que defendem explicitamente a volta do modelo dos anos FHC.
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Fonte:http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17117

A farsa de Campo Grande e o atentado da rua Toneleros: o que há de comum entre Carlos Lacerda, José Maria Aznar e José Serra?

22 de outubro de 2010,
Por Saul Leblon

O crime da rua Toneleros, em 1954, que culminou com o suicídio de Vargas, é outro episódio sobre o qual pairam fortes suspeitas de montagem politicamente arquitetada e perversamente executada.

Na madrugada de 5 de agosto, o major-aviador Rubens Vaz foi assassinado na rua Toneleros, no Rio, em frente ao prédio onde morava Carlos Lacerda. Vaz era guarda-costas de um dos mais virulentos adversários do então Presidente Getúlio Vargas. Apelidado por Samuel Wainer de ‘O Corvo’, por semelhanças físicas e identidade de cardápios, Lacerda voltava de uma de suas conferências, desta vez no Colégio São José, cujo tema era sempre o mesmo: a necessidade de afastar Getúlio do poder para onde fora levado graças à estrondosa vitória eleitoral contra a UDN de Lacerda. Dezenove dias após o crime da Toneleros, Lacerda e a direita nativa conseguiram seu intento: Vargas deixou o Catete, porém, morto.

Nenhum historiador tem dúvida de que o suicídio foi o gesto político mais dramático da história brasileira, um caso clássico de eliminação do personagem que fortaleceu sua herança, perpetuada em marcos divisores que ainda balizam a a vida nacional. A discussão em torno do pré-sal e da Petrobrás, nesta campanha, é um exemplo. Se ninguém dúvida do peso histórico de Getúlio, o mesmo não se pode dizer sobre o que de fato ocorreu naquela noite na rua Toneleros.

O próprio Lacerda apresentou várias versões para o episódio. Testemunhas, entre elas o jornalista, já falecido, Armando Nogueira, viram Lacerda caminhando normalmente no local após a morte de Vaz, o que contraria sua versão de que teria levado um tiro de 45’ no pé que ‘doía de forma intensa’. Os acusados do crime foram mantidos incomunicáveis e torturados. Lacerda jamais permitiu a perícia do revólver 38’ que portava e com o qual –alegou—enfrentou os algozes. O boletim de registro do seu atendimento, bem como as radiografias do pé supostamente alvejado desapareceram do Hospital Miguel Couto, no Rio.

"Vitória na Derrota" (Casa da Palavra), livro do sociólogo Ronaldo Conde Aguiar, reúne um levantamento minucioso de dados e entrevistas que colocam em xeque a versão de Lacerda em vários aspectos e dão consistência à hipótese de que o crime –ou pelo menos a sua versão vitoriosa—não passou de uma gigantesca farsa para vitimizar ‘O Corvo’,revoltar os quartéis e legitimar a derrubada de Getúlio.

A guerra de bolinhas de papel e rolinhos de fita crepe parece coisa de criança perto do que houve em 1954. Guardadas as proporções, porém, os métodos são muito parecidos e os interesses em jogo de certa forma se repetem. Vale a pena ler alguns trechos do livro "de Ronaldo Conde Aguiar. Seu relato oferece um mirante histórico que ajuda a enxergar melhor o passado e os seus vínculos com o presente.

Trechos de "Vitória na Derrota" (Casa da Palavra)(...)

“Em 16 de maio de 1992, o jornalista Otávio Bonfim, que, juntamente com Armando Nogueira, testemunhou o atentado de dentro do automóvel de Deodato Maia, deu o seguinte depoimento ao historiador Roberto Amaral:
Saí do carro e fui ver quem estava caído. Fui o primeiro a chegar junto a Vaz, que arquejava já nos estertores da morte. Instantes depois, Lacerda sai pela porta principal do prédio onde morava e caminha em direção a Vaz, onde eu já me encontrava. Ele caminha normalmente.14

O depoimento de Otávio Bonfim tem dois aspectos que merecem ser destacados. Primeiro: Lacerda, segundo ele, não saiu do prédio atirando na direção de Alcino, o que conflita com as versões de 1967 e 1977 do próprio jornalista. Segundo: Lacerda, destacou Bonfim, caminhava normalmente, apesar do tiro que teria recebido no pé e que o fazia sentir uma "dor violenta".

Em resumo, juntando tudo isso – "ferido no pé" (ou não) e sentindo uma "dor violenta" (ou não) –,Lacerda "correu" até a garagem, "subiu" uma escada, "percorreu" um pequeno corredor, "saiu" pela porta da frente do prédio atirando (terceira versão) ou não atirando (primeira versão e depoimento de Otávio Bonfim) e caminhou "normalmente" até o local onde o major Vaz estava caído. É bom lembrar que Lacerda fez tudo isso apesar de estar sentindo, enfatizamos, uma "dor violenta".15

Até hoje há dúvidas se Carlos Lacerda foi mesmo ferido no pé durante o atentado da rua Toneleros. Segundo José Augusto Ribeiro, Lutero Vargas, que era médico, pôs dúvida quanto ao tiro no pé recebido por Lacerda: "A minha experiência de revoluções e guerra levava-me a crer que não houvesse ferimento algum, pois uma bala de 45, maior de que alguns ossos do pé, teria estraçalhado o pé, exigindo amputação".16 O comentário de Lutero ganha força quando se sabe que, sem qualquer explicação plausível, toda a documentação sobre o ferimento de Lacerda – boletim de socorro, registro no livro de ocorrência e as radiografias – desapareceu do Hospital Miguel Couto. "O desaparecimento foi constatado, ainda em agosto, pelo médico George Sumner, que atendera Lacerda no hospital, na madrugada do dia 5".17 Há duas hipóteses possíveis. A primeira: Carlos Lacerda não foi ferido. Tudo teria sido forjado. Afinal, duas testemunhas viram Lacerda caminhando normalmente. A segunda hipótese: Lacerda teria sido ferido, mas por arma de menor calibre, pois um tiro de 45, como vimos, destruiria o seu pé. Tal hipótese reforça a idéia de que havia, pelo menos, um outro pistoleiro.

As três versões dadas por Carlos Lacerda sobre o atentado da rua Toneleros divergem entre si ainda em outros – e importantes – pontos.

Na primeira versão (6 de agosto de 1954), o jornalista teria disparado contra Alcino "antes" de fugir pela garagem do seu prédio. Lacerda estava com o filho Sérgio e o major Vaz na calçada, conversando, quando "um homem pardo", que seria Alcino, abriu fogo contra o grupo, a cinco metros de distância. Mais tiros, acrescentou o jornalista, vieram da esquina da rua Hilário de Gouveia e do outro lado da rua, "numa fuzilaria infernal". Lacerda respondeu imediatamente aos disparos e arrastou o filho em direção à garagem. Ao retornar, viu o corpo de Vaz estendido no chão e percebeu, só aí, que tinha sido ferido no pé.

Na segunda versão (17 de agosto de 1967), como já vimos, a "fuzilaria infernal", ou seja, a tocaia, transformou-se numa troca de tiros entre Lacerda e Alcino. E mais, ao dar essa segunda versão dos acontecimentos, Lacerda nada disse acerca do seu pé.
Na terceira versão (depoimento em 1977), ao contrário das anteriores, Lacerda "não" respondeu imediatamente aos tiros de Alcino. O pânico que tomou conta do filho Sérgio atrapalhou os seus movimentos e ele somente disparou contra Alcino "depois" de deixar o filho na garagem e sair pela porta do prédio. O jornalista percebeu que estava ferido "antes" de entrar na garagem do prédio em que residia.

A versão oficial do atentado (cronologicamente, a quarta versão), que ainda hoje persiste, foi divulgada em setembro de 1954 pelo relatório do Inquérito Policial Militar elaborado pelo coronel-aviador João Adil Oliveira. Segundo ali consta, Lacerda, o filho e o major Vaz foram "inopinadamente" atacados a tiros por um pistoleiro, que logrou atingir mortalmente o militar e ferir no pé o referido jornalista, que, reagindo à bala, provocou a fuga do agressor. A versão oficial, portanto, descarta a possibilidade dos "vários tiros vindos de várias direções" defendida por Lacerda e por seu filho no mesmo dia do atentado. O mandante do crime, de acordo com a versão oficial, teria sido Gregório Fortunato, chefe da Guarda Pessoal do presidente.
Conta ainda o relatório do inquérito que o pistoleiro teve a sua retirada interceptada pelo guarda Sávio Romero, que disparou contra ele. O agressor respondeu ao tiro e feriu, na perna, o policial.

Ferindo o guarda, conseguiu o malfeitor fugir. O policial ainda atirou contra o automóvel que o criminoso utilizou para a evasão e tomou seu número, fato que contribuiu para que, horas depois, o motorista do auto se entregasse à prisão.18

A versão de Alcino João do Nascimento – a quinta versão – foi dada ao jornalista Palmério Dória de Vasconcelos, 23 anos depois do episódio. Como já observamos, Alcino negou, com veemência, que fosse um pistoleiro ou que, na época, tivesse sido contratado por Gregório como tal. A sua ida, naquela noite, ao Externato São José e, depois, à rua Toneleros teria sido apenas uma etapa da missão que recebera de Gregório Fortunato: seguir Lacerda, anotar tudo o que ele fizesse, procurando descobrir "alguma falha" do jornalista, até mesmo em negócios. "Quero também os nomes das pessoas que o cercam, o que fazem, o que são", disse Gregório, que ainda recomendou: "Eu preciso de relatos completos." Para a execução do serviço, Gregório deu a Alcino um ordenado, gratificações e uma carteira de policial, do Departamento de Ordem Política e Social – DOPS. "Com essa carteira, eu era um policial", comentou Alcino ao jornalista Palmério Dória de Vasconcelos.

Alcino contou que, ao chegarem à rua Toneleros, ele e Climério – que para lá foram de táxi dirigido por um motorista, Nelson Raimundo de Souza, que conhecia Climério – permaneceram por algum tempo na calçada do outro lado da rua, mas em frente ao edifício Albervania, onde morava Carlos Lacerda.19 Quando o automóvel do major Vaz estacionou, saltaram três pessoas: Lacerda,
o filho e o militar. Segundo Alcino, ele e Climério mantiveram o seguinte diálogo:

– É essa pessoa que estava com ele lá? – perguntou Climério.
– É, é o mesmo que levou ele – confirmou Alcino.
Climério fez uma pausa e ordenou:
– Vai lá e confere o número do carro!

Alcino então atravessou a rua. Quando estava se aproximando, mais ou menos a uns cinco metros do grupo, ouviu os três se despedindo.

O Lacerda e o filho partiram para a porta do edifício, mas ela estava fechada. Voltaram. E o outro, o major Vaz, rodeou o carro pela frente e surgiu na traseira. Quando ele surgiu, eu estava justamente ali, na mala do carro. Ele me atacou e eu saltei.20

Se Alcino estiver dizendo a verdade, o que aconteceu em seguida altera substancialmente o próprio significado e a natureza do episódio.

Nesse momento, o Lacerda entrou pela porta da garagem. Aí surgiu um tiro, não sei de onde partiu – uma bala passou zumbindo o meu ouvido. O segundo tiro parece que atingiu o major pelas costas, justamente na hora em que ele me deu uma chave-de-braço, no braço esquerdo. Antes, eu estava pulando e me defendendo, ele querendo me deter. [...] Conforme ele me quebrou, me dando uma chave-de-braço, eu já tinha levado a mão pro revólver. Eu estava com um Smith & Wesson, calibre 45, e dei dois tiros no peito dele, um aqui e outro aqui. Foi coisa rápida. Conforme ele rodou, eu caí. Nessa altura, aqueles tiros chamaram mais tiros, igual pipoca. Me deram – está lá no processo – mais de quarenta e poucos tiros, num trecho de uma quadra da Toneleros, da rua Hilário de Gouveia à rua Paula Freitas.21

Alcino confirma que atirou duas vezes, à queima-roupa, no peito de Vaz22 e que houve um grande tiroteio, o que vai de encontro à expressão "fuzilaria infernal" usada por Lacerda.

É preciso repetir, nesta altura, alguns fatos que podem ser capitais à compreensão dos acontecimentos. Se Alcino não estiver mentindo, uma terceira pessoa (não ele, nem Climério) disparou o tiro que acertou Vaz nas costas. Isto, é claro, põe em relevo um dos pontos mais controvertidos do crime da rua Toneleros e que, no presente livro, pode assumir a feição de uma hipótese, não a de uma versão. Quem quer que tenha sido essa terceira pessoa, ela certamente não pretendia atingir Carlos Lacerda, mas acertar justamente o oficial da Aeronáutica que acompanhava o jornalista,23 ou seja, o verdadeiro foco dos tiros, segundo a hipótese formulada, teria sido o major Vaz. Afinal, ele recebeu três tiros e Lacerda apenas um. Nada melhor do que um cadáver fardado para provocar, como provocou, a reação dos companheiros de arma e a repulsa da sociedade, entornando definitivamente o caldo da estabilidade política do país. Como disse Tancredo Neves, o cadáver do major Vaz intro-duziu o "ingrediente emocional" que faltava à crise política já instalada.24 Foi o componente que faltava ao golpe contra Getúlio.

Há várias e contraditórias versões sobre o episódio da rua Toneleros, mas elas podem, a rigor, ser resumidas a apenas duas, adotando-se pequenas adaptações.

A primeira delas tem a matriz na versão oficial: seguindo ordem de Gregório Fortunato, Climério e José Antonio Soares (outro elemento da Guarda Pessoal) contrataram o pistoleiro Alcino João do Nascimento, que cometeu contra Lacerda o chamado atentado clássico.25 No tiroteio, acertou o major Vaz no peito e nas costas e feriu Lacerda no pé esquerdo. Esta versão, porém, não responde a duas perguntas. Como Alcino pôde acertar simultaneamente o major Vaz no peito (dois tiros) e nas costas (um tiro)? E indagamos: é possível imaginar que um "pistoleiro treinado", um "profissional do ramo" tenha sido tão incompetente a ponto de, a cinco metros de distância, acertar apenas o pé de Carlos Lacerda, sendo ao mesmo tempo tão preciso justamente nos disparos contra o major Vaz?26

O chassi da segunda versão é o depoimento de Alcino dado a Palmério Dória de Vasconcelos. Implica reconhecer que o episódio da rua Toneleros fez parte, e parte importantíssima, de uma conspiração política que tinha como objetivo apear Getúlio Vargas do poder, envolvendo-o num crime político supostamente cometido por membros da sua Guarda Pessoal.27
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TELE-CALÚNIA: NOVA BAIXARIA DE JOSÉ REVOLTA ELEITORES GAÚCHOS


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Fonte:http://cloacanews.blogspot.com/2010/10/tele-calunia-nova-baixaria-de-jose.html

COLUNISTA DA FOLHA SE DOBRA AO SUCESSO DO GOVERNO LULA

21 de outubro de 2010
Eles têm que se dobrar...

Por mais que a mídia golpista tente diminuir os avanços mais do que visíveis na qualidade de vida da população brasileira em decorrência das políticas desenvolvidas pelo governo Lula, que de forma competente alia política econômica, desenvolvimento e avanços sociais, mesmo os celetistas das grandes súcias de comunicação têm que admitir que o que vai decidir a eleição no próximo dia 31 é este momento inigualável na sua história que o Brasil vive (e, acrescente-se, não as promessas demagógicas e a pesada baixaria promovidas pela turma do Serra).

Foi exatamente o que fez, hoje, na Folha, o conhecido serrista Gilberto Dimenstein. Mesmo não perdendo os cacoetes das viúvas do FHC, que teimam em dizer que tudo que veio depois se deve a ele e ainda tentar diminuir a figura de Lula na eleição, o saudosista do governo que quebrou três vezes o Brasil teve que admitir, com grande tristeza, que "O fato objetivo e sentido no bolso é que não há registro de que, em algum momento da história do país, tenha se combinado, nesta intensidade, democracia, distribuição de renda, baixa inflação e desemprego em torno de 6%."

A jogada da toalha ocorreu em razão da divulgação, hoje, pelo IBGE, que o índice de desemprego, que caiu a 6,2%, a menor desde 2002, mais um índice da competência sem precedentes na dministração pública brasileira, do governo do "torneiro mecânico iletrado", na expressão preconceituosa da elite tacanha (como é difícil para eles admitir o sucesso de quem não vem do meio deles!).

Mas é bom que comecem a reconhecer, porque dia 31 o povo brasileiro vai dizer a eles que não quer voltar ao tempo do governo somente se preocupava em vender sem o menor pudor o patrimônio público e entregou de bandeja as riquezas no Brasil, deixando de lado a população.

Leia a matéria da abaixo:

21/10/2010 -
O maior eleitor de Dilma não é Lula
Gilberto Dimenstein

Setembro bateu o recorde histórico de emprego, segundo o índice que acaba de ser divulgado pelo IBGE. Até mais do que Lula, esse é o maior eleitor de Dilma Rousseff. Até porque, além do menor desemprego, como nunca se viu desde 2002, cresceu o salário dos trabalhadores.

Como estamos vendo pelas pesquisas, José Serra está atrás, mas quase ninguém mais aposta que sua derrota é um fato consumado, como ocorria antes do primeiro turno. Imagine então se a candidatura do PT dependesse apenas do prestígio pessoal de Lula, e os indicadores estivessem ruins.

Qualquer pessoa com um mínimo de informação e que se não se impressiona com o marketing de campanha, sabe que, não fossem uma série de medidas tomadas pelos governos anteriores, em especial de FHC, como o combate à inflação, a situação seria diferente.

Mas essa não é a percepção do eleitor. O fato objetivo e sentido no bolso é que não há registro de que, em algum momento da história do país, tenha se combinando, nesta intensidade, democracia, distribuição de renda, baixa inflação e desemprego em torno de 6%.

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Fonte1:http://armarinhodapolitica.blogspot.com/2010/10/colunista-da-folha-se-dobra-ao-sucesso.html
Fonte2:http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gilbertodimenstein/817952-o-maior-eleitor-de-dilma-nao-e-lula.shtml