sábado, 28 de março de 2009

Notícias Gerais
Jarbas na Veja: crepúsculo de um vira-casaca
Fonte: www.diap.org.br – 19/02/2009



Em entrevista à revista Veja, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB/PE) desanca seu partido ao dizer que "boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção", e promete se "empenhar" na campanha do governador tucano José Serra (SP) (Por Bernardo Joffily, no Vermelho)

Numa semana pré-carnavalesca, magra em novidades políticas, a entrevista do senador Jarbas Vasconcelos (PE) na revista Veja pautou os comentários em Brasília. Peemedebista há 43 anos, Jarbas diz ao repórter Otávio Cabral que "boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção", e promete se "empenhar" na campanha do tucano Serra. A entrevista deixa saudades do jovem deputado Jarbas Vasconcelos de décadas atrás, antes de virar a casaca. Já a realidade de Pernambuco mostra que ao se bandear ele fez um mau negócio.

O panfletário órgão político dos Civita dedicou ao mesmo tema o seu editorial. Este compara o "conjunto de revelações" de Jarbas com uma entrevista célebre, de 17 anos atrás, com Pedro Collor, que acendeu o rastilho que levaria ao impeachment de seu irmão Fernando Collor. Não chega a propor o impeachment de Lula, mas deixa explícita sua diretiva aos peemedebistas: "mudar seu comportamento".

A chapa dos sonhos: Serra-Jarbas
Fica a indagação: qual comportamento? À primeira vista, a corrupção, a começar pelo título da entrevista: "O PMDB é um partido corrupto". Mas neste caso, por que o entrevistado solta a grave - embora genérica - acusação em fevereiro de 2009, quando já lá vão 43 anos que assinou a ficha de filiação, e pelo menos há um quarto de século não faltam denúncias de corrupção contra peemedebistas ilustres?

Não, o "comportamento" que a Veja quer mudar nos peemedebistas é outro: é a aproximação com o governo Lula e as sinalizações de aliança com este mesmo campo nas eleições de 2010. E neste caso faz todo sentido escolher Jarbas Vasconcelos como o entrevistado.

Jarbas já foi o candidato a vice dos sonhos de José Serra na chapa presidencial de 2002; não deu certo. Mas na entrevista ele diz que "acredita muito" em Serra e "se empenhará" em sua campanha. Não faltou quem o relançasse como parceiro de chapa do governador paulista, na hoje improvável hipótese de uma reviravolta que atire o PMDB nos braços dos tucanos, como planeja também o ex-governador Orestes Quércia.

Água fria na fervura do PMDB
Quanto às acusações de corrupção, comparece, mais uma vez, como em todas as ocasiões em que a direita conservadora e reacionária precisa de um estandarte minimamente bom de voto. As denúncias são todas genéricas - esta foi a primeira e evidente linha de defesa dos próceres peemedebistas - e nem de longe se aproximam às de Pedro Collor. Porém servem como tentativa de constranger o PMDB à defensiva em seu momento mais confortável em 20 anos.

O partido elegeu no dia 2 os presidentes da Câmara e do Senado - este, José Sarney (AP), contra o voto de Jarbas, que por ironia apoiou o petista Tião Viana (AC). Nesta semana, abocanhou importantes presidências nas comissões das duas Casas do Congresso. Fez bonito nas eleições de outubro, elegendo mais de mil prefeitos. Não tem um nome para presidente em 2010, mas tornou-se a noiva cobiçada por todos, a começar pelo PT, que o corteja sem pudor enquanto esfria os contatos com seus também aliados do Bloco de Esquerda.

Só a fé ardente do editorialista da Veja pode levar à afirmação de que a entrevista com Jarbas "tem tudo para ser o motor de um profundo e histórico processo de limpeza da vida pública brasileira". Mas é fato que ela jogou água na fervura peemedebista num momento em que o grande partido de centro reforça suas posições na base do Governo Lula. O que basta para explicar o entusiasmo da revista.

Jarbas, quem te viu, quem te vê
Quanto a Jarbas Vasconcelos, deu com esta entrevista mais um passo para longe de suas posturas de juventude, quando atuou na como deputado e prefeito do Recife Ala Autêntica do MDB e no Bloco Popular do PMDB - tendências que aglutinavam os peemedebistas mais à esquerda. Já faz tempo que suas rebeldias e dissidências são todas pela direita.

Aparentemente a virada se produziu por volta da eleição de 1990, em que Jarbas perdeu o governo pernambucano para Joaquim Francisco, do PFL (hoje DEM). Depois disso, ele rompeu com Miguel Arraes, voltou à prefeitura do Recife vencendo Eduardo Campos, passou a alinhar o PMDB pernambucano com o PFL e o PSDB, nos planos local e nacional.

Numa primeira fase, a mudança de campo rendeu resultados: vivia-se o auge do Governo Fernando Henrique, em que ser vira-casaca era como um galardão. Mas os tempos mudaram. Hoje, Jarbas Vasconcelos em Pernambuco, como ACM Neto (DEM) na Bahia e Tasso Jereissati (PSDB), luta com enormes dificuldades para se manter à tona, diante da pequena revolução política que se produziu no Nordeste, com o Governo Lula e especialmente com as eleições de 2006.

O governador de Pernambuco é Eduardo Campos (PSB), neto de Miguel Arraes; na votação para o Palácio das Princesas, deixou o candidato de Jarbas, Raul Henry (PMDB), em terceiro lugar. No Recife (1,1 milhão de eleitores) o PT elegeu João Costa para a sua terceira gestão na Prefeitura. Em Olinda (290 mil eleitores) é Renildo Calheiros que encabeça a terceira gestão com o PCdoB à frente. Ao PMDB de Jarbas resta o consolo de participar da administração de Jaboatão (388 mil eleitores), cujo prefeito é o tucano Elias Gomes, eleito por uma coligação PSDB-PPS-DEM-PMDB.

Tiros na oposição: "Ninguém faz nada"
É patente na entrevista a amargura de Jarbas. Em nenhum momento ele se arrepende de ter virado a casaca, mas percebe que se deu mal.

Quando o repórter indaga "Por que o senhor continua no PMDB?" ele rebate com outra pergunta: "Se eu sair daqui irei para onde?" Sentencia que "a corrupção está impregnada em todos os partidos". Reclama que a oposição tem trinta senadores, mas "ninguém faz nada". E ainda concorda com o entrevistador que "o governo é medíocre e a oposição é medíocre": "Isso mesmo. A classe política hoje é totalmente medíocre", responde, agregando ainda que "não é só em Brasília", mas também prefeitos, vereadores, deputados estaduais.

A Veja publicou a entrevista na internet com acesso livre, e não apenas para assinantes como é o seu costume, em uma demonstração de seu entusiasmo por ela. O leitor atento, porém, saberá tirar dela outras conclusões que não as dos Civita.