sexta-feira, 16 de novembro de 2018

DINO: LULA FOI PRESO POR CAUSA DE UMA DEPLORÁVEL CONSPIRAÇÃO DE POLÍTICOS

16.11.2018
Do portal BRASIL247


"Getúlio, Juscelino e Lula foram grandes presidentes da República. Não foram perfeitos, pois obviamente ninguém é. Mas fizeram o país avançar. Minhas homenagens ao presidente Lula, preso não por seus erros, mas por uma deplorável conspiração de alguns políticos", afirmou o governador reeleito do Maranhão

Maranhão 247 - O governador reeleito do Maranhão, Flávio Dino, prestou uma homenagem ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Twitter.
"Getúlio, Juscelino e Lula foram grandes presidentes da República. Não foram perfeitos, pois obviamente ninguém é. Mas fizeram o país avançar. Minhas homenagens ao presidente Lula, preso não por seus erros, mas por uma deplorável conspiração de alguns políticos", escreveu o chefe do Executivo maranhense.
"Nosso programa é a defesa do Estado Social e Democrático de Direito, consagrado pela Constituição de 1988. Em torno dessa causa, desejamos uma ampla união patriótica e popular, a favor dos reais interesses do Brasil", acrescentou.
O ex-presidente foi condenado sem provas no processo do triplex em Guarujá (SP). De acordo com a acusação, Lula receberia um apartamento reformado da empreiteira OAS como propina de R$ 3,7 milhões em contrapartida de contratos na Petrobrás. Mas, ao apresentar a denúncia, em setembro de 2016, o procurador Henrique Pozzobon admitiu que não havia "prova cabal" de que Lula era o proprietário do imóvel.
O PT esclareceu que em 2005 a então esposa de Lula, Dona Marisa Letícia, tornou-se associada à Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo (Bancoop) e adquiriu uma cota em um edifício então chamado Mar Cantábrico, nome que seria mudado para Solaris, após a construtora adquirir o prédio. Como fez com cada cotista, a cooperativa separou um imóvel para a Marisa, diferente da unidade atribuída a Lula.
Também naquele ano, ex-primeira dama pagou R$ 20 mil de entrada e continuou a pagar as prestações do carnê até 2009, ano em que Bancoop passou por problemas financeiros e transferiu o imóvel para a construtora após autorização judicial. Em 2009, Marisa desistiu do apartamento e deixou de pagar as mensalidades da cota da Bancoop. O que já havia sido pago transformou-se em ativo para ser resgatado a qualquer momento.
Getúlio, Juscelino e Lula foram grandes presidentes da República. Não foram perfeitos, pois obviamente ninguém é. Mas fizeram o país avançar. Minhas homenagens ao presidente Lula, preso não por seus erros, mas por uma deplorável conspiração de alguns políticos.
1.000 pessoas estão falando sobre isso

Nosso programa é a defesa do Estado Social e Democrático de Direito, consagrado pela Constituição de 1988. Em torno dessa causa, desejamos uma ampla união patriótica e popular, a favor dos reais interesses do Brasil 🇧🇷
412 pessoas estão falando sobre isso
*****
Fonte:https://www.brasil247.com/pt/247/maranhao247/374920/Dino-Lula-foi-preso-por-causa-de-uma-deplor%C3%A1vel-conspira%C3%A7%C3%A3o-de-pol%C3%ADticos.htm

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Sem previdência pública, Chile tem suicídio recorde entre idosos com mais de 80 anos

12.11.2018
Do portal HORA DO POVO, 18.08.18
Por LEONARDO SEVERO

Apontada como modelo pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), a privatização da Previdência Social chilena, promovida pelo general Augusto Pinochet na década de 1980, continua vigente e cobrando um preço cada vez mais elevado. O colapso do sistema tem ganhado maior visibilidade nos últimos dias à medida que o arrocho no valor das pensões e aposentadorias se reflete no aumento do número de suicídios.
De acordo com o Estudo Estatísticas Vitais, do Ministério de Saúde e do Instituto Nacional de Estatísticas (INE), entre 2010 e 2015, 936 adultos maiores de 70 anos tiraram sua própria vida no período. O levantamento aponta que os maiores de 80 anos apresentam as maiores taxas de suicídio – 17,7 por cada 100 mil habitantes – seguido pelos segmentos de 70 a 79 anos, com uma taxa de 15,4, contra uma taxa média nacional de 10,2. Conforme o Centro de Estudos de Velhice e Envelhecimento, são índices mórbidos, que crescem ano e ano, e refletem a “mais alta taxa de suicídios da América Latina”.
Uma das autoras da pesquisa ministerial, Ana Paula Vieira, acadêmica de Gerontologia da Universidade Católica e presidenta da Fundação Míranos, avalia que muitos dos casos visam simplesmente acabar com o sofrimento causado, “por não encontrar os recursos para lidar com o que está passando em sua vida”.
O fato é que à medida que a idade avança e os recursos para o acompanhamento e o tratamento médico vão sendo reduzidos pela própria irracionalidade do projeto neoliberal de capitalização da Seguridade, os idosos passam a se sentir cada vez mais como um fardo para os seus familiares e entes queridos.
JORGE E ELSA
Entre tantos casos, ganhou notoriedade recentemente o do casal Jorge Olivares Castro (84) e Elsa Ayala Castro (89) que, após 55 anos, decidiu “partir juntos” para “não seguir molestando mais”. A evolução do câncer de Elsa, conjugada a uma primeira etapa de demência senil, faria com que tivesse de ser internada numa casa de repouso. O marido calculou que poderiam pagar, mas somente se somassem ambas as aposentadorias e vendessem a casa. Sem qualquer perspectiva, Jorge e Elsa decidiram abreviar suas vidas com dois disparos.
Infelizmente, diz a psicogeriatra Daniela González, “enfermidades que geram uma impossibilidade de serem enfrentadas economicamente acabam colocando o tema do suicídio como uma saída honrosa”.
Como ficou comprovado, o desmantelamento do Estado serviu tão somente para beneficiar as corporações privadas que assaltaram o sistema público de pensões e aposentadorias chileno sob o pretexto que era deficitário, (até nisso os ladrões e a grande mídia tupiniquins demonstram a mais completa falta de criatividade), por outro de capitalização administrado pelo “mercado”. A “justificativa” era de que assim seria resolvido o problema fiscal e se abririam as portas ao crescimento econômico. Assim, foram montadas as Administradoras de Fundos de Pensão (AFP), instituições financeiras privadas encarregadas de administrar os fundos e poupanças de pensões. O rendimento destes fundos, com base nas flutuações do “mercado”, determina a quantidade de dinheiro que cada pessoa acumulará quando chegar o momento da aposentadoria.
Desta forma, com a capitalização para fins de aposentadoria integralmente bancada pelo trabalhador, milhões de pessoas foram obrigadas a entregar 10% de seus salários a arapucas especulativas, sem haver nenhuma contribuição dos empregadores, nem do Estado. “Houve crises financeiras nas que perdemos todas as economias depositadas ao longo da vida, porque ficamos sujeitos aos vaivéns do mercado”, explicou Carolina Espinoza, dirigente da Confederação de Funcionários de Saúde Municipal (Confusam) e porta-voz da Coordenação “No Más AFP”..
 MULTINACIONAIS
Atualmente, das seis AFPs que atuam no Chile, cinco são controladas por empresas financeiras multinacionais: Principal Financial Group (EUA); Prudential Financial (EUA); MetLife (EUA); BTG Pactual (Brasil) e Grupo Sura (Colômbia), que administram fundos de 10 milhões de filiados. No total, são mais de US$ 170  bilhões aplicados no mercado de capitais especulativos, nas bolsas de Londres e Frankfurt, para serem repassados sob a forma de empréstimos usurários aos próprios trabalhadores.
O resultado prático deste mecanismo, assinala a Fundação Sol, entidade que estuda as condições de trabalho no país, é que a pensão média recebida por 90% dos aposentados chilenos é de pouco mais de 60% do salário mínimo, cada vez mais insuficiente para os gastos de um idoso.
“Como sociedade não podemos permitir que pessoas que construíram com tanto esforço este país estejam passando seus últimos anos na tristeza”, declarou o doutor José Aravena, diretor da Sociedade de Geriatria e Gerontologia do Chile, para quem os suicídios deveriam fazer “soar o alerta para a reflexão sobre como se está envelhecendo no país”. “Para ninguém é justo viver os últimos anos de sua vida sentindo-se triste ou com vontade de não seguir vivendo”, acrescentou, apontando a “dependência e a depressão” entre os principais fatores do suicídio em idosos.
*****
Fonte:https://horadopovo.org.br/sem-previdencia-publica-chile-tem-suicidio-recorde-entre-idosos-com-mais-de-80-anos/

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O namoro de Temer com Bolsonaro no "Caminho do Futuro"

12.11.2018
Do portal da Revista Carta Capital, 10.11.18
Por  André Barrocal 

Com processos criminais à sua espera em 2019, o atual presidente corteja o sucessor, que retribui

12534455-high.jpg
Recomenda-se observar o encanto do sedutor
Michel Temer passará a faixa presidencial a Jair Bolsonaro daqui a algumas semanas e então terá de encarar dois processos criminais na Justiça, um por corrupção, outro por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, ambos nascidos de delações friboianas.
No horizonte do emebista há mais duas acusações à vista, uma de enredo odebrechtiano, outra de raízes antigas e profundas no Porto de Santos. Se bem que estas dependem de Raquel Dodge não chegar à conclusão de que o padrinho de sua nomeação como PGR também merece aquela alcunha dada pela turma da Odebrecht ao tucano Geraldo Alckmin, “Santo”.
Diante desses rolos, a aposentadoria promete ser inglória para o mais impopular mandatário da história nacional. Em Brasília, há quem se pergunte se já haveria em alguma gaveta por aí um pedido de prisão preventiva de Temer a partir de janeiro. Mas, e se ele de algum modo puder contar com o futuro governo para salvar-se da forca?
Disposição para colaborar com o bolsonarismo Temer tem, como vários dos grupos apoiadores do impeachment de Dilma Rousseff que acabam de fracassar nas urnas, PSDB à frente, também têm. E, no caso de Temer, a reciprocidade está no ar.
Na quarta-feira 7, o ex-capitão reuniu-se no Palácio do Planalto com o presidente em fim de mandato. Em seguida, deu uma declaração enigmática ao lado de Temer. “Se preciso for, a partir do ano que vem, voltaremos a pedir que ele nos atenda. Porque tem muita coisa que continuará. O Brasil não pode se furtar do conhecimento daqueles que passaram pela Presidência, que será útil a todos nós.”
Será que Bolsonaro cogita ter Temer por perto? Seria um bom negócio para ambos. O atual governo bota seus aliados para aprovarem ainda este ano algo da reforma da Previdência, desejo do anunciado ministro bolsonarista da Economia, Paulo Guedes, que pede uma “prensa” no Congresso. Em troca, Temer contaria a partir de janeiro com, digamos, boa vontade governamental, quem sabe um foro privilegiado, para encarar a Justiça.
Como CartaCapital noticiou, um membro do comitê de campanha de Fernando Haddad foi alertado dois dias após o primeiro turno da eleição de que as principais peças do QG petista eram alvo de uma espionagem arquitetada por um ministro de Temer, o general de pijama Sérgio Etchegoyen, chefe do GSI. Essa vigilância tinha por objetivo ajudar Bolsonaro.
 Uma das recompensas do ex-capitão pela ajuda do GSI seria garantir algum tipo de salvo-conduto a Temer no futuro.
No meio da campanha, o presidente gravou dois vídeos desaforados contra Alckmin e um contra Haddad. O primeiro veio a público na véspera da facada em Bolsonaro. Os outros dois, horas antes do atentado. Em Brasília, há quem tenha visto aí um sinal de Temer a seus aliados: estamos com Bolsonaro. O MDB tinha um candidato, mas era de faz de conta, Henrique Meirelles, dono de apenas 1,2% dos votos válidos.
Conhecido o resultado final do segundo turno, um sorridente Temer despontou na tevê quase ao mesmo tempo que Bolsonaro. Ofereceu-se para tentar aprovar a reforma da Previdência e prometeu facilitar tudo na transição de governo.
A equipe bolsonarista da transição, umas 30 pessoas com salário de até 16 mil reais, foi nomeada na segunda-feira 5 pelo Planalto, com nomes indicados pelo time do presidente eleito. No grupo, nenhuma mulher. E um condenado em 2011 por estelionato, Julian Lemos, também acusado de bater em duas, na irmã e na ex-mulher, entre 2013 e 2016.
Lemos coordenou a campanha do ex-capitão no Nordeste. Após a mídia lembrar o currículo policial dele, o vice-presidente eleito, general de pijama Antonio Hamilton Mourão, disse que Lemos não estará no futuro governo. Ah, bom. E o que será que Mourão acha das mesuras de Bolsonaro com alguém como Temer?
No fim de 2017, o general dizia que o presidente só tinha escapado de ser afastado e processado no escândalo JBS/Friboi graças a um “balcão de negócios” no Congresso. Em fevereiro, defendeu que o Judiciário deveria “expurgar da vida pública” certos políticos, Temer incluído.
De lá para cá, a situação do emedebista piorou. No mês passado, o delegado Cleyber Malta Lopes, da Polícia Federal, concluiu investigações no setor portuário e incriminou Temer por corrupção, quadrilha e lavagem de dinheiro. Raquel Dodge, a PGR, tem de decidir se o denuncia à Justiça.
O inquérito da PF foi aberto para averiguar se um decreto de maio de 2017 com regras bondosas a empresas portuárias foi baixado pelo presidente em troca de grana recebida no passado. O delegado escarafunchou mais de 20 anos de ligações de Temer com duas companhias atuantes no Porto de Santos, Libra, cujos donos são financiadores de campanha de Temer, e Rodrimar, de um amigo do presidente, uma história conhecida dos leitores de CartaCapital.
Em 31 de outubro, dirigentes do Porto foram presos pela PF em uma operação contra fraudes em algumas licitações em tecnologia da informação, dragagem e consultoria. Entre os alvos, o presidente da Codesp, José Alex Botelho de Oliva, no cargo desde o fim de 2015 por indicação de emedebistas, e o diretor de relações com o mercado, Cleveland Sampaio Lofrano, escolhido por um fiel de Temer, Edinho Araújo, ex-ministro dos Portos.
Oliva foi do Ministério dos Transportes quando a pasta era comandada, no governo FHC (1995-2002), por Eliseu Padilha, atual chefe da Casa Civil de Temer. Padilha é outro encrencado nos tribunais. Quando perder o foro privilegiado garantido pelo cargo, responderá a juízes de primeira instância. Ou ele vai arrumar outro cargo com foro?
Na véspera da conversa entre o presidente atual e o eleito, Padilha comentava com interlocutores no Planalto que Temer tentará reassumir o comando do MDB para levar o partido a adotar, na gestão do ex-capitão, uma postura de independência colaborativa.
Na declaração ao lado do sucessor, Temer disse que, da parte do governo, a disposição desde já é de “colaborar intensamente”, não “uma colaboração apenas formal, mas uma colaboração verdadeira”. Ele até convidou Bolsonaro para ir com ele  em algumas viagens ao exterior.
Por exemplo: uma cúpula do G-20, o grupo das 20 maiores economias do mundo, marcada para o fim do mês na Argentina, o vizinho em crise devido ao neoliberalismo que caracterizou o governo Temer e que é a segunda pele de Paulo Guedes.
No pós-governo, segundo Padilha, Temer quer usar a influência sobre os emedebistas da Câmara dos Deputados, locus histórico de sua atuação política. Dele e de um velho sócio, Eduardo Cunha, deputado cassado em 2016 e corrupto condenado a 15 anos de prisão em 2017.
Bolsonaro e equipe dão sinais que sugerem que o ex-capitão irá valer-se de uns métodos cunhistas para montar a base governista na Câmara. O núcleo de apoio ao ex-capitão na Câmara é a Bancada do Boi, da Bala e da Bíblia, uma obra de Cunha.
A chamada bancada BBB saiu forte das urnas este ano, mesmo diante da renovação de 52% dos deputados na eleição. Além disso, Bolsonaro e seu principal negociador político, o deputado gáucho Onyx Lorenzoni, do DEM, anunciado como futuro chefe da Casa Civil, não querem negociar apoio com as cúpulas partidárias. Preferem pescar no varejo, outra metodologia cunhista.
A propósito, Rodrigo Maia, correligionário de Lorenzoni no DEM, gostaria de seguir no comando da Câmara em 2019. Paulo Guedes agradece. Maia é tão liberal quanto ele.
Bolsonaro e Cunha têm afinidades. O emedebista elegia-se pelo Rio, como o capitão da reserva. Na campanha de 2014, foi o terceiro deputado mais votado do estado e lamentou assim não ter tido uns votos a mais: “Tenho um forte eleitorado evangélico, que não me faltou. Mas perdi muitos votos para o Bolsonaro”.
No comando da Câmara, entre fevereiro de 2015 e maio de 2016, Cunha forçou a mão para levar adiante a redução da maioridade penal e o fim do estatuto do desarmamento, duas ideias caras ao bolsonarismo.
Estelionatário, agressos de duas mulheres, Lemos coordenou a campanha bolsonarista no Nordeste (Reprodução/Mídia Social)
Cunhismos e temerismos à parte, no dia da conversa entre Temer e Bolsonaro o MDB aprovou um documento interno facilitador do colaboracionismo com o presidente eleito. Intitula-se “O Caminho do Futuro”, uma espécie de versão atualizada daquela papelada que desde o início norteou o governo Temer e deu-lhe feições neoliberais, a “Ponte para o Futuro”.
“O resultado das eleições mostrou que a sociedade rejeitou quem se propôs a retroceder e fazer o caminho de volta ao passado. Foi, entre outras coisas, um claro veredicto sobre as políticas econômicas da era PT”, diz o texto. Exagero.
O bolsonarismo escondeu suas pretensões econômicas na campanha, devido à impopularidade delas. Guedes dizia que essa “não é uma eleição sobre economia, é sobre valores”. Claro, não ficaria bem dizer na eleição que Bolsonaro aprofundará o desmonte da legislação trabalhista iniciado por Temer. Há exato um ano, entrava em vigor a reforma trabalhista.
O governo prometia 2 milhões de vagas novas, mais até aqui surgiram 380 mil. Bolsonaro avisa que o IBGE tem de mudar o jeito de medir o desemprego, hoje em 12,5 milhões. E que vai acabar com o Ministério do Trabalho. Bem que Lorenzoni avisou: quem mandou as centrais sindicais pregarem o voto contra o ex-capitão?
Segundo o documento do MDB, os últimos 30 anos foram de crescimento econômico decepcionante. Nem parece que o partido apoiou todos os presidentes nesse período, com exceção de um hiato esquisito com Fernando Collor (1990-1992). E agora o MDB está pronto para aderir ao neoliberalismo radical do “Posto Ipiranga”, inimigo declarado dos rumos gerais do País nas últimas três décadas.
“Se o novo governo restaurar a confiança nos rumos da economia e aprofundar as reformas estruturais que sinalizem o ajuste fiscal de longo prazo, em pouco tempo os agentes privados voltarão a investir e o crescimento vai se acelerar", diz o documento. Estranho.
Leia também:

Com Temer, não faltou confiança dos agentes, entusiasmados com a ortodoxia da Fazenda e do Banco Central, com reforma trabalhista, com congelamento de gastos por 20 anos. Faltou foi crescimento, no ritmo de 1% em 2017 e 2018.
Para Guedes, os últimos 30 anos foram de hegemonia “social-democrata”, da “centro-esquerda”. Ou seja, ele acha a Constituição de 1988 progressista demais, uma cantilena antiga entre conservadores antipáticos à ideia de saúde universal e gratuita, de rede pública idem, de assistência social generosa com a maioria pobre.
Bolsonaro também é uma negação da “Constituição Cidadã”, nascida para enterrar a ditadura militar que o ex-capitão acha que matou e torturou pouco e para desenhar o tipo de sociedade que o País buscaria construir dali em diante. Seria Bolsonaro uma figura “inconstitucional”, devido ao que ele projeta com seus pontos de vista, flagrantemente contrários ao espírito de 1988?
Na terça-feira 6, ele participou de uma sessão solene no Congresso em alusão aos 30 anos da “Constituição Cidadã”, completados em outubro. Ouviu recados do presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, e de Raquel Dodge para que se cumpra a Constituição. E comentou que assim o fará: “Na democracia só há um norte, o da nossa Constituição”.
A grande sessão parlamentar para celebrar o aniversário da Constituição jogada ao lixo (Antonio Cruz/ABR)
Se na Câmara Temer é promessa de colaboracionismo do MDB com o futuro governo, no Senado é um pouco diferente. Reeleito para mais oito anos, o experiente Renan Calheiros trabalha para ser o presidente da Casa de novo e fazer dela um bunker de resistência ao bolsonarismo.
Presidente interino do MDB desde a licença de Temer, o senador não reeleito Romero Jucá tem dúvidas sobre se o governo Bolsonaro dará certo. “Vamos ter de avaliar lá na frente. Por isso é preciso ter calma, responsabilidade e posicionamentos claros”, disse, após divulgar o novo documento partidário.
O MDB continua com a maior bancada do Senado e quer fazer valer o direito de seguir no comando da Casa. Na quarta-feira 7, o presidente Eunício Oliveira, MDB do Ceará, surpreendeu e botou em votação o aumento de 33 mil para 39 mil no salário dos juízes do Supremo Tribunal Federal e da PGR. São aumentos que vão puxar reajustes similares de Norte a Sul para juízes e procuradores, com impacto estimado em uns 4 bilhões de reais por ano.
Bolsonaro estrilou. Em vão. A lei foi à sanção de Temer, que já tinha combinado o jogo com o STF. Agora os supremos juízes estão, digamos, mais à vontade para peitar o futuro presidente, aquele cujo filho caçula, Eduardo, o deputado federal mais votado da história do Brasil, acha que para fechar o STF bastam um soldado e um cabo.
Outro nome que desponta como candidato a presidente do Senado, um locus em que a resistência ao futuro governo tende a ser maior do que na Câmara, é o de Tasso Jereissatti, do PSDB do Ceará. No tucanato, parceiro do MDB no impeachment de Dilma e no fracasso eleitoral este ano, há grande afinidade neoliberal com Paulo Guedes e disposição para encampar a agenda econômica do futuro governo, como no caso da reforma da Previdência.
Arminio Fraga, chefe do programa econômico tucano em 2014, mandou uma proposta de reforma a Guedes recentemente. O problema dos tucanos são as questões morais e comportamentais do bolsonarismo, como a liberação das armas e a “guerra cultural” contra as universidades federais, por exemplo. É real o risco de o partido rachar. Uma briga a opor o maior vencedor tucano neste ano, João Doria Jr., eleito governador de São Paulo, contra figuras históricas do partido, como FHC e Tasso.
Doria Jr. vestiu o figurino “bolsodoria” já na campanha, sem dar bola para o candidato do partido a presidente, Alckmin. Em seu primeiro pronunciamento após eleito, comentou, em claro sinal de apoio ao ex-capitão: “A partir de 1° de janeiro, no meu PSDB, acabou o muro. Não tem mais muro. Este será o novo PSDB, um partido que tem lado”.
Na quarta-feira 7, ele foi a Brasília e repetiu a dose em um almoço com deputados federais tucanos e depois de um encontro com Bolsonaro. “Disse ao presidente que o PSDB de São Paulo não fica em cima do muro, tem lado. E o lado do PSDB de São Paulo é o Brasil.
No núcleo de apoio ao eleito, a Bancada da Bíblia, obra de Cunha, último à direita
Então, ele que conte com o nosso apoio.” “Se o PSDB apoiou o Temer, por que não apoiar o Bolsonaro, que será um governo mais novinho?”, pergunta um deputado tucano que não se reelegeu. Novinho, no caso, significa virgem do ponto de vista ético.
Doria Jr. tem sido estimulado a tomar o poder no PSDB. O presidente atual tucano é Alckmin, que em 2016 brigou por Doria Jr. com a velha guarda tucana, agora acha o pupilo um traidor e resolveu atuar contra a adesão ao futuro governo.
No Senado, corre que Tasso e o paulista José Serra vão deixar o PSDB na hipótese de o partido mergulhar de cabeça no bolsonarismo. Dias atrás, em Portugal, FHC comentou que o ex-capitão fará mal para a imagem do Brasil no exterior.
A reação nas redes sociais de um deputado tucano de apenas 36 anos, Fabio Souza, de Goiás, dá uma ideia da crise no ninho. Ele tachou o comentário do ex-presidente, de 87 anos, de “patético” e tascou: “Tenho respeito pelo FHC, mas não sabia do seu poder de futurologista”. É por essas e outras que The Economist decretou a morte política dos tucanos na eleição: “Muitos dos antigos apoiadores do PSDB mudaram para o agressivo nacionalismo conservador de Jair Bolsonaro”.
Aderir ao bolsonarismo, como fazem Temer e o PSDB que não fica em cima do muro, foi o jeito que a turma do impeachment derrotada nas urnas achou para se reinventar e permanecer no poder
*****
Fonte:https://www.cartacapital.com.br/revista/1029/o-namoro-de-temer-com-bolsonaro-no-caminho-do-futuro

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Foram os evangélicos que elegeram Bolsonaro?

09.11.2018
Do portal da Agência Carta Maior, 08.11.18
Por Alexandre Brasil Fonseca

(Reprodução/Youtube)

Não há dúvidas de que o voto evangélico desempenhou importante papel na vitória de Bolsonaro. Daí a afirmar de que a culpa ou o mérito recai sobre os evangélicos é um passo longo que ignora uma série de outros elementos da conjuntura que, felizmente, não é tão simples e dicotômica como algumas análises parecem desejar que fossem


Olhar os números e dados disponíveis sobre as eleições é um exercício que pode levar a inúmeras conclusões. Uma delas que têm aparecido em diferentes espaços é de que teriam sido os evangélicos os responsáveis pela vitória de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil. Esse tipo de afirmação certamente soa como música nos ouvidos de pastores como Silas Malafaia e Magno Malta. Se fosse possível definir um tipo ideal do eleitor de Bolsonarocertamente ele seria evangélico, mas também teria que ser homem, residir em Santa Catarina, com isso poderia ser luterano, mas provavelmente imagino que seja batista. Certamente seria branco com idade em torno dos 30 anos, escolaridade de nível superior e renda acima de 10 salários mínimos. Essa figura está longe de ser o evangélico médio que povoa nosso cotidiano.

O demógrafo José Eustáquio Diniz Alves comparou a votação dos candidatos e a relação entre a proporção de católicos e evangélicos nos Estados. Há pontos fora da curva, particularmente na Região Sul e de forma destacada em Santa Catarina, Estado em que Bolsonaro obteve a segunda maior votação percentual e onde a presença evangélica (20%) é menor do que a média nacional encontrada no Censo de 2010 (22%). Situação que somente ocorre em outros dez Estados. Neste caso é importante lembrar que o fato de haver alguma associação não implica, necessariamente, em uma causa, questão sinalizada pelo autor em alguns momentos de seu artigo.

Sobre a presença evangélica nos Estados é interessante notar, por exemplo, que no segundo Estado com maior percentual de evangélicos, o Espírito Santo (33,1%), aconteceu a derrota do Senador Magno Malta do PR, líder evangélico no parlamento, candidato à reeleição e bastante próximo ao presidente eleito. Já no Piauí, estado com menor percentual de evangélicos no Brasil (9,7%), aconteceu a reeleição da deputada federal Rejane Dias, evangélica e filiada ao PT.

Evangélicos se tornaram um ator político e eleitoral importante no Brasil recente, disso não há dúvida e várias candidaturas levaram isso em consideração seriamente. A principal delas foi a de Jair Bolsonaro. O presidente eleito tem dialogando com várias lideranças do seguimento evangélico desde que deu início à sua campanha há alguns anos atrás. Conversas que envolvem grupos evangélicos variados, indo muito além daqueles que já habitavam o universo político-eleitoral. Certamente há identificações e alguma convergência de opiniões, mas não se pode ignorar que também há um conjunto de ações intencionais que são direcionadas tendo em vista um determinado público.

Outros candidatos fizeram périplos similares com menor ou maior consistência e competência. Tivemos várias idas de Meirelles do MDB a eventos de evangélicos no tempo em que atuou como Ministro e depois como candidato. Alckmin do PSDB também buscou esta frente intensamente, incluindo lideranças evangélicas e políticas em sua grande coligação. Marina da Rede também fez reuniões e mesmo o PSOL contou com o apoio dos “Evangélicos com Boulos”. Provavelmente o candidato que tenha mais tardiamente considerado de forma mais efetiva este segmento tenha sido exatamente Fernando Haddad do PT que, somente, na segunda semana do segundo turno participou de uma reunião específica com pastores e lideranças evangélicas.

Olhar os resultados das pesquisas em relação à religião e a votação de Bolsonaro de fato impressiona. Os dados do IBOPE divulgados no dia 27 de outubro dão números um pouco mais modestos, talvez pela coleta de dados ter ocorrido posteriormente à do Datafolha (divulgado no dia 25 de outubro). Pela análise das duas é correto afirmar que entre os 42 milhões de eleitores evangélicos Bolsonaro obteve cerca de 20 milhões de votos e Haddad 10 milhões. Brancos, nulos e abstenções teriam ficado em torno de 12 milhões, o que representaria cerca de 67% dos votos válidos de evangélicos para Bolsonaro, enquanto Haddad teria recebido 33%. Também é importante sublinhar que pelos levantamentos feitos pelo IBOPE no decorrer do segundo turno a campanha de Haddad virou, entre evangélicos, um pouco mais de 2 milhões de votos.

A diferença de votos entre os evangélicos foi praticamente a mesma diferença final geral obtida entre os candidatos. Considerar que a totalidade desta diferença se explica pela religiãoé algo totalmente desprovido de sentido e razoabilidade. É preciso observar o percentual a mais que o candidato obteve nos vários estratos oferecidos pelas pesquisas. Foi entre evangélicos, mas também na Região Sul, entre pessoas com nível superior e com renda acima de 5 salários mínimos que houve uma maior adesão à candidatura de Bolsonaro, com percentuais significativamente mais altos do que os obtidos na média da população.

Concordo com a afirmação de Eustáquio de que o voto evangélico foi fundamental para a eleição de Jair Bolsonaro, sendo que considero que sua importância se deu mais por aspectos qualitativos do que quantitativos. Uma primeira questão a sublinhar é que ao final a rejeição à Bolsonaro no segmento evangélico permaneceu em patamares baixos (28%), inferiores à média geral de 39% na população. Ainda mais devido ao fato de que, na média geral, houve um “empate técnico” das rejeições dos candidatos na reta final da campanha.

Outro fator é que a campanha direcionada aos evangélicos em vários níveis, inclusive na pauta dos valores, favoreceu o avanço de Bolsonaro em um segmento populacional em que este grupo é mais presente. Falo aqui de pessoas com escolaridade de nível médio (34% são evangélicos) e renda entre 2 e 5 salários mínimos (32% são evangélicos), grupos em que a vitória de Bolsonaro se efetivou exatamente por terem votado de forma distinta do que votaram na eleição de 2014. Nestas eleições tanto entre os mais pobres o PT manteve a liderança, como também manteve o baixo desempenho entre os mais ricos, a diferença se deu nos segmentos médios, os quais acabaram por dar a vitória ao candidato do PSL.

Portanto, é importante sublinhar que a religião não explica isoladamente o não-voto no PT, faz parte e fundamenta uma narrativa, mas não é suficiente. O PT ainda aparece como o partido preferido entre os evangélicos, como também para o conjunto da sociedade, partido que mais elegeu governadores e deputados federais e que tem à sua frente o desafio de se recolocar como oposição após anos em que ocupou o lugar de vidraça.

Para se relativizar ainda mais uma possível determinação do voto evangélico é um salutar exercício pensar que existiram motivações variadas que levaram, por exemplo, a cerca de 30% de pessoas LGBTI a votarem em Bolsonaro ou a um pouco menos da metade de pretos e pardos a também tomarem essa decisão. Existem motivos que perpassam a sociedade como um todo e que envolvem diversos segmentos. Nas análises é preciso incluir a associação com a crise por que passa o país e que é relacionada à questão da corrupção e às gestões do PT, por um lado e, por outro lado, que demarcam a identificação construída pela campanha de Bolsonaro de que este seria resposta para e negação da “velha política”. Neste sentido o resultado pífio de partidos históricos como PSDB e MDB - mesmo com recursos financeiros, estrutura e tempo de TV – são sintomáticos. Também há uma situação de grave insegurança pública que afeta o conjunto da população brasileira de forma emblemática. Ter um discurso enfático sobre essa questão foi uma das bandeiras de Bolsonaro e deve fazer parte do repertório de explicações que buscam compreender as motivações para o voto no candidato.

Lembro do título de um livro organizado pelo professor Wilson Gomes diante dos holofotes que foram direcionados para o neopentecostalismo no final do século passado. Ao propor uma abordagem analítica e crítica sobre os fenômenos que vinham ocorrendo e que recebiam um conjunto de afirmações preconceituosas o autor afirmou que era importante ter em mente que os neopentecostais não representavam “nem anjos, nem demônios”.

Ao pensar no resultado eleitoral de 2018 penso ser temerário parabenizar lideranças evangélicas em relação à vitória do Bolsonaro, como também – a depender do gosto do freguês – apontar o dedo para o segmento afirmando ser este o “culpado” por esta vitória. A complexidade de fatores e as multivariadas explicações envolvidas não nos permitem ir tão longe. Ainda lembrando do texto de Gomes, penso ser possível afirmar sim uma “eficiência comunicativa” da campanha de Bolsonaro em relação aos evangélicos, grupo que reúne expressivo segmento populacional com significativa organicidade. E isto envolve tanto uma estratégia, mas passa também por convicções e pelo compartilhamento de visões de mundo e valores. Aqui é importante lembrar da necessidade e da importância de uma candidatura ter verossimilhança na campanha eleitoral, elemento que esteve muito presente em Bolsonaro e que foi pouco percebido, por exemplo, na campanha de Alckmin.

Questão que não ficou somente no discurso, mas que tem se manifestado concretamente em atos que reafirmam e reforçam o compromisso de Bolsonaro para com este grupo de eleitores. Situação que passa tanto pela escolha de seu lema de campanha, mas que também inclui ida a cultos, encontros com religiosos e mesmo a oração antes do seu primeiro discurso. Concretamente também temos entre os nomeados na equipe de transição a presença de, pelo menos, três lideranças ligadas ao mundo evangélico com perfis distintos que dão bem a dimensão de como Bolsonaro tem atuado junto a amplos segmentos evangélicos, grupo que envolvem diferentes realidades, mas que se convencionou chamar de uma coisa só.

O principal articulador político de Bolsonaro e futuro Ministro da Casa Civil, o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), é membro da Igreja Evangélica Luterana do Brasil e na internet é possível encontrar fotos de reuniões em que ele presta contas de seu mandato à Diretoria da denominação. Também há o Procurador da Fazenda e pastor da Igreja Cidade Viva Sérgio Queiroz, sua comunidade tem origem na Primeira Igreja Batista de João Pessoa e tem perfil de classe média e alta, possuindo Queiroz doutorado em teologia. O outro evangélico é Pablo Tatim, advogado que é membro da Diretoria e procurador da Igreja Assembleia de Deus Ministério da Restauração.Tatim foi chefe de gabinete do Ministro do Trabalho Ronaldo Nogueira, de quem era assessor parlamentar em seu mandado como deputado federal pelo RS. Atualmente desempenha o papel de Secretário Executivo do Ministério da Secretaria-Geral da Presidência, pasta que tem o deputado federal pelo DF Ronaldo Fonseca à frente. Além da relação com Tatim, tanto Nogueira como Fonseca têm em comum o fato de serem pastores da Assembleia de Deus e de não terem sido reeleitos.

A democracia prevê a participação social dos cidadãos e cidadãs de um país nos processos decisórios, neste sentido hoje se impõe aos partidos políticos considerar e promover discussões que tenham no horizonte as diferentes gramáticas e narrativas existentes na sociedade. Em relação aos evangélicos há uma enorme diversidade e fortes estruturas econômicas que envolvem empresas diversas que atuam junto ao segmento. Porém também há grupos e pessoas identificadas com a religião e que estão envolvidas em diferentes movimentos sociais, sejam de sem-terra; sem teto; de promoção e defesa dos Direitos Humanos, entre tantos outros. As esquerdas não podem cair no equívoco de crer que há uma indesejável divisão do Brasil entre “nós e eles” que coloca os evangélicos todos somente de um lado. Muitos pastores gostam de repetir e defender isto, mas como já pregou o, já aqui citado, Pastor Sérgio Queiroz é possível encontrar entre os primeiros e diretos assessores-discípulos de Jesus representantes tanto da extrema direita com da extrema esquerda daquela época. A diversidade e adescentralização são características centrais da comunidade evangélica, entender isso é um primeiro passo para quem tenha real interesse em estabelecer diálogo.

Afirmar uma “culpa evangélica” na eleição de Bolsonaro interessa especialmente àqueles que estão ao lado do presidente eleito e que empenharam tempo e recursos em apoio a ele. Pelos dados do IBOPE do dia 27 de outubro, pode-se afirmar, por exemplo, que percentualmente o desempenho de Bolsonaro foi mais significativo entre pessoas residentes na Região Sul e entre pessoas com renda superior a 5 salários mínimos. Se olharmos para a questão quantitativa, considerando quantos votos a mais da média da população que ele obteve em determinados segmentos, temos que entre pessoas que se declararam brancas e entre homens ele teve o volume mais significativo de votos. Nos dois casos, tanto no quantitativo de votos como no percentual, o segmento evangélico aparece na terceira posição.

Não há dúvidas de que o voto evangélico desempenhou importante papel na vitória de Bolsonaro, especialmente por sua capacidade em atingir setores que na última eleição votaram mais na candidatura do PT à Presidência. A campanha de Bolsonaro assumiu tanto no discurso como em atos práticos uma preferência para com este segmento. Daí a afirmar de que a culpa ou o mérito recai sobre os evangélicosé um passo longo que ignora uma série de outros elementos da conjuntura que, felizmente, não é tão simples e dicotômica como algumas análises parecem desejar que fossem.

Afirmar que a responsabilidade da vitória de Bolsonaro foi dos evangélicos pode ser cômodo e até mesmo prático, mas está longe de ser útil enquanto análise social e penso que seja ainda menos útil para a reflexão daqueles que foram às urnas com livros nas mãos. Vaticinar essa responsabilidade ignora uma série de anseios e desejos que povoaram expressiva parcela da população e desconsidera uma campanha que utilizou na sua narrativa um conjunto de informações relacionadas a valores, os quais – é preciso sublinhar pelo pitoresco que representa – se consolidaram a partir de uma estrutura de difusão de mentiras.

Entender o voto em Bolsonaro, passa por considerar estes elementos, mas também considerar a adesão consciente e os desejos e respostas que esta candidatura materializou, alcançando, entre tantos outros, uma significativa parcela dos evangélicos. Grupo que, curiosamente, já foi identificado – antes da chegada dos smartphones – exatamente como o “povo do Livro”.

Alexandre Brasil Fonseca é sociólogo, professor associado da UFRJ e doutor em sociologia pela USP com pós-doutorado pela Universidade de Barcelona. É autor de “Evangélicos e Mídia no Brasil” e de “Relações e Privilégios: Estado, secularização e diversidade religiosa no Brasil”.

*Republicado a partir do site da IHU On-Line


******
Fonte:https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Foram-os-evangelicos-que-elegeram-Bolsonaro-/4/42327